Se tomar para si outra mulher, não diminuirá o alimento dela, a roupa dela nem os seus direitos conjugais.
1. Introdução
O senhor casou com a serva, ou a deu ao filho, e depois toma outra mulher. A lei diz o que a primeira não pode perder: o alimento, a roupa e os direitos conjugais. É a única vez em que a Torá enumera o que um marido deve à mulher, e uma das três palavras aparece só aqui em toda a Bíblia — por isso os rabinos discutiram se ela quer dizer relação sexual, moradia ou até alimento. Desta lista, pensada para a mais frágil das esposas, saiu a base do que o direito judaico passou a garantir a toda mulher casada. O versículo supõe a poligamia e não a discute: o que ele regula é que a chegada de outra não diminua a primeira.
2. Contexto Histórico e Cultural
Três palavras, três mestres, três listas
A Mekhilta registra uma discussão em que três mestres do século II leem as mesmas três palavras de três modos diferentes. A primeira palavra quer dizer, ao pé da letra, "carne"; a segunda, "cobertura"; a terceira é a que só aparece aqui.
Rabi Yoshiyah lê do modo que se tornou o padrão: a "carne" é o alimento, como em Miqueias 3:3 ("comem a carne do meu povo") e no Salmo 78:27, em que Deus faz chover carne no deserto; a "cobertura" é a roupa; e a terceira palavra é a relação conjugal, que ele liga ao verbo de Gênesis 34:2, quando Siquém se deita com Diná.
Rabi Yonatan acha que o versículo inteiro fala de roupa. A "carne" indica a roupa adequada ao corpo dela: se é moça, ele não lhe dará roupa de velha; se é velha, não lhe dará roupa de moça. E a terceira palavra indica o tempo: não lhe dará roupa de verão no inverno, nem de inverno no verão. O alimento e a vida conjugal, ele os deduz por raciocínio: se o marido não pode privá-la de roupa, que não é questão de vida, menos ainda do alimento; e se não pode privá-la do que não foi a razão do casamento, menos ainda do que foi.
Rebbi — Rabi Yehuda ha-Nasi, o editor da Mishná — inverte os termos. A "carne" é a relação conjugal, como em Levítico 18:6, "nenhum de vocês se aproximará da sua carne próxima para descobrir a sua nudez". A terceira palavra é o alimento, ligada ao "ele te afligiu e te deixou ter fome" de Deuteronômio 8:3.
O Talmude: o corpo e não a roupa
O Talmude retoma a discussão em Ketubot 47b-48a, e o que ele acrescenta é mais íntimo do que jurídico. Rava observa que o mestre que lê "carne" como alimento sustenta que o sustento da esposa é obrigação da própria Torá — não uma regra criada depois pelos sábios. Rabi Eliezer ben Yaakov repete a leitura de Rabi Yonatan: tudo é roupa, adequada à idade e à estação.
E Rav Yosef cita uma tradição que lê a primeira palavra como "proximidade da carne": o marido não deve tratar a mulher "como os persas, que têm relações vestidos". O Talmude liga a ela uma decisão de Rav Huna: o homem que diz "não quero ter relações com a minha mulher a não ser que eu esteja vestido e ela esteja vestida" deve divorciar-se dela e pagar-lhe o que o contrato de casamento prevê. A lei não regula só a frequência: regula a intimidade.
A Mishná faz as contas
A Mishná (Ketubot 5:6) transforma a terceira palavra num calendário, conforme o trabalho do marido. Os que não trabalham, todos os dias; os trabalhadores, duas vezes por semana; os condutores de jumentos, uma vez por semana; os condutores de camelos, uma vez a cada trinta dias; os marinheiros, uma vez a cada seis meses. Quem jura que a mulher não terá relações com ele pode manter o juramento por duas semanas, segundo a escola de Shammai, ou por uma, segundo a de Hillel; depois disso, deve divorciar-se e pagar o contrato.
