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Êxodo 21:10

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 12 acessos
Se tomar para si outra mulher, não diminuirá o alimento dela, a roupa dela nem os seus direitos conjugais.
No interior de uma casa antiga de pedra, uma mulher sentada sobre uma esteira dobra um manto de lã ao lado de uma cesta de pão e de uma jarra de azeite; pela porta entreaberta vê-se, no pátio iluminado, um homem conduzindo uma noiva coberta por um véu.

Estudo


Se tomar para si outra mulher, não diminuirá o alimento dela, a roupa dela nem os seus direitos conjugais.

1. Introdução

O senhor casou com a serva, ou a deu ao filho, e depois toma outra mulher. A lei diz o que a primeira não pode perder: o alimento, a roupa e os direitos conjugais. É a única vez em que a Torá enumera o que um marido deve à mulher, e uma das três palavras aparece só aqui em toda a Bíblia — por isso os rabinos discutiram se ela quer dizer relação sexual, moradia ou até alimento. Desta lista, pensada para a mais frágil das esposas, saiu a base do que o direito judaico passou a garantir a toda mulher casada. O versículo supõe a poligamia e não a discute: o que ele regula é que a chegada de outra não diminua a primeira.

2. Contexto Histórico e Cultural

Três palavras, três mestres, três listas

A Mekhilta registra uma discussão em que três mestres do século II leem as mesmas três palavras de três modos diferentes. A primeira palavra quer dizer, ao pé da letra, "carne"; a segunda, "cobertura"; a terceira é a que só aparece aqui.

Rabi Yoshiyah lê do modo que se tornou o padrão: a "carne" é o alimento, como em Miqueias 3:3 ("comem a carne do meu povo") e no Salmo 78:27, em que Deus faz chover carne no deserto; a "cobertura" é a roupa; e a terceira palavra é a relação conjugal, que ele liga ao verbo de Gênesis 34:2, quando Siquém se deita com Diná.

Rabi Yonatan acha que o versículo inteiro fala de roupa. A "carne" indica a roupa adequada ao corpo dela: se é moça, ele não lhe dará roupa de velha; se é velha, não lhe dará roupa de moça. E a terceira palavra indica o tempo: não lhe dará roupa de verão no inverno, nem de inverno no verão. O alimento e a vida conjugal, ele os deduz por raciocínio: se o marido não pode privá-la de roupa, que não é questão de vida, menos ainda do alimento; e se não pode privá-la do que não foi a razão do casamento, menos ainda do que foi.

Rebbi — Rabi Yehuda ha-Nasi, o editor da Mishná — inverte os termos. A "carne" é a relação conjugal, como em Levítico 18:6, "nenhum de vocês se aproximará da sua carne próxima para descobrir a sua nudez". A terceira palavra é o alimento, ligada ao "ele te afligiu e te deixou ter fome" de Deuteronômio 8:3.

O Talmude: o corpo e não a roupa

O Talmude retoma a discussão em Ketubot 47b-48a, e o que ele acrescenta é mais íntimo do que jurídico. Rava observa que o mestre que lê "carne" como alimento sustenta que o sustento da esposa é obrigação da própria Torá — não uma regra criada depois pelos sábios. Rabi Eliezer ben Yaakov repete a leitura de Rabi Yonatan: tudo é roupa, adequada à idade e à estação.

E Rav Yosef cita uma tradição que lê a primeira palavra como "proximidade da carne": o marido não deve tratar a mulher "como os persas, que têm relações vestidos". O Talmude liga a ela uma decisão de Rav Huna: o homem que diz "não quero ter relações com a minha mulher a não ser que eu esteja vestido e ela esteja vestida" deve divorciar-se dela e pagar-lhe o que o contrato de casamento prevê. A lei não regula só a frequência: regula a intimidade.

A Mishná faz as contas

A Mishná (Ketubot 5:6) transforma a terceira palavra num calendário, conforme o trabalho do marido. Os que não trabalham, todos os dias; os trabalhadores, duas vezes por semana; os condutores de jumentos, uma vez por semana; os condutores de camelos, uma vez a cada trinta dias; os marinheiros, uma vez a cada seis meses. Quem jura que a mulher não terá relações com ele pode manter o juramento por duas semanas, segundo a escola de Shammai, ou por uma, segundo a de Hillel; depois disso, deve divorciar-se e pagar o contrato.

