Os filhos de Israel viram, e disseram uns aos outros: “Que é isto?”, porque não sabiam o que era. E Moisés lhes disse: “Este é o pão que o SENHOR lhes deu para comer.
1. Introdução
Diante da coisa miúda no chão, o povo faz a única pergunta possível — "Que é isto?" —, e o texto acrescenta, para não deixar dúvida, que ninguém sabia o que era. A pergunta, em hebraico, soa como o nome que o alimento vai receber, e a relação entre as duas coisas é um dos enigmas mais antigos da língua da Bíblia. Moisés não responde dizendo de que a coisa é feita: diz para que ela serve e quem a deu. É a primeira vez que a coisa no chão é chamada de pão. Séculos depois, o evangelho de João tomará esta frase como ponto de partida de um discurso inteiro sobre "o pão do céu".
2. Contexto Histórico e Cultural
Um mundo em que o doce caía do céu
Para um leitor de hoje, "Que é isto?" é pergunta diante de um fenômeno estranho. Para um homem antigo, a coisa no chão era estranha, mas a ideia de um alimento doce caído do céu com o orvalho não era. Gregos e romanos acreditavam que o mel, ou parte dele, descia do ar.
Aristóteles, na História dos Animais (livro V), escreve que as abelhas recolhem o mel que "cai do ar", sobretudo no nascer de certas estrelas e quando aparece o arco-íris. Plínio, o Velho, no livro XI da História Natural, vai mais longe: o mel vem do ar, forma-se de madrugada, e "seja ele o suor do céu, uma espécie de saliva dos astros, ou a umidade do ar que se purifica", chega às folhas e às flores, de onde as abelhas o tiram. Os gregos tinham até um nome para isso: aeromeli ("mel do ar"), ou drosomeli ("mel de orvalho").
Galeno (médico grego do século II, nascido em Pérgamo, na Ásia Menor), no tratado Sobre as propriedades dos alimentos (livro III), conta ter visto o fenômeno no campo: depois de uma noite fria seguida de um dia quente de verão, as folhas das árvores e dos arbustos amanheciam cobertas de uma camada doce, e os camponeses diziam, brincando, que "Zeus choveu mel".
Era a secreção açucarada dos insetos sobre as folhas — o mesmo processo que produz o maná das tamargueiras do Sinai —, e os antigos a tomavam por coisa do céu. Esse fundo não explica o maná do Êxodo, mas explica por que a linguagem de "pão do céu" e de alimento que vem com o orvalho não soava absurda a ninguém no mundo antigo. Absurdo, para o leitor antigo, era o resto: a quantidade, a regra diária, o sábado.
O "maná" que foi parar na farmácia
O nome bíblico teve uma carreira longa fora da Bíblia. Na medicina árabe e persa da Idade Média, "maná" passou a designar vários exsudados doces de plantas, usados como remédio — entre eles o taranjabin, colhido de um arbusto espinhoso do Irã. Ibn Ezra, no século XII, já dizia da substância parecida com o maná que ela "só entra nos remédios".
Na Europa, o "maná" das farmácias veio do freixo-do-maná (Fraxinus ornus), uma árvore do sul da Itália e da Sicília. No verão, fazem-se cortes na casca; a seiva escorre, endurece ao ar em estalactites esbranquiçadas e é raspada. Foi vendida durante séculos como laxante suave para crianças e doentes, e ainda é colhida artesanalmente em algumas aldeias das montanhas da Sicília. Em 1806 o químico francês Joseph Louis Proust isolou dela um açúcar a que deu o nome de manita — hoje manitol, usado em medicina e na indústria de alimentos. O nome científico de uma substância comum guarda, assim, a pergunta de um povo no deserto.
3. Análise Teológica do Versículo
"Os filhos de Israel viram"
O primeiro verbo humano diante do maná é ver. Não recolhem, não provam, não agradecem: olham. Moisés tinha anunciado em Êxodo 16:7 que "de manhã verão a glória do SENHOR", e a tradição discutiu se a glória daquela manhã era o próprio maná (a pergunta é de Êxodo 16:7). Aqui o texto só registra que viram — e que ver não bastou para saber.