O mesmo capítulo fixa o mínimo do alimento e da roupa para o marido que sustenta a mulher por meio de terceiros (Ketubot 5:8-9): dois cabs de trigo por semana, meio log de azeite, legumes, figos secos; uma cama e esteiras; uma touca, um cinto, sapatos novos a cada festa e roupas no valor de cinquenta denários por ano — novas no tempo das chuvas, e não no verão. A palavra de Rabi Yonatan sobre a roupa da estação virou regra.
Podia-se abrir mão?
O Talmude (Kiddushin 19b) discute o homem que diz à mulher: "você está casada comigo com a condição de não ter direito a alimento, roupa e vida conjugal". Rabi Meir diz que o casamento vale e a condição é nula, porque contraria o que está escrito na Torá. Rabi Yehuda distingue: nos assuntos de dinheiro — alimento e roupa — a condição vale; na vida conjugal, não. O corpo não entra no comércio das cláusulas.
Esses três direitos estão na base do contrato de casamento judaico, a ketubá ("escrito", o documento entregue à noiva), cujo funcionamento está descrito no estudo de Mateus 19:5.
3. Análise Teológica do Versículo
"Se tomar para si outra mulher"
O versículo não proíbe a segunda mulher; supõe que ela pode vir. O que ele regula é o efeito da chegada dela sobre a primeira. Charles Ellicott (bispo anglicano e comentarista do século XIX) diz que a poligamia era permitida pela Lei de Moisés como coisa tolerada, e não aprovada. Nachmânides faz uma ressalva importante: se o senhor não tomar outra mulher, é evidente que também não pode diminuir os direitos da primeira; o texto menciona a segunda porque é nesse momento que a primeira corre mais risco — "a Escritura fala do que costuma acontecer". E acrescenta, para que não haja engano: isso não quer dizer que tomar outra mulher fosse o costume.
Quem é essa "outra"? Ibn Ezra diz que pode ser qualquer filha de Israel, vendida ou não. Para Rabi Yonatan, na Mekhilta, é justamente a mulher livre, o que faz o versículo comparar duas esposas de condições diferentes: a que foi comprada e a que chegou por contrato. A lei impede que a diferença de origem vire diferença de tratamento.
Sforno tira daqui uma regra mais severa: ninguém tem o direito de casar com mais de uma mulher se não puder sustentar as duas sem reduzir o que dá à primeira.
"não diminuirá"
O verbo não é "dará", mas "não diminuirá". A régua não é um mínimo abstrato, é o que ela já recebia. Rabi Yoshiyah observa que só se diminui o que já foi dado: a frase fala de quem já estava casada e tinha o seu padrão. A chegada da segunda mulher não pode servir de motivo para dividir o que era da primeira.
"o alimento dela"
A palavra quer dizer "carne", e a tradução por "alimento" é uma leitura. Keil e Delitzsch defendem que a carne é citada como o alimento principal, o que supõe uma casa de certo padrão. Nachmânides objeta com bom senso: se a palavra quisesse dizer comida, por que não "o pão dela", que é o sustento de verdade? E "não diminuirá a carne dela" soaria estranho — ninguém diminui a carne de alguém. Para ele, a palavra quer dizer outra coisa (adiante).
"a roupa dela"
A única das três palavras sobre a qual quase todos concordam. A discussão aqui é de detalhe, e o detalhe é revelador: a roupa deve servir à idade e à estação (Rabi Yonatan). A lei não se contenta com "alguma roupa"; quer a roupa certa para quem ela é.
"nem os seus direitos conjugais"
A terceira palavra é a que não aparece em nenhum outro lugar da Bíblia, e o sentido dela é decidido por comparação e por tradição. Quatro leituras.
Primeira leitura: a relação sexual. É a da Mekhilta (Rabi Yoshiyah), do Talmude, de Rashi, de Ibn Ezra e da quase totalidade das traduções. A ligação é com o verbo de Gênesis 34:2 e com a palavra "tempo", a "época" do amor (item 10). Nessa leitura, o versículo garante à mulher um direito que poucas leis antigas registram de forma explícita: o de não ser abandonada no leito, mesmo quando o marido tem outra.
Segunda leitura: a moradia. Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, comentarista francês do século XII) liga a palavra a "morada" e lê a lista como alimento, roupa e casa: a moça rejeitada deve receber sustento, abrigo e vestimenta. A leitura tem a seu favor a coerência — três bens materiais — e contra si a tradição inteira; Ibn Ezra a registra e a recusa.
