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Êxodo 16:32

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✍️ Por Alberto Adriano·3 de outubro de 2026·⏱️ 22 min de leitura·👁 15 acessos
Moisés disse: “Isto é o que o SENHOR ordenou: ‘Encham dele um ômer, para ser guardado pelas gerações de vocês, para que vejam o pão com que eu os alimentei no deserto, quando os tirei da terra do Egito.’”
Moisés, idoso, de pé diante do acampamento ao amanhecer, segura um recipiente de medida cheio de maná branco e o mostra a um grupo de crianças, enquanto os pais observam da entrada das tendas.

Estudo


Moisés disse: “Isto é o que o SENHOR ordenou: ‘Encham dele um ômer, para ser guardado pelas gerações de vocês, para que vejam o pão com que eu os alimentei no deserto, quando os tirei da terra do Egito.’”

1. Introdução

Moisés transmite uma ordem nova: separar um ômer de maná e guardá-lo para as gerações futuras. O alimento que até aqui não podia passar de um dia para o outro passa a ser guardado de propósito, por tempo indeterminado. A finalidade declarada é que gente que nunca comeu maná o veja. O versículo levanta perguntas que a tradição discutiu muito: para quem era a reserva, o que se aprende vendo um pão, e quem é que alimentou quem — a Septuaginta muda a resposta. É o primeiro objeto do Êxodo guardado para ser mostrado a quem não estava lá.

2. Contexto Histórico e Cultural

Coisas guardadas para os que viriam depois

Guardar um objeto para que as gerações seguintes o vejam era prática comum no mundo antigo, sobretudo nos templos. Três casos mostram como isso funcionava e servem de contraste para o jarro do maná.

A Crônica do templo de Lindos

Em 1904, uma expedição dinamarquesa dirigida por Christian Blinkenberg e Karl Frederik Kinch encontrou, na acrópole de Lindos, na ilha de Rodes, uma laje de mármore gravada em 99 antes de Cristo. Hoje está no Museu Nacional de Copenhague. O texto é um decreto da cidade: como muitas das oferendas antigas do templo de Atena tinham se perdido com o tempo, a assembleia mandou fazer uma lista de todas elas, com a fonte escrita que comprovava cada uma.

A lista começa no tempo dos heróis. Registra oferendas atribuídas a Lindo, o fundador da cidade, a Cadmo — um caldeirão de bronze com inscrição em letras fenícias —, a Minos, a Héracles, a Helena e a Menelau, e desce até presentes de reis históricos, como Alexandre, o Grande. A maior parte daqueles objetos já não existia quando a laje foi gravada. A cidade substituiu as peças perdidas por uma lista, para que os cidadãos continuassem a "ver" com a leitura o que os antepassados tinham visto com os olhos. A memória dependia de objetos; quando eles sumiram, ficou o inventário.

O cetro de Queroneia

Pausânias (viajante grego do século II depois de Cristo, autor de uma Descrição da Grécia em dez livros) conta, no livro IX, que os habitantes de Queroneia veneravam acima de todos os deuses um objeto: o cetro de Agamêmnon, que a lenda dizia ter sido feito por Hefesto. Não havia templo para ele. Um sacerdote o guardava em casa durante um ano, e todos os dias se faziam sacrifícios diante dele e se punha ao lado uma mesa cheia de carnes e bolos de todo tipo.

O caso é o contrário exato do jarro. Em Queroneia, a comida é posta diante do objeto sagrado, e renovada a cada dia; no Êxodo, a própria comida é o objeto, e fica sempre a mesma.

A cabana de Rômulo

Em Roma, no monte Palatino, os romanos mantinham uma cabana de madeira e palha que diziam ter sido a casa de Rômulo, o fundador da cidade. Dionísio de Halicarnasso (historiador grego que viveu em Roma no século I antes de Cristo) registra que ninguém a enfeitava para torná-la mais imponente; quando o tempo ou o fogo a danificavam, ela era consertada com os mesmos materiais, para continuar a ser o que tinha sido. O cuidado era manter visível a pobreza do começo.

