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Êxodo 2:7

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✍️ Por Alberto Adriano·8 de setembro de 2026·⏱️ 22 min de leitura·👁 45 acessos
Então a irmã do menino perguntou à filha de Faraó: “Quer que eu vá chamar para a senhora uma ama entre as hebreias, para amamentar o menino?”
Menina hebreia de pé à margem do Nilo, falando com uma mulher da casa real egípcia que segura um bebê enrolado em panos.

Estudo


Então a irmã do menino perguntou à filha de Faraó: “Quer que eu vá chamar para a senhora uma ama entre as hebreias, para amamentar o menino?”

1. Introdução

Uma menina fala com a filha do rei do Egito, e o Êxodo registra a fala inteira.

É o que este versículo tem de mais notável, e passa despercebido porque a frase é simples. No versículo 4 a irmã estava “de longe”, olhando. Agora está ao alcance da voz de uma princesa, e é ela quem abre a boca primeiro.

A fala é curta e faz três coisas ao mesmo tempo. Oferece um serviço — ir buscar quem amamente a criança. Pressupõe uma decisão que ninguém anunciou — a de que o menino ficaria. E indica onde procurar: “entre as hebreias”.

Essa última palavra é a que devolve o menino para casa, e ela é dita em voz alta, diante de quem acabou de identificar a criança como hebreia em Êxodo 2:6. Não há disfarce nenhum na proposta.

O Êxodo não diz se houve plano. Não diz se a mãe combinou alguma coisa com a filha, não diz o que a princesa pensou, não diz se desconfiou. Registra a pergunta e, no versículo seguinte, a resposta de uma palavra só.

Vale reter também um contraste que o capítulo inteiro sustenta: a irmã fala, e a mãe de Moisés não fala uma única vez em Êxodo 2.

2. Contexto Histórico e Cultural

Por que era preciso procurar uma mulher

A pergunta da irmã só faz sentido diante de um fato que hoje é fácil esquecer: não havia substituto para o leite humano. Um lactente que perdesse a mãe dependia de outra mulher que estivesse amamentando naquele momento, e ponto final. Não era questão de conforto, era questão de sobreviver.

Isso limita drasticamente o campo de busca. Não bastava alguém disposto: era preciso alguém que tivesse dado à luz havia pouco. A ama-de-leite como figura social — o que ela fazia, quanto tempo ficava na casa e como o papel dela se estendia muito além do aleitamento — é assunto do estudo de Gênesis 24:59, e o título egípcio da ama da casa real está tratado no estudo de Êxodo 1:18.

A escolha da ama nunca foi neutra

O que interessa aqui é outra coisa: no mundo antigo, escolher uma ama era escolher uma influência, e as pessoas sabiam disso.

Havia uma convicção difundida de que o leite transmitia mais do que alimento — que carregava o temperamento, o caráter e a origem de quem amamentava. A documentação mais explícita disso é greco-romana e muito posterior a este capítulo, o que obriga a marcar a distância antes de usá-la: um discurso do filósofo Favorino, preservado por Aulo Gélio nas Noites Áticas (“noites de Ática”, coletânea latina do século II depois de Cristo), argumenta que dar o filho a outra mulher corrompe o que a natureza formou; e o médico Sorano de Éfeso — o mesmo autor que o estudo de Gênesis 30:37 traz a respeito do que a mulher vê na hora da concepção — lista critérios detalhados para escolher a ama: idade, saúde, número de partos, hábitos.

São fontes tardias e de outro mundo cultural. O que elas mostram, e que vale reter com cautela, é que a identidade de quem amamentava não era detalhe doméstico: era assunto sobre o qual havia opinião formada.

Sobre este ponto no Egito faraônico a documentação é escassa, e não é possível afirmar que a mesma crença circulasse ali. Mas a proposta da irmã se encaixa nesse registro sem esforço. Ela não sugere qualquer mulher. Sugere uma categoria — “entre as hebreias” —, e ninguém no versículo estranha que a origem da ama seja parte da proposta.

Falar com a casa real

Um último dado de fundo, e ele é de ausência. As fórmulas de tratamento diante de um superior — o “meu senhor”, o “teu servo”, a terceira pessoa — foram tratadas nos estudos de Gênesis 32:18 e Gênesis 43:20, e nenhuma delas aparece aqui. A irmã não se prostra, não se apresenta: faz uma pergunta prática. Se isso reflete o modo como se falava de fato, ou apenas a economia do relato, o texto não permite decidir.

