Então Jetro, sogro de Moisés, tomou Zípora, mulher de Moisés, depois que ele a tinha despedido,
1. Introdução
O versículo informa, de passagem, uma separação que o Êxodo nunca contou: Zípora estava de volta na casa do pai "depois que ele a tinha despedido". Toda a informação cabe numa palavra hebraica, e essa palavra admite ler divórcio, envio de volta com a família, e até presente de casamento. O livro não diz quando, nem por quê, nem por iniciativa de quem, e por isso os comentaristas, de Rabi Josué a Nachmânides, propuseram cada um a sua cena. Quem age é Jetro: é o sogro que toma a filha e os netos para levá-los ao genro, e o texto a chama de "mulher de Moisés", não de filha de Jetro. A mesma raiz verbal que abre o capítulo aqui vai fechá-lo no versículo 27, quando Moisés "despediu" o sogro.
2. Contexto Histórico e Cultural
A mulher casada na casa do pai
No mundo do Antigo Oriente, uma mulher casada que voltava a morar com o pai não era caso raro, e o direito previa a situação. Ela voltava em pelo menos três circunstâncias: quando o marido estava longe por muito tempo, quando ficava viúva sem quem a sustentasse, e quando era repudiada.
As Leis Assírias Médias (coleção de leis do norte da Mesopotâmia copiada por volta do século XI antes de Cristo) tratam do primeiro caso no parágrafo 36 da primeira tábua. A mulher mora na casa do pai, ou numa casa que o marido lhe arranjou, e o marido parte para longe, a serviço do rei. Se ele não deixou sustento, ela deve esperar cinco anos antes de se casar com outro. Se ela se casar antes do prazo e o marido voltar, ele tem direito a retomá-la, com os filhos que nasceram.
O caso não é o de Moisés, que não foi a serviço de rei nenhum e não deixou a mulher à espera de um marido desaparecido. Mas a lei mostra que a casa do pai era o lugar natural de uma mulher casada cujo marido estava fora, e que o vínculo do casamento não se desfazia pela distância. A própria Bíblia conhece o costume: Judá manda Tamar, a nora viúva, ficar "na casa do seu pai" enquanto espera o filho mais novo crescer (Gênesis 38:11), e a lei sacerdotal prevê que a filha de sacerdote viúva ou divorciada, sem filhos, volte para a casa do pai "como na sua mocidade" (Levítico 22:13).
O repúdio sem motivo declarado
O mesmo conjunto de leis assírias, no parágrafo 37, dá ao marido o direito de repudiar a mulher sem declarar causa: se quiser, dá a ela alguma coisa; se não quiser, ela sai de mãos vazias. A decisão era dele, e o motivo não precisava constar.
É contra esse pano de fundo que a primeira leitura rabínica do versículo, a do divórcio, faz sentido. A lei de Israel sobre o divórcio, em Deuteronômio 24:1-4, exige um documento entregue à mulher e proíbe que o primeiro marido a retome depois de ela ter sido de outro; o desenho da lei está no estudo de Mateus 19:7. O versículo do Êxodo não menciona documento nenhum, e Zípora não foi de outro homem, de modo que nada impedia, pela letra da lei posterior, que voltasse para Moisés.
O presente que acompanha a filha
A palavra do versículo tem um terceiro uso, e ele também vem do mundo do casamento. Em 1 Reis 9:16, Faraó toma uma cidade e a dá "como presente de despedida" à filha, mulher de Salomão: é a mesma palavra, no sentido do dote ou do presente que o pai entrega à filha quando ela deixa a casa dele. Em Miqueias 1:14 ela reaparece, em sentido figurado, como os presentes de despedida dados a uma cidade que se perde.
O costume é bem documentado: a filha que saía da casa paterna levava bens que continuavam dela e que, em caso de separação, a acompanhavam de volta. É dessa camada de sentido que alguns comentaristas medievais tiraram a leitura de que Moisés, agora chefe de um povo, mandara presentes a Zípora — leitura que o item 3 expõe e que o item 10 mostra como a gramática permite.
