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Êxodo 18:6

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 22 min de leitura·👁 13 acessos
E disse a Moisés: “Eu, Jetro, seu sogro, venho a você, com a sua mulher e os dois filhos dela.”
Um mensageiro jovem, de pé à entrada de um acampamento de tendas no deserto, entrega um recado a Moisés, enquanto ao longe, numa elevação, se vê um homem idoso com uma mulher e dois meninos esperando.

Estudo


E disse a Moisés: “Eu, Jetro, seu sogro, venho a você, com a sua mulher e os dois filhos dela.”

1. Introdução

Jetro fala a Moisés em primeira pessoa, "Eu, Jetro, seu sogro, venho a você", mas no versículo seguinte Moisés ainda precisa sair para encontrá-lo. Como falou, então, se não estava lá? Os rabinos responderam com um mensageiro ou uma carta; a tradução grega antiga mudou a frase e fez dela um aviso dado por outros. A mensagem tem três partes, o sogro, a mulher e os filhos, e a Mekhilta leu nelas um pedido em degraus, como se Jetro temesse que Moisés não saísse por ele. Moisés não responde; sai.

2. Contexto Histórico e Cultural

Ninguém chegava de surpresa

Num mundo de tendas e acampamentos, chegar sem aviso era falta de modos e podia ser perigo. A própria Bíblia mostra o costume de mandar alguém adiante: Jacó, antes de encontrar Esaú, envia mensageiros com um recado em primeira pessoa (Gênesis 32:3-5). Sforno (Ovadia Sforno, rabino e médico italiano do século XVI) lê o versículo assim: Jetro mandou avisar "por cortesia, para que Moisés não fosse apanhado de surpresa pela chegada repentina". E cita a regra que o Talmude atribui a Rabi Akiva, entre os sete conselhos que deu ao filho (tratado Pesachim 112a): "não entre de repente na sua própria casa, e muito menos na casa de outro". Quem anuncia a chegada dá ao anfitrião o tempo de se preparar para receber.

Gill acrescenta um motivo prático. Depois do ataque de Amaleque contra a retaguarda, é provável que o acampamento tivesse sentinelas nas bordas, que não deixariam estranhos entrar sem ordem; o aviso seria também um pedido de passagem. É conjectura, mas lembra que um acampamento de muitos milhares, recém-atacado, não era lugar aberto a quem chegasse.

Como falava uma carta

Uma das leituras do versículo é que Jetro escreveu. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) defende essa leitura com um argumento de estilo: só numa carta alguém diz "Eu, fulano". Um mensageiro diria "eis que Jetro, o seu sogro, vem"; e quem fala cara a cara não diz o próprio nome a quem está vendo. A Bíblia tem exemplos de "dizer" que é dizer por escrito. Em 2 Crônicas 2:11, "Hirão, rei de Tiro, respondeu por escrito, numa carta que enviou a Salomão", e o texto segue com a fala do rei em primeira pessoa. E as cartas oficiais conservadas no livro de Esdras abrem com o remetente em primeira pessoa: "Eu, o rei Artaxerxes, dou ordem a todos os tesoureiros" (Esdras 7:21). Uma carta põe na boca do papel a voz de quem escreveu, e é exatamente isso que o versículo faz.

Que um homem do deserto, sacerdote de Midiã, soubesse escrever ou tivesse quem escrevesse por ele, o texto não diz. O estudo de Êxodo 4:27 mostra que a carta, naquele mundo, era instrumento de cortes e de governos, não de famílias comuns. Isso pesa contra a leitura da carta. Quem a defende pode responder que Jetro não era homem comum, e sim o sacerdote e chefe de um povo.

O pedido de entrada como gênero

A mensagem segue a ordem de quem pede para ser recebido: primeiro quem fala, depois a relação que dá direito ao pedido, depois quem vem junto. "Eu", "seu sogro", "a sua mulher", "os dois filhos dela". Nenhum motivo é dado e nada é pedido em palavras. A relação de parentesco basta como credencial. É a lógica da hospitalidade entre parentes, em que o vínculo já contém o pedido.

