Mas, se sobreviver um ou dois dias, não será vingado, porque é dinheiro dele.
1. Introdução
Logo depois de dizer que a morte do escravo será vingada, a lei abre uma exceção: se o escravo ferido sobreviver um ou dois dias e só depois morrer, o senhor não será punido. A razão vem em quatro palavras hebraicas, que a ABC traduz ao pé da letra: "porque é dinheiro dele". O versículo foi lido como presunção de que o senhor não quis matar, como sinal de que a perda do escravo já é castigo bastante e como definição de qual escravo está em causa. E a frase final, que chama uma pessoa de dinheiro, foi citada no século XIX pelos defensores da escravidão nos Estados Unidos como prova de que a Bíblia a aprovava, e disputada pelos abolicionistas.
2. Contexto Histórico e Cultural
A frase no debate americano sobre a escravidão
Em 1841, Thornton Stringfellow, pastor batista do condado de Culpeper, na Virgínia, publicou um folheto que seria reeditado e ampliado várias vezes nas duas décadas seguintes: Breve exame do testemunho da Escritura sobre a instituição da escravidão. O argumento central era que a escravidão hereditária e involuntária fora instituída e aprovada pelo próprio Deus, e o Êxodo 21:20-21 ocupava nele um lugar de destaque.
Stringfellow lia os dois versículos juntos e tirava deles duas conclusões. A primeira: "no código criminal, a conduta que é punida com a morte quando feita a um homem livre não é punível de modo algum quando feita por um senhor a um escravo, pela razão expressa de que o escravo é o dinheiro do senhor". A segunda: se o escravo morre dias depois, "presume-se que o senhor só pretendia usar a vara na medida necessária para produzir subordinação", e então "a lei que lhe permitiu empregar o seu dinheiro no escravo o protegeria de qualquer punição". E concluía que esse era "o princípio de bom senso adotado, em substância, nos países civilizados onde a escravidão involuntária foi instituída, desde aquele dia até hoje". Para ele, quem detestava essas leis detestaria o próprio Deus que as deu.
Quatro anos antes, o abolicionista Theodore Weld tinha respondido de antemão a esse uso. No folheto A Bíblia contra a escravidão (1837), publicado pela Sociedade Americana Antiescravidão, ele trata o versículo como uma das "objeções" a desmontar. A pergunta dele é direta: a lei foi feita para dar ao senhor licença de bater no escravo com impunidade, e a garantia de que matá-lo aos poucos não seria crime capital? Weld responde que não. A lei de Moisés, diz ele, está cheia de casos montados para ensinar juízes inexperientes a descobrir a intenção do acusado, e este é um deles. A vara, o tempo de sobrevivência e o fato de o senhor ter um interesse em dinheiro na vida do escravo formavam, juntos, uma prova circunstancial de que ele não quisera matar. "Porque é dinheiro dele" não é, para Weld, um título de propriedade, mas um elemento de prova.
Os dois liam o mesmo versículo e discordavam sobre o que ele afirma. Stringfellow via nele a declaração de que o escravo é propriedade e de que a propriedade protege o senhor; Weld, uma regra de prova sobre a intenção. Nenhum dos dois inventou o seu argumento: a leitura do "dinheiro" como prova de que o senhor não queria destruir o que lhe pertencia já estava em Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII), e a leitura do escravo como propriedade transmissível estava em Levítico 25:44-46. O que o século XIX acrescentou foi o uso: o versículo virou munição numa guerra que terminaria, vinte anos depois, num campo de batalha.
A propriedade como freio
Há uma ironia na história do argumento. O mesmo raciocínio da propriedade que Stringfellow usou para proteger o senhor serviu, no direito romano, para limitá-lo. O jurista Gaio, ao registrar a reforma de Antonino Pio que passou a punir o senhor que matasse o próprio escravo sem causa, dá a razão em termos de propriedade: "não devemos usar mal o nosso direito", e é pelo mesmo motivo que se tira do pródigo a administração dos seus bens (Institutas I.53). O senhor cruel é tratado como o perdulário: alguém que dissipa o que tem. Séculos depois, a compilação do imperador Justiniano repete a ideia com uma fórmula que ficou: "interessa ao Estado que ninguém use mal o que é seu". A lógica do dinheiro protegia o escravo da crueldade do mesmo modo que protegia o rebanho do desleixo — e é exatamente isso que ela tem de incômodo.
