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Êxodo 16:14

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✍️ Por Alberto Adriano·3 de outubro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 15 acessos
Quando a camada de orvalho subiu, eis que sobre a face do deserto havia uma coisa miúda, escamosa, miúda como a geada sobre a terra.
Amanhecer no deserto do Sinai, com a névoa do orvalho se levantando e revelando no chão pedregoso uma camada fina de flocos brancos, como geada, diante de pessoas que saem das tendas e se abaixam para olhar.

Estudo


Quando a camada de orvalho subiu, eis que sobre a face do deserto havia uma coisa miúda, escamosa, miúda como a geada sobre a terra.

1. Introdução

O orvalho se levanta e deixa à vista, no chão do deserto, uma coisa que o texto não consegue nomear: descreve-a com dois adjetivos e uma comparação, e mais nada. É uma das descrições mais exatas do Antigo Testamento e, ao mesmo tempo, uma das mais vagas, porque usa uma palavra que não aparece em nenhum outro lugar da Bíblia. Desde a Antiguidade há quem reconheça no maná um produto conhecido do Sinai — a secreção açucarada de insetos que vivem na tamargueira, ou um líquen que o vento carrega —, e há quem o tenha por substância criada para a ocasião. As duas posições têm argumentos e têm preço, e o próprio versículo, que descreve com o vocabulário da natureza, não toma partido.

2. Contexto Histórico e Cultural

O maná que ainda existe

Nas tamargueiras dos vales do Sinai aparece, em certos anos, uma substância branca e doce que os beduínos chamam de man. São grãos pequenos, do tamanho de uma cabeça de alfinete até o de uma ervilha, pegajosos, que se formam nos galhos e caem no chão de manhã. Os beduínos os recolhem cedo, amassam e comem como mel, ou guardam em potes. Viajantes dos séculos XVIII e XIX contaram que os monges do mosteiro de Santa Catarina, no sopé do monte Sinai, vendiam o produto aos peregrinos como "o maná do deserto".

Quem explicou de onde vinha foram dois naturalistas alemães, Christian Gottfried Ehrenberg e Wilhelm Hemprich, que percorreram o Sinai em 1823: a substância não era seiva da árvore, mas produto de um inseto que vivia nela. A pesquisa decisiva veio um século depois. Em 1927, Friedrich Simon Bodenheimer, entomólogo, e Oskar Theodor, parasitologista, ambos da Universidade Hebraica de Jerusalém, passaram semanas no Sinai estudando o fenômeno; os resultados saíram em alemão em 1929, e Bodenheimer os resumiu para o público de língua inglesa no artigo "The Manna of Sinai" ("O maná do Sinai"), publicado em 1947 na revista The Biblical Archaeologist.

Como o maná das tamargueiras se forma

O trabalho é feito por duas espécies de cochonilha — pequenos insetos que vivem presos aos ramos e se alimentam da seiva —, identificadas como Trabutina mannipara e Najacoccus serpentinus. A seiva da tamargueira é rica em açúcar e pobre em nitrogênio. Para conseguir o nitrogênio de que precisam, os insetos sugam muito mais seiva do que podem aproveitar e expelem o excesso de açúcar em gotas transparentes. No ar seco do deserto, as gotas engrossam e endurecem em grãos esbranquiçados, compostos quase só de açúcares simples (glicose e frutose) e de uma pequena quantidade de pectina, a substância que dá liga às geleias.

Os grãos que caem durante a noite ficam no chão até o calor do dia. Quando a temperatura sobe, as formigas saem e os carregam para os ninhos, e o que sobra amolece ao sol. Por isso os beduínos recolhem de madrugada. Bodenheimer e Theodor observaram a produção em pleno verão, em junho e julho; o fenômeno depende das chuvas do inverno anterior, e em anos secos quase não acontece. Num ano bom, todos os beduínos do Sinai juntos recolhem cerca de seiscentos quilos.