O mesmo capítulo fixa o mínimo do alimento e da roupa para o marido que sustenta a mulher por meio de terceiros (Ketubot 5:8-9): dois cabs de trigo por semana, meio log de azeite, legumes, figos secos; uma cama e esteiras; uma touca, um cinto, sapatos novos a cada festa e roupas no valor de cinquenta denários por ano — novas no tempo das chuvas, e não no verão. A palavra de Rabi Yonatan sobre a roupa da estação virou regra.

Podia-se abrir mão?

O Talmude (Kiddushin 19b) discute o homem que diz à mulher: "você está casada comigo com a condição de não ter direito a alimento, roupa e vida conjugal". Rabi Meir diz que o casamento vale e a condição é nula, porque contraria o que está escrito na Torá. Rabi Yehuda distingue: nos assuntos de dinheiro — alimento e roupa — a condição vale; na vida conjugal, não. O corpo não entra no comércio das cláusulas.

Esses três direitos estão na base do contrato de casamento judaico, a ketubá ("escrito", o documento entregue à noiva), cujo funcionamento está descrito no estudo de Mateus 19:5.

3. Análise Teológica do Versículo

"Se tomar para si outra mulher"

O versículo não proíbe a segunda mulher; supõe que ela pode vir. O que ele regula é o efeito da chegada dela sobre a primeira. Charles Ellicott (bispo anglicano e comentarista do século XIX) diz que a poligamia era permitida pela Lei de Moisés como coisa tolerada, e não aprovada. Nachmânides faz uma ressalva importante: se o senhor não tomar outra mulher, é evidente que também não pode diminuir os direitos da primeira; o texto menciona a segunda porque é nesse momento que a primeira corre mais risco — "a Escritura fala do que costuma acontecer". E acrescenta, para que não haja engano: isso não quer dizer que tomar outra mulher fosse o costume.

Quem é essa "outra"? Ibn Ezra diz que pode ser qualquer filha de Israel, vendida ou não. Para Rabi Yonatan, na Mekhilta, é justamente a mulher livre, o que faz o versículo comparar duas esposas de condições diferentes: a que foi comprada e a que chegou por contrato. A lei impede que a diferença de origem vire diferença de tratamento.

Sforno tira daqui uma regra mais severa: ninguém tem o direito de casar com mais de uma mulher se não puder sustentar as duas sem reduzir o que dá à primeira.

"não diminuirá"

O verbo não é "dará", mas "não diminuirá". A régua não é um mínimo abstrato, é o que ela já recebia. Rabi Yoshiyah observa que só se diminui o que já foi dado: a frase fala de quem já estava casada e tinha o seu padrão. A chegada da segunda mulher não pode servir de motivo para dividir o que era da primeira.

"o alimento dela"

A palavra quer dizer "carne", e a tradução por "alimento" é uma leitura. Keil e Delitzsch defendem que a carne é citada como o alimento principal, o que supõe uma casa de certo padrão. Nachmânides objeta com bom senso: se a palavra quisesse dizer comida, por que não "o pão dela", que é o sustento de verdade? E "não diminuirá a carne dela" soaria estranho — ninguém diminui a carne de alguém. Para ele, a palavra quer dizer outra coisa (adiante).

"a roupa dela"

A única das três palavras sobre a qual quase todos concordam. A discussão aqui é de detalhe, e o detalhe é revelador: a roupa deve servir à idade e à estação (Rabi Yonatan). A lei não se contenta com "alguma roupa"; quer a roupa certa para quem ela é.

"nem os seus direitos conjugais"

A terceira palavra é a que não aparece em nenhum outro lugar da Bíblia, e o sentido dela é decidido por comparação e por tradição. Quatro leituras.

Primeira leitura: a relação sexual. É a da Mekhilta (Rabi Yoshiyah), do Talmude, de Rashi, de Ibn Ezra e da quase totalidade das traduções. A ligação é com o verbo de Gênesis 34:2 e com a palavra "tempo", a "época" do amor (item 10). Nessa leitura, o versículo garante à mulher um direito que poucas leis antigas registram de forma explícita: o de não ser abandonada no leito, mesmo quando o marido tem outra.

