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Êxodo 1:18

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✍️ Por Alberto Adriano·8 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 31 acessos
O rei do Egito mandou chamar as parteiras e lhes perguntou: “Por que vocês fizeram isso e deixaram os meninos viver?”
Duas parteiras de pé diante do trono do rei do Egito, num salão de colunas, enquanto ele se inclina para interrogá-las.

Estudo


O rei do Egito mandou chamar as parteiras e lhes perguntou: “Por que vocês fizeram isso e deixaram os meninos viver?”

1. Introdução

O rei manda chamar as parteiras e faz uma pergunta. É só isso que acontece aqui, e já é bastante.

Três coisas se levantam neste versículo.

A primeira é a convocação. O homem que ordenou a morte dos recém-nascidos não sabe se a ordem foi cumprida. Precisa mandar buscar duas mulheres e perguntar. O poder que deu a ordem não tem como verificá-la sozinho: ninguém do Estado estava nos partos.

A segunda é a forma do que ele diz. Não é sentença, não é ameaça, não é ordem de prisão — é um pedido de razão. Por que vocês fizeram isso. O rei quer o motivo, e no versículo seguinte vai receber um.

A terceira é a acusação, e é a frase mais estranha do capítulo: “deixaram os meninos viver”. Em qualquer outro lugar isso seria elogio. Aqui é o corpo de delito. O que se imputa às duas é ter poupado criança.

E o versículo é notável também pelo que não traz. O texto não diz como o rei soube, não diz quanto tempo passou desde a ordem, não diz se houve denúncia e não diz o que ele fez com as duas depois da resposta. O capítulo nunca mais volta a esse ponto.

2. Contexto Histórico e Cultural

Uma audiência com o rei

A cena pressupõe que duas parteiras podiam ser levadas à presença do soberano e ouvidas. O que o acesso ao rei significava naquele mundo, e o quanto ele era raro, está desenvolvido no estudo de Gênesis 46:30.

O que interessa aqui é outra coisa: o rei teve de convocá-las. A informação não chegou até ele; ele foi buscá-la.

Um Estado de escribas — e um vazio no meio

O Egito era um Estado que escrevia tudo: contava gado, media a colheita, registrava turmas de trabalhadores, guardava listas de servos com nome e procedência — as listas com nomes semitas aparecem no estudo de Gênesis 39:1.

Mas não se conhece registro egípcio de nascimentos de uma população estrangeira de trabalhadores. Nascimento não era ato de cartório. A criança entrava na documentação, quando entrava, muito depois — como pessoa que trabalha, que paga, que é contada.

Daí o buraco em que este versículo se apoia. O rei ordenou a morte de recém-nascidos numa população cujos nascimentos ninguém anotava, e não tem contra o que comparar o que lhe disserem.

A parteira não era funcionária

O ofício da parteira, o que essas mulheres sabiam e como trabalhavam, está tratado no estudo de Gênesis 35:17.

Falta acrescentar um dado egípcio que muda a leitura da cena. A corte egípcia tinha um título documentado para a ama de leite real — menat (“ama”, em egípcio), cargo de mulheres da alta nobreza, com túmulo, honras e influência. Para “parteira”, porém, não há título administrativo claro nos registros do Egito faraônico; a palavra aparece em fontes tardias, e as imagens de assistência ao parto são de templo, não de repartição.

O quadro é discutido, e convém não afirmar mais do que a documentação permite. Mas a direção que ele aponta é firme: a mulher que amamentava o filho do rei tinha cargo; a que fazia nascer o filho de uma trabalhadora estrangeira, não.

Isso explica o verbo do versículo. Sifrá e Puá não são chamadas ao trabalho: são mandadas chamar. Não estavam em lugar nenhum do organograma. Eram profissionais de bairro, procuradas de casa em casa, e o Estado teve de ir atrás delas quando quis prestação de contas.

Uma ordem oral

Vale registrar o que falta. Não se conhece documento egípcio que traga uma ordem como a do versículo anterior. O que o texto descreve é uma instrução dada de viva voz a duas pessoas — sem edito, sem cópia, sem arquivo.

Uma ordem assim não deixa rastro, e é justamente por isso que ela não se verifica. O único registro do que aconteceu nos partos é a palavra de quem esteve lá.