O que o Êxodo guarda

Postos ao lado desses casos, os traços do jarro de maná aparecem com nitidez. Os templos gregos guardavam presentes de heróis e de reis, coisas raras e caras. A cabana de Rômulo guardava o começo humilde de uma cidade, mas era a casa de um homem, o fundador. O jarro do Êxodo guarda a ração de uma pessoa para um dia, uma coisa sem valor de mercado e sem dono famoso — o mesmo que todos comiam todas as manhãs. A peça escolhida para a memória das gerações é a mais comum de todas.

3. Análise Teológica do Versículo

"Moisés disse: 'Isto é o que o SENHOR ordenou'"

O texto não mostra Deus dando esta ordem; mostra Moisés anunciando que ela foi dada. Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII) diz o óbvio que o leitor precisa ouvir: a ordem já tinha sido dada antes, e só aqui é contada.

O Or HaChaim (Chaim ibn Attar, comentarista do Marrocos, século XVIII) faz uma pergunta mais fina: o que exatamente Deus ordenou? A frase atribuída a Deus diz apenas "a medida de um ômer, para ser guardada". Não diz quem enche, em que recipiente, nem onde se guarda. Ele propõe duas respostas. Na primeira, Moisés preencheu o resto com o próprio juízo, e o versículo 34 ("como o SENHOR tinha ordenado") mostra que Deus aceitou como seu o que Moisés decidiu. Na segunda, Moisés não sabia como cumprir a ordem e recebeu depois os detalhes. É a pergunta, nunca resolvida no Êxodo, de quanto da lei é palavra de Deus e quanto é aplicação de Moisés.

"Encham dele um ômer"

A medida não é qualquer uma. Um ômer é a porção de uma pessoa para um dia: "um ômer por cabeça" (Êxodo 16:16). O que se guarda para as gerações não é um estoque, nem uma refeição de festa, nem a reserva de um mês; é o pão de um dia de um homem. A memória escolhe a unidade do dom, não a sua soma.

E a ordem contradiz, de propósito, a regra central do capítulo. Moisés tinha dito: "Ninguém deixe resto dele até a manhã" (Êxodo 16:19), e quem guardou viu o maná criar vermes (Êxodo 16:20). Agora a mesma boca manda guardar, e não por uma noite, mas por gerações. O que era desobediência quando feito por desconfiança vira mandamento quando feito por memória. A diferença não está no gesto de guardar; está no motivo e em quem manda.

"para ser guardado pelas gerações de vocês"

Para quem era a reserva? A Mekhilta (o comentário rabínico antigo ao Êxodo) registra três respostas. Rabi Josué diz: "para os pais", isto é, para a própria geração do deserto, que veria o jarro durante os quarenta anos. Rabi Eleazar diz: "para as gerações", para os que viriam depois. E Rabi Eliezer põe uma data: "para os dias do profeta Jeremias".

A história de Rabi Eliezer, que Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista francês do século XI) repete, é esta. Jeremias perguntou ao povo por que não se dedicava ao estudo da Lei, e o povo respondeu: "Se largarmos o trabalho para estudar, de que vamos viver?" O profeta tirou então o jarro de maná e disse: "Ó geração, vejam a palavra do SENHOR!" (Jeremias 2:31). Rashi chama a atenção para o verbo: o profeta não diz "ouçam a palavra", mas "vejam". A palavra hebraica que Jeremias usa quer dizer ao mesmo tempo "palavra" e "coisa", e o que ele mostra é uma coisa: foi disto que os pais de vocês viveram. "O Lugar" (um dos nomes de Deus na literatura rabínica), conclui Rashi, "tem muitos mensageiros para alimentar os que o temem".

