📖 Navegar na Bíblia:
‹

Gênesis 40:8

›
✍️ Por Alberto Adriano·6 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 44 acessos
Eles responderam: “Tivemos um sonho, e não há quem o interprete.” José lhes disse: “Acaso as interpretações não pertencem a Deus? Contem-me, por favor.”
Jovem de túnica clara sentado no chão de pedra conversando com dois homens de vestes finas na penumbra de uma cela egípcia, luz da manhã vinda de cima.

Estudo


Eles responderam: “Tivemos um sonho, e não há quem o interprete.” José lhes disse: “Acaso as interpretações não pertencem a Deus? Contem-me, por favor.”

1. Introdução

Este é o versículo em que o capítulo se decide.

Os dois oficiais respondem à pergunta da manhã: sonharam e não têm quem interprete. José responde com uma pergunta que desloca todo o assunto — e, na frase seguinte, pede que lhe contem os sonhos.

Quatro pontos organizam a leitura.

O primeiro é a queixa dos dois. Não é falta de sonho: é falta de intérprete. E eles estão no país onde a interpretação de sonhos era ofício organizado, com manuais.

O segundo é a pergunta de José. "Acaso as interpretações não pertencem a Deus?" recusa o ofício e transfere a competência.

O terceiro é o que vem logo depois: "Contem-me, por favor". Ele nega ser intérprete e se oferece para interpretar, na mesma fala, sem explicar a passagem de uma coisa à outra.

O quarto é o nome que ele usa. José diz "Deus", e não o nome próprio revelado a Israel — escolha que se repete em todas as suas falas diante de egípcios.

2. Contexto Histórico e Cultural

No Egito, interpretar sonhos era profissão

A queixa dos dois oficiais só tem peso se soubermos onde ela é dita.

O Egito era, no mundo antigo, a cultura com o sistema mais organizado de leitura de sonhos. Existiam manuais — coleções que listavam imagens oníricas e o que cada uma anunciava. O mais conhecido chegou até nós num papiro copiado por volta do século XIII a.C., hoje chamado Papiro Chester Beatty III, e traz mais de uma centena de entradas na mesma fórmula repetida: se um homem se vê fazendo tal coisa, é bom (ou é mau) — significa tal coisa.

A lógica desses manuais é a de um catálogo. O sentido não é descoberto: é consultado. Quem tinha acesso ao rolo e sabia lê-lo podia interpretar.

Quem exercia o ofício

Não era qualquer pessoa. A leitura de sonhos cabia a um tipo específico de sacerdote — o que os textos egípcios chamam de sacerdote-leitor, o encarregado dos rolos e das fórmulas. Esses homens pertenciam a um corpo ligado aos templos, com formação própria, e os textos técnicos ficavam guardados numa dependência conhecida como Casa da Vida, espécie de arquivo e escola anexo ao templo.

É gente dessa categoria que Faraó convocará em Gênesis 41:8, quando ele próprio sonhar: "todos os magos e todos os sábios do Egito".

Vale marcar o limite do que se pode afirmar. A datação de José é discutida e não há como cruzar a cena com um documento específico. O que se pode dizer com segurança é que a prática existia, era técnica, era hereditária dentro de um corpo sacerdotal e dependia de acesso a textos.

A ironia da queixa

Junte as duas coisas e a frase dos oficiais ganha outro sabor.

Eles estão no Egito. São altos funcionários da corte. Em circunstâncias normais, bastaria mandar chamar um sacerdote-leitor — era exatamente o serviço a que gente da posição deles tinha acesso.

Só que estão presos. E é isso que a queixa diz: não há quem interprete — não porque não existam intérpretes no Egito, mas porque não existem ali dentro. O problema é de acesso, não de escassez.

O texto não sublinha a ironia. Apenas põe a frase na boca de dois homens que, do lado de fora daquela porta, teriam o problema resolvido numa manhã.

Sonho como assunto sério

Convém ainda registrar por que isso os aflige tanto.

Num mundo em que o sonho é mensagem, receber uma e não conseguir lê-la é ficar diante de um aviso que pode ser sobre a própria vida — e eles estão presos, sem sentença, à mercê da vontade do rei. A angústia do versículo 6 é a de quem suspeita que a resposta ao seu caso chegou e está ilegível.

