A casa de Israel o chamou pelo nome de maná; era como semente de coentro, branco, e o seu sabor era como o de bolo com mel.
1. Introdução
O alimento que chegou sem nome ganha um nome, e quem o dá é o povo. Depois do primeiro sábado, o texto volta ao maná para descrevê-lo como se descreve uma comida já conhecida: o tamanho, a cor e o gosto. É a primeira vez na Bíblia que aparece a expressão "a casa de Israel", e a comparação do sabor usa uma palavra que não existe em nenhum outro lugar. O gosto descrito aqui não é o mesmo que Números 11:8 dará ao maná, e a tradição judaica e cristã gastou séculos tentando conciliar os dois. Entre a semente de coentro, o bolo com mel e o "pão dos poderosos" do Salmo 78, este é o versículo em que o maná deixa de ser enigma e vira comida.
2. Contexto Histórico e Cultural
Uma semente que todo mundo conhecia
Para dizer como era o maná, o texto escolhe uma coisa que qualquer ouvinte tinha na mão: a semente de coentro. O coentro (Coriandrum sativum) é uma das ervas mais antigas da cozinha do Oriente Próximo. Na caverna de Nahal Hemar, no deserto da Judeia, perto do mar Morto, arqueólogos acharam sementes dele em camadas do sétimo milênio antes de Cristo, junto com cestos e restos de comida — um dos achados mais antigos da planta. No Egito, sementes de coentro foram postas no túmulo de Tutancâmon, entre as provisões do rei para a vida depois da morte. E Plínio, o Velho (naturalista romano do século I), no livro XX da História Natural, registra que o coentro não cresce selvagem e que o melhor de todos é o egípcio.
A semente madura é uma bolinha de dois a quatro milímetros, dura, com estrias finas, de cor parda ou amarelada. O cheiro lembra casca de laranja e especiaria, bem diferente do da folha. Temperava pão, carne e cerveja, e entrava nos remédios. Quem ouvia "como semente de coentro" via na hora o tamanho e a forma de um grão pequeno e redondo — e via também que a cor não batia, porque a semente não é branca.
O nome da planta circulava em mais de uma língua da região. Samuel David Luzzatto, o Shadal (comentarista judeu italiano do século XIX), lembra que entre os nomes estrangeiros de plantas anotados nos manuscritos de Dioscórides (médico grego do século I, autor do principal tratado antigo sobre remédios de origem vegetal) há um nome púnico para o coentro: goid. O púnico era a língua de Cartago, parente próxima do hebraico. A palavra do versículo seguia viva, com outra pronúncia, no norte da África séculos depois.
O bolinho frito e passado no mel
O segundo termo de comparação é um doce de massa com mel. A palavra hebraica não tem par na Bíblia, e os primeiros a precisar entendê-la foram os tradutores. As escolhas deles mostram que doce cada comunidade tinha na cabeça.
Os judeus de Alexandria que verteram o Pentateuco para o grego, no século III antes de Cristo, escolheram enkris. Era um doce conhecido. Ateneu de Náucratis (escritor grego nascido no Egito, por volta do ano 200 depois de Cristo), no livro XIV do Banquete dos sábios — um catálogo imenso de comidas e bebidas do mundo grego —, define as enkrides como bolinhos cozidos em azeite e depois cobertos de mel, e cita versos do poeta Estesícoro, do século VI antes de Cristo, que já as punham numa lista de guloseimas, ao lado de bolos de gergelim e de mel fresco. O leitor grego do Êxodo imaginava, portanto, um bolinho frito e adoçado: doce de festa, não de todo dia.
A tradução aramaica de Ônquelos (a versão oficial do Pentateuco nas sinagogas dos primeiros séculos) pensou em outra coisa: eskeritin, palavra emprestada do grego, da família de eschára, "braseiro". É massa assada ou frita sobre a brasa. Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista francês do século XI) explica que esse era o nome, no hebraico dos rabinos, da "massa frita no mel", e remete ao Talmude, tratado Pesachim (37a), onde esses bolinhos aparecem numa discussão bem prática: se massas assadas em frigideira ou sobre brasa podiam servir de pão sem fermento na Páscoa.