"e disseram uns aos outros"
A pergunta circula entre eles, de pessoa para pessoa, e não é dirigida a ninguém com autoridade. Doze versículos antes, o mesmo povo falava "contra Moisés e contra Arão" (Êxodo 16:2); agora fala entre si, e o tom mudou: da acusação para o espanto. A Mekhilta registra a opinião de Rabi Josué de que a resposta seguiu o caminho inverso — Moisés falou aos anciãos, e os anciãos ao povo —, como se a explicação precisasse descer pela mesma hierarquia que a queixa tinha pulado.
"Que é isto?"
A frase é curta e a tradição a leu de três maneiras.
Primeira: é uma pergunta. Assim leram a Septuaginta ("Que é isto?"), a Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, do fim do século IV, que conserva o som hebraico e explica: "Manhu? — que quer dizer: que é isto?") e a Mekhilta ("como alguém diz ao outro: que é isso?"). É a leitura da ABC, e a única que combina sem esforço com a frase seguinte, "porque não sabiam o que era".
Segunda: é uma afirmação — "é uma porção", "é comida". Assim traduziu o Targum de Ônquelos ("é alimento"), e assim leram Rashi e Ibn Ezra, que ligam a palavra a um verbo de "designar, atribuir" usado para a ração dada pelo rei em Daniel 1:5. O povo não perguntaria, mas reconheceria: isto é uma porção que nos foi dada. A leitura tem a vantagem de não precisar de uma palavra estrangeira e a desvantagem de esbarrar no "não sabiam o que era".
Terceira: é o nome — "É maná". Assim traduziu a Bíblia inglesa do rei Jaime, de 1611 ("It is manna"). A frase fica contraditória: o povo daria nome a uma coisa que acabara de dizer que não conhecia. O próprio capítulo só dá o nome mais adiante, em Êxodo 16:31, e diz que foi "a casa de Israel" que o deu.
O que está em jogo entre as três não é só gramática (a análise da palavra está no item 10). Se é pergunta, o maná começa como mistério; se é afirmação, começa como ração. As duas coisas estão no capítulo, e talvez por isso o hebraico tenha deixado a frase onde ela pode ser lida dos dois jeitos.
Mas a primeira leitura tem um peso que as outras não têm. O povo tinha pedido pão e lembrado do Egito como o lugar onde "comíamos pão até nos fartar" (Êxodo 16:3). Quando o pão chega, ninguém o reconhece. A resposta ao pedido não tem a cara do que foi pedido, e a primeira reação diante dela não é gratidão nem queixa: é não saber.
"porque não sabiam o que era"
A explicação parece sobrar — se perguntaram, é claro que não sabiam —, e por isso os comentaristas perguntaram por que o texto a escreve. Rashi responde que eles não sabiam o nome da coisa, e por isso não podiam chamá-la por ele. A frase, então, explica por que a pergunta virou nome: na falta de um nome, ficou a pergunta.
Deuteronômio dá a esse não saber um sentido teológico. Moisés lembrará ao povo que Deus o alimentou "com o maná, que você não conhecia, nem os seus pais conheciam" (Deuteronômio 8:3), e que fez isso "para lhe ensinar que o homem não vive só de pão". A novidade do alimento faz parte da lição: um pão conhecido teria ensinado que a comida vem da terra; um pão que ninguém conhecia ensina que ela pode vir de outro lugar.
A frase também pesa na discussão sobre o maná natural (Êxodo 16:14). Se o maná fosse o produto das tamargueiras, que os povos do Sinai conheciam e chamavam pelo mesmo nome, como um povo vindo do Egito não o reconheceria? Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) usam o argumento contra a identificação. A réplica possível é que gente criada no vale do Nilo não precisava conhecer um doce do deserto. O texto não resolve, mas insiste: ninguém ali sabia.
"E Moisés lhes disse: 'Este é o pão'"
A pergunta foi "que é isto?" e a resposta é "isto é o pão". Moisés não diz de que a coisa é feita, de onde veio, nem como se forma. Responde à pergunta sobre a substância com uma informação sobre a função: isto é comida, e é a comida que foi prometida. A coisa misteriosa continua misteriosa, mas agora tem lugar na vida do povo.
Ibn Ezra registra a opinião de Rabi Moisés ha-Kohen (comentarista da Espanha do século XI) de que Moisés tinha dito isso antes, e o texto só o conta agora: sem a explicação prévia, ninguém teria sabido que aquilo era para comer, e poderia ter passado por cima do chão coberto. A Torá, diz ele, nem sempre conta as coisas na ordem em que aconteceram.