3. Análise Teológica do Versículo

"E disse a Moisés"

A frase não tem sujeito expresso; pelo contexto, é Jetro. E o problema aparece logo no versículo seguinte: "Moisés saiu ao encontro do seu sogro". Se Jetro estava diante dele para falar, Moisés não precisaria sair. Logo, a fala chegou antes do homem. Como? A tradição deu cinco respostas.

Primeira resposta: por um mensageiro. É a leitura de Rabi Elazar de Modiin na Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III), seguida por Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI), por Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, século XII) e por Keil e Delitzsch. O mensageiro repete o recado nas palavras de quem o mandou, e por isso diz "eu". A dificuldade, apontada por Nachmânides, é que mensageiros costumavam falar de quem os enviou na terceira pessoa.

Segunda resposta: por carta. É a leitura de Rabi Yehoshua na mesma Mekhilta e a que Nachmânides defende, com os argumentos do item 2: só por escrito alguém se apresenta dizendo o próprio nome. No Midrash Tanchuma (coleção de sermões rabínicos sobre a Torá, organizada entre os séculos V e IX), as atribuições aparecem trocadas, Rabi Yehoshua com o mensageiro e Rabi Elazar com a carta, sinal de que as duas opiniões circularam juntas e cedo.

Terceira resposta: a frase foi dita antes. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) lê o verbo com valor de mais-que-perfeito: Jetro "já tinha dito" a Moisés, antes de chegar, por um enviado ou por escrito. O versículo não estaria na sequência da cena; estaria voltando um passo para explicar como Moisés sabia.

Quarta resposta: uma carta presa a uma flecha. O Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII), atribuindo a história ao Tanchuma, conta que as nuvens da glória cercavam o acampamento e ninguém de fora conseguia entrar; Jetro amarrou um bilhete a uma flecha e a atirou para dentro da nuvem. A lenda é tardia e fantasiosa, mas guarda uma intuição real: o acampamento de Israel não era lugar em que um estrangeiro entrasse sem ser chamado.

Quinta resposta: o texto antigo dizia outra coisa. A Septuaginta (a tradução grega feita entre os séculos III e II antes de Cristo) traz: "foi anunciado a Moisés, dizendo: 'Eis que o seu sogro Jotor vem até você, e a mulher e os seus dois filhos com ele'". Segundo o Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa), o Pentateuco Samaritano e a Peshita (a tradução siríaca) também leem "eis" no lugar de "eu". O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) lista estudiosos dos séculos XVIII e XIX que preferiram essa forma, entre eles Benjamin Kennicott (hebraísta inglês que comparou centenas de manuscritos hebraicos). Mas a leitura grega é a mais fácil, e por isso mesmo a mais suspeita: é o tipo de frase que um tradutor produz para aplainar uma dificuldade, e não o tipo que um copista inventaria. O próprio Pulpit conclui que a explicação do mensageiro "remove toda necessidade de alterar o texto".

Nenhuma das cinco se impõe pelo texto. Todas concordam no essencial: a voz de Jetro chega ao acampamento antes do seu corpo, e é a voz que faz Moisés sair.

"Eu, Jetro, seu sogro"

No hebraico a ordem é outra: "Eu, seu sogro, Jetro". A relação vem antes do nome. No versículo anterior, o texto disse "Jetro, sogro de Moisés", com o nome na frente; aqui, falando por si, Jetro se apresenta primeiro pelo vínculo. Or ha-Chayim (Chayim ibn Attar, comentarista marroquino do século XVIII) leu a inversão como modéstia: o texto, falando de fora, põe o nome; Jetro, falando de si, prefere não começar por ele. Outra leitura é mais simples: num pedido de acolhida, o que abre a porta não é o nome, é o parentesco. Moisés sabe muito bem quem é Jetro; o que o recado lembra é que o homem lá fora é o pai da mulher dele.

