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Gênesis 46:13

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✍️ Por Alberto Adriano·7 de setembro de 2026·⏱️ 15 min de leitura·👁 40 acessos
Os filhos de Issacar: Tolá, Puva, Jó e Sinrom.
Panos tingidos de vermelho estendidos ao sol sobre cordas, num pátio de terra batida, com ramos de carvalho ao fundo.

Estudo


Os filhos de Issacar: Tolá, Puva, Jó e Sinrom.

1. Introdução

Quatro nomes para o quinto filho de Lia, e o versículo volta ao formato mais simples da lista: nenhuma nota, nenhuma morte, nenhuma geração a mais.

O que ele oferece está fora dele. Os dois primeiros nomes reaparecem juntos, como pai e filho, na história de um dos juízes de Israel — e essa é a única vez em que uma dupla desta genealogia volta à narrativa bíblica nessa forma.

O terceiro nome, por sua vez, é escrito de outro modo nos dois lugares em que o versículo é retomado. E o primeiro é uma palavra que designa um inseto do qual se extraía a tinta mais cara do mundo antigo.

2. Contexto Histórico e Cultural

O inseto de onde vinha o vermelho

O primeiro nome deste versículo é uma palavra comum do hebraico, e vale saber qual.

Tola designa um verme ou larva — e, num uso específico e muito frequente na Bíblia, a cochonilha do carvalho, um pequeno inseto que se fixa nos ramos e de cujo corpo seco se extraía um corante vermelho intenso.

Essa tinta era um artigo de luxo. Ao lado da púrpura, tirada de moluscos do litoral fenício, o vermelho da cochonilha estava entre os produtos mais caros do Mediterrâneo antigo, e por um motivo prático: era preciso reunir uma quantidade enorme de insetos para tingir pouco tecido.

Daí o valor simbólico. Quando Êxodo 25:4 lista os materiais para o santuário, o vermelho aparece junto com o ouro, a prata e o linho fino. Quando Josué 2:18 manda Raabe amarrar um cordão vermelho na janela, o objeto é visível e reconhecível. Quando Isaías 1:18 diz "ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata", ele está falando de uma tintura que não sai.

Por que um nome desses

Dar a um filho o nome de um inseto soa estranho hoje, e não soava então.

Nomes tirados de bichos e plantas são comuns em todo o mundo semítico antigo: há gente chamada Débora (abelha), Raquel (ovelha), Jonas (pomba), Caleb (cão), Tamar (palmeira). O procedimento é o segundo formato descrito no estudo de Gênesis 46:9 — a palavra do mundo material virando nome de pessoa.

Não é possível dizer se, neste caso, o nome apontava para a cor, para o pequeno tamanho, para o valor do produto ou para nenhuma dessas coisas. A ligação com o corante é a mais provável, e continua sendo hipótese.

A terra de Issacar

Convém registrar onde a tribo se estabeleceu, porque isso explica o pouco que a Bíblia diz dela.

Josué 19:17-23 lhe atribui a parte oriental do vale de Jezreel, entre o monte Tabor e o Jordão. É a terra mais fértil de Israel e também a mais exposta: por ali passava a estrada que ligava o Egito à Mesopotâmia, e por ali entrava quase todo exército que invadia a região.

Uma tribo instalada numa planície aberta e rica tem duas características previsíveis, e a Bíblia registra as duas. Ela é numerosa — sessenta e quatro mil e trezentos homens em Números 26:25, a quarta maior — e vive sob pressão dos que passam. Juízes 5:15 a menciona entre as que atenderam ao chamado de Débora, numa batalha travada exatamente nesse vale.

3. Análise Teológica do Versículo

“Os filhos de Issacar”

Quinto filho de Lia, quinto bloco da lista. A ordem de nascimento segue sem alteração.

Depois das duas anomalias do versículo anterior — os dois mortos e a geração acrescentada —, o texto retoma o formato mínimo. Quatro nomes e ponto.

É bom notar essa alternância. O capítulo não é uniforme: ele para para informar quando tem informação, e passa direto quando não tem. A monotonia aparente esconde um documento que escolhe onde gastar palavras.

“Tolá, Puva, Jó e Sinrom”

Os dois primeiros nomes reaparecem juntos muito depois, e na mesma relação.

Juízes 10:1 apresenta um dos juízes de Israel assim: "Tolá, filho de Puá, filho de Dodô, homem de Issacar". O nome do juiz é o do primeiro filho deste versículo; o nome do pai dele é o do segundo. E a tribo é a mesma.