Segunda leitura: a moradia. Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, comentarista francês do século XII) liga a palavra a "morada" e lê a lista como alimento, roupa e casa: a moça rejeitada deve receber sustento, abrigo e vestimenta. A leitura tem a seu favor a coerência — três bens materiais — e contra si a tradição inteira; Ibn Ezra a registra e a recusa.

Terceira leitura: o alimento. A de Rebbi, que inverte os termos: a primeira palavra seria a relação sexual, e a terceira, o sustento. Sobreviveu como opinião minoritária.

Quarta leitura: o óleo. Estudiosos modernos notaram que contratos antigos de sustento listam quase sempre três coisas: ração, óleo e vestimenta. A terceira palavra seria, então, o óleo para ungir o corpo, e o versículo repetiria a fórmula comum dos contratos de manutenção. A tradução judaica norte-americana mais usada (a da Jewish Publication Society) traz essa possibilidade em nota: "ou: unguentos". O fundo dessa tríade nos contratos está no estudo de Gênesis 50:21.

A leitura de Nachmânides: tudo é intimidade

Nachmânides propõe uma leitura que une as três palavras. A primeira, "carne", quer dizer o parente próximo, a carne que é próxima da carne — por isso a mulher é chamada assim em relação ao marido, como em "os dois se tornarão uma só carne" (Gênesis 2:24). A segunda é "a coberta da cama", como na lei do manto penhorado: "é a única coberta que ele tem; em que se deitará?" (Êxodo 22:27). A terceira é "o tempo do amor". As três falam, portanto, da mesma coisa, com a discrição que a Escritura usa para o sexo: a proximidade do corpo, a cama e o tempo.

E a consequência que ele tira é dura e precisa: o marido não pode deixar que a segunda mulher tenha "o leito de honra" e que a primeira seja para ele "como uma concubina, com quem se deita por acaso, no chão, como quem vai a uma prostituta". Para Nachmânides, a obrigação de sustento e de roupa vem dos sábios; o que a Torá protege aqui é a dignidade da mulher na intimidade.

O limite

O versículo garante três coisas à mulher e nomeia apenas uma com clareza — a roupa. A palavra mais importante, a terceira, só existe aqui, e o sentido sexual, embora seja a leitura mais antiga e mais seguida, é uma tradição e não uma evidência. O que não está em disputa é a direção: a chegada de outra mulher não autoriza o marido a reduzir a primeira, e a lei pensou a redução tanto no prato e na roupa quanto no leito.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

O marido. O senhor que tomou a serva por esposa, ou o filho a quem ela foi destinada. A lei fala com ele no momento em que toma outra mulher.

A primeira mulher. A antiga serva, agora esposa. É a mais frágil das mulheres da casa — entrou por compra, não por contrato com a família —, e é ela que o versículo protege.

A "outra". A segunda mulher, que pode ser livre e ter chegado com contrato e família por trás. A lei não diz nada contra ela; diz apenas que a chegada dela não pode custar à primeira.

Lia. A esposa preterida do Gênesis, que precisa comprar da irmã uma noite com o marido (Gênesis 30:15-16) e que, ao dar à luz o sexto filho, diz "desta vez o meu marido morará comigo" (Gênesis 30:20). A narrativa mostra, antes da lei, a situação que a lei viria a regular.

Ana. A mulher amada e sem filhos de Elcana, humilhada pela rival (1 Samuel 1). Ela recebe do marido uma porção dobrada — o caso inverso, em que o marido não diminui, mas a casa com duas mulheres continua sendo de sofrimento.

Os mestres. Rabi Yoshiyah, Rabi Yonatan e Rebbi na Mekhilta; Rava, Rav Yosef e Rav Huna no Talmude; Rabi Meir e Rabi Yehuda na discussão sobre a renúncia; e, na Idade Média, Rashi, Ibn Ezra, Rashbam e Nachmânides, cada um com uma leitura da terceira palavra.

Eventos

Um segundo casamento dentro de uma casa onde já há uma esposa. O versículo não narra, mas pressupõe o que esse momento produzia: a redistribuição do sustento, do espaço e da presença do marido.

