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Êxodo 18:9

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 15 acessos
Jetro alegrou-se por todo o bem que o SENHOR tinha feito a Israel, livrando-o da mão dos egípcios.
Dentro de uma tenda de pele de cabra, à luz de uma lamparina, um homem idoso de barba grisalha e manto de sacerdote do deserto leva a mão ao peito, com o rosto entre o espanto e a alegria, enquanto Moisés, sentado à sua frente, termina de lhe contar a travessia do deserto.

Estudo


Jetro alegrou-se por todo o bem que o SENHOR tinha feito a Israel, livrando-o da mão dos egípcios.

1. Introdução

Moisés acabou de contar ao sogro tudo o que tinha acontecido desde o Egito, e Jetro reage antes de dizer qualquer palavra. O verbo que descreve essa reação é raríssimo em hebraico e comum em aramaico, e os leitores antigos o entenderam de três maneiras: alegria, espanto ou um arrepio de mal-estar. O objeto da reação também foi escolhido com cuidado: Jetro se alegra pelo bem feito a Israel, e não pelo mal que caiu sobre o Egito, embora o relato de Moisés tivesse as duas coisas. É a primeira vez, no livro do Êxodo, que alguém se alegra com o que Deus fez — e quem se alegra não é israelita.

2. Contexto Histórico e Cultural

Quando um aliado recebia a notícia de uma vitória ou de uma libertação, havia uma resposta esperada. A Bíblia guarda o roteiro em dois reis estrangeiros. Toí, rei de Hamate, ao saber que Davi tinha derrotado Hadadezer, manda o próprio filho "para saudá-lo e para felicitá-lo" — ao pé da letra, "para lhe perguntar pela paz e para o abençoar" —, porque Hadadezer era inimigo dos dois (2 Samuel 8:10). E Hirão, rei de Tiro, ao ouvir as palavras de Salomão, "alegrou-se muito" e em seguida disse "Bendito seja hoje o SENHOR" (1 Reis 5:7). A sequência é a mesma de Êxodo 18: ouvir, alegrar-se, bendizer.

Fora da Bíblia, a correspondência diplomática do século XIV antes de Cristo achada em Amarna, no Egito, tem cartas desse gênero: o rei de Alásia (Chipre), por exemplo, escreve ao faraó dizendo que soube que ele se sentou no trono do pai, deseja-lhe bem e manda cobre de presente (carta EA 33). A alegria do aliado era um ato social, com forma conhecida. Jetro, sogro e chefe de outro povo, faz o que se esperava de um parente e aliado — e o texto registra a reação com um verbo que não se esperava.

Há um segundo pano de fundo, que pesa na leitura. Midiã não era um povo indiferente ao Egito. As caravanas midianitas desciam para o Egito com mercadoria — são midianitas os que vendem José lá (Gênesis 37:28, 36). Para um sacerdote de Midiã, a ruína do exército egípcio não era notícia de um mundo distante: era o desabamento de uma das potências com que o seu povo negociava. É esse dado que torna razoável uma das leituras antigas do verbo, a de que Jetro sentiu mal-estar com a queda do Egito (item 3). O que se sabe de Midiã — localização, economia, as hipóteses sobre a sua religião — está reunido no estudo de Gênesis 25:2.

E havia, no próprio Israel antigo, uma reserva contra a alegria pela ruína alheia. Jó, ao jurar a própria inocência, põe na lista das faltas que não cometeu: "se me alegrei com a desgraça de quem me odiava, ou exultei quando o mal o atingiu" (Jó 31:29). O profeta Obadias acusa Edom justamente de ter se alegrado no dia da ruína de Judá (Obadias 1:12). Esse tipo de alegria era assunto moral conhecido. O versículo de Jetro evita o problema de um modo simples: diz de que ele se alegrou, e o que diz é "o bem".

