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Êxodo 18:8

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 23 min de leitura·👁 11 acessos
Moisés contou ao seu sogro tudo o que o SENHOR tinha feito a Faraó e aos egípcios por causa de Israel, todas as dificuldades que os tinham alcançado no caminho, e como o SENHOR os tinha livrado.
Dentro de uma tenda iluminada por uma lamparina, Moisés, sentado no chão sobre um tapete, fala gesticulando, enquanto um homem idoso de turbante o escuta atento, com uma bilha de água entre os dois.

Estudo


Moisés contou ao seu sogro tudo o que o SENHOR tinha feito a Faraó e aos egípcios por causa de Israel, todas as dificuldades que os tinham alcançado no caminho, e como o SENHOR os tinha livrado.

1. Introdução

Dentro da tenda, Moisés conta ao sogro a história da saída do Egito, e o versículo resume o relato em três partes: o que o SENHOR fez a Faraó e aos egípcios, as dificuldades do caminho, e como o SENHOR livrou Israel. Jetro já tinha ouvido falar disso (versículo 1); agora ouve de quem viveu. Moisés não aparece como agente da própria história: o sujeito de tudo é o SENHOR, e as dificuldades são descritas como coisas que "alcançaram" o povo. A palavra usada para elas é rara, e a mesma frase volta mais duas vezes na Bíblia, dirigida a um rei estrangeiro e a Deus. É a primeira vez que o Êxodo mostra a sua própria história sendo contada a alguém de fora.

2. Contexto Histórico e Cultural

O relato de quem chega e de quem recebe

No mundo do deserto, a notícia era um bem que se trocava na chegada. O viajante trazia o que tinha visto pelo caminho; o anfitrião contava o que tinha acontecido em casa. A Bíblia registra a cena várias vezes, quase sempre com o mesmo verbo do relato longo: Jacó, recebido por Labão, "contou a Labão tudo o que havia acontecido" (Gênesis 29:13); os irmãos de José, de volta a Canaã, "contaram-lhe tudo o que lhes havia acontecido" (Gênesis 42:29); o servo de Abraão "contou a Isaque tudo o que havia feito" (Gênesis 24:66). O valor desse verbo, o da narração completa e não do resumo, foi estudado em Gênesis 24:66. Aqui ele vem depois dos gestos de chegada e da pergunta pela paz, na ordem que o costume pedia: primeiro a pessoa, depois a notícia.

O relato tinha também um peso de prova. Jetro tinha ouvido falar, em Midiã, do que acontecera; o que corre de boca em boca entre caravanas chega aumentado ou diminuído. Ouvir agora da boca de Moisés, que esteve lá, era trocar o boato pelo testemunho. Or ha-Chayim (Chayim ibn Attar, comentarista marroquino do século XVIII) chega a supor que Jetro tivesse ouvido uma versão exagerada e que Moisés lhe confirmou que tudo era verdade "até o último detalhe"; ou que Jetro pensasse que Israel continuava, de algum modo, vassalo do Egito.

A história recitada

Israel desenvolveu um gênero próprio de texto: a recitação resumida da sua história, com Deus como sujeito de cada verbo. O exemplo mais conhecido está em Deuteronômio 26:5-8, a fórmula que o israelita devia dizer ao entregar as primícias: "Meu pai era um arameu errante… os egípcios nos maltrataram e nos afligiram… clamamos ao SENHOR… e o SENHOR nos tirou do Egito com mão forte". O mesmo gênero aparece no discurso de Josué em Siquém (Josué 24:2-13), na oração dos levitas em Neemias 9 e em salmos como o 78, o 105 e o 136. O estudioso alemão Gerhard von Rad (1901-1971) chamou essas fórmulas de "pequeno credo histórico" e via nelas o núcleo mais antigo da fé de Israel: crer era, antes de tudo, contar o que Deus tinha feito.

Êxodo 18:8 é, na ordem do livro, a primeira vez que essa história é contada depois de acontecida, e o resumo que o versículo dá tem a forma do gênero: o que Deus fez ao opressor, as aflições do povo, a libertação. Nas recitações posteriores o ouvinte é Israel, ou é Deus. Aqui é um sacerdote estrangeiro.