3. Análise Teológica do Versículo

“Então a irmã do menino perguntou à filha de Faraó”

Não há transição. Em Êxodo 2:4 a irmã estava a distância, “para saber o que lhe aconteceria”. Aqui ela está falando com a princesa. O Êxodo não conta como ela se aproximou, se foi vista antes, se alguém a deteve, se as servas reagiram.

E repare em como ela é apresentada: “a irmã do menino”. Não é “a irmã dela”, referida à mãe do versículo 2. É a relação com a criança que a define — a mesma escolha do versículo 4.

Falta o nome. Ela só será chamada de Miriã em Êxodo 15:20, quinze capítulos adiante; o modo como este capítulo trata os nomes é assunto do estudo de Êxodo 2:1. O que se pode observar aqui é a desproporção: de um lado a filha do rei do Egito, sem nome; do outro uma menina de um povo submetido, também sem nome. O texto conserva as duas anônimas e transcreve a conversa entre elas.

“Quer que eu vá chamar para a senhora uma ama”

A frase é uma oferta disfarçada de pergunta, e o hebraico deixa isso mais claro que o português — o item 10 mostra a forma. Ela não pede permissão para opinar. Ela se propõe a executar.

O ponto decisivo, porém, está no que a frase supõe. Uma ama serve para criar uma criança que vai continuar viva e continuar com alguém. Ao oferecer a ama, a irmã trata como já resolvido o que ninguém resolveu em voz alta: o menino fica.

A princesa, no versículo anterior, disse duas coisas — que teve compaixão e que a criança era hebreia. Não disse que ficaria com ela. Não disse o que faria. A irmã fala como se tivesse ouvido a decisão, e a decisão só aparece no versículo seguinte, quando a princesa responde “Vá”.

Vale marcar o limite: o Êxodo não diz que isso foi calculado. Não escreve que a menina foi astuta, não escreve que aproveitou o momento, não escreve que arriscou. Escreve o que ela disse. A esperteza da fala é observável no próprio texto; a intenção, não.

“entre as hebreias”

Aqui está a peça que faz o menino voltar para a casa em que nasceu, e ela é dita sem nenhum disfarce.

É preciso resistir à leitura mais comum, que transforma isto num golpe bem-sucedido. Não há engano nenhum. A princesa acabou de dizer, ela mesma, que a criança era hebreia; pedir uma ama hebreia é a coisa mais óbvia a fazer, e é a irmã quem simplesmente enuncia a consequência. O texto não pinta uma armadilha: pinta alguém dizendo, na hora certa, o que qualquer pessoa razoável diria.

O que a fala não diz é o essencial — que a ama de que se trata é a mãe da criança. Isso o versículo cala, e o Êxodo o revela apenas no versículo 8, quando a moça vai chamar “a mãe do menino”.

É útil notar quem sabe o quê neste ponto do relato. O leitor sabe. A irmã sabe. A princesa não sabe. E o texto não informa em momento algum se ela veio a saber.

“para amamentar o menino”

A frase fecha com o motivo prático, e é ele que sustenta tudo. Sem uma mulher que amamente, aquela criança morre em poucos dias — e a princesa, que acabou de se compadecer, tem um problema imediato nas mãos.

A proposta da irmã, portanto, não é um favor: é a solução do problema de quem está com o menino. Ela oferece exatamente o que falta, no momento em que falta. É essa coincidência entre a necessidade de uma e a oferta da outra que faz a cena andar.

E vale registrar o modo como o capítulo distribui a palavra. A mãe de Moisés — que constrói a arca, que amamenta, que devolve o menino — não diz uma sílaba em todo o Êxodo 2; o pai também não. Esta frase da irmã é a fala mais longa de qualquer personagem até aqui.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

A irmã do menino

Aparece pela primeira vez em Êxodo 2:4, postada a distância, e aqui pela segunda. Nas duas vezes é identificada pela relação com o irmão, nunca com a mãe, e nas duas vezes está sem nome.

A identificação com Miriã é a leitura corrente e é razoável: Êxodo 15:20 chama Miriã de “irmã de Arão”, e Números 26:59 a lista como filha de Anrão e Joquebede, junto com Arão e Moisés. Convém apenas registrar que a ligação vem desses textos, não deste.