"que o SENHOR lhes deu"
Moisés nomeia quem deu, e usa o passado: "deu", não "dará". O presente já está entregue no chão antes que alguém o pegue. O Targum Pseudo-Jônatas amplia a frase e faz Moisés dizer: "é o pão que estava guardado para vocês desde o princípio, nos céus do alto". É eco de uma tradição registrada na Mishná (tratado Avot 5:6), segundo a qual o maná está entre as dez coisas criadas na véspera do primeiro sábado, ao entardecer do sexto dia da criação — junto com a boca da terra que engoliu Corá, o poço de Miriã e a boca da jumenta de Balaão. Para essa tradição, o maná não é improviso de Deus diante de uma queixa; estava preparado desde antes do mundo ter queixosos.
O Êxodo não diz nada disso. Diz só que o pão foi dado — e, na boca de Moisés, que foi o SENHOR, não ele, quem deu. A ênfase importa num capítulo em que o povo acusava Moisés e Arão de tê-lo trazido ao deserto para morrer de fome (Êxodo 16:3).
"para comer"
A última palavra é um substantivo: "como alimento". A frase de Moisés termina onde a necessidade do povo estava — na comida. O texto não acrescenta, ainda, nenhuma regra; o versículo seguinte começa com "isto é o que o SENHOR ordenou". O dom vem primeiro, sozinho, e só depois a instrução.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os filhos de Israel
O sujeito do versículo é coletivo, e fala em muitas vozes: "uns aos outros". Não há porta-voz, não há líder do povo que pergunte em nome de todos. É o mesmo grupo que, em Êxodo 16:2-3, falava em bloco contra Moisés e Arão; aqui o bloco se desfaz em conversas.
Moisés, o que dá nome à função
Moisés aparece sozinho, sem Arão, que tinha sido o porta-voz em Êxodo 16:9-10. O papel dele aqui não é o de quem faz o milagre nem o de quem o pede: é o de quem explica o que já está diante de todos.
Os que leram a pergunta
Rashbam, Samuel ben Meir, neto de Rashi, comentarista da França do século XII, foi quem defendeu com mais vigor que a pergunta estava em língua estrangeira. Dunash ben Labrat, poeta e gramático judeu do século X, nascido em Fez e ativo na Córdoba muçulmana, sustentou contra o gramático Menachem ben Saruk que a frase só pode ser pergunta, porque o fim do versículo o exige; a discussão está registrada nas "respostas" que ele escreveu contra o dicionário de Menachem.
5. Pontos de Ensino
O dom precede a compreensão. O povo recebe antes de entender. O maná está no chão antes da pergunta, e a explicação de Moisés não esclarece de que ele é feito. Saber o que a coisa é não é condição para recebê-la.
A pergunta é uma resposta legítima. Diante do que Deus deu, a primeira reação registrada não é fé nem agradecimento: é "que é isto?". O texto não censura a pergunta. Ela é a forma honesta de quem não reconhece o que tem na frente.
Nomear pela função também é conhecer. Moisés não define a substância; diz para que serve e quem a deu. Há coisas que só se conhecem pelo uso e pela relação com quem as deu.
O que se pediu nem sempre se reconhece quando chega. O povo pediu pão e não reconheceu o pão. A resposta veio, mas em forma diferente da que a memória do Egito tinha desenhado.
O mediador aponta para outro. Moisés, acusado em Êxodo 16:3 de ter levado o povo à fome, não se apresenta como quem alimenta. A frase dele tem Deus por sujeito: "o pão que o SENHOR lhes deu".
O dom vem antes da regra. O versículo termina em "para comer", e só no seguinte começa a instrução. A ordem do capítulo é a da graça antes da lei.
6. Aspectos Filosóficos
Saber o que é, ou reconhecer o que foi dado
O versículo tem uma pergunta e uma resposta que não se encaixam. O povo pergunta pela natureza da coisa: "que é isto?". Moisés responde com uma relação: "é o pão que o SENHOR lhes deu". Não há informação nova sobre a substância; há uma indicação de como se colocar diante dela. O problema filosófico é antigo: há coisas que não se conhecem como objetos, mas que só se recebem e se reconhecem?
