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Êxodo 3:3

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✍️ Por Alberto Adriano·8 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 32 acessos
Então ele disse: “Vou me desviar para ver esta grande visão — por que a sarça não se queima.”
Um pastor deixa a trilha e caminha na direção de um arbusto em chamas numa encosta seca, olhando com atenção para o fogo que não apaga.

Estudo


Então ele disse: “Vou me desviar para ver esta grande visão — por que a sarça não se queima.”

1. Introdução

Este é o versículo em que Moisés fala pela primeira vez no capítulo, e o que ele diz é uma frase de curiosidade, não de reverência.

Ele anuncia o que vai fazer — sair do caminho para chegar perto — e diz por quê. O motivo está na segunda metade da fala, e é ele que interessa: "por que a sarça não se queima."

Repare no que Moisés não disse. Não disse "por que há fogo aqui", nem "que luz é esta", nem "quem está ali". A pergunta dele é sobre uma coisa que não está acontecendo.

É aí que está o achado deste versículo, e ele corrige uma leitura muito difundida. O que chama a atenção de Moisés não é o fogo. Fogo em mato seco de deserto é banal, e um pastor daquela região tinha visto centenas. O que não é banal é a duração: o arbusto continua ali, queimando e inteiro, e continua enquanto se olha.

Disso decorre uma consequência que o estudo desenvolve: o extraordinário da cena não é um acréscimo ao mundo, é uma subtração. O milagre está no que deixou de acontecer.

E há um detalhe de vocabulário que vale antecipar: Moisés chama o que vê de "esta grande visão", e "grande" é o único juízo que ele emite — não de tamanho, porque um arbusto de deserto é pequeno.

2. Contexto Histórico e Cultural

Quanto tempo dura um espinheiro em chamas

Para medir a reação de Moisés é preciso saber o que ele sabia, e o que ele sabia era prático.

Arbusto espinhoso de terra seca é combustível, e é o principal combustível que existe num deserto sem árvore. Galho fino, folha pequena, madeira leve, resina: pega fogo com facilidade, arde alto e acaba depressa. Quem cozinha com esse material calcula por punhado, porque uma braçada não sustenta uma panela.

A Bíblia registra o dado sem estar tratando de botânica. Eclesiastes 7:6 compara o riso do tolo ao "crepitar dos espinhos debaixo da panela" — a imagem é a de um barulho grande que termina em nada. O Salmo 58:9 fala das panelas que sentem o fogo dos espinhos, e o Salmo 118:12 diz que os inimigos "se apagaram como fogo de espinhos". Nos três casos, o que a imagem transporta é a mesma coisa: espinho queima rápido e some.

É esse conhecimento que faz a cena funcionar. Moisés não está diante de um fenômeno que exija instrumento para ser medido. Ele está diante de um material cujo tempo de queima ele conhece de cor, e o material não está cumprindo o tempo.

Fogo no deserto, como acontecimento comum

Convém dizer também o que a cena tem de corriqueiro, porque a memória popular apagou isso.

Vegetação seca em região de pouca chuva pega fogo sozinha, por raio, por calor, por brasa esquecida. Um pastor que passa a vida em terreno assim vê fumaça com frequência, e a resposta habitual não é aproximar-se: é desviar o rebanho e seguir, porque fogo é risco para animal e para pasto. A atitude de Moisés é, portanto, o contrário da atitude prudente do ofício.

Uma palavra sobre as explicações naturais

Desde a Antiguidade há tentativas de encontrar uma causa comum para a cena: uma planta com óleo volátil que queima sem se danificar, uma folhagem avermelhada confundida com fogo, gás inflamável saindo do solo, um efeito de luz do fim da tarde.

Vale registrar que essas propostas existem e por que nenhuma delas responde ao que o texto descreve. Todas explicam a aparência do fogo; nenhuma explica a permanência. E é a permanência, e não a aparência, o que o versículo põe na boca de Moisés.

3. Análise Teológica do Versículo

"Então ele disse"

Moisés fala, e não fala com ninguém. Não há interlocutor na cena — o rebanho não conta, e Deus ainda não se dirigiu a ele. O Êxodo registra uma frase dita em voz alta por um homem sozinho, e usa o verbo simples de falar, e não a fórmula "disse no seu coração", com que a Bíblia costuma dar acesso ao pensamento. Se a diferença é significativa, não é possível decidir; o efeito é que a decisão de Moisés está no texto como fala, e não como intenção.