5. Pontos de Ensino

1. A lei não proíbe a segunda mulher; protege a primeira. O critério é "não diminuir": a régua é o que ela já recebia.

2. Os três direitos são alimento, roupa e vida conjugal. É a leitura dominante, de Rabi Yoshiyah a Rashi. Outras leram moradia (Rashbam), óleo (estudiosos modernos) ou trocaram a ordem (Rebbi).

3. A terceira palavra só aparece aqui. O sentido sexual é a tradição mais antiga e mais seguida, mas é tradição, não evidência.

4. O Talmude protegeu a intimidade, não só o sustento. O marido não pode tratar a mulher "como os persas"; quem recusa a proximidade deve divorciar-se e pagar o contrato.

5. Nachmânides leu as três palavras como uma só coisa. Proximidade, cama e tempo: a primeira mulher não pode ser rebaixada a concubina.

6. A lei da serva virou o mínimo de toda esposa. A Mishná fixou quantidades, o Talmude discutiu se era possível renunciar, e o contrato de casamento judaico guardou os três direitos.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo trata a vida sexual como coisa devida — e devida à mulher. Não fala de filhos, não fala de amor, não fala de pecado: põe a intimidade ao lado da comida e da roupa, numa lista do que o marido não pode tirar. Isso levanta uma pergunta que a filosofia moral discutiu muito: o sexo pode ser objeto de dever? E, se pode, que tipo de dever é esse?

As três respostas que Primoratz examina

Igor Primoratz (filósofo nascido na antiga Iugoslávia, que ensinou na Universidade Hebraica de Jerusalém e depois na Austrália) organizou essa discussão no livro Ética e sexo (1999). Ele examina as grandes respostas que a tradição deu à pergunta sobre o que torna o sexo moralmente aceitável.

A primeira é a da tradição cristã clássica, de Agostinho a Tomás de Aquino: o sexo se justifica pela procriação, dentro do casamento. Nessa tradição nasceu a ideia do "débito conjugal" — cada cônjuge deve ao outro a relação, e recusá-la sem motivo é falta. A segunda resposta liga o sexo ao amor: ele só é bom quando exprime um vínculo pessoal profundo. A terceira, que Primoratz defende, é a mais despojada: o sexo não tem, em si, um significado moral especial. Ele se torna certo ou errado pelos princípios que valem para qualquer outra ação — o consentimento, a honestidade, o respeito às promessas, o não causar dano.

O que o versículo faz com essas respostas

O versículo não cabe inteiro em nenhuma delas. Não justifica o sexo pela procriação: a lista não menciona filhos. Não o justifica pelo amor: a situação descrita é justamente a de um marido que prefere outra. O que ele faz é tratar a intimidade como parte do que foi prometido quando a mulher entrou na casa — e isso aproxima a lei da terceira resposta, a de Primoratz. O argumento de Rabi Yonatan na Mekhilta diz isso quase com as mesmas palavras: se o marido não pode privá-la do que não foi a razão do casamento, menos ainda pode privá-la do que foi. A obrigação nasce do compromisso, não da natureza do ato.

O desenvolvimento rabínico vai na mesma direção num ponto decisivo: o remédio. Quando o marido recusa a mulher, o Talmude não o obriga à força; obriga-o a divorciar-se e a pagar o que o contrato prevê. O direito da mulher é protegido pela saída, e não pela coerção. Para quem pensa, como Primoratz, que nenhum dever justifica forçar o corpo de alguém, essa é a solução coerente: a promessa quebrada tem preço, mas o corpo não é executado como uma dívida.

Onde a lei e o filósofo se separam

Há um ponto em que a tradição rabínica resiste à visão liberal. Rabi Yehuda admite que a mulher renuncie, por contrato, ao alimento e à roupa, mas não à vida conjugal (Kiddushin 19b). Para um liberal, dois adultos que consentem poderiam combinar o que quisessem sobre a própria intimidade. Para Rabi Yehuda, esse direito está fora do comércio das cláusulas — não por ser sagrado no sentido de Agostinho, mas porque a mulher, na posição em que estava, dificilmente "consentiria" de verdade em abrir mão dele. A regra protege a parte fraca contra a própria assinatura.