As dificuldades do caminho, uma por uma

Os comentaristas antigos quiseram saber quais eram as "dificuldades". A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III) distribui as palavras do versículo pelos episódios: "tudo o que o SENHOR fez", a saída do Egito; "as dificuldades", o mar; "no caminho", a guerra contra Amaleque; "e os livrou", de todas elas. O Targum atribuído a Jônatas (tradução aramaica da Torá com muitos acréscimos) dá a lista em ordem de itinerário: o mar de Suf, Mara, Refidim, e Amaleque. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) fala da perseguição no mar, da guerra contra Amaleque, e da sede e da fome; Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, século XII), da perseguição de Faraó e da falta de água e de comida. Todas as listas cabem nos capítulos 14 a 17: o exército no encalço, a água amarga, a fome antes do maná, a sede de Refidim, o ataque. Nenhuma inclui as murmurações do povo.

3. Análise Teológica do Versículo

"Moisés contou ao seu sogro"

Por que contar a Jetro o que ele já sabia? O versículo 1 disse que ele "ouviu tudo o que Deus tinha feito por Moisés e por Israel". A tradição deu quatro respostas.

Primeira resposta: para atraí-lo. A Mekhilta diz que Moisés contou "para atrair o coração dele, para aproximá-lo da Torá", e Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI) repete. Nessa leitura, o relato tem intenção: Moisés escolhe o que contar para levar o ouvinte a uma conclusão, e a conclusão vem três versículos adiante, quando Jetro diz "agora sei".

Segunda resposta: porque Jetro só sabia por alto. O Ellicott's Commentary ("Comentário de Ellicott", obra inglesa do século XIX) e o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) dizem que em Midiã chegara um esboço, e que Moisés deu agora o relato completo. É a explicação mais simples, e a que o verbo do relato longo favorece.

Terceira resposta: para confirmar. Or ha-Chayim supõe que Jetro desconfiasse do que ouvira, porque nenhum escravo jamais tinha escapado do Egito, e que Moisés tenha confirmado tudo. A ideia de que ninguém fugia do Egito está na própria Mekhilta, ao comentar o versículo 11.

Quarta resposta: Moisés contou o que Jetro não podia ter ouvido. Para Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII), a pergunta liga-se à data da visita: se Jetro chegou depois do Sinai, por que Moisés não contou a revelação no monte, o maior de todos os feitos? A ausência do Sinai no relato é um dos argumentos para pôr a visita antes dele.

As quatro respostas não se excluem. O que todas reconhecem é que o versículo 1 e o versículo 8 não dizem a mesma coisa: no primeiro, Jetro ouve; no segundo, Moisés conta. A notícia vira testemunho.

"tudo o que o SENHOR tinha feito a Faraó e aos egípcios por causa de Israel"

O relato começa pelo adversário. Antes de falar do que Israel sofreu, Moisés fala do que Deus fez a Faraó e ao Egito. Sforno (Ovadia Sforno, rabino e médico italiano do século XVI) lê essa primeira parte como o relato da justiça de Deus vingando o seu povo, e a ordem confirma a leitura: a história começa com o opressor julgado.

E o sujeito é o nome próprio, "o SENHOR", duas vezes no versículo, e nunca a palavra comum "Deus". No relato de Moisés, quem agiu tem nome.

"Por causa de Israel" diz o motivo. Os golpes contra o Egito não são apresentados como vitória de Deus sobre os deuses do Egito nem como castigo por pecados egípcios em geral; são ditos em função de Israel. O relato de Moisés é parcial no sentido próprio da palavra: conta a história do ponto de vista de um dos lados, e não esconde isso.

"todas as dificuldades que os tinham alcançado no caminho"

A frase inteira, "todas as dificuldades que [nos] alcançaram", aparece mais duas vezes na Bíblia, e as três ocasiões formam uma série.

