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Êxodo 1:16

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✍️ Por Alberto Adriano·8 de setembro de 2026·⏱️ 28 min de leitura·👁 38 acessos
e disse: “Quando ajudarem as hebreias a dar à luz e as virem sobre o assento de parto, se for filho, matem-no; se for filha, deixem viver.”
Quarto de parto egípcio à luz de lamparina, com uma parturiente agachada sobre dois tijolos e duas mulheres ajoelhadas de cada lado.

Estudo


e disse: “Quando ajudarem as hebreias a dar à luz e as virem sobre o assento de parto, se for filho, matem-no; se for filha, deixem viver.”

1. Introdução

Este é o versículo da ordem, e é o ponto em que o capítulo muda de natureza.

Até aqui o Egito quis trabalho. A partir daqui, quer mortes — e não de adultos em revolta, mas de recém-nascidos, na hora em que nascem, pelas mãos de quem os traz ao mundo.

Quatro pontos merecem exame.

O primeiro é o momento escolhido. A ordem não manda buscar crianças em casa nem revistar aldeias: manda agir no instante do parto, quando ninguém de fora está presente e uma morte pode não parecer morte.

O segundo é a palavra traduzida por "assento de parto". No hebraico ela está numa forma que indica par — são duas pedras, ou dois apoios —, e o mundo por trás desse objeto é o assunto do item 2. A mesma palavra, num profeta, designa outra coisa: a roda dupla do oleiro. Isso abre uma segunda leitura da ordem, e o item 3 a apresenta.

O terceiro é o critério: menino morre, menina vive. Não é ordem de extermínio de um povo; é ordem de eliminar os homens de uma geração e deixar as mulheres. As duas coisas não são iguais, e a diferença tem consequências.

O quarto é o silêncio. O versículo termina com a ordem dada, e o texto não registra resposta nenhuma. Não se sabe se as parteiras assentiram, se calaram ou se saíram sem dizer nada. Só o versículo seguinte informará o que fizeram — e não o que disseram.

As pedras de parto já foram mencionadas no estudo de Gênesis 30:5, que inclusive apontou para cá. O que este versículo tem de próprio é o que vem a seguir.

2. Contexto Histórico e Cultural

O objeto que o versículo nomeia

A mulher não dava à luz deitada. Agachava-se ou ajoelhava-se sobre um par de apoios — tijolos ou pedras — que a mantinham numa altura de trabalho e deixavam espaço embaixo para receber a criança. O estudo de Gênesis 30:5 já registrou que escavações recuperaram objetos desse tipo.

O que se pode acrescentar aqui é o que estava em volta desse objeto no Egito, e é bem mais do que mobiliário.

Meskhenet: o tijolo era uma deusa

Os egípcios chamavam o tijolo de parto de meskhenet, e a mesma palavra é o nome de uma deusa.

Ela aparece representada de dois modos: como um tijolo com cabeça de mulher, ou como uma mulher com um símbolo curvo na cabeça, geralmente identificado como um útero de vaca. Não é uma deusa que tem um tijolo por atributo. É o tijolo, personificado.

A função dela tem duas partes, e a segunda é a que interessa a este versículo.

A primeira é assistir o parto e proteger mãe e criança na hora do perigo.

A segunda é declarar o destino do recém-nascido. Meskhenet é uma deusa do destino: no momento em que a criança nasce, sobre o tijolo, ela diz o que aquela vida será. Por isso ela reaparece muito depois, no fim da vida, entre as figuras presentes ao julgamento do morto — quem pronunciou o começo comparece ao fim.

Havia ainda quatro formas dela, tratadas como quatro deusas irmãs, associadas a outras divindades. Isso sugere que se usasse mais de um tijolo, e há quem proponha que fossem quatro, dois de cada lado.

O conto do Papiro Westcar

A melhor descrição egípcia de um parto está numa história, e ela mostra Meskhenet em ação.

O Papiro Westcar ("Papiro Westcar", nome do colecionador inglês que o adquiriu; é uma coletânea de contos egípcios copiada por volta do século XVII a.C.) traz, na última narrativa, o nascimento de três meninos que serão os primeiros reis da quinta dinastia.