3. Análise Teológica do Versículo

“O rei do Egito mandou chamar as parteiras”

O versículo começa com uma admissão de fraqueza, e ela passa despercebida porque vem disfarçada de gesto de força.

Mandar chamar é agir. Mas é agir depois, e por falta de outro caminho. Um poder que soubesse não convocaria: puniria, ou nem isso — bastaria continuar. A convocação existe porque falta informação.

Repare no desenho da coisa. A ordem desceu do rei para duas mulheres, e o relatório do cumprimento só pode subir por essas mesmas duas mulheres. Entre a ordem e a notícia não há testemunha, não há papel, não há terceiro. O Estado egípcio, que media a cheia e contava sacos de grão, não tinha ninguém dentro das casas onde as crianças nasciam.

O rei continua sem nome — é “o rei do Egito”, e o estudo de Êxodo 1:15 trata do assunto. Aqui o que conta é o que o título faz na frase: quem manda chamar é o Estado, não um homem.

“e lhes perguntou”

Ele pergunta. Não é detalhe de estilo.

Uma pergunta abre espaço para uma resposta, e uma resposta abre espaço para uma versão dos fatos. Se o rei tivesse chegado à conclusão sozinho, não haveria conversa: haveria pena. Ao perguntar, ele entrega às duas o poder de descrever o que aconteceu.

E convém notar quem está falando com quem. Duas profissionais sem cargo, de um povo submetido a trabalho forçado, diante do homem mais poderoso daquele mundo — e ele espera que elas expliquem. Elas vão explicar.

“Por que vocês fizeram isso”

A pergunta é por razão, e não por causa. Ele não quer saber o que aconteceu: quer saber o motivo.

Isso já supõe que houve escolha. Ninguém pergunta o motivo de um acidente. A formulação do rei reconhece, sem querer, que as duas decidiram — e é a única coisa neste versículo em que ele acerta.

E o objeto da pergunta não tem nome. Ele diz “isso”, “esta coisa”. Não diz “por que vocês me desobedeceram”, não diz “por que pouparam os meninos hebreus”, não diz “por que descumpriram a minha ordem”. A ordem do versículo 16 não é repetida em voz alta.

Há mais de uma explicação possível, e o texto não escolhe entre elas. Pode ser a linguagem comum de quem interpela — “esta coisa que vocês fizeram” é como se acusa em qualquer época. Pode ser o cuidado de quem não põe por extenso uma ordem que não pode ser posta por extenso. Não é possível decidir. O que se pode observar é o efeito: a ordem de matar recém-nascidos, no capítulo inteiro, é dita uma vez só, e nunca mais é repetida pela boca de quem a deu.

“e deixaram os meninos viver”

Aqui está a frase que faz o capítulo girar.

Isolada, ela é uma boa notícia. Alguém deixou crianças viverem. É o tipo de frase que se diz com alívio, no fim de uma história difícil.

Na boca do rei, é a acusação. É o que ele tem contra elas, o fato que as põe diante do trono, aquilo de que devem se justificar. O capítulo chegou ao ponto em que poupar criança é infração.

E o mesmo verbo já tinha aparecido na boca dele. No versículo 16, ao dar a ordem, o rei disse “deixem viver” — a respeito das meninas. Ele não proíbe deixar viver: ele autoriza deixar viver, desde que seja o sexo certo. O que está sendo cobrado não é misericórdia a mais, é seleção de menos.

Vale dizer com todas as letras, porque a familiaridade da história embota isto: o que se discute nesta audiência é uma cota de mortes por sexo, e as duas convocadas não a cumpriram.

O texto acusa alguém aqui?

Não. O Êxodo não escreve que o rei estava errado nem que as parteiras estavam certas: relata uma convocação e uma pergunta, sem adjetivo em ninguém. A avaliação da cena virá nos versículos 20 e 21, e virá em forma de ato de Deus, não de comentário.

O que o texto não diz

A lista é grande, e cada item dela é uma pergunta que a pregação costuma responder sem base.

O texto não diz como o rei ficou sabendo. Não diz se alguém denunciou, se ele mandou apurar, se percebeu sozinho que continuavam nascendo meninos.