3. Análise Teológica do Versículo
"Então Jetro, sogro de Moisés, tomou Zípora"
O verbo é "tomar", o mesmo de Êxodo 4:20, quando "Moisés tomou a mulher e os filhos" e os pôs sobre um jumento rumo ao Egito. Catorze capítulos depois, o mesmo verbo volta com outro sujeito. Quem toma agora é o sogro. A família que saiu de Midiã nas mãos de Moisés volta a ele nas mãos de Jetro.
O versículo é o único em que o Êxodo põe Jetro como sujeito de um gesto sobre a filha. Em Êxodo 2:21 ele a "deu" a Moisés; aqui ele a "toma" para levá-la. Nas duas pontas do casamento, quem move Zípora é o pai. Ela mesma não fala no capítulo 18 e não voltará a falar no livro.
"Zípora, mulher de Moisés"
O texto podia ter escrito "sua filha", que seria natural numa frase em que o pai é o sujeito. Escreveu "mulher de Moisés". Abraão ibn Ezra (comentarista judeu espanhol do século XII) diz que a escolha mostra quem pesava mais: Moisés era mais importante que a casa do pai dela. O Chizkuni (comentário de Ezequias ben Manoá, rabino francês do século XIII) diz o mesmo pelo lado dela: o marido tornara-se rei, e ela subira com ele.
Há uma consequência mais seca. Seja qual for o sentido da palavra seguinte, o versículo continua a chamar Zípora de mulher de Moisés, e o versículo 6 dirá a Moisés "a sua mulher". Para o texto, o vínculo não se desfez. É o argumento de Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) contra a leitura do divórcio: não há razão para crer que algo do tipo tenha acontecido.
"depois que ele a tinha despedido"
Uma separação que o livro nunca narrou é informada numa oração subordinada, como coisa sabida. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) observa exatamente isso: o fato não foi mencionado antes, e mesmo assim é dado como conhecido. Rashbam (Samuel ben Meir, comentarista francês do século XII, neto de Rashi) explica que a Torá às vezes informa um dado de fundo fora do lugar e dá o exemplo de "Cam é o pai de Canaã" (Gênesis 9:18), dito antes de Canaã nascer.
O que o hebraico escreve é uma única palavra, "depois dos envios dela", sem dizer quem enviou, para onde, de que modo. A pergunta é: que separação foi essa? As respostas são cinco, e cada uma tem defensor.
Primeira leitura: foi divórcio. É a de Rabi Josué na Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo, por volta do século III). O argumento é de vocabulário: a palavra daqui é da mesma raiz do verbo que Deuteronômio 24:1 usa para o marido que "a despede da sua casa" com um documento de divórcio. "Lá, com documento; aqui também, com documento." O Or HaChaim (comentário de Chaim ibn Attar, rabino marroquino do século XVIII) admite que, se não fosse a tradição contrária, leria assim: Moisés, chamado a uma missão de tempo integral, teria dissolvido o casamento. E Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) registra que o próprio Jetro talvez temesse isso — daí ter vindo trazê-la.
Segunda leitura: foi um envio de volta, por palavra, e quem aconselhou foi Arão. É a de Rabi Elazar de Modiim, na mesma Mekhilta, e a que Rashi (Salomão ben Isaque, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI) adotou. Arão encontra Moisés no monte de Deus (Êxodo 4:27), vê mulheres e crianças e pergunta quem são. "Minha mulher e meus filhos." "Para onde os leva?" "Para o Egito." E Arão: "Já sofremos pelos primeiros, e você ainda vai trazer mais?" Moisés diz a Zípora: "Vá para a casa do seu pai", e ela vai com os dois filhos.
Shemot Rabá (coleção medieval de sermões rabínicos sobre o Êxodo), no capítulo 4, conta a mesma conversa com outro interlocutor e o resultado oposto. Quem pergunta é Jetro, em Midiã: "Os que estão no Egito querem sair, e você quer levar mais gente para lá?" E Moisés responde que os filhos dele precisam estar no Sinai para ouvir "Eu sou o SENHOR, o seu Deus". Jetro diz "vá em paz", e a família parte. Os dois textos rabínicos discordam no ponto essencial: num, Zípora não chega ao Egito; no outro, Moisés insiste em levá-la.
