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Êxodo 21:27

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 19 min de leitura·👁 16 acessos
E, se fizer cair um dente do seu escravo ou um dente da sua escrava, o deixará ir livre em troca do dente.
Um homem jovem, com a mão diante da boca ferida, caminha por uma estrada de terra para longe de uma casa antiga, levando apenas uma pequena trouxa às costas, ao entardecer.

Estudo


E, se fizer cair um dente do seu escravo ou um dente da sua escrava, o deixará ir livre em troca do dente.

1. Introdução

O caso do versículo anterior se repete com um dano muito menor: um dente que cai com o golpe do senhor. A consequência é a mesma, a liberdade inteira do escravo. Os rabinos perguntaram por que a lei precisou nomear o olho e o dente, e da resposta tiraram uma lista de vinte e quatro partes do corpo que libertam. E um mestre do Talmude transformou o dente do escravo num argumento sobre o sofrimento humano diante de Deus.

2. Contexto Histórico e Cultural

O golpe no rosto

Dente que cai é dente que levou golpe na boca: um soco, um tapa com a mão fechada, uma pancada com o que estava à mão. No mundo antigo, bater no rosto era o castigo mais comum do escravo e do subalterno, e também o mais humilhante, porque era aplicado à vista de todos e deixava marca onde todos olhavam. A Bíblia usa o gesto como figura da afronta máxima: o profeta que leva um tapa no rosto diante do rei (1 Reis 22:24), o justo que "dá a face a quem o fere" (Lamentações 3:30).

E o dente perdido não volta. Os etruscos e os fenícios faziam pontes com fio e lâminas de ouro para prender dentes soltos ou postiços, e algumas foram achadas em túmulos; mas eram obra cara, para gente de posses. Para um escravo, o dente arrancado era uma falha definitiva na boca, que dificultava comer e marcava a pessoa para sempre como alguém que apanhava.

Um médico grego descreve os senhores do seu tempo

Galeno (médico grego de Pérgamo, do século II, que serviu na corte de Marco Aurélio) deixou um pequeno tratado, Sobre as paixões e os erros da alma, em que a raiva contra escravos é o exemplo principal. Ele descreve senhores que batem nos escravos com os punhos e com os pés e lhes ferem os olhos; conta que a própria mãe mordia as criadas quando se enfurecia, e que o pai, ao contrário, nunca bateu num escravo com a própria mão. E registra o caso que ficou famoso: o imperador Adriano, irritado com um escravo, enfiou-lhe no olho o estilete com que escrevia e o cegou. Arrependido, chamou o homem e mandou que pedisse o presente que quisesse. O escravo respondeu que não queria nada, só o seu olho de volta.

A história mostra duas coisas que o Êxodo também supõe. O golpe no rosto do escravo era rotina, a ponto de um médico usá-lo como exemplo corriqueiro. E nenhum presente devolve um órgão; o que um senhor podia dar, depois, era outra coisa.

A sabedoria judaica sobre o servo

Quase dois séculos antes de Galeno, o livro de Jesus ben Sira (o Eclesiástico, sábio de Jerusalém do início do século II a.C., livro aceito no cânon católico e ortodoxo) dá conselhos sobre como tratar o servo, e o tom mostra a ambiguidade do mundo em que o Êxodo era lido. Primeiro, a dureza: "ração, vara e carga para o jumento; pão, disciplina e trabalho para o servo"; se ele não obedecer, "aumente os grilhões". Logo em seguida, o contrário: "se você tem um só servo, trate-o como a si mesmo, porque você o comprou com sangue; trate-o como irmão, porque você vai precisar dele como da própria vida. Se você o maltratar e ele fugir, por que caminho você irá procurá-lo?" (Eclesiástico 33:25-33). Os dois conselhos convivem na mesma página, como convivem no Êxodo a vara de Êxodo 21:20 e o dente que liberta.

Atenas: não se podia bater no escravo alheio

Um panfleto ateniense do século V a.C., atribuído a um autor que os estudiosos chamam de Velho Oligarca (a Constituição dos Atenienses transmitida entre as obras de Xenofonte, 1.10), reclama de que em Atenas não se pode bater num escravo na rua, e que ele nem sai do caminho. A razão que o autor dá é cínica: ali os escravos se vestem como os cidadãos pobres, e quem batesse num escravo arriscava bater num cidadão. A proteção ateniense era contra o golpe de estranhos; o golpe do próprio dono continuava livre. O Êxodo regula justamente o que Atenas deixava de fora.

