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Êxodo 21:32

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 19 min de leitura·👁 27 acessos
Se o boi chifrar um escravo ou uma escrava, o dono dará ao senhor deles trinta siclos de prata, e o boi será apedrejado.
Num pátio de pedra de uma aldeia antiga, um homem pesa prata numa balança de dois pratos diante de outro de braços cruzados, enquanto ao fundo, junto a um muro, uma mulher e uma criança choram ao lado de um corpo coberto por um pano.

Estudo


Se o boi chifrar um escravo ou uma escrava, o dono dará ao senhor deles trinta siclos de prata, e o boi será apedrejado.

1. Introdução

O boi mata um escravo ou uma escrava. O dono do boi paga trinta siclos de prata ao senhor do morto, e o boi é apedrejado. Duas coisas chamam a atenção: o valor é fixo, qualquer que fosse o escravo, e vai para o senhor, não para a família de quem morreu. Ao mesmo tempo, o boi morre pelo escravo exatamente como morreria por um livre. O versículo põe lado a lado a pessoa e a mercadoria, e a tradição discutiu desde cedo qual das duas a lei tinha em vista.

2. Contexto Histórico e Cultural

Quanto eram trinta siclos

O siclo não era moeda, era peso: cerca de onze gramas e meio de prata, pesados na balança. Trinta siclos, portanto, eram uns trezentos e quarenta gramas de prata. A história do preço dos escravos no Oriente antigo, e a observação de que trinta siclos correspondem ao preço corrente na segunda metade do segundo milênio a.C., estão no estudo de Gênesis 37:28.

Os rabinos converteram o valor para o seu tempo. Para a Mishná (a compilação da lei oral judaica fechada por volta do ano 200), o "siclo" da Torá equivale ao sela, a moeda de prata de quatro denários, e é por isso que ela fala em "trinta sela". Rashi (o comentarista judeu mais lido da Idade Média, que viveu em Troyes, na França, no século XI) converteu outra vez, para os leitores dele: o siclo pesa meia onça "pelo peso de Colônia", o padrão de peso usado nas feiras da região do Reno. A mesma frase da Torá foi medida em três sistemas de pesos ao longo de dois mil anos.

Roma: o escravo avaliado como gado

O direito romano resolveu o mesmo caso de outro modo. A lei Aquília, do século III a.C., no seu primeiro capítulo, mandava que quem matasse sem direito o escravo de outro, ou um animal de rebanho de outro, pagasse ao dono o valor mais alto que aquele escravo ou animal tivesse tido no último ano. O jurista Gaio (manual de direito romano do século II, as Instituições, III.210-214) comenta a regra e dá exemplos: se o escravo era um ator famoso ou um copista habilidoso, o valor sobe com o talento; se o dono perdeu, com a morte dele, uma herança que o escravo ia receber, a perda entra na conta.

Duas coisas separam Roma do Êxodo. Em Roma, o escravo e a vaca estão na mesma frase da lei, e a morte de ambos é avaliada do mesmo modo, pelo preço de mercado. E o preço acompanha o escravo concreto: um escravo raro vale muito, um velho doente vale pouco. O Êxodo põe o escravo depois do homem livre, na sequência das vítimas humanas do boi, e fixa uma quantia que não acompanha o mercado.

O valor fixo na lei judaica

A Mishná (Bava Kamma 4:5) torna explícito o que o versículo supõe: o dono do boi paga trinta sela pelo escravo, valesse ele cem minas ou um único denário. Uma mina valia cem denários; a diferença entre os dois extremos é de dez mil vezes. A lei ignora essa diferença de propósito.

Sforno (Ovadia Sforno, rabino e médico italiano do século XVI) propôs uma explicação para o número. Trinta siclos é o valor que Levítico 27:4 atribui a uma mulher adulta, entre vinte e sessenta anos, quando alguém consagra uma pessoa ao templo. Para Sforno, o escravo estrangeiro e a mulher israelita estão no mesmo plano em certas obrigações da Torá, e a lei lhes dá o mesmo valor. É uma leitura engenhosa, mas só uma hipótese; o texto do Êxodo não remete ao Levítico.

3. Análise Teológica do Versículo

"Se o boi chifrar um escravo ou uma escrava"

A lista de vítimas do boi termina aqui: homem, mulher, filho, filha, escravo, escrava. Ibn Ezra (comentarista judeu da Espanha do século XII) faz uma observação de estrutura que muda a leitura do trecho. Para ele, todo o bloco do boi, do versículo 28 ao 31, foi escrito por causa deste versículo. O capítulo vinha tratando de escravos feridos pelo senhor (versículos 20, 21, 26 e 27) e quis chegar ao escravo morto por um boi; mas, antes, precisou fixar a lei do boi que mata um israelita livre, para depois dizer o que muda quando a vítima é escrava.