Terceira leitura: o alimento. A de Rebbi, que inverte os termos: a primeira palavra seria a relação sexual, e a terceira, o sustento. Sobreviveu como opinião minoritária.
Quarta leitura: o óleo. Estudiosos modernos notaram que contratos antigos de sustento listam quase sempre três coisas: ração, óleo e vestimenta. A terceira palavra seria, então, o óleo para ungir o corpo, e o versículo repetiria a fórmula comum dos contratos de manutenção. A tradução judaica norte-americana mais usada (a da Jewish Publication Society) traz essa possibilidade em nota: "ou: unguentos". O fundo dessa tríade nos contratos está no estudo de Gênesis 50:21.
A leitura de Nachmânides: tudo é intimidade
Nachmânides propõe uma leitura que une as três palavras. A primeira, "carne", quer dizer o parente próximo, a carne que é próxima da carne — por isso a mulher é chamada assim em relação ao marido, como em "os dois se tornarão uma só carne" (Gênesis 2:24). A segunda é "a coberta da cama", como na lei do manto penhorado: "é a única coberta que ele tem; em que se deitará?" (Êxodo 22:27). A terceira é "o tempo do amor". As três falam, portanto, da mesma coisa, com a discrição que a Escritura usa para o sexo: a proximidade do corpo, a cama e o tempo.
E a consequência que ele tira é dura e precisa: o marido não pode deixar que a segunda mulher tenha "o leito de honra" e que a primeira seja para ele "como uma concubina, com quem se deita por acaso, no chão, como quem vai a uma prostituta". Para Nachmânides, a obrigação de sustento e de roupa vem dos sábios; o que a Torá protege aqui é a dignidade da mulher na intimidade.
O limite
O versículo garante três coisas à mulher e nomeia apenas uma com clareza — a roupa. A palavra mais importante, a terceira, só existe aqui, e o sentido sexual, embora seja a leitura mais antiga e mais seguida, é uma tradição e não uma evidência. O que não está em disputa é a direção: a chegada de outra mulher não autoriza o marido a reduzir a primeira, e a lei pensou a redução tanto no prato e na roupa quanto no leito.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
O marido. O senhor que tomou a serva por esposa, ou o filho a quem ela foi destinada. A lei fala com ele no momento em que toma outra mulher.
A primeira mulher. A antiga serva, agora esposa. É a mais frágil das mulheres da casa — entrou por compra, não por contrato com a família —, e é ela que o versículo protege.
A "outra". A segunda mulher, que pode ser livre e ter chegado com contrato e família por trás. A lei não diz nada contra ela; diz apenas que a chegada dela não pode custar à primeira.
Lia. A esposa preterida do Gênesis, que precisa comprar da irmã uma noite com o marido (Gênesis 30:15-16) e que, ao dar à luz o sexto filho, diz "desta vez o meu marido morará comigo" (Gênesis 30:20). A narrativa mostra, antes da lei, a situação que a lei viria a regular.
Ana. A mulher amada e sem filhos de Elcana, humilhada pela rival (1 Samuel 1). Ela recebe do marido uma porção dobrada — o caso inverso, em que o marido não diminui, mas a casa com duas mulheres continua sendo de sofrimento.
Os mestres. Rabi Yoshiyah, Rabi Yonatan e Rebbi na Mekhilta; Rava, Rav Yosef e Rav Huna no Talmude; Rabi Meir e Rabi Yehuda na discussão sobre a renúncia; e, na Idade Média, Rashi, Ibn Ezra, Rashbam e Nachmânides, cada um com uma leitura da terceira palavra.
Eventos
Um segundo casamento dentro de uma casa onde já há uma esposa. O versículo não narra, mas pressupõe o que esse momento produzia: a redistribuição do sustento, do espaço e da presença do marido.
5. Pontos de Ensino
1. A lei não proíbe a segunda mulher; protege a primeira. O critério é "não diminuir": a régua é o que ela já recebia.
2. Os três direitos são alimento, roupa e vida conjugal. É a leitura dominante, de Rabi Yoshiyah a Rashi. Outras leram moradia (Rashbam), óleo (estudiosos modernos) ou trocaram a ordem (Rebbi).
