Moisés saiu ao encontro do seu sogro, inclinou-se e o beijou; perguntaram um ao outro como estavam e entraram na tenda.
1. Introdução
Moisés sai do acampamento para receber o sogro, e o versículo descreve o encontro em quatro gestos: inclinar-se, beijar, perguntar pelo bem-estar e entrar na tenda. O hebraico não diz quem se inclinou diante de quem, nem quem beijou quem; a tradição concluiu que foi Moisés, e, se foi, é a única vez em toda a Torá que ele se prostra diante de um ser humano. Os dois primeiros gestos estão no singular, o terceiro no plural: a honra vai num sentido, a conversa vai nos dois. A mulher e os filhos, anunciados no versículo anterior, não aparecem. E a tenda em que os dois entram não tem dono declarado.
2. Contexto Histórico e Cultural
Sair ao encontro
No mundo do texto, quem recebe um hóspede de honra não espera que ele chegue à porta: vai buscá-lo. Abraão corre da entrada da tenda ao ver os três homens (Gênesis 18:2); Labão corre ao encontro de Jacó, abraça-o, beija-o e o leva para casa (Gênesis 29:13). A distância percorrida mede a honra. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) acrescenta uma regra de etiqueta que explica um silêncio do versículo: Moisés saiu "por consideração a Jetro e à sua sabedoria, não por consideração à mulher e aos filhos, porque não é costume um homem de posição sair ao encontro da mulher ou dos filhos". O versículo diz exatamente isso: "saiu ao encontro do seu sogro". A família vinha junto, mas a saída era para ele. A regra de quem se desloca até quem, conforme a posição de cada um, está estudada em Gênesis 46:29.
A tradição ampliou a comitiva. A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III) diz que saíram com Moisés Arão, Nadabe, Abiú e setenta anciãos, e depois todo Israel; "outros dizem: até a Shekhiná (a presença de Deus) saiu com eles". Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI), seguindo o Midrash Tanchuma, explica a lógica: quem, vendo Moisés, Arão e os filhos de Arão saírem, ficaria em casa? O texto não fala em comitiva nenhuma. Fala de um homem que sai.
A prostração e a posição
Curvar-se até o chão era o gesto de quem reconhece a posição de outro. No Gênesis, Abraão se curva diante dos filhos de Hete para comprar a sepultura (Gênesis 23:7), Jacó se curva sete vezes diante de Esaú (Gênesis 33:3), os irmãos de José se curvam diante do governador do Egito (Gênesis 43:28). O gesto vai, em regra, de quem pede para quem pode, de quem é menor para quem é maior. Por isso a pergunta "quem se inclinou?" não é detalhe: dependendo da resposta, o versículo diz quem estava acima de quem naquele encontro. O líder de um povo recém-libertado e o sacerdote de uma nação estrangeira se encontram, e alguém se curva.
A honra devida ao sogro
A Mekhilta, ao concluir que foi Moisés quem se curvou, tira do versículo uma regra: "daqui disseram que o homem deve zelar pela honra do sogro". A regra ficou. O Shulchan Aruch (o código de lei judaica de Yosef Karo, século XVI) a registra em poucas palavras na seção sobre a honra devida aos pais (Yoreh De'ah 240:24): "o homem é obrigado a honrar o sogro". A Bíblia tem um exemplo extremo do mesmo dever: Davi, perseguido por Saul, que era seu sogro, chama-o de "meu pai" no momento em que poderia matá-lo (1 Samuel 24:11). Or ha-Chayim (Chayim ibn Attar, comentarista marroquino do século XVIII) aproxima as duas cenas.
Sforno (Ovadia Sforno, rabino e médico italiano do século XVI) lê o gesto como gratidão: Moisés "não usou a sua posição para esperar o sogro em casa", mas foi ao encontro do homem "em cuja casa tinha recebido tantos favores". E dá exemplos de quem lembrou e de quem esqueceu: Ester, já rainha, continuou a fazer o que Mardoqueu mandava, "como quando era criada por ele" (Ester 2:20); José não desprezou os irmãos; o chefe dos copeiros, que devia a José a liberdade, "não se lembrou de José; esqueceu-se dele" (Gênesis 40:23).