A identificação é antiga

A ideia de que o maná bíblico é esse produto local não nasceu com a entomologia. No século IX, Chivi al-Balkhi, polemista judeu da Pérsia que contestava os milagres da Bíblia, identificou o maná com o taranjabin, o "maná" vendido como remédio no Oriente — é o mesmo Chivi que explicou a travessia do mar pela maré baixa, como está no estudo de Êxodo 14:27.

Ibn Ezra respondeu a Chivi com uma lista de objeções que é, até hoje, o melhor inventário do preço dessa explicação. Ele próprio tinha visto a substância parecida com o maná, e registra: ela só aparece em dois meses da primavera; não derrete ao sol; não apodrece de um dia para o outro; não é dura a ponto de precisar ser moída; não sustenta, serve só de remédio; não vem em dobro na sexta-feira nem falta no sábado; e não acompanha um povo para onde ele acampa.

O líquen que chove

A segunda proposta é um líquen, Lecanora esculenta (o nome científico tradicional; os botânicos hoje o classificam em outro gênero). Ele cresce sobre pedras e solo nu nas estepes da Ásia central, do Irã, da Anatólia e do norte da África; seca, solta-se em bolinhas cinzentas e é carregado pelo vento a grandes distâncias. Depois de tempestades, cai em quantidade sobre lugares onde não cresce. Há registros de "chuvas de maná" assim na Pérsia em 1828, e na Anatólia em 1846 e 1864. A população recolhia e fazia pão com ele, e no século XIX houve quem o propusesse como o maná dos israelitas.

O líquen resolve o que a tamargueira não resolve — a quantidade e o fato de poder virar pão —, mas tem os seus próprios problemas: não está registrado no Sinai nem na península Arábica; não tem ligação com o orvalho; não é branco nem doce; e não derrete.

O preço diante do texto

Postas lado a lado com Êxodo 16, as duas explicações acertam em pontos diferentes e falham nos mesmos quatro.

Na quantidade: seiscentos quilos por ano, no Sinai inteiro, não alimentam uma aldeia, e o texto fala de um ômer por pessoa por dia para um povo inteiro (Êxodo 16:16). Na estação: o maná das tamargueiras tem semanas por ano, e o líquen cai depois de tempestades ocasionais; o texto fala de todas as manhãs durante quarenta anos. No apodrecer: os grãos de açúcar se conservam por meses, e é por isso que os beduínos os guardam; o maná do texto cria vermes de um dia para o outro (Êxodo 16:20). No sábado: nenhum fenômeno natural respeita o sétimo dia, e o texto diz que no sexto vinha o dobro e no sétimo, nada.

Os acertos também são reais. O maná das tamargueiras aparece de manhã, junto com o orvalho, é branco, é doce como mel (Êxodo 16:31), derrete ou se perde quando o sol esquenta (Êxodo 16:21), fica no Sinai, e os habitantes da região o chamam pelo mesmo nome. Nenhuma explicação moderna se ajusta tanto ao vocabulário do capítulo.

Daí as três posições que os estudiosos tomam. Para uns, como Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX), o maná bíblico foi uma substância criada para a ocasião, e a semelhança com o produto das tamargueiras é só de aparência. Para outros, a tradição partiu de um alimento real do deserto e o ampliou na memória até a escala de um povo e de quarenta anos — é a direção que o próprio Bodenheimer sugeria. Para outros ainda, um fenômeno natural foi multiplicado e regulado de modo extraordinário, e o sinal está na medida e na regra, não na substância. O texto, como se verá no estudo do versículo, não decide entre elas.

3. Análise Teológica do Versículo

"Quando a camada de orvalho subiu"

O orvalho não sobe; evapora. Mas o hebraico diz "subiu", com o mesmo verbo das codornizes da véspera, e os comentaristas tentaram dizer o que isso descreve.

Primeira leitura: é a evaporação, vista com os olhos de quem não conhecia o vapor. Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, França, século XII) explica que é da natureza do orvalho subir para o ar quando o sol aquece. Rashi (Salomão ben Isaac, França, século XI) vai mais longe e propõe uma experiência: encha de orvalho uma casca de ovo, tampe e deixe ao sol, e ela se levantará sozinha no ar. É física medieval, e errada, mas mostra um comentarista tentando ler o verbo ao pé da letra.