O versículo de Jeremias, no seu contexto, não fala de jarro nenhum; a ligação é dos rabinos. Mas ela acerta numa coisa que está no Êxodo: o jarro responde à pergunta "de que vamos viver?". A Mekhilta, no mesmo trecho, inclui entre as sete coisas escondidas do ser humano "de onde virá o seu sustento". O jarro é a prova visível de que, uma vez, o sustento veio de onde ninguém esperava.

O Netsiv (Naftali Tsvi Yehudá Berlin, comentarista lituano do século XIX), no Haamek Davar, segue a mesma linha e faz do jarro uma advertência permanente: Deus ajuda quem se entrega ao estudo, ainda que não com maná. É leitura de rabino que dirigia uma academia de estudo; o Êxodo não diz para que lição o jarro serviria, só que serviria para ver.

"para que vejam o pão"

O Êxodo vinha construindo a memória pelo ouvido e pela boca. O pai deve contar ao filho "como zombei do Egito" (Êxodo 10:2); quando os filhos perguntarem pelo rito da Páscoa, a resposta é uma frase (Êxodo 12:26-27); "naquele dia você contará ao seu filho" (Êxodo 13:8). Aqui, pela primeira vez no livro, a memória fica num objeto guardado à parte, para que outros o vejam. As gerações não vão ouvir falar do maná: vão olhar para ele.

E vão olhar para um pão que não podem comer. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) observa que o ômer era guardado "para olhar", não para consumo. Todo o capítulo tratou o maná como coisa que se recolhe e se come no mesmo dia; o ômer do jarro é o único maná que ninguém come. Ele deixa de ser alimento e vira sinal.

Há ainda um deslocamento de pessoas na frase. Os que "vejam" são as gerações, na terceira pessoa; os alimentados são "vocês". Quem verá não é quem comeu. O objeto existe exatamente para cobrir essa distância entre a experiência e a memória.

"com que eu os alimentei no deserto"

No meio de uma fala de Moisés, Deus fala em primeira pessoa: "eu os alimentei", "eu os tirei". Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) explica que Moisés repete a ordem com as palavras de Deus, como quem cita, e por isso o pronome "vocês" se dirige ao povo.

O verbo é o de "fazer comer", e não o de "dar comida". Deus não é apresentado como fornecedor, mas como quem pôs o alimento na boca. É o mesmo verbo de Deuteronômio 8:3 e 8:16, quando Moisés relembra o maná no fim dos quarenta anos.

A Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria no século III antes de Cristo) mexeu nessa primeira pessoa. Em vez de "o pão com que eu os alimentei", escreveu "o pão que vocês comeram"; em vez de "quando os tirei", "quando o Senhor os tirou". A fala divina citada virou fala de Moisés sobre Deus, e o sujeito do comer passou a ser o povo. A tradução tirou a ambiguidade de quem fala, e com ela tirou também o Deus que alimenta com a própria mão.

"quando os tirei da terra do Egito"

A fórmula da saída do Egito, que o livro usa para lembrar a libertação, aparece aqui presa a uma refeição. O tempo do maná é definido pelo êxodo: o pão do deserto faz parte da saída, não é um episódio depois dela. O que o jarro conserva, então, não é um milagre de comida separado, mas um pedaço da própria libertação — a parte que se podia pôr num recipiente.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés

Fala ao povo em nome de Deus, como nas outras regras do capítulo, e cita as palavras divinas na primeira pessoa. É a última ordem nova de Moisés sobre o maná; no versículo seguinte ele se dirige só a Arão.

As gerações

Os destinatários verdadeiros da ordem ainda não nasceram. A geração que saiu do Egito, segundo Números 14:29-35, morreria no deserto; quem veria o jarro com os olhos de quem não comeu seriam os filhos e os filhos dos filhos. O versículo fala, assim, a três grupos ao mesmo tempo: o povo que ouve, a geração que vai morrer no caminho e a que vai entrar na terra.