A mãe se chama Rudjedet e o parto é difícil. Então quatro deusas — Ísis, Néftis, Heket e Meskhenet — vão até a casa disfarçadas de músicas ambulantes, acompanhadas do deus Khnum, que se apresenta como carregador. Elas se trancam com a parturiente, e cada criança nasce assistida pelas quatro. A cada nascimento, Meskhenet se aproxima do menino e anuncia que ele será rei.

Duas coisas se aprendem daí. Uma é o quadro material do parto egípcio: mulheres em volta, trabalho de equipe, a casa fechada. A outra é o significado do momento: o nascimento, no imaginário egípcio, é a hora em que o destino de alguém é dito em voz alta.

O tijolo de Abidos, achado em 2001

Durante milênios, o tijolo de parto foi conhecido apenas pela deusa que o representava. Nenhum exemplar tinha sido encontrado.

Isso mudou em 2001. Uma equipe do Penn Museum, da Universidade da Pensilvânia, dirigida pelo egiptólogo Josef Wegner, escavava a residência do prefeito no povoado de Wah-Sut, em Abidos-Sul, quando encontrou um tijolo de barro cru pintado, de cerca de trinta e seis centímetros de comprimento. É datado de aproximadamente 1750 a 1700 a.C.

A pintura é o que faz do objeto um achado excepcional. Na face principal há uma mãe sentada com o recém-nascido no colo, ladeada por assistentes. Nas laterais há uma série de deuses e figuras protetoras — o mesmo repertório que aparece nas varinhas de marfim decoradas que se usavam no Egito para proteger crianças pequenas de ameaças invisíveis.

O tijolo estava na parte da casa reservada às mulheres, e a hipótese dos escavadores é que tenha pertencido a uma mulher de alta posição, chamada Renseneb, ligada à família do prefeito.

É, até hoje, o único tijolo de parto egípcio identificado. O que ele mostra é que o objeto não era um apoio qualquer: era feito, decorado e guardado como peça de proteção mágica.

O que isso faz com a ordem de Faraó

Junte-se o que foi visto.

No Egito, o assento de parto é o lugar onde uma deusa declara o destino da criança, e o objeto é pintado com figuras destinadas a afastar o que ameaça recém-nascidos.

É exatamente sobre esse objeto que a ordem manda olhar e matar.

Convém marcar o limite com todas as letras: o Êxodo não faz esse comentário e não menciona Meskhenet nem deus egípcio nenhum. Não é possível saber se quem escreveu o versículo conhecia o significado religioso do tijolo. A observação é do comentarista, apoiada no que se sabe do Egito, e não é afirmação do texto.

Uma curiosidade sobre a tradução grega

Há um detalhe que vale registrar.

A Septuaginta, versão grega do Antigo Testamento feita no Egito a partir do século III a.C., não traduziu a palavra. Onde o hebraico diz "e as virem sobre as duas pedras", o grego diz apenas "e estiverem para dar à luz".

Tradutores que viviam no Egito, e que teriam mais facilidade do que qualquer um para reconhecer o objeto, preferiram uma paráfrase. Não há como saber por quê. As explicações possíveis são várias — que o termo hebraico já lhes fosse obscuro, que considerassem o detalhe dispensável, ou que evitassem uma palavra ligada a uma deusa egípcia —, e nenhuma delas é demonstrável.

3. Análise Teológica do Versículo

"Quando ajudarem as hebreias a dar à luz"

A ordem começa marcando o momento, e o momento escolhido diz muito.

Faraó não manda procurar crianças nas casas. Não manda revistar aldeias, contar recém-nascidos ou registrar nascimentos. Manda agir no instante do parto.

Há um cálculo aí, e vale enunciá-lo — marcando que é leitura, porque o texto não explica a escolha.

Naquele momento, a criança está nas mãos de uma única pessoa, e essa pessoa é a única presente que sabe o que é normal e o que não é. A mãe está em trabalho de parto. As mulheres que assistem estão ocupadas com ela. Uma criança que não respira ao nascer é acontecimento comum e não gera suspeita de ninguém.

Ou seja: a ordem é desenhada para produzir mortes que não pareçam mortes. Não é uma matança pública — é a supressão de um nascimento, feita de tal modo que ninguém possa acusar ninguém.