3. Análise Teológica do Versículo

"E, se fizer cair um dente do seu escravo ou um dente da sua escrava"

O versículo copia o anterior trocando duas coisas: o órgão e o verbo. O olho era "destruído"; o dente "cai". Não se pede ruína total, porque o dente que cai já está perdido. A lista que os comentaristas cristãos fizeram dos dois órgãos é sempre a mesma: o olho, o dano permanente maior; o dente, o menor. Matthew Poole (pastor inglês do século XVII) diz que a lei nomeia o membro principal e o mais humilde para que todos os do meio fiquem entendidos. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu da Espanha do século XII) diz o mesmo de outro modo: o texto fala do que costuma acontecer, e o que costuma acontecer num golpe é o olho e o dente.

Por que o dente precisava ser dito

Os rabinos partiram de uma regra de leitura: quando dois versículos ensinam a mesma coisa, eles não servem de base para estender a lei a outros casos. Se olho e dente dissessem o mesmo, a lei pararia neles. O Talmude Babilônico, no tratado Kiddushin (24a-b), mostra que cada um ensina o que o outro não ensinaria.

Se a lei falasse só do olho, alguém poderia pensar que ela vale só para os órgãos que nascem com a pessoa, porque o olho já está no corpo desde o ventre; o dente, que nasce depois, ficaria de fora. Se falasse só do dente, alguém poderia pensar que até um dente de leite, que cai sozinho e é substituído, libertaria o escravo menino. O olho ensina que o dano tem de ser irreparável; o dente ensina que o órgão não precisa ter nascido com a pessoa. Rashi (o comentarista judeu mais lido da Idade Média, da França do século XI) resume a discussão no seu comentário, e conclui que o dente que liberta é o do escravo adulto.

Os vinte e quatro membros

Da comparação entre os dois órgãos a Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico antigo ao Êxodo, do século III, tratado Nezikin ("Danos"), seção 9) tira o critério geral: o que olho e dente têm em comum é ser parte exposta do corpo, cuja perda é permanente e visível. Todo dano assim liberta o escravo.

O Talmude (Kiddushin 25a) faz a lista tomando emprestada outra, da Mishná de Nega'im (6:7), o tratado sobre as manchas de pele: os vinte e quatro "extremos" do corpo humano. São as pontas dos vinte dedos das mãos e dos pés, as das orelhas, a ponta do nariz, a do pênis e os mamilos da mulher; Rabi Yehudá acrescenta os do homem. A lista nasceu para dizer onde o sacerdote não consegue ver a mancha de uma só vez, porque a parte é arredondada. Os rabinos a reaproveitaram para dizer onde o senhor não pode tocar sem perder o escravo.

A discussão segue pelos casos de fronteira. Rabi Yehudá, o Príncipe, inclui a castração; Ben Azzai inclui a língua cortada, porque a língua fica exposta quando se fala. Rav decide que o sexto dedo, para quem nasceu com ele, também conta, desde que esteja alinhado com os outros. Arrancar a barba e deslocar o osso do queixo liberta; a mão que seca com o golpe mas vai recuperar o movimento, não. O dente que ficou mole mas ainda serve para mastigar não liberta; o dente que já estava mole e servia, e que o golpe derrubou, liberta.

O Talmude guarda até uma cena. Os anciãos de uma cidade chamada Nezonya deixaram de ir às aulas de Rav Chisda, que mandou Rav Hamnuna repreendê-los. Eles perguntaram a Rav Hamnuna se o escravo castrado pelo senhor saía livre. Ele não soube responder, e os anciãos fizeram trocadilho com o nome dele: Hamnuna, "peixe quente", devia se chamar Karnuna, "peixe frio". A resposta estava numa tradição que Rav Chisda conhecia. A anedota mostra até onde a lista chegou: à pergunta sobre o corpo do escravo mutilado no lugar onde a mutilação de escravos era comum em todo o mundo antigo.

"o deixará ir livre em troca do dente"

A desproporção é o ponto. Um dente vale uma pessoa inteira. Se a regra fosse de equivalência, um dente pagaria uma quantia pequena, como pagavam os golpes nas coleções de leis vizinhas. A lei escolhe não medir: qualquer dano permanente, do maior ao menor, custa ao senhor tudo o que ele tem naquele escravo. É uma leitura plausível dizer que a lei quer menos a reparação exata e mais um limite claro para a mão do senhor; a Mekhilta, porém, também conhece a medida, porque dá ao escravo liberto indenização por um segundo dano.

