E Moisés disse a Arão: “Tome um jarro, ponha nele um ômer cheio de maná e deposite-o diante do SENHOR, para ser guardado pelas gerações de vocês.”
1. Introdução
Moisés passa a Arão a tarefa de executar a ordem anterior: pegar um jarro, pôr nele um ômer de maná e deixá-lo "diante do SENHOR", para as gerações. A palavra hebraica para "jarro" não aparece em nenhum outro lugar da Bíblia, e ninguém sabe ao certo de que material ele era — os rabinos o fizeram de barro, a Septuaginta o fez de ouro. O versículo fala de um lugar "diante do SENHOR" num momento em que ainda não há santuário. E o destino do jarro ficou em disputa: a Carta aos Hebreus o põe dentro da arca, enquanto 1 Reis 8:9 diz que na arca só havia as tábuas da Lei.
2. Contexto Histórico e Cultural
O jarro que foi escondido
A Bíblia hebraica nunca mais fala do jarro de maná depois do Êxodo. A tradição judaica, que não suportava a ideia de que ele simplesmente tivesse sumido, contou o que teria acontecido com ele.
A versão mais antiga está na Tosefta (coleção de ensinamentos rabínicos organizada por volta do ano 200, ao lado da Mishná), no tratado do Dia da Expiação, e foi retomada duas vezes no Talmude (Yoma 52b e Keritot 5b). Diz assim: quando a arca foi escondida, foram escondidos com ela o jarro de maná "que estava ao lado dela", o frasco do óleo da unção, a vara de Arão com as suas amêndoas e flores, e o cofre que os filisteus mandaram de presente ao Deus de Israel quando devolveram a arca (1 Samuel 6:8). Quem a escondeu foi o rei Josias, que viu escrito na Lei que o povo e o rei seriam levados para uma nação estrangeira (Deuteronômio 28:36) e não quis que a arca fosse para o exílio.
A prova bíblica que os rabinos apresentam é uma frase de Josias aos levitas, em 2 Crônicas 35:3: "Ponham a arca santa na casa que Salomão construiu; vocês não terão mais de carregá-la nos ombros". O versículo, no seu contexto, pode significar só que a arca devia voltar ao templo depois de ter sido retirada; os rabinos leram nele uma ordem de esconder.
Para explicar por que o jarro foi junto, Rabi Eleazar, no Talmude, liga os objetos por palavras repetidas. A arca é o lugar onde Deus diz "ali me encontrarei com você" (Êxodo 30:6), e o jarro é posto "ali" (Êxodo 16:33); o jarro é guardado "pelas gerações", e o óleo da unção também é "para as suas gerações" (Êxodo 30:31); o jarro é "para ser guardado", e a vara de Arão também (Números 17:25). Três palavras comuns bastaram para formar um conjunto: o que a Lei mandou guardar ficou junto, e junto desapareceu.
O jarro que voltará
A Mekhilta (o comentário rabínico antigo ao Êxodo) leva a história para o futuro. O jarro de maná é uma das três coisas que o profeta Elias há de devolver a Israel antes da vinda do Messias, ao lado do frasco da água da purificação (Números 19:9) e do frasco do óleo da unção; "outros dizem", acrescenta, também a vara de Arão. O objeto escondido não está perdido: está guardado para um tempo que ainda não chegou.
Outra lenda, mais antiga, atribuía a Jeremias o esconderijo da tenda, da arca e do altar do incenso numa gruta do monte Nebo (2 Macabeus 2:1-8). Ela não fala do jarro; está no estudo de Mateus 16:14.
O jarro que o leitor grego imaginava
Os tradutores de Alexandria verteram a palavra rara por stamnos. Para um grego, era um vaso de forma conhecida: um pote largo e baixo, de boca larga, com duas alças horizontais e tampa, usado para guardar vinho e azeite, e muito comum na cerâmica pintada de Atenas. A tradução deu ao objeto hebraico desconhecido a forma de um recipiente de despensa — e acrescentou o metal, "de ouro", que o hebraico não diz.
3. Análise Teológica do Versículo
"E Moisés disse a Arão"
Até aqui, no capítulo, Arão foi porta-voz: falou à congregação em nome de Moisés (Êxodo 16:9-10). Agora recebe um objeto para colocar "diante do SENHOR". É o primeiro gesto de culto de Arão no Êxodo, antes de haver sacerdócio, altar ou santuário. O Or HaChaim (Chaim ibn Attar, comentarista do Marrocos, século XVIII) explica a escolha dizendo que Arão era o sacerdote e cabia a ele guardar o jarro em pureza; o texto, porém, ainda não o chamou de sacerdote. O que se pode dizer é que o primeiro objeto sagrado do livro vai para as mãos de quem será o primeiro sacerdote.