Jeremias

O profeta de Anatote, que pregou em Jerusalém nas últimas décadas do reino de Judá, antes da destruição pelos babilônios em 587 antes de Cristo. Não aparece no Êxodo, mas a tradição rabínica fez dele o primeiro a usar o jarro de maná como argumento, numa geração que se preocupava em como viver.

O deserto

A palavra fecha o lugar da memória: "no deserto". O jarro não guarda uma lembrança do Egito nem da terra prometida, mas do trecho entre os dois, onde não havia nem plantio nem colheita.

5. Pontos de Ensino

A memória do dom passa por um objeto. Até aqui o Êxodo transmitia a lembrança por palavras e ritos. Com o ômer guardado, a lembrança ganha uma coisa que se pode ver. A fé de Israel não dispensa os olhos.

O que se guarda é o comum. Não se guardou um tesouro nem uma relíquia de herói, mas a ração de um dia. O texto ensina que o cuidado de Deus se mostra no pão de cada dia, não só nos acontecimentos extraordinários.

Guardar e acumular não são a mesma coisa. O mesmo gesto de guardar maná foi reprovado em Êxodo 16:20 e ordenado aqui. A diferença está no motivo: guardar por desconfiança de que amanhã faltará, ou guardar para lembrar que nunca faltou.

Deus aparece como quem alimenta. O verbo da frase coloca Deus como aquele que fez o povo comer. A memória pedida não é a de uma colheita do povo, mas a de uma comida recebida.

A memória é para quem não viu. Quem comeu o maná não precisava do jarro. O objeto foi pensado para os que viriam depois, e o versículo admite que a experiência não se transmite inteira: o que passa adiante é um sinal dela.

6. Aspectos Filosóficos

O que o jarro deixa de fora

Todo objeto de memória é também uma escolha do que esquecer. O ômer no jarro guarda o pão; não guarda a fome dos primeiros dias, o medo de morrer no deserto, as murmurações, os vermes do maná guardado contra a ordem. As gerações que olharem o jarro verão o dom sem a angústia que o precedeu. O problema filosófico é o da relação entre memória e esquecimento: lembrar exige esquecer?

Marc Augé (1935-2023), antropólogo francês, presidente da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris e autor de Não lugares (1992), dedicou ao assunto um livro curto, As formas do esquecimento (1998). A tese é que o esquecimento não é o inimigo da memória, mas a sua condição. "As lembranças são moldadas pelo esquecimento como o contorno da costa é moldado pelo mar", escreve ele. Quem lembrasse tudo não lembraria nada, porque não haveria forma.

As três figuras

Augé, que tinha passado anos estudando rituais na Costa do Marfim, descreve três maneiras de esquecer que as sociedades organizam em ritos. A primeira é o retorno: esquecer o presente para reencontrar um passado perdido, como nos ritos de possessão em que os antepassados voltam. A segunda é a suspensão: cortar o presente do passado e do futuro, como no carnaval, em que por um tempo os papéis se invertem. A terceira é o começo: esquecer o passado para abrir o futuro, como nos ritos de iniciação, em que o jovem "morre" para a infância e nasce adulto.

O jarro de maná pertence à primeira figura. Ele existe para que gerações que vivem num presente de plantio e colheita reencontrem, por um instante, o tempo em que o pão vinha do céu. Mas o capítulo também conhece a terceira. Uma das primeiras falas do povo no deserto era a lembrança do Egito, "quando nos sentávamos junto à panela de carne" (Êxodo 16:3): uma memória seletiva, que esquecia a escravidão. A ordem do jarro responde a essa memória com outra. O povo guardava na lembrança a panela do Egito; Deus manda guardar o jarro do deserto. Não se trata de lembrar mais, mas de escolher o que lembrar — e, portanto, o que esquecer.

Esquecer para viver

Augé insiste que é preciso esquecer para continuar no presente, e que a fidelidade ao passado também depende do esquecimento: quem não esquece nada fica preso ao que aconteceu e não consegue reconhecer o que vem. No fim do livro ele fala do esquecimento como aquilo que permite "provar o sabor do presente".