Terceira leitura: a separação nasceu da noite no caminho. Ibn Ezra, citado e discutido por Nachmânides no comentário a Êxodo 4:20, propõe que Moisés seguiu sozinho para o Egito depois do episódio de Êxodo 4:24-26: o menino recém-circuncidado não podia viajar, e Zípora voltou com os filhos para a casa do pai. Nachmânides acha a solução possível e acrescenta outra: talvez todos tenham ido ao Egito, e só depois, com saudade do pai, ela tenha sido mandada de volta. Os comentaristas cristãos ingleses foram nessa direção com tons diferentes. Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) admite que Moisés a mandou embora "por raiva", pela cena do caminho, ou só para não levar mulher e filhos para os perigos do Egito; Benson (Joseph Benson, metodista inglês do século XVIII) fala da "impaciência" dela; Matthew Poole (comentarista puritano inglês do século XVII), de que ela atrapalharia o cargo e daria mau exemplo.
Quarta leitura: a palavra quer dizer "presentes". Ibn Ezra e Rashbam registram, sem adotá-la, a opinião de "outros": a palavra seria a mesma de 1 Reis 9:16, onde designa o presente que o pai dá à filha que se casa. O sentido seria: Jetro levou Zípora depois que Moisés, agora em condição de fazê-lo, lhe mandara os presentes devidos à noiva. Rashbam a rejeita pelo sentido simples: não haveria por que Jetro "trazer" a mulher, se o texto não dissesse antes que ela fora mandada embora.
Quinta leitura: quem mandou foi ela. Sforno (Obadias Sforno, comentarista italiano do século XVI) lê "depois dos envios dela" como os recados que Zípora mandou para saber onde Israel estava acampado. Moisés lhe teria dito que o povo não pararia até chegar ao monte de Deus (Êxodo 3:12), e Jetro só pôde partir quando o acampamento ficou fixo. A gramática admite essa leitura (item 10), e ela tem a vantagem de explicar a demora da viagem. Tem a desvantagem de não ser o sentido que o versículo, lido em sequência, sugere.
Há ainda a solução de Nachmânides que muda o peso da frase. Jetro teria tomado a filha "para devolvê-la", embora Moisés a tivesse mandado embora: ao ouvir o que Deus fizera, o sogro concluiu que chegara a hora de a mulher acompanhar o rei aonde ele fosse. Nessa leitura a iniciativa da reunião é de Jetro, e o versículo 2 é a continuação natural do versículo 1.
O que se pode afirmar
Que houve uma separação, que ela foi iniciativa de Moisés — o pronome masculino que a ABC põe em "ele a tinha despedido" é a leitura mais natural, não a única —, e que Zípora e os filhos não estavam com Israel na saída do Egito. O texto não diz quando, por quê, nem se o casamento ficou suspenso ou só interrompido pela distância. Nenhuma das cinco leituras se prova. A do divórcio tem contra si o fato de Zípora continuar sendo "mulher de Moisés"; a dos presentes, o fato de o versículo precisar de uma separação para fazer sentido; a de Arão e a da noite no caminho preenchem o vazio com cenas que o Êxodo não escreveu.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Zípora
Filha do sacerdote de Midiã, mulher de Moisés, mãe de Gérson e de Eliézer. A última vez que o Êxodo a mostrou foi na noite do caminho, quando circuncidou o filho com uma pedra e disse a frase do "noivo de sangue" (Êxodo 4:25-26). Entre aquela noite e este versículo passaram-se, na narrativa, as pragas, a saída, o mar e o deserto, e ela não está em nenhuma dessas cenas. Este versículo informa por quê: estava na casa do pai.
Depois do capítulo 18 o nome dela não volta a aparecer na Bíblia. O que mais se sabe dela, e a discussão sobre a "mulher cuxita" de Números 12:1, estão no estudo de Êxodo 2:21.
Jetro
O sogro, que aqui age pela filha. É a segunda vez que ele decide o destino dela: deu-a em casamento a um fugitivo sem bens (Êxodo 2:21) e agora a leva de volta ao marido que se tornou chefe de um povo.
Moisés
Ausente do versículo como agente, presente como referência: Zípora é "mulher de Moisés", e foi "ele" quem a despediu. Desde Êxodo 4:20 o livro não o mostra com a família. Durante todo o período das pragas e do deserto, o Moisés do Êxodo é um homem sem mulher e sem filhos em cena.