E há o "eu". A Mekhilta registra, em nome de Rabi Eliezer, uma leitura ousada: quem diz "eu" no versículo não seria Jetro, mas Deus. "Eu sou aquele por cuja palavra o mundo veio a existir; eu sou o que aproxima e não o que afasta, como está dito: 'Sou eu apenas Deus de perto, diz o SENHOR, e não também Deus de longe?' (Jeremias 23:23). Eu aproximei Jetro e não o afastei. Você também, quando alguém vier a você para se converter, aproxime-o e não o afaste." A Mekhilta tira daí uma regra de conduta: "o homem deve afastar com a mão esquerda e aproximar com a direita, e não fazer como Eliseu, que rejeitou Geazi com as duas mãos". A leitura troca o remetente da mensagem e faz do anúncio de um parente uma instrução sobre como receber o estrangeiro. O Targum atribuído a Jônatas (tradução aramaica da Torá com muitos acréscimos) vai na mesma direção e põe na boca de Jetro: "eu vim a você para me tornar prosélito". O texto hebraico não fala em conversão; a tradição a leu aqui porque o resto do capítulo mostra Jetro bendizendo o SENHOR e oferecendo sacrifícios.

"venho a você"

A forma hebraica pode ser lida como "venho", "estou chegando", ou como "vim", "cheguei"; as duas se escrevem igual (item 10). A escolha da ABC, "venho", combina com o que se segue: Jetro está a caminho, e Moisés vai ao seu encontro. Se fosse "vim", a frase anunciaria uma presença já consumada, à porta.

"com a sua mulher e os dois filhos dela"

A mensagem nomeia a mulher pelo laço com Moisés, "a sua mulher", e os filhos pelo laço com ela. O que é próprio deste versículo é a leitura que a Mekhilta faz da sequência, na voz de Rabi Elazar: "Faça-o por mim; e se não for por mim, saia por sua mulher; e se não for por ela, faça-o pelos filhos dela". Rashi repete. A frase de Jetro, que no texto é uma simples enumeração, vira um pedido em três degraus, e um pedido que supõe resistência. Por que um sogro precisaria insistir para que o genro viesse recebê-lo?

A pergunta leva ao versículo 2, em que Moisés "tinha despedido" Zípora, e ao que essa despedida significou, assunto daquele versículo. A leitura rabínica percebeu tensão onde o texto só põe uma lista. Ibn Ezra lê a lista ao contrário, como ordem de importância: "e também a sua mulher, que é a principal, e os dois filhos dela que vêm com ela". O texto permite as duas leituras e não confirma nenhuma: não registra hesitação de Moisés, e no versículo seguinte ele sai sem demora.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jetro, o remetente

É a primeira vez que o sogro de Moisés fala neste capítulo, e a fala não é sobre Deus nem sobre o que ouviu: é sobre quem está chegando. A única fala anterior dele dirigida a Moisés foi a despedida de Êxodo 4:18, "Vá em paz". Até aqui, as duas falas de Jetro ao genro são uma licença para ir e um aviso de chegada.

O mensageiro, se houve

Nem nomeado nem mencionado. Se a leitura do mensageiro está certa, há no versículo uma pessoa que o texto não registra, como tantas outras na Bíblia que levam e trazem recados sem nome. Se a leitura da carta está certa, há um objeto que o texto também não registra.

Moisés, o destinatário

Recebe o recado e não responde nada. Moisés fala muito no Êxodo, com Deus, com Faraó, com o povo; na chegada da família, o texto não lhe dá nenhuma palavra antes do relato do versículo 8.

Zípora

Não é nomeada na mensagem: é "a sua mulher". Depois deste versículo, o Êxodo não volta a ela.

Os dois filhos

Gérson e Eliézer, chamados aqui "os dois filhos dela". A mensagem os põe por último, depois do sogro e da mãe.