O último dado de contexto é posterior, e explica por que a tradição judaica leu o verso com tanta atenção. O Talmude Babilônico (Sanhedrin 94a) põe na boca de Rav, mestre da Babilônia no século III, um provérbio que, segundo ele, "as pessoas dizem": diante de um convertido, até a décima geração, não se fala mal de um arameu — isto é, de um não judeu. As comunidades judaicas da Babilônia conviviam com prosélitos e com as famílias deles, e o provérbio registra uma experiência: quem veio de fora continua, por muitas gerações, sentindo como sua a dor do povo de onde veio. O verso de Jetro foi o texto em que essa experiência encontrou apoio (item 3).

3. Análise Teológica do Versículo

"Jetro alegrou-se"

Até aqui, ninguém se alegrou no livro do Êxodo. A palavra apareceu uma vez, como previsão: Arão, quando visse o irmão, "se alegrará no coração" (Êxodo 4:14). Depois disso o texto registra muita coisa — o grito sob a escravidão, o medo diante do mar, a fé depois dele (Êxodo 14:31), o canto (Êxodo 15:1), a murmuração no deserto —, mas não registra alegria. O cântico do mar é alegre no conteúdo, e seria exagero dizer que Israel não se alegrou. O que se pode dizer é que o primeiro sujeito do verbo "alegrar-se", no livro, é um sacerdote de Midiã.

E o verbo não é o comum. O hebraico tinha uma palavra corrente para alegria, a mesma do coração de Arão em Êxodo 4:14. Aqui aparece outra, rara na Bíblia hebraica e frequente em aramaico, a língua vizinha (item 10). Or ha-Chaim (“A luz da vida”, comentário de Chaim ibn Attar, rabino marroquino do século XVIII) fez a pergunta direta: por que a Torá usa, justamente aqui, uma palavra com som de aramaico? Uma resposta possível é que o texto dá ao estrangeiro uma palavra estrangeira. É uma hipótese plausível, mas não demonstrável: não há outro caso no Êxodo em que se possa ver esse procedimento com segurança.

O que é certo é que a raridade da palavra abriu espaço para leituras diferentes do que Jetro sentiu. Elas são três.

Primeira leitura: alegria, sem mais. É a de Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII), de Rashbam (Rabi Shmuel ben Meir, neto de Rashi, França, século XII), da tradução aramaica de Ônquelos e da Vulgata latina. Jetro se alegrou; o verbo raro tem o mesmo sentido do comum. Rashi (Rabi Shlomo Yitzchaki, o comentarista francês do século XI) também começa por aí: "este é o sentido literal".

Segunda leitura: arrepio de mal-estar. O Talmude Babilônico (Sanhedrin 94a) registra uma discussão entre Rav e Shmuel sobre esta palavra. Rav diz que Jetro "passou uma faca afiada sobre a carne" — isto é, circuncidou-se, tornou-se israelita. Shmuel diz que Jetro sentiu "como cortes por toda a carne": um arrepio, a pele eriçada de desconforto, por causa da destruição do Egito. As duas leituras jogam com o som da palavra, que lembra "afiado" em hebraico. Rashi transmite a de Shmuel como leitura dos mestres — "a carne dele ficou cheia de espinhos; ele se afligiu com a destruição do Egito" — e a fecha com o provérbio do convertido que não suporta ouvir falar mal do povo de onde veio (item 2).

A leitura de Shmuel tem uma base no texto, e ela é a seleção que o versículo faz. Moisés contou, no versículo anterior, "tudo o que o SENHOR tinha feito a Faraó e aos egípcios", "todas as dificuldades" e o livramento (Êxodo 18:8). Jetro se alegra "por todo o bem". Faraó e os egípcios saíram da frase. Os mestres leram nesse corte um silêncio: Jetro escolheu do que se alegrar porque não podia se alegrar com o resto.

Dois comentaristas posteriores juntaram as duas leituras numa só. Para o Kli Yakar (“O vaso precioso”, comentário de Shlomo Efraim de Luntschitz, rabino de Praga, início do século XVII), a palavra foi escolhida porque contém ao mesmo tempo a alegria e o "afiado": Jetro se alegrou pelo bem de Israel, e a carne dele doeu pela ruína do Egito. Malbim (Meir Leibush Weisser, rabino e comentarista do século XIX) diz algo parecido em outra chave: esta palavra designa uma alegria de dentro, que vence uma tristeza de fora. E cita Neemias 8:10, onde o povo que chora ao ouvir a lei é mandado parar de chorar, "porque a alegria do SENHOR é a força de vocês" — a mesma palavra para a alegria, num momento de lágrimas.

