Se não lhe fizer estas três coisas, ela sairá sem pagar nada, sem dinheiro.
1. Introdução
O caso da filha vendida termina com uma saída: se o senhor não fizer "estas três coisas", ela sairá "sem pagar nada, sem dinheiro". O versículo não diz quais são as três, e a resposta divide os leitores desde a Antiguidade — os três direitos do versículo anterior, ou as três saídas que o senhor tinha (casar com ela, dá-la ao filho ou deixá-la ser resgatada). A expressão dupla do fim, "sem pagar nada, sem dinheiro", também foi lida como ênfase ou como duas regras diferentes. E a frase fecha um círculo: o trecho que começou dizendo que ela "não sairá" termina dizendo que ela "sairá".
2. Contexto Histórico e Cultural
Duas expressões, dois momentos da vida
A Mekhilta lê as duas expressões do fim do versículo como duas regras. A tradição rabínica dividia a menina em três idades: a menor, até doze anos; a na'arah ("moça"), dos doze anos e um dia até os doze e meio, quando aparecem os primeiros sinais de puberdade; e a bogeret ("madura"), dali em diante. Para a Mekhilta, "sairá sem pagar nada" vale para a maturidade, e "sem dinheiro" para a puberdade — e o texto precisa dizer as duas coisas para que ninguém conclua que só a maturidade completa a liberta. Rabi Yonatan inverte a correspondência. Rabi Eliezer lê "sem dinheiro" como os sinais de puberdade e acrescenta que, se eles não aparecerem, ela sai pagando o tempo restante com desconto. Rabi Natan observa que a Torá diz, num lugar, "deem dinheiro" e, noutro, "não deem dinheiro": a primeira regra vale antes dos sinais, a segunda depois deles.
Por trás da discussão técnica há uma decisão simples: o corpo da menina é o relógio da sua liberdade. A puberdade, que no mundo antigo marcava a idade de casar, é aqui o momento em que ela não pode mais ser mantida como serva. Maimônides fixou a regra sem rodeios: ela sai livre ao dar sinais de maturidade, "mesmo que os dê no dia em que foi comprada", e volta para a autoridade do pai até a maturidade completa.
O Talmude (Kiddushin 4a) e Nachmânides lembram ainda um caso que mostra o cuidado da regra: a menina que nunca dará sinais de puberdade, porque é estéril de nascença. Para ela, a saída vem pela idade — a maturidade legal chega mesmo sem os sinais do corpo.
Livre do senhor, mas casada?
A Mekhilta percebe uma dificuldade. Se o senhor já a tinha tomado por esposa e não cumpre o que lhe deve, "sair livre" a dispensaria também da carta de divórcio? A resposta é não: ela sai livre "de dinheiro", e não do divórcio. Quem entrou no casamento sai dele por documento, como qualquer esposa (Deuteronômio 24:1). O Targum de Pseudo-Jônatas incorpora a regra à própria tradução do versículo: "e ele lhe dará um documento de libertação".
O argumento da prisioneira
Ibn Ezra apoia a sua leitura com uma lei do Deuteronômio sobre a mulher capturada na guerra e tomada por esposa: se ela deixar de agradar ao marido, ele a deixará ir aonde ela quiser, "mas de modo nenhum a venderás por dinheiro" (Deuteronômio 21:14). Se nem a estrangeira prisioneira pode ser vendida, raciocina Ibn Ezra, com mais razão a filha de Israel vendida pelo pai — e, por isso, "sair sem dinheiro" não precisaria ser dito se só se tratasse de proibir a venda. A frase tem de estar dizendo outra coisa: quando e como ela sai.
Saadia e o remédio
Ibn Ezra registra ainda uma leitura de Saadia Gaon (o grande sábio judeu de Bagdá, século X) para a repetição "sem pagar nada, sem dinheiro": se a menina adoeceu na casa do senhor e ele gastou com remédios para curá-la, ela não lhe deve nada por isso ao sair. É um detalhe de quem conhecia contratos de serviço — o patrão que apresenta a conta das despesas para reter a criada —, e Saadia o vê fechado pelo versículo. Ibn Ezra acha a explicação desnecessária: para ele, a repetição é só modo de falar.