O acampamento

O lugar para onde a mensagem é enviada, e de onde Moisés sai no versículo seguinte. Se Nachmânides tem razão, Jetro estava no monte de Deus e Moisés ainda em Refidim, e a mensagem atravessou a distância entre os dois; a cronologia está no estudo de Êxodo 18:5.

5. Pontos de Ensino

1. A palavra pode chegar antes da pessoa. Jetro se faz presente por um recado antes de aparecer. O encontro do versículo seguinte começa aqui, com uma mensagem que prepara quem vai receber.

2. O vínculo vem antes do nome. No hebraico, Jetro se apresenta como "seu sogro" antes de dizer "Jetro". Quem pede acolhida lembra a relação que o une ao outro; o nome, Moisés já conhece.

3. Uma mensagem simples pode carregar muito. A frase de Jetro é uma lista de quem vem. A Mekhilta ouviu nela um pedido em degraus, e Ibn Ezra uma ordem de importância. O texto não decide, e a lista continua sendo lida há dois mil anos.

4. A dificuldade de um texto pode estar na tradução que a resolve. A versão grega trocou "eu" por "eis" e tirou o problema. A leitura mais difícil, a que ficou no hebraico, é a que fez os comentaristas pensarem em mensageiros, cartas e na hospitalidade.

5. Receber é decidir aproximar. A leitura de Rabi Eliezer põe a mensagem na boca de Deus e tira dela uma regra: afastar com a mão esquerda, aproximar com a direita. Não é o sentido literal do versículo, mas é a lição que a tradição judaica guardou dele sobre quem chega de fora.

6. Aspectos Filosóficos

O que diz quem diz "eu"

A mensagem começa com a palavra mais curta e mais difícil de qualquer língua: "eu". E não a deixa sozinha. Jetro diz "eu", e logo em seguida "seu sogro", e só depois o nome. Quem fala se identifica por três coisas de natureza diferente: o fato de ser alguém, a relação que tem com o ouvinte, e o nome que o distingue de todos os outros. A pergunta filosófica que o versículo deixa é qual dessas três coisas é a pessoa. Jetro seria Jetro sem ser sogro de Moisés?

Xavier Zubiri: personeidade e personalidade

Xavier Zubiri (1898-1983), filósofo espanhol formado em Madri, Roma e Friburgo, dedicou boa parte da obra a pensar o que é ser pessoa, em livros como Sobre la esencia ("Sobre a essência", 1962) e nos cursos reunidos depois da sua morte em Sobre el hombre ("Sobre o homem", 1986). Ele separou duas camadas com duas palavras quase iguais. A personeidade é o que faz de alguém uma pessoa: ser uma realidade que pertence a si mesma, que é "sua", e que por isso não pode ser trocada por outra. Ela não cresce nem diminui; o recém-nascido a tem inteira. A personalidade é a figura que essa realidade vai ganhando ao longo da vida, pelos atos, pelas escolhas, pelas relações. Ela muda o tempo todo e nunca está pronta.

Em El hombre y Dios ("O homem e Deus", 1984), Zubiri chamou a pessoa de "relativamente absoluta". Absoluta, porque é sua e de ninguém mais, e se afirma como um "eu" diante de tudo. Relativa, porque essa afirmação só acontece no meio das coisas e dos outros, e porque a pessoa não se dá a si mesma a própria realidade. Desde os anos 1930 ele chamava esse vínculo de fundo de "religação" (religación): o homem não está apenas ligado aos outros; está fundado num poder do real que o sustenta, e é aí que Zubiri situa a pergunta por Deus.

O que essa distinção ilumina no versículo

Na frase de Jetro, as duas camadas aparecem lado a lado. "Eu" é a personeidade: alguém que fala por si e não pode ser substituído; nenhum mensageiro e nenhuma carta transformam Jetro em outro. "Seu sogro" é personalidade: uma figura que ele ganhou por um ato de décadas antes, quando recebeu um fugitivo egípcio à mesa e lhe deu a filha. A ordem hebraica, com o vínculo antes do nome, diz que, para entrar no acampamento, o que conta é a personalidade construída na relação. Moisés não sai para receber "um homem chamado Jetro"; sai para receber o pai da sua mulher.