Stanley Cavell (1926-2018), filósofo norte-americano, professor de Harvard por mais de três décadas, fez dessa distinção o centro da sua obra. No ensaio "Knowing and Acknowledging" ("Conhecer e reconhecer"), publicado em 1969 no livro Must We Mean What We Say? ("Precisamos querer dizer o que dizemos?"), e depois em The Claim of Reason ("A reivindicação da razão", 1979), Cavell examina o velho problema do cético: como posso saber que o outro sente dor, que o mundo existe, que o que vejo é real? A tradição tentou responder com provas. Cavell sugere que a pergunta está mal posta: a nossa relação fundamental com o mundo e com os outros não é de conhecimento, no sentido de certeza demonstrada, mas de reconhecimento — aceitar, responder, tomar a coisa como dirigida a nós.
O reconhecimento como resposta
O exemplo de Cavell é a dor alheia. Quando alguém diz "estou com dor", ele não está me passando um dado para que eu verifique; está pedindo que eu reconheça a dor dele. Responder "não tenho como saber" não é prudência científica: é falha de reconhecimento. O cético não erra por falta de prova, mas por recusar o que o outro lhe dirige.
Aplicada ao versículo, a distinção ilumina a resposta de Moisés. "Que é isto?" é a pergunta do conhecimento: classificar, definir, saber de que é feito. "É o pão que o SENHOR lhes deu" é a fala do reconhecimento: a coisa é um dom, dirigido a vocês, e a resposta adequada a um dom não é análise, mas recebê-lo. Moisés não resolve o enigma; muda o registro da pergunta.
O comum que se torna estranho
Cavell passou a vida defendendo o valor do comum — da linguagem comum, da vida comum —, e insistia que o comum pode, a qualquer momento, parecer estranho. Num livro de 1988, In Quest of the Ordinary ("Em busca do comum"), ele fala da "estranheza do comum". O maná é o caso extremo dessa experiência ao contrário: uma coisa estranha que vai se tornar a mais comum de todas, o alimento de todas as manhãs por quarenta anos. O texto guarda as duas faces no próprio nome, que será, como a tradição o leu, uma pergunta.
O limite
O versículo não tem teoria do conhecimento, e Cavell não escreveu sobre ele. O que a aproximação mostra é uma estrutura que está no texto: a pergunta pela natureza da coisa fica sem resposta, e o capítulo não volta a ela; o que ele desenvolve, nos versículos seguintes, é como receber — quanto, quando, até quando. É a resposta de quem reconhece um dom, não a de quem resolveu o que ele é.
7. Aplicações Práticas
Não é preciso entender tudo para receber. O povo comeu o maná durante quarenta anos sem saber de que era feito. Muitas coisas essenciais — o cuidado de alguém, uma recuperação, uma oportunidade — chegam sem explicação completa. O versículo mostra que a pergunta pode ficar aberta enquanto o dom é recebido.
Perguntar juntos. A primeira reação do povo foi conversar "uns com os outros". Diante do que é novo e não se entende, a pergunta feita em comum é mais honesta do que o silêncio ou a pressa de cada um em ter a resposta.
Quem explica não precisa tomar o lugar de quem deu. Moisés aponta para o SENHOR e sai do centro. Quem tem a função de explicar — um pai, um professor, um líder — pode fazer o mesmo: esclarecer sem se apresentar como a fonte do que foi recebido.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O povo agradeceu?
O texto não registra agradecimento. Há pergunta, há explicação, e logo depois vem a ordem de recolher. A tradição judaica preencheu o silêncio por outro caminho: o Talmude (tratado Berakhot 48b) atribui a Moisés a primeira das bênçãos que se dizem depois das refeições, a que louva Deus "que alimenta a todos", e diz que ela foi instituída "quando o maná desceu para eles". A bênção sobre a comida, que todo judeu observante recita até hoje, teria nascido diante deste chão coberto. É tradição tardia, sem apoio no Êxodo, mas mostra que os rabinos sentiram a falta que o texto deixa.
Dava para viver só de maná?
O capítulo fala como se o maná fosse o alimento de quarenta anos (Êxodo 16:35), e Moisés o chama de "pão", palavra que vale por comida em geral. Mas o povo tinha saído do Egito com rebanhos (Êxodo 12:38), e em Números 11:6 a queixa é justamente de monotonia: "a nossa alma se secou; não há nada além deste maná diante dos nossos olhos". O texto não diz que o maná era a única coisa que se comia; diz que era o pão de cada dia, o que garantia que ninguém morresse de fome.