A tenda
Entrar na tenda de alguém era entrar no espaço de proteção dele. No acampamento, a tenda era a casa: ali se comia, se dormia, se conversava longe dos outros. Na família do Gênesis, cada mulher tinha a sua (Gênesis 31:33). Levar o visitante para dentro da tenda é o passo que transforma o encontro na estrada em hospedagem. O versículo não diz de quem era a tenda, e as respostas da tradição estão no item 3.
3. Análise Teológica do Versículo
"Moisés saiu ao encontro do seu sogro"
Moisés não responde à mensagem; sai. É a primeira ação dele no capítulo, e é um movimento para fora do acampamento, na direção de quem vem de fora. A frase põe só o sogro como destino. A mulher e os filhos, que o versículo anterior anunciou com tanto cuidado, não são mencionados nem aqui nem em nenhum outro versículo do capítulo. Or ha-Chayim chega a supor que Moisés foi primeiro à tenda de Jetro e só depois à mulher e aos filhos, para mostrar que o sogro merecia honra por si mesmo, e não só como pai de Zípora. O texto não diz isso; diz apenas para quem ele saiu.
O Targum atribuído a Jônatas (tradução aramaica da Torá com muitos acréscimos) põe Moisés saindo "de debaixo da nuvem da glória". A imagem é tardia, mas marca bem a direção do gesto: quem sai é o homem que fala com Deus, e sai para receber um sacerdote estrangeiro.
"inclinou-se e o beijou"
Os dois verbos estão no singular e nenhum tem sujeito expresso. Quem se inclinou? Quem beijou? A Mekhilta confessa a dificuldade: "eu não saberia quem se inclinou diante de quem, nem quem beijou quem". E resolve com a frase seguinte, que diz "perguntaram o homem ao seu companheiro": "quem é chamado 'homem'? Moisés, como está escrito: 'O homem Moisés era muito humilde' (Números 12:3)". Logo, o "homem" é Moisés, o "companheiro" é Jetro, e foi Moisés quem se inclinou e beijou.
O argumento é frágil, e os próprios comentaristas viram isso. Or ha-Chayim lembra que Jetro também é chamado de "homem" em Êxodo 2:21, quando Moisés "concordou em morar com aquele homem". O Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII) responde que Números 12:3 diz que Moisés era mais humilde que qualquer homem, e portanto mais humilde também que Jetro, e por isso foi ele quem se curvou. Ibn Ezra prefere um argumento de bom senso: "quem sai ao encontro é quem se inclina diante do outro". Moisés é o sujeito de "saiu"; o mais natural é que continue sujeito dos verbos seguintes. Gramaticalmente, é a leitura mais simples, e é a que quase todos os comentaristas, judeus e cristãos, adotam.
Se a leitura está certa, o gesto é único. Na Torá, depois do Gênesis, o verbo da prostração diante de um ser humano aparece em dois lugares. Em Êxodo 11:8, Moisés anuncia a Faraó que "todos estes seus servos descerão a mim e se prostrarão diante de mim". E aqui. O homem diante de quem a corte do Egito se curvaria curva-se diante do sacerdote de Midiã. Em todo o resto do Pentateuco, Moisés só se prostra diante de Deus (Êxodo 34:8). O Ellicott's Commentary ("Comentário de Ellicott", obra inglesa do século XIX) registra o peso disso: o gesto foi "inteiramente voluntário", e Moisés, "agora príncipe da sua nação, poderia muito bem ter exigido que Jetro se curvasse diante dele".
Há, porém, a leitura contrária, e o hebraico não a exclui: Jetro, ao chegar, se inclina diante do líder do povo que acabou de vencer o Egito, e Moisés o beija. Nessa leitura, o versículo descreve um protocolo comum entre um visitante e um chefe, e nada de extraordinário. Não é possível decidir pela gramática. A leitura de que foi Moisés tem a seu favor a lógica da frase e toda a tradição, e é a que se segue aqui; mas é dedução, não texto.
O beijo também tem história no livro. Em Êxodo 4:27, no mesmo monte de Deus, Arão foi ao encontro de Moisés e o beijou; ali Moisés era o objeto do gesto. Aqui, se a leitura tradicional está certa, ele é o sujeito. É o único beijo que Moisés dá em toda a Torá. O beijo, como gesto, é o de sempre entre parentes; o que muda é quem o dá.