E a leitura de Rabi Eliezer na Mekhilta, que põe o "eu" na boca de Deus, encontra em Zubiri um eco inesperado. Se toda pessoa humana se afirma como "eu" apoiada num fundamento que não é ela mesma, então o "eu" de Jetro e o "eu" de quem "aproxima e não afasta" não estão em planos sem contato. A tradição rabínica sobrepôs as duas vozes num só versículo; Zubiri ofereceria uma razão filosófica para que a sobreposição não soe absurda.

Onde a aproximação para

Zubiri escreve metafísica, com vocabulário técnico e sem nenhum interesse por cenas de hospitalidade. O versículo não faz teoria da pessoa: registra um recado. Ler "personeidade" no "eu" de Jetro é usar uma ferramenta moderna para iluminar uma frase antiga, não descobrir no texto uma doutrina que ele não tem. E a "religação" de Zubiri é uma tese sobre todo ser humano, não sobre a conversão de um sacerdote de Midiã, que a tradição viu aqui e o texto não afirma.

7. Aplicações Práticas

Avisar antes de chegar

Jetro não aparece de surpresa no acampamento; manda dizer que vem. Sforno viu nisso cortesia, e a regra que ele cita, a de não entrar de repente nem na própria casa, continua sensata. Uma visita anunciada dá ao outro a chance de receber bem, e uma reconciliação anunciada dá ao outro a chance de se preparar para ela. Em encontros que carregam história, como o de um sogro que traz de volta a filha, o aviso não é formalidade: é respeito pelo tempo do outro.

Apresentar-se pelo vínculo

Jetro não começa por títulos, nem pelo que fez, nem pelo que ouviu de Deus. Começa por "seu sogro". Quem procura alguém depois de uma separação faz bem em lembrar primeiro o que os une, e não o que os afastou. A mensagem não cobra nada, não explica a ausência, não pede desculpas e não as exige. Põe diante de Moisés as três pessoas que lhe pertencem, e deixa que ele decida sair.

Aproximar com a mão direita

A regra que a Mekhilta tirou daqui, afastar com a esquerda e aproximar com a direita, vale para quem recebe gente de fora numa comunidade, numa família ou num grupo de fé. Pode haver motivo para cautela; não deve haver rejeição com as duas mãos. É uma aplicação da tradição sobre o versículo, e não o sentido dele; mas é uma aplicação que a própria cena, com Moisés saindo ao encontro do sacerdote de Midiã, não contradiz.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Qual é o texto original, "eu" ou "eis"?

Não há consenso, mas a maioria dos estudiosos fica com o hebraico, pela razão dada no item 3: é mais fácil imaginar um tradutor desfazendo uma dificuldade do que um copista criando-a. Há um indício a mais. Na mesma frase, a Septuaginta troca "os dois filhos dela" por "os seus dois filhos", com o possessivo voltado para Moisés. O tradutor grego estava alisando o versículo inteiro, e não só o "eu".

Por que Jetro não diz por que vem?

A mensagem só diz quem vem. O motivo foi dado pelo texto no versículo 1, que conta o que Jetro ouviu, e não pela boca dele. O Targum atribuído a Jônatas preencheu o silêncio com "para me tornar prosélito"; o hebraico deixa Jetro chegar sem anunciar intenção nenhuma. O que ele pensa só aparece depois que Moisés lhe conta tudo, nos versículos 9 a 11.

A leitura de Rabi Eliezer, que põe a fala na boca de Deus, tem apoio no texto?

Não no sentido gramatical. O verbo "disse" não tem sujeito expresso, e é essa falta que a leitura aproveita; mas o contexto pede Jetro, e "seu sogro" só faz sentido na boca dele. A leitura é um midrash, uma interpretação que usa uma brecha do texto para ensinar outra coisa, aqui a acolhida do estrangeiro. Ela vale como testemunho do que os rabinos queriam ensinar, não como explicação do que o versículo diz.