Outros pensaram em coisas diferentes. Saadia Gaon (rabino e filósofo do Egito e da Babilônia, século X), segundo Ibn Ezra, entendia um pão chato e sem fermento. A Mekhilta (o comentário rabínico antigo ao Êxodo) registra duas opiniões: para Rabi Josué, era como um prato de panela e como o bolo de brasa; para Rabi Eliezer, como flor de farinha que boia na peneira, amassada com mel e manteiga.
Qual era o mel do bolo também faz diferença. Na Bíblia hebraica, "mel" pode ser o mel de abelha ou o xarope grosso de tâmaras e de uvas, e essa discussão está no estudo de Êxodo 3:8.
3. Análise Teológica do Versículo
"A casa de Israel"
O capítulo inteiro fala dos "filhos de Israel": são eles que murmuram, recolhem, medem e, no versículo 35, comerão o maná quarenta anos. Só aqui, no momento de dar o nome, o sujeito muda para "a casa de Israel". É a primeira vez que a expressão aparece na Bíblia. No Pentateuco inteiro ela ocorre oito vezes (Êxodo 16:31 e 40:38; Levítico 10:6; 17:3, 8 e 10; 22:18; Números 20:29), contra centenas de "filhos de Israel". Nos profetas ela se torna comum, e Ezequiel a usa dezenas de vezes.
Antes de interpretar, é preciso saber se a troca é antiga. A Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria) e a tradução siríaca trazem "os filhos de Israel" aqui, e alguns manuscritos hebraicos também; a Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) registra a variante. A Mekhilta sentiu o mesmo estranhamento: os "intérpretes de símbolos" que ela cita reescrevem a frase como "os filhos de Israel o chamaram de maná". Copistas e tradutores tendem a aplainar o que é raro, não a criar raridade; por isso a forma do texto hebraico tradicional tem a seu favor a regra de que a versão mais difícil costuma ser a original.
Se "casa" é original, o que ela diz? Primeira leitura: nada de especial. "Casa de Israel" é só outro modo de dizer o povo, como "casa de Jacó" em Êxodo 19:3, posto em paralelo com "filhos de Israel" no mesmo versículo. Segunda leitura: a palavra aponta para o lugar onde o nome nasceu. Nomes de comida não se fixam por decreto, mas pelo uso nas famílias, em volta do fogo; e o versículo, depois do nome, só fala de cozinha — semente, cor, gosto, bolo. É uma leitura possível, que o texto não confirma. Terceira leitura: a expressão denuncia a mão que escreveu. Ela é típica dos textos sacerdotais de Levítico e de Ezequiel, e alguns estudiosos a tomam como indício de que o fim do capítulo foi composto em outra época. Não é possível decidir entre as três; a terceira explica a palavra, as duas primeiras explicam o efeito dela no texto.
"o chamou pelo nome de maná"
Quem dá o nome não é Moisés nem Deus. Deus deu o alimento, Moisés deu a explicação ("este é o pão", Êxodo 16:15), e o povo deu o nome. No Gênesis, Deus traz os animais ao homem "para ver como ele os chamaria; e o nome que o homem desse a cada ser vivente, esse seria o seu nome" (Gênesis 2:19). Aqui a cena se repete na escala de um povo: o que vem de Deus recebe nome humano, e o nome pega.
O nome escolhido é a pergunta do primeiro dia (Êxodo 16:15). O povo não batizou o maná pelo que ele era, mas pelo que não sabia dele, e a dúvida virou palavra de uso diário. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) nota que até aqui a coisa não tinha nome; e o texto só o registra depois do primeiro sábado, quando o maná já era rotina. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) descreve a mudança de tom: o capítulo contou até agora os prodígios do maná, e daqui em diante passa a contar os seus "louvores". O versículo deixa a lei e entra na descrição.
"era como semente de coentro, branco"
A comparação vale pela forma, não pela cor. Rashi, seguindo o Talmude (tratado Yoma 75a), explica: a semente de coentro é redonda e não é branca; o maná era redondo como ela e branco — "branco como pérola", diz ali Rabi Assi. A Mekhilta chega ao mesmo ponto pelo caminho inverso: se o texto dissesse só "semente", o leitor pensaria numa semente escura; por isso acrescentou "branco". Bekhor Shor (José Bekhor Shor, comentarista francês do século XII) propõe outra saída: haveria duas variedades da planta, uma de semente clara e outra não, e o texto compara com a clara.
Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII) vê na comparação uma correção de Êxodo 16:14. Lá o maná era "miúdo como a geada", mas a geada não tem tamanho certo: ora é grossa, ora é fina. Agora o texto dá uma medida que todos conheciam. O que era película vira grão.
Os rabinos também brincaram com o som da palavra "coentro", que em hebraico soa como a raiz de "contar, revelar". Na Mekhilta e no Talmude, o maná é "como a hagadá" (a narrativa que atrai o coração), ou "o que conta" a verdade: diante de uma disputa entre marido e mulher, ou entre dois homens que brigavam pela posse de um escravo, Moisés mandava esperar a manhã — a casa em que aparecesse a porção daquela pessoa mostrava a quem ela pertencia. E o Talmude acrescenta que o maná era branco porque "embranquecia" os pecados de Israel. São jogos de palavras, não tradução, mas mostram o que a tradição fez de um grão: uma coisa que fala.
"e o seu sabor era como o de bolo com mel"
O problema maior está aqui. Números 11:8 descreve o gosto do mesmo maná de outro jeito: "o seu sabor era como o de bolo amassado com azeite". Mel aqui, azeite lá. Os comentaristas deram cinco respostas, e cada uma diz uma coisa diferente sobre o maná.
Primeira resposta: o gosto muda com o preparo. É a de Ibn Ezra, Chizkuni, Bekhor Shor e Shadal. Comido como caía, o maná tinha gosto de bolo com mel; moído, pilado e cozido, como Números 11:8 descreve, ganhava gosto de massa com azeite. Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, França, século XII) dá uma imagem: é como a noz, doce inteira e oleosa depois de moída. E observa que Números escreve "o seu sabor ficava como", marcando uma mudança, onde o Êxodo escreve apenas "o seu sabor era".
Segunda resposta: o gosto muda com a idade de quem come. Rashbam resume uma tradição do Talmude segundo a qual as crianças sentiam o mel e os velhos sentiam o azeite.
Terceira resposta: o gosto muda o tempo todo. No Talmude (Yoma 75a), Rabi Abahu lê a palavra rara de Números 11:8 como "seio": assim como o bebê encontra sabores diferentes no leite da mãe, que muda com o que ela come, Israel encontrava no maná sabores diferentes a cada vez. Outros, no mesmo lugar, leem a palavra como "demônio", o ser que muda de forma e de cor — e o maná mudava de gosto do mesmo modo.
Quarta resposta: o maná tinha o gosto que cada um queria. É a do livro da Sabedoria (escrito em grego por um judeu de Alexandria, provavelmente no século I antes de Cristo), que diz que o pão do céu era "capaz de todo deleite e ajustado a todo gosto" e que, "servindo ao desejo de quem o tomava, se transformava no que cada um queria" (Sabedoria 16:20-21). A ideia passou ao Talmude, que discute se o povo sentia no maná até o gosto dos pepinos e cebolas do Egito de que sentia falta. Nessa leitura, o mel do Êxodo e o azeite de Números são só dois exemplos de uma lista sem fim.
Quinta resposta: as duas descrições não querem conciliar nada, porque fazem papéis diferentes. Em Números 11, a descrição do bom gosto do maná vem logo depois de o povo chorar que "não há nada além deste maná diante dos nossos olhos" (Números 11:6). Rashi lê ali uma resposta do texto à queixa: vejam do que eles reclamam, e o maná era assim. O Êxodo descreve o maná em paz, depois do sábado; Números o descreve contra quem o desprezava. Os dois gostos seriam duas maneiras de elogiar.
O texto do Êxodo não escolhe, e não é possível decidir. Mas as cinco respostas têm uma coisa em comum: nenhuma diz que o maná era sem graça. A comida da prova (Êxodo 16:4) era doce.
Pão de quem?
O Salmo 78 resume a história do deserto e chama o maná de "pão dos poderosos" (Salmo 78:25). A palavra pode designar os fortes, os nobres ou os seres celestes, e a Septuaginta escolheu: "pão de anjos". O Talmude (Yoma 75b) guarda a briga que essa escolha provocou. Rabi Akiva entendia que era o pão que comem os anjos. Rabi Ismael mandou dizer a ele: "Akiva, você errou. Os anjos comem pão?" — e lembrou que Moisés, quando subiu ao monte, ficou quarenta dias sem comer (Deuteronômio 9:9). Para Ismael, a palavra deve ser lida como "membros": um pão que o corpo absorvia inteiro, sem deixar resto.