Terceira leitura: espanto. A Septuaginta, a tradução grega feita em Alexandria no século III antes de Cristo, não diz que Jetro se alegrou. Diz que ele "ficou fora de si", que se espantou (item 10). Or ha-Chaim propõe uma variante: alegria tão forte que vira reação do corpo, como a de Jacó, cujo coração "parou" quando lhe disseram que José estava vivo (Gênesis 45:26). Nessa leitura, o "arrepio" dos mestres não é desconforto, é excesso de alegria.

Não é possível decidir entre as três. O hebraico permite a primeira com tranquilidade; a segunda depende de um jogo de som que o texto não sublinha; a terceira é a escolha de um tradutor antigo. O que as três têm em comum é que nenhuma lê a reação de Jetro como neutra ou protocolar.

"por todo o bem que o SENHOR tinha feito a Israel"

O objeto da alegria é o bem, e o bem fica sem nome. O versículo não diz qual. A Mekhilta de Rabi Ishmael (a coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III), no tratado Amaleque, seção 3, preencheu o vazio de três modos, todos tirados da insistência da frase — "bem", "o bem", "todo o bem", "por todo o bem". Rabi Yehoshua diz que é o maná, no qual Israel sentia o gosto do pão, da carne, do peixe e de todas as iguarias do mundo. Rabi Elazar de Modiin diz que é o poço, no qual sentiam o gosto do vinho velho, do vinho novo, do leite e do mel. Rabi Eliezer diz que é o bem por vir: a terra de Israel, o mundo futuro, o mundo novo, o reino da casa de Davi, o sacerdócio e o serviço dos levitas — seis bens, contados a partir das palavras repetidas.

O Targum que leva o nome de Jônatas (outra tradução aramaica antiga, mais livre que a de Ônquelos) põe dentro do próprio versículo o maná e o poço. Rashi acrescenta a Torá. O Haamek Davar (“Aprofundar a palavra”, comentário de Naftali Tzvi Yehuda Berlin, o Netziv, lituano do século XIX) separa as coisas: as nuvens, o maná e o poço foram grandezas do momento; a saída do Egito é um bem permanente, que pesa contra todos os outros. As listas mudam conforme o leitor. O texto deixou o bem em aberto, e quem o lê completa com os capítulos 14 a 17.

Sforno (Ovadia Sforno, comentarista italiano do século XVI) faz uma observação que vai contra a expectativa. Para ele, Jetro deveria ter se alegrado também com a destruição do Egito, se estivesse preocupado só com a honra de Deus — e cita o Salmo 58:10, "o justo se alegrará quando vir a vingança". Jetro não fez isso. Alegrou-se com o bem dos oprimidos, "como quem tem o coração tocado pelas lágrimas dos oprimidos". Sforno não critica Jetro: descreve-o como alguém cuja alegria nasce da compaixão, e não da vitória.

E o genro saiu da frase. O primeiro versículo do capítulo falava do que Deus fez "por Moisés e por Israel" (Êxodo 18:1); aqui o bem foi feito só "a Israel", e a alegria do sogro se volta para um povo que não é o dele.

"livrando-o da mão dos egípcios"

No hebraico, o pronome está no singular: Deus "o livrou". Israel, o povo inteiro, é tratado como uma pessoa só, que estava presa numa mão e foi solta.

A frase pode ser lida de duas formas. Na primeira, ela explica o que era o bem: o bem é o livramento. Na segunda, é o último item de uma lista, e o mais importante — Rashi a lê assim: Jetro se alegrou com o maná, o poço e a Torá, e "acima de tudo" com a saída do Egito. Os dois modos de ler são compatíveis com o hebraico.