Nada se sabe da idade dela. Se Arão tinha três anos a mais que Moisés, conforme Êxodo 7:7, e ela é mais velha que os dois, o que o texto sugere é uma criança ou uma adolescente. Mais do que isso é conjetura.

A filha de Faraó

A mesma do versículo anterior, que acabou de identificar o menino como hebreu. Ela não responde neste versículo; a resposta vem em Êxodo 2:8, com uma palavra. O que se sabe e o que não se sabe sobre ela está reunido no estudo de Êxodo 2:10.

A ama

Não é uma pessoa, é uma função — e é a função em torno da qual o versículo gira. No mundo antigo, quem amamentava o filho de outra casa entrava nessa casa, às vezes por anos, e o papel dela costumava continuar depois do desmame. O assunto é do estudo de Gênesis 24:59.

Neste versículo a ama é uma vaga a ser preenchida. Quem a preenche, o leitor descobre no versículo 8.

As hebreias

O grupo de onde a ama deve sair. A palavra aparece no feminino plural, como já aparecera em Êxodo 1:15-19, sobre as parteiras e sobre as mulheres que davam à luz. É, aliás, a segunda vez em dois capítulos que a sorte de crianças hebreias depende de uma conversa entre mulheres.

O menino

Moisés, ainda sem nome. Ele tem pouco mais de três meses, contadas as informações de Êxodo 2:2-3, e não voltará a ser mencionado por nome antes de Êxodo 2:10.

5. Pontos de Ensino

1. Quem fala primeiro decide o rumo. A princesa se compadeceu e disse de quem era a criança, e parou aí. O que acontece a seguir é determinado por uma frase dita por uma menina que ninguém consultou. O Êxodo não comenta isso, mas a sequência dos versículos o mostra com clareza.

2. A proposta pressupõe o que ainda não foi decidido. Oferecer uma ama é tratar como certo que o menino fica. Ninguém tinha dito isso. Falar como se a parte boa já estivesse resolvida é, na prática, o que resolve.

3. Não há engano na cena. A ideia de que a irmã enganou a princesa não vem do texto. A origem da criança já fora enunciada pela própria princesa em Êxodo 2:6; pedir uma ama hebreia é a consequência óbvia. O que fica omitido é apenas o parentesco, e o versículo não diz que a omissão foi deliberada.

4. A oferta resolve o problema de quem ouve. A irmã não pede nada, não apela e não argumenta. Ela oferece exatamente aquilo de que a princesa precisa naquele instante — e por isso é atendida com uma palavra só.

5. A necessidade prática é o que abre a porta. Sem uma mulher que amamente, a criança morre. É essa urgência, e não a eloquência de ninguém, que torna a proposta irrecusável.

6. O texto dá voz a quem não tem posição. A fala mais longa do episódio pertence a uma menina de um povo sob trabalho forçado, e o Êxodo a transcreve inteira. A mãe do menino, que faz tudo o mais no capítulo, não recebe uma linha de discurso direto.

7. Estar por perto foi a condição de tudo. A irmã foi posta a distância em Êxodo 2:4 sem poder fazer nada. Quando o momento apareceu, ela estava lá. Não é possível afirmar que houvesse plano; o que se pode observar é que a presença veio antes da oportunidade.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo levanta uma questão sobre a palavra e o lugar de quem fala.

Há uma suposição corrente, e ela é razoável na maior parte das vezes: para ser ouvido é preciso ter posição. Quem manda fala e é atendido; quem não manda fala e é ignorado, quando lhe permitem falar. A autoridade seria a condição da fala eficaz.

A cena mostra o contrário, e sem nenhum heroísmo. Quem tem toda a posição — a filha do rei — está parada com uma criança no colo e um problema por resolver. Quem não tem posição nenhuma diz uma frase de vinte palavras e o problema se resolve. A frase é atendida não porque a menina tenha adquirido autoridade, mas porque ela é útil a quem ouve.

Vale desmembrar o que fez a fala funcionar, porque nada ali é misterioso.

Ela chegou na hora. A necessidade da ama existia naquele minuto, não em abstrato. Uma proposta certa dita antes da necessidade é ruído; dita depois, é lamento.