A leitura mais razoável não é a de que o juiz fosse o filho literal do Puva desta lista — o intervalo é de séculos. É a de que os dois nomes continuaram em uso dentro do clã, como acontece com nomes de família, e que o juiz recebeu o nome do fundador do próprio grupo.

Vale dizer o que isso mostra sobre a lista: os nomes não ficaram parados no papel. Eles eram usados. Um homem de Issacar chamado Tolá, filho de Puá, seria imediatamente reconhecível para quem conhecia a genealogia da tribo.

Um nome que muda

O terceiro nome, Jó, é escrito de outra forma nos dois lugares onde a lista é retomada.

Números 26:24 traz "Jasube", e 1 Crônicas 7:1 traz o mesmo. As duas grafias diferem por uma consoante no meio da palavra, e a explicação corrente é que se trata da mesma pessoa, com uma forma abreviada aqui e a forma completa lá.

Convém deixar claro, para evitar uma confusão frequente: este Jó não tem relação alguma com o personagem do livro de Jó. Os dois nomes são diferentes em hebraico, com letras diferentes, e o homem do livro é apresentado como não israelita, "da terra de Uz".

O que a lista não diz

Nada além dos nomes. Nenhum dos quatro tem história, episódio ou observação.

É útil registrar isso como característica, e não como falta. Dos vinte versículos de lista deste capítulo, a maioria é assim, e a leitura honesta reconhece que aqui não há mais o que extrair — o versículo faz o seu trabalho, que é registrar, e não pede interpretação.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Issacar

Quinto filho de Jacó e Lia, nascido depois do episódio das mandrágoras narrado em Gênesis 30:14-18. O nome é explicado ali pela frase da mãe sobre recompensa.

Como personagem, ele não existe: o Gênesis nunca lhe atribui uma fala ou uma ação. Só aparece em listas.

Tolá

O mais velho. Dele vem a família dos tolaítas, em Números 26:23.

1 Crônicas 7:1-2 dá a esse clã seis chefes de casa e informa que, no tempo de Davi, os descendentes de Tolá somavam vinte e dois mil e seiscentos homens — informação de censo que o cronista dá para poucas famílias.

E é o nome do juiz de Juízes 10:1-2, que julgou Israel por vinte e três anos e foi sepultado em Samir, na região montanhosa de Efraim. Do que ele fez, o texto nada diz: registra o nome, a duração e o lugar do sepultamento.

Puva

O segundo. Aparece como "Puá" em Juízes 10:1, como pai do juiz, e como "Pua" em 1 Crônicas 7:1. Dele vem a família dos puvitas, em Números 26:23.

Convém não confundi-lo com a parteira chamada Puá de Êxodo 1:15, que é outra pessoa, de outro sexo e de outra época — mais um caso da homonímia frequente nestas listas.

Jó, ou Jasube

O terceiro. Dele vem a família dos jasubitas, em Números 26:24.

Fora das listas, não reaparece. E, como já foi dito, não tem ligação com o livro de Jó.

Sinrom

O caçula. Dele vem a família dos sinronitas, em Números 26:24.

O mesmo nome designa uma cidade cananeia cujo rei se junta à coligação contra Josué, em Josué 11:1, e que depois aparece no território de Zebulom, em Josué 19:15. Não há como saber se a coincidência liga o clã ao lugar; nomes de pessoa e de povoado se cruzam o tempo todo nestas listas, e é o tipo de dado que não permite decidir.

A tribo de Issacar

Cresce entre os dois recenseamentos do deserto: cinquenta e quatro mil e quatrocentos em Números 1:29, sessenta e quatro mil e trezentos em Números 26:25.

Recebe o vale de Jezreel, segundo Josué 19:17-23. Aparece com honra no cântico de Débora, em Juízes 5:15. E ganha em 1 Crônicas 12:32 a única caracterização elogiosa que a Bíblia dá a uma tribo inteira: "dos filhos de Issacar, homens que tinham entendimento dos tempos, para saberem o que Israel devia fazer".

5. Pontos de Ensino

Um nome usado é um nome vivo

Tolá e Puá reaparecem juntos, séculos depois, num juiz da mesma tribo. Isso mostra que a lista não era um documento morto guardado num arquivo.

Os nomes circulavam dentro do clã e identificavam quem era de onde. Uma genealogia servia para isso: bastava dizer o nome do pai e a tribo para todo mundo saber a que ramo se pertencia.

Um mesmo nome, duas grafias

Jó aqui, Jasube em Números e em Crônicas. É a mesma pessoa, escrita de dois jeitos.