Por que o livramento pesaria mais que todo o resto? A Mekhilta, no versículo seguinte, responde com um dado do mundo antigo: nenhum escravo jamais tinha conseguido fugir do Egito, uma terra fechada por todos os lados, e agora tinham saído seiscentos mil. O que causa a reação de Jetro, nessa leitura, é o tamanho do impossível. A fórmula "livrar da mão de", que liga este capítulo à primeira estada de Moisés em Midiã, tem o seu dono no estudo de Êxodo 2:19.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jetro

Sacerdote de Midiã e sogro de Moisés, que acolheu o fugitivo do Egito, deu-lhe a filha Zípora em casamento e era o dono do rebanho que Moisés apascentava quando viu a sarça (Êxodo 3:1). No capítulo 18 ele vem ao acampamento no deserto trazendo a filha e os dois netos, ouve o relato e reage. Neste versículo ele é só o sujeito de um verbo: o texto não lhe dá ainda nenhuma fala.

Israel

O povo que saiu do Egito, aqui no singular, como uma pessoa: o "o" de "livrando-o" é Israel inteiro. É o destinatário do bem que provoca a reação de Jetro.

Os egípcios

Aparecem só como a "mão" de onde Israel foi tirado. O versículo não fala do que aconteceu a eles; o anterior falava (Êxodo 18:8).

Os acontecimentos por trás de "todo o bem"

O versículo não os nomeia, mas o relato de Moisés acabou de percorrê-los: a travessia do mar (Êxodo 14), a água amarga que ficou doce em Mara e as doze fontes de Elim (Êxodo 15:22-27), o maná e as codornizes (Êxodo 16), a água da rocha em Refidim (Êxodo 17:1-7) e a vitória sobre Amaleque (Êxodo 17:8-16). São esses os fatos que os mestres da Mekhilta e os tradutores aramaicos puseram dentro da palavra "bem".

Rav e Shmuel

Os dois mestres que discutem o verbo deste versículo no Talmude Babilônico. Rav (Abba Arikha, morto por volta de 247) estudou na terra de Israel e voltou à Babilônia, onde fundou a academia de Sura. Shmuel (morto por volta de 254) dirigia a academia de Neardeia e era também astrônomo e médico. As discussões entre os dois são das mais numerosas do Talmude, e na maioria delas a decisão segue Rav em questões rituais e Shmuel em questões de direito civil.

Os mestres da Mekhilta

Rabi Yehoshua ben Chananiah, Rabi Elazar de Modiin e Rabi Eliezer ben Hircano, sábios da terra de Israel do fim do século I e começo do século II. São eles que discutem, na Mekhilta, qual era o "bem" de que Jetro se alegrou. Rabi Elazar de Modiin, segundo a tradição judaica, estava na fortaleza de Betar durante a revolta de Bar Kochba contra Roma, e morreu lá.

5. Pontos de Ensino

1. A primeira alegria do livro é de um estrangeiro. Israel teme, crê, canta e murmura entre os capítulos 14 e 17, mas o verbo "alegrar-se" só aparece agora, com um midianita por sujeito. O Êxodo não comenta o fato. Ele fica à vista de quem lê o livro em sequência.

2. O que se celebra é escolhido. O relato de Moisés tinha a ruína de Faraó e o livramento de Israel. O versículo registra a alegria só pelo segundo. Celebrar uma libertação não exige celebrar o sofrimento de quem oprimia, e o texto mostra a diferença numa troca de palavras: de "tudo o que fez a Faraó" para "todo o bem que fez a Israel".

3. Uma palavra rara pede leitura modesta. Alegria, espanto ou arrepio: as três leituras têm defensores sérios, e nenhuma se impõe. Quem ensina o versículo pode apresentar as três sem escolher, e dizer por que não escolhe.

4. Sentir a queda de um mundo ligado ao seu não é falta de fé. Os mestres do Talmude atribuíram a Jetro um desconforto pela destruição do Egito, e não o condenaram por isso. Um deles transformou a observação num provérbio sobre convertidos. A ambivalência entra na tradição como dado humano, não como pecado.