Arão, na leitura rabínica
O irmão não está no versículo, mas a Mekhilta o põe no centro da separação: teria sido ele, ao encontrar Moisés no monte de Deus (Êxodo 4:27), quem aconselhou mandar a família de volta. É tradição, não texto. O Êxodo registra o encontro dos dois irmãos e o beijo, e não diz uma palavra sobre mulher e filhos naquela cena.
O evento
Uma separação conjugal nunca narrada, que só se torna visível quando termina. O versículo marca o começo do reencontro: Jetro "tomou" a filha, e o versículo 5 completará a frase, dizendo para onde a levou.
5. Pontos de Ensino
1. O Êxodo informa separações em oração subordinada. A saída de Zípora da vida de Moisés não tem cena, não tem fala, não tem data. Aparece quando ela já está voltando. O livro escolhe narrar a missão e deixa a vida da família nas margens.
2. Uma palavra, cinco leituras. Divórcio, envio de volta, consequência da noite no caminho, presentes de casamento, recados de Zípora. Cada leitura nasce de uma possibilidade real do hebraico ou de um texto vizinho. Quem ensina o versículo deve apresentar a dúvida antes de escolher.
3. O vínculo continua nomeado. Seja o que for que a palavra signifique, Zípora segue sendo "mulher de Moisés" neste versículo e no versículo 6. O texto não trata a separação como fim do casamento.
4. Quem recompõe a família é o sogro. Moisés não vai buscar a mulher e os filhos; Jetro os traz. A iniciativa do reencontro vem de fora do acampamento.
5. A tradição preenche o vazio em direções opostas. Para a Mekhilta, Arão mandou a família embora; para Shemot Rabá, Moisés insistiu em levá-la para que os filhos ouvissem o Sinai. As duas cenas não estão no Êxodo, e a contradição entre elas mostra o quanto o texto deixou em aberto.
6. Aspectos Filosóficos
Separar-se sem dizer por quê
O versículo deixa uma pergunta que ultrapassa o caso de Moisés: quando um casamento se desfaz, ou se interrompe, a causa deve ser dita? O Êxodo não a diz. Pierre Charron (1541-1603), padre, teólogo e discípulo de Montaigne, discutiu exatamente esse ponto numa das obras mais lidas do século XVII francês, De la sagesse ("Da sabedoria", 1601).
No primeiro livro da obra, no capítulo sobre o casamento, Charron compara as leis dos povos. Começa por uma frase que ficou famosa: na forma cristã, o casamento "só tem livre a entrada; a duração é toda constrangida". Registra a crítica dos outros povos, que acusavam o cristianismo de ter abolido o repúdio e assim ferido a amizade entre os cônjuges, "porque a amizade é inimiga de toda coerção". E defende a regra cristã com o argumento da experiência: na maioria dos casamentos, diz ele, a obrigação de ficar acaba servindo à amizade.
Dois modelos de repúdio
Em seguida Charron descreve duas maneiras de praticar o repúdio. Numa, que ele atribui aos hebreus, aos gregos e aos armênios, "não se exprime a causa da separação", e o marido não pode retomar a mulher repudiada. Na outra, a separação é feita por juiz, com exame da causa — adultério, esterilidade, incompatibilidade, atentado contra a vida do outro — e o casal pode se reconciliar quantas vezes quiser.
E Charron toma partido pela primeira. A segunda, diz ele, "desonra as partes, impede que encontrem outro partido, descobre muitas coisas que deveriam permanecer escondidas"; e, se a causa não fica bem provada e o casal é obrigado a continuar junto, o resultado são ódios e, às vezes, crimes. O silêncio sobre o motivo protege os dois.
O versículo e o primeiro modelo
O Êxodo 18:2 corresponde, quase ponto por ponto, ao modelo que Charron preferia. A separação existe, é atribuída ao marido e não tem motivo declarado. Nem Moisés nem Zípora são expostos: o leitor não sabe se houve culpa, cansaço, prudência ou conselho de alguém. Todas as cenas que os comentaristas escreveram para explicar o versículo — o conselho de Arão, a raiva depois da noite no caminho, a impaciência de Zípora — são justamente "as coisas que deveriam permanecer escondidas" e que o texto deixou escondidas.