3. Análise Teológica do Versículo
"Mas, se sobreviver um ou dois dias"
O hebraico diz, ao pé da letra, "se um dia ou dois dias ele ficar de pé". O verbo é o comum de "estar de pé, permanecer". Daí duas leituras do que se exige do escravo.
Primeira leitura: "ficar de pé" é sobreviver. É a leitura da maioria, e é a que a ABC adota: o escravo continua vivo por um ou dois dias e depois morre. Nachmânides (Ramban, comentarista judeu catalão do século XIII) a chama de "correta e verdadeira" e cita Jeremias 32:14, onde o mesmo verbo diz que os documentos "durarão muitos dias".
Segunda leitura: "ficar de pé" é levantar-se de fato. Antes de chegar àquela conclusão, Nachmânides expõe também esta, como o sentido simples do texto: se no mesmo dia do castigo, ou no dia seguinte, o escravo se levantou e ficou de pé, o senhor não é punido, mesmo que o escravo morra depois. Se nunca se levantou e morreu no segundo dia, isso ainda conta como morrer "debaixo da mão", e o senhor responde. Nessa leitura, o critério é o mesmo da lei do homem livre — levantar-se depois do golpe (Êxodo 21:19) —, só que com um prazo curto.
E por que "um ou dois"? Se um dia de sobrevivência já livra o senhor, para que falar em dois? A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico antigo ao Êxodo), no tratado Nezikin, seção 7, e Rashi (o comentarista judeu francês do século XI) respondem com uma conta: "um dia que é como dois dias", isto é, vinte e quatro horas, que podem começar numa tarde e terminar na tarde seguinte, ocupando partes de dois dias de calendário. Ibn Ezra (comentarista judeu espanhol do século XII) compara a expressão com "duas testemunhas ou três" (Deuteronômio 17:6), em que três também parece supérfluo: é um modo hebraico de falar, e não uma escala. Os opositores dos rabinos que ele combate liam justamente uma escala: vingança grande se o escravo morre na hora, menor se dura um dia, nenhuma se dura dois.
Por trás de todas as leituras está uma presunção. Se o escravo não morreu na hora, presume-se que o senhor não quis matá-lo. Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX) e a Cambridge Bible (série de comentários da universidade inglesa) dizem isso abertamente: a sobrevivência mostra a falta de intenção. A presunção é exatamente o ponto em que a lei do escravo se separa da lei do livre. Para o homem livre, a morte depois de dias de cama ainda pode ser homicídio, se ele nunca se levantou (Êxodo 21:18-19); para o escravo, basta que o golpe não tenha matado de imediato.
"não será vingado"
A negação desfaz a promessa do versículo anterior com o mesmo verbo: "será vingado" vira "não será vingado". O texto não diz "não será punido de modo algum", nem "pagará algo". Diz apenas que a vingança — a pena prevista no versículo anterior, qualquer que ela fosse — não se aplica.
A tolerância vale para quem? Rashi responde que só para o senhor. Se outra pessoa feriu o escravo e ele morreu dias depois, essa pessoa é executada como qualquer homicida. A Mekhilta registra o raciocínio de Rabi Shimon: o boi do senhor e o boi de outro são tratados igualmente quando matam um escravo, e por isso alguém poderia pensar que o senhor e o estranho também deveriam ser tratados igualmente; a frase "porque é dinheiro dele" foi escrita para separar os dois. O que livra o senhor não é a condição do escravo, é a relação de posse.
"porque é dinheiro dele"
A frase diz, palavra por palavra, "porque a prata dele ele é". A pessoa do escravo e o dinheiro do senhor ficam ligados por um simples "é". A ABC não suavizou, e nenhuma tradução antiga suavizou: a Septuaginta traduz "porque é a prata dele", a Vulgata "porque é dinheiro dele", e o Targum de Pseudo-Jônatas (uma tradução aramaica da Torá, cheia de acréscimos explicativos) explica: "porque o comprou com dinheiro".
Como a frase justifica a exceção? Há quatro leituras, que os comentaristas muitas vezes combinam.
Primeira leitura: a perda já é o castigo. O senhor que mata o próprio escravo perde o que pagou por ele. Matthew Poole (comentarista inglês do século XVII), Benson (Joseph Benson, comentarista metodista inglês, 1749-1821) e a Cambridge Bible dizem isso com quase as mesmas palavras: o prejuízo é pena suficiente.