5. O bem fica sem nome, e cada geração o preenche. Maná, poço, terra, Torá, a saída do Egito: as listas mudaram conforme o leitor. O versículo sustenta todas porque não fecha nenhuma, e é honesto dizer isso.

6. A reação vem antes da palavra. Neste bloco de quatro versículos, Jetro primeiro sente (versículo 9), depois fala (versículo 10), depois afirma o que sabe (versículo 11) e por fim age no culto (versículo 12). O texto não chama a sequência de conversão, e seria ir além dele fazê-lo; mas a ordem está ali.

6. Aspectos Filosóficos

É possível alegrar-se de verdade com o bem de quem não é seu, ou toda alegria desse tipo é interesse disfarçado? O versículo põe a pergunta numa cena concreta. Jetro se alegra pelo que aconteceu a um povo que não é o dele, e o texto tira até o genro da frase: o bem foi feito "a Israel".

Francis Hutcheson (1694-1746), filósofo nascido na Irlanda e professor de filosofia moral em Glasgow, dedicou a obra a essa pergunta. A Investigação sobre a origem das nossas ideias de beleza e virtude (1725) foi escrita contra quem reduzia toda benevolência ao amor-próprio — o alvo declarado era Bernard Mandeville e a sua Fábula das abelhas, para quem as virtudes eram vícios bem administrados. O argumento central de Hutcheson é simples: nós nos comovemos com atos generosos de gente de países distantes ou de séculos passados, dos quais não podemos tirar nenhuma vantagem. Se a aprovação nascesse do interesse, ela não alcançaria o que não nos toca. Alcança. Logo, há em nós uma disposição natural para o bem alheio, que Hutcheson chamou de senso moral.

No Ensaio sobre a natureza e a conduta das paixões e afetos (1728), ele separa esse senso em várias faculdades. Uma delas é o "senso público": a nossa disposição de nos alegrarmos com a felicidade dos outros e de nos afligirmos com a miséria deles. É nessa mesma linha de pensamento que aparece, na Investigação, a fórmula que depois os utilitaristas tornaram famosa — a melhor ação é a que produz "a maior felicidade para o maior número".

Lido com Hutcheson, o versículo é quase um caso de manual, com uma objeção à vista. A objeção é que Jetro tinha interesse: a filha e os dois netos acabavam de chegar ao acampamento (Êxodo 18:2-6), e a sorte deles agora era a de Israel. Um leitor à maneira de Mandeville diria que o sogro se alegrou com a segurança da própria família. Hutcheson responderia que interesse pode existir sem ser a causa, e que a prova está no objeto da alegria. O versículo não diz que Jetro se alegrou pela filha, nem pelo genro. Diz que se alegrou pelo bem feito a Israel.

A segunda parte da definição de Hutcheson ilumina a leitura dos mestres. O senso público tem duas faces: prazer com a felicidade alheia e aflição com a miséria alheia. A leitura de Shmuel, no Talmude, atribui a Jetro exatamente a segunda face — um arrepio de mal-estar com a destruição do Egito (item 3). Em termos de Hutcheson, as duas leituras do verbo não se contradizem: são as duas metades do mesmo senso, voltadas para povos diferentes. Quem se alegra de verdade com o bem de um povo não fica indiferente à ruína de outro.

E Hutcheson dá lugar ao provérbio do convertido. Ele distinguia a benevolência calma e universal, que quer o bem de todos, dos afetos particulares — pela família, pelos amigos, pela pátria —, que considerava naturais e bons desde que não contrariassem a primeira. A memória do povo de origem, que o provérbio de Rav estende por dez gerações, é um afeto particular desse tipo.

O limite precisa ser dito. Hutcheson não comentou este versículo, e o versículo não descreve motivos: diz o que Jetro sentiu e por quê, numa linha, sem acesso ao interior dele. O que a filosofia de Hutcheson oferece é a defesa de que a alegria pelo bem alheio pode ser exatamente o que parece. O texto não precisa dessa defesa, mas também não a desmente.

7. Aplicações Práticas

Alegrar-se sem estar no centro. Jetro poderia ter se alegrado com o sucesso do genro; o texto diz que se alegrou pelo bem feito a um povo. Quando uma boa notícia chega a alguém próximo, a pergunta útil é do que se está alegre: do bem que aconteceu, ou do lugar que isso nos dá.