3. Análise Teológica do Versículo
"Se não lhe fizer estas três coisas"
"Estas três" aponta para trás. Mas para onde? A pergunta parece de gramática e decide o alcance da lei inteira. Duas respostas.
Primeira leitura: as três coisas são o alimento, a roupa e os direitos conjugais do versículo anterior. É a leitura mais imediata — a lista acaba de ser feita e tem exatamente três itens. Keil e Delitzsch a defendem por ser a que evita as dificuldades de todas as outras. Ibn Ezra conta que "muitos" pensavam assim no seu tempo. Nessa leitura, o versículo fala da serva que já virou esposa: se o marido a priva do sustento, da roupa ou da vida conjugal, ela pode ir embora sem devolver nada do que foi pago por ela. A consequência é forte: uma esposa que deixa o casamento por falta do marido, e sai sem dívida.
Segunda leitura: as três coisas são as três saídas que o senhor tinha — casar com ela, destiná-la ao filho ou deixá-la ser resgatada. É a leitura da Mekhilta, seguida por Rashi, Rashbam, Ibn Ezra e Nachmânides, e o Targum de Pseudo-Jônatas a escreve dentro da tradução: "se não fizer estas três coisas: destiná-la a si, ou ao filho, ou devolvê-la à mão do pai". Os comentaristas cristãos se dividiram: Gill e a Bíblia de Genebra ficam com ela; Ellicott e Barnes também falam de três alternativas, com pequenas variações.
Os argumentos da segunda leitura são três. A Mekhilta observa que a serva ainda não destinada não tem direito a alimento, roupa e vida conjugal — esses direitos são de esposa —, e o versículo fala dela antes do casamento. Ibn Ezra acrescenta que os direitos da esposa já foram garantidos pelo "direito das filhas" do versículo 9, e não precisariam de uma sanção nova. E responde à objeção de que "estas três" deveria significar "todas as três", e não "uma das três", com um paralelo: em Ageu 2:13, "se alguém tocar em alguma destas coisas" quer dizer qualquer uma delas.
A primeira leitura tem a sequência a seu favor; a segunda, a lógica do caso inteiro, que desde o versículo 7 trata da serva e das saídas que o senhor tem diante dela. Não é possível decidir pela gramática.
O que muda de uma leitura para a outra
Na primeira, o versículo é uma sanção contra o marido que falha: ela vai embora porque ele a negligenciou. Na segunda, é uma regra de prazo: o senhor que nem casa, nem dá ao filho, nem permite o resgate não pode retê-la indefinidamente; quando chegar o momento — a puberdade, na leitura rabínica —, ela sai sem que ele receba nada. Nas duas, a falta do senhor é paga por ele mesmo, com a perda do dinheiro que tinha pagado.
"ela sairá"
O caso começou com "ela não sairá como saem os escravos" (Êxodo 21:7) e termina com "ela sairá". Nachmânides lê o fim como a volta ao começo: se o senhor não fizer nenhuma das três coisas, ela sai como saem os escravos — o regime especial, criado para encaminhá-la ao casamento, desfaz-se quando o casamento não vem. A menina que tinha uma saída diferente dos escravos passa a ter, pelo menos, a deles.
"sem pagar nada, sem dinheiro"
As duas expressões dizem quase a mesma coisa, e a repetição foi lida de três modos.
Ênfase. Para Ibn Ezra, a Escritura às vezes acrescenta palavras para reforçar, como em "você morrerá e não viverá" (2 Reis 20:1). Não há duas regras, há uma, dita com força.
Duas regras. Para a Mekhilta e para Rashi, cada expressão indica uma idade em que ela sai livre: a puberdade e a maturidade completa (item 2). A repetição existe para que nenhuma das duas fique de fora.