"Vou me desviar"

O verbo é o de sair do caminho, virar para o lado. Ele pressupõe que havia um caminho — Moisés estava indo a algum lugar, com o rebanho, e para chegar perto da sarça precisou abandonar a rota.

Dois silêncios do texto merecem registro. O primeiro: o Êxodo não diz o que aconteceu com os animais. Um rebanho de ovelhas e cabras sem condutor se espalha, e o versículo não se ocupa disso. O segundo: não há nenhuma indicação de tempo. Não se sabe se ele decidiu na hora ou se ficou olhando de longe antes de decidir.

E há um detalhe que a nossa versão conserva bem. A forma hebraica do verbo traz uma partícula de cortesia — algo como "deixa-me desviar", "vou desviar, se puder". É a forma de quem propõe alguma coisa a si mesmo, e não a de quem ordena. O tom é de deliberação, não de arrebatamento.

"para ver esta grande visão"

Duas coisas aqui, e a segunda é a que interessa.

A primeira é o verbo, de novo o de ver. É a terceira vez que ele aparece em dois versículos: o anjo se fez ver, Moisés viu, e agora quer ver melhor. No versículo 4 será o SENHOR quem vê.

A segunda é o adjetivo. Moisés chama o que está diante dele de "grande", e esse é o único juízo que ele emite sobre a cena. Não diz que é assustador, não diz que é santo, não diz que é bonito.

E não é grande de tamanho. Um arbusto espinhoso de deserto é menor que um homem, e a chama que sai dele não é maior do que uma fogueira. "Grande", na boca dele, quer dizer outra coisa: fora de medida, difícil de encaixar, importante demais para ser deixado para trás. É um juízo de peso, não de dimensão — e é um juízo feito antes de qualquer palavra ter sido dita a ele.

"por que a sarça não se queima"

Esta é a frase decisiva do versículo, e ela é uma pergunta sobre um fato negativo.

Vale ver isso devagar, porque a leitura corrente atravessa por cima. A pergunta de Moisés não é "o que é este fogo". Não é "quem acendeu isto". Não é "que luz é essa". É: por que a sarça não se queima. O objeto da curiosidade dele é uma ausência.

O que não aconteceu, e por que isso muda tudo

Volte-se ao que o versículo 2 informou. Ele não diz que a sarça pegou fogo diante de Moisés, não diz que houve um clarão repentino, não diz que a chama se acendeu de repente. Diz que a sarça ardia — a forma verbal hebraica descreve ação em curso — e que não estava sendo consumida.

Ou seja: quando Moisés olhou, o fogo já estava lá. Ele não presenciou nenhum acontecimento; encontrou uma situação.

E uma situação só se revela anômala com o tempo. Um arbusto em chamas, visto num instante, é apenas um arbusto em chamas. Para perceber que ele não se consome é preciso olhar, esperar, e olhar de novo — o suficiente para que o prazo conhecido se esgote. A anomalia da cena não está disponível num relance: ela precisa de duração para aparecer, tanto do lado da sarça quanto do lado de quem observa.

Daí decorre a formulação mais exata do que aconteceu ali. O extraordinário deste episódio não é um acréscimo ao mundo — não há nada na cena que o mundo não produza sozinho. É uma subtração: falta o desfecho. O fogo faz tudo que fogo faz, menos a última coisa.

Esse é um tipo de sinal bem diferente do que a linguagem religiosa costuma imaginar. Ele não se impõe, não obriga, não interrompe ninguém à força. Quem passasse rápido veria fumaça e seguiria.

O que este versículo não autoriza a dizer

Convém fechar com um limite, porque o material daqui é atraente demais para o comentário devocional. Este versículo não ensina que Deus se revela aos atentos. Não diz que Moisés foi escolhido por ter parado, nem que outro homem, distraído, teria perdido a vez. O Êxodo relata que ele se desviou e que viu; não avalia a atitude dele e não a compara com nenhuma outra.