Nomear o bem, e não a derrota. Ao comemorar uma justiça feita — um processo ganho, um abuso que terminou, alguém libertado de uma situação injusta —, o versículo sugere um foco: o bem de quem foi solto. A ruína de quem oprimia pode ser consequência necessária, e ainda assim não precisa ser o motivo da festa.

Permitir a ambivalência. Quem vê desabar um mundo ao qual estava ligado — uma empresa, uma instituição, um grupo de origem — pode se alegrar com o que veio de bom e sentir, ao mesmo tempo, a perda. A leitura dos mestres sobre Jetro não trata isso como fraqueza.

Cuidado com a origem dos outros. O provérbio que o Talmude tirou deste versículo é uma regra de delicadeza: diante de quem veio de outro povo, de outra religião ou de outro país, não se fala mal da gente de onde ele veio. É aplicação dos mestres, não do texto; mas é aplicação sensata, e vale para qualquer imigrante ou convertido.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que o texto não diz que Moisés se alegrou?

Moisés viveu tudo o que contou, e o texto não lhe atribui sentimento nenhum: ele narra. A alegria registrada é a de quem ouve. Pode ser só economia de narrativa, com o foco posto no visitante. Pode também refletir a distância entre quem atravessou as dificuldades e quem as recebe já resolvidas, em forma de história. O texto não diz.

Jetro se alegrou porque a família estaria segura?

É possível que isso pesasse, e o versículo não o exclui. Mas o objeto que ele declara é outro — o bem feito a Israel —, e o texto não menciona a filha nem os netos aqui. Atribuir a reação ao interesse familiar é hipótese sem apoio na frase.

Se Jetro sentiu desconforto com a queda do Egito, isso depõe contra ele?

Os mestres que propuseram essa leitura não o condenaram. Rav, que discordava de Shmuel sobre o sentido do verbo, comentou a leitura do colega com um provérbio compreensivo, não com uma crítica. O próprio versículo não julga a reação de Jetro em nenhuma das leituras.

Teria sido errado se ele se alegrasse com a destruição do Egito?

A Bíblia não tem uma resposta única. O cântico do mar celebra o cavalo e o cavaleiro lançados ao mar (Êxodo 15:1), e Sforno achava que Jetro teria motivo para se alegrar também com isso. Jó 31:29 e Obadias 1:12, ao contrário, tratam a alegria pela ruína de quem odeia como falta. O versículo não resolve a tensão; apenas mostra Jetro de um lado dela.

9. Conexão com Outros Textos

A outra alegria do livro

Êxodo 4:14 — "Então a ira do SENHOR se acendeu contra Moisés, e ele disse: 'E Arão, o levita, seu irmão? Eu sei que ele fala bem. E olhe: ele está saindo ao seu encontro e, quando o vir, se alegrará no coração.'"

A única outra alegria do Êxodo até aqui, e é uma previsão. Lá o verbo é o comum, e a alegria é de irmão por irmão. Aqui o verbo é raro, e a alegria é de um estrangeiro por um povo.

Êxodo 15:1 — "Então cantou Moisés, e os filhos de Israel, este cântico ao SENHOR, e disseram: 'Cantarei ao SENHOR, porque se elevou em majestade; o cavalo e o seu cavaleiro ele lançou ao mar.'"

A resposta de Israel ao mar foi o canto, e o canto inclui a queda do inimigo. A resposta de Jetro ao relato do mar inclui só o bem.

O mesmo verbo e a mesma família de palavras

Jó 3:6 — "Aquela noite, que a escuridão a tome; que não se alegre entre os dias do ano, que não entre na conta dos meses."

A única outra ocorrência do verbo na forma simples, na maldição que Jó lança sobre a noite em que foi concebido. Muitos tradutores leem aqui outro verbo, "juntar-se" (item 10).

Salmo 21:6 — "Pois tu o puseste como bênção para sempre; tu o alegras com a alegria da tua presença."