Uma regra contra a cobrança indireta. Para Saadia Gaon, a segunda expressão impede o senhor de cobrar as despesas que teve com ela — os remédios de uma doença, por exemplo. "Sem pagar nada" pelo preço; "sem dinheiro" por qualquer outra conta.
A expressão "sem pagar nada" é a mesma com que o escravo hebreu sai no sétimo ano (Êxodo 21:2). A serva, que no começo do trecho foi separada dos escravos, termina com as palavras da libertação deles.
O limite
O versículo não diz quais são as três coisas, não diz quando ela sai e não diz se precisa de algum documento para sair. Diz que a falta do senhor tem um preço e que quem paga é ele. A leitura rabínica, que lê aqui as três saídas e o relógio da puberdade, é provavelmente a que melhor explica o trecho inteiro; a outra é a que melhor explica o versículo vizinho.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
O senhor que falhou. Ou deixou de dar à esposa o que lhe devia, ou não casou, não deu ao filho e não permitiu o resgate. Em qualquer leitura, é ele quem perde: o dinheiro da compra não volta.
A moça. O versículo é o primeiro do trecho em que ela é sujeito de um verbo de ação — "ela sairá". Nos versículos anteriores, alguém a vendia, a destinava, a resgatava, fazia ou deixava de fazer algo a ela. Aqui, quem age é ela.
O pai. Na leitura rabínica, é para a autoridade dele que ela volta, se ainda não tiver atingido a maturidade completa.
Os comentaristas que discutem as "três coisas". De um lado, a Mekhilta, Rashi, Rashbam, Ibn Ezra, Nachmânides, Pseudo-Jônatas e Gill; do outro, os "muitos" que Ibn Ezra contesta e, no século XIX, Keil e Delitzsch.
Saadia Gaon. O sábio de Bagdá do século X, primeiro grande comentarista judeu a escrever em árabe, que leu na expressão dupla uma proteção contra as despesas cobradas.
Eventos
A saída. O caso, que começou com uma venda dentro de uma casa, termina com a moça deixando essa casa sem dever nada. É o único desfecho previsto para ela em que ninguém paga por ela e ela não paga a ninguém.
5. Pontos de Ensino
1. "Estas três coisas" tem duas leituras. Os três direitos do versículo 10 (Keil e Delitzsch) ou as três saídas do senhor — casar, dar ao filho, permitir o resgate (Mekhilta, Rashi, Ibn Ezra, Nachmânides). O texto não decide.
2. A falta do senhor é paga por ele. Em qualquer leitura, quem não cumpre perde o dinheiro da compra.
3. O corpo da menina é o relógio da liberdade dela. Na leitura rabínica, a puberdade a liberta, mesmo que chegue no dia da compra.
4. Sair livre não dispensa o divórcio. Se já era esposa, ela sai por documento, como qualquer mulher casada.
5. A expressão dupla foi lida como ênfase, duas regras ou proteção contra contas indiretas. Ibn Ezra, a Mekhilta e Saadia, respectivamente.
6. O trecho termina onde começou. "Não sairá" no versículo 7; "sairá" no 11 — com as palavras da libertação do escravo hebreu.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo liga duas coisas que costumam ser tratadas separadamente: o tratamento devido e a liberdade. Se o senhor não dá à moça o que lhe deve — seja o lugar de esposa, seja o alimento, a roupa e a vida conjugal —, ela fica livre. A falta de igualdade no tratamento abre a porta da liberdade. A pergunta filosófica que isso toca é se igualdade e liberdade são valores diferentes, que às vezes se opõem, ou se são, no fundo, a mesma coisa.
A proposição da "igualiberdade"
O filósofo francês Étienne Balibar (nascido em 1942, professor na Universidade de Paris e depois em universidades nos Estados Unidos e na Inglaterra) deu a essa pergunta uma resposta que ficou conhecida por uma palavra inventada: égaliberté ("igualiberdade", junção de "igualdade" e "liberdade"). A tese aparece numa conferência de 1989, no bicentenário da Revolução Francesa, e foi retomada no livro A proposição da igualiberdade (2010).