Segunda leitura: o dinheiro é prova de que não houve intenção. Ninguém destrói de propósito o que comprou. É a leitura de Gill e, no século XIX, de Weld (item 2). Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) vão na mesma linha: a lei não presume que um senhor queira matar o que lhe custou dinheiro.
Terceira leitura: a frase define de que escravo se trata. Rabi Ishmael, na Mekhilta, lê "dinheiro dele" como o que é do senhor para sempre e está inteiramente sob o seu controle. Isso exclui o escravo hebreu, que sai no sétimo ano, e o escravo de dois sócios, que não é inteiramente de nenhum. Nesta leitura, a frase não dá a razão da exceção; dá o seu campo de aplicação.
Quarta leitura: a posse é a fonte do direito de castigar. Rashbam (comentarista judeu francês do século XII) e Sforno (comentarista judeu italiano do século XVI) entendem que, sendo o escravo do senhor, o senhor tem o direito de discipliná-lo; a morte que vem depois de um castigo legítimo é tratada como acidente do castigo.
Nenhuma das quatro tira da frase o seu peso. Ibn Ezra, que defende com energia a pena de morte para o senhor no versículo anterior, explica a exceção dizendo que o senhor costuma ter pena do escravo que possui e evita matá-lo, "como tem pena do seu gado". A comparação é dele, e é reveladora: mesmo o leitor que mais quis proteger o escravo raciocinava com a categoria da posse.
É esse o limite do que se pode afirmar. O versículo anterior trata o escravo como alguém cuja morte pede vingança. Este o chama de dinheiro. As duas frases estão lado a lado, no mesmo caso, e o texto não as harmoniza. Ler só a primeira é apologia; ler só a segunda é desconhecer a primeira.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O escravo. O mesmo do versículo anterior, agora ferido e ainda vivo por um ou dois dias. O versículo não lhe dá voz nem nome; dá-lhe um preço. Na leitura rabínica, é o escravo estrangeiro, comprado para sempre.
O senhor. Comprou o escravo com prata. É a relação de compra, e não um juízo sobre a pessoa do escravo, que o texto invoca para justificar a exceção.
O estranho. Não aparece, mas a tradição o pôs ao lado do senhor para contrastar: se fosse outro quem batesse, a tolerância dos "um ou dois dias" não valeria.
Thornton Stringfellow. Pastor batista da Virgínia, autor de uma defesa bíblica da escravidão (1841) que citava este versículo como prova de que o escravo era propriedade legítima.
Theodore Weld. Abolicionista norte-americano, autor de A Bíblia contra a escravidão (1837), que leu o versículo como regra de prova sobre a intenção do senhor.
5. Pontos de Ensino
O texto chama as coisas pelo nome. "Porque é dinheiro dele" não é eufemismo. A lei do Êxodo trata o escravo estrangeiro como propriedade, e o leitor honesto precisa ver isso antes de qualquer interpretação.
A mesma lei dá e tira. O versículo anterior protege a vida do escravo; este reduz a proteção a uma janela de um ou dois dias. As duas coisas são a lei. Selecionar só uma delas é ler o texto pela metade.
A presunção protege quem tem poder. A regra presume que o senhor não quis matar. Presunções jurídicas sempre favorecem alguém, e esta favorece o lado mais forte.
Um versículo pode ser usado como arma. No século XIX, esta frase foi citada para defender a escravidão de seres humanos que nenhuma lei de Moisés jamais regulou. A história do seu uso é parte do que se aprende com ela.
A leitura depende de com que se lê. Weld e Stringfellow tinham o mesmo texto e chegaram a conclusões opostas, porque um o lia como regra de prova e o outro como declaração de direito. Quem estuda a Bíblia precisa saber de que tipo de texto se trata antes de tirar dele uma doutrina.
6. Aspectos Filosóficos
"Porque é dinheiro dele" justifica a posição do senhor por uma operação de compra. O versículo não diz que o escravo é inferior, menos inteligente ou nascido para servir; diz que foi pago. A diferença parece pequena, mas separa duas maneiras de defender a escravidão que a história do pensamento conheceu bem: a que se apoia num título — compra, guerra, dívida, sentença — e a que se apoia na natureza da pessoa escravizada. Quem levou a segunda ao centro de um debate público foi o humanista espanhol Juan Ginés de Sepúlveda (cerca de 1490-1573), capelão e cronista do imperador Carlos V.