Na primeira, aqui, Moisés conta as dificuldades a Jetro, e Jetro se alegra, bendiz o SENHOR e oferece sacrifícios. Na segunda, em Números 20:14, quarenta anos depois, é o mesmo Moisés quem usa a mesma frase, numa mensagem ao rei de Edom: "Assim diz o seu irmão Israel: você sabe todas as dificuldades que nos alcançaram". O rei de Edom responde: "Você não passará pela minha terra" (Números 20:18). A mesma história de sofrimento, contada com as mesmas palavras, encontra um estrangeiro que acolhe e outro que fecha a porta. Na terceira, em Neemias 9:32, séculos depois, os levitas a dirigem a Deus, em oração: "não pareça pouco diante de ti todas as dificuldades que nos alcançaram, a nós, aos nossos reis, aos nossos príncipes… desde os dias dos reis da Assíria até hoje". A frase que nasceu num relato de família virou fórmula de Israel para resumir a própria dor diante do outro, fosse o outro um parente, um rei ou Deus.

Repare no verbo. As dificuldades "alcançaram" o povo, literalmente "o encontraram". O sujeito da frase são as dificuldades, não Israel. O relato não diz que Israel errou o caminho, nem que se meteu em perigo; diz que o perigo veio até ele. A mesma construção aparece quando Judá teme "a desgraça que sobreviria ao meu pai" (Gênesis 44:34) e quando Deus avisa, em Deuteronômio 31:17, que "muitos males e angústias" alcançarão o povo infiel. No vocabulário hebraico, a desgraça anda e encontra as pessoas.

E repare no que o resumo não traz. Os capítulos 15 a 17 estão cheios de murmurações: "Que beberemos?" (Êxodo 15:24), a saudade das panelas de carne (Êxodo 16:3), a briga em Refidim e a pergunta "Está o SENHOR no meio de nós, ou não?" (Êxodo 17:7). O versículo fala das dificuldades que alcançaram o povo, não das queixas do povo. Pode ser só o efeito de um resumo, e o texto não diz o que Moisés deixou de fora. Mas, na forma em que o relato chegou até nós, Israel aparece diante do estrangeiro como vítima de dificuldades, e não como povo que reclamou delas. Moisés, que tinha ouvido as queixas de perto, não as leva para a conversa com o sogro.

"e como o SENHOR os tinha livrado"

O relato termina como começou, com o SENHOR por sujeito. Entre as duas pontas, nenhuma ação de Moisés. O homem que estendeu o cajado sobre o mar, que feriu a rocha e que manteve as mãos levantadas contra Amaleque não aparece no relato que ele mesmo faz. O resumo do versículo pode estar comprimindo uma fala longa em que Moisés se incluía; o que se pode afirmar é que o texto, ao resumir, deixou só Deus como agente.

A Septuaginta (a tradução grega feita entre os séculos III e II antes de Cristo) completa a frase: "e que o Senhor os livrou da mão de Faraó e da mão dos egípcios". É o eco antecipado do versículo 10, em que Jetro usará essas palavras. A fórmula "livrar da mão de", com a sua história no livro, está no estudo de Êxodo 2:19.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés, quem conta

O versículo resume numa frase o que deve ter sido uma conversa longa. Moisés voltará a contar a mesma história, de modo muito mais extenso e para o povo inteiro, nos primeiros capítulos do Deuteronômio.

Jetro, o ouvinte

Ouve calado. O texto não registra perguntas dele durante o relato. A reação vem toda depois, nos versículos 9 a 11.

Faraó e os egípcios

Aparecem no relato como os que sofreram a ação do SENHOR. Faraó volta a ser nomeado no capítulo só na bênção de Jetro, no versículo 10.

Israel

O motivo de tudo ("por causa de Israel") e o objeto das dificuldades e da libertação. No relato, Israel não faz nada: é alcançado pelas dificuldades e livrado pelo SENHOR.

O caminho

O trecho entre o mar e o lugar do encontro. Pelo que o livro contou: a travessia do mar (Êxodo 14), as águas amargas de Mara (Êxodo 15:22-26), o oásis de Elim (Êxodo 15:27), a fome no deserto de Sim e o maná (Êxodo 16), a sede e a guerra em Refidim (Êxodo 17). O versículo chama tudo isso de "o caminho", com artigo, como um único lugar.