Segunda leitura: "subiu" quer dizer "foi embora". Ibn Ezra aproxima o verbo de Gênesis 49:4, cuja frase final ele lê como "a minha cama subiu", isto é, deixou de ser de Jacó. O orvalho não se elevou: acabou. É a leitura mais sóbria, e a ABC a acomoda, porque "subiu" em português também deixa espaço para o desaparecimento.

Terceira leitura: o verbo descreve uma inversão da ordem do mundo. A Mekhilta põe na boca de Rabi Simão ben Gamaliel a observação de que, até então, o pão subia da terra e o orvalho descia do céu — "os seus céus gotejam orvalho", diz Deuteronômio 33:28. Com o maná a ordem se inverteu: o pão passou a descer do céu (Êxodo 16:4) e o orvalho a subir da terra. A Mekhilta lê no verbo um mundo de cabeça para baixo, montado para alimentar Israel.

Nenhuma das três é exigida pelo texto. Mas a terceira capta algo que está nele: o capítulo inteiro joga com o alto e o baixo. Deus "fará chover pão do céu" (Êxodo 16:4), as codornizes "sobem", o orvalho "sobe", o maná está "sobre a face do deserto". O que vem de cima está no chão, e o que estava no chão vai para cima.

E há a pergunta prática: onde estava o maná em relação ao orvalho? Aqui ele aparece quando o orvalho sai, o que sugere que estava por baixo. Em Números 11:9 o orvalho desce primeiro e o maná cai sobre ele, o que sugere que estava por cima. O Talmude (Yoma 75b) junta os dois versículos e conclui que havia orvalho embaixo e orvalho em cima, e o maná entre as duas camadas, "como guardado numa caixa". É uma harmonização, mas é engenhosa e explica a imagem de algo descoberto quando a tampa se levanta.

"eis que sobre a face do deserto"

O "eis que" muda o ponto de vista. Até aqui o versículo descrevia de fora; agora o leitor olha pelos olhos de quem saiu da tenda de manhã e viu o chão. A descrição que vem a seguir não é de cientista nem de cronista: é a de alguém parado diante de uma coisa que não conhece.

E o lugar é "a face do deserto", não o acampamento. As codornizes caíram sobre as tendas; o maná está lá fora, no chão aberto. A Mekhilta ainda limita: "não sobre o deserto inteiro, mas sobre uma parte dele". O alimento tem endereço, e é preciso ir até ele.

"havia uma coisa miúda"

A tradução precisa dizer "uma coisa", mas o hebraico não diz. Não há substantivo nenhum na frase: o que está no chão é só "miúdo, escamoso, miúdo como a geada". O texto descreve sem nomear, porque ainda não há nome. É a gramática que prepara a pergunta do versículo seguinte — "Que é isto?" (Êxodo 16:15) —, e é por isso que o maná entra na Bíblia como um adjetivo.

O adjetivo escolhido é o do que é fino, pequeno, reduzido a pouco: a palavra das vacas magras e das espigas mirradas do sonho de Faraó (Gênesis 41:3, 41:6). Aplicado à resposta de Deus para a fome, ele soa quase como ironia. O povo tinha lembrado o Egito como o lugar onde "comíamos pão até nos fartar" (Êxodo 16:3), e o que encontra no chão é coisa miúda. O texto repete o adjetivo duas vezes no mesmo versículo, como se insistisse: é pouco, é fino, é pequeno. A fartura de que o capítulo vai falar não está no tamanho do grão; vai estar na regra de que ele nunca falta (Êxodo 16:18).

"escamosa"

Aqui está a palavra que só existe neste versículo. Ninguém sabe ao certo o que ela quer dizer, e as leituras desenham coisas diferentes.

Primeira imagem: algo descascado, em lascas. É a do Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial do Pentateuco na sinagoga, dos primeiros séculos da era comum), que traduz por "descascado", e de Ramban, que a defende. A ABC seguiu esta linha com "escamosa": flocos finos, como lascas.