3. A terceira palavra só aparece aqui. O sentido sexual é a tradição mais antiga e mais seguida, mas é tradição, não evidência.
4. O Talmude protegeu a intimidade, não só o sustento. O marido não pode tratar a mulher "como os persas"; quem recusa a proximidade deve divorciar-se e pagar o contrato.
5. Nachmânides leu as três palavras como uma só coisa. Proximidade, cama e tempo: a primeira mulher não pode ser rebaixada a concubina.
6. A lei da serva virou o mínimo de toda esposa. A Mishná fixou quantidades, o Talmude discutiu se era possível renunciar, e o contrato de casamento judaico guardou os três direitos.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo trata a vida sexual como coisa devida — e devida à mulher. Não fala de filhos, não fala de amor, não fala de pecado: põe a intimidade ao lado da comida e da roupa, numa lista do que o marido não pode tirar. Isso levanta uma pergunta que a filosofia moral discutiu muito: o sexo pode ser objeto de dever? E, se pode, que tipo de dever é esse?
As três respostas que Primoratz examina
Igor Primoratz (filósofo nascido na antiga Iugoslávia, que ensinou na Universidade Hebraica de Jerusalém e depois na Austrália) organizou essa discussão no livro Ética e sexo (1999). Ele examina as grandes respostas que a tradição deu à pergunta sobre o que torna o sexo moralmente aceitável.
A primeira é a da tradição cristã clássica, de Agostinho a Tomás de Aquino: o sexo se justifica pela procriação, dentro do casamento. Nessa tradição nasceu a ideia do "débito conjugal" — cada cônjuge deve ao outro a relação, e recusá-la sem motivo é falta. A segunda resposta liga o sexo ao amor: ele só é bom quando exprime um vínculo pessoal profundo. A terceira, que Primoratz defende, é a mais despojada: o sexo não tem, em si, um significado moral especial. Ele se torna certo ou errado pelos princípios que valem para qualquer outra ação — o consentimento, a honestidade, o respeito às promessas, o não causar dano.
O que o versículo faz com essas respostas
O versículo não cabe inteiro em nenhuma delas. Não justifica o sexo pela procriação: a lista não menciona filhos. Não o justifica pelo amor: a situação descrita é justamente a de um marido que prefere outra. O que ele faz é tratar a intimidade como parte do que foi prometido quando a mulher entrou na casa — e isso aproxima a lei da terceira resposta, a de Primoratz. O argumento de Rabi Yonatan na Mekhilta diz isso quase com as mesmas palavras: se o marido não pode privá-la do que não foi a razão do casamento, menos ainda pode privá-la do que foi. A obrigação nasce do compromisso, não da natureza do ato.
O desenvolvimento rabínico vai na mesma direção num ponto decisivo: o remédio. Quando o marido recusa a mulher, o Talmude não o obriga à força; obriga-o a divorciar-se e a pagar o que o contrato prevê. O direito da mulher é protegido pela saída, e não pela coerção. Para quem pensa, como Primoratz, que nenhum dever justifica forçar o corpo de alguém, essa é a solução coerente: a promessa quebrada tem preço, mas o corpo não é executado como uma dívida.
Onde a lei e o filósofo se separam
Há um ponto em que a tradição rabínica resiste à visão liberal. Rabi Yehuda admite que a mulher renuncie, por contrato, ao alimento e à roupa, mas não à vida conjugal (Kiddushin 19b). Para um liberal, dois adultos que consentem poderiam combinar o que quisessem sobre a própria intimidade. Para Rabi Yehuda, esse direito está fora do comércio das cláusulas — não por ser sagrado no sentido de Agostinho, mas porque a mulher, na posição em que estava, dificilmente "consentiria" de verdade em abrir mão dele. A regra protege a parte fraca contra a própria assinatura.
É a tensão que atravessa toda a ética sexual moderna: o consentimento basta quando as partes são desiguais? Primoratz responde que o consentimento é o critério, e que as desigualdades devem ser tratadas como problema à parte. A lei antiga, sem teoria, fez o contrário: incorporou a desigualdade na própria regra e tirou um direito do alcance da renúncia.