Ela veio na forma de oferta, não de pedido. A menina não solicita nada para si. Ela se propõe a fazer, e o que propõe custa zero a quem decide.

E ela não discute a decisão maior. Não pergunta se o menino vai ficar, não pede que fique, não defende o direito dele a viver. Trata o ponto grande como assentado e resolve o pequeno — e é assim que o grande fica assentado de fato.

O que isso não autoriza concluir

Seria fácil transformar o episódio numa regra sobre como os fracos vencem os fortes pela esperteza. O Êxodo não sustenta essa regra, e o próprio livro a desmente adiante: em Êxodo 2:14 um hebreu anônimo dirá a Moisés “quem o pôs como chefe e juiz sobre nós?”, e a fala não produzirá efeito nenhum além do medo.

O que a cena mostra é mais modesto e mais verdadeiro. Falar sem posição funciona quando quem ouve precisa do que se diz. Fora disso, a falta de posição continua sendo o que sempre foi.

7. Aplicações Práticas

Chegar com a solução, não com o problema

A irmã não diz “o menino vai morrer sem leite”. Diz “quer que eu vá chamar uma ama?”. A diferença entre as duas frases é a diferença entre criar trabalho para quem ouve e tirar trabalho de quem ouve.

Isso vale em qualquer relação com alguém que decide — chefe, cliente, médico, professor, funcionário público. Quem apresenta um problema transfere a tarefa. Quem apresenta uma saída pronta, com a parte difícil já assumida, muda a conversa de lugar: o interlocutor deixa de precisar pensar e passa a precisar apenas concordar.

E há um detalhe que costuma passar despercebido: a proposta dela cabe numa palavra de resposta. É por isso que a resposta, no versículo 8, é uma palavra só.

Estar por perto quando a hora chega

A irmã não fez nada de notável em Êxodo 2:4. Ficou de longe, olhando, sem poder interferir. Foi a coisa mais passiva do capítulo — e foi ela que colocou a menina ao alcance da voz da princesa no momento em que a fala teve efeito.

Vale para quem cuida de alguém em situação que não se pode resolver: doença longa, processo demorado, filho que se afastou, parente internado. Boa parte do que se pode fazer nessas horas é permanecer disponível, sem função definida, até que apareça a coisa concreta a fazer. Não é resignação — é permanência.

Convém dizer o limite: o texto não promete que a hora chega para todo mundo. Ele registra um caso em que chegou.

Falar quando não se tem posição para falar

Muita gente cala diante de quem decide por achar que não tem lugar na conversa: o mais novo da equipe, o paciente diante do médico, o parente que não é o responsável formal. A cena não recomenda ousadia por ousadia — mostra três condições copiáveis: falar na hora em que a necessidade existe, oferecer em vez de pedir e propor algo que quem decide possa aceitar sem esforço.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

A irmã enganou a filha de Faraó?

O texto não diz isso. A origem da criança já havia sido enunciada pela própria princesa em Êxodo 2:6, de modo que sugerir uma ama hebreia não esconde nada. O que a proposta omite é o parentesco entre a ama e o menino — e o Êxodo nem afirma que a omissão foi intencional, nem informa se a princesa veio a descobrir.

Como ela chegou perto da princesa sem ser impedida?

Não se sabe. O versículo 5 menciona servas andando pela margem e uma criada enviada a buscar a arca; nada indica se a irmã foi vista, detida ou interrogada. O Êxodo salta da vigilância a distância para a conversa, e não preenche o intervalo. Qualquer reconstrução da cena é acréscimo.

Havia um plano combinado com a mãe?

É plausível e é a suposição mais comum, mas não está no texto. Êxodo 2:4 diz apenas que a irmã ficou de longe “para saber o que lhe aconteceria” — a formulação descreve quem espera notícia, não quem executa a segunda etapa de um plano. Não é possível decidir.

Por que a ama tinha de ser hebreia?

Do ponto de vista prático, porque era o grupo onde se acharia rapidamente uma mulher amamentando, e porque a criança era daquele povo. Do ponto de vista do relato, porque é essa palavra que devolve o menino à casa em que nasceu. As duas explicações convivem, e o versículo não escolhe entre elas.

Por que o texto não dá o nome da irmã?