"Tome um jarro"
O versículo não diz de que era feito o jarro, e cada leitor o fez de um material.
Barro, para a Mekhilta. Ela lista as possibilidades — prata, ouro, ferro, cobre, estanho, chumbo — e conclui pela própria palavra, que liga a um verbo de som parecido, que só podia ser um vaso de barro. Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista francês do século XI) repete: um frasco de barro, como traduz o Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial do Pentateuco nas sinagogas antigas). O Or HaChaim entende a Mekhilta de um modo curioso: o vaso seria de um barro vitrificado, quase transparente, por onde se via o maná.
Barro ou cobre, para Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII), que confessa que a palavra não aparece em outro lugar.
Ouro, para a Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria no século III antes de Cristo), que escreve "um jarro de ouro". O acréscimo não tem base no hebraico, como notaram Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX). A razão provável é de coerência: tudo o que fica perto da arca, no Êxodo, é de ouro — a própria arca, a tampa, a mesa, o candelabro (Êxodo 25). Um jarro posto "diante do SENHOR" não podia, aos olhos dos tradutores, ser o único objeto de barro do lugar.
As duas imagens dizem coisas diferentes. O jarro de barro é o pote de qualquer casa, e combina com o que ele guarda: o pão comum de um dia. O jarro de ouro é peça de santuário, e combina com o lugar onde fica. O hebraico não escolhe; a palavra única deixa o objeto sem matéria definida.
"ponha nele um ômer cheio de maná"
A ordem repete a do versículo anterior, mas agora com o recipiente e com o nome: o que era "o pão" para as gerações é aqui "maná", o nome recém-dado pela casa de Israel (Êxodo 16:31). O ômer vai "cheio", sem sobra nem falta — a medida exata de uma pessoa por dia.
"e deposite-o diante do SENHOR"
"Diante do SENHOR" é expressão de santuário: em quase toda a Torá ela indica o espaço da tenda e da arca. Ibn Ezra a entende assim: diante da glória que repousa sobre os querubins da arca. Mas no Êxodo 16 nada disso existe ainda. A tradição viu o problema cedo e respondeu de vários modos; a resposta, e o que ela diz sobre a composição do capítulo, está no estudo de Êxodo 16:34.
"para ser guardado pelas gerações de vocês"
O jarro devia durar enquanto houvesse gerações. Durou? A Bíblia dá duas informações que não se encaixam bem.
A Carta aos Hebreus, escrita em grego no século I, descreve o santuário do deserto e diz que no lugar santíssimo ficava "a arca da aliança, toda coberta de ouro, na qual estavam o jarro de ouro que continha o maná, a vara de Arão que floresceu e as tábuas da aliança" (Hebreus 9:4). O jarro é "de ouro", como na Septuaginta, que o autor lia; e está dentro da arca.
1 Reis 8:9, ao narrar a entrada da arca no templo de Salomão, diz o contrário: "Na arca não havia nada, a não ser as duas tábuas de pedra que Moisés ali pusera no Horebe". O paralelo de 2 Crônicas 5:10 repete a frase.
E a própria Torá não põe o jarro dentro da arca. Põe-no "diante do SENHOR" e, no versículo seguinte, "diante do Testemunho"; a vara de Arão também fica "diante do Testemunho" (Números 17:25); e o livro da Lei, "ao lado da arca" (Deuteronômio 31:26). Dentro da arca, segundo a Torá, só as tábuas.
As respostas são cinco.
Primeira: a diferença é de tempo. No deserto o jarro e a vara estavam com a arca; no tempo de Salomão já não estavam, perdidos talvez quando os filisteus capturaram a arca (1 Samuel 4-6). Hebreus descreveria o santuário de Moisés; 1 Reis, o de Salomão. É a harmonização mais antiga e mais repetida. O preço é que a Torá, mesmo no deserto, não põe nada além das tábuas dentro da arca.
Segunda: "dentro" é leitura de "diante". Hebreus seguiria uma tradição judaica do seu tempo que entendia "diante do Testemunho" como "junto das tábuas", portanto dentro do cofre. A Torá não diz isso, mas a expressão é ambígua o bastante para permitir a leitura.