É a tensão que atravessa toda a ética sexual moderna: o consentimento basta quando as partes são desiguais? Primoratz responde que o consentimento é o critério, e que as desigualdades devem ser tratadas como problema à parte. A lei antiga, sem teoria, fez o contrário: incorporou a desigualdade na própria regra e tirou um direito do alcance da renúncia.

Primoratz não escreveu sobre este versículo, e a aproximação é uma leitura. O que ela mostra é que a lei do Êxodo, ao pôr a intimidade na lista do que é devido à mulher, não a pensou como dever religioso nem como prova de amor, e sim como parte de um compromisso cuja quebra tem consequência.

7. Aplicações Práticas

"Não diminuirá" é uma régua concreta. A lei não manda dar o mínimo; manda não reduzir o que a pessoa já tinha quando chega alguém novo. A relação com a vida real é imediata em famílias recompostas: o segundo casamento, os filhos da nova união, a nova casa. O versículo pergunta, em termos práticos, quem paga a conta da mudança — e responde que não pode ser quem estava antes e tinha menos poder.

O abandono dentro de casa também é abandono. A tradição leu a terceira palavra como presença e intimidade, e o Talmude tratou como falta grave o marido que mantém a mulher alimentada e vestida, mas distante. Há casamentos em que nada falta no armário nem na mesa, e falta tudo o mais. A lei antiga já contava essa ausência entre as coisas que se podem tirar de alguém.

A roupa certa para quem ela é. O detalhe de Rabi Yonatan — roupa de acordo com a idade e com a estação — é uma lição de cuidado: dar a alguém o que serve a essa pessoa, e não o que sobra ou o que é mais cômodo dar.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. O versículo vale para quem tem uma só mulher?

O texto fala do caso em que o marido toma outra. Nachmânides responde que é evidente que os direitos valem também sem a segunda; a Escritura menciona a segunda porque é quando eles correm risco. A tradição rabínica inteira leu assim, e a Mishná fixou os direitos para todo casamento.

2. E se o marido não cumprir?

Se as "três coisas" do versículo seguinte forem estes três direitos, como leem Keil e Delitzsch, a serva sai livre, sem pagar nada; a tradição rabínica lê aquelas três coisas de outro modo, e a discussão é do estudo de Êxodo 21:11. Para as demais esposas, a Mishná e o Talmude criaram o caminho do divórcio com pagamento do contrato, e chegaram a prever uma multa semanal, somada ao valor do contrato, contra o marido que se recusa à mulher (Mishná Ketubot 5:7). O mesmo parágrafo prevê uma multa, descontada do contrato, contra a mulher que se recusa ao marido — com valores diferentes para cada lado.

3. A lei protegia a mulher contra a relação forçada?

O versículo não trata disso; ele fala do que não pode ser negado à mulher, não do que pode ser exigido dela. A tradição rabínica, quando trata da recusa da mulher, prevê multa e divórcio, não coerção. É uma leitura possível dizer que a lógica do direito — dela, e não dele — já apontava nessa direção, mas o texto não diz mais do que isso.

4. Por que a palavra mais importante é uma palavra rara?

Não se sabe. Pode ser um termo técnico do direito antigo que caiu em desuso, ou um eufemismo escolhido de propósito — Nachmânides diz que a Escritura costuma falar do sexo "em linguagem limpa e breve". As duas hipóteses são plausíveis, e nenhuma pode ser provada.

9. Conexão com Outros Textos

"Se você maltratar as minhas filhas"

Gênesis 31:50 — "Se você maltratar as minhas filhas, ou tomar outras mulheres além delas, ainda que ninguém esteja conosco, saiba que Deus é testemunha entre mim e você."

A cláusula de Labão tem os dois elementos deste versículo — "tomar outras" e "maltratar" — e o Talmude (Ketubot 47b) a cita exatamente para explicar a terceira palavra: o verbo de "maltratar" é da mesma família, e "maltratar as filhas" seria privá-las da vida conjugal.

Gênesis 34:2 — "Siquém, filho de Hamor, o heveu, príncipe daquela terra, viu-a, agarrou-a, deitou-se com ela e a violentou."