Não diz quanto tempo passou entre a ordem e a audiência. Podem ter sido semanas, podem ter sido anos.

Não diz se ele desconfiava da resposta antes de ouvi-la.

E não diz o que aconteceu com as duas depois. Elas não são presas, não são mortas, não são substituídas — pelo menos, o texto não registra nada disso. Simplesmente saem de cena, e a única notícia posterior sobre elas é a do versículo 21.

Quem preencher esses vazios está contando outra história. O versículo tem uma convocação, uma pergunta e uma acusação de ter poupado crianças. É tudo, e é muito.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O rei do Egito

Nesta cena ele aparece em três funções ao mesmo tempo: é quem deu a ordem, é quem investiga o descumprimento e é quem julga. Não há instância acima dele nem ao lado dele — e é isso que torna a audiência o que ela é.

Sifrá e Puá

Os nomes não são repetidos aqui — o versículo diz “as parteiras”. Quem elas são, e a discussão sobre se eram hebreias ou egípcias, estão no estudo de Êxodo 1:15.

O que este versículo acrescenta a respeito delas é simples e pesado: são duas mulheres capazes de comparecer diante do rei e responder. Não fogem, não somem, não se escondem. Vão.

“Os meninos”

São os recém-nascidos varões dos hebreus, aqueles a quem a ordem do versículo 16 se dirigia. O texto os chama pela palavra comum para crianças, sem nada que os individualize.

Eles são o assunto da audiência e não aparecem nela. É a situação inteira do capítulo em miniatura: decide-se sobre gente que não está na sala.

O que aconteceu antes

O rei mandou matar os meninos ao nascer (Êxodo 1:15-16); as parteiras temeram a Deus e não fizeram o que ele mandara (Êxodo 1:17). Agora ele as chama de volta.

Entre o versículo 17 e o 18 há um intervalo que o texto não mede. Meninos nasceram e viveram nele — quantos, e por quanto tempo, o texto não diz.

5. Pontos de Ensino

Um poder que precisa perguntar não sabe tudo

O rei do Egito comanda um dos aparelhos administrativos mais eficientes da Antiguidade, e mesmo assim tem de mandar buscar duas parteiras para descobrir o que aconteceu. Nenhum poder alcança tudo. Sempre há um cômodo em que ele não está, e é sempre num desses cômodos que a decisão de verdade é tomada.

Ordem criminosa depende de gente comum

Quem manda não executa. Entre a ordem e o corpo há sempre alguém — e esse alguém não é um monstro, é uma profissional no seu dia de trabalho. Todo o plano do capítulo passa pelas mãos de duas mulheres, e é ali que ele emperra.

A acusação retrata o acusador

“Por que vocês deixaram os meninos viver?” Basta a pergunta para saber tudo sobre quem a faz. Há regimes que se descrevem sozinhos no momento em que dizem qual é o crime.

Perguntar já é reconhecer que houve escolha

Ao pedir o motivo, o rei admite que as duas podiam ter feito diferente. Quem executa uma ordem má costuma dizer que não havia alternativa; a pergunta do próprio mandante desmente isso.

O texto não distribui elogios

Este é o ponto que mais se perde na leitura devocional. O versículo não louva as parteiras nem condena o rei. Ele relata. A avaliação virá dois versículos adiante, e virá em forma de ato de Deus, não de comentário. Aprender a ler o que está escrito, sem antecipar o aplauso, é parte do trabalho.

6. Aspectos Filosóficos

O que o poder sabe, e por onde ele sabe

Este versículo levanta um problema que não é religioso nem político em primeiro lugar: é um problema de conhecimento.

Quem manda não vê. A ordem desce por uma linha; a notícia de que ela foi cumprida sobe por outra — e as duas linhas passam pela mesma pessoa. Quem executa é a única testemunha do que executou. O mandante, por mais poderoso que seja, fica sabendo aquilo que o executor decidir contar.

Disso decorre uma consequência incômoda: o poder de dar ordens e o poder de saber o que se passou não são o mesmo poder, e o segundo não se conquista com o primeiro. Um rei pode multiplicar decretos e continuar cego.