Balibar lê a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 e nota que ela não apresenta a igualdade e a liberdade como dois valores a equilibrar, mas como a mesma afirmação dita de dois modos: "os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos". A tese dele é que isso não é um acidente de redação. Historicamente, diz Balibar, não há situação em que uma das duas seja suprimida sem que a outra também o seja. Onde alguém é tratado como menos, deixa de ser livre; onde alguém é dominado, deixa de ser igual. As duas caem juntas e se conquistam juntas.
A consequência política é que a igualdade não pode ser concedida de cima como benefício, nem a liberdade defendida como privilégio de quem já a tem. Para Balibar, cada vez que um grupo excluído reivindica uma das duas, está reivindicando, na verdade, as duas.
O que essa ideia ilumina no versículo
O caso da serva hebreia mostra, numa escala doméstica, a ligação que Balibar descreve. Enquanto o senhor cumpre o que deve — casa com ela, ou a dá ao filho, ou permite o resgate; ou, na outra leitura, dá-lhe o mesmo que às outras mulheres —, ela permanece sob a autoridade dele. No momento em que ele a trata como menos do que a lei manda, a autoridade dele acaba. A desigualdade de tratamento é o que dissolve a sujeição.
Na leitura que vê aqui os três direitos do versículo 10, a ligação é quase literal: a esposa que entrou por compra e é posta abaixo da que entrou por contrato sai livre, sem dever nada. A lei não manda o marido corrigir o tratamento; reconhece que, sem igualdade, a relação perde o fundamento, e devolve a mulher a si mesma.
O limite da comparação
Balibar fala de cidadãos e de política moderna; o versículo fala de uma casa antiga, com senhor e serva, e não supõe a igualdade entre eles. A liberdade que ele concede é a saída, não a participação. E a igualdade que ele protege é relativa — a serva igualada às filhas e às outras esposas, não ao senhor. A aproximação é uma leitura, e Balibar não escreveu sobre o Êxodo.
Mas o mecanismo é o mesmo que ele aponta: a liberdade da moça não é concedida como prêmio; nasce da falha da igualdade. Onde o tratamento devido desaparece, a autoridade que dependia dele desaparece também.
7. Aplicações Práticas
Quem falha não cobra a conta. O senhor que não cumpre o que deve perde o dinheiro que pagou, e a moça sai sem dívida. A leitura de Saadia vai além: nem as despesas que ele teve com ela podem ser cobradas. Há uma aplicação direta em relações de trabalho e de dependência: o empregador que descumpre o contrato não pode reter o empregado com dívidas — de moradia, de alimentação, de ferramentas — que ele mesmo criou. A "dívida" que prende o trabalhador ao patrão é, ainda hoje, a forma mais comum do trabalho análogo à escravidão no Brasil, e a lei antiga já a cortava pela raiz: quando quem tem o poder falha, a saída é gratuita.
O prazo que não depende do mais forte. Na leitura rabínica, a moça sai quando o corpo dela anuncia a idade adulta, decida o senhor o que decidir. Proteções que dependem da boa vontade de quem domina valem pouco; as que funcionam sozinhas, por prazo ou por fato objetivo, valem mais. É uma lição para qualquer regra que pretenda proteger alguém mais fraco.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Para onde ia a moça ao sair?
O versículo não diz. A regra rabínica a devolve à autoridade do pai, se ainda não tiver atingido a maturidade completa; depois disso, ela é dona de si. Na prática, a moça que saía voltava, provavelmente, para a família que a tinha vendido por pobreza — com a diferença de que agora não podia ser vendida de novo.
2. Ela podia sair antes, se quisesse?
Pelo resgate, sim, pagando o tempo restante com desconto. Sair por vontade própria, sem pagar, não está previsto. O que a lei garante são saídas que não dependem do senhor; não garante uma que dependa só dela.
3. Por que a lei do escravo hebreu não tem uma cláusula igual?
Porque o escravo não foi comprado para casar. A cláusula do versículo 11 só faz sentido para quem tinha sido destinado a um casamento possível: é a falha desse caminho que a liberta. O escravo tem o prazo de seis anos e o jubileu; a serva tem, além deles, a saída pela falha do senhor e pela puberdade.