O que o versículo autoriza é a descrição, e ela já é bastante: um homem viu um fogo comum comportar-se de modo incomum, achou aquilo grande, e resolveu chegar perto. Tudo o que vem depois no capítulo repousa sobre essa decisão pequena.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés

É o único personagem em cena, e este é o primeiro versículo do Êxodo em que ele fala desde o capítulo 2, quando disse a um hebreu que brigava: "Por que você golpeia o seu companheiro?" São as duas únicas falas dele até aqui. A primeira foi uma repreensão, e terminou mal — ele foi respondido com ameaça e fugiu do Egito. Esta é uma frase dita a ninguém, sobre um arbusto.

A sarça

O arbusto do versículo anterior, agora nomeado pelo próprio Moisés — a única ocorrência da palavra hebraica no capítulo que sai da boca de uma pessoa, e não do texto.

A visão

A palavra que Moisés usa para o que vê é a mesma que a Bíblia emprega para aparições e para o aspecto visível de alguma coisa. Ela não carrega, por si, nada de sobrenatural. Aqui vem qualificada como "grande", e é a combinação que dá o tom: Moisés não classifica o que vê como revelação, e sim como coisa fora do comum que merece ser examinada.

O caminho de onde ele se desvia

O verbo pressupõe uma rota. O Êxodo não informa qual era, nem para onde Moisés levava o rebanho depois de chegar a Horebe — sabe-se apenas, pelo versículo 1, que ele tinha ido para além do deserto. Reconstruções do trajeto existem e são todas conjeturais.

O que ainda não aconteceu

Neste ponto do capítulo, ninguém falou com Moisés. Ele não sabe que há alguém ali. A informação de que quem apareceu foi o anjo do SENHOR é dada ao leitor no versículo 2 e não ao personagem — e a diferença entre os dois pontos de vista é o que dá sentido à curiosidade dele.

5. Pontos de Ensino

O sinal não se impõe

A cena não obriga ninguém a nada. Não há estrondo, não há luz que cegue, não há barreira no caminho. Há um arbusto queimando — coisa que qualquer um do lugar já tinha visto — e uma anomalia que só se percebe com o tempo.

É um ponto de ensino contra uma expectativa muito comum, a de que um sinal verdadeiro seria inconfundível. Este não é. Ele podia ser atravessado sem ser notado, e o Êxodo não parece considerar isso um defeito.

A pergunta certa é sobre o que falta

Moisés não pergunta o que é o fogo. Pergunta por que a sarça não se queima. Há aqui um ensino de método que serve muito além do versículo: reparar no que deixou de acontecer é mais difícil, e às vezes mais informativo, do que reparar no que aconteceu. O que está presente se impõe sozinho; a ausência precisa ser procurada, e só a percebe quem sabia o que deveria estar ali.

Ele precisou saber do ofício para estranhar

Se Moisés não conhecesse a velocidade com que um espinheiro queima, não teria estranhado nada. O espanto dele é um espanto informado — e vale registrar isso porque a leitura devocional costuma opor conhecimento e admiração, como se saber demais impedisse admirar.

Curiosidade não é irreverência

A primeira reação de Moisés diante de uma manifestação divina é querer entender. Ele não se ajoelha, não reza, não recua: diz que vai chegar perto para ver. O Êxodo não repreende essa reação. A ordem de parar virá dois versículos adiante, e virá pelo motivo que o estudo do versículo 5 trata — não como correção de uma curiosidade indevida.

O que não se pode tirar daqui

Um ponto final, de cautela. É tentador transformar este versículo em regra — quem presta atenção encontra Deus, quem se desvia é chamado. O texto não sustenta isso: relata um caso, não formula uma lei, e não diz nada sobre o que teria acontecido se Moisés tivesse seguido em frente.

6. Aspectos Filosóficos

Perceber uma ausência

A pergunta de Moisés — por que a sarça não se queima — levanta uma questão conhecida de quem já pensou em como funciona a percepção: é possível ver o que não está acontecendo?

A resposta estrita é não. Uma ausência não emite luz, não ocupa espaço e não tem contorno; não existe nada, na cena, correspondente ao "não" da frase de Moisés.