O verbo na forma intensiva, com Deus por sujeito: é Deus quem alegra o rei. Em Êxodo 18:9 quem se alegra é um homem, com o que Deus fez.

1 Crônicas 16:27 — "Majestade e esplendor estão diante dele; força e alegria, no seu lugar."

O substantivo da mesma família, no salmo cantado quando a arca chega a Jerusalém. A alegria está ligada ao lugar de Deus.

Neemias 8:10 — "Vão, comam carnes gordas e bebam bebidas doces, e mandem porções a quem nada tem preparado, porque este dia é consagrado ao nosso Senhor. Não se entristeçam, porque a alegria do SENHOR é a força de vocês."

O mesmo substantivo, dito a um povo que chorava. É o verso que Malbim usa para mostrar que esta alegria é a que vence uma tristeza.

A promessa de que Jetro se alegra

Êxodo 3:8 — "Por isso desci para livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e ampla, a uma terra que mana leite e mel."

A promessa foi feita na sarça, enquanto Moisés apascentava o rebanho de Jetro (Êxodo 3:1). O livramento anunciado ali é o que Jetro ouve como cumprido. O dono do rebanho que pastava ao pé do monte é o primeiro a se alegrar com o que foi prometido lá.

O espanto de Isaque, na tradução grega

Gênesis 27:33 — "Então Isaque estremeceu violentamente e disse: ‘Quem foi, então, que caçou e me trouxe caça? Comi de tudo antes de você chegar, e o abençoei; e abençoado ele será.’"

A Septuaginta usa para o tremor de Isaque o mesmo verbo grego que usa para a reação de Jetro. Para o tradutor, os dois homens reagiram a uma notícia com o mesmo abalo do corpo.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Jetro alegrou-se por todo o bem que o SENHOR tinha feito a Israel, livrando-o da mão dos egípcios.

Texto hebraico

וַיִּ֣חַדְּ יִתְר֔וֹ עַ֚ל כָּל־הַטּוֹבָ֔ה אֲשֶׁר־עָשָׂ֥ה יְהוָ֖ה לְיִשְׂרָאֵ֑ל אֲשֶׁ֥ר הִצִּיל֖וֹ מִיַּ֥ד מִצְרָֽיִם׃

Transliteração

va-yichad Yitro al kol-ha-tovah asher-asah YHWH le-Yisrael, asher hitsilo mi-yad Mitsrayim.

Análise palavra por palavra

וַיִּחַדְּ — va-yichad, "e alegrou-se".

Da raiz ch-d-h, "alegrar-se", na forma que encadeia a narrativa. É a forma curta do verbo: a forma longa seria yechedeh, e a última letra da raiz caiu, como acontece com os verbos terminados em h. Ibn Ezra notou um detalhe gráfico que só se vê no texto pontuado: a última letra da palavra, o dalet, leva o ponto de reforço (o dagesh) mesmo estando no fim, depois de vogal. Ele diz que só conhece duas palavras assim em toda a Escritura: esta e a de Jó 3:6.

O verbo é raríssimo na Bíblia hebraica. Na forma simples, só aparece aqui e em Jó 3:6 — e em Jó muitos tradutores leem outra raiz, y-ch-d, "juntar-se", e traduzem "que não se junte aos dias do ano". Na forma intensiva aparece uma vez, no Salmo 21:6, "tu o alegras". O substantivo derivado, chedvah, "alegria", aparece em 1 Crônicas 16:27 e em Neemias 8:10, dois livros tardios.

Em aramaico, a mesma raiz é a palavra comum para alegria. O substantivo está no trecho aramaico de Esdras (Esdras 6:16), e a tradução aramaica de Ônquelos verte este versículo por va-chadi, com a mesma raiz do hebraico. O Targum de Jônatas usa outro verbo aramaico de alegria, u-vedach. A palavra hebraica do Êxodo soa, para quem conhece as duas línguas, como palavra aramaica — daí a pergunta de Or ha-Chaim (item 3).