"perguntaram um ao outro como estavam"
O verbo passa ao plural. Os gestos de honra foram de um só; a pergunta é dos dois. O hebraico diz "perguntaram, um homem ao seu companheiro, pela paz". A palavra traduzida por "companheiro" é a do vizinho, do amigo, do outro com quem se convive. Ibn Ezra comenta que o texto chama Jetro de companheiro de Moisés "por causa da grandeza da sua sabedoria".
A mesma dupla de palavras, "o homem e o seu companheiro", volta nove versículos adiante, na boca de Moisés: "eu julgo entre um e outro" (Êxodo 18:16), literalmente "entre o homem e o seu companheiro". No versículo 7 a dupla nomeia dois homens que perguntam pela paz um do outro; no versículo 16, dois homens que brigam e precisam de juiz. A expressão é corrente no hebraico, e não se pode dizer que o texto a repetiu de propósito. Mas a mesma fórmula serve à amizade e ao litígio, e o capítulo passa de uma à outra.
A Septuaginta (a tradução grega feita entre os séculos III e II antes de Cristo) traduz o sentido, não a letra: "e saudaram-se um ao outro". Perde a pergunta, que no hebraico é uma pergunta de verdade, e ganha um gesto. O valor da fórmula "perguntar pela paz" no hebraico está no estudo de Gênesis 43:27.
"e entraram na tenda"
De quem era a tenda? O hebraico diz "a tenda", com artigo, e não diz de quem. Há quatro respostas.
Primeira resposta: a tenda de Moisés. Ibn Ezra e o Chizkuni leem o artigo como "a tenda conhecida", a de Moisés. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) acrescenta que ela já estava implícita em "onde estava acampado" (Êxodo 18:5). A Septuaginta torna isso explícito com outra frase: "e ele o fez entrar na tenda", no singular, com Moisés como anfitrião que conduz o hóspede.
Segunda resposta: a casa de estudo. A Mekhilta diz numa palavra: "na tenda — na casa de estudo". O Targum atribuído a Jônatas segue: "entraram no tabernáculo, a casa de instrução". A leitura faz da primeira coisa que Moisés e Jetro fazem juntos uma lição, e prepara o versículo seguinte, em que Moisés conta e Jetro escuta. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) achou a ideia improvável: Jetro era homem instruído e não precisava ir à escola logo na chegada.
Terceira resposta: a tenda do encontro. Se Jetro chegou depois do Sinai, como pensa Ibn Ezra, "a tenda" pode ser aquela que Moisés armava fora do acampamento, onde "todo aquele que buscava o SENHOR saía" (Êxodo 33:7). É leitura que depende da data da visita, e o versículo não a confirma.
Quarta resposta: a tenda de Jetro, que acabara de chegar e teria armado a sua. Nenhum comentarista antigo a defende, e o verbo no plural, "entraram", com Moisés à frente desde o começo do versículo, não a favorece.
O texto deixa a pergunta aberta. O que ele garante é que a conversa do versículo 8 aconteceu dentro de uma tenda, longe do povo, entre dois homens. Zípora não entra com eles, nem os meninos, e o Êxodo não diz para onde foram.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Moisés
Líder de um povo que saiu do Egito poucas semanas ou poucos meses antes, conforme a data que se aceite para a visita. É o sujeito de todo o versículo: sai, e, na leitura tradicional, se inclina e beija. Na última vez que viu Jetro, era um pastor que pedia licença para voltar ao Egito (Êxodo 4:18).
Jetro
Aqui chamado só de "seu sogro" e, na pergunta pela paz, de "companheiro". Não fala neste versículo. É recebido com os gestos que se reservam a quem se honra.
A comitiva da tradição
Não está no texto. Dos nomes que a Mekhilta põe saindo com Moisés, Arão e os anciãos aparecem de fato no versículo 12; Nadabe e Abiú, os filhos mais velhos de Arão, só entram em cena em Êxodo 24:1.
Zípora e os filhos
Ausentes. Foram anunciados no versículo 6 e não são recebidos em cena. O texto não registra o reencontro de Moisés com a mulher e com os filhos.
A tenda
O único lugar nomeado no versículo, sem dono declarado. É o cenário da conversa do versículo 8.