E, no entanto, a experiência de notar uma falta é real e todo mundo a tem. Percebe-se que alguém não veio, que um barulho parou, que um objeto sumiu da mesa. O que isso revela é que perceber não é apenas receber: é comparar o que se recebe com o que se esperava. A ausência aparece no intervalo entre as duas coisas.

Daí decorre uma consequência que este versículo ilustra melhor do que qualquer exemplo inventado. A ausência é percebida por quem tinha a expectativa — e só por ele. Um homem que nunca tivesse feito fogo com espinheiro não teria expectativa alguma sobre quanto tempo aquilo dura, e não teria visto falta nenhuma: teria visto um arbusto queimando, que é o que estava lá. A percepção da anomalia depende, portanto, de conhecimento prévio. Isso não a torna arbitrária — a sarça realmente não se consumiu, e isso independe de quem olha —, mas a torna disponível só a certos observadores.

Há ainda um segundo traço, e é temporal. Uma ausência precisa de prazo para se constituir. Ninguém percebe que alguém não veio antes da hora marcada, e ninguém percebe que um fogo não consome antes do tempo em que ele deveria ter consumido. A anomalia deste capítulo não é um estado que se possa fotografar: é a soma de instantes em que alguma coisa deveria ter terminado e não terminou.

7. Aplicações Práticas

Olhar de novo antes de concluir

A anomalia da sarça só existe no tempo. Num relance, é um arbusto queimando; a diferença aparece na segunda olhada, e na terceira.

A aplicação é direta e vale para quase tudo que se avalia: a primeira impressão registra o que está acontecendo, e não registra o que deveria ter acontecido e não aconteceu. Um número que não subiu, um retorno que não veio, um problema que não apareceu — nada disso salta aos olhos. Quem decide só com a primeira leitura decide sobre a metade dos fatos.

Estranhar exige saber

Moisés estranhou porque conhecia o material. Um forasteiro teria visto fogo e teria seguido em frente.

Isso desmonta uma ideia bastante difundida, a de que a familiaridade embota. Na maioria dos ofícios acontece o contrário: quem conhece bem uma coisa é justamente quem percebe quando ela está fora do padrão. O leigo não se espanta, porque não tem com o que comparar.

Perguntar antes de nomear

A reação de Moisés é uma pergunta, não uma conclusão. Ele não diz "isto é um sinal", nem "isto é Deus", nem "isto é um truque". Diz que vai chegar perto para ver por quê — e, para isso, sai do caminho, o que sempre custa alguma coisa.

Numa cultura em que a pressa de rotular chegou a quase tudo, essa ordem — primeiro examinar, depois nomear — é aplicação prática de todo dia, e é rara justamente porque nomear é rápido e examinar é lento.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Quanto tempo Moisés ficou olhando?

O Êxodo não diz, e a pergunta é boa porque a resposta não pode ser "nenhum". Para concluir que a sarça não se consumia, era preciso esperar o tempo em que ela deveria ter-se consumido.

Isso põe no versículo uma duração que o texto não mede. Minutos, provavelmente; o suficiente para que um punhado de galho seco se acabasse e não se acabasse. Qualquer número é conjetura, e a exigência de que haja algum número não é.

O que aconteceu com o rebanho?

O Êxodo não menciona os animais de novo depois do versículo 1: eles somem do capítulo. É um silêncio comum na narrativa bíblica, que abandona o que deixou de importar para a cena.

Se Moisés não tivesse se desviado, Deus não teria falado?

O versículo 4 estabelece a ordem dos fatos, e o estudo dele trata do que essa ordem permite concluir e do que não permite. Aqui basta dizer o que este versículo sozinho autoriza: nada. Ele registra a decisão de Moisés e não faz nenhuma afirmação sobre alternativas.

Por que a nossa versão traz "por que a sarça não se queima" e outras trazem "não se consome"?

Porque o hebraico do versículo 3 usa o mesmo verbo que o versículo 2 tinha usado em sentido afirmativo, e ele cobre as duas ideias em português.