O dente do escravo e o sofrimento de quem sofre

A Mekhilta termina a sua discussão destes dois versículos com uma frase de Rabi Ishmael que leva o caso para outro terreno. O escravo, diz ele, adquire a si mesmo por meio dos seus sofrimentos: se o senhor o maltratou e lhe arrancou um dente ou cegou um olho, ele sai livre. E então, por raciocínio do menor ao maior: se alguém se liberta pelo sofrimento que vem da mão de um homem, quanto mais pelo que vem da mão do Céu. Cita o Salmo 118:18, "o SENHOR me castigou duramente, mas não me entregou à morte".

O Talmude Babilônico retoma o argumento no tratado Berakhot (5a), na boca de Rabi Shimon ben Lakish, num capítulo sobre os "sofrimentos de amor". Dente e olho são um só membro, e por um só membro o escravo sai livre; os sofrimentos que atingem o corpo inteiro libertam a pessoa de todos os seus pecados, quanto mais.

A leitura é sermão, não direito, e tem um custo. Ela faz do escravo ferido uma figura de todo ser humano diante de Deus, o que dá dignidade ao seu sofrimento. Mas faz isso pondo Deus no lugar do senhor que fere. O Êxodo diz o contrário: o senhor que fere perde o escravo, e não ganha mérito nenhum com o golpe. O texto do versículo não autoriza a ponte; ela é obra de mestres que tinham o versículo diante de si e o sofrimento do seu povo atrás.

O que o versículo não diz

Não diz por que o dente. Não diz se o golpe precisa ser intencional — a discussão do versículo anterior vale para os dois. Não diz o que acontece se o senhor nega o golpe. E não diz nada sobre o escravo que perde o dente por outra mão: esse é o caso do dano feito por terceiros, que a lei trata como prejuízo ao dono.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O senhor, o escravo, a escrava

Os mesmos do versículo anterior. A repetição de "do seu escravo ou… da sua escrava" mantém a mulher nomeada também neste caso.

Os mestres da discussão

Rabi Ishmael, mestre da terra de Israel do início do século II, a quem a Mekhilta é atribuída. Rabi Yehudá, o Príncipe, que fechou a Mishná por volta do ano 200. Ben Azzai, contemporâneo de Rabi Akiva, famoso por ter estudado em vez de se casar. Rabi Shimon ben Lakish, chamado Resh Lakish, mestre de Tiberíades do século III, segundo a tradição ex-gladiador. Rav, Rav Chisda e Rav Hamnuna, mestres das academias da Babilônia dos séculos III e IV.

Nezonya

Cidade da Babilônia mencionada só nesta passagem do Talmude, de localização desconhecida. Os "anciãos de Nezonya" são os que embaraçaram Rav Hamnuna com a pergunta sobre a castração.

O fim de um trecho

No texto hebraico tradicional, depois deste versículo há uma separação de parágrafo do tipo "aberto", em que o resto da linha fica em branco. É o fim do bloco das lesões, que começou em Êxodo 21:18 com a briga entre dois homens. O caso seguinte, do boi que chifra, começa em linha nova.

5. Pontos de Ensino

1. O menor dano permanente basta. A lei não gradua: o dente liberta como o olho. O que conta não é a gravidade, é que o dano não se desfaz.

2. Dois exemplos fazem uma regra. Olho e dente juntos permitiram à tradição definir o critério e estendê-lo a outros membros. A lei de casos ensina por exemplos escolhidos, e o leitor é chamado a achar o que eles têm em comum.

3. A violência no rosto era rotina. Galeno, Ben Sira e o Velho Oligarca mostram um mundo em que bater no escravo era normal. A lei bíblica não tira o golpe desse mundo; põe um preço no golpe que deixa marca.

4. A lista dos membros mostra até onde a tradição levou o versículo. Castração, língua, sexto dedo: os rabinos discutiram casos que o texto não nomeia, e quase sempre a favor da libertação.

5. O sermão sobre o sofrimento é posterior e tem limites. A ponte entre o dente do escravo e o sofrimento diante de Deus é antiga e bela, mas inverte o papel do senhor no versículo. Ela é homilia, não o sentido do texto.

6. Aspectos Filosóficos

O que a violência faz com quem a pratica

Aimé Césaire (poeta e político da Martinica, 1913-2008) publicou em 1950 o Discurso sobre o colonialismo, um texto curto e furioso. A frase mais citada é uma equação: "colonização = coisificação". Entre colonizador e colonizado, escreve ele, não há contato humano, só relações de dominação e submissão que transformam o colonizado em instrumento de produção.