A briga não é sobre culinária. Akiva puxa o maná para cima, para o mundo dos anjos; Ismael o mantém no corpo humano, com a sua fisiologia. O Êxodo, com coentro, mel e padaria, está claramente do lado de Ismael: o maná deste versículo é descrito com as palavras de uma cozinha da terra.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
A casa de Israel
O povo inteiro, tomado como uma família. É ele, e não um líder, quem dá nome ao maná. O texto não registra quem disse a palavra primeiro nem quando ela pegou; registra só que o nome passou a ser de todos. No capítulo, o grupo recebe vários nomes: "a congregação dos filhos de Israel" (Êxodo 16:1), "esta assembleia" na boca dos queixosos (Êxodo 16:3), "o povo", e aqui "a casa".
O coentro
Planta anual da família da salsa e da cenoura, de flores brancas em guarda-chuva e folhas aromáticas. Cultivada no Egito e em Canaã, rendia duas coisas: a folha fresca e a semente seca. Só a semente entra na comparação — e só aqui e em Números 11:7 a planta aparece na Bíblia.
O bolo com mel
Massa fina, frita ou assada, adoçada com mel. Era comida de casa, feita na panela ou na chapa, e o versículo a usa como medida de gosto que todo ouvinte conhecia de boca.
5. Pontos de Ensino
O nome é do povo. Deus dá o alimento e Moisés o explica, mas quem o nomeia são as famílias de Israel. O texto não acha estranho que o dom de Deus receba palavra humana; registra o nome como fato do uso.
A descrição usa o que todos conheciam. Semente de coentro, cor branca, bolo com mel: nada de luz, de brilho celeste ou de matéria estranha. O texto descreve o extraordinário com o vocabulário da cozinha.
O alimento da prova era bom. O maná veio "para que eu o ponha à prova" (Êxodo 16:4), e mesmo assim tinha gosto de doce. A prova do capítulo está na regra de recolher, não num alimento ruim.
6. Aspectos Filosóficos
O que é sentir um gosto
O versículo faz uma coisa rara na Bíblia: descreve um sabor. E logo surgem as perguntas que a tradição levantou ao comparar este versículo com Números 11:8. O gosto está na comida ou em quem come? Uma comida pode ter muitos gostos? Que diferença há entre matar a fome e ter prazer à mesa? Quem mais pensou essas perguntas foi um juiz francês que escreveu o livro mais célebre já feito sobre o gosto.
Jean Anthelme Brillat-Savarin (1755-1826) era magistrado em Belley, no leste da França. Fugiu do Terror para a Suíça e os Estados Unidos e terminou a vida como juiz do tribunal mais alto da França. Dois meses antes de morrer publicou, sem o nome na capa, a Fisiologia do gosto (1825), mistura de tratado, memórias e receitas.
As três sensações
Brillat-Savarin divide o ato de provar em três momentos. A sensação direta é a primeira impressão, quando o alimento toca a língua. A sensação completa vem quando o alimento passa para o fundo da boca e o olfato se junta ao paladar. A sensação refletida é o juízo que a pessoa faz sobre o que provou. O gosto, para ele, não é só um contato: termina num julgamento.
A descrição do versículo fica nos dois primeiros momentos. "Como bolo com mel" é a sensação direta e completa, a doçura e a massa. As leituras rabínicas e o livro da Sabedoria levam o gosto do maná para o terceiro: o que conta é o que cada um sentia e queria sentir. Brillat-Savarin teria entendido a passagem de um a outro, porque para ele o gosto mais alto é sempre o refletido.
Um número infinito de sabores
Ele também afirma que o número de sabores é infinito, porque toda substância que se dissolve tem o seu sabor próprio, que nenhuma outra repete exatamente, e que a língua não tem palavras para quase nenhum deles. Por isso só se descreve um gosto comparando: "lembra isto", "é como aquilo".
O versículo faz exatamente isso. Não diz o gosto do maná; diz com o que ele parece. Rashbam vê na pequena palavra "como" a confissão de que nada no mundo tinha aquele gosto, só algo parecido. E a divergência entre o mel e o azeite fica menos estranha à luz de Brillat-Savarin: duas comparações para um sabor que não tem nome não se contradizem, só mostram duas faces do mesmo vazio de vocabulário.