O versículo 2 diz que a sarça estava ardendo; o versículo 3 pergunta por que ela não arde. É o mesmo verbo nos dois lugares, uma vez afirmado e outra negado, e é o item 10 que trata da diferença de forma entre as duas ocorrências. As traduções resolvem a aparente contradição escolhendo "consumir", "queimar-se" ou "acabar-se" para a segunda, e todas dizem a mesma coisa: o arbusto continua inteiro.

9. Conexão com Outros Textos

Como o Novo Testamento contou este momento

Atos 7:31 — "E Moisés, quando viu isto, se maravilhou da visão; e, aproximando-se para observar, foi-lhe dirigida a voz do Senhor."

É a recontagem mais próxima, e ela acrescenta uma palavra que o Êxodo não usa: "se maravilhou". O texto hebraico não diz que Moisés se admirou nem que teve medo — diz que ele achou a visão grande e resolveu chegar perto. A diferença é pequena e vale ser notada: o discurso de Estêvão interpreta a reação, e o Êxodo apenas a relata.

Espinho que queima, na linguagem corrente da Bíblia

Eclesiastes 7:6 — "Porque, como o crepitar dos espinhos debaixo da panela, assim é o riso do tolo; também isto é vaidade."

A imagem só funciona porque todo leitor antigo sabia que espinho faz barulho, dá labareda alta e acaba antes de a panela ferver. É a expectativa que o versículo 3 vê frustrada.

Salmo 118:12 — "Cercaram-me como abelhas, mas apagaram-se como fogo de espinhos; pois no nome do SENHOR os despedacei."

Aqui o mesmo dado vira imagem de ameaça que não dura.

Fogo que não termina o serviço

Isaías 43:2 — "Quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti."

A promessa usa a mesma raiz do verbo deste versículo. É o desenho da sarça aplicado a pessoas.

Daniel 3:25 — "Respondeu ele: Eu vejo quatro homens soltos, que andam passeando dentro do fogo, e nenhum dano há neles; e o aspecto do quarto é semelhante ao Filho de Deus."

É a única outra cena bíblica em que alguém olha para dentro do fogo e percebe que ele não está fazendo o que deveria. Ali, como aqui, o espanto começa por uma observação sobre o que falta.

O versículo que retoma este

Êxodo 3:4 — "Quando o SENHOR viu que ele se desviara para ver, Deus o chamou do meio da sarça: Moisés! Moisés!"

O versículo seguinte retoma a decisão deste com as mesmas palavras — "se desviara para ver" — e faz dela a condição do que vem. O estudo daquele versículo trata da sequência e do que ela não permite concluir.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Então ele disse: “Vou me desviar para ver esta grande visão — por que a sarça não se queima.”

Texto hebraico

וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה אָסֻרָה־נָּא וְאֶרְאֶה אֶת־הַמַּרְאֶה הַגָּדֹל הַזֶּה מַדּוּעַ לֹא־יִבְעַר הַסְּנֶה

Transliteração

wa-yomer Mosheh asurah-na we-er'eh et-ha-mar'eh ha-gadol ha-zeh maddua lo-yiv'ar ha-seneh

Palavra por palavra

וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה (wa-yomer Mosheh) — "e Moisés disse"

O verbo comum de falar, com Moisés nomeado como sujeito. A nossa versão usa "ele disse", porque o nome já apareceu no versículo anterior. Vale registrar que o hebraico não emprega aqui a fórmula "disse no seu coração", usada em outros lugares para pensamento não dito.

אָסֻרָה־נָּא (asurah-na) — "deixa-me desviar"

Verbo da raiz sur, apartar-se, virar para o lado, sair do caminho. A forma é aquela que o hebraico usa quando alguém toma uma decisão sobre si mesmo — o equivalente do nosso "vou", "deixa eu". A partícula na, colada ao verbo, abranda ainda mais o tom: é quem propõe alguma coisa a si próprio.

A mesma raiz volta no versículo 4, quando o SENHOR vê "que ele se desviara". É o verbo que articula a cena.

וְאֶרְאֶה (we-er'eh) — "e verei"

Da raiz ra'ah, ver, na mesma forma de decisão pessoal do verbo anterior: "e deixa-me ver". Os dois vêm encadeados — desviar-se é o meio, ver é o fim.