Primoratz não escreveu sobre este versículo, e a aproximação é uma leitura. O que ela mostra é que a lei do Êxodo, ao pôr a intimidade na lista do que é devido à mulher, não a pensou como dever religioso nem como prova de amor, e sim como parte de um compromisso cuja quebra tem consequência.
7. Aplicações Práticas
"Não diminuirá" é uma régua concreta. A lei não manda dar o mínimo; manda não reduzir o que a pessoa já tinha quando chega alguém novo. A relação com a vida real é imediata em famílias recompostas: o segundo casamento, os filhos da nova união, a nova casa. O versículo pergunta, em termos práticos, quem paga a conta da mudança — e responde que não pode ser quem estava antes e tinha menos poder.
O abandono dentro de casa também é abandono. A tradição leu a terceira palavra como presença e intimidade, e o Talmude tratou como falta grave o marido que mantém a mulher alimentada e vestida, mas distante. Há casamentos em que nada falta no armário nem na mesa, e falta tudo o mais. A lei antiga já contava essa ausência entre as coisas que se podem tirar de alguém.
A roupa certa para quem ela é. O detalhe de Rabi Yonatan — roupa de acordo com a idade e com a estação — é uma lição de cuidado: dar a alguém o que serve a essa pessoa, e não o que sobra ou o que é mais cômodo dar.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. O versículo vale para quem tem uma só mulher?
O texto fala do caso em que o marido toma outra. Nachmânides responde que é evidente que os direitos valem também sem a segunda; a Escritura menciona a segunda porque é quando eles correm risco. A tradição rabínica inteira leu assim, e a Mishná fixou os direitos para todo casamento.
2. E se o marido não cumprir?
Se as "três coisas" do versículo seguinte forem estes três direitos, como leem Keil e Delitzsch, a serva sai livre, sem pagar nada; a tradição rabínica lê aquelas três coisas de outro modo, e a discussão é do estudo de Êxodo 21:11. Para as demais esposas, a Mishná e o Talmude criaram o caminho do divórcio com pagamento do contrato, e chegaram a prever uma multa semanal, somada ao valor do contrato, contra o marido que se recusa à mulher (Mishná Ketubot 5:7). O mesmo parágrafo prevê uma multa, descontada do contrato, contra a mulher que se recusa ao marido — com valores diferentes para cada lado.
3. A lei protegia a mulher contra a relação forçada?
O versículo não trata disso; ele fala do que não pode ser negado à mulher, não do que pode ser exigido dela. A tradição rabínica, quando trata da recusa da mulher, prevê multa e divórcio, não coerção. É uma leitura possível dizer que a lógica do direito — dela, e não dele — já apontava nessa direção, mas o texto não diz mais do que isso.
4. Por que a palavra mais importante é uma palavra rara?
Não se sabe. Pode ser um termo técnico do direito antigo que caiu em desuso, ou um eufemismo escolhido de propósito — Nachmânides diz que a Escritura costuma falar do sexo "em linguagem limpa e breve". As duas hipóteses são plausíveis, e nenhuma pode ser provada.
9. Conexão com Outros Textos
"Se você maltratar as minhas filhas"
Gênesis 31:50 — "Se você maltratar as minhas filhas, ou tomar outras mulheres além delas, ainda que ninguém esteja conosco, saiba que Deus é testemunha entre mim e você."
A cláusula de Labão tem os dois elementos deste versículo — "tomar outras" e "maltratar" — e o Talmude (Ketubot 47b) a cita exatamente para explicar a terceira palavra: o verbo de "maltratar" é da mesma família, e "maltratar as filhas" seria privá-las da vida conjugal.
Gênesis 34:2 — "Siquém, filho de Hamor, o heveu, príncipe daquela terra, viu-a, agarrou-a, deitou-se com ela e a violentou."
O versículo que Rabi Yoshiyah usa para ligar a terceira palavra à relação sexual — aqui no seu sentido mais sombrio, o da violência.