Mas a parte do argumento que interessa a este versículo é outra, e menos citada. Césaire sustenta que a colonização "desciviliza" o colonizador, que o embrutece no sentido próprio da palavra. O colonizador que, para ficar de consciência tranquila, se acostuma a ver no outro um animal e se treina a tratá-lo como animal, "tende objetivamente a transformar-se ele mesmo em animal". A violência que parece ir só numa direção volta sobre quem a exerce. Césaire chama isso de choque de retorno, e o aplica à própria Europa, que teria conhecido no nazismo os métodos que antes reservava às colônias.

O dente e a mão

A lei do dente pode ser lida pelos dois lados da equação de Césaire. Do lado do escravo, ela recusa a coisificação completa: a coisa danificada não sai livre, e o escravo sai. Do lado do senhor, ela trabalha contra o embrutecimento. Ibn Ezra disse que o motivo da lei era impedir que os senhores batessem nos escravos com golpes cruéis. Um senhor que sabe que um dente lhe custa o escravo inteiro precisa controlar a mão no momento em que a raiva a levanta, que é exatamente o momento descrito por Galeno no caso de Adriano.

Césaire não pensava no Êxodo, e a comparação tem limite claro. A escravidão que ele denunciava tinha raça, império e uma ideologia de superioridade que a casa israelita antiga não tinha nessa forma. E a lei do Êxodo não questiona a posse; Césaire questiona tudo. O que a leitura cruzada mostra é uma intuição que os dois textos partilham: a lei que protege o corpo do escravo protege também o senhor de se tornar alguém que arranca dentes.

A pergunta que fica

Se a violência embrutece quem a pratica, uma lei que só pune o golpe que deixa marca permanente protege pouco. Abaixo do dente, o senhor continuava livre para bater. A lei do Êxodo fixa um limite; Césaire diria que o embrutecimento começa muito antes dele.

7. Aplicações Práticas

Ninguém tem direito a "pequenas" violências permanentes

A lei não aceita o argumento do "foi só um dente". Para quem educa, chefia ou cuida de alguém, a aplicação é direta: o que deixa marca definitiva no outro não se mede pelo tamanho do gesto. Um apelido humilhante repetido por anos, uma exposição pública, uma agressão "leve" a quem depende de você podem custar o vínculo inteiro, e é justo que custem.

Controlar a mão antes da raiva

O caso de Adriano, contado por Galeno, mostra que o arrependimento depois do golpe não devolve o olho. Quem sabe que perde o controle precisa criar barreiras antes da hora: sair da sala, adiar a conversa, não decidir com raiva sobre quem está sob o seu poder.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O escravo menino que perdesse um dente de leite sairia livre?

Pela leitura rabínica, não, porque o dente de leite volta a nascer; é justamente para excluí-lo que, segundo o Talmude, o versículo anterior nomeia o olho. O texto, porém, não faz a distinção; ela é dedução dos rabinos.

O escravo podia provocar o golpe para ficar livre?

A pergunta aparece nos comentaristas medievais como objeção teórica, e a resposta implícita na própria discussão do senhor médico é que a lei olha para o ato do senhor: se ele golpeou e o dente caiu, o escravo sai, provocado ou não. A tradição não discute fraude do escravo de forma extensa.

Por que a lei não fala de dano interno, como um osso quebrado?

Porque o critério rabínico é o membro exposto. Um osso quebrado que se solda não é dano permanente; um que não se solda e deixa o membro torto foi discutido, e as posições variam. O texto bíblico não entra nisso.

A regra valia para o escravo hebreu?

Pela leitura rabínica, não, pelos motivos expostos no estudo de Êxodo 21:26. Alguns comentaristas cristãos, como Matthew Poole, a estenderam aos dois.

9. Conexão com Outros Textos

O dente na lei do talião

Levítico 24:19-20 — "Se alguém ferir o seu próximo, como ele fez, assim se fará a ele: fratura por fratura, olho por olho, dente por dente; como ele feriu o outro, assim será ferido."

Entre iguais, o dente paga dente. O Êxodo mostra a outra moeda quando a vítima é escrava do agressor.

O tapa no rosto como afronta

Lamentações 3:30 — "Dê a face a quem o fere; farte-se de afronta."

Miqueias 5:1 — "Agora reúna as suas tropas, filha de tropas; eles nos sitiaram; com a vara ferem no rosto o juiz de Israel."

O golpe no rosto como a humilhação extrema, aplicada até ao juiz.

Os dentes quebrados do agressor

Salmo 3:7 — "Levanta-te, SENHOR! Salva-me, meu Deus! Pois feres no queixo todos os meus inimigos; quebras os dentes dos ímpios."