O acontecimento
O primeiro encontro de Moisés com Jetro desde a partida para o Egito, e o primeiro de Moisés com um estrangeiro que vem em paz desde que saiu de lá. No capítulo anterior, Amaleque tinha vindo à guerra; aqui, um sacerdote de Midiã é recebido com reverência.
5. Pontos de Ensino
1. A posição não dispensa a reverência. Moisés é agora o chefe de um povo, e sai a pé ao encontro do sogro. Na leitura que a tradição consagrou, curva-se diante dele. A autoridade que recebeu de Deus não o desobriga da honra devida a quem o acolheu quando era fugitivo.
2. A honra pode ir num sentido e a conversa nos dois. Os gestos de reverência estão no singular; a pergunta pela paz, no plural. O versículo mostra uma relação desigual em posição e igual na conversa.
3. Antes de qualquer assunto, a pessoa. Os dois perguntam como o outro está antes de falar de Deus, do Egito ou do deserto. O relato dos grandes feitos vem depois, dentro da tenda.
4. O texto escolhe o que mostra. A mulher e os filhos chegam e não são recebidos em cena. O versículo se concentra no encontro dos dois homens, e o silêncio sobre a família é tão parte do texto quanto os gestos que ele descreve.
6. Aspectos Filosóficos
Etiqueta ou afeto?
O versículo descreve um ritual completo: sair, curvar-se, beijar, perguntar pela paz, entrar. Cada gesto estava previsto pelo costume, e por isso a pergunta filosófica é inevitável: esses gestos dizem alguma coisa sobre o que Moisés sentia, ou são só a forma que a época exigia? A etiqueta expressa o afeto, substitui o afeto, ou o esconde? O estudo de Gênesis 33:4 lembrou que um beijo convencional pode ser sincero ou não. Este versículo pede outra pergunta: de onde vêm, no ser humano, as inclinações que esses gestos codificam?
Shaftesbury e os afetos naturais
Anthony Ashley Cooper, terceiro conde de Shaftesbury (1671-1713), filósofo inglês, reuniu em 1711 os seus escritos sob o título Characteristicks of Men, Manners, Opinions, Times ("Características dos homens, costumes, opiniões e épocas"). O ensaio central, An Inquiry Concerning Virtue or Merit ("Investigação sobre a virtude ou o mérito", 1699), responde a uma tese muito difundida no seu tempo: a de que todo afeto pelos outros é, no fundo, cálculo de interesse próprio, e que só nos curvamos, beijamos e servimos porque esperamos algo em troca.
Shaftesbury dividiu os afetos em três tipos. Há os afetos naturais, voltados para o bem dos outros e da comunidade: a afeição pelos parentes, a gratidão, a amizade, a compaixão. Há os afetos voltados para si: a preservação da própria vida, o desejo de conforto, o cuidado com a reputação. E há os afetos antinaturais, que não servem nem aos outros nem a quem os sente, como a crueldade gratuita. A virtude, para ele, não é eliminar os afetos voltados para si, mas manter todos em equilíbrio, com os naturais no lugar que lhes cabe. E esses afetos naturais não são inventados pela educação: são tão parte do ser humano quanto a fome. O ser humano percebe o certo e o errado nos afetos, nos seus e nos dos outros, por um sentido próprio, a que Shaftesbury deu o nome que ficou na história da filosofia: o senso moral.
Num ensaio de 1709, Sensus Communis ("Senso comum"), ele tratou dos costumes e das boas maneiras. "Toda polidez se deve à liberdade", escreveu. "Nós nos polimos uns aos outros e aparamos as nossas arestas por uma espécie de choque amigável." A boa educação, para Shaftesbury, não é máscara sobre o afeto: é o afeto natural aparado pelo convívio, até ganhar forma reconhecível.
O que essa ideia ilumina no versículo
Lido com Shaftesbury, o ritual de Êxodo 18:7 não precisa ser escolhido entre forma vazia e sentimento puro. Os gestos são forma, e a forma está a serviço de três afetos naturais que o texto e a tradição deixam ver. A afeição de parentesco: Moisés recebe o pai da mulher dele. A gratidão: Sforno lê o gesto como lembrança dos favores recebidos em Midiã. E a amizade: o texto chama Jetro de "companheiro". O que não aparece é o afeto voltado para si. Um líder preocupado com a própria posição teria esperado na tenda; Moisés sai, e, na leitura tradicional, se curva.