3. Análise Teológica do Versículo

"Tivemos um sonho, e não há quem o interprete"

A resposta dos dois é uma frase só, e ela contém duas informações.

A primeira é o fato: sonharam. A segunda é a falta: não há intérprete. E é a segunda que eles apresentam como o problema — não estão pedindo consolo pelo conteúdo do sonho, estão reclamando da ausência de quem o decifre.

O termo que usam designa a função, o profissional: aquele que interpreta. É palavra de ofício, e no Egito ela tinha titular. O item 2 mostra quem eram.

Repare no que a queixa pressupõe e não discute: que o sonho tem um significado, e que esse significado é acessível a alguém qualificado. Nenhum dos dois cogita que o sonho possa não querer dizer nada.

"Acaso as interpretações não pertencem a Deus?"

Esta é a frase do capítulo, e é preciso ler devagar o que ela faz.

Primeiro: é pergunta, não afirmação. José poderia ter dito "as interpretações pertencem a Deus". Disse na forma que espera concordância — "acaso não?" —, como quem lembra algo que o interlocutor deveria saber. É modo de falar mais suave e mais firme ao mesmo tempo.

Segundo: o plural. Ele não diz "a interpretação", diz "as interpretações". São dois sonhos e dois sentidos, e o texto já avisara no versículo 5 que cada um tinha o seu. O plural cabe na cena.

Terceiro, e é o ponto: a frase desloca o assunto de lugar. Os dois reclamaram da falta de um profissional. José não responde que conhece um, nem que ele mesmo é um. Responde que a competência não é de um ofício — é de Deus.

Dito no Egito, isso é uma afirmação de alcance considerável. Contra um sistema em que interpretar é consultar um catálogo e o catálogo pertence a um corpo sacerdotal, José põe a interpretação fora do alcance da técnica.

Convém não transformar isso em polêmica que o texto não faz. José não ataca os sacerdotes egípcios, não os menciona, não diz que os manuais são falsos. Diz de quem é a competência, e para por aí.

"Contem-me, por favor"

E aqui está a tensão que o versículo não resolve.

Na mesma fala, sem transição, José nega o ofício e se oferece para exercê-lo. Se as interpretações pertencem a Deus, por que contar a ele?

O texto não explica. Não diz que Deus falou com José, não relata visão, não afirma que ele recebeu dom. José também não diz nada disso — não afirma ser profeta, não anuncia que vai consultar Deus, não pede tempo para orar. Pede que contem, ouve e interpreta imediatamente, nos versículos 12 e 18, com a mesma fórmula seca: "esta é a interpretação".

Há duas leituras, e as duas têm apoio.

A primeira: a frase é uma ressalva sincera que, na prática, reivindica acesso. Ao dizer que a competência é de Deus e em seguida se propor a interpretar, José está afirmando — sem afirmar — que tem ligação com esse Deus. É o que a continuação da história sugere, e é o que Faraó concluirá em Gênesis 41:39.

A segunda: a frase é exatamente o que diz, e a interpretação que se segue é oferecida como serviço, não como oráculo. José não promete acertar; oferece-se a ouvir. O acerto, quando vem, confirma a frase em vez de contradizê-la.

Não é possível decidir entre as duas, e o texto parece confortável com a ambiguidade. Ele repetirá o mesmo movimento em Gênesis 41:16 diante de Faraó — "não sou eu; Deus é quem dará a Faraó uma resposta de paz" — e, três versículos depois, interpretará.

O nome que José escolhe

Um dado que passa despercebido em português: José diz Deus, o termo genérico, e não o nome próprio.

Isso é regra em toda a sua fala diante de egípcios — aqui, em Gênesis 41:16, 25, 28 e 32. O nome próprio, que Gênesis 39 usou oito vezes na voz do texto, não aparece uma única vez na boca de José diante de estrangeiros.

Não se pode afirmar que a escolha seja consciente do personagem; ela pode ser da composição do livro. Mas o efeito é real: José fala de Deus em termos que um egípcio entende, sem exigir do interlocutor uma teologia que ele não tem.