A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico antigo ao Êxodo, do século III, tratado Nezikin ("Danos"), seção 11) diz que o escravo e a escrava já estavam incluídos em "um homem ou uma mulher" do versículo 29, e que o texto os separou "para a leniência e para a severidade". Leniência: se o escravo valia cem minas, o dono do boi paga só trinta. Severidade: se valia um denário, paga trinta. A quantia fixa protege o dono do boi quando o escravo é caro e protege o escravo, ou melhor, o seu senhor, quando o escravo é barato.

De que escravo se trata? A Mekhilta responde pelo destino do dinheiro: o texto diz "ao senhor deles", e, se fosse um israelita, o dinheiro iria para os herdeiros. Logo, é o escravo estrangeiro. E acrescenta: homem ou mulher, a quantia é a mesma.

Rashbam (Rabi Shmuel ben Meir, neto de Rashi, comentarista francês do século XII) e a Mekhilta entendem que a regra vale só para o boi já avisado. Pelo boi inocente, o dono não paga nada pelo escravo; só perde o boi. No Talmude (Bava Kamma 44b), Rabi Shimon ben Lakish acrescenta: se o boi matou o escravo sem intenção de matar uma pessoa, o dono também não paga, porque o versículo liga o pagamento ao apedrejamento ("dará… e o boi será apedrejado"), e um boi que não quis atingir uma pessoa não é apedrejado.

"o dono dará ao senhor deles trinta siclos de prata"

O dinheiro vai para o senhor, e o senhor é chamado de "senhor deles", do escravo e da escrava. A família do escravo morto, se a tinha, não recebe nada. A morte é tratada, nesse ponto, como perda patrimonial de outro homem.

Por que a quantia é fixa? Rashi responde com a fórmula rabínica para o que a Torá não explica: é um decreto da Escritura. Os intérpretes depois dele propuseram três razões, que apontam em direções opostas.

Primeira leitura: a quantia fixa protege a vida do escravo. Se o valor fosse o de mercado, a morte de um escravo velho ou doente quase não custaria nada, e o dono do boi teria pouco motivo para guardá-lo perto deles. Com o valor fixo, toda morte de escravo custa o mesmo. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) lê o versículo nessa linha.

Segunda leitura: a quantia fixa limita a responsabilidade do dono do boi. Pela vida de um livre, o resgate do versículo 30 era "tudo o que lhe for imposto", sem teto; pela do escravo, o máximo é trinta. O escravo, nesse sentido, é a única vítima humana cuja morte tem preço tabelado.

Terceira leitura: o valor fixo tira o escravo do mercado na hora da morte. O Talmude (Makkot 2b) diz que, na leitura que mede o resgate pelo valor da vítima livre, ela era avaliada pelo que valeria se fosse vendida como escrava. O resultado é um paradoxo: o livre morto é medido pelo mercado de escravos, e o escravo morto, não. A morte do escravo, na lei, tem o mesmo valor para todos os escravos, como se todos fossem iguais nesse ponto.

Rabi Akiva, no Talmude (Bava Kamma 42b-43a), percebe a terceira consequência e a enuncia: a Torá é, num aspecto, mais severa no caso do escravo do que no do livre. Pelo livre que valia um sela paga-se um sela; pelo escravo que valia um, paga-se trinta. A lei do escravo, por ser tabelada, pode valer mais que a do homem livre pobre.

As três leituras são possíveis, e talvez a lei quisesse as três coisas. O que não se pode fazer é escolher só a primeira e dizer que o versículo trata o escravo como igual ao livre: o dinheiro vai para o senhor, e é chamado de pagamento, não de resgate.

"e o boi será apedrejado"

A última palavra do versículo devolve o escravo à categoria de pessoa. O boi que mata um escravo morre da mesma morte que o boi que mata um livre. Nas coleções de leis da Mesopotâmia que tratam do boi que mata, o boi não é morto em caso nenhum, e muito menos por um escravo.

A Mekhilta explica por que a frase precisava ser dita. O senhor que mata o próprio escravo é tratado de modo diferente de quem mata o escravo de outro, porque o versículo 21 dá ao senhor o caso do "um ou dois dias". Alguém poderia pensar que o mesmo valeria para o boi: o boi do senhor que matou o escravo do próprio senhor seria poupado. O versículo diz que não. Qualquer que seja o dono do boi e qualquer que seja o senhor do escravo, o boi é apedrejado. No que diz respeito ao boi, a morte do escravo é morte de gente.