É essa, provavelmente, a razão de a ordem ir para parteiras e não para soldados. Soldado mata à vista; parteira pode fazer com que a criança simplesmente não tenha nascido viva. E convém notar a consequência: quando as parteiras desobedecerem, em Êxodo 1:17, o rei não terá como provar nada — o que explica por que, em Êxodo 1:18, ele terá de perguntar.

"e as virem sobre o assento de parto"

O verbo é "ver", e ele não é decorativo.

A ordem exige que as parteiras olhem. O que se pede não é uma omissão nem um descuido — é um ato executado com atenção, no exercício exato da competência profissional delas. Quem cumpre essa ordem precisa saber o que está fazendo.

Quanto ao objeto, o item 2 mostra o que era, e o item 10 mostra que a palavra hebraica está numa forma que indica par: literalmente, "as duas pedras".

Existe, porém, uma segunda leitura antiga, e ela precisa ser registrada. Vários comentaristas — Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) entre eles, apoiado em fontes judaicas, e também Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) — entenderam que a palavra não designa o assento, e sim uma parte do corpo da mulher, por transferência da imagem das duas peças. Nessa leitura, o que a parteira "vê" é o momento anatômico da passagem da criança.

As duas leituras dão no mesmo, na prática: trata-se de identificar o sexo no instante do nascimento. Não é possível decidir entre elas, e a maioria dos estudiosos modernos prefere a primeira.

A roda do oleiro

Aqui há um dado que muda o alcance do versículo, e que só aparece a quem procura a palavra no resto da Bíblia.

A mesma palavra hebraica reaparece uma única vez, em Jeremias 18:3, e ali não designa nada de parto: designa a roda do oleiro — as duas peças giratórias sobre as quais o vaso é modelado.

O leitor que conhece as duas passagens tem, portanto, diante dos olhos uma imagem dupla. O rei do Egito manda observar as crianças sobre as duas pedras, e a expressão é a mesma que descreve o oleiro sentado à sua roda, decidindo o que fica e o que se desfaz.

E o contexto de Jeremias 18 torna a coincidência mais pesada. É justamente o capítulo em que a imagem do oleiro é aplicada a Deus: "como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel", diz Jeremias 18:6. O direito de refazer ou descartar o vaso pertence, ali, a Deus.

Em Êxodo 1:16, quem se põe diante das duas peças, examinando o que sai e decidindo o que vive, é o rei do Egito.

Convém ser rigoroso quanto ao estatuto disso. O Êxodo não faz a comparação. Jeremias não cita o Êxodo. A palavra é a mesma e o campo de imagens é o mesmo, mas nada no texto autoriza a dizer que um autor pensou no outro. O que se pode afirmar é que o hebraico permite a leitura, e que ela é antiga: comentaristas a registram há séculos.

Registrada como leitura, ela é forte. O crime deste versículo não é apenas matar: é ocupar um lugar de decisão sobre a vida que o texto bíblico reserva para outro.

"se for filho, matem-no; se for filha, deixem viver"

A ordem tem duas metades, e a segunda costuma passar despercebida.

Faraó não manda exterminar os hebreus. Manda matar os meninos e preservar as meninas — o que é uma política diferente, e é preciso dizer qual.

Quanto ao medo declarado, ele já estava dito. Em Êxodo 1:10 o rei temia que Israel, em caso de guerra, se juntasse aos inimigos e lutasse. Guerra se faz com homens. Eliminar os meninos de uma geração é, nessa lógica, medida militar, e a ordem é coerente com o receio que a motivou.

Quanto às meninas, o texto não diz por que devem viver, e a explicação corrente entre comentaristas é a absorção: mulheres sem homens do próprio povo casariam com egípcios, e em uma ou duas gerações não haveria mais um povo separado. É leitura plausível e não está no versículo.

Se ela estiver certa, o que Faraó ordena não é o fim físico de uma população, e sim o desaparecimento dela como povo — os corpos permanecem, a identidade some. São coisas distintas, e confundi-las apaga o que a ordem tem de específico.