O que este versículo estabelece

Que a interpretação, no capítulo, não é técnica nem profissão — e, ao mesmo tempo, que ela acontece pela boca de um homem que a executa como quem exerce uma competência.

As duas coisas ficam de pé, lado a lado, sem que o texto escolha entre elas.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os dois oficiais

Falam pela primeira vez no capítulo, e falam juntos — o texto não separa suas vozes. É a única fala que fazem em conjunto; a partir do versículo 9 cada um fala por si.

José

Responde com uma pergunta e um pedido. Aqui ele menciona Deus pela primeira e única vez em todo o capítulo — a palavra não voltará a aparecer em Gênesis 40.

Deus

Mencionado pelo termo genérico, não pelo nome próprio. Não age, não fala e não aparece em nenhum momento do capítulo. É citado uma vez, por um personagem, e some.

Os intérpretes ausentes

Não estão em cena, mas a frase dos oficiais depende deles: existem, no Egito, homens cuja função é essa. São os "magos e sábios" que Faraó convocará em Gênesis 41:8, e pertenciam a um corpo sacerdotal ligado aos templos.

O que acontece aqui

Uma queixa, uma pergunta e um pedido. É o versículo mais curto em ação e o mais denso em consequência: dele saem as duas interpretações, o destino dos dois homens e, dois anos depois, o encontro com Faraó.

5. Pontos de Ensino

A falta que eles apontam é de acesso, não de existência

Havia intérpretes no Egito — muitos, organizados, com manuais e formação. O que não havia era um deles ali dentro. A queixa dos oficiais é de gente presa, não de gente sem recurso.

Reparar nisso muda o tom da cena: não é o mundo que não tem resposta, são eles que não alcançam.

Deslocar a pergunta pode valer mais que respondê-la

Perguntaram implicitamente por um profissional. José não indica um, não se apresenta como um: muda o lugar da competência. É o movimento decisivo do capítulo, e ele é feito numa frase.

Negar o ofício e exercer a função

José diz que as interpretações pertencem a Deus e, em seguida, pede que lhe contem os sonhos. O texto não explica como uma coisa leva à outra, e é honesto notar a tensão em vez de dissolvê-la.

Quem prega este versículo costuma resolver a tensão de um dos lados — ou fazendo de José um profeta, ou fazendo dele um homem humilde. O texto sustenta as duas leituras e não arbitra.

Falar de Deus na língua de quem ouve

José usa o termo genérico para Deus, não o nome próprio de Israel, e faz isso em todas as suas falas diante de egípcios. Comunica sem exigir do interlocutor uma teologia que ele não tem.

Registre-se o limite: não há como saber se a escolha é do personagem ou da composição do livro.

A pergunta veio antes da oferta

José não chegou anunciando que interpretava sonhos. Perguntou o que havia (versículo 7), ouviu a queixa e só então se ofereceu. A ordem importa: a oferta é resposta, não abordagem.

6. Aspectos Filosóficos

Quem pode dizer o que uma coisa significa

O versículo põe frente a frente duas ideias de interpretação, e a diferença entre elas é filosófica antes de ser religiosa.

De um lado, o modelo egípcio descrito no item 2: uma lista de imagens e seus sentidos. Interpretar, ali, é aplicar corretamente uma regra escrita. Quem tem o manual e sabe consultá-lo produz a interpretação; o sentido está no catálogo, esperando ser localizado.

De outro, a frase de José: as interpretações pertencem a Deus. O sentido não está guardado num texto acessível a quem tem a chave.

O problema de seguir uma regra

Wittgenstein, nas Investigações Filosóficas ("Philosophische Untersuchungen", obra póstuma de 1953 do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein), mostrou por que o primeiro modelo é mais frágil do que parece.

Nenhuma regra determina sozinha a sua própria aplicação. Um manual que diga "sonhar com uma videira significa X" não contém dentro de si a instrução de como reconhecer que este sonho é um sonho com videira, nem o que fazer quando o caso é ambíguo, nem como decidir entre duas entradas que parecem servir. Sempre é preciso um passo a mais — e esse passo não está escrito.

Daí a formulação célebre: seguir uma regra é uma prática. Não se aprende o sentido lendo a definição; aprende-se participando de um uso partilhado, dentro de uma comunidade que já concorda sobre como aplicar.