E a estrutura do versículo combina com o que Shaftesbury chama de choque amigável. Os gestos de honra vão num sentido só, de Moisés para Jetro. A pergunta pela paz vai nos dois, "um ao outro". A forma reconhece a diferença de posição; a conversa a anula. É o costume fazendo o trabalho de polir a relação, para que o afeto entre os dois tenha um caminho por onde passar.
Onde a aproximação para
Shaftesbury desconfiava da religião que funda a moral em recompensa e castigo divinos, e escreveu contra o "entusiasmo", a religião exaltada que se julga inspirada. O Êxodo, ao contrário, põe este encontro dentro de uma história conduzida por Deus: o versículo seguinte é inteiro sobre o que o SENHOR fez. Para Shaftesbury, os afetos naturais bastariam para explicar a cena; para o texto, o que dá sentido ao reencontro é o que os dois vão conversar dentro da tenda. A filosofia dos afetos explica a forma do encontro; não explica por que, depois do beijo, o assunto é Deus.
7. Aplicações Práticas
Honrar a família do cônjuge
A regra que a Mekhilta tirou daqui, zelar pela honra do sogro, é das aplicações mais diretas do versículo, e a lei judaica a guardou. Moisés tinha todos os motivos para esperar em casa: era o chefe do povo, e a relação com a família da mulher passara por uma separação. Ele sai. Na vida comum, a relação com sogros e cunhados raramente é simples, e o versículo não finge que seja; mostra apenas que a posição de cada um não dispensa os gestos de respeito.
Não esquecer quem ajudou no começo
Sforno pôs ao lado de Moisés o chefe dos copeiros, que esqueceu José assim que saiu da prisão. A diferença entre os dois é a memória. Quem subiu na vida costuma ter atrás de si alguém que o recebeu quando não tinha nada. Ir ao encontro dessa pessoa, e não esperar que ela venha pedir audiência, é o que o versículo mostra.
Perguntar pela pessoa antes de falar do assunto
Moisés tinha muito a contar e Jetro muito a perguntar. O primeiro diálogo do reencontro, porém, é sobre como cada um está. Em reuniões de família, em visitas, em conversas de trabalho com quem não se via havia tempo, a ordem do versículo é sensata: primeiro a pessoa, depois a pauta.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que o texto não diz claramente quem se inclinou?
Não há como saber se a ambiguidade é proposital. No hebraico narrativo é comum que o sujeito fique implícito quando o contexto parece bastar, e quem escreveu talvez achasse óbvio que Moisés, o sujeito de "saiu", continuasse sujeito. O efeito, de qualquer modo, é que o versículo não proclama a humildade de Moisés; deixa que o leitor a deduza. Se o texto quisesse fazer disso uma lição, teria escrito o nome.
Moisés podia prostrar-se diante de um sacerdote de outro deus?
A pergunta pressupõe que a prostração fosse sempre culto, e não era. O mesmo verbo serve para o gesto de cortesia diante de pessoas (Abraão diante dos hititas, Jacó diante de Esaú) e para a adoração a Deus. O contexto decide. Aqui o gesto é para o sogro, e não para o deus a quem Jetro servia; nenhum comentarista antigo viu nele um problema religioso. O que a tradição viu foi a honra devida a um parente, e a Mekhilta tirou daí uma regra de conduta, não uma suspeita.
Por que não há choro, como em outros reencontros da Bíblia?
Esaú e Jacó choram (Gênesis 33:4), José chora com os irmãos (Gênesis 45:14-15) e com o pai (Gênesis 46:29). Aqui não há choro, nem abraço registrado. O texto não explica. Pode ser que um encontro entre sogro e genro, mais protocolar que o de irmãos ou de pai e filho, não pedisse lágrimas; pode ser apenas economia do relato, que tem pressa de chegar ao que Moisés vai contar. O reencontro de Moisés com Arão em Êxodo 4:27 também não tem choro, e o Êxodo parece guardar a emoção para outros momentos.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma cena, com os papéis trocados
Êxodo 4:27 — "O SENHOR disse a Arão: 'Vá ao deserto encontrar-se com Moisés.' Ele foi, encontrou-o no monte de Deus e o beijou."
No mesmo monte, o primeiro reencontro de Moisés com a família. Ali ele recebe o beijo; aqui, na leitura tradicional, ele o dá.