As palavras do versículo em outros lugares
Levítico 18:6 — "Nenhum de vocês se aproximará de qualquer parente próximo, da sua própria carne, para descobrir a sua nudez. Eu sou o SENHOR."
A "carne" como parentesco e como intimidade: o apoio de Rebbi e de Nachmânides.
Salmo 78:27 — "Fez chover sobre eles carne como pó, e aves de asas como a areia do mar."
A "carne" como alimento: o apoio de Rabi Yoshiyah.
Êxodo 22:27 — "porque é a única coberta que ele tem, a roupa do seu corpo; em que se deitaria? E, quando ele clamar a mim, eu o ouvirei, porque sou misericordioso."
A mesma palavra de "roupa", usada para a coberta com que o pobre dorme — o apoio de Nachmânides para ler aqui "a coberta da cama".
A casa com duas mulheres
Deuteronômio 21:15-16 — "Se um homem tiver duas mulheres, uma amada e outra desprezada, e ambas lhe derem filhos, e o primogênito for da desprezada, no dia em que fizer herdar aos filhos o que tiver, não poderá dar a primogenitura ao filho da amada, em lugar do filho da desprezada, que é o primogênito."
A outra lei da Torá que protege a mulher preterida numa casa polígama — aqui pelos direitos do filho dela.
Gênesis 30:15 — "Ela respondeu: 'É pouco você ter tomado o meu marido? Quer tomar também as mandrágoras do meu filho?' Raquel disse: 'Pois ele se deitará com você esta noite, em troca das mandrágoras do seu filho.'"
Gênesis 29:31 — "O SENHOR viu que Lia era rejeitada e abriu-lhe o ventre; Raquel, porém, era estéril."
A esposa a quem a presença do marido era negada, numa narrativa anterior à lei.
1 Samuel 1:6-7 — "A sua rival a provocava excessivamente para irritá-la, porque o SENHOR lhe tinha fechado o ventre. E assim acontecia ano após ano: sempre que ela subia à casa do SENHOR, a outra a provocava; e ela chorava e não comia."
O que a lei não alcança: mesmo com nada diminuído, a casa com duas mulheres continua sendo lugar de sofrimento.
A carne única
Gênesis 2:24 — "Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne."
O versículo de que Nachmânides tira a leitura da primeira palavra: a mulher é a "carne" do marido, e é essa proximidade que ele não pode diminuir.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Se tomar para si outra mulher, não diminuirá o alimento dela, a roupa dela nem os seus direitos conjugais.
Texto hebraico
אִם־אַחֶרֶת יִקַּח־לוֹ שְׁאֵרָהּ כְּסוּתָהּ וְעֹנָתָהּ לֹא יִגְרָע׃
Transliteração
im-acheret yiqqach-lo, she'erah kesutah ve-onatah lo yigra.
Análise palavra por palavra
אִם־אַחֶרֶת יִקַּח־לוֹ — im-acheret yiqqach-lo, "se outra tomar para si".
Acheret é o feminino de acher, "outro", usado sozinho, sem a palavra "mulher" — o hebraico deixa o substantivo subentendido, e as traduções o acrescentam. Vem antes do verbo, em destaque: "se outra ele tomar". Laqach, "tomar", é o verbo comum do casamento na Bíblia ("tomar mulher"). Lo, "para si", aqui escrito sem nenhuma dúvida, com vav.
שְׁאֵרָהּ — she'erah, "a carne dela", "o alimento dela".
She'er com o sufixo feminino. A palavra designa a carne como alimento (Salmo 78:27; Miqueias 3:3) e a carne como parentesco: em Levítico 18:6, she'er besaro é "a carne da sua carne", o parente próximo, e em Levítico 18:12-13 a tia é chamada "carne do teu pai", "carne da tua mãe". Nachmânides reúne os dois usos: she'er é a carne próxima da própria carne, e por isso a esposa é chamada assim em relação ao marido. Ônquelos traduz zivunah, "o sustento dela", e fixa a leitura alimentar na sinagoga.
כְּסוּתָהּ — kesutah, "a roupa dela", "a cobertura dela".