O que isso ilumina na cena

Os dois oficiais estão exatamente no ponto cego desse modelo. Não lhes falta o manual — falta a prática, a comunidade, o corpo de gente que sabe aplicar. Presos, eles têm o sonho e não têm o uso.

E aqui a frase de José faz uma coisa que a filosofia não faz: em vez de deslocar a autoridade da regra para a prática, ela a desloca para fora de qualquer instância humana. Não é o sacerdote que decide, nem a comunidade — é Deus.

Onde isso não pode ser levado longe demais

Duas ressalvas, e ambas vêm do próprio texto.

A primeira é que José não fica na afirmação: ele interpreta, e interpreta com uma fórmula fixa, quase técnica — "esta é a interpretação: os três ramos são três dias". Em forma, é indistinguível de uma entrada de manual. O que muda é a atribuição, não o procedimento.

A segunda é que o texto não fornece critério nenhum para distinguir uma interpretação que vem de Deus de outra que não vem. Dentro do capítulo, o único teste é o que acontece depois — e ele só está disponível três dias mais tarde.

É leitura do comentarista dizer que Gênesis discute a natureza da interpretação. O que ele fornece é a frase de José, o silêncio sobre como ela funciona e o acerto posterior.

7. Aplicações Práticas

Este versículo sustenta duas aplicações, e as duas são estreitas.

A primeira é sobre a ordem entre perguntar e oferecer.

José não chega dizendo o que sabe fazer. Ele pergunta o que houve, ouve a resposta e só então se coloca à disposição. A oferta é feita sobre uma necessidade que o outro enunciou, não sobre uma competência que ele quis exibir.

É diferença pequena de sequência e grande de efeito. Quem oferece antes de ouvir está falando de si; quem ouve antes de oferecer está respondendo a alguém.

A segunda é sobre reconhecer o limite da própria competência sem se retirar da situação.

A frase de José poderia ter terminado a conversa. "Isso pertence a Deus" é o tipo de frase que costuma servir para não fazer nada — encerra o assunto com aparência de piedade. Não é o que acontece aqui: ele diz isso e continua, pede que contem, escuta e responde.

A aplicação, então, não é "reconheça que você não sabe". É mais exigente: reconhecer que não se domina algo não dispensa de agir dentro dele.

E vale reter o que o versículo não autoriza. Ele não é garantia de que quem atribui a Deus vá acertar. José acerta, e o texto não explica por quê.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se havia intérpretes no Egito, por que os dois disseram que não havia quem interpretasse?

Porque estavam presos. A interpretação de sonhos era ofício organizado, exercido por um corpo sacerdotal ligado aos templos, com manuais próprios. Do lado de fora, dois oficiais da corte teriam acesso imediato a esse serviço. Dentro do cárcere, não.

José está dizendo que a interpretação egípcia é falsa?

Não. Ele não menciona os sacerdotes, não critica os manuais e não faz comparação. Diz de quem é a competência e passa adiante. Ler a frase como ataque é acrescentar ao texto.

Se as interpretações pertencem a Deus, por que ele pede para ouvir os sonhos?

O texto não explica, e a tensão é real. Ele nega o ofício e se oferece na mesma fala, sem transição. Duas leituras se sustentam: a de que a ressalva reivindica, indiretamente, ligação com esse Deus; e a de que ele oferece escuta, não oráculo. Não é possível decidir.

José recebeu revelação para interpretar?

Nada disso está escrito. Não há visão, voz, sonho nem oração. Ele ouve e responde de imediato, com uma fórmula fixa. O capítulo inteiro não registra nenhuma ação de Deus.

Por que ele diz "Deus" e não o nome próprio?

É o padrão de todas as suas falas diante de egípcios, aqui e em Gênesis 41. Não há como saber se a escolha é do personagem ou da composição do livro; o efeito é que ele fala em termos que o interlocutor entende.

Este versículo prova que sonhos são mensagens divinas?

Ele registra que José disse isso das interpretações. O próprio Antigo Testamento é ambíguo quanto a sonhos: narra vários que se cumprem e, ao mesmo tempo, adverte contra dar-lhes ouvidos em Deuteronômio 13 e Jeremias 23.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma cena, um capítulo depois, com Faraó

Gênesis 41:8 — "Pela manhã, o seu espírito estava perturbado; então mandou chamar todos os magos e todos os sábios do Egito. Faraó lhes contou os seus sonhos, mas não havia quem os interpretasse para ele."