A servidão natural
Por volta de 1544, Sepúlveda escreveu em latim o Democrates secundus ("O segundo Demócrates"), um diálogo sobre as causas justas da guerra contra os povos da América. As universidades de Alcalá e de Salamanca opinaram contra a publicação, e o livro circulou em manuscrito; só foi impresso no fim do século XIX. Em 1550 e 1551, diante de uma junta de juristas e teólogos reunida em Valladolid pelo rei, Sepúlveda defendeu as suas teses contra um frade dominicano que passara a vida denunciando a conquista.
O argumento central vinha da tradição aristotélica, que Sepúlveda traduzira e comentara: há homens que, por natureza, são senhores, e outros que, por natureza, são servos — os que superam os demais em prudência e inteligência devem governar, e os de entendimento rude e costumes bárbaros devem ser governados, para o próprio bem deles. Ele descrevia os povos da América como "homúnculos", sem letras, sem leis escritas, entregues a sacrifícios humanos, e concluía que a sujeição a um povo mais prudente era justa e até benéfica para eles.
Sepúlveda tinha o cuidado de distinguir dois sentidos de "servidão". Uma é a dos juristas: a condição legal de quem foi capturado na guerra ou vendido, que é um acidente e pode atingir qualquer um. Outra é a dos filósofos: a inferioridade de entendimento que tornaria certas pessoas aptas a obedecer. A segunda, dizia ele, justificava a dominação; não implicava, por si, a primeira.
O versículo diante da distinção
Na linguagem de Sepúlveda, o Êxodo 21:21 fala só da servidão dos juristas. O escravo é "dinheiro" porque foi comprado, não porque seja de natureza servil. Nenhuma palavra do versículo, nem do capítulo, atribui ao escravo um defeito de razão ou de caráter. E o povo que recebe essa lei é um povo que acabara de ser escravo — no Egito, a servidão de Israel foi exatamente um acidente de força, e não uma natureza.
Isso não torna o versículo melhor do que é. A escravidão por título trata a pessoa como bem negociável, e o versículo o diz com todas as letras. Mas mostra o que foi preciso acrescentar a ele para transformá-lo numa defesa de toda escravidão. Stringfellow, em 1841, juntou as duas coisas: leu "dinheiro dele" como direito de propriedade e, em outras partes do mesmo folheto, invocou a maldição de Canaã e a vontade de Deus de pôr uma descendência sob outra — um argumento de natureza e de destino, que o Êxodo não faz.
O limite
Sepúlveda não comentou este versículo, e a aproximação é de ideias, não de fontes. Também não se deve fazer da ausência de uma teoria da inferioridade no Êxodo um mérito: o mundo antigo não precisava justificar a escravidão, porque quase ninguém a questionava. A distinção serve para ler com precisão. O texto bíblico diz que o escravo é dinheiro do senhor; não diz que nasceu para sê-lo. Quem lê a segunda frase na primeira está pondo no versículo uma filosofia que veio depois.
7. Aplicações Práticas
O versículo não dá regra para a vida de hoje, e tentar extrair dele uma lição edificante seria apagar o que ele diz. A aplicação real é sobre a leitura. Este é um dos textos que mais exigem do leitor a capacidade de dizer, sem rodeios, "aqui a lei trata uma pessoa como dinheiro" — e de não correr nem para a desculpa ("eram quase empregados") nem para o descarte ("é tudo violência antiga").
Há também uma aplicação sobre presunções. A regra presume a boa intenção de quem tem o poder. Em qualquer conflito entre desiguais — empresa e empregado, instituição e indivíduo, adulto e criança —, convém desconfiar da presunção que sempre favorece o lado mais forte. O versículo mostra como ela nasce: de uma razão que parece sensata ("ninguém destrói o que é seu") e que, aplicada a pessoas, protege o dono e não a vítima.
E há um aviso sobre o uso de textos. Um versículo verdadeiro na sua letra pode ser posto a serviço de uma causa que ele não previa. Os escravizados das Américas não eram "dinheiro" de nenhum israelita; a frase foi transportada para eles por quem precisava dela.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Se o escravo era "dinheiro", por que o mesmo capítulo manda libertá-lo quando o senhor lhe arranca um dente?