O versículo tem uma intuição parecida, em outra direção. O maná parará um dia (Êxodo 16:35), e o povo terá de aprender a comer do trabalho da terra. O jarro não impede que isso aconteça, nem pede que o povo viva olhando para trás. Ele guarda uma porção só, e o resto do pão do deserto pode — e deve — ser esquecido como alimento, para que a vida siga. O que fica é o sinal.

O limite

Augé escreveu sobre ritos africanos e sobre a memória das sociedades modernas, não sobre a Bíblia. A aproximação não atribui ao texto uma teoria do esquecimento. Mostra apenas que um objeto de memória, como o jarro, já é uma seleção — e que o Êxodo, ao mandar guardar o pão e não a fome, fez uma escolha que o texto não comenta.

7. Aplicações Práticas

Guardar sinais do que se recebeu. Muitas famílias guardam o vestido de um casamento ou a primeira ferramenta de um ofício. O versículo sugere guardar também o sinal das vezes em que se recebeu o necessário sem saber de onde ele viria: uma carta, um recibo, um objeto daquele tempo. São coisas sem valor de mercado, e é por isso que servem.

Mostrar, além de contar. O versículo põe o olhar no lugar do relato. Para quem tem filhos ou alunos, um objeto concreto às vezes diz o que nenhuma explicação diz. Mas o objeto sozinho não basta: o jarro precisava de quem dissesse o que havia nele.

Distinguir o que se guarda por medo e o que se guarda por memória. O mesmo maná guardado apodreceu numa noite e foi conservado por gerações. Antes de acumular, vale perguntar qual dos dois motivos está agindo.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

A ordem foi dada no primeiro dia do maná?

Provavelmente não. Comentaristas antigos e modernos — de Ibn Ezra a Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) e ao Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) — entendem que ela supõe um lugar para guardar o jarro que ainda não existia, e que foi posta aqui para fechar a história do maná. A discussão sobre esse lugar e sobre quando o capítulo foi escrito está no estudo de Êxodo 16:34.

O maná guardado também apodreceria?

O texto não diz. A lógica do capítulo pede que não, pois um jarro de vermes não serviria para mostrar nada; Benson (Joseph Benson, metodista inglês do século XIX) fala de "um milagre permanente". Mas o Êxodo não registra nenhuma inspeção do jarro, e nenhum texto bíblico posterior conta que alguém o viu.

Por que um ômer, e não uma quantidade maior?

Porque o ômer era a medida de uma pessoa por dia. Guardar mais seria guardar uma reserva, e reserva era exatamente o que o maná não admitia. A medida mínima diz que o dom era diário e pessoal.

O jarro de Jeremias existiu?

Não há como saber. A cena está na Mekhilta e em Rashi, não no livro de Jeremias. É uma tradição rabínica que lê Jeremias 2:31 à luz do Êxodo 16:32; serve para mostrar como os rabinos entendiam a função do jarro, não como registro histórico.

9. Conexão com Outros Textos

"Vejam a palavra do SENHOR"

Jeremias 2:31 — "Ó geração, vejam a palavra do SENHOR! Acaso fui um deserto para Israel, ou uma terra de densas trevas? Por que o meu povo diz: 'Somos livres, não voltaremos mais a ti'?"

O versículo que a Mekhilta põe na boca de Jeremias diante do jarro. O próprio Jeremias fala do deserto: Deus não foi deserto para Israel. Os rabinos leram a frase como um convite a ver o pão do deserto.

A pergunta do filho

Êxodo 13:14 — "E, quando amanhã o seu filho lhe perguntar: 'Que é isto?', você lhe dirá: 'Com mão forte o SENHOR nos tirou do Egito, da casa da servidão.'"

A memória da saída, no Êxodo, nasce de uma pergunta e passa pela fala. O jarro do maná acrescenta um objeto para os olhos — e a pergunta do filho é a mesma do primeiro dia do maná: "Que é isto?".