Há um segundo aspecto, ainda menos confortável. Quanto pior a ordem, menos ela pode ser fiscalizada. Uma ordem que se escreve, arquiva e confere deixa vestígio; uma ordem dada de viva voz, a duas pessoas, num quarto, não deixa. O sigilo que protege quem manda é o mesmo que o impede de verificar: ele paga a proteção com a cegueira.

E há o ponto onde isso encosta na moral, sem virar regra. Quem executa detém alguma coisa. Não é força, não é cargo, não é direito — é a única versão disponível dos fatos. É pouco, e num regime desses pode ser tudo o que existe. O capítulo mostra duas mulheres com isso nas mãos, e mostra o que elas fazem com isso no versículo seguinte.

7. Aplicações Práticas

O versículo tem uma aplicação, e só uma que se sustente. As outras que costumam aparecer aqui são emprestadas do versículo 17 ou do 19.

Quem executa é sempre chamado a explicar

Quem descumpre uma orientação que considera errada não escapa da conversa. Uma hora vem a convocação, e vem na forma da pergunta deste versículo: por que você fez isso?

Vale antecipar isso com honestidade. Descumprir tem preço, e o preço começa por ter de responder — muitas vezes sozinho, diante de quem tem poder sobre a sua vida prática. O capítulo não esconde esse momento: ele o narra.

O nome que se dá ao que se fez

Há um detalhe utilíssimo na cena. O rei não pergunta “por que vocês desobedeceram”; pergunta “por que vocês deixaram os meninos viver”. É ele quem escolhe como descrever o ato.

Quem é interpelado por causa de uma decisão dessas costuma aceitar a descrição do outro sem perceber. Vale prestar atenção nisso: quem define o nome do ato já ganhou metade da discussão. O que para um é “insubordinação” para outro é “não matei ninguém”.

Um limite

Não se tire daqui uma regra sobre desobedecer a chefes, autoridades ou governos. A ordem em questão era matar recém-nascidos. Nada no versículo autoriza estender a cena para desavenças comuns de trabalho, e fazer isso é usar o texto para o que ele não serve.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Como o rei descobriu que os meninos estavam vivos?

O texto não diz. Não há denúncia registrada, nem inquérito, nem informante. A hipótese mais econômica é a mais simples: continuavam nascendo e crescendo meninos hebreus, e isso é visível sem investigação nenhuma. Mas é hipótese, e o versículo não a confirma.

Duas parteiras davam conta de um povo inteiro?

A dificuldade é real, e as três saídas propostas estão examinadas no estudo de Êxodo 1:15, que é onde as duas são apresentadas. O que interessa aqui é outra coisa: seja qual for o número de parteiras que existisse, o rei convoca estas duas e cobra delas a conta do conjunto. Ele as trata como responsáveis por tudo o que nasceu.

A pergunta do rei é retórica?

Não parece. Ele pede um motivo, e o versículo seguinte traz um motivo — que ele aparentemente aceita, já que a história segue sem punição. Se a pergunta fosse encenação, a resposta não teria função nenhuma na cena, e ela tem.

Elas podiam ter dito a verdade?

Esta é a pergunta que o versículo 19 responde, e o estudo daquele versículo trata dela por inteiro. Aqui só cabe registrar que a pergunta existe porque o rei abriu espaço para ela ao perguntar.

O que aconteceu com Sifrá e Puá depois?

O texto não conta. O versículo 21 diz que Deus lhes deu casas, e é a última notícia. Nem o Êxodo nem qualquer outro livro da Bíblia volta a elas. A história delas fica sem fim.

9. Conexão com Outros Textos

O mesmo Estado, cobrando os mesmos intermediários

Êxodo 5:14 — “E os capatazes dos filhos de Israel, que os chefes de trabalhos de Faraó tinham posto sobre eles, foram espancados, e lhes diziam: Por que não cumpriram, ontem e hoje, a cota de tijolos como antes?”

É a mesma estrutura, quatro capítulos adiante: o poder não fala com o povo, fala com o intermediário, e cobra dele o resultado. A diferença é o desfecho — ali há espancamento, aqui há pergunta.

O rei que convoca e pede explicação

Daniel 3:14 — “Falou Nabucodonosor e lhes disse: É verdade, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que vocês não servem aos meus deuses nem adoram a imagem de ouro que levantei?”