Quem lê a Bíblia comparando listas encontra isso constantemente. A variação não indica erro nem invenção: indica uma língua com formas curtas e longas do mesmo nome, e uma transmissão feita à mão durante séculos.

Cuidado com nomes famosos

O Jó deste versículo não é o do livro de Jó. Em hebraico são palavras diferentes; em português, quase iguais.

A tradução aproxima nomes que o original separa, e isso produz ligações que não existem. Vale desconfiar sempre que um nome conhecido aparecer num lugar inesperado.

6. Aspectos Filosóficos

Estes quatro nomes levantam uma pergunta simples: o que se ganha em preservar informação de que ninguém precisa.

Dos quatro filhos de Issacar não se sabe nada além de que existiram e de que cada um deu origem a uma família. A lista os guarda com o mesmo cuidado com que guarda os nomes importantes.

É uma decisão sobre o que merece ser escrito, e ela não segue o critério da utilidade. Um registro que só guardasse o que parece útil no momento perderia justamente aquilo que virá a fazer falta depois — e o caso do juiz Tolá, cujo nome só se entende à luz desta lista, mostra que a informação sem uso aparente acaba tendo uso.

7. Aplicações Práticas

Registrar antes de saber para quê

Nenhum dos quatro nomes deste versículo parecia importante quando foi anotado, e um deles se tornou a chave para entender a apresentação de um juiz de Israel.

A aplicação é direta para quem guarda qualquer tipo de registro: a utilidade de uma anotação costuma aparecer muito depois de ela ter sido feita, e por motivos que quem anotou não previa.

Conferir antes de ligar nomes

Um Jó que não é Jó, uma Puá que não é a parteira, um Sinrom que talvez seja uma cidade.

O hábito prático é o mesmo de qualquer pesquisa com registros antigos: conferir a época, o lugar e a linha antes de afirmar que duas ocorrências do mesmo nome são a mesma pessoa.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O Jó deste versículo é o do livro de Jó?

Não. São nomes diferentes em hebraico, escritos com letras diferentes, e o personagem do livro é apresentado como estrangeiro, "homem da terra de Uz", sem qualquer vínculo com as tribos de Israel.

A semelhança existe apenas na tradução portuguesa. É um bom exemplo de como a passagem de uma língua a outra cria parentescos que o original não tem.

O juiz Tolá é filho do Puva desta lista?

Não literalmente. Juízes 10:1 o situa no período dos juízes, séculos depois da descida ao Egito.

A explicação plausível é que os dois nomes continuaram em uso dentro do clã, e que o juiz recebeu o nome do fundador do próprio grupo — prática comum, e visível em várias famílias bíblicas.

Por que este versículo não traz nenhuma observação, se o anterior trazia duas?

Porque não há o que observar. A casa de Issacar não perdeu filhos antes da descida, não teve netos que fundassem família nova naquele momento, e não guardava nenhuma peculiaridade que o registro precisasse explicar.

A alternância entre versículos com nota e versículos sem nota é o traço mais consistente do capítulo, e mostra que as notas foram postas onde havia motivo.

9. Conexão com Outros Textos

Números 26:23-24 — "Os filhos de Issacar, segundo as suas famílias, foram: de Tolá, a família dos tolaítas; de Puva, a família dos puvitas; de Jasube, a família dos jasubitas; de Sinrom, a família dos sinronitas."

Os mesmos quatro, agora como clãs, com o terceiro nome na forma longa.

1 Crônicas 7:1 — "E quanto aos filhos de Issacar, foram: Tolá, Pua, Jasube e Sinrom, quatro."

A terceira ocorrência da lista, com a contagem explícita no fim.

Juízes 10:1-2 — "E depois de Abimeleque, levantou-se para livrar a Israel Tolá, filho de Puá, filho de Dodô, homem de Issacar; e habitava em Samir, na região montanhosa de Efraim. E julgou a Israel vinte e três anos; e morreu, e foi sepultado em Samir."

Os dois primeiros nomes deste versículo reaparecendo juntos, na mesma tribo e na mesma relação.

Gênesis 30:18 — "Disse Lia: Deus me deu a minha recompensa, porque dei a minha serva ao meu marido. E lhe deu o nome de Issacar."

A explicação do nome do pai, dada no momento do nascimento.

1 Crônicas 12:32 — "e dos filhos de Issacar, homens que tinham entendimento dos tempos, para saberem o que Israel devia fazer; duzentos chefes, e todos os seus irmãos sob suas ordens."