Há ainda um efeito que o texto não comenta e que vale registrar. Uma ordem assim destrói, em uma geração, a mão de obra que os versículos anteriores tinham acabado de organizar. O rei que precisava de braços manda matar os braços que vinham nascendo.

O que o versículo não diz

Não diz como matar. Nenhum método é indicado, e a omissão é notável numa ordem tão específica quanto ao momento.

Não diz o que aconteceria a quem desobedecesse. Não há ameaça, não há pena prevista, não há vigilância mencionada. A ordem é dada e ponto.

E não registra resposta. O versículo termina com a fala do rei, e o texto não informa se as parteiras disseram alguma coisa, se prometeram, se calaram. O que virá em Êxodo 1:17 é o relato do que elas fizeram — nunca do que responderam. Só em Êxodo 1:19, depois de convocadas, é que essas duas mulheres falarão pela primeira vez no livro.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O assento de parto

Um par de tijolos ou pedras sobre o qual a mulher se agachava para dar à luz. O item 2 mostra o que se sabe do objeto no Egito, incluindo o único exemplar já encontrado.

Não era móvel de casa rica. Era o equipamento normal do parto, presente em qualquer lugar onde nascesse gente, e no Egito estava associado a uma divindade.

As hebreias

As mulheres do povo, apresentadas no versículo anterior. Aqui elas aparecem como objeto direto do verbo: são elas que as parteiras ajudam a dar à luz.

Nenhuma é nomeada, e nenhuma fala. A primeira mulher hebreia a receber nome no livro será a mãe de Moisés, e isso só acontecerá em Êxodo 6:20 — o relato do nascimento dele, em Êxodo 2:1-2, apresenta os pais apenas como um homem e uma filha da casa de Levi.

Os meninos e as meninas

O versículo não fala de crianças em geral: separa por sexo, e dá destino diferente a cada um.

Vale notar o vocabulário. O texto usa as palavras comuns para filho e filha, e não termos de recém-nascido. São as palavras do parentesco, aplicadas a quem acabou de nascer.

Faraó

Continua sem nome, e neste versículo aparece apenas como o sujeito subentendido do verbo "disse". Ele fala e desaparece: o versículo inteiro, depois das duas primeiras palavras, é discurso dele.

Sifrá e Puá

São as destinatárias, apresentadas em Êxodo 1:15 e não renomeadas aqui. Toda a ordem é dirigida a elas na segunda pessoa do plural, e o hebraico usa formas femininas, como o item 10 registra.

Elas não agem neste versículo. Ouvem.

O que virá depois

Convém situar o leitor. Esta ordem falhará, conforme Êxodo 1:17, e será substituída por outra, em Êxodo 1:22, dirigida a todo o povo egípcio e com outro método — o Nilo.

É contra a segunda ordem, e não contra esta, que a mãe de Moisés terá de esconder o filho, em Êxodo 2:2-3.

5. Pontos de Ensino

O crime foi desenhado para não deixar rastro

O momento escolhido não é aleatório. No parto, uma criança que não vive é acontecimento comum, e ninguém pede explicação a ninguém.

Vale reter o mecanismo, porque ele se repete fora deste texto: violências de Estado com maior alcance costumam ser as que se disfarçam de acontecimento natural. O que não deixa rastro não gera acusação, e o que não gera acusação pode durar.

Uma ordem que exige competência não pode ser dada a qualquer um

Faraó precisa de parteiras porque só elas podem fazer o que ele quer do modo como ele quer.

Isso tem uma consequência que o rei não previu. Toda vez que um poder depende de uma habilidade específica, ele fica dependente de quem a tem — e quem a tem é sempre uma pessoa, com nome, como o versículo anterior fez questão de registrar.

Meninos e meninas não é o mesmo que todos

A ordem preserva metade dos nascimentos, e isso não é clemência.

É outro objetivo. Não se trata de acabar com pessoas, e sim com um povo — o que, na leitura corrente entre comentaristas, se obteria pela absorção das mulheres. Distinguir as duas coisas não ameniza nada; permite descrever com precisão o que está sendo ordenado.

O lugar do destino virou o lugar da execução

No Egito, o assento de parto era onde se declarava o que uma vida seria, e o objeto era pintado para proteger a criança.