Segunda imagem: algo redondo. É a de Ibn Ezra, que rejeita a primeira por razão de gramática (detalhada no item 10) e pensa em grãos arredondados. Combina com Números 11:7, que compara o maná à semente de coentro.

Terceira imagem: algo descoberto, que estava guardado. Rashi aproxima a palavra de um termo do hebraico rabínico para "estojo" e lê: quando a camada de orvalho saiu, viram a coisa fina que estava encaixada entre as duas camadas. A palavra rara vira descrição da caixa de orvalho.

E há a leitura que faz da palavra rara um campo de pregação. Na Mekhilta, Rabi Eleazar de Modiim desmonta as letras dela e acha dentro três palavras: "quente" (o maná não descia gelado), "silêncio" (descia sem barulho) e "palma da mão" — Rabi Tarfon diz que o maná descia "como sobre as palmas" de Deus. É jogo de letras, não tradução, e mostra o que acontece com uma palavra que não tem par: cada leitor a preenche.

"miúda como a geada sobre a terra"

A comparação é com a geada, a película de gelo que cobre o chão nas madrugadas frias. É imagem visual: uma camada fina, branca, espalhada, que brilha e some quando o sol esquenta. Ninguém precisa supor que havia frio no deserto; a geada serve de medida de finura e de brancura.

Mas a escolha tem um fundo. Na Bíblia a geada é das coisas cuja origem o homem não conhece. "A geada do céu, quem a gerou?", pergunta Deus a Jó (Jó 38:29), na lista das maravilhas que Jó não pode explicar. "Espalha a geada como cinza", canta o Salmo 147:16, entre as obras que só Deus faz. Comparar o maná à geada é colocá-lo nessa companhia: uma coisa da natureza, que aparece todas as manhãs, e cuja fonte ninguém viu.

O que o versículo descreve e o que ele não diz

O versículo descreve o maná com palavras da natureza: orvalho, geada, chão, uma película branca. Não há luz, não há voz do céu, não há anjo. Se alguém procurasse aqui o milagre na própria substância, não o acharia; a coisa no chão é descrita como qualquer fenômeno da madrugada.

É por isso que as explicações naturais do item 2 encontram tanto eco no vocabulário. E é por isso também que elas não esgotam o capítulo: o que o texto apresenta como extraordinário não é a aparência do maná, mas o seu comportamento — vir todas as manhãs, na medida de cada um, apodrecer quando guardado e não apodrecer no sábado. A contradição física desse comportamento é o assunto de Êxodo 16:21. Aqui, no primeiro olhar, o maná ainda é só uma coisa fina no chão, e o texto não diz de onde ela veio.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O primeiro dia do maná

Este é o primeiro amanhecer do maná, e a tradição judaica tentou datá-lo. O Talmude (tratado Shabat 87b) parte de Êxodo 16:1 — a chegada ao deserto de Sim no dia quinze do segundo mês — e da regra dos seis dias de coleta para concluir que aquele dia quinze caiu num sábado e que o maná começou a cair na manhã seguinte, um domingo. O cálculo serve ao Talmude para fixar o calendário até o Sinai; o Êxodo não dá dia da semana. Mas a conta mostra como os rabinos leram o capítulo: o maná começa numa semana, e a primeira semana do maná será também a primeira semana com sábado.

A face do deserto

O lugar é o chão aberto em volta do acampamento, no deserto de Sim, entre Elim e o Sinai (as propostas de localização estão em Êxodo 16:1). É terreno de cascalho e areia, com leitos secos de enxurrada onde crescem acácias e tamargueiras.

A tamargueira

A árvore que entra na história pelo lado da ciência é a tamargueira, arbusto ou árvore pequena de folhas miúdas como escamas, que suporta sal e seca e cresce nos leitos de rio do deserto. No Sinai a espécie mais ligada ao maná é a Tamarix nilotica, que os botânicos do século XIX chamavam justamente de Tamarix mannifera, "a tamargueira que dá maná". O texto bíblico não a menciona neste capítulo; é outra tamargueira, a que Abraão plantou em Berseba, que aparece no Gênesis.