Os outros povos viram o maná?
O Êxodo não fala de testemunhas de fora. A Mekhilta registra a opinião de Issi ben Judá de que todos os povos viram o maná descer, e cita o Salmo 23:5: "preparas uma mesa diante de mim, na presença dos meus inimigos". É a leitura de quem queria um dom público. O texto mostra o contrário: um dom tão discreto que nem quem o recebeu sabia o que era.
9. Conexão com Outros Textos
O discurso do pão do céu
João 6:31-35 — "'Os nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: Deu-lhes a comer pão do céu.' Jesus lhes disse: 'Em verdade, em verdade lhes digo: não foi Moisés que lhes deu o pão do céu; mas o meu Pai lhes dá o verdadeiro pão do céu. Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo.' Disseram-lhe então: 'Senhor, dê-nos sempre deste pão.' Jesus lhes disse: 'Eu sou o pão da vida; quem vem a mim nunca terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede.'"
É a única leitura cristológica deste capítulo, e ela é de João, não do Êxodo. O evangelho a monta como um comentário de escola sobre uma citação. A multidão cita a Escritura: "deu-lhes a comer pão do céu" — frase que junta Êxodo 16:4 ("pão do céu"), Êxodo 16:15 ("o pão que o SENHOR lhes deu para comer") e o Salmo 78:24. O estudioso norueguês Peder Borgen mostrou, em Bread from Heaven ("Pão do céu", 1965), que o discurso segue o padrão das homilias judaicas da época: cita-se o texto e depois se comenta palavra por palavra, corrigindo a leitura corrente.
As correções de Jesus incidem exatamente sobre as palavras deste versículo. Primeira: quem deu. A multidão atribui o pão a Moisés; o Êxodo já não atribuía — Moisés diz "o pão que o SENHOR lhes deu". Jesus devolve a frase ao que ela dizia. Segunda: o tempo do verbo. No grego do evangelho, "não foi Moisés que deu" está no passado; "o meu Pai dá" está no presente. O dom do deserto não é só lembrança. Terceira: o sujeito de "desce". Em grego, "aquele que desce do céu" pode referir-se ao pão ou a uma pessoa; os ouvintes entendem pão ("dê-nos sempre deste pão"), e Jesus resolve a ambiguidade: "Eu sou o pão da vida".
E há um eco da pergunta "Que é isto?". No Êxodo o povo não sabe o que tem diante de si; em João a multidão também não sabe, e pede o pão sem perceber de quem está falando. O evangelho usa o espanto do deserto como molde para o mal-entendido diante de Jesus. Mais adiante, em João 6:49, ele marca o limite do dom antigo: "Os pais de vocês comeram o maná no deserto e morreram". O maná sustentava a vida; não a tornava eterna. A leitura de João é uma recepção cristã do texto; o Êxodo, no seu mundo, não aponta para ela. (A pergunta da multidão em João 6:30, que pede um sinal citando o maná, está no estudo de Mateus 16:1.)
O maná que ninguém conhecia
Deuteronômio 8:3 — "Ele humilhou você, deixou você passar fome e o alimentou com o maná, que você não conhecia, nem os seus pais conheciam, para lhe ensinar que o homem não vive só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR o homem vive."
O "não sabiam o que era" de Êxodo 16:15 vira lição: a novidade do alimento é parte do ensino. É o versículo que Jesus cita em Mateus 4:4.
O pão para comer
Gênesis 28:20 — "Depois Jacó fez um voto, dizendo: 'Se Deus estiver comigo e me guardar nesta jornada que estou fazendo, e me der pão para comer e roupa para vestir…'"
Jacó, fugitivo, pede a Deus "pão para comer". No deserto, Moisés diz ao povo: "este é o pão que o SENHOR lhes deu para comer". O pedido do patriarca se cumpre na escala de um povo.
A memória orante
Neemias 9:15 — "Pão do céu lhes deste para a fome deles, e água da rocha lhes fizeste sair para a sede deles."
Na confissão pública dos tempos de Esdras, o maná é lembrado como dom, nunca como enigma. A pergunta "que é isto?" desaparece da memória; fica a resposta de Moisés.