O jogo de som que alimentou a leitura do Talmude vem de uma raiz vizinha, ch-d-d, "ser afiado": chad é "afiado" (a "espada afiada" de Ezequiel 5:1 é cherev chaddah), e chiddudim, palavra rabínica, são "pontas, picos". Rav ouviu na forma va-yichad a lâmina afiada; Shmuel, as "pontas" da pele arrepiada. Não há relação de origem entre as duas raízes: é leitura pelo som, que os mestres praticavam conscientemente.

As traduções antigas se dividem. A Septuaginta escreve exestē, de existēmi, "sair de si, ficar fora de si, espantar-se" — o mesmo verbo que usa para o tremor de Isaque em Gênesis 27:33. A Vulgata, a tradução latina de Jerônimo, escreve laetatus est, "alegrou-se".

יִתְרוֹ — Yitro, "Jetro".

O nome do sogro de Moisés, que este capítulo usa sempre nesta forma.

עַל כָּל־הַטּוֹבָה — al kol-ha-tovah, "por todo o bem".

Al é "sobre"; com verbos de sentimento, indica o motivo: alegrar-se "sobre" algo é alegrar-se por causa dele. Kol é "todo". Ha-tovah é o substantivo feminino tovah, "o bem, o benefício, a coisa boa feita a alguém", com o artigo. É diferente de tov, o adjetivo "bom". A Mekhilta extraiu as suas listas da acumulação destas palavras — "bem", "o bem", "todo o bem", "por todo o bem" —, contando cada acréscimo como um bem a mais.

אֲשֶׁר־עָשָׂה יְהוָה לְיִשְׂרָאֵל — asher-asah YHWH le-Yisrael, "que o SENHOR tinha feito a Israel".

Asher é o pronome relativo, "que". Asah é "fez", no perfeito. Le-Yisrael é "a Israel", com a preposição le-. A construção é exatamente a do versículo anterior, onde Moisés conta "tudo o que o SENHOR tinha feito a Faraó e aos egípcios" — asah + le-. A mesma fórmula serve, em dois versículos seguidos, para o castigo e para o benefício. Quem decide o sentido não é o verbo, é o substantivo: lá, "tudo"; aqui, "o bem".

אֲשֶׁר הִצִּילוֹ — asher hitsilo, "que o livrou".

Hitsil é o perfeito do verbo natsal na forma causativa (a que em hebraico indica fazer acontecer: "fazer escapar", "livrar"), e o sufixo -o é "o", no singular. O objeto é Israel, tratado como uma pessoa. A ABC verte a oração pelo gerúndio, "livrando-o", que guarda a ligação entre o bem e o livramento sem obrigar o leitor a decidir se uma coisa explica a outra (item 3). O verbo e a fórmula "livrar da mão de" estão estudados em Êxodo 2:19.

מִיַּד מִצְרָיִם — mi-yad Mitsrayim, "da mão dos egípcios".

Mi- é "de", yad é "mão", na forma que se liga ao nome seguinte. Mitsrayim é o nome do país, Egito, que o hebraico usa também para o povo. "Da mão do Egito" significa "do poder dos egípcios", e a ABC escolhe o povo.

11. Conclusão

Com base no que o versículo diz e no que deixa de dizer, conclui-se primeiro que o Êxodo põe a primeira alegria registrada do livro na boca de quem não é do povo. Não é preciso tirar daí uma tese sobre estrangeiros; basta reconhecer que o texto deu a esse homem uma reação que não deu a Israel.

Conclui-se também que a alegria tem objeto declarado, e que o objeto foi recortado. Do relato que mencionava Faraó, os egípcios e as dificuldades, o versículo guarda só o bem e o livramento. Isso não prova o desconforto que os mestres atribuíram a Jetro, mas mostra que o texto escolheu do que ele se alegrava.

E conclui-se, por fim, que a palavra escolhida não fecha o sentimento. Alegria, espanto e arrepio continuam possíveis, e a tradição não precisou decidir entre eles para ler o versículo com proveito. O que os três têm em comum é suficiente: o relato atingiu o ouvinte, e o atingiu no corpo antes de chegar à boca.

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Êxodo 18:9

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