É sobre ele que a ordem manda olhar e matar. A observação é do comentarista, e o item 2 marca o limite dela — mas, como imagem do que um Estado é capaz de fazer, dificilmente há outra mais exata neste capítulo.

Uma ordem sem ameaça é uma ordem que conta com obediência

O versículo não traz pena, vigilância nem sanção prevista.

Quem manda assim supõe que será obedecido — e supõe, mais precisamente, que duas funcionárias farão o que o rei mandar porque ele é o rei. É essa suposição, e não a ordem, que o versículo seguinte desmonta.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo levanta um problema que interessa à filosofia moral e que raramente é formulado com clareza: o que muda, moralmente, quando um crime é planejado para ser indistinguível de um acontecimento natural.

A resposta óbvia é que nada muda. Matar continua sendo matar, e o disfarce não altera o ato.

Mas o disfarce altera outra coisa, e é dela que este versículo trata.

Um crime que se confunde com a natureza suprime as condições de que ele seja acusado. Não há testemunha capaz de distinguir, não há prova, não há sequer o momento em que alguém percebe que houve crime. E quando não há acusação possível, o autor deixa de precisar se justificar — o que é diferente de ter uma justificativa aceita. Ele simplesmente sai do alcance da pergunta.

Daí decorre a característica mais incômoda de uma ordem como esta: ela não precisa convencer ninguém de nada. Faraó não argumenta com as parteiras, não invoca a segurança do reino, não promete recompensa nem ameaça castigo. Uma ordem que produz atos invisíveis dispensa persuasão, porque dispensa consentimento no sentido pleno — basta a execução.

E é exatamente aí que o plano tem um ponto cego, e o capítulo se decide nele.

Um crime invisível para os outros continua visível para quem o comete. A parteira que matasse sobre o assento de parto seria a única pessoa no mundo a saber o que aconteceu — e continuaria sabendo. O plano de Faraó elimina toda instância de julgamento externo e deixa intacta a única que ele não pode alcançar.

Êxodo 1:17 dirá o que essas duas mulheres fizeram, e dará o motivo delas. O motivo não é o que se costuma supor, e é assunto daquele versículo.

Convém marcar que o texto não faz nenhuma dessas considerações. Ele relata a ordem em discurso direto, sem comentário, e passa adiante.

7. Aplicações Práticas

Quando a ordem pede o contrário do ofício

A situação deste versículo é específica e tem paralelo real na vida profissional: alguém com autoridade pede a um profissional que use a competência dele para o oposto daquilo a que ela serve.

Não é o mesmo que pedir algo difícil, algo desagradável ou algo de resultado duvidoso. É pedir que a habilidade seja virada do avesso — e o pedido só faz sentido porque a habilidade existe.

O critério que este versículo oferece é o do reconhecimento: a pessoa que recebe uma ordem assim é, quase sempre, a única em condições de perceber o que está sendo pedido. Quem manda não sabe fazer, quem fiscaliza não entende, quem está por perto não distingue. A competência que torna a pessoa útil ao plano é a mesma que a torna a única testemunha qualificada dele.

O que não deixa rastro continua acontecendo

A ordem foi desenhada para que ninguém pudesse acusar ninguém.

A aplicação, aqui, é de atenção e não de conduta: em qualquer ambiente, o que passa sem registro é justamente o que ninguém consegue corrigir depois. Não porque as pessoas sejam desatentas, mas porque a correção depende de haver alguma coisa a apontar.

Disso não decorre nenhuma regra pronta. Decorre uma pergunta útil: quando alguma coisa vai mal e não há nada a mostrar, vale considerar se a ausência de prova não faz parte do arranjo.

Um limite, e ele é importante

Este versículo não ensina desobediência. Ele contém apenas a ordem.

O que as parteiras fizeram, e sobretudo por que fizeram, é assunto de Êxodo 1:17, e a razão registrada lá não é a que se costuma pregar. Tirar deste versículo uma lição sobre resistir a autoridades é adiantar o que ainda não foi dito — e adiantá-lo, quase sempre, com o motivo errado.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que Faraó não usou soldados?

O texto não explica, e o item 3 apresenta a explicação mais econômica: a ordem foi desenhada para produzir mortes que não parecessem mortes.