9. Conexão com Outros Textos

"Dizer" por escrito

2 Crônicas 2:11 — "Hirão, rei de Tiro, respondeu por escrito, numa carta que enviou a Salomão: 'Porque o SENHOR ama o seu povo, ele fez você rei sobre eles.'"

O versículo que Nachmânides cita para mostrar que o verbo "dizer" pode designar uma carta.

Esdras 7:21 — "E eu, o rei Artaxerxes, dou ordem a todos os tesoureiros que estão do outro lado do Rio: tudo o que Esdras, o sacerdote, escriba da Lei do Deus do céu, pedir a vocês, seja feito prontamente."

Uma carta que fala em primeira pessoa, com o nome e o título do remetente, como a frase de Jetro.

O recado mandado adiante

Gênesis 32:4 — "E lhes ordenou: 'Assim vocês dirão ao meu senhor Esaú: Assim diz o seu servo Jacó: Morei na casa de Labão e ali fiquei até agora.'"

Jacó também manda avisar antes de chegar, e também fala em primeira pessoa pela boca de outros. A diferença é o tom: Jacó se chama "servo"; Jetro se chama "sogro".

Falar por meio de outros

Lucas 7:3 e 7:6 — "Ouvindo falar de Jesus, o centurião enviou-lhe alguns anciãos dos judeus… E, quando já não estava longe da casa, o centurião mandou uns amigos dizer-lhe: 'Senhor, não se incomode, pois não sou digno de que entre debaixo do meu teto.'"

Matthew Poole (comentarista puritano inglês do século XVII) compara este versículo com a mesma cena em dois evangelhos: em Mateus 8:5-8 o centurião fala pessoalmente; em Lucas fala por enviados, em primeira pessoa. Para Poole, é o mesmo uso: o que um mensageiro diz em nome de alguém é contado como fala dele.

O Deus que aproxima

Jeremias 23:23 — "Sou eu apenas Deus de perto, diz o SENHOR, e não também Deus de longe?"

O versículo que Rabi Eliezer põe na boca de Deus ao ler a mensagem de Jetro: o Deus de longe também traz para perto quem estava longe.

2 Reis 5:26-27 — "Eliseu lhe disse: 'Não ia com você o meu coração, quando aquele homem desceu do carro ao seu encontro?…' Portanto, a lepra de Naamã se apegará a você e à sua descendência para sempre."

Geazi, o servo despedido por Eliseu: o exemplo que a Mekhilta dá de quem rejeitou "com as duas mãos".

A forma de quem está chegando

Gênesis 29:6 — "Jacó perguntou: 'Ele está bem?' 'Está bem', disseram; 'e ali vem Raquel, sua filha, com as ovelhas.'"

O mesmo verbo, na mesma forma de quem está chegando. O Cambridge Bible usa este versículo para mostrar que "venho", e não "vim", é a tradução natural da fala de Jetro.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E disse a Moisés: “Eu, Jetro, seu sogro, venho a você, com a sua mulher e os dois filhos dela.”

Texto hebraico

וַיֹּאמֶר אֶל־מֹשֶׁה אֲנִי חֹתֶנְךָ יִתְרוֹ בָּא אֵלֶיךָ וְאִשְׁתְּךָ וּשְׁנֵי בָנֶיהָ עִמָּהּ׃

Transliteração

va-yómer el-Moshé: aní chotenkhá Yitró bá eléikha, ve-ishtekhá u-shnéi vanéha imáh.

Análise palavra por palavra

וַיֹּאמֶר — va-yómer, "e disse". Raiz '-m-r, dizer, na forma verbal que encadeia a narrativa, terceira pessoa do masculino singular, sem sujeito expresso. O sujeito se tira do versículo anterior, onde o último a agir foi Jetro. É dessa falta de sujeito que nascem a leitura de Rabi Eliezer, que põe a fala na boca de Deus, e a solução da Septuaginta, que troca o verbo ativo por um passivo: anēngélē, "foi anunciado".