As pedras do Jordão

Josué 4:6-7 — "Para que isto seja um sinal no meio de vocês. Quando amanhã os seus filhos perguntarem: 'Que significam estas pedras para vocês?', vocês lhes dirão que as águas do Jordão foram cortadas diante da arca da aliança do SENHOR. Estas pedras serão um memorial para os filhos de Israel para sempre."

O outro grande objeto de memória do caminho, posto à beira da entrada na terra. As pedras ficam ao ar livre e provocam a pergunta; o jarro fica guardado.

O que os filhos devem saber

Salmo 78:5-7 — "Ele estabeleceu um testemunho em Jacó e pôs uma lei em Israel, e ordenou aos nossos pais que os dessem a conhecer aos seus filhos, para que a geração seguinte os conhecesse, os filhos que haviam de nascer, e eles se levantassem e os contassem aos seus filhos, para que pusessem em Deus a sua esperança."

O mesmo salmo que chama o maná de "pão dos poderosos" define a memória como corrente de gerações. O Êxodo 16:32 é um elo concreto dessa corrente.

O verbo de fazer comer

Deuteronômio 8:16 — "que no deserto o alimentou com maná, que os seus pais não conheciam, para humilhar você e para pô-lo à prova, para no fim lhe fazer bem."

Quarenta anos depois, Moisés usa o mesmo verbo do Êxodo 16:32: Deus "fez comer" o maná. A memória pedida no jarro é recitada em palavras no fim da caminhada.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Moisés disse: “Isto é o que o SENHOR ordenou: ‘Encham dele um ômer, para ser guardado pelas gerações de vocês, para que vejam o pão com que eu os alimentei no deserto, quando os tirei da terra do Egito.’”

Texto hebraico

וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה זֶה הַדָּבָר אֲשֶׁר צִוָּה יְהוָה מְלֹא הָעֹמֶר מִמֶּנּוּ לְמִשְׁמֶרֶת לְדֹרֹתֵיכֶם לְמַעַן יִרְאוּ אֶת־הַלֶּחֶם אֲשֶׁר הֶאֱכַלְתִּי אֶתְכֶם בַּמִּדְבָּר בְּהוֹצִיאִי אֶתְכֶם מֵאֶרֶץ מִצְרָיִם׃

Transliteração

vayyomer Mosheh zeh haddavar asher tsivvah YHWH: melo ha'omer mimmennu lemishmeret ledoroteikhem, lema'an yir'u et-hallechem asher he'ekhalti etkhem bammidbar behotsi'i etkhem me'erets Mitsrayim.

Análise palavra por palavra

וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה — vayyomer Mosheh, "e Moisés disse".

Forma narrativa de amar, "dizer". Não se diz a quem: o destinatário, o povo, fica subentendido, e só no versículo seguinte Moisés se volta para Arão.

זֶה הַדָּבָר אֲשֶׁר צִוָּה יְהוָה — zeh haddavar asher tsivvah YHWH, "isto é o que o SENHOR ordenou".

A fórmula de introdução de norma que estreou em Êxodo 16:16, onde está analisada. É a segunda vez no capítulo; a palavra davar, "palavra" e "coisa", é a mesma que a leitura rabínica de Jeremias 2:31 aproveita.

מְלֹא הָעֹמֶר — melo ha'omer, "a medida cheia do ômer".

Melo é substantivo, "o conteúdo, aquilo que enche", na forma de ligação; ha'omer, "o ômer", com artigo. Não há verbo: o hebraico diz, ao pé da letra, "o cheio do ômer, dele, para guarda". A ABC supre o imperativo "encham", como fez a Septuaginta (plēsate, "encham", no plural). A frase sem verbo tem cara de fórmula de inventário: o que é, quanto é, para quê.

מִמֶּנּוּ — mimmennu, "dele".