Porque este capítulo quase não dá nomes a ninguém — o assunto é do estudo de Êxodo 2:1. A identificação com Miriã vem de Êxodo 15:20 e de Números 26:59, e é a leitura corrente; convém apenas não atribuir a este versículo uma informação que ele não traz.

Este versículo mostra Deus agindo nos bastidores?

É uma leitura antiga e possível, e muita gente a considera evidente. Vale registrar, porém, o que o texto faz: o nome de Deus não aparece em Êxodo 2 até o versículo 23. O que está escrito são pessoas agindo — uma mãe, uma irmã, uma princesa. Quem quiser ver providência ali estará interpretando, e o versículo não confirma nem desmente.

9. Conexão com Outros Textos

A irmã, antes e depois

Êxodo 2:4 — “E a irmã dele ficou de longe, para saber o que lhe aconteceria.” A posição em que ela estava três versículos antes desta conversa.

Êxodo 15:20 — “Então Miriã, a profetisa, irmã de Arão, tomou o tamborim na mão.” A primeira vez em que o nome dela é escrito, treze capítulos adiante.

Números 26:59 — “E o nome da mulher de Anrão era Joquebede, filha de Levi... e ela deu a Anrão a Arão e a Moisés, e a Miriã, irmã deles.” O texto que reúne a família inteira, com os nomes que o Êxodo 2 não dá.

Amas-de-leite na Bíblia

Gênesis 24:59 — “Então despediram a Rebeca, sua irmã, e à sua ama.” A ama que acompanha a moça para a vida inteira, e não apenas na infância.

2 Reis 11:2 — “E o escondeu, a ele e à sua ama, na câmara dos leitos.” Um menino da casa real salvo de uma matança, escondido junto com a ama — o paralelo mais próximo desta cena em toda a Bíblia hebraica.

Mulheres decidindo a sorte de crianças

Êxodo 1:17 — “As parteiras, porém, temeram a Deus e não fizeram como o rei do Egito lhes tinha dito.” A cena imediatamente anterior no livro, e também entre mulheres.

1 Reis 3:26 — “Então falou a mulher cujo filho era o vivo ao rei: Ah, senhor meu, dai-lhe o menino vivo, e de modo nenhum o mateis.” Uma mulher sem posição falando diante do rei, e a criança sobrevivendo por causa da fala.

A palavra dita na hora certa

Provérbios 25:11 — “Como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo.” A formulação bíblica do que este versículo mostra acontecendo.

Ester 4:14 — “E quem sabe se para tal tempo como este chegaste a este reino?” A intervenção de quem está perto de quem decide, em favor do próprio povo.

Crianças e jovens que falam com quem manda

2 Reis 5:2-3 — “E disse à sua senhora: Oxalá que o meu senhor estivesse diante do profeta que está em Samaria.” Uma menina israelita cativa dá a informação que muda o destino de um general estrangeiro.

1 Samuel 3:9 — “Vai deitar-te, e há de ser que, se te chamar, dirás: Fala, SENHOR, porque o teu servo ouve.” O menino a quem se dá a palavra antes que ele tenha posição para falar.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Então a irmã do menino perguntou à filha de Faraó: “Quer que eu vá chamar para a senhora uma ama entre as hebreias, para amamentar o menino?”

Texto hebraico

וַתֹּאמֶר אֲחֹתוֹ אֶל־בַּת־פַּרְעֹה הַאֵלֵךְ וְקָרָאתִי לָךְ אִשָּׁה מֵינֶקֶת מִן הָעִבְרִיֹּת וְתֵינִק לָךְ אֶת־הַיָּלֶד

Transliteração

wa-tomer achoto el bat-par'oh: ha-elekh we-qarati lakh ishah meineqet min ha-ivriyot we-teniq lakh et ha-yaled

Análise palavra por palavra

וַתֹּאמֶר אֲחֹתוֹ — wa-tomer achoto, “e disse a irmã dele”. Achot é “irmã”, e o sufixo é masculino de terceira pessoa: irmã dele, do menino. O hebraico não diz “a irmã da mulher” nem “a filha dela”. A referência é sempre à criança, como já era em Êxodo 2:4.

אֶל־בַּת־פַּרְעֹה — el bat-par'oh, “à filha de Faraó”. A preposição el marca a direção da fala. O título é o mesmo dos versículos 5, 8, 9 e 10 — cinco ocorrências, sempre a mesma designação, nunca um nome.