Os que explicaram o maná

Christian Gottfried Ehrenberg (1795-1876) foi um dos grandes naturalistas alemães do século XIX, pioneiro no estudo dos microrganismos. A viagem ao Egito, à Núbia e ao Sinai com Wilhelm Hemprich durou cinco anos e terminou mal: Hemprich morreu de febre na costa da Eritreia, em 1825.

Friedrich Simon Bodenheimer (1897-1959) nasceu em Colônia, emigrou para a Palestina em 1922 e se tornou o fundador da entomologia em Israel, professor da Universidade Hebraica. Oskar Theodor (1898-1987), seu companheiro de expedição, foi especialista em insetos transmissores de doença. A expedição de 1927 foi notícia em jornais do mundo inteiro.

5. Pontos de Ensino

O texto descreve antes de explicar. O primeiro contato com o maná é visual: fino, escamoso, branco como geada. O nome, a regra e o sentido vêm depois. O versículo respeita a ordem da experiência de quem estava lá.

A resposta não tem a forma do pedido. O povo lembrou o Egito como o lugar do "pão até nos fartar" e recebeu uma coisa miúda no chão. Deus atende à fome, não à imagem que o povo fazia da comida.

A linguagem da natureza não exclui a ação de Deus. O versículo descreve o maná com orvalho, geada e chão, e o capítulo o chama de pão que o SENHOR deu. A Bíblia hebraica não precisa de uma substância estranha para ver ali um dom.

As explicações naturais devem ser expostas com o seu preço. O maná das tamargueiras e o líquen acertam em detalhes reais e falham em quantidade, estação, conservação e sábado. Ridicularizar as propostas ou ignorá-las empobrece a leitura; adotá-las sem dizer o que não explicam também.

A palavra que só aparece uma vez fica aberta. "Escamosa" é tradução possível, não certa. Onde o texto é obscuro, as leituras antigas mostram o que se pode afirmar e o que fica em disputa, e o estudo honesto deixa a disputa à vista.

6. Aspectos Filosóficos

Descrever uma coisa que ainda não tem nome

O versículo faz uma coisa rara: descreve com cuidado um objeto que não consegue nomear. Não há substantivo; há "miúdo", "escamoso", "miúdo como a geada". A pergunta filosófica que isso levanta é a da relação entre as palavras e as coisas: é possível dizer o que uma coisa é sem já tê-la encaixado num nome e numa utilidade? E o que se perde quando o nome chega?

Ninguém dedicou a obra inteira a essa pergunta como Francis Ponge (1899-1988), poeta francês. O livro que o tornou conhecido, Le parti pris des choses ("O partido das coisas", ou "Tomar o partido das coisas"), de 1942, reúne pequenos textos em prosa sobre objetos comuns: a chuva, a laranja, a ostra, o seixo, o caixote de feira, o pão. Ponge não queria falar das coisas como símbolos de sentimentos humanos, nem como meros instrumentos; queria deixar que cada coisa impusesse à língua a sua própria forma. Resumiu o programa numa fórmula: "o partido das coisas é igual a levar em conta as palavras".

O pão de Ponge

Um dos textos do livro se chama "O pão", e começa assim: "A superfície do pão é maravilhosa, primeiro por causa dessa impressão quase panorâmica que ela dá: como se tivéssemos à disposição, na mão, os Alpes, o Tauro ou a Cordilheira dos Andes." A casca vira cordilheira; o miolo, uma esponja. Ponge olha o pão como se nunca o tivesse visto, e é por isso que o vê.

E o texto termina com uma frase seca: "Mas paremos aqui: pois o pão deve ser em nossa boca menos objeto de respeito do que de consumo." Ponge sabe que a contemplação tem limite. O pão é para ser comido.