O escravo em três casos

Postos em sequência, os versículos do capítulo sobre a morte e o ferimento do escravo desenham um quadro que nenhum deles mostra sozinho. Quando o próprio senhor mata o escravo com a vara, o texto diz que "será vingado" (Êxodo 21:20): a morte é crime, e o senhor responde por ela. Quando o senhor o mutila, o escravo sai livre (Êxodo 21:26-27): o dano é reparado ao próprio escravo. Quando o boi de outro o mata, o dinheiro vai para o senhor: a morte vira perda de patrimônio. O mesmo escravo é vítima de crime, credor de reparação e objeto de indenização, conforme quem o atinge. A lei não tem uma única visão do escravo; tem três, e as três estão no mesmo capítulo.

O limite

O versículo não fala de resgate para o dono do boi avisado que matou um escravo, e os rabinos entenderam que não há: os trinta siclos substituem tudo. Não fala de culpa moral do dono, nem diante de Deus. E não diz o que acontece à família do escravo morto. O texto é o que é: uma lei de uma sociedade escravista, que reconhece no escravo uma pessoa diante do boi e uma propriedade diante do dinheiro.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O escravo e a escrava

Estrangeiros, segundo a Mekhilta, mortos por um boi alheio. São as últimas vítimas da lista e as únicas cuja morte tem valor escrito.

O senhor deles

Quem recebe os trinta siclos. O hebraico usa uma forma plural de "senhor" com sentido singular, comum quando a palavra designa dono.

O dono do boi

Quem paga. Pela leitura rabínica, só se o boi era avisado.

Os mestres

Rabi Akiva, mestre da terra de Israel do início do século II, que viu a severidade escondida no valor fixo. Rabi Shimon ben Lakish, chamado Resh Lakish, mestre de Tiberíades do século III. Rashbam, neto de Rashi. Ovadia Sforno, de Bolonha.

A lei Aquília

Lei romana votada provavelmente em 286 a.C., que regulou os danos à propriedade alheia durante séculos e deu nome, até hoje, à responsabilidade civil por dano, chamada pelos juristas de "responsabilidade aquiliana".

5. Pontos de Ensino

1. O escravo é pessoa diante do boi. O boi que o mata é apedrejado como o que mata um livre. Nesse ponto, a lei não distingue.

2. O escravo é propriedade diante do dinheiro. O pagamento vai para o senhor, e tem valor fixo. O texto não esconde que o escravo tinha preço.

3. O valor fixo corta nos dois sentidos. Protege o escravo barato e limita a indenização pelo caro. Não é possível decidir qual das duas coisas a lei queria mais.

4. A família do escravo não aparece. A morte é perda do senhor. Essa ausência é parte do que o texto ensina sobre a escravidão que ele regula.

5. O bloco do boi termina no escravo. Pela observação de Ibn Ezra, a sequência inteira foi escrita para chegar aqui. O código não esquece o escravo no fim da lista.

6. Aspectos Filosóficos

O homem que vira moeda

Achille Mbembe (filósofo e historiador camaronês, nascido em 1957, professor em Joanesburgo) publicou em 2013 a Crítica da razão negra, um livro sobre como o tráfico atlântico e o colonialismo produziram a figura do "negro" como categoria. Uma das ideias centrais do livro é que, no comércio de escravos do Atlântico, o ser humano africano foi transformado em três coisas ao mesmo tempo: homem-objeto, homem-mercadoria e homem-moeda. Objeto, porque podia ser possuído; mercadoria, porque podia ser vendido; moeda, porque servia de meio de troca e de medida de valor. Nos portos da costa africana, escravos eram contados em "peças" e trocados por tecidos, armas e aguardente segundo tabelas.

A ideia do homem-moeda é a mais perturbadora, e é ela que toca o versículo. A moeda não tem valor próprio: vale o que a tabela diz que vale. Quando a lei fixa que todo escravo morto vale trinta siclos, valesse ele cem minas ou um denário, ela faz exatamente isso: retira do escravo o valor individual e lhe dá um valor de tabela. Ele se torna uma unidade, como uma moeda de um padrão conhecido.

O que o versículo faz e o que não faz

A leitura de Mbembe obriga a ver o que a leitura piedosa costuma esconder. Os trinta siclos não são um elogio ao escravo; são o seu preço, pago a outro homem. A família não entra na conta. A pessoa morta é tratada, no plano do dinheiro, como unidade intercambiável.