No salmo, quem perde os dentes é o violento, e quem bate é Deus. A imagem inverte a cena do nosso versículo.

O dente que falha

Provérbios 25:19 — "Confiar no traidor no dia da angústia é como dente quebrado e pé que desliza."

O dente quebrado como imagem do que não serve na hora de usar. É o dano permanente que a lei leva a sério.

O sofrimento que não leva à morte

Salmo 118:18 — "O SENHOR me castigou duramente, mas não me entregou à morte."

O versículo que Rabi Ishmael pôs ao lado do dente do escravo para falar dos sofrimentos que libertam.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E, se fizer cair um dente do seu escravo ou um dente da sua escrava, o deixará ir livre em troca do dente.

Texto hebraico

וְאִם־שֵׁן עַבְדּוֹ אֽוֹ־שֵׁן אֲמָתוֹ יַפִּיל לַֽחׇפְשִׁי יְשַׁלְּחֶנּוּ תַּחַת שִׁנּֽוֹ׃

Transliteração

ve-im-shen avdo o-shen amato yappil la-chofshi yeshallechennu tachat shinno.

Análise palavra por palavra

וְאִם — ve-im, "e se". A conjunção das variações dentro de um caso. O versículo anterior abriu o caso com ki; este, com im, se apresenta como segunda hipótese do mesmo caso.

שֵׁן — shen, "dente". A palavra vem antes do verbo, fora da ordem comum do hebraico, que costuma pôr o verbo primeiro. O efeito é de ênfase: "e se é um dente do seu escravo… que ele derruba". O substantivo tem usos figurados: shen ha-sela, "dente da rocha", é um penhasco pontudo (1 Samuel 14:4-5); e o "dente" do elefante dá à palavra também o sentido de marfim (1 Reis 10:18, o trono de marfim de Salomão). No talião, aparece na fórmula "dente por dente" (Êxodo 21:24; Levítico 24:20; Deuteronômio 19:21).

עַבְדּוֹ אוֹ־שֵׁן אֲמָתוֹ — avdo o-shen amato, "do seu escravo ou um dente da sua escrava". A repetição de shen diante de cada um segue o modelo do versículo anterior.

יַפִּיל — yappil, "fizer cair". Do verbo nafal, "cair", na forma Hifil (a forma verbal hebraica que indica fazer acontecer): "fazer cair, derrubar". O verbo descreve o resultado, não o golpe; não há aqui o "ferir" do versículo anterior. É o mesmo verbo usado para "lançar sortes" (Salmo 22:18, "lançam sortes sobre a minha roupa"), para o sono que Deus "faz cair" sobre Adão (Gênesis 2:21) e para a pessoa que "deixa cair" o rosto (Jeremias 3:12). Aplicado ao dente, a imagem é física: o dente sai da boca e cai no chão.

לַחׇפְשִׁי יְשַׁלְּחֶנּוּ — la-chofshi yeshallechennu, "o deixará ir livre". Idêntico ao versículo anterior, palavra por palavra e na mesma ordem.

תַּחַת שִׁנּוֹ — tachat shinno, "em troca do seu dente". A preposição do talião, com shen e o sufixo "dele"; a duplicação do n em shinno é a forma que a palavra toma quando recebe sufixo.

A Septuaginta

A tradução grega usa ekkopse, "arrancar com golpe", um verbo que diz o golpe e não só a queda, e repete o plural do versículo anterior: "os deixará ir livres em troca do dente deles".

Um caso de forma

Os dois versículos têm a mesma segunda metade, e a primeira diverge em três pontos: a conjunção (ki × im), a ordem (verbo antes × objeto antes) e o verbo (ferir e destruir × fazer cair). As três diferenças apontam para a mesma coisa: o versículo 26 descreve o golpe e o dano; o 27, só o dano. O Talmude leu o par como dois exemplos de um critério, e a forma do texto, com a segunda metade idêntica, sustenta essa leitura.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a duas conclusões. Primeiro, que a lei não mede a liberdade pelo tamanho do dano: o menor dano permanente desfaz a posse inteira, o que só se explica se o alvo da lei for a mão do senhor e não o cálculo do prejuízo. Segundo, que o par olho-dente foi lido desde cedo como critério e não como lista, e esse critério — o dano exposto que não se desfaz — fez da exceção uma regra mais larga do que o texto escreveu. O que a lei deixou fora, os golpes que não deixam marca, continuou fora: o versículo protege o corpo do escravo do mutilado, não do espancado.

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