O versículo que Rabi Yoshiyah usa para ligar a terceira palavra à relação sexual — aqui no seu sentido mais sombrio, o da violência.

As palavras do versículo em outros lugares

Levítico 18:6 — "Nenhum de vocês se aproximará de qualquer parente próximo, da sua própria carne, para descobrir a sua nudez. Eu sou o SENHOR."

A "carne" como parentesco e como intimidade: o apoio de Rebbi e de Nachmânides.

Salmo 78:27 — "Fez chover sobre eles carne como pó, e aves de asas como a areia do mar."

A "carne" como alimento: o apoio de Rabi Yoshiyah.

Êxodo 22:27 — "porque é a única coberta que ele tem, a roupa do seu corpo; em que se deitaria? E, quando ele clamar a mim, eu o ouvirei, porque sou misericordioso."

A mesma palavra de "roupa", usada para a coberta com que o pobre dorme — o apoio de Nachmânides para ler aqui "a coberta da cama".

A casa com duas mulheres

Deuteronômio 21:15-16 — "Se um homem tiver duas mulheres, uma amada e outra desprezada, e ambas lhe derem filhos, e o primogênito for da desprezada, no dia em que fizer herdar aos filhos o que tiver, não poderá dar a primogenitura ao filho da amada, em lugar do filho da desprezada, que é o primogênito."

A outra lei da Torá que protege a mulher preterida numa casa polígama — aqui pelos direitos do filho dela.

Gênesis 30:15 — "Ela respondeu: 'É pouco você ter tomado o meu marido? Quer tomar também as mandrágoras do meu filho?' Raquel disse: 'Pois ele se deitará com você esta noite, em troca das mandrágoras do seu filho.'"

Gênesis 29:31 — "O SENHOR viu que Lia era rejeitada e abriu-lhe o ventre; Raquel, porém, era estéril."

A esposa a quem a presença do marido era negada, numa narrativa anterior à lei.

1 Samuel 1:6-7 — "A sua rival a provocava excessivamente para irritá-la, porque o SENHOR lhe tinha fechado o ventre. E assim acontecia ano após ano: sempre que ela subia à casa do SENHOR, a outra a provocava; e ela chorava e não comia."

O que a lei não alcança: mesmo com nada diminuído, a casa com duas mulheres continua sendo lugar de sofrimento.

A carne única

Gênesis 2:24 — "Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne."

O versículo de que Nachmânides tira a leitura da primeira palavra: a mulher é a "carne" do marido, e é essa proximidade que ele não pode diminuir.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Se tomar para si outra mulher, não diminuirá o alimento dela, a roupa dela nem os seus direitos conjugais.

Texto hebraico

אִם־אַחֶרֶת יִקַּח־לוֹ שְׁאֵרָהּ כְּסוּתָהּ וְעֹנָתָהּ לֹא יִגְרָע׃

Transliteração

im-acheret yiqqach-lo, she'erah kesutah ve-onatah lo yigra.

Análise palavra por palavra

אִם־אַחֶרֶת יִקַּח־לוֹ — im-acheret yiqqach-lo, "se outra tomar para si".

Acheret é o feminino de acher, "outro", usado sozinho, sem a palavra "mulher" — o hebraico deixa o substantivo subentendido, e as traduções o acrescentam. Vem antes do verbo, em destaque: "se outra ele tomar". Laqach, "tomar", é o verbo comum do casamento na Bíblia ("tomar mulher"). Lo, "para si", aqui escrito sem nenhuma dúvida, com vav.

שְׁאֵרָהּ — she'erah, "a carne dela", "o alimento dela".

She'er com o sufixo feminino. A palavra designa a carne como alimento (Salmo 78:27; Miqueias 3:3) e a carne como parentesco: em Levítico 18:6, she'er besaro é "a carne da sua carne", o parente próximo, e em Levítico 18:12-13 a tia é chamada "carne do teu pai", "carne da tua mãe". Nachmânides reúne os dois usos: she'er é a carne próxima da própria carne, e por isso a esposa é chamada assim em relação ao marido. Ônquelos traduz zivunah, "o sustento dela", e fixa a leitura alimentar na sinagoga.

כְּסוּתָהּ — kesutah, "a roupa dela", "a cobertura dela".