Mas a comparação tem limites que precisam ser ditos com a mesma clareza. Mbembe escreve sobre a escravidão moderna e racial, que fez da cor da pele a marca da condição servil e produziu uma ideologia inteira de inferioridade. O escravo do Êxodo era estrangeiro, comprado ou nascido na casa, mas não era definido por raça, e a Torá prevê a sua circuncisão, a sua participação na Páscoa (Êxodo 12:44) e o seu descanso no sábado. E o versículo termina com uma frase que nenhuma tabela de tráfico teria: o boi que matou o escravo morre apedrejado, como morreria se tivesse matado um livre. Aí o escravo deixa de ser moeda e volta a ser gente.

A vida mantida em estado de ferida

Num ensaio anterior, "Necropolítica" (2003), Mbembe descreveu a condição do escravo na plantação como a de alguém que é mantido vivo, porque vivo tem valor, mas em estado de ferida permanente. O senhor não tem interesse em que o escravo morra; tem interesse em que ele trabalhe, e a violência é dosada para isso. Lido ao lado dessa descrição, o conjunto das leis de Êxodo 21 sobre o escravo — a vara que não mata, o olho e o dente, o boi — é uma regulação da ferida: diz até onde ela pode ir e o que custa quando passa do ponto. O versículo 32 é o último degrau, aquele em que o escravo já não pode ser ferido, e a lei só se ocupa do valor que se perdeu.

A tensão que fica

Mbembe diria que reconhecer a humanidade de alguém num ponto e negá-la em outro é justamente o funcionamento da razão escravista: o escravo é humano o bastante para trabalhar, obedecer e ser punido, e coisa o bastante para ser vendido. O versículo contém as duas metades. Lido com Mbembe, ele não absolve a escravidão que regula; lido sem Mbembe, corre o risco de ser usado para suavizá-la.

7. Aplicações Práticas

Desconfiar das tabelas que medem pessoas

O versículo mostra uma vida reduzida a uma quantia fixa. Toda vez que uma instituição trata pessoas como unidades intercambiáveis — num cálculo de indenização, numa planilha de cortes, num sistema que paga por "cabeça" —, a pergunta que o texto deixa é se a família e a pessoa concreta entraram na conta.

Reconhecer a humanidade inteira, não pela metade

A lei reconhece o escravo como gente quando apedreja o boi e o trata como bem quando paga ao senhor. Quem lê o texto hoje pode aprender com a primeira metade sem justificar a segunda.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que trinta, e não outro número?

Não se sabe. Pode ser o preço médio de um escravo na época em que a lei se fixou, como sugerem os dados do estudo de Gênesis 37:28; pode ser um valor simbólico; Sforno o ligou ao valor da mulher em Levítico 27:4. O texto não explica, e Rashi chama a regra de decreto da Escritura.

O escravo hebreu também valia trinta siclos?

Pela Mekhilta, não: o versículo trata do estrangeiro, e o hebreu, morto por um boi, seria tratado como um livre, com o resgate pago aos herdeiros.

O dono do boi avisado que matou um escravo podia ser condenado à morte?

Pela leitura rabínica, não: os trinta siclos substituem a sentença do versículo 29. A diferença é uma das cinco que a Mekhilta lista entre o boi inocente e o avisado.

Quem decidia que o morto era escravo?

O texto não diz. Numa sociedade em que havia escravos por dívida, estrangeiros comprados e libertos, a condição da vítima podia ser disputada, e o valor dependia dela.

9. Conexão com Outros Textos

O mesmo senhor, a mesma palavra

Êxodo 21:21 — "Mas, se sobreviver um ou dois dias, não será vingado, porque é dinheiro dele."

O versículo que a Mekhilta usa para explicar por que o apedrejamento do boi precisava ser dito também aqui.

O preço de José

Gênesis 37:28 — "Quando os mercadores midianitas passaram, os irmãos puxaram José para fora da cisterna e o venderam aos ismaelitas por vinte peças de prata; e estes levaram José ao Egito."

O outro preço de pessoa em prata da Torá, num contrato de venda, e não numa indenização.

O valor da pessoa consagrada

Levítico 27:4 — "Se for mulher, a sua avaliação será de trinta siclos."

O número que Sforno pôs ao lado do nosso.