5. Pontos de Ensino

1. A notícia vira testemunho. Jetro já sabia da saída do Egito, e mesmo assim é o relato de Moisés que o leva à bênção. O que corre de boca em boca informa; o que conta quem esteve lá convence.

2. Quem conta pode sair da própria história. No resumo que o texto dá, Moisés não se põe como agente de nada. O SENHOR fez, o SENHOR livrou. O homem que esteve no centro de tudo conta a história com outro no centro.

3. Contar as dificuldades faz parte do testemunho. O relato não é só de vitórias. As dificuldades do caminho entram inteiras ("todas"), entre o que Deus fez ao Egito e a libertação. A história que Israel conta de si mesma não esconde o sofrimento.

4. A mesma história pode encontrar ouvidos diferentes. Com as mesmas palavras, Moisés conta as dificuldades a Jetro, que se alegra, e ao rei de Edom, que fecha a fronteira. O testemunho não controla a resposta de quem ouve.

5. Há o que um relato escolhe não dizer. As murmurações do povo, tão presentes nos capítulos anteriores, não aparecem no resumo. Todo relato seleciona, e reconhecer isso faz parte de ler qualquer história contada, inclusive a da Bíblia.

6. Aspectos Filosóficos

Para que serve contar o passado?

Moisés passa uma conversa inteira contando ao sogro o que aconteceu: o Egito, o mar, a fome, a sede, a guerra. Nada disso tem utilidade prática imediata. Jetro não vai atravessar o mar nem lutar contra Amaleque. O versículo levanta uma pergunta que a filosofia fez muitas vezes: o que um povo ganha ao narrar a própria história, inclusive as dificuldades? E o que é verdadeiro numa história religiosa contada assim?

George Santayana: retenção, piedade e poesia

George Santayana (1863-1952), filósofo nascido em Madri e criado nos Estados Unidos, professor em Harvard, escreveu entre 1905 e 1906 os cinco volumes de The Life of Reason ("A vida da razão"). No primeiro, Reason in Common Sense ("A razão no senso comum"), está a frase mais citada dele, quase sempre fora de contexto: "Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo". O contexto é uma tese sobre o progresso. "O progresso, longe de consistir em mudança, depende da retenção." Quando nada se guarda da experiência, nada se acumula, e cada geração recomeça do zero. Para Santayana, lembrar não é saudosismo: é a condição para que haja direção.

No terceiro volume, Reason in Religion ("A razão na religião"), ele dedica um capítulo à piedade e a define assim: "a piedade, no seu sentido mais nobre e romano, pode ser dita a ligação reverente do homem às fontes do seu ser, e a firmeza que essa ligação dá à sua vida". Piedade, nesse sentido, é a gratidão consciente àquilo de onde se veio: os pais, a pátria, a tradição. E o que dá forma a essa ligação são as histórias.

Mas Santayana tinha uma posição clara sobre a verdade dessas histórias. Em Interpretations of Poetry and Religion ("Interpretações de poesia e religião", 1900), escreveu que "religião e poesia são idênticas na essência, e diferem apenas no modo como se ligam aos assuntos práticos": a poesia se chama religião quando intervém na vida. Para ele, o valor de uma narrativa religiosa está no que ela faz com quem a recebe, não em ter acontecido.

O que essa leitura ilumina no versículo

O relato de Moisés é um ato de retenção no sentido de Santayana. Poucas semanas ou meses depois dos fatos, ele já os organiza: o que Deus fez ao opressor, o que o povo sofreu, como foi libertado. E inclui as dificuldades. Uma memória que guardasse só as vitórias não daria direção nenhuma; a que guarda o caminho inteiro, com a fome e a sede, permite reconhecer o padrão. A própria Torá diz o mesmo de outro modo: a ordem de "que você conte aos ouvidos do seu filho" (Êxodo 10:2) usa o mesmo verbo deste versículo.

E o relato é também piedade, na definição de Santayana. Moisés liga Israel às fontes do seu ser, e a fonte que ele nomeia não é ele mesmo nem os antepassados: é o SENHOR, sujeito de cada verbo. A piedade de Santayana olhava para trás, para as origens humanas; a de Moisés olha para trás e encontra Deus agindo.