O único elogio que a Bíblia dirige a uma tribo inteira, e é a esta.

Josué 19:17-18 — "A quarta sorte saiu para Issacar, para os filhos de Issacar, segundo as suas famílias. E foi o seu termo Jezreel, Quesulote e Suném."

O vale que a tribo recebeu: o mais fértil e o mais exposto do país.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Os filhos de Issacar: Tolá, Puva, Jó e Sinrom.

Texto hebraico

וּבְנֵי יִשָּׂשכָר תּוֹלָע וּפֻוָּה וְיוֹב וְשִׁמְרֹן

Transliteração

u-vene Yissakhar Tola' u-Fuwwah we-Yov we-Shimron

Análise palavra por palavra

יִשָּׂשכָר — Yissakhar, "Issacar".

O nome tem uma particularidade de escrita: em hebraico ele traz uma letra a mais do que se pronuncia. A tradição de leitura ignora a segunda consoante, e o resultado é uma palavra escrita de um jeito e lida de outro.

Gênesis 30:18 explica o nome pela frase de Lia sobre a recompensa, ligando-o à palavra sakhar, salário, paga. A explicação é por semelhança de som, como sempre no Gênesis.

תּוֹלָע — Tola', "Tolá".

Palavra comum do hebraico para verme ou larva, e em particular para a cochonilha de onde se extraía o corante vermelho, conforme se explicou no item 2.

Ela aparece nos dois sentidos ao longo da Bíblia. Como bicho, no Salmo 22:6, na frase "eu sou verme e não homem", e em Isaías 41:14. Como cor, na expressão tola'at shani — "escarlata de cochonilha" —, que Êxodo 25:4 lista entre os materiais do santuário.

A mesma palavra designa, portanto, a coisa mais desprezível e a tinta mais cara. É um bom exemplo de como o campo de sentido de um termo hebraico pode ir de um extremo a outro conforme o uso.

פֻוָּה — Fuwwah, "Puva".

Sem significado seguro. A proposta mais repetida liga a palavra a uma raiz de planta tintorial — a garança, de cuja raiz também se tirava corante vermelho —, o que faria dos dois primeiros nomes um par temático.

A sugestão é atraente e por isso mesmo merece desconfiança: ela depende de uma palavra aramaica posterior, e o paralelismo pode ser efeito da leitura, e não dado da língua. Não é demonstrável.

יוֹב — Yov, "Jó".

Três letras, sem sentido estabelecido.

Convém marcar a diferença com o nome do personagem do livro de Jó, que em hebraico é Iyyov e se escreve com quatro letras, começando por outra consoante. Os dois nomes se aproximam no português e não têm relação no original.

Números 26:24 e 1 Crônicas 7:1 trazem, no lugar deste nome, Yashuv — Jasube —, que significa algo como "ele volta", do verbo shuv, voltar, retornar. A relação entre as duas formas é discutida: a mais simples é que uma seja abreviação da outra.

שִׁמְרֹן — Shimron, "Sinrom".

Da raiz sh-m-r, guardar, vigiar, observar — a mesma do verbo de Gênesis 2:15, quando o homem é posto no jardim "para o lavrar e o guardar", e a da palavra que designa o vigia noturno.

A terminação sugere um nome de lugar, o que combina com o fato de haver uma cidade com esse nome em Josué 11:1. O sentido seria algo como "posto de vigia" — proposta plausível, sem prova.

Não confundir com Samaria, cujo nome hebraico é próximo mas distinto, e que é fundada muito depois, em 1 Reis 16:24.

11. Conclusão

Duas conclusões saem deste versículo, e a segunda vale para o capítulo inteiro.

A primeira é que os nomes desta lista continuaram em uso. Tolá e Puá voltam juntos, séculos depois, na apresentação de um juiz de Issacar — o nome dele e o do pai dele são os dois primeiros desta linha. Não se trata de parentesco direto, e sim de nomes de família que se repetem dentro do clã. O que isso mostra é que a genealogia não era um documento guardado e esquecido: era o vocabulário com que uma tribo dizia quem era.

A segunda é sobre o silêncio. Quatro nomes, nenhuma nota, nenhuma história. Depois de um versículo carregado como o anterior, este não tem nada a acrescentar, e não acrescenta. A alternância entre versículos com informação e versículos sem informação é o traço mais constante do capítulo, e ela merece ser lida como economia, e não como pobreza: as notas foram postas onde havia motivo para pô-las, e a ausência delas aqui é tão deliberada quanto a presença delas ali.

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