O prazer de comer e o prazer da mesa
A distinção mais famosa do livro está na meditação sobre o prazer da mesa. O prazer de comer, diz Brillat-Savarin, é a sensação direta de uma necessidade satisfeita, e o homem o divide com os animais. O prazer da mesa é outra coisa: nasce das circunstâncias — o lugar, as pessoas, a conversa, a variedade, o tempo gasto juntos — e só o homem o conhece.
A distinção ilumina o que aconteceu com o maná. Ele garantia o primeiro prazer todas as manhãs, e era doce. O que ele não oferecia era o segundo: era o mesmo grão, todo dia, recolhido e comido por cada família na sua tenda. Quando o povo chora em Números 11, não chora de fome; chora pelos peixes, pepinos, melões, alhos e cebolas do Egito — isto é, pela variedade e pela mesa. Para Brillat-Savarin, a pergunta "isto mata a fome?" e a pergunta "isto me dá prazer à mesa?" são diferentes, e é possível dizer sim à primeira e não à segunda. O Êxodo responde à primeira; Números registra a segunda.
O limite
Brillat-Savarin escrevia sobre a cozinha francesa, com a leveza de um homem bem alimentado; o versículo é de um povo que acabara de temer a fome. A aproximação não diz o que o texto quis dizer. Mostra que as perguntas que a tradição fez ao maná — se o gosto está na coisa ou em quem come, se basta comer — são perguntas reais sobre o gosto.
7. Aplicações Práticas
Dar nome ao que se recebe. O povo transformou em palavra de todo dia a coisa que no primeiro dia o espantou. Há bens que só se percebem quando ganham nome: a ajuda regular de alguém, o salário que cai todo mês, a saúde do corpo. Nomear é sair da surpresa e assumir que aquilo faz parte da vida.
Perceber o gosto do que é diário. O versículo descreve com cuidado o sabor de uma comida que se comeria quarenta anos, e Números 11 mostra o mesmo alimento virando motivo de choro por monotonia. A mesma coisa pode ser descrita como bolo com mel ou como "nada além disto". O que muda é o olhar de quem come, e é sobre esse olhar que se tem algum poder.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O "coentro" do texto é mesmo o nosso coentro?
Quase certamente, mas a dúvida é antiga. A palavra hebraica só aparece aqui e em Números 11:7, sempre para o maná. Ibn Ezra registra que uns a entendiam como coentro e outros como mostarda, e confessa: "eu não sei, porque não se acha em outro lugar". A identificação com o coentro vem das traduções antigas — a Septuaginta e a Vulgata dizem coentro — e do nome púnico preservado pelos manuscritos de Dioscórides.
O gosto do maná se manteve em quarenta anos?
O Êxodo não diz. Mas, quase no fim da caminhada, o povo fala do maná com nojo: "a nossa alma tem nojo deste pão miserável" (Números 21:5). Entre o bolo com mel deste versículo e o "pão miserável" de Números 21 não mudou o alimento, que o texto nunca diz ter mudado; mudou a disposição de quem comia.
O maná era comido cru?
Podia ser. O Êxodo manda, para o sábado, assar e cozinhar o que fosse preciso (Êxodo 16:23), e Números descreve o povo moendo, pilando e cozinhando em panelas. Ao mesmo tempo, a leitura mais comum da diferença de gosto supõe que o maná também se comia como caía. O texto deixa as duas formas possíveis.
9. Conexão com Outros Textos
A outra descrição do maná
Números 11:7-9 — "O maná era como semente de coentro, e a sua aparência como a aparência do bdélio. O povo se espalhava e o recolhia, moía-o em moinhos ou o pilava em pilões, cozinhava-o em panelas e fazia dele bolos; e o seu sabor era como o de bolo amassado com azeite. Quando o orvalho descia de noite sobre o acampamento, o maná descia sobre ele."
A mesma semente, outra cor e outro gosto. Em vez de "branco", a aparência do bdélio, uma resina clara (o bdélio está no estudo de Gênesis 2:12); a Septuaginta troca o bdélio por "cristal". Em vez do mel, o azeite.
O pão dos poderosos
Salmo 78:24-25 — "Fez chover sobre eles o maná para comerem e lhes deu o trigo do céu. O homem comeu o pão dos poderosos; mandou-lhes comida até a fartura."