Kesut, de kasah, "cobrir": o que cobre. Aparece para a roupa em Gênesis 20:16 ("cobertura dos olhos"), em Deuteronômio 22:12 (as franjas nos quatro cantos "da tua cobertura") e na lei do manto penhorado (Êxodo 22:27), onde é a coberta com que o pobre dorme. É desse último uso que Nachmânides tira "a coberta da cama".

וְעֹנָתָהּ — ve-onatah, "e a sua relação conjugal".

Onah com o sufixo feminino. É a única ocorrência da palavra na Bíblia hebraica, e o sentido depende da raiz que se escolhe. Há três propostas antigas e uma moderna.

De anah, "afligir, humilhar, subjugar". É o verbo de Gênesis 34:2 (Siquém e Diná) e de Gênesis 31:50 ("se você maltratar as minhas filhas"), usado muitas vezes para a relação sexual imposta. O Talmude e Rabi Yoshiyah ligam onah a ele. A palavra designaria a relação sexual — e o versículo a converteria de algo que se faz contra a mulher em algo que se deve a ela.

De et, "tempo". Ibn Ezra explica que et perdeu um nun da raiz, como emet, "verdade", perdeu o seu, e cita Ezequiel 16:8, "o seu tempo era tempo de amores". Onah seria "a época", "a vez", "o tempo do amor" — e é exatamente com esse sentido de "período, turno" que a palavra passou ao hebraico da Mishná, onde onah é a frequência devida ao casal e também uma unidade de tempo.

De ma'on, "morada". A proposta de Rashbam, que trata o mem de ma'on como prefixo, como em maqom, "lugar", e malon, "pousada". Ibn Ezra a registra e a rejeita.

O óleo. A proposta moderna parte das listas de sustento do Oriente antigo — ração, óleo, roupa — e lê onah como um termo para o óleo de ungir. É sugestiva pela forma da lista e não tem apoio em nenhuma outra ocorrência hebraica da palavra.

לֹא יִגְרָע — lo yigra, "não diminuirá".

Negação com o imperfeito de gara, "subtrair, reduzir". O verbo e o seu uso no Egito estão analisados no estudo de Êxodo 5:8. O que importa aqui é o retorno da palavra: no Egito, o faraó mandou "não diminuam" a cota de tijolos exigida dos escravos (Êxodo 5:8, 5:11, 5:19); aqui, a mesma ordem protege uma escrava. O verbo que media o que se arrancava dos hebreus passa a medir o que não se pode tirar de uma serva hebreia.

As traduções antigas

A Septuaginta traduz as três palavras por ta deonta, "o necessário", ton himatismon, "a roupa", e tēn homilian autēs, "a convivência dela" — homilia é a companhia, o trato, e também, por eufemismo, a relação conjugal. A Vulgata faz uma escolha surpreendente: providebit puellae nuptias et vestimenta et pretium pudicitiae non negabit, "providenciará à moça o casamento e as roupas, e não lhe negará o preço da virgindade". Jerônimo leu a terceira palavra como uma compensação pela honra da moça, e não como vida conjugal. O Targum de Ônquelos traduz o alimento e conserva as duas outras palavras quase como estão.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, a primeira conclusão é que o versículo mede a justiça de uma casa pelo que acontece à mulher mais frágil quando chega outra. Não proíbe o segundo casamento; proíbe que ele seja pago por quem entrou na casa como serva. A palavra decisiva é "não diminuirá": a proteção não é um mínimo genérico, é a garantia de não perder o que já se tinha.

A segunda é que a lei pôs a intimidade na mesma lista que a comida e a roupa. Seja qual for a raiz da palavra rara, a tradição que a leu como vida conjugal fez do abandono no leito uma falta tão real quanto a fome — e o Talmude e Nachmânides levaram isso até a dignidade do corpo, recusando que a primeira mulher fosse rebaixada a concubina.

A terceira é que a regra feita para a serva se tornou a regra de todas. Pela leitura rabínica, os três direitos passaram a definir o que todo marido deve à mulher, a Mishná fixou-lhes quantidades e o contrato de casamento os guardou. Uma lei pensada para o caso extremo serviu de chão para o caso comum.

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