O maná visto antes de ser pão

Êxodo 16:14 é um texto "pongiano" antes de Ponge. O povo olha o chão e vê uma coisa que não cabe em nenhuma palavra que conhece; o texto a descreve pelo tamanho (miúda), pela textura (escamosa) e por uma comparação (como geada). É a descrição pura, anterior ao nome e à função. Só no versículo seguinte Moisés dirá "este é o pão", e a coisa passará a ser comida.

O percurso do capítulo é exatamente o do texto de Ponge, ao contrário: Ponge parte do pão conhecido e o torna estranho, montanhoso, desconhecido; o Êxodo parte da coisa estranha e a torna pão. Em Ponge a poesia consiste em desfazer o hábito; no Êxodo a revelação consiste em dar nome e uso ao que não tinha. E nos dois casos fica a mesma advertência final: a coisa é para ser recebida e comida, não só admirada — o que o capítulo dirá com regras, e Ponge com uma frase.

O limite

O Êxodo não tem teoria da linguagem, e Ponge não escreveu sobre o maná. A aproximação é do comentarista. Mas o versículo de fato faz o que Ponge pedia: obriga a língua a se ajustar à coisa, a ponto de usar uma palavra que não existe em nenhum outro lugar — e a tradição, sem saber o que ela significa, preferiu conservá-la a substituí-la por um nome já conhecido.

7. Aplicações Práticas

Olhar antes de classificar. O povo ainda não sabe o que está vendo, e o texto o descreve com exatidão. Diante do que é novo — um diagnóstico, uma mudança de trabalho, uma pessoa que não se encaixa no que se esperava —, a pressa de nomear costuma vir antes da atenção. O versículo faz o contrário: primeiro o tamanho, a textura, a comparação; o nome vem depois.

Reconhecer o que vem pequeno. A resposta para a fome veio miúda, fina, quase invisível no chão. Quem espera socorro costuma imaginá-lo em grande escala, e pode passar por cima do que chega em grãos. No capítulo, o que é pequeno a cada manhã será suficiente a cada dia.

Discutir as explicações sem medo. Para quem lê a Bíblia com fé, as explicações naturais do maná não precisam ser ameaça nem ser descartadas com desprezo. Elas mostram o que o texto tem em comum com o mundo conhecido e onde ele vai além. Conhecer as duas coisas faz ler melhor.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que o versículo não diz que o maná caiu do céu?

Êxodo 16:4 promete "fazer chover pão do céu", e Números 11:9 diz que o maná "descia" com o orvalho da noite. Mas este versículo, que é o relato do primeiro dia, não mostra queda nenhuma: mostra um chão coberto ao amanhecer. A diferença tem explicação simples. O versículo conta o que o povo viu, e ninguém viu o maná cair; viram-no já no chão. A origem celeste é afirmada pela promessa de Deus e pela memória posterior, não pela observação daquela manhã.

Ainda cai maná no Sinai?

Depende do que se chama de maná. Os beduínos e os entomólogos dizem que sim: nos anos de chuva, as tamargueiras continuam a dar o seu man. Ibn Ezra, no século XII, diz que não: "não cai maná hoje no deserto do Sinai", e ele sabia onde ficava o monte. Os dois lados têm razão em sentidos diferentes. Um fala do produto das tamargueiras, que aparece algumas semanas por ano; o outro fala do maná do Êxodo, com as suas regras, que não aparece mais. A mesma palavra designa duas coisas — e a confusão entre elas está na raiz de toda a discussão.

Se o maná tiver sido um produto natural, o relato deixa de ser verdadeiro?

Não necessariamente, e a pergunta depende do que se espera do texto. Êxodo 16 afirma duas coisas: que o alimento foi dado por Deus e que veio com uma regularidade que nenhum fenômeno natural tem. A primeira afirmação não é desmentida por uma substância conhecida: Ramban, por exemplo, via as codornizes como fenômeno natural e nem por isso menos dado por Deus. A segunda afirmação é que fica sem explicação natural, e é nela que o capítulo põe o peso. O que não se pode fazer, em nenhuma das direções, é decidir a questão histórica com os dados que existem.