Terceira: a frase grega não diz o que parece. "Na qual" é um pronome feminino, e em grego tanto "arca" quanto "tenda" são femininas. Alguns intérpretes propuseram que o pronome se refira à tenda do lugar santíssimo, e não à arca: o jarro estaria no recinto, não no cofre. A gramática favorece a arca, que é a palavra mais próxima, mas não exclui a outra leitura.
Quarta: os rabinos tampouco liam 1 Reis 8:9 como lista fechada. A Tosefta diz que o jarro ficava "ao lado" da arca, não dentro. E o Talmude (Bava Batra 14b) discute se o "a não ser" de 1 Reis 8:9 exclui ou inclui outras coisas: para Rabi Judá, ele inclui os pedaços das primeiras tábuas, quebradas por Moisés; para Rabi Meir, o rolo da Lei. A frase que parece clara foi lida como porta aberta.
Quinta: Hebreus não está fazendo inventário. Logo depois da lista, o autor escreve: "destas coisas não é possível agora falar em detalhe" (Hebreus 9:5). O interesse dele é a estrutura do santuário, e os objetos entram como lembrança tradicional, sem pretensão de precisão.
Não é possível decidir. O que se pode afirmar é o dado: o Êxodo mandou guardar o jarro "diante do SENHOR"; o texto mais antigo sobre o conteúdo da arca, 1 Reis, não o encontra lá; e o único texto bíblico que volta a mencioná-lo, Hebreus, depende da Septuaginta e de uma tradição que o colocava dentro do cofre, coberto de ouro.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Arão
Irmão mais velho de Moisés, até aqui o seu porta-voz diante do faraó e do povo. É a primeira vez que recebe uma tarefa ligada a um objeto sagrado. Será consagrado sacerdote em Levítico 8; o jarro antecipa a função.
Moisés
Transmite a Arão o que o versículo anterior anunciou ao povo. A ordem divina, que em Êxodo 16:32 era para "vocês", aqui ganha executor.
O jarro
Um recipiente de material incerto, com espaço para um ômer e nome que não se repete na Bíblia.
O lugar "diante do SENHOR"
Não é localizado. No Êxodo 16 o acampamento está no deserto de Sim, e não há tenda nem arca. O lugar só ganha nome no versículo seguinte, "diante do Testemunho".
Josias e Elias, na tradição
O rei Josias, que reinou em Judá no fim do século VII antes de Cristo e fez a grande reforma religiosa de 2 Reis 22-23, é quem, para os rabinos, escondeu a arca com o jarro. O profeta Elias, que a Bíblia diz ter sido levado ao céu sem morrer (2 Reis 2:11), é quem, para a Mekhilta, o devolverá. Nenhum dos dois aparece no Êxodo; são personagens da história posterior do jarro.
5. Pontos de Ensino
O sagrado começa com uma coisa comum. O primeiro objeto posto "diante do SENHOR" no Êxodo não é uma imagem nem uma joia, mas uma porção de comida. O culto de Israel nasce guardando o pão de um dia.
O que não podia ser guardado passa a ser guardado. O maná apodrecia em uma noite. O jarro conserva um ômer por gerações. O texto não explica como; mostra que o valor do objeto está na ordem que o separa, não na sua matéria.
O texto deixa lacunas, e as lacunas foram preenchidas. Material, lugar, destino: o versículo não diz nenhum dos três. Os rabinos, a Septuaginta e Hebreus os completaram de modos diferentes. Distinguir o que está no versículo do que foi acrescentado depois é parte da leitura honesta.
A Bíblia não esconde as suas tensões. Hebreus 9:4 e 1 Reis 8:9 não dizem a mesma coisa, e ambos ficaram no cânon cristão. Reconhecer a diferença não ameaça o texto; é ler o que ele de fato diz.
6. Aspectos Filosóficos
Um pão que não se come
Durante todo o capítulo, o maná foi a coisa mais útil do mundo: comida, recolhida de manhã e comida no mesmo dia, sem sobra. No jarro, o mesmo maná deixa de servir para qualquer coisa prática. Ninguém o come, ninguém o vende, ninguém o usa. E, justamente por isso, passa a significar mais do que nunca. O problema filosófico está nessa inversão: o que acontece com uma coisa quando ela sai do uso e vira sinal?