O salmo chama o maná de "trigo do céu" e de pão "dos poderosos" — anjos, para a Septuaginta e para Rabi Akiva; "dos membros", para Rabi Ismael.
O sabor que cada um queria
Sabedoria 16:20-21 — "Ao contrário, deste ao teu povo um alimento de anjos e, do céu, lhes forneceste sem fadiga um pão pronto, capaz de todo deleite e ajustado a todo gosto. Pois a tua substância mostrava a tua doçura para com os teus filhos; e, servindo ao desejo de quem o tomava, se transformava no que cada um queria."
O livro grego da Sabedoria tira do "bolo com mel" a consequência máxima: um alimento que se dobrava ao desejo de quem comia.
O pão desprezado
Números 21:5 — "E o povo falou contra Deus e contra Moisés: 'Por que nos fizeram subir do Egito para morrermos no deserto? Pois não há pão nem água, e a nossa alma tem nojo deste pão miserável.'"
O mesmo maná, quase quarenta anos depois, já sem nenhum gosto bom na boca de quem o come.
O nome dado pelo homem
Gênesis 2:19 — "Depois de formar do solo todos os animais do campo e todas as aves do céu, o SENHOR Deus os trouxe ao homem para ver como ele os chamaria; e o nome que o homem desse a cada ser vivente, esse seria o seu nome."
Deus faz, o homem nomeia. No deserto, Deus dá o pão e a casa de Israel lhe dá o nome.
A palavra doce como mel
Salmo 19:10 — "São mais desejáveis do que o ouro, do que muito ouro fino; e mais doces do que o mel e o favo que escorre."
Ezequiel 3:3 — "E me disse: 'Filho do homem, alimente o seu ventre e encha as suas entranhas com este rolo que eu lhe dou.' Eu o comi, e ele foi na minha boca doce como mel."
Na Bíblia, a doçura do mel serve também para descrever a palavra de Deus. O Êxodo não faz essa ligação; quem a fez foi a Mekhilta, ao dizer que a Torá só foi dada, para ser estudada, aos que comiam o maná.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
A casa de Israel o chamou pelo nome de maná; era como semente de coentro, branco, e o seu sabor era como o de bolo com mel.
Texto hebraico
וַיִּקְרְאוּ בֵית־יִשְׂרָאֵל אֶת־שְׁמוֹ מָן וְהוּא כְּזֶרַע גַּד לָבָן וְטַעְמוֹ כְּצַפִּיחִת בִּדְבָשׁ׃
Transliteração
vayyiqre'u veit-Yisra'el et-shemo man; vehu kezera gad lavan, veta'mo ketsappichit bidvash.
Análise palavra por palavra
וַיִּקְרְאוּ — vayyiqre'u, "e chamaram".
Raiz qara, "chamar", no Qal (a forma simples do verbo hebraico), forma narrativa, terceira pessoa do plural. O verbo está no plural, embora o sujeito, "casa", seja singular: o hebraico concorda com a ideia (muitas pessoas), não com a gramática da palavra. Com shem, "nome", forma a fórmula de dar nome que percorre o Gênesis.
בֵית־יִשְׂרָאֵל — veit-Yisra'el, "a casa de Israel".
Bayit, "casa", na forma de ligação, seguida do nome do povo. A palavra cobre a construção, a família que mora nela e a descendência de alguém — "a casa de Davi" é a dinastia. A primeira letra perde o som forte (veit, não beit) porque vem logo depois de uma vogal. A Septuaginta traz hoi huioi Israel, "os filhos de Israel".
אֶת־שְׁמוֹ — et-shemo, "o seu nome".
Partícula de objeto direto e shem, "nome", com o sufixo "dele". O hebraico diz, ao pé da letra, "chamaram o nome dele: maná".
מָן — man, "maná".
Agora substantivo próprio, sem artigo: a mesma palavra que, no primeiro dia, era a pergunta man hu, "que é isto?". A Septuaginta, que naquele versículo traduziu a pergunta, aqui apenas transcreve o som: Man.
וְהוּא — vehu, "e ele (era)".
Conjunção e pronome masculino, sem verbo: a frase hebraica de descrição dispensa o "ser". Masculino porque se refere a man.
כְּזֶרַע — kezera, "como semente de".
Preposição ke-, "como", e zera, "semente", na forma de ligação. Zera é a palavra da semente do campo e também da descendência humana, a "semente" de Abraão.