Aqui está a confirmação de que os intérpretes existiam e podiam ser convocados: o rei os convoca. E, ainda assim, falham — o que a queixa dos dois presos não podia sequer testar.

Gênesis 41:15 — "Faraó disse a José: 'Tive um sonho, e não há quem o interprete; mas ouvi dizer de você que, ao ouvir um sonho, sabe interpretá-lo.'"

Faraó repete quase palavra por palavra a queixa dos dois oficiais — e acrescenta a fama que José ganhou por causa deste capítulo.

Gênesis 41:16 — "José respondeu a Faraó: 'Não sou eu; Deus é quem dará a Faraó uma resposta de paz.'"

O mesmo movimento deste versículo, repetido diante do rei: nega o ofício, atribui a Deus — e interpreta em seguida.

Gênesis 41:39 — "Então Faraó disse a José: 'Visto que Deus lhe revelou tudo isso, não há ninguém tão prudente e sábio como você.'"

A conclusão que o próprio Faraó tira. É o melhor argumento para a leitura de que a ressalva de José reivindica, indiretamente, o acesso.

O mesmo movimento, séculos depois, na Babilônia

Daniel 2:27-28 — "O mistério que o rei demanda, nem sábios, nem astrólogos, nem magos, nem adivinhos podem explicar ao rei; mas há um Deus nos céus, o qual revela os mistérios."

Daniel 2:30 — "E a mim foi revelado este mistério, não porque em mim haja mais sabedoria que em todos os viventes, mas para que se dê a interpretação ao rei."

Daniel é mais explícito que José: nomeia as categorias profissionais e nega que a competência seja dele. A estrutura é a mesma — negar o ofício, atribuir a Deus, interpretar.

Daniel 4:7 — "Então vieram magos, astrólogos, caldeus e adivinhos; e eu lhes disse o sonho, mas não conseguiram me mostrar a sua interpretação."

A reserva quanto às artes de adivinhação

Deuteronômio 18:10 — "Não seja achado em ti quem pratique adivinhações, nem agoureiro, nem interpretador de presságios, nem feiticeiro."

Isaías 47:13 — "Levantem-se agora os que observam o céu, os que contemplam as estrelas, os adivinhos das luas novas, e salvem-te daquilo que virá sobre ti."

Vale ter isso à vista para não ler a cena como aprovação genérica da adivinhação. A tradição da qual José faz parte é hostil a esse tipo de ofício — e é exatamente o ofício que ele recusa, mesmo ao interpretar.

A fórmula com que ele de fato interpreta

Gênesis 40:12 — "José lhe disse: 'Esta é a interpretação: os três ramos são três dias.'"

Gênesis 40:18 — "José respondeu: 'Esta é a interpretação: os três cestos são três dias.'"

Duas vezes a mesma abertura, seca e direta. Em forma, é indistinguível de uma entrada de manual — o que muda é a quem se atribui a competência.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Eles responderam: "Tivemos um sonho, e não há quem o interprete." José lhes disse: "Acaso as interpretações não pertencem a Deus? Contem-me, por favor."

Texto hebraico

וַיֹּאמְרוּ אֵלָיו חֲלוֹם חָלַמְנוּ וּפֹתֵר אֵין אֹתוֹ וַיֹּאמֶר אֲלֵהֶם יוֹסֵף הֲלוֹא לֵאלֹהִים פִּתְרֹנִים סַפְּרוּ־נָא לִי׃

Transliteração

wa-yomeru elav chalom chalamnu u-foter ein oto wa-yomer alehem Yosef halo lelohim pitronim sapperu-na li.

Análise palavra por palavra

חֲלוֹם חָלַמְנוּ — chalom chalamnu, "um sonho sonhamos".

A mesma construção do versículo 5, em que o verbo e o objeto repetem a raiz. É reforço, não redundância: em português diríamos "tivemos mesmo um sonho".

Note-se o singular: "um sonho", embora sejam dois homens e dois sonhos. O hebraico trata o episódio como um só acontecimento.