Kesut, de kasah, "cobrir": o que cobre. Aparece para a roupa em Gênesis 20:16 ("cobertura dos olhos"), em Deuteronômio 22:12 (as franjas nos quatro cantos "da tua cobertura") e na lei do manto penhorado (Êxodo 22:27), onde é a coberta com que o pobre dorme. É desse último uso que Nachmânides tira "a coberta da cama".
וְעֹנָתָהּ — ve-onatah, "e a sua relação conjugal".
Onah com o sufixo feminino. É a única ocorrência da palavra na Bíblia hebraica, e o sentido depende da raiz que se escolhe. Há três propostas antigas e uma moderna.
De anah, "afligir, humilhar, subjugar". É o verbo de Gênesis 34:2 (Siquém e Diná) e de Gênesis 31:50 ("se você maltratar as minhas filhas"), usado muitas vezes para a relação sexual imposta. O Talmude e Rabi Yoshiyah ligam onah a ele. A palavra designaria a relação sexual — e o versículo a converteria de algo que se faz contra a mulher em algo que se deve a ela.
De et, "tempo". Ibn Ezra explica que et perdeu um nun da raiz, como emet, "verdade", perdeu o seu, e cita Ezequiel 16:8, "o seu tempo era tempo de amores". Onah seria "a época", "a vez", "o tempo do amor" — e é exatamente com esse sentido de "período, turno" que a palavra passou ao hebraico da Mishná, onde onah é a frequência devida ao casal e também uma unidade de tempo.
De ma'on, "morada". A proposta de Rashbam, que trata o mem de ma'on como prefixo, como em maqom, "lugar", e malon, "pousada". Ibn Ezra a registra e a rejeita.
O óleo. A proposta moderna parte das listas de sustento do Oriente antigo — ração, óleo, roupa — e lê onah como um termo para o óleo de ungir. É sugestiva pela forma da lista e não tem apoio em nenhuma outra ocorrência hebraica da palavra.
לֹא יִגְרָע — lo yigra, "não diminuirá".
Negação com o imperfeito de gara, "subtrair, reduzir". O verbo e o seu uso no Egito estão analisados no estudo de Êxodo 5:8. O que importa aqui é o retorno da palavra: no Egito, o faraó mandou "não diminuam" a cota de tijolos exigida dos escravos (Êxodo 5:8, 5:11, 5:19); aqui, a mesma ordem protege uma escrava. O verbo que media o que se arrancava dos hebreus passa a medir o que não se pode tirar de uma serva hebreia.
As traduções antigas
A Septuaginta traduz as três palavras por ta deonta, "o necessário", ton himatismon, "a roupa", e tēn homilian autēs, "a convivência dela" — homilia é a companhia, o trato, e também, por eufemismo, a relação conjugal. A Vulgata faz uma escolha surpreendente: providebit puellae nuptias et vestimenta et pretium pudicitiae non negabit, "providenciará à moça o casamento e as roupas, e não lhe negará o preço da virgindade". Jerônimo leu a terceira palavra como uma compensação pela honra da moça, e não como vida conjugal. O Targum de Ônquelos traduz o alimento e conserva as duas outras palavras quase como estão.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, a primeira conclusão é que o versículo mede a justiça de uma casa pelo que acontece à mulher mais frágil quando chega outra. Não proíbe o segundo casamento; proíbe que ele seja pago por quem entrou na casa como serva. A palavra decisiva é "não diminuirá": a proteção não é um mínimo genérico, é a garantia de não perder o que já se tinha.
A segunda é que a lei pôs a intimidade na mesma lista que a comida e a roupa. Seja qual for a raiz da palavra rara, a tradição que a leu como vida conjugal fez do abandono no leito uma falta tão real quanto a fome — e o Talmude e Nachmânides levaram isso até a dignidade do corpo, recusando que a primeira mulher fosse rebaixada a concubina.
A terceira é que a regra feita para a serva se tornou a regra de todas. Pela leitura rabínica, os três direitos passaram a definir o que todo marido deve à mulher, a Mishná fixou-lhes quantidades e o contrato de casamento os guardou. Uma lei pensada para o caso extremo serviu de chão para o caso comum.