הַאֵלֵךְ — ha-elekh, “irei?”. Aqui está a construção mais interessante do versículo. A partícula ha-, prefixada, é o interrogativo do hebraico — transforma a frase seguinte em pergunta. O verbo é halakh (ir) na primeira pessoa do singular.

Literalmente, portanto: “irei e chamarei para ti uma mulher que amamente?”. Não é um pedido de licença para opinar, e não é uma sugestão em terceira pessoa do tipo “seria bom que alguém fosse”. É a proposta de quem se coloca como executora: eu vou, eu chamo. A nossa versão traduziu por “quer que eu vá”, que é o modo português mais próximo dessa oferta.

וְקָרָאתִי לָךְ — we-qarati lakh, “e chamarei para ti”. O verbo qara cobre chamar, convocar e também dar nome — e é ele que reaparecerá em Êxodo 2:8, quando a moça “chama” a mãe, e em Êxodo 2:10, quando a princesa “chama” o menino de Moisés.

O lakh é o pronome de segunda pessoa feminina com preposição, “para ti”. Ele não é necessário para a frase funcionar: está ali para marcar em favor de quem a coisa é feita — e aparece duas vezes no versículo, “chamarei para ti” e “amamentará para ti”. Numa frase curta, a irmã diz duas vezes que o serviço é da princesa. Nada é apresentado como interesse próprio.

אִשָּׁה מֵינֶקֶת — ishah meineqet, “uma mulher que amamenta”. Meineqet é particípio na forma Hiphil, que é a forma causativa do verbo hebraico, da raiz yanaq, “mamar”: “a que dá de mamar”. O hebraico usa duas palavras onde o português usa uma — não diz “uma ama”, separa a pessoa da função. O percurso social desse papel está no estudo de Gênesis 24:59.

מִן הָעִבְרִיֹּת — min ha-ivriyot, “dentre as hebreias”. O min é partitivo: uma tirada de um conjunto. Ivriyot é o feminino plural de ivri, a mesma forma que Êxodo 1:15-19 emprega para as parteiras e para as mulheres que davam à luz; a discussão sobre a palavra pertence ao estudo de Êxodo 1:15.

וְתֵינִק לָךְ — we-teniq lakh, “e ela amamentará para ti”. Mesma raiz do particípio anterior, agora como verbo, na terceira pessoa feminina. A repetição da raiz em duas formas seguidas é característica do hebraico e soa pesada em português — daí a nossa versão ter resolvido a segunda ocorrência com “para amamentar o menino”.

אֶת־הַיָּלֶד — et ha-yaled, “o menino”, com a partícula de objeto direto definido. É o mesmo substantivo de Êxodo 2:6, aqui com a vocalização que o hebraico usa no fim da frase, onde a leitura faz pausa — ha-yaled em vez de ha-yeled. A diferença é de pronúncia, não de sentido.

11. Conclusão

Três conclusões se tiram deste versículo.

A primeira: a decisão sobre o menino é tomada em silêncio, e por escrito nunca. A princesa não anuncia que vai ficar com a criança. Quem trata o assunto como resolvido é a irmã, ao oferecer uma ama — e a partir daí ninguém volta atrás. O Êxodo mostra o rumo sendo fixado por uma frase que não decide nada explicitamente.

A segunda: não há armadilha nesta cena, e insistir nela empobrece o texto. A origem hebraica do menino foi dita pela própria filha de Faraó no versículo anterior. Pedir uma ama daquele povo é o passo seguinte natural. O único dado que a irmã não fornece é o parentesco — e o versículo não afirma que ela o escondeu de propósito, nem informa se a princesa chegou a saber.

A terceira: a fala eficaz do episódio vem de quem não tem posição alguma. Uma menina sem nome, de um povo sob trabalho forçado, dirige-se sem fórmula nenhuma à filha do rei do Egito e é atendida em uma palavra. Não por audácia: porque chegou no minuto em que a necessidade existia, ofereceu em vez de pedir e propôs algo que custava zero a quem decidia.

Fica ainda um registro que o capítulo faz sem comentar. A mãe constrói a arca, calafeta, esconde, deixa no rio, amamenta e devolve o menino — e não diz uma palavra em Êxodo 2. A fala mais longa do lado hebreu, na cena que salva Moisés, é desta menina. O texto anota isso e segue adiante.

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