O alimento espiritual e o maná escondido
1 Coríntios 10:3 — "e todos comeram o mesmo alimento espiritual."
Apocalipse 2:17 — "Ao vencedor darei a comer do maná escondido, e lhe darei uma pedrinha branca, e na pedrinha um nome novo escrito."
Paulo chama o maná de "alimento espiritual" ao advertir os coríntios com a história do deserto; o Apocalipse promete um "maná escondido", eco da tradição judaica de que o jarro de maná fora guardado e escondido. Nos dois casos o Novo Testamento lê o maná como figura; nenhum dos dois diz o que ele era.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Os filhos de Israel viram, e disseram uns aos outros: “Que é isto?”, porque não sabiam o que era. E Moisés lhes disse: “Este é o pão que o SENHOR lhes deu para comer.
Texto hebraico
וַיִּרְאוּ בְנֵי־יִשְׂרָאֵל וַיֹּאמְרוּ אִישׁ אֶל־אָחִיו מָן הוּא כִּי לֹא יָדְעוּ מַה־הוּא וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה אֲלֵהֶם הוּא הַלֶּחֶם אֲשֶׁר נָתַן יְהוָה לָכֶם לְאָכְלָה׃
Transliteração
vayyir'u venei-Yisra'el vayyomeru ish el-achiv man hu, ki lo yade'u mah-hu; vayyomer Mosheh alehem hu hallechem asher natan YHWH lakhem le'okhlah.
Análise palavra por palavra
וַיִּרְאוּ בְנֵי־יִשְׂרָאֵל — vayyir'u venei-Yisra'el, "e viram os filhos de Israel".
Raiz ra'ah, "ver", no Qal (a forma simples do verbo hebraico), forma narrativa, terceira pessoa do plural. O verbo não tem objeto expresso: "viram" — o quê, o texto não diz, porque não há nome para dizer.
וַיֹּאמְרוּ אִישׁ אֶל־אָחִיו — vayyomeru ish el-achiv, "e disseram uns aos outros".
Literalmente, "cada homem ao seu irmão", a fórmula hebraica corrente para a reciprocidade, analisada no estudo de Gênesis 37:19.
מָן הוּא — man hu, "que é isto?".
Aqui está o centro do versículo. Hu é o pronome "ele", usado como "isto, é". O problema é man. Em hebraico bíblico, "que?" se diz mah, e man com esse sentido não existe em nenhum outro lugar. As explicações são cinco.
Primeira: man é o "que?" de uma língua vizinha. Em aramaico e em siríaco, man é pronome interrogativo (no aramaico bíblico, quase sempre "quem?"); em ugarítico, a forma mn também serve de interrogativo. O povo estaria falando a língua do dia a dia, não a da escrita. Keil e Delitzsch defendem que man por mah era forma popular, conservada no aramaico e no etíope.
Segunda: é egípcio. Rashbam e Chizkuni afirmam que man era o "que?" na língua do Egito, e que o povo, recém-saído de lá, falou como falava. Rashbam compara com outros lugares em que a Bíblia conserva a palavra estrangeira dita pelo personagem: o nome aramaico que Labão dá ao monte de pedras em Gênesis 31:47 e o pur persa de Ester 3:7. A egiptologia não confirma um interrogativo man no egípcio, e a hipótese fica sem apoio firme.
Terceira: é o verbo "designar, atribuir" (manah), e a frase não pergunta, afirma: "é uma porção". É a leitura de Ônquelos, Rashi e Ibn Ezra, que citam Daniel 1:5 e 1:10, onde o rei "designa" a ração dos jovens. Ibn Ezra acrescenta uma objeção à hipótese anterior: em árabe, diz ele, man só se usa para pessoas ("quem?"), e "o que é?" seria ma huwa.
Quarta: o nome veio primeiro e a pergunta é explicação popular. O produto das tamargueiras se chama man em árabe; se esse fosse o nome antigo da substância, a frase do Êxodo seria um jogo de palavras posterior, que explica o nome conhecido pela pergunta que ele lembra. É a leitura da Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) e de boa parte dos estudiosos modernos.
Quinta: o próprio versículo glosa a palavra. Logo depois de man hu vem ki lo yade'u mah-hu, "porque não sabiam mah hu": a mesma frase, com o interrogativo hebraico normal. O texto escreve a forma estranha e, na mesma linha, a forma comum, como quem traduz para o leitor. Essa é a observação de Dunash ben Labrat, no século X, para quem o fim do versículo prova que man hu é pergunta.