אֶת־הַמַּרְאֶה (et-ha-mar'eh) — "a visão"

Substantivo formado sobre a mesma raiz ra'ah que acabou de aparecer no verbo. Ao pé da letra: "a coisa vista". O parentesco se perde em português; no hebraico a frase encadeia três palavras da mesma família em poucas sílabas.

O substantivo não é técnico: serve tanto para a aparência de uma pessoa quanto para o que um profeta contempla, e é o contexto que decide.

הַגָּדֹל הַזֶּה (ha-gadol ha-zeh) — "esta grande"

Adjetivo comum, com o demonstrativo. O que chama atenção é a escolha: gadol é a palavra que a Bíblia usa para tamanho, para importância e para intensidade, e aqui não pode ser tamanho — o objeto é um arbusto. Sobram as outras duas, e o texto não decide entre elas.

מַדּוּעַ (maddua) — "por que"

Palavra interrogativa que a maioria dos estudiosos analisa como formada a partir do verbo yada, conhecer, saber. Ao pé da letra seria algo como "a partir do que é sabido" — a pergunta que busca a razão conhecida de um fato. O campo semântico de yada tem tratamento próprio nos estudos de Êxodo 1:8 e 2:25.

O hebraico tem outra palavra para "por quê", lammah, mais próxima de "para quê" e frequente em queixas e reclamações. A escolha de maddua aqui é a de quem pergunta pela causa, não a de quem protesta.

לֹא־יִבְעַר (lo-yiv'ar) — "não se queima"

Aqui está o ponto que a tradução tem de resolver. O verbo é ba'ar, arder, queimar — o mesmo verbo que o versículo 2 usou para dizer que a sarça estava ardendo.

Ou seja: dois versículos seguidos afirmam e negam a mesma palavra. Lá, "a sarça ardia"; aqui, "a sarça não arde".

Não é contradição. A raiz cobre, em hebraico, tanto o estar em chamas quanto o consumir-se pelo fogo, e a diferença entre as duas ocorrências está na forma: no versículo 2 o verbo é particípio, que descreve estado em curso, e aqui é a forma que aponta para o desfecho esperado. Moisés pergunta por que aquilo não chega ao fim — e é por isso que as traduções portuguesas variam entre "não se queima", "não se consome" e "não se acaba".

הַסְּנֶה (ha-seneh) — "a sarça"

A única ocorrência da palavra em Êxodo 3 que vem na fala de uma pessoa; nas outras quatro é o texto que a emprega. Fora deste capítulo o termo aparece uma vez só em toda a Bíblia hebraica, em Deuteronômio 33:16 — o levantamento completo está no item 10 do estudo de Êxodo 3:2.

11. Conclusão

Três conclusões saem deste versículo.

A primeira: o que atrai Moisés não é o fogo. A própria pergunta dele diz isso, e diz com todas as letras — ele quer saber por que a sarça não se queima, e não por que ela queima. Fogo em espinheiro de deserto é acontecimento sem graça nenhuma, e um pastor daquela terra conhecia de cor o tempo que ele leva. O que o faz sair do caminho é o prazo vencido.

A segunda: o extraordinário desta cena é uma subtração, e não um acréscimo. Nada acontece ali que o mundo não produza sozinho. O que não acontece é o fim. Isso torna o sinal discreto por natureza: ele não interrompe ninguém, não se impõe a quem passa, e só se revela a quem ficou tempo suficiente para notar a falta. A anomalia precisa de duração dos dois lados — do lado da sarça, que continua, e do lado de quem olha, que espera.

A terceira: o espanto de Moisés é um espanto informado. Ele estranha porque sabe. Sem o conhecimento prático do material, não haveria expectativa a frustrar, e sem expectativa frustrada não há ausência a perceber. A cena não recompensa a ingenuidade: exige alguém que soubesse o que deveria estar acontecendo.

Disso decorre o cuidado com que se deve ler o versículo seguinte. É tentador ligar as duas coisas numa regra — quem para, ouve —, e o Êxodo não escreve essa regra em lugar nenhum. Aqui há apenas um homem que achou uma coisa grande e resolveu chegar mais perto para entender. Ele não sabe, neste momento, que há alguém ali: vai examinar um fenômeno, e o que encontra é outra coisa.

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Êxodo 3:3

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