אֶל־מֹשֶׁה — el-Moshé, "a Moisés". A preposição el marca o destinatário. A mesma preposição volta logo adiante, em "a você", e amarra a frase entre dois pontos: Moisés no começo, Moisés no "você".

אֲנִי — aní, "eu". O pronome pessoal independente da primeira pessoa. O hebraico não precisa dele para formar a frase, porque o particípio que vem depois já serviria; quando aparece, dá ênfase a quem fala. É a palavra que a Septuaginta e, segundo o Cambridge Bible, o Pentateuco Samaritano e a Peshita leem como hinneh, "eis".

חֹתֶנְךָ — chotenkhá, "o seu sogro". O particípio choten com o sufixo da segunda pessoa do masculino singular, "seu", dirigido a Moisés. No versículo 5 a forma era "sogro de Moisés"; aqui é "seu sogro", e o hebraico põe o vínculo antes do nome. A ABC escreve "Eu, Jetro, seu sogro", na ordem mais natural em português; a ordem hebraica é "eu, seu sogro, Jetro".

יִתְרוֹ — Yitró, "Jetro". O nome vem em terceiro lugar, depois do pronome e do título, como uma assinatura.

בָּא — bá, "venho". Da raiz b-w-', vir. Nos verbos deste tipo, de raiz com vogal no meio, o particípio ("está vindo") e o perfeito da terceira pessoa ("veio") têm a mesma forma, as mesmas consoantes e as mesmas vogais. Só o contexto decide. A ABC, como o Cambridge Bible, lê particípio: "venho", isto é, "estou chegando". John Gill registra a tradução latina palavra por palavra de Arias Montano (humanista espanhol do século XVI): veniens, "vindo". A leitura de Ibn Ezra, de que Jetro "já tinha dito" antes de chegar, combina melhor com o particípio: a mensagem é de quem ainda está a caminho.

אֵלֶיךָ — eléikha, "a você". A preposição el com o sufixo de segunda pessoa.

וְאִשְׁתְּךָ — ve-ishtekhá, "e a sua mulher". Ishah, mulher, na forma ligada eshet, com o sufixo "sua". O "e" a liga ao "eu" do começo: "eu venho, e a sua mulher". Zípora não é nomeada; é definida pela relação com o destinatário, como Jetro.

וּשְׁנֵי בָנֶיהָ — u-shnéi vanéha, "e os dois filhos dela". Shnei é a forma ligada do numeral "dois"; baneha é o plural de ben, filho, com o sufixo da terceira pessoa do feminino singular, "dela".

עִמָּהּ — imáh, "com ela". A preposição im, "com", e o sufixo feminino. É a última palavra da mensagem, e põe os meninos sob a companhia da mãe: "os dois filhos dela, com ela". A ABC deixa a ideia contida em "dela" e não repete a preposição. Or ha-Chayim leu nesse "com ela" um último apelo: se Moisés não sair pela mulher nem pelos filhos, que saia pelos dois juntos.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, a primeira conclusão é que o versículo não pode ser lido como fala presencial, e que o próprio texto o mostra: Moisés ainda terá de sair para encontrar quem acabou de falar. Mensageiro, carta, mais-que-perfeito ou correção da tradução grega são maneiras diferentes de dizer a mesma coisa, que a voz de Jetro chegou antes dele. A forma hebraica, mais difícil que a grega, é provavelmente a original, e foi essa dificuldade que manteve os comentaristas atentos à frase.

A segunda conclusão é sobre o que a mensagem escolhe dizer. Jetro se apresenta pelo vínculo antes do nome, não declara motivo, não pede nada e termina com a mãe e os filhos juntos. A tradição ouviu nisso ora um pedido em degraus, ora uma ordem de importância, ora a voz de Deus ensinando a aproximar o estrangeiro. O texto só garante o efeito: depois da mensagem, Moisés sai.

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