Gênesis 29:13 — "Assim que Labão ouviu as notícias de Jacó, filho de sua irmã, correu ao seu encontro, abraçou-o, beijou-o e o levou à sua casa. E Jacó contou a Labão tudo o que havia acontecido."
A sequência inteira de Êxodo 18:7-8 já está aqui: ir ao encontro, beijar, levar para dentro, contar tudo. E os papéis também: um genro, ou futuro genro, conta ao sogro o que viveu. A diferença está no que vem depois. Labão vai explorar Jacó por vinte anos; Jetro vai aconselhar Moisés e partir.
A única prostração de Moisés diante de um homem
Êxodo 11:8 — "Então todos estes seus servos descerão a mim e se prostrarão diante de mim, dizendo: 'Saia, você e todo o povo que segue os seus pés'; e depois disso eu sairei."
A outra prostração diante de um ser humano no Êxodo: os servos de Faraó diante de Moisés. No capítulo 18, se a tradição está certa, é Moisés quem se curva.
Números 12:3 — "Ora, o homem Moisés era muito humilde, mais do que todos os homens que havia sobre a face da terra."
O versículo que a Mekhilta usa para decidir que o "homem" de Êxodo 18:7 é Moisés.
Êxodo 2:21 — "Moisés concordou em morar com aquele homem, que lhe deu por mulher a sua filha Zípora."
A objeção de Or ha-Chayim: Jetro também é chamado de "homem", e o argumento da Mekhilta não fecha sozinho.
"Um ao outro": a amizade e o litígio
1 Samuel 20:41 — "Davi se levantou do lado do sul, caiu com o rosto em terra e se inclinou três vezes; e beijaram-se um ao outro, e choraram juntos, até que Davi chorou mais."
Os mesmos três elementos, inclinar-se, beijar e "um ao outro", na despedida de Davi e Jônatas. Lá há choro; aqui, não.
Êxodo 18:16 — "Quando eles têm uma questão, ela vem a mim, e eu julgo entre um e outro e lhes faço conhecer os estatutos de Deus e as suas leis."
"Entre um e outro" é, no hebraico, a mesma dupla "o homem e o seu companheiro" deste versículo, agora aplicada a quem briga.
Êxodo 2:13 — "No dia seguinte saiu de novo, e havia dois hebreus brigando. Ele disse ao que estava errado: 'Por que você golpeia o seu companheiro?'"
A primeira vez que Moisés usa a palavra "companheiro" no livro, para dois hebreus em briga. Em Êxodo 18:7 a palavra serve à paz.
A honra ao sogro
1 Samuel 24:11 — "Olhe, meu pai, veja a ponta do seu manto na minha mão! Eu cortei a ponta do seu manto e não matei você. Reconheça e veja que não há em mim mal nem rebeldia."
Davi chama de "meu pai" o sogro que o persegue. Or ha-Chayim aproxima a cena da reverência de Moisés a Jetro.
A tenda fora do acampamento
Êxodo 33:7 — "Moisés tomava a tenda e a armava fora do acampamento, longe do acampamento, e a chamava tenda do encontro. E todo aquele que buscava o SENHOR saía à tenda do encontro, que estava fora do acampamento."
A tenda em que pensam os que leem o capítulo como posterior ao Sinai.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Moisés saiu ao encontro do seu sogro, inclinou-se e o beijou; perguntaram um ao outro como estavam e entraram na tenda.
Texto hebraico
וַיֵּצֵא מֹשֶׁה לִקְרַאת חֹתְנוֹ וַיִּשְׁתַּחוּ וַיִּשַּׁק־לוֹ וַיִּשְׁאֲלוּ אִישׁ־לְרֵעֵהוּ לְשָׁלוֹם וַיָּבֹאוּ הָאֹהֱלָה׃
Transliteração
va-yetsé Moshé liqrát chotnó, va-yishtáchu va-yishshaq-ló; va-yish'alú ish-le-re'éhu le-shalóm, va-yavó'u ha-óhela.
Análise palavra por palavra
וַיֵּצֵא מֹשֶׁה — va-yetsé Moshé, "e Moisés saiu". Raiz y-ts-', sair: é o verbo da saída do Egito, a ideia que deu ao livro, em grego, o nome de Êxodo. Aqui, a saída é do acampamento, na direção de quem chega.