9. Conexão com Outros Textos

A promessa da chuva de pão

Êxodo 16:4 — "Então o SENHOR disse a Moisés: 'Eis que farei chover pão do céu para vocês; o povo sairá e recolherá a porção de cada dia no seu dia, para que eu o ponha à prova, se anda na minha lei ou não.'"

A promessa fala em chuva; o primeiro relato fala em chão. Entre as duas fica a noite que ninguém viu.

O orvalho que desce, o maná que vem com ele

Números 11:9 — "Quando o orvalho descia de noite sobre o acampamento, o maná descia sobre ele."

A outra ponta da imagem da caixa: aqui o orvalho embaixo, em Êxodo 16:14 o orvalho em cima. O Talmude (Yoma 75b) juntou os dois.

A ordem que o maná inverte

Deuteronômio 33:28 — "Israel habita em segurança, a fonte de Jacó à parte, numa terra de trigo e de vinho; e os seus céus gotejam orvalho."

O versículo que a Mekhilta usa para mostrar a ordem normal: o orvalho cai do céu e o trigo sobe da terra. No deserto, o pão desce e o orvalho sobe.

A geada, coisa que só Deus faz

Jó 38:29 — "Do ventre de quem saiu o gelo? E a geada do céu, quem a gerou?"

Salmo 147:16 — "Dá a neve como lã, espalha a geada como cinza."

A geada é das maravilhas cuja origem o homem não conhece. A comparação de Êxodo 16:14 põe o maná nessa companhia.

O leito que "subiu"

Gênesis 49:4 — "Impetuoso como as águas, você não terá a preeminência, porque subiu ao leito de seu pai e o profanou — subiu à minha cama!"

Ibn Ezra lê a última frase de outro modo: não "ele subiu à minha cama", mas "a minha cama subiu", isto é, deixou de ser minha. Com esse sentido de "acabar", ele entende que o orvalho de Êxodo 16:14 não se elevou: simplesmente acabou.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Quando a camada de orvalho subiu, eis que sobre a face do deserto havia uma coisa miúda, escamosa, miúda como a geada sobre a terra.

Texto hebraico

וַתַּעַל שִׁכְבַת הַטָּל וְהִנֵּה עַל־פְּנֵי הַמִּדְבָּר דַּק מְחֻסְפָּס דַּק כַּכְּפֹר עַל־הָאָרֶץ׃

Transliteração

vatta'al shikhvat hattal, vehinneh al-penei hammidbar daq mechuspas, daq kakkefor al-ha'arets.

Análise palavra por palavra

וַתַּעַל — vatta'al, "e subiu".

Raiz alah, "subir", no Qal (a forma simples do verbo hebraico), forma narrativa, terceira pessoa do feminino singular. É a mesma forma, letra por letra, que trouxe as codornizes no versículo anterior. A ABC traduz por "quando… subiu" porque a frase funciona como circunstância de tempo para o que vem depois. Ibn Ezra lê o verbo no sentido de "cessar, acabar", com apoio em Gênesis 49:4 e no Salmo 102:24 ("não me leves embora no meio dos meus dias", onde o mesmo verbo, ao pé da letra, diz "não me faças subir").

שִׁכְבַת הַטָּל — shikhvat hattal, "a camada de orvalho".

A mesma expressão do versículo anterior, agora com a vogal longa de pausa em tal (hattal), porque a palavra fecha a primeira metade do versículo na leitura cantada da sinagoga. A palavra shikhvah está analisada no estudo de Êxodo 16:13.

וְהִנֵּה — vehinneh, "e eis que".

A partícula que dirige o olhar e, na narrativa, marca a passagem para o ponto de vista de quem vê: o que vem depois é a percepção dos personagens.

עַל־פְּנֵי הַמִּדְבָּר — al-penei hammidbar, "sobre a face do deserto".

Penei é a forma de ligação de panim, "rosto", palavra que só existe no plural. "Sobre a face de" é o modo hebraico de dizer "sobre a superfície de", como "a face do abismo" de Gênesis 1:2 e "a face da terra" de tantos versículos. Midbar é o deserto no sentido de terra de pasto sem cultivo e sem cidade, não necessariamente de areia.