Krzysztof Pomian (nascido em 1934), filósofo e historiador polonês, foi expulso da Universidade de Varsóvia em 1968 por apoiar estudantes e colegas perseguidos pelo regime comunista, mudou-se para a França e trabalhou no Centro Nacional de Pesquisa Científica, em Paris. Escreveu em 1978 um ensaio sobre as coleções para a Enciclopédia Einaudi, republicado depois no livro Colecionadores, amadores e curiosos (1987), e nele criou uma palavra para esse tipo de objeto: semióforo ("portador de significado", do grego).
Coisas e semióforos
Pomian divide os objetos em dois grupos. As coisas são os objetos úteis: comem-se, usam-se, gastam-se. Os semióforos são objetos que perderam ou nunca tiveram uso e que valem porque representam algo que não está à vista — o passado, os mortos, os deuses. Entre os dois há uma relação inversa: quanto mais um objeto carrega de significado, menos ele serve; e quanto mais ele serve, menos significa.
Ele define a coleção como um conjunto de objetos mantidos fora do circuito das atividades econômicas, colocados sob proteção especial num lugar fechado preparado para isso, e expostos ao olhar. E mostra que as coleções não começaram com os museus: os objetos postos nos túmulos, as oferendas dos templos, as relíquias e os tesouros dos reis já cumpriam essas três condições.
O jarro de maná é um caso exemplar. O maná é a coisa por excelência do capítulo — o alimento diário, que apodrece se não for usado. O ômer do jarro é tirado do circuito do consumo, posto sob guarda especial ("para ser guardado"), num lugar separado ("diante do SENHOR"). A passagem de coisa a semióforo está no próprio texto, e se faz sem mudar uma partícula da matéria: é o mesmo grão.
Exposto a que olhar?
A terceira condição de Pomian cria um problema. O versículo anterior diz que o ômer é guardado "para que vejam". Mas o lugar "diante do SENHOR", quando houver santuário, será o espaço mais fechado de Israel, onde só o sumo sacerdote entra, uma vez por ano (Levítico 16:2). Quem, então, vê o jarro?
Pomian tem uma resposta que serve aqui. Os objetos dos túmulos e as oferendas dos templos, diz ele, também eram postos onde nenhum vivo os via; e, no entanto, estavam expostos a um olhar — o dos mortos e dos deuses, os habitantes do invisível. O primeiro espectador do jarro é aquele "diante" de quem ele fica. E os homens "veem" o jarro de outro modo: sabendo que ele existe e onde está. Um semióforo não precisa ser olhado todos os dias para funcionar; precisa ser conhecido.
As lendas do jarro escondido confirmam a análise. Quando Josias o esconde, ele deixa de ser visto até pelo sumo sacerdote; mas a tradição não o dá por perdido, e promete que Elias o trará de volta. O objeto passa a significar uma coisa que ainda não está à vista nem no presente: o futuro.
O limite
Pomian escreveu sobre os colecionadores de Paris e de Veneza entre os séculos XVI e XVIII, não sobre a Bíblia. A aproximação não diz que o Êxodo teve uma teoria do objeto sagrado. Mostra que a passagem do maná do prato para o jarro descreve, com precisão, aquilo que ele chamou de nascimento de um semióforo: a mesma matéria, tirada do uso, guardada e posta diante do invisível.
7. Aplicações Práticas
Dar lugar ao que lembra. O maná do jarro não ficou num canto qualquer; foi posto num lugar separado e sob guarda. Os objetos que guardam a memória de uma família ou de uma comunidade pedem o mesmo cuidado: um lugar próprio, alguém responsável, uma razão conhecida por todos. Sem isso, viram entulho.
Não exigir do objeto o que ele não pode dar. O jarro guardava um sinal, não a experiência inteira do deserto, e a história mostra que o próprio objeto pode desaparecer. A memória que depende só da coisa guardada é frágil; o Êxodo a acompanhou de relato, de rito e de lei.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que Moisés não guarda o jarro ele mesmo?
O texto não explica. A divisão de tarefas — Moisés recebe a ordem, Arão a executa — antecipa a que o Pentateuco fará depois: Moisés como mediador da palavra, Arão e os sacerdotes como guardiões do culto. O versículo 34 confirma que foi Arão quem depositou o jarro.
O jarro de maná foi visto por alguém depois do deserto?
Nenhum texto bíblico narra que alguém o viu. A única menção posterior, em Hebreus 9:4, descreve o santuário do deserto como tradição, não como observação. As histórias de Jeremias mostrando o jarro e de Josias escondendo-o são rabínicas.
Ainda se procura o jarro?