Uma criança que não vive ao nascer não gera suspeita, e a única pessoa em condições de saber o que houve é a parteira. Soldado mata à vista e deixa rastro. É leitura, e é plausível — mas o versículo não a confirma.

O que é, afinal, o "assento de parto"?

Um par de tijolos ou pedras sobre o qual a parturiente se agachava, descrito no item 2, que apresenta também o único exemplar egípcio já encontrado.

Há uma leitura antiga, registrada no item 3, segundo a qual a palavra designaria uma parte do corpo da mulher, e não o móvel. As duas leituras levam ao mesmo resultado prático — identificar o sexo no instante do nascimento — e não é possível decidir entre elas.

A ligação com a roda do oleiro de Jeremias 18 está no texto?

Não. A palavra é a mesma, e é só isso que se pode afirmar.

O Êxodo não cita Jeremias, Jeremias não cita o Êxodo, e nada indica que um autor tenha pensado no outro. O que existe é uma coincidência de vocabulário que o hebraico permite ao leitor perceber, e que comentaristas registram há séculos. Ela é sugestiva; não é argumento.

Por que as meninas podiam viver?

O versículo não diz.

A explicação corrente entre comentaristas é a de que mulheres sem homens do próprio povo se casariam com egípcios, e o grupo desapareceria como povo em uma ou duas gerações. Combina com o medo declarado em Êxodo 1:10, que é militar, e com o fato de a ordem preservar metade dos nascimentos. Continua sendo hipótese.

Faraó não estava destruindo a própria mão de obra?

Estava, e o texto não comenta a contradição.

Êxodo 1:13-14 acabaram de descrever a organização do trabalho forçado; esta ordem elimina, em uma geração, os trabalhadores que estavam por nascer. A incoerência entre o medo do rei e as medidas que ele toma já havia aparecido em Êxodo 1:10, e o estudo daquele versículo a trata. Aqui basta registrar que o padrão se repete.

As parteiras responderam alguma coisa?

O texto não diz. Ele encerra o versículo com a fala do rei e nada informa sobre reação.

Êxodo 1:17 contará o que elas fizeram, não o que disseram. A primeira fala delas no livro só virá em Êxodo 1:19, depois de convocadas — e será para explicar por que não obedeceram.

9. Conexão com Outros Textos

A outra ocorrência da palavra

Jeremias 18:3 — "Desci à casa do oleiro, e eis que ele estava fazendo a sua obra sobre as duas rodas."

É o único outro lugar da Bíblia hebraica em que a palavra deste versículo aparece, e ali designa a roda dupla do oleiro. O item 3 discute o que se pode e o que não se pode concluir disso.

Jeremias 18:6 — "Como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel."

O contexto da outra ocorrência. É a passagem em que o direito de refazer ou descartar o vaso é atribuído a Deus.

A ordem que vem depois desta

Êxodo 1:22 — "Então Faraó ordenou a todo o seu povo: Todo filho que nascer, joguem no Nilo; mas toda filha, deixem viver."

A segunda ordem repete o critério de sexo e muda tudo o mais: outro destinatário, outro método, e nenhum disfarce. Comparar as duas mostra o que esta tinha de específico.

A criança que escapou

Êxodo 2:2 — "A mulher concebeu e deu à luz um filho; e, vendo que ele era formoso, escondeu-o três meses."

Note-se o verbo: ela viu. É o mesmo verbo que Faraó usou ao mandar as parteiras verem. A mãe olha para a mesma criança e chega ao resultado oposto.

Ordens semelhantes em outros textos

Mateus 2:16 — "Herodes, vendo que fora enganado pelos magos, irou-se muito e mandou matar todos os meninos que havia em Belém e em todos os seus arredores, de dois anos para baixo."

O paralelo é evidente e é reconhecido desde a Antiguidade: um rei ameaçado por uma criança manda matar meninos. Mateus não cita Êxodo 1:16, e a semelhança de estrutura não implica dependência literária — mas ela existe e o leitor a percebe.

Quem decide sobre a vida que se forma

Salmo 139:13 — "Pois tu formaste o meu interior; tu me teceste no ventre de minha mãe."