Onde a aproximação para

Aqui está o ponto em que o texto e o filósofo se separam. Para Santayana, a história religiosa vale como poesia que ordena a vida, e a pergunta "isto aconteceu?" é secundária. O Êxodo não pensa assim. O relato de Moisés é apresentado como testemunho de fatos, e a reação de Jetro, três versículos adiante, é de conhecimento: "agora sei". Jetro não diz que a história o comoveu ou que lhe deu uma direção; diz que agora sabe uma coisa sobre o SENHOR que antes não sabia. Santayana explica bem por que contar faz bem a quem conta; não explica o que o versículo pretende, que é transmitir a quem ouve uma verdade sobre Deus.

7. Aplicações Práticas

Contar a própria história com outro no centro

Moisés tinha motivos para contar uma história em que ele fosse o herói: enfrentou Faraó, estendeu o cajado, sustentou o povo. O resumo que o versículo dá põe o SENHOR como sujeito de tudo. Quem conta a outros as fases difíceis da vida, numa família, numa comunidade, num testemunho de fé, encontra aqui um critério: dizer o que aconteceu sem se pôr no lugar de quem fez acontecer.

Não esconder as dificuldades

O relato inclui "todas as dificuldades". Há uma tentação, comum em histórias de fé, de contar só a libertação e pular o caminho. O versículo faz o contrário: as dificuldades estão no meio, entre o que Deus fez e o livramento, e são parte do que se conta.

Contar com a família de perto

O primeiro ouvinte da história de Israel depois do mar não é um sacerdote israelita nem um ancião: é o sogro de Moisés. Muitas vezes o primeiro lugar em que alguém consegue contar o que viveu é a conversa em casa, com um parente que chegou de longe e pergunta como foi. O versículo dá valor a essa conversa.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Moisés contou também a sua própria parte?

O texto não diz. O que temos é um resumo, e um resumo seleciona. É possível que a conversa real tenha incluído o cajado, as mãos levantadas, as discussões com Faraó, e que o texto, ao resumir, tenha deixado só Deus como agente. O que se pode afirmar é que a forma que chegou até nós é teocêntrica, e que essa forma é coerente com o resto do livro, que atribui ao SENHOR cada uma das pragas e a abertura do mar.

Por que um sacerdote estrangeiro é o primeiro a ouvir a história?

Na ordem do livro, Jetro é o primeiro ouvinte de fora, mas não o primeiro a saber: os povos "ouviram e tremeram" (Êxodo 15:14), e o próprio Jetro tinha ouvido em Midiã. A diferença é que aqui alguém de fora ouve o relato de dentro, contado por quem viveu. A Mekhilta lê nisso uma estratégia, atrair o coração de Jetro. Sem precisar de intenção, o efeito é o mesmo: o primeiro estrangeiro a ouvir a história contada por Israel é o primeiro estrangeiro do livro a bendizer o SENHOR.

A palavra "dificuldades" é forte ou fraca?

Mais forte do que parece em português. Ibn Ezra a define como "uma aflição que a pessoa não consegue suportar nem pôr em palavras", e liga a raiz à de Êxodo 7:18, em que os egípcios "não conseguirão beber" a água do Nilo. A Septuaginta traduz por "fadiga", "trabalho penoso". É o cansaço de quem chegou ao limite, e não um simples contratempo. A tradução "dificuldades", da ABC, fica no meio-termo: abrange a fome, a sede e o ataque, sem dramatizar.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma frase, outros ouvintes

Números 20:14 — "De Cades, Moisés enviou mensageiros ao rei de Edom: 'Assim diz o seu irmão Israel: você sabe todas as dificuldades que nos alcançaram.'"

Números 20:18 — "Mas Edom lhe respondeu: 'Você não passará pela minha terra; senão, sairei ao seu encontro com a espada.'"

A mesma frase de Êxodo 18:8, na boca do mesmo Moisés, dirigida a outro povo do deserto. Jetro acolhe; Edom recusa.