Ele faz parte, como a arca, das buscas que de tempos em tempos aparecem em livros populares e reportagens. Nenhuma tem base arqueológica. O que existe é a tradição judaica de que ele está escondido com a arca até o tempo de Elias, e o versículo de Jeremias 3:16, que anuncia um tempo em que ninguém mais vai sentir falta da arca.
9. Conexão com Outros Textos
O jarro de ouro na arca
Hebreus 9:3-5 — "Depois do segundo véu estava a tenda chamada Santo dos Santos, que tinha o incensário de ouro e a arca da aliança, toda coberta de ouro, na qual estavam o jarro de ouro que continha o maná, a vara de Arão que floresceu e as tábuas da aliança; e sobre ela, os querubins da glória, que cobriam o propiciatório. Destas coisas não é possível agora falar em detalhe."
A única outra menção bíblica do jarro. O ouro vem da Septuaginta; a posição "dentro" da arca, de uma tradição que a Torá não registra.
Só as tábuas
1 Reis 8:9 — "Na arca não havia nada, a não ser as duas tábuas de pedra que Moisés ali pusera no Horebe, quando o SENHOR fez aliança com os filhos de Israel, ao saírem eles da terra do Egito."
O inventário da arca na entrada do templo de Salomão. Repetido em 2 Crônicas 5:10.
A vara guardada como sinal
Números 17:25 (17:10 em muitas Bíblias) — "O SENHOR disse a Moisés: 'Ponha de novo a vara de Arão diante do Testemunho, para ser guardada como sinal para os rebeldes.'"
O mesmo "para ser guardado" e o mesmo "diante do Testemunho" do jarro. A vara e o jarro são os dois objetos que a Torá manda conservar junto às tábuas, e ambos lembram uma murmuração.
O livro ao lado da arca
Deuteronômio 31:26 — "Tomem este livro da Lei e ponham-no ao lado da arca da aliança do SENHOR, seu Deus, para que ali esteja como testemunha contra vocês."
O terceiro objeto guardado junto à arca, e o único de que a Torá diz expressamente a posição: "ao lado", não dentro.
A arca posta de volta
2 Crônicas 35:3 — "E disse aos levitas que ensinavam todo o Israel e que eram consagrados ao SENHOR: 'Ponham a arca santa na casa que Salomão, filho de Davi, rei de Israel, construiu; vocês não precisarão mais carregá-la nos ombros.'"
O versículo em que os rabinos leram a ordem de Josias para esconder a arca e os objetos que estavam com ela.
A arca de que não se sentirá falta
Jeremias 3:16 — "Naqueles dias, quando vocês se multiplicarem e frutificarem na terra, diz o SENHOR, nunca mais se dirá: 'A arca da aliança do SENHOR'; ela não virá à mente, não se lembrarão dela, não sentirão a sua falta, nem se fará outra."
O profeta anuncia um tempo sem arca — e, com ela, sem o jarro que a acompanhava. É a resposta bíblica mais radical à pergunta sobre o destino dos objetos sagrados: um dia eles não farão falta.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E Moisés disse a Arão: “Tome um jarro, ponha nele um ômer cheio de maná e deposite-o diante do SENHOR, para ser guardado pelas gerações de vocês.”
Texto hebraico
וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה אֶל־אַהֲרֹן קַח צִנְצֶנֶת אַחַת וְתֶן־שָׁמָּה מְלֹא־הָעֹמֶר מָן וְהַנַּח אֹתוֹ לִפְנֵי יְהוָה לְמִשְׁמֶרֶת לְדֹרֹתֵיכֶם׃
Transliteração
vayyomer Mosheh el-Aharon: qach tsintsenet achat veten-shammah melo-ha'omer man, vehannach oto lifnei YHWH lemishmeret ledoroteikhem.
Análise palavra por palavra
וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה אֶל־אַהֲרֹן — vayyomer Mosheh el-Aharon, "e Moisés disse a Arão".
Forma narrativa de amar, "dizer", com a preposição el, "a, para". O destinatário muda em relação ao versículo anterior: lá, o povo; aqui, Arão.
קַח — qach, "tome".
Imperativo de laqach, "tomar, pegar", na forma curta que perde a primeira consoante. É o verbo comum de pegar um objeto.
צִנְצֶנֶת אַחַת — tsintsenet achat, "um jarro".