Porque a lei não segue uma lógica só. Cinco versículos adiante, o escravo que perde um olho ou um dente sai livre (Êxodo 21:26-27), e o senhor perde o "dinheiro" inteiro por uma lesão que não mata. A mesma lei que, aqui, deixa o senhor sem pena quando o escravo morre dias depois, ali o castiga com a perda do escravo por um dente. Os intérpretes tentaram harmonizar as duas regras de vários modos; o texto não as harmoniza.
2. Por que o defensor da escravidão no século XIX precisava deste versículo, se havia Levítico 25:44-46?
Porque Levítico diz que se podem comprar escravos e deixá-los em herança, mas não diz até onde vai o poder do senhor sobre o corpo deles. Este versículo, lido como Stringfellow o leu, parecia dar ao senhor o direito de castigar até a morte lenta sem pena. Stringfellow o citou também para afirmar que Deus permitia aos senhores usar a vara "com a severidade necessária" para obter obediência.
3. O Novo Testamento comenta este versículo?
Não. Nenhum texto do Novo Testamento cita o Êxodo 21:20-21. O debate do século XIX misturou os dois Testamentos, mas a frase "porque é dinheiro dele" não reaparece na Bíblia.
9. Conexão com Outros Textos
O escravo comprado
Gênesis 17:12 — "De geração em geração, todo macho entre vocês será circuncidado aos oito dias de idade: tanto o nascido em casa como o comprado por dinheiro a algum estrangeiro que não seja da sua descendência."
"Comprado por dinheiro": a mesma palavra hebraica do "dinheiro dele" deste versículo. O escravo estrangeiro é definido, desde o Gênesis, pela compra.
Levítico 25:45-46 — "Também poderão comprar dos filhos dos estrangeiros que moram entre vocês… e eles serão propriedade de vocês. Vocês os deixarão como herança aos seus filhos depois de vocês, para os possuírem como propriedade; deles se servirão para sempre. Mas sobre os seus irmãos, os filhos de Israel, nenhum dominará o outro com dureza."
O texto que sustenta a leitura rabínica: o escravo estrangeiro é "para sempre"; o hebreu, não.
A outra face do mesmo capítulo
Êxodo 21:26-27 — "Se alguém ferir o olho do seu escravo ou o olho da sua escrava e o destruir, o deixará ir livre em troca do olho. E, se fizer cair um dente do seu escravo ou um dente da sua escrava, o deixará ir livre em troca do dente."
O "dinheiro" do senhor se perde inteiro por um dente.
Êxodo 21:32 — "Se o boi chifrar um escravo ou uma escrava, o dono dará ao senhor deles trinta siclos de prata, e o boi será apedrejado."
A mesma palavra, "prata", agora como indenização: o escravo morto vale uma quantia fixa, paga ao senhor.
O escravo que foge
Deuteronômio 23:15-16 — "Não entregue ao senhor dele o escravo que fugiu do senhor e se refugiou em você. Ele morará com você, no meio de vocês, no lugar que escolher, numa das suas cidades, onde lhe parecer bem; não o oprima."
Se o escravo fosse só dinheiro, a lei mandaria devolvê-lo ao dono. O Deuteronômio manda o contrário. Theodore Weld usou este texto, em 1837, como prova de que a servidão em Israel era, no fundo, voluntária: o escravo que fugisse não era devolvido.
A expressão "dois ou três"
Deuteronômio 17:6 — "Pelo depoimento de duas ou de três testemunhas será morto o que deve morrer; não será morto pelo depoimento de uma só testemunha."
O paralelo de Ibn Ezra para "um ou dois dias": o número maior não abre uma escala, completa uma expressão.
Os outros "não será vingado"
Gênesis 4:24 — "Se Caim será vingado sete vezes, Lameque o será setenta e sete vezes."
A mesma forma verbal deste versículo, rara na Bíblia (item 10). Lameque multiplica a vingança; o Êxodo a suspende.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Mas, se sobreviver um ou dois dias, não será vingado, porque é dinheiro dele.
Texto hebraico
אַ֥ךְ אִם־י֛וֹם א֥וֹ יוֹמַ֖יִם יַעֲמֹ֑ד לֹ֣א יֻקַּ֔ם כִּ֥י כַסְפּ֖וֹ הֽוּא׃
Transliteração
akh im-yom o yomayim ya'amod lo yuqqam ki khaspo hu.
Análise palavra por palavra
אַךְ — akh, "mas, porém".