Neemias 9:32 — "Agora, ó nosso Deus, Deus grande, poderoso e temível, que guardas a aliança e a misericórdia, não pareça pouco diante de ti todas as dificuldades que nos alcançaram, a nós, aos nossos reis, aos nossos príncipes, aos nossos sacerdotes, aos nossos profetas, aos nossos pais e a todo o teu povo, desde os dias dos reis da Assíria até hoje."

A terceira ocorrência da fórmula, agora em oração. A história de dificuldades, que Moisés contou a um parente e a um rei, é posta diante de Deus.

Lamentações 3:5 — "Edificou contra mim, cercou-me de amargura e de dificuldade."

A única vez em que a palavra aparece fora da fórmula.

Chegar e contar

Gênesis 29:13 — "Assim que Labão ouviu as notícias de Jacó, filho de sua irmã, correu ao seu encontro, abraçou-o, beijou-o e o levou à sua casa. E Jacó contou a Labão tudo o que havia acontecido."

O genro que conta tudo ao sogro logo depois do beijo de chegada.

Êxodo 10:2 — "e para que você conte aos ouvidos do seu filho e do filho do seu filho como zombei do Egito, e os meus sinais que pus entre eles; e vocês saberão que eu sou o SENHOR."

A ordem de contar, com o mesmo verbo. O destinatário previsto era o filho; o primeiro a ouvir foi o sogro. E o resultado previsto, "vocês saberão que eu sou o SENHOR", é o que Jetro dirá em Êxodo 18:11.

A história recitada

Deuteronômio 26:7-8 — "Então clamamos ao SENHOR, o Deus de nossos pais, e o SENHOR ouviu a nossa voz e viu a nossa aflição, o nosso trabalho e a nossa opressão; e o SENHOR nos tirou do Egito com mão forte e braço estendido, com grande espanto, com sinais e com maravilhas."

A forma litúrgica do mesmo resumo: o sofrimento, o SENHOR que age, a libertação.

Salmo 105:1-2 — "Deem graças ao SENHOR, invoquem o seu nome, façam conhecidos entre os povos os seus feitos. Cantem-lhe, cantem-lhe louvores; falem de todas as suas maravilhas."

O que Moisés faz na tenda, o salmo transforma em mandamento: contar os feitos de Deus aos povos.

O livramento

Êxodo 3:8 — "Por isso desci para livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e ampla, a uma terra que mana leite e mel."

A promessa na sarça. Êxodo 18:8 é o relato de que ela se cumpriu, pelo menos na sua primeira metade.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Moisés contou ao seu sogro tudo o que o SENHOR tinha feito a Faraó e aos egípcios por causa de Israel, todas as dificuldades que os tinham alcançado no caminho, e como o SENHOR os tinha livrado.

Texto hebraico

וַיְסַפֵּר מֹשֶׁה לְחֹתְנוֹ אֵת כָּל־אֲשֶׁר עָשָׂה יְהוָה לְפַרְעֹה וּלְמִצְרַיִם עַל אוֹדֹת יִשְׂרָאֵל אֵת כָּל־הַתְּלָאָה אֲשֶׁר מְצָאָתַם בַּדֶּרֶךְ וַיַּצִּלֵם יְהוָה׃

Transliteração

va-yesappér Moshé le-chotnó et kol-ashér asáh YHWH le-Far'óh u-le-Mitsráyim al odót Yisra'él, et kol-ha-tela'áh ashér metsa'átam ba-dérekh, va-yatsilém YHWH.

Análise palavra por palavra

וַיְסַפֵּר — va-yesappér, "e contou". Raiz s-p-r, contar, no Piel, a forma intensiva do verbo hebraico, que dá ao verbo o sentido de narrar por extenso. Da mesma raiz vêm sefer, livro, e mispar, número: contar histórias e contar quantidades são, no hebraico, a mesma operação de pôr as coisas em ordem. É o verbo de Êxodo 10:2, "para que você conte aos ouvidos do seu filho".

מֹשֶׁה לְחֹתְנוֹ — Moshé le-chotnó, "Moisés ao seu sogro". A preposição le, "a, para", marca o ouvinte.