גַּד — gad, "coentro".
Só aqui e em Números 11:7, sempre "como semente de gad". A identificação com o coentro vem da Septuaginta (koriou, "de coentro") e da Vulgata (coriandri). A mesma sequência de letras é, em outro lugar, uma palavra diferente: "sorte, fortuna" — é o nome do filho de Jacó em Gênesis 30:11, e de uma divindade da sorte em Isaías 65:11. Os jogos rabínicos com hagadá e maggid ("narrativa", "o que conta") vêm de outra raiz, nagad, "contar, anunciar", que perde o primeiro n em várias formas e fica parecida com gad.
לָבָן — lavan, "branco".
Adjetivo masculino singular. É a palavra comum para a cor, a mesma que serve de nome a Labão; o campo da palavra está no estudo de Gênesis 29:5. Pela posição, depois de "coentro", poderia ser lida como "coentro branco"; a Septuaginta liga o adjetivo à semente (sperma koriou leukon), e a tradição rabínica o liga ao maná, contra a semente.
וְטַעְמוֹ — veta'mo, "e o seu sabor".
Ta'am, "gosto, sabor", com o sufixo "dele". A palavra tem um segundo sentido que diz muito: "juízo, bom senso, discernimento". Abigail ouve de Davi "bendito seja o seu bom senso" (1 Samuel 25:33), com a mesma palavra; e Davi, fingindo-se de louco diante do rei de Gate, "mudou o seu juízo" (1 Samuel 21:13; é também o título do Salmo 34). Em aramaico, a mesma raiz chega a significar "decreto". Sabor e discernimento são, em hebraico, uma palavra só.
כְּצַפִּיחִת — ketsappichit, "como bolo".
Preposição ke-, "como", e tsappichit, palavra que só existe neste versículo em toda a Bíblia. Tem a terminação -it de vários nomes de objetos e alimentos. A raiz mais provável é ts-p-ch, "espalhar, achatar", conhecida no árabe; Shadal, seguindo Gesenius (hebraísta alemão do século XIX, autor do léxico de hebraico de referência), aproxima-a de tefach, "palmo", e de mitpachat, "lenço, pano" — coisas planas e estendidas. Seria, então, uma massa achatada. Rashbam avisa que a palavra não tem relação com tsappachat, "moringa, cantil", de 1 Samuel 26:11, apesar da semelhança.
As traduções antigas divergem: enkris na Septuaginta (o bolinho frito e passado no mel), eskeritin em Ônquelos, e simila cum melle ("flor de farinha com mel") na Vulgata, a tradução latina de Jerônimo. A Septuaginta usa a mesma palavra, enkris, em Números 11:8 — "enkris de azeite" —, e assim faz dos dois gostos do maná dois sabores do mesmo bolo.
A expressão de Números 11:8, leshad hashemen, também é rara: leshad só volta no Salmo 32:4 (o vigor que seca "como no calor do verão") e quer dizer algo como "suco, gordura". "Seio" e "demônio" são leituras rabínicas pelo som.
בִּדְבָשׁ — bidvash, "com mel".
Preposição be-, que pode ser "em" ou "com", e devash, "mel". "Em mel" sugere o bolo frito e mergulhado no mel; "com mel", a massa amassada com ele. As duas leituras existem desde as traduções antigas. Devash designa tanto o mel de abelha quanto os xaropes de frutas.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira: o nome do maná é obra do povo e conserva a ignorância do primeiro dia. Ninguém impôs a palavra, e ela não diz o que a coisa é. Um povo inteiro passou quarenta anos chamando o seu pão diário de "que é isto?", e o texto registra a escolha sem corrigi-la.
A segunda: o Êxodo e Números deram ao maná gostos diferentes, e a tradição não conseguiu, nem precisou, reduzir os dois a um. As conciliações dizem mais sobre quem as fez do que sobre o maná: uns ligaram o sabor ao preparo, outros à idade, outros ao desejo de quem comia, outros à função das duas passagens. O que o texto garante é só que o gosto era bom e que só se podia dizê-lo por comparação.
A terceira: o versículo puxa o maná para a terra. A tradição o levaria depois para o céu e para os anjos; o Êxodo, neste ponto, descreve o alimento vindo de Deus como comida de gente.