Também aqui o rei manda chamar, também aqui pergunta em vez de executar, e também aqui a informação sobre o descumprimento chega a ele de fora.

1 Samuel 22:13 — “E Saul lhe disse: Por que vocês conspiraram contra mim, você e o filho de Jessé, dando-lhe pão e espada?”

A mesma fórmula de interpelação — por que vocês fizeram isso —, dirigida a um sacerdote que ajudou um perseguido. O desfecho daquele episódio é o oposto deste: Saul manda matar os sacerdotes.

A autoridade religiosa na mesma posição

Atos 5:27-28 — “E, trazendo-os, os apresentaram ao conselho. E o sumo sacerdote os interrogou, dizendo: Não ordenamos expressamente a vocês que não ensinassem nesse nome?”

A cena se repete com outros atores: convocação, pergunta, ordem descumprida. Vale registrar que o padrão não é exclusivo do poder político.

Um faraó interpelando, no livro anterior

Gênesis 12:18 — “Então Faraó chamou a Abrão e disse: Que é isto que me fez? Por que não me disse que ela era sua mulher?”

A ligação é curiosa e o estudo daquele versículo a desenvolve: também ali um faraó convoca e pergunta, e também ali o assunto é uma mentira. As posições, porém, estão invertidas — lá quem mentiu foi o hebreu, e quem foi enganado foi o rei.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

O rei do Egito mandou chamar as parteiras e lhes perguntou: “Por que vocês fizeram isso e deixaram os meninos viver?”

Texto hebraico

וַיִּקְרָא מֶלֶךְ־מִצְרַיִם לַמְיַלְּדֹת וַיֹּאמֶר לָהֶן מַדּוּעַ עֲשִׂיתֶן הַדָּבָר הַזֶּה וַתְּחַיֶּיןָ אֶת־הַיְלָדִים׃

Transliteração

wayyiqra melekh-Mitsrayim lamyalledot wayyomer lahen: maddua asiten haddavar hazzeh, wattechayyena et-hayladim.

Análise palavra por palavra

וַיִּקְרָא — wayyiqra, “e chamou”. Raiz qara.

O verbo básico de chamar, gritar, convocar, também usado para ler em voz alta e para dar nome a alguém.

O que define o sentido aqui é a preposição que vem junto: qara le, a construção deste versículo, é mandar chamar, fazer vir à presença. Não é o rei erguendo a voz num corredor — é ordem de comparecimento, a mesma que Faraó dá a Abrão em Gênesis 12:18 e Abimeleque aos seus servos em Gênesis 20:8.

מֶלֶךְ־מִצְרַיִם — melekh-Mitsrayim, “rei do Egito”.

O título, sem nome próprio. É a forma que o texto usa nos versículos 15, 17 e 18 — e, nos versículos 19 e 22, ele passa a “Faraó”. O estudo de Êxodo 1:19 trata dessa troca.

לַמְיַלְּדֹת — lamyalledot, “às parteiras”.

Particípio feminino plural do verbo yalad (dar à luz) na forma intensiva, que aqui tem valor de fazer parir, assistir o parto. Literalmente: “as que fazem dar à luz”. O ofício está tratado no estudo de Gênesis 35:17.

Vale notar uma ausência. No versículo 15 elas são hamyalledot ha-ivriyyot, expressão de dupla leitura possível — “as parteiras hebreias” ou “as parteiras das hebreias”. Aqui, e no versículo 17, ficam só “as parteiras”, sem qualquer qualificativo. A ambiguidade do versículo 15 não se repete, porque a palavra que a produzia sumiu.

לָהֶן — lahen, “a elas”.

Preposição com sufixo de terceira pessoa do feminino plural. Guarde este dado: ele volta a importar três versículos adiante.

O hebraico dispõe de duas formas, lahen para grupo feminino e lahem para grupo masculino, e aqui usa a feminina, como seria de esperar de um texto que fala de duas mulheres. No versículo 21, na mesma cena e sobre as mesmas duas pessoas, aparece lahem, a masculina. O estudo daquele versículo discute o que se pode e o que não se pode tirar disso.

מַדּוּעַ — maddua, “por quê”.

Palavra interrogativa formada, ao que tudo indica, de mah (o quê) com uma forma passiva do verbo saber: algo como “o que se sabe”. A origem é discutida; o uso é claro.