דַּק — daq, "miúdo, fino".

Adjetivo masculino singular, usado aqui sem substantivo, como se fosse ele mesmo o nome da coisa. É da raiz daqaq, "moer, esmigalhar", e o seu campo (as vacas magras, as espigas mirradas, o incenso moído) está analisado no estudo de Gênesis 41:3. Aparece duas vezes neste versículo.

מְחֻסְפָּס — mechuspas, "escamoso".

A palavra que só existe aqui em toda a Bíblia. Tem a forma de um particípio passivo, o que sugere algo que "sofreu" a ação de um verbo — mas o verbo não existe em lugar nenhum. As quatro letras do meio (ch-s-p-s) repetem o s, e é dessa repetição que partem as hipóteses.

Ônquelos e Ramban a ligam à raiz de machsof, "descascar, deixar à mostra" (Gênesis 30:37, as varas descascadas de Jacó; Isaías 52:10, "o SENHOR desnudou o seu braço santo"), com troca de duas letras de som parecido e a segunda letra da raiz dobrada: daí "descascado", "em lascas". Ibn Ezra recusa a derivação com uma regra de gramática: quando o hebraico dobra letras para formar uma palavra de quatro consoantes, dobra a primeira e a segunda juntas (como em yafyafita, "és a mais bela", Salmo 45:3), ou a segunda e a terceira juntas (yeraqraq, "esverdeado", Levítico 13:49), ou só a última (sagrir, "chuva forte", Provérbios 27:15) — nunca só a segunda. Sem par na língua, ele propõe "arredondado". Rashi ainda aproxima a palavra de chafisah, "estojo", do hebraico da Mishná. O dicionário moderno tende a ligá-la a uma raiz árabe de "escama, crosta fina", sem certeza.

A Septuaginta não traduz a palavra: em seu lugar põe "como semente de coentro branca", trazida de Êxodo 16:31.

כַּכְּפֹר — kakkefor, "como a geada".

Preposição ke-, "como", com artigo, e kefor, a geada, o orvalho congelado. A palavra aparece só três vezes na Bíblia: aqui, em Jó 38:29 e no Salmo 147:16. Ramban observa que Ônquelos a traduziu de dois jeitos ao mesmo tempo, como "geada" e como gir, o reboco branco, porque kefor soa como kofer, o betume com que se revestem as paredes da arca em Gênesis 6:14. A Septuaginta usa pagos, "gelo, geada".

עַל־הָאָרֶץ — al-ha'arets, "sobre a terra".

Preposição al, "sobre", e erets com artigo e vogal de pausa. Fecha o versículo pelo chão, assim como ele abriu pelo orvalho que subiu: o movimento vai de cima para baixo, da camada que se levanta para o que ficou no solo.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira: o maná entra na Bíblia sem nome e sem origem visível. O texto não mostra a queda nem diz o que a coisa é; mostra o que se via no chão, com as palavras de quem não sabia. A falta de substantivo e a palavra única que ninguém consegue traduzir com segurança não são defeito de redação: são o registro honesto de um primeiro olhar.

A segunda: a discussão sobre o maná natural não se resolve contra o texto nem a favor de um lado só. O produto das tamargueiras confirma que o vocabulário do capítulo — orvalho, manhã, brancura, doçura, sol — pertence a uma experiência real do Sinai; a quantidade, a duração, a conservação e o sábado mostram onde essa experiência deixa de explicar o relato. O estudo sério do maná precisa das duas coisas, e o versículo, descrito todo com palavras da natureza, permite as duas.

A terceira: o que o capítulo apresenta como extraordinário não está na aparência do maná, mas no que vem depois dela. O primeiro olhar encontra uma coisa pequena, fina, quase nada. Tudo o que fará dela o alimento de um povo por quarenta anos — o nome, a medida, a regra do dia e o sábado — ainda está por ser dito.

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Êxodo 16:14

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