4. Ela recebia alguma coisa ao sair?
O Êxodo não prevê nada: "sem dinheiro" diz que ela não paga, não que recebe. O Deuteronômio manda abastecer o escravo libertado "do teu rebanho, da tua eira e do teu lagar" e estende a lei do escravo à serva (Deuteronômio 15:14, 17). Se essa generosidade valia também para a moça que saía pela falha do senhor, o versículo não diz, e a resposta depende de como se combinam as duas leis.
9. Conexão com Outros Textos
O começo do caso
Êxodo 21:7 — "Se um homem vender a sua filha como serva, ela não sairá como saem os escravos."
O "não sairá" que o 21:11 desfaz.
Êxodo 21:2 — "Se comprares um escravo hebreu, ele servirá seis anos; e no sétimo sairá livre, sem pagar nada."
A mesma expressão de libertação, agora aplicada à serva.
A mulher que não pode ser vendida
Deuteronômio 21:14 — "Se ela não te agradar, tu a deixarás ir para onde ela quiser; mas de modo nenhum a venderás por dinheiro, nem a tratarás como escrava, pois a humilhaste."
O argumento de Ibn Ezra: se a prisioneira estrangeira sai livre e não pode ser vendida, a filha de Israel, com mais razão.
"Estas" que quer dizer "qualquer uma"
Ageu 2:13 — "Ageu perguntou: 'Se alguém que se tornou impuro por tocar num cadáver tocar em alguma destas coisas, ela ficará impura?' Os sacerdotes responderam: 'Ficará impura.'"
O paralelo de Ibn Ezra para ler "estas três" como "qualquer uma das três".
2 Reis 20:1 — "Naqueles dias Ezequias adoeceu de uma doença mortal. O profeta Isaías, filho de Amoz, veio a ele e lhe disse: 'Assim diz o SENHOR: Põe em ordem a tua casa, porque morrerás e não viverás.'"
A repetição que reforça — "morrerás e não viverás" —, com que Ibn Ezra explica "sem pagar nada, sem dinheiro".
De graça e sem dinheiro
Isaías 52:3 — "Porque assim diz o SENHOR: 'Por nada vocês foram vendidos, e sem dinheiro serão resgatados.'"
As duas expressões do versículo, lado a lado, aplicadas a Israel inteiro: vendido de graça, resgatado sem preço. O profeta usa a linguagem da serva libertada para falar da volta do exílio.
Gênesis 29:15 — "Então Labão disse a Jacó: 'Só porque você é meu parente, vai me servir de graça? Diga-me qual será o seu salário.'"
A mesma palavra "de graça", na boca do homem que logo depois venderia as próprias filhas em troca de catorze anos de trabalho.
O documento da saída
Deuteronômio 24:1 — "Se um homem tomar uma mulher e casar com ela, e ela não achar graça aos olhos dele, por ter ele encontrado nela algo de indecente, ele lhe escreverá uma carta de divórcio, lha entregará na mão e a despedirá de sua casa."
A razão pela qual a Mekhilta diz que a serva já casada sai livre "de dinheiro", mas não do divórcio.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Se não lhe fizer estas três coisas, ela sairá sem pagar nada, sem dinheiro.
Texto hebraico
וְאִם־שְׁלָשׁ־אֵלֶּה לֹא יַעֲשֶׂה לָהּ וְיָצְאָה חִנָּם אֵין כָּסֶף׃
Transliteração
ve-im-shelosh-elleh lo ya'aseh lah, ve-yatse'ah chinnam ein kasef.
Análise palavra por palavra
וְאִם־שְׁלָשׁ־אֵלֶּה — ve-im-shelosh-elleh, "e se estas três".