O hebraico tem duas maneiras de perguntar por quê. Lammah olha para a frente e pergunta pela finalidade — para quê, com que propósito. Maddua olha para trás e pergunta pela razão de um fato consumado.

O rei usa a segunda. Não pergunta o que as duas pretendem: pergunta a razão do que fizeram. É a palavra de quem quer explicação, a mesma com que Moisés se vira para a sarça em Êxodo 3:3.

עֲשִׂיתֶן — asiten, “vocês fizeram”. Raiz asah.

O verbo mais comum do hebraico para fazer, agir, executar, produzir. A forma é de ação concluída, segunda pessoa do feminino plural — a terminação -ten marca o grupo de mulheres.

É o mesmo verbo que aparecerá no versículo 21 com Deus por sujeito: elas fizeram uma coisa, e Deus fará outra em resposta.

הַדָּבָר הַזֶּה — haddavar hazzeh, “esta coisa”, “este ato”.

Davar é, ao mesmo tempo, palavra e coisa — o que se diz e o que se faz, o assunto e o objeto. O hebraico não separa os dois campos, e o contexto decide. Aqui o sentido é “este ato”, “este caso”.

A expressão é deliberadamente vaga em qualquer língua. O rei não nomeia o que foi descumprido; diz “esta coisa”. O que ele nomeia vem em seguida, e é o oposto de uma acusação comum.

וַתְּחַיֶּיןָ — wattechayyena, “e vocês deixaram viver”. Raiz chayah.

Esta é a palavra do capítulo, e vale acompanhá-la.

A raiz chayah significa viver, estar vivo, sobreviver. Na forma simples, o sujeito é quem vive. Na forma intensiva, que é a deste versículo, o sujeito é quem faz viver: preservar a vida de alguém, manter vivo, poupar. Não é omissão — é ação. As parteiras não “deixaram de matar”: elas mantiveram vivos.

A forma verbal está na segunda pessoa do feminino plural, com a terminação -na.

A raiz reaparece nos momentos decisivos do capítulo, e o sujeito dela muda a cada vez — a menina, as parteiras, o rei, o povo egípcio. O percurso completo está no estudo de Êxodo 1:22, onde a palavra aparece pela última vez.

O que interessa aqui é o uso que o rei faz dela. Ele emprega o mesmo verbo com que dera a ordem no versículo 16, sobre as meninas — só que agora, aplicado aos meninos, ele nomeia um crime.

אֶת־הַיְלָדִים — et-hayladim, “os meninos”.

Yeled é a palavra comum para criança, do recém-nascido ao rapazinho, formada da mesma raiz de dar à luz — literalmente, “o nascido”. O plural masculino aqui designa os varões.

Vale notar a mudança de vocabulário: na ordem do versículo 16 o rei disse ben, “filho”, palavra de parentesco e de linhagem; agora diz yeladim, “crianças”; e no versículo 22 voltará a ben. Não é possível decidir se a alternância carrega intenção. Registra-se como observação.

11. Conclusão

Do que foi visto, três conclusões se impõem.

A primeira é sobre o alcance do poder. O rei do Egito manda matar e não consegue saber se foi obedecido. Entre a ordem e o fato há um espaço que nenhuma administração cobre — o quarto onde a criança nasce —, e é nesse espaço que a história do capítulo se decide. A convocação do versículo é a prova documental dessa cegueira: quem enxerga não precisa perguntar.

A segunda é sobre o que se pode ler numa acusação. “Por que vocês deixaram os meninos viver?” é uma frase que descreve inteiramente quem a pronuncia. Não é preciso que o texto qualifique o rei; a pergunta dele já o qualifica. E a mesma frase mostra que não está em causa a vida das crianças em geral — o rei já autorizara poupar as meninas. O que ele exige é a seleção, e é a seleção que não foi feita.

A terceira é sobre o silêncio do Êxodo. Este versículo não elogia nem condena ninguém: registra a convocação, a pergunta e a acusação, e passa adiante sem adjetivo. Quem quiser o veredito terá de esperar os versículos 20 e 21, onde ele vem em forma de ato — e mesmo lá virá ligado ao temor de Deus, não à cena da audiência.

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