Partícula que restringe o que acabou de ser dito. Não é o "mas" de oposição simples; é o "só que", o "contudo" que abre uma exceção dentro da regra. A Mekhilta lê nela um limite: a exceção vale só nas condições que vêm a seguir.
אִם־יוֹם אוֹ יוֹמַיִם — im-yom o yomayim, "se um dia ou dois dias".
Im, o "se" das variações dentro de um caso. Yom, "dia", e yomayim, a forma dual, "dois dias" — o hebraico tem uma terminação própria para os pares, que dispensa o numeral. A forma rara e as suas poucas ocorrências estão no estudo de Êxodo 16:29. Para a Mekhilta e Rashi, a soma dos dois termos dá "vinte e quatro horas".
יַעֲמֹד — ya'amod, "ficar de pé, sobreviver".
Do verbo amad, "estar de pé, permanecer, durar", no imperfeito. O sentido físico ("ficar de pé") e o sentido de duração ("continuar a existir") convivem no verbo, e é dessa convivência que saem as duas leituras de Nachmânides (item 3). A Septuaginta escolhe o segundo, diabiōsē, "viver através de", "sobreviver"; o Targum de Ônquelos também, "se mantiver".
לֹא יֻקַּם — lo yuqqam, "não será vingado".
Mesma raiz naqam do versículo anterior, agora numa forma passiva diferente. Ibn Ezra a chama de Hofal (a forma passiva do causativo); gramáticos modernos preferem ver nela um resto do antigo passivo da forma simples do verbo. Ibn Ezra observa que ela tem o mesmo sentido do Nifal do versículo anterior e usa isso como argumento: se "não será vingado" quer dizer "não será executado", "será vingado" quer dizer "será executado".
A forma yuqqam aparece só três vezes na Bíblia hebraica: aqui e duas vezes na história de Caim e de Lameque (Gênesis 4:15 e 4:24). Lá, ela garante e multiplica a vingança — "sete vezes", "setenta e sete vezes". Aqui, ela a nega. A ABC traduziu o Gênesis 4:15 por "sofrerá sete vezes a vingança" e Gênesis 4:24 por "será vingado"; neste versículo, a mesma forma ficou "não será vingado".
כִּי כַסְפּוֹ הוּא — ki khaspo hu, "porque é dinheiro dele".
Ki, "porque". Kaspo é kesef, "prata", com o sufixo -o, "dele". Como não havia moeda cunhada, a prata pesada era o dinheiro, e a palavra cobre os dois sentidos. É a mesma palavra da expressão "comprado por dinheiro" (miqnat kesef), com que o Gênesis e o Êxodo designam o escravo estrangeiro (Gênesis 17:12-13; Êxodo 12:44). Hu, "ele", fecha a frase como cópula: "a prata dele [é] ele". A ordem hebraica põe a prata antes da pessoa.
As versões antigas mantiveram a crueza. A Septuaginta usa o neutro: to argyrion autou estin, "é a prata dele" — o escravo vira, na gramática, uma coisa. A Vulgata diz pecunia illius est, "é dinheiro dele". O Targum de Ônquelos traduz palavra por palavra; o de Pseudo-Jônatas explica a origem da posse: "porque com dinheiro o comprou".
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o Êxodo 21:21 leva a três conclusões.
A primeira: a proteção que o versículo anterior deu ao escravo é real e é estreita. Ela cobre a morte imediata; quando o escravo sobrevive um ou dois dias, a lei presume a favor do senhor. A distância entre a lei do escravo e a do homem livre, que em Êxodo 21:18-19 exige que o ferido se levante e ande, está toda nessa presunção.
A segunda: a razão da presunção é dita sem disfarce. O escravo é "dinheiro" do senhor. Nenhuma tradução antiga, nenhum comentário clássico apagou a frase; eles discutiram o que ela justifica — a perda como castigo, a falta de intenção, o tipo de escravo —, mas não o que ela afirma.
A terceira: o que o versículo afirma é uma relação de compra, e não uma teoria sobre a natureza do escravo. Foi preciso acrescentar a essa frase uma doutrina da inferioridade e um decreto divino sobre raças para fazer dela, no século XIX, uma defesa da escravidão moderna. A frase é dura o bastante sem isso, e a leitura honesta não precisa nem de suavizá-la nem de engordá-la.