Shelosh é o numeral "três" na forma que se liga à palavra seguinte, e elleh, "estas", o demonstrativo plural. Ibn Ezra observa que a construção é abreviada: o hebraico pleno diria ha-shelosh ha-elleh, "as três estas", com artigo nas duas palavras, e compara com shelosh se'im, "três medidas", de Gênesis 18:6, outro caso de numeral ligado sem artigo. O texto não traz o substantivo — "três" do quê? —, e é essa ausência que abre as duas leituras do versículo.
לֹא יַעֲשֶׂה לָהּ — lo ya'aseh lah, "não fizer a ela".
O mesmo asah le-, "fazer a alguém", do versículo 9 ("fará com ela conforme o direito das filhas"). A repetição liga os dois versículos: o que o senhor deveria "fazer a ela" no versículo 9 é o que ele "não fez a ela" no 11 — um argumento a favor dos que leem as "três coisas" como as obrigações do senhor descritas desde o versículo 8.
וְיָצְאָה — ve-yatse'ah, "e sairá".
Yatsa, "sair", no perfeito com o "e" que lhe dá valor de futuro — a forma típica das consequências nas leis: "se…, então ela sairá". É o verbo negado no versículo 7 ("não sairá") e o verbo de toda a lei do escravo; o trecho da serva começa e termina com ele.
חִנָּם — chinnam, "de graça", "sem pagar nada".
Advérbio formado de chen, "graça, favor", com a terminação antiga -am: literalmente "por graça", sem contrapartida. A palavra está analisada no estudo de Gênesis 29:15. No Código da Aliança, ela marca a libertação sem resgate: do escravo hebreu no sétimo ano (Êxodo 21:2) e, aqui, da serva.
אֵין כָּסֶף — ein kasef, "não há prata", "sem dinheiro".
Ein, "não há", a partícula de inexistência, e kasef — forma de kesef, "prata, dinheiro", com a vogal alongada por estar no fim da frase, sob o acento principal. A expressão não tem verbo: "não há dinheiro". É a segunda metade da repetição que a Mekhilta, Rashi e Saadia leem como regra própria, e Ibn Ezra como simples reforço.
O sinal de fim
Depois deste versículo, o texto hebraico tradicional deixa um espaço em branco no meio da linha — uma das marcas de parágrafo do rolo. O trecho da serva, Êxodo 21:7-11, forma assim uma unidade fechada; o próximo bloco, que começa em Êxodo 21:12, trata dos crimes punidos com morte.
As traduções antigas
A Septuaginta escreve ean de ta tria tauta mē poiēsē autē, exeleusetai dōrean aneu argyriou, "se não lhe fizer estas três coisas, sairá de graça, sem prata", e acrescenta o artigo que o hebraico não tem, "as três". A Vulgata: si tria ista non fecerit, egredietur gratis absque pecunia. O Targum de Ônquelos traduz literalmente, ve-tippoq maggan be-la khesaf, "e sairá de graça, sem dinheiro"; o de Pseudo-Jônatas acrescenta o que entende pelas três coisas e o documento de libertação.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, a primeira conclusão é que o caso da filha vendida termina com a liberdade dela como sanção contra o senhor. Seja qual for a leitura das "três coisas", quem falha é ele, e quem paga é ele: perde o que deu por ela e não pode cobrar nada na saída. A lei não deixa a falta de quem manda recair sobre quem obedece.
A segunda é que o trecho se fecha sobre si mesmo. A menina que "não sairá como saem os escravos" sai, no fim, com as palavras deles — "sem pagar nada". O regime especial que a separava dos escravos existia para levá-la a um casamento; quando o casamento não vem ou não é honrado, ela recupera pelo menos a saída comum, e na leitura rabínica uma saída a mais, marcada pelo próprio corpo.
A terceira é que o versículo não decide o que mais importaria saber: se a esposa negligenciada podia ir embora por isso, ou se a regra vale só para a serva que nunca chegou a casar. As duas leituras têm defensores antigos. A tradição que prevaleceu escolheu a segunda e, mesmo assim, extraiu do trecho os direitos de toda esposa — de modo que a pergunta deixada em aberto pelo texto acabou respondida pela história da sua leitura.