Jó 10:8-9 — "As tuas mãos me fizeram e me formaram. Lembra-te de que como barro me formaste."

Os dois textos atribuem a formação da criança a Deus, e o segundo usa a imagem do barro. Servem para medir a distância entre o que a Bíblia hebraica diz desse momento e o que este versículo mostra um rei fazendo com ele.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

e disse: “Quando ajudarem as hebreias a dar à luz e as virem sobre o assento de parto, se for filho, matem-no; se for filha, deixem viver.”

Texto hebraico

וַיֹּאמֶר בְּיַלֶּדְכֶן אֶת־הָעִבְרִיּוֹת וּרְאִיתֶן עַל־הָאָבְנָיִם אִם־בֵּן הוּא וַהֲמִתֶּן אֹתוֹ וְאִם־בַּת הִיא וָחָיָה

Transliteração

wayyomer be-yalledkhen et-ha-ivriyyot u-re'iten al-ha-ovnayim im-ben hu wa-hamitten oto ve-im-bat hi wa-chayah

Análise palavra por palavra

וַיֹּאמֶר — wayyomer, "e disse".

Retoma o verbo que abriu Êxodo 1:15. O texto anunciou a fala, parou para dar os nomes das duas parteiras e agora reabre a fala com o mesmo verbo, sem repetir o sujeito.

בְּיַלֶּדְכֶן — be-yalledkhen, "no vosso fazer parir".

Infinitivo do verbo yalad, dar à luz, na forma intensiva, com preposição e sufixo de segunda pessoa feminina do plural.

Duas coisas a notar. A primeira: a forma intensiva do verbo é a que designa a ação da parteira — não parir, mas fazer parir —, e é a mesma raiz do particípio que dá nome ao ofício em Êxodo 1:15. A segunda: o sufixo está no feminino plural, marcando quem são as destinatárias.

A construção com a preposição indica simultaneidade: o que se ordena deve ser feito enquanto o parto acontece, não depois dele.

אֶת־הָעִבְרִיּוֹת — et-ha-ivriyyot, "as hebreias".

Objeto direto do infinitivo, com a partícula que marca o objeto. Forma feminina plural, com artigo.

Vale registrar um dado que interessa à discussão do versículo anterior: aqui, sem ambiguidade nenhuma, as hebreias são as mulheres que dão à luz, e as parteiras são outra coisa. Isso não resolve a questão de Êxodo 1:15 — as construções gramaticais são diferentes —, mas mostra que o texto sabe distinguir os dois grupos quando quer.

וּרְאִיתֶן — u-re'iten, "e virdes".

Verbo ra'ah, ver, na forma simples, segunda pessoa feminina do plural, ligado ao que vem antes.

É o verbo mais comum da língua e não tem nada de técnico. O que importa é que ele está ali: a ordem exige um ato de observação atenta, não um descuido.

עַל־הָאָבְנָיִם — al-ha-ovnayim, "sobre as duas pedras".

Esta é a palavra do versículo, e a forma é o achado.

A base é even, pedra — uma das palavras mais correntes do hebraico. Mas a terminação aqui não é a do plural comum, que seria avanim. É -ayim, a terminação do dual, que em hebraico indica especificamente dois.

O dual é usado na língua para coisas que vêm naturalmente aos pares: yadayim, as duas mãos; raglayim, os dois pés; oznayim, as duas orelhas. Aplicá-lo a "pedra" produz, ao pé da letra, "as duas pedras".

Não se trata, portanto, de um apoio genérico. O objeto que a palavra designa é composto de duas peças, e é isso que a forma da palavra informa. Nossa tradução usou "assento de parto", que diz o que é sem conseguir dizer que são duas.

A palavra reaparece uma única vez em toda a Bíblia hebraica, em Jeremias 18:3, onde designa a roda do oleiro — também um par de peças. O que se pode e o que não se pode concluir dessa coincidência está discutido no item 3.

Convém registrar duas coisas mais.

A primeira é a leitura alternativa, defendida por comentaristas antigos e por Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX): que a palavra tivesse passado a designar, por transferência da imagem, uma parte do corpo da mulher. Não há como decidir, e a maioria dos estudiosos modernos fica com o objeto.