Preposição min, "de", com sufixo masculino de terceira pessoa: "do maná". Indica parte de um todo — uma porção tirada do que cai.

לְמִשְׁמֶרֶת — lemishmeret, "para ser guardado".

Preposição le-, "para", e mishmeret, da raiz shamar, "guardar, vigiar". A palavra designa tanto o objeto guardado quanto o serviço de guarda; em Números, é o termo técnico para o turno de serviço dos levitas. Aparece quatro vezes no capítulo (Êxodo 16:23, 32, 33 e 34), sempre ligada à ideia de reservar maná. A Septuaginta a traduz por duas palavras diferentes: aqui eis apothēkēn, "para depósito", e no versículo seguinte eis diatērēsin, "para conservação".

לְדֹרֹתֵיכֶם — ledoroteikhem, "pelas gerações de vocês".

Dor, "geração", no plural, com sufixo "de vocês". É a fórmula das instituições permanentes do Êxodo, já usada para a Páscoa ("pelas suas gerações o celebrarão", Êxodo 12:14).

לְמַעַן יִרְאוּ — lema'an yir'u, "para que vejam".

Lema'an, "a fim de que"; yir'u, imperfeito de ra'ah, "ver", terceira pessoa do plural: "eles vejam". O sujeito são as gerações, e não "vocês". O verbo é o mesmo com que os filhos de Israel "viram" o maná no primeiro dia (Êxodo 16:15).

אֶת־הַלֶּחֶם — et-hallechem, "o pão".

Partícula de objeto direto e lechem com artigo. O maná não é chamado pelo nome recém-dado, mas de "o pão", como na resposta de Moisés no primeiro dia.

אֲשֶׁר הֶאֱכַלְתִּי אֶתְכֶם — asher he'ekhalti etkhem, "com que eu os alimentei".

Raiz akhal, "comer", no Hifil (a forma que dá ao verbo o sentido de "fazer com que"): "fiz vocês comerem". Perfeito, primeira pessoa do singular. O pronome "vocês" vem como objeto direto, e o pão como segundo objeto: "o pão que eu fiz vocês comerem". É o verbo de Deuteronômio 8:3 e 8:16. A Septuaginta troca a construção por hon ephagete hymeis, "que vocês comeram".

בַּמִּדְבָּר — bammidbar, "no deserto".

Preposição be- com artigo e midbar, a terra de pasto sem cultivo.

בְּהוֹצִיאִי אֶתְכֶם — behotsi'i etkhem, "quando os tirei".

Preposição be-, "em, quando", com o infinitivo Hifil de yatsa, "sair" — "fazer sair, tirar" — e o sufixo "meu": literalmente, "no meu tirar vocês". A mesma construção de infinitivo com sufixo de pessoa serve para dizer "quando eu" em hebraico. A Septuaginta passa para a terceira pessoa: hōs exēgagen hymas kyrios, "quando o Senhor os tirou".

מֵאֶרֶץ מִצְרָיִם — me'erets Mitsrayim, "da terra do Egito".

Preposição min, "de", e a expressão fixa "terra do Egito", que fecha a fórmula da saída.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira: o Êxodo não confia só na palavra para transmitir a memória do deserto. Ao lado do relato e do rito, põe um objeto para ser visto por quem não estava lá, e esse objeto é o mais humilde possível — a ração de um homem para um dia.

A segunda: o gesto que o capítulo condenou é o mesmo que agora manda fazer. Guardar maná foi desobediência quando nasceu da desconfiança e é obediência quando serve à memória. O texto julga o gesto pelo motivo e pela ordem que o autoriza, não pela aparência.

A terceira: a frase põe Deus como quem fez comer, e as traduções e leituras posteriores mexeram nisso. A Septuaginta tornou o povo sujeito do comer; os rabinos fizeram do jarro um argumento sobre o sustento de quem estuda. O versículo, por si, fixa só o essencial: um pão para ser visto, que lembra quem o deu.

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