לִקְרַאת חֹתְנוֹ — liqrát chotnó, "ao encontro do seu sogro". Liqrat é o infinitivo de q-r-', encontrar, ir de encontro a, usado como preposição: "para encontrar", "em direção a". É a mesma expressão de Êxodo 4:27, em que Deus manda Arão ir "ao encontro de Moisés". Chotno, "o sogro dele", com o sufixo da terceira pessoa.
וַיִּשְׁתַּחוּ — va-yishtáchu, "e inclinou-se", "prostrou-se". É o verbo da prostração, numa forma reflexiva rara e muito discutida pelos gramáticos, que alguns explicam por uma raiz ch-w-h, encurvar-se, com um prefixo de reflexivo. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) dedicou a esta palavra uma das notas gramaticais mais longas do seu comentário: o -u final faz a forma parecer plural, "inclinaram-se", mas ela é singular, e o acento recua para a penúltima sílaba justamente para marcar a diferença. O detalhe importa para a cena: quem se inclinou foi um só.
וַיִּשַּׁק־לוֹ — va-yishshaq-ló, "e beijou-o". Raiz n-sh-q, beijar; o n da raiz desaparece na forma conjugada e deixa a consoante seguinte dobrada. O objeto vem com a preposição le, "a ele", construção comum para o beijo de saudação. Também no singular e também sem sujeito expresso.
וַיִּשְׁאֲלוּ — va-yish'alú, "e perguntaram". Raiz sh-'-l, perguntar, pedir. Agora no plural, com o -u de plural verdadeiro e acento na última sílaba, ao contrário de va-yishtáchu. A diferença de acento entre as duas palavras, a quatro termos de distância, é toda a gramática da cena: um só se inclina; os dois perguntam.
אִישׁ־לְרֵעֵהוּ — ish-le-re'éhu, "um ao outro", literalmente "um homem ao seu companheiro". É a maneira hebraica de dizer reciprocidade: ish, homem, cada um, e re'a, o próximo, o vizinho, o amigo, com o sufixo "seu". A palavra re'a é a do "próximo" de Levítico 19:18 e a do "amigo" com quem se fala face a face em Êxodo 33:11. A Mekhilta leu ish como título de Moisés; a gramática o lê como pronome distributivo. A mesma dupla volta em Êxodo 18:16, "entre um e outro", com bein ish u-vein re'ehu.
לְשָׁלוֹם — le-shalóm, "pela paz", isto é, "como estavam". A preposição le e shalom, a integridade, o estar inteiro. A fórmula completa, "perguntar pela paz", está analisada no estudo de Gênesis 43:27.
וַיָּבֹאוּ — va-yavó'u, "e entraram". O mesmo verbo b-w-' com que o versículo 5 abriu ("e veio"), agora no plural. Jetro chegou sozinho no verbo; entra acompanhado.
הָאֹהֱלָה — ha-óhela, "para a tenda". Ohel, tenda, com o artigo ha- e o sufixo -ah, que indica direção, "para dentro de". O artigo é o que permite a Ibn Ezra e ao Chizkuni falar em "a tenda conhecida", a de Moisés; o hebraico, porém, usa o artigo também para o que acabou de entrar na cena, e o versículo não acrescenta possessivo.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a duas conclusões. A primeira é sobre a hierarquia do encontro. O texto não nomeia quem se curvou, mas a lógica da frase e a tradição inteira apontam Moisés; e, se foi ele, o chefe do povo diante de quem a corte do Egito se prostraria curvou-se diante do sacerdote de Midiã, numa cena única em toda a Torá. A leitura é dedução e deve ser apresentada como tal; ainda assim, é a dedução mais provável, e ela faz da reverência de Moisés o primeiro gesto do capítulo.
A segunda é sobre o tipo de relação que o versículo descreve. A honra vai num sentido, e a pergunta pela paz vai nos dois: desigualdade de posição, igualdade de conversa. Jetro é chamado de "companheiro" na mesma fórmula que, nove versículos depois, vai nomear os que brigam diante do juiz. E tudo o que o texto mostra é público e masculino: a mulher e os filhos chegam, mas o versículo só acompanha os dois homens até a porta da tenda.