אֵת כָּל־אֲשֶׁר עָשָׂה יְהוָה — et kol-ashér asáh YHWH, "tudo o que o SENHOR tinha feito". Et marca o objeto direto; kol, "tudo"; asher, "que"; asah, "fez", da raiz '-s-h, no perfeito. O português usa o mais-que-perfeito, "tinha feito", porque a ação é anterior ao relato. O sujeito é o nome próprio de Deus, as quatro consoantes que a ABC traduz por "o SENHOR".

לְפַרְעֹה וּלְמִצְרַיִם — le-Far'óh u-le-Mitsráyim, "a Faraó e ao Egito". A mesma preposição le, agora no sentido de "contra", "a respeito de". Mitsrayim é o nome do país, e serve também para o povo; a ABC escolheu "aos egípcios". A Septuaginta escreve "a Faraó e a todos os egípcios".

עַל אוֹדֹת יִשְׂרָאֵל — al odót Yisra'él, "por causa de Israel". Locução rara, formada pela preposição al, "sobre", e um substantivo plural que quer dizer "causas", "circunstâncias". Aparece só umas dez vezes na Bíblia hebraica. Diz o motivo, e não o beneficiário: não "para Israel", mas "por causa de Israel".

אֵת כָּל־הַתְּלָאָה — et kol-ha-tela'áh, "todas as dificuldades", literalmente "toda a dificuldade", no singular coletivo. Tela'ah é substantivo formado com um t inicial sobre a raiz l-'-h, cansar-se, não aguentar mais, a mesma de Êxodo 7:18, em que os egípcios "não conseguirão" beber a água do Nilo. Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI) explica a formação comparando-a com terumah e tenufah, outros substantivos feitos do mesmo jeito. A palavra aparece quatro vezes na Bíblia: aqui, em Números 20:14, em Neemias 9:32 e em Lamentações 3:5; e Malaquias 1:13 traz a forma vizinha "que cansaço!". A Septuaginta traduz por móchthos, "fadiga", "labuta".

אֲשֶׁר מְצָאָתַם — ashér metsa'átam, "que os tinha alcançado", literalmente "que os encontrou". Raiz m-ts-', achar, encontrar, no perfeito da terceira pessoa do feminino singular, concordando com tela'ah, e o sufixo -am, "os", da terceira pessoa do plural. A dificuldade é o sujeito gramatical: ela encontra o povo. Em Números 20:14 e Neemias 9:32 o sufixo muda para -nu, "nos", porque quem fala é o próprio povo.

בַּדֶּרֶךְ — ba-dérekh, "no caminho". Derekh, caminho, estrada, com a preposição be e o artigo. Com artigo, "o caminho" é o percurso conhecido de quem ouve, o trecho entre o Egito e o monte.

וַיַּצִּלֵם יְהוָה — va-yatsilém YHWH, "e o SENHOR os livrou". Raiz n-ts-l, no Hiphil, a forma causativa do verbo hebraico, com o sufixo "os". O n da raiz desaparece e deixa a consoante seguinte dobrada. O sentido da raiz e a fórmula "livrar da mão de", que atravessa o livro, estão no estudo de Êxodo 2:19. O versículo termina com o nome de Deus, como o versículo 1 terminou com "o SENHOR tinha tirado Israel do Egito".

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões. A primeira é que o relato de Moisés não repete a notícia que Jetro já tinha: transforma-a em testemunho. Jetro ouvira falar; agora ouve de quem viveu, e é desse segundo ouvir que vem a sua reação nos versículos seguintes.

A segunda é que a história, na forma em que o texto a resume, tem um único agente. O SENHOR fez, o SENHOR livrou; as dificuldades vieram ao encontro do povo; Moisés não aparece no que ele mesmo conta, e as murmurações também não. É uma história escolhida e ordenada, e a ordem é a das recitações que Israel faria dali em diante.

A terceira é que a frase das dificuldades ganhou vida própria. Moisés a usou com o sogro e, anos depois, com o rei de Edom; os levitas a usaram com Deus. As mesmas palavras encontraram acolhida, recusa e oração. O versículo mostra o momento em que Israel começa a contar a própria história a quem é de fora, sem garantia de como ela será recebida.

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