Não é possível decidir entre as cinco com segurança. A quinta, porém, mostra como o próprio texto quis ser lido: como pergunta.
Da pergunta ao nome
Em Êxodo 16:31, "a casa de Israel o chamou pelo nome de man". A palavra que aqui é pergunta (ou ração) lá é nome próprio, sem artigo, e o texto não explica o nome de novo: a explicação está aqui. Por isso as traduções antigas dividiram as duas coisas. A Septuaginta escreve "Que é isto?" (ti estin touto) neste versículo e, em Êxodo 16:31, transcreve o som: man. Na própria Septuaginta, em Números 11:6-9 e em Deuteronômio 8:3, aparece a forma manna, com a terminação aramaica -a, que é a que passou ao Novo Testamento, ao latim e ao português "maná". A Vulgata conserva aqui o som hebraico e o traduz: Manhu? quod significat: Quid est hoc? ("Manhu? — que quer dizer: que é isto?"). O nome do alimento do deserto é, até hoje, em quase todas as línguas que o usam, uma pergunta que ninguém respondeu.
כִּי לֹא יָדְעוּ מַה־הוּא — ki lo yade'u mah-hu, "porque não sabiam o que era".
Ki, "porque"; lo, "não"; yade'u, perfeito de yada, "saber, conhecer", terceira pessoa do plural; mah-hu, "o que é". O verbo yada é o do conhecimento por experiência; Deuteronômio 8:3 o retoma para o maná: "que você não conhecia".
וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה אֲלֵהֶם — vayyomer Mosheh alehem, "e Moisés lhes disse".
Forma narrativa de amar, "dizer". Ibn Ezra, seguindo Rabi Moisés ha-Kohen, admite que o verbo pode valer por um mais-que-perfeito ("Moisés lhes tinha dito"), porque a narrativa hebraica nem sempre segue a ordem dos fatos.
הוּא הַלֶּחֶם — hu hallechem, "este é o pão".
A resposta começa com o mesmo pronome que fechava a pergunta: man hu? — hu hallechem. "Que é isto?" — "Isto é o pão." Lechem é pão e, por extensão, comida em geral.
אֲשֶׁר נָתַן יְהוָה לָכֶם — asher natan YHWH lakhem, "que o SENHOR lhes deu".
Asher, "que"; natan, perfeito de "dar", terceira pessoa do masculino singular — ação concluída, o dom já está entregue; YHWH, o nome divino, que a ABC verte por "SENHOR"; lakhem, "a vocês".
לְאָכְלָה — le'okhlah, "para comer".
Não é o infinitivo do verbo comer, mas o substantivo okhlah, "alimento, comida", com a preposição le-, "para, como": "como alimento". A mesma palavra aparece em Gênesis 1:29-30, quando Deus dá as plantas "como alimento" aos homens e aos animais. O maná é dado na mesma fórmula com que a criação foi dada para comer.
11. Conclusão
Do que se viu, o versículo leva a três conclusões.
A primeira: o alimento que sustentou Israel por quarenta anos começa como algo que ninguém reconhecia. O texto não esconde isso, e até o sublinha com uma frase que parecia sobrar. O dom não chegou com a cara do pedido, e a primeira reação legítima diante dele foi não saber. A Bíblia não trata essa ignorância como falta de fé.
A segunda: a resposta de Moisés não fecha o mistério; muda a pergunta. Ninguém fica sabendo de que o maná é feito, nem neste versículo nem depois. O que o povo fica sabendo é que aquilo é comida e que foi dado pelo SENHOR. O resto do capítulo se ocupa de como receber o dom, não de explicá-lo — e o nome que o alimento recebeu guarda, até hoje, a pergunta sem resposta.
A terceira: a frase de Moisés, "este é o pão que o SENHOR lhes deu", tornou-se a fórmula pela qual o maná foi lembrado, de Neemias às bênçãos judaicas da mesa e ao discurso de João 6. Cada leitura posterior a tomou num sentido próprio. O Êxodo, por si, diz algo mais simples e mais firme: no deserto, quem dá o pão não é Moisés, e o pão vem antes da regra.