A segunda é que a Septuaginta, a versão grega feita no Egito, não traduziu a palavra: pôs no lugar uma paráfrase, "e estiverem para dar à luz". O item 2 comenta o fato.

אִם־בֵּן הוּא — im-ben hu, "se for filho".

Construção condicional simples, com a partícula im, se, e frase nominal: literalmente "se filho ele".

Note-se a palavra escolhida: ben, filho, e não um termo específico de recém-nascido. O hebraico dispõe de outras palavras para criança pequena, e o texto usa a do parentesco.

וַהֲמִתֶּן אֹתוֹ — wa-hamitten oto, "e o matareis".

Verbo mut, morrer, na forma causativa: fazer morrer, matar. Segunda pessoa feminina do plural.

A forma causativa é a que o hebraico usa para matar em geral, e não carrega em si nenhuma nuance de método. A ordem não diz como.

Vale observar a sequência de formas femininas plurais que o versículo acumula: no infinitivo, no verbo de ver e agora no verbo de matar. O hebraico marca o gênero das destinatárias em cada verbo, de modo que, em hebraico, é impossível ler esta ordem sem ouvir a quem ela é dirigida. Em português isso se perde inteiramente.

וְאִם־בַּת הִיא — ve-im-bat hi, "e se for filha".

Segunda condicional, construída em espelho com a primeira: mesma partícula, mesma frase nominal, com a palavra "filha" e o pronome feminino.

A simetria é perfeita e é ela que dá à ordem o seu tom. Duas hipóteses, dois resultados, nenhuma palavra a mais.

וָחָיָה — wa-chayah, "e viverá".

Verbo chayah, viver. A forma tem uma dificuldade conhecida: seria de esperar aqui uma forma feminina, concordando com "filha", e o que está escrito tem aparência masculina.

As explicações são várias. Pode ser uma forma antiga não marcada quanto ao gênero; pode haver influência da vocalização; pode ser o verbo empregado de modo impessoal, "e que viva". Nenhuma se impõe, e a leitura de sentido não muda: a menina deve ser deixada viva.

Note-se, por fim, o contraste entre as duas metades. Sobre o menino, um verbo causativo e ativo, com objeto: matai-o. Sobre a menina, um verbo simples, sem objeto e sem agente: e viverá. Numa das metades as parteiras fazem alguma coisa; na outra, apenas não fazem. É a única assimetria de uma frase construída inteira em espelho.

11. Conclusão

Quatro conclusões se sustentam a partir do que foi examinado.

A primeira é sobre o desenho da ordem. Faraó escolheu o único momento em que uma morte pode não parecer morte, e as únicas pessoas capazes de produzi-la assim. Não é fúria: é planejamento, e o planejamento visa a impunidade antes de visar o resultado.

A segunda é sobre o objeto nomeado. A palavra hebraica indica um par de peças, e o que o Egito punha em volta desse par — uma deusa que declara o destino da criança, um tijolo pintado com figuras de proteção — está documentado e é apresentado no item 2. Sobre esse objeto, e não sobre outro, manda-se olhar e matar. O Êxodo não faz o comentário, e não se pode saber se quem escreveu conhecia o significado religioso da peça; o que se pode dizer é que o objeto era isso.

A terceira é sobre o alcance da medida. Meninos morrem, meninas vivem. Não é ordem de extermínio de uma população, e sim de supressão de um povo — coisas distintas, e a distinção não ameniza nada: apenas nomeia com precisão o que foi mandado fazer.

A quarta é sobre o que o versículo deixa em branco. Não há método, não há pena para quem descumprir, não há vigilância prevista e não há resposta registrada. Uma ordem dada assim conta com obediência automática — e é exatamente essa suposição que o versículo seguinte desmente.

Resta a leitura que a coincidência de vocabulário permite e que o texto não autoriza: a mesma palavra, em Jeremias 18:3, designa a roda do oleiro, no capítulo em que o direito de refazer ou descartar o vaso é de Deus. Não há ligação demonstrável entre as duas passagens. Mas quem lê hebraico vê o rei do Egito sentado diante das duas peças, decidindo o que fica.

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Êxodo 1:16

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