וּפֹתֵר אֵין אֹתוֹ — u-foter ein oto, "e não há quem o interprete".

Poter é o particípio de patar, interpretar — e o particípio, em hebraico, funciona como nome de quem exerce a ação: "o que interpreta", o intérprete. É palavra de ofício.

Como se registrou no estudo de Gênesis 40:5, este verbo e o substantivo dele derivado ocorrem na Bíblia hebraica apenas em Gênesis 40 e 41.

Ein é a partícula de negação da existência: não há. A frase, ao pé da letra, é "e um intérprete não há para ele".

Repare no que a construção diz: falta a pessoa, não a possibilidade. Eles não dizem "não conseguimos entender"; dizem que não existe ali o titular da função.

הֲלוֹא — halo, "acaso não?".

Partícula interrogativa que já vem inclinada para o sim. Quem pergunta com halo não está em dúvida: está lembrando o interlocutor de algo que considera evidente.

É a mesma partícula da pergunta de Deus a Caim em Gênesis 4:7 e da de Moisés em Êxodo 4:11. Em português, "acaso não" ou "por acaso não" servem bem.

לֵאלֹהִים — lelohim, "de Deus", "a Deus".

Duas coisas a observar.

A primeira é a palavra: Elohim, o termo genérico para Deus ou deuses, e não YHWH, o nome próprio. Em Gênesis 39 o texto usara o nome próprio oito vezes; aqui, na boca de José diante de egípcios, aparece o termo comum — e assim será em Gênesis 41:16, 25, 28 e 32.

A segunda é a preposição le-, que indica posse ou pertencimento. A frase é, literalmente, "acaso não a Deus interpretações?". O hebraico exprime posse assim, sem verbo: "a Deus [pertencem]".

פִּתְרֹנִים — pitronim, "interpretações".

Está no plural, e isso costuma escapar na tradução.

José não diz que a interpretação, em geral, é de Deus. Diz que as interpretações são. São dois sonhos e dois sentidos — e o versículo 5 já havia avisado que cada um tinha o seu. O plural cabe na cena com precisão.

סַפְּרוּ־נָא לִי — sapperu-na li, "contem-me, por favor".

Sapperu é imperativo plural do verbo saphar na forma intensiva — contar, narrar, relatar por extenso. É a raiz de sefer, livro, e de sofer, escriba. O verbo não pede um resumo: pede o relato inteiro.

Na é a partícula que abranda o imperativo. Não tem tradução exata; equivale a "por favor", "peço", "se me permitem". Ela transforma uma ordem em pedido.

Vale reter a cena que essas duas palavrinhas desenham: um preso estrangeiro dirigindo-se a dois oficiais do rei usa o imperativo — e o abranda. Pede, sem deixar de conduzir.

11. Conclusão

Do que foi visto, quatro conclusões se sustentam.

Primeira: a queixa dos oficiais é de acesso, não de escassez. Havia intérpretes no Egito, organizados num corpo sacerdotal, com manuais e formação — Faraó os convocará em Gênesis 41:8. O que faltava aos dois era estar do lado de fora.

Segunda: a resposta de José muda o lugar da competência. Diante de um sistema em que interpretar é consultar um catálogo pertencente a uma casta, ele responde que as interpretações pertencem a Deus. Não ataca os sacerdotes nem menciona os manuais: apenas desloca a atribuição, e isso basta.

Terceira: a tensão da fala não é resolvida pelo texto. Ele nega o ofício e se oferece para exercê-lo na mesma frase, sem explicar a passagem. Interpretará com uma fórmula fixa, indistinguível em forma de uma entrada de manual. As duas leituras — ressalva sincera e reivindicação indireta — continuam de pé, e Gênesis não arbitra.

Quarta: Deus é citado uma vez e não age. Esta é a única menção a Deus em Gênesis 40, feita por um personagem. Não há visão, voz, revelação nem intervenção em todo o capítulo — e ele terminará no esquecimento.

O que este versículo não faz: não prova que os sonhos vieram de Deus, não explica como José interpreta, não fornece critério para distinguir interpretação verdadeira de falsa, e não promete que atribuir a Deus garanta acerto.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Gênesis 40:8

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%