Tsintsenet é substantivo feminino e só aparece aqui em toda a Bíblia hebraica. A forma repete as duas consoantes da base (ts-n-ts-n) e acrescenta a terminação feminina -et, padrão de nomes de objetos. As propostas de origem são três. A Mekhilta a liga a tsanan, "esfriar" (o barro conserva o frescor); daí o vaso de barro. Gesenius (hebraísta alemão do século XIX, autor do léxico de hebraico de referência) a aproximou de tene, "cesto", e de tsinna, palavra aramaica para cesta, mas Shadal (Samuel David Luzzatto, comentarista italiano do século XIX) rejeita a ideia: grãos tão pequenos não se guardariam num cesto, e um cesto não dura gerações. Comentaristas do século XIX, como Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano), pensaram numa palavra de origem egípcia, sem prova firme. As traduções antigas também se dividem: Ônquelos, tselochit, "frasco"; a Septuaginta, stamnon chrysoun, "jarro de ouro"; a Vulgata, vas unum, "um vaso". No hebraico da Mishná e no hebraico moderno, a palavra seguiu viva, e hoje é o nome do pote de vidro.
Achat é o numeral "uma", no feminino para concordar com o jarro. O hebraico às vezes usa o numeral como artigo indefinido, e é assim que a ABC o traduz: "um jarro".
וְתֶן־שָׁמָּה — veten-shammah, "e ponha nele".
Ten, imperativo de natan, "dar, pôr", também na forma curta. Shammah é "ali", com o sufixo de direção: "para ali", isto é, "dentro dele". É esse "ali" que o Talmude liga ao "ali" da arca em Êxodo 30:6.
מְלֹא־הָעֹמֶר מָן — melo-ha'omer man, "um ômer cheio de maná".
"O cheio do ômer", a mesma construção do versículo anterior, agora seguida do nome man, sem preposição: "o ômer cheio, maná". É a primeira vez que a palavra aparece numa ordem, como nome de coisa e não como pergunta.
וְהַנַּח אֹתוֹ — vehannach oto, "e deposite-o".
Imperativo Hifil (a forma causativa do verbo hebraico) de nuach, "repousar": "faça repousar, deposite". O verbo de pôr algo num lugar e deixá-lo ali, analisado no estudo de Gênesis 39:16. O pronome oto, "o", é masculino; tsintsenet, "jarro", é feminino. Portanto o que se deposita, em hebraico, não é o jarro, mas o maná — ou o ômer — que está dentro dele. Em português, "deposite-o" parece referir-se ao jarro, porque "jarro" é masculino; o hebraico aponta para o conteúdo. O mesmo pronome masculino volta no versículo seguinte, quando Arão "o depositou".
לִפְנֵי יְהוָה — lifnei YHWH, "diante do SENHOR".
Lifnei, "diante de", é a preposição le- com penei, "rosto": "à face de". É a expressão do espaço do culto. A Septuaginta escreve "diante de Deus" (enantion tou theou), e não "diante do Senhor".
לְמִשְׁמֶרֶת — lemishmeret, "para ser guardado".
A mesma palavra do versículo anterior, da raiz shamar, "guardar". A Septuaginta a traduz aqui por eis diatērēsin, "para conservação", palavra diferente da que usou no versículo 32. A palavra liga o jarro à vara de Arão, guardada "para ser guardada como sinal" (Números 17:25).
לְדֹרֹתֵיכֶם — ledoroteikhem, "pelas gerações de vocês".
"Gerações", com o sufixo "de vocês". O plural "vocês" se dirige ao povo, embora a fala seja a Arão: Moisés fala a um, mas a ordem é para todos.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira: o primeiro objeto sagrado do Êxodo é um pote de comida, e o texto não lhe dá nem matéria nem forma definidas. O que o torna sagrado não é o ouro, que só a Septuaginta lhe deu, mas a ordem de separá-lo, guardá-lo e pô-lo diante de Deus.
A segunda: o maná que apodrecia de um dia para o outro é, no jarro, o único maná destinado a durar. A diferença não está no grão, que é o mesmo, mas no lugar que ele passa a ocupar: fora do prato, diante do SENHOR.
A terceira: o destino do jarro não se resolve com os textos bíblicos. A Torá o põe "diante" do SENHOR, 1 Reis não o acha dentro da arca, Hebreus o põe lá dentro e de ouro, os rabinos o deixam "ao lado" e depois escondido. Cada leitura revela o que quem a fez precisava que o jarro fosse; o versículo, em si, só garante que ele foi guardado.