Os trinta siclos do profeta

Zacarias 11:12-13 — "Eu lhes disse: 'Se lhes parece bem, deem-me o meu salário; se não, deixem.' E eles pesaram o meu salário: trinta siclos de prata. Então o SENHOR me disse: 'Lance isso ao oleiro, esse belo preço em que fui avaliado por eles.'"

O pastor despedido recebe o valor de um escravo morto, e a ironia de "esse belo preço" depende do nosso versículo.

Mateus 26:15 — "e disse: 'O que vocês me dão, e eu o entregarei a vocês?' E eles lhe pesaram trinta moedas de prata."

Mateus retoma a quantia de Zacarias. A ligação entre as três passagens está desenvolvida no estudo de Gênesis 37:28.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Se o boi chifrar um escravo ou uma escrava, o dono dará ao senhor deles trinta siclos de prata, e o boi será apedrejado.

Texto hebraico

אִם־עֶבֶד יִגַּח הַשּׁוֹר אוֹ אָמָה כֶּסֶף ׀ שְׁלֹשִׁים שְׁקָלִים יִתֵּן לַֽאדֹנָיו וְהַשּׁוֹר יִסָּקֵֽל׃

Transliteração

im-eved yiggach ha-shor o amah kesef sheloshim sheqalim yitten la-adonav ve-ha-shor yissaqel.

Análise palavra por palavra

אִם — im, "se". A conjunção das variantes: o escravo é mais um caso dentro da lei do boi.

עֶבֶד … אָמָה — eved… amah, "um escravo… uma escrava". As duas palavras estão separadas pelo verbo e pelo sujeito; a ordem hebraica é "se escravo — chifrar o boi — ou escrava". A vítima vem antes do verbo e do boi, como já fazia o versículo 31 com o filho e a filha. Diferente dos versículos 26 e 27, não há possessivo: não é "o seu escravo", é um escravo de qualquer um.

יִגַּח הַשּׁוֹר — yiggach ha-shor, "o boi chifrar". Aqui o boi tem artigo: é "o boi", o mesmo da lei que vem sendo exposta, e não "um boi" qualquer, como no versículo 28.

כֶּסֶף ׀ שְׁלֹשִׁים שְׁקָלִים — kesef sheloshim sheqalim, "prata, trinta siclos". Kesef, "prata", vem primeiro, fora da ordem comum, que seria "trinta siclos de prata". No texto massorético há entre kesef e sheloshim um traço vertical, o paseq, que na leitura cantada marca uma pequena pausa. A pausa isola a palavra "prata" e a faz soar sozinha antes do número. Sheqel vem do verbo shaqal, "pesar": o siclo é, pelo nome, "o que se pesa".

יִתֵּן — yitten, "dará". Do verbo natan, "dar", no Qal. O sujeito não é nomeado; é o dono do boi, subentendido.

לַאדֹנָיו — la-adonav, "ao senhor dele". Adon, "senhor", numa forma plural com sufixo singular. É o mesmo fenômeno de be'alav no versículo 29: o hebraico usa o plural de palavras de domínio para designar um único dono. O sufixo "dele" concorda com o escravo, mas o versículo nomeou também a escrava; a ABC traduz "ao senhor deles" para cobrir os dois.

וְהַשּׁוֹר יִסָּקֵל — ve-ha-shor yissaqel, "e o boi será apedrejado". O versículo termina com a mesma forma verbal do versículo 29, e com isso fecha a lei do boi que mata gente. No texto hebraico tradicional, segue-se um espaço de separação do tipo "fechado" (o texto continua na mesma linha, depois de um intervalo), e o caso seguinte é o da cova.

A Septuaginta

A tradução grega não fala em siclos: diz "trinta didracmas de prata". A didracma era a moeda grega de duas dracmas, e os tradutores, no Egito ptolemaico, usaram a moeda que equivalia ao siclo no sistema deles. Chama o escravo de pais, "menino", palavra grega que servia tanto para criança quanto para servo, e a escrava de paidiske, "menina, serva".

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões. A primeira: a lei do boi trata o escravo como pessoa no que diz respeito ao animal, porque o boi que o mata morre como o que mata um livre, e nesse ponto não há diferença de classe. A segunda: a mesma lei trata o escravo como bem no que diz respeito ao dinheiro, porque o pagamento vai para o senhor e tem valor de tabela, sem lugar para a família do morto. A terceira: o valor fixo não se deixa reduzir a uma só intenção — protege, limita e iguala ao mesmo tempo —, e é isso que faz do versículo um retrato fiel da escravidão que ele regula: humana em parte, mercadoria em parte, e sem que o texto resolva a contradição.

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