Num ponto o versículo contradiz Charron. Ele escreve que, entre os hebreus, a mulher repudiada não podia ser retomada. A lei de Deuteronômio 24 só proíbe a volta se ela tiver sido de outro homem no intervalo; o resumo de Charron simplifica demais. E o capítulo 18 mostra o contrário do que ele descreve: a mulher que "ele tinha despedido" é trazida de volta e entregue ao marido, pelo próprio pai.
A outra metade da sabedoria de Charron
Charron era também um cético, no sentido do seu mestre. A divisa dele era "não sei", e no segundo livro de De la sagesse ele recomenda manter o juízo livre e suspenso diante do que não se pode decidir, sem se prender à primeira opinião. Aplicada ao versículo, essa parte da obra dá a regra de leitura: cinco interpretações possíveis, nenhuma demonstrável, e a obrigação de não tomar nenhuma delas por fato. A comparação com Charron é do comentarista; o que o texto oferece é só a palavra e o silêncio em volta dela.
7. Aplicações Práticas
Não preencher a separação dos outros com histórias. O versículo mostra uma separação conjugal sem motivo, e a tradição inventou pelo menos quatro motivos para ela. O mesmo acontece com casais conhecidos: quando falta a explicação, alguém a fornece, e quase sempre à custa de um dos dois. O texto não autoriza escolher culpado, e quem lê não precisa fazê-lo.
Missão e família não se excluem para sempre. Moisés passou os anos mais intensos da vida dele longe da mulher e dos filhos, e o livro não comenta. Mas o capítulo 18 os traz de volta antes do Sinai, ou perto dele. Quem atravessa uma fase em que o trabalho, a causa ou a crise afastaram a família pode ler o versículo sem moralismo: a distância aconteceu, e o reencontro também foi possível.
Às vezes a iniciativa do reencontro vem de terceiros. Não foi Moisés quem foi buscar Zípora; foi o sogro quem a trouxe. Em famílias separadas pela distância ou pelo silêncio, o passo que recompõe nem sempre é dado por um dos dois. Um pai, um irmão, um amigo pode ser quem "toma" e leva.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Zípora viu as pragas e a travessia do mar?
Pelo que o versículo informa, não. Se ela estava na casa do pai quando Jetro ouviu as notícias, não atravessou o mar com Israel. O Chizkuni tira essa consequência por escrito: sem este versículo, ninguém saberia que Zípora e os filhos não participaram da saída do Egito. A única exceção possível é a leitura de Nachmânides em que a família teria ido ao Egito e voltado depois, que o texto não confirma nem exclui.
Moisés pretendia buscar a família?
O texto não diz. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) supõem um combinado: Moisés teria deixado a família com o sogro até que Israel chegasse ao monte de Deus, o lugar que o próprio Deus marcara como destino em Êxodo 3:12. É hipótese razoável, e explica por que Jetro aparece justamente ali. Mas é dedução, não informação do versículo.
O que Zípora pensava disso?
O Êxodo não dá voz a ela nem aqui nem depois. As últimas palavras dela no livro são as da noite do caminho, em Êxodo 4:25-26. Neste versículo ela é objeto de dois verbos — foi despedida, foi tomada — e não sujeito de nenhum.
Por que o texto conta isso só agora?
Porque só agora a informação é necessária. Sem ela, o leitor que deixou Zípora a caminho do Egito em Êxodo 4:20 não entenderia como ela aparece chegando de Midiã. Nachmânides diz isso com todas as letras: como o livro já tinha contado que Moisés levara a família para o Egito, foi preciso dizer aqui que ela estava na casa do pai. O versículo existe para fechar uma conta aberta catorze capítulos antes.
Os filhos ficaram com a mãe por quê?
O versículo só fala de Zípora; os filhos entram no seguinte, "e os dois filhos dela". Que crianças pequenas ficassem com a mãe é o esperado. O Or HaChaim lembra ainda a lenda da Mekhilta segundo a qual Moisés teria feito com o sogro um acordo sobre o primeiro filho — lenda que pertence ao versículo 3 e que não tem apoio no texto bíblico.
9. Conexão com Outros Textos
A partida que este versículo desfaz
Êxodo 4:20 — "Então Moisés tomou a mulher e os filhos, pô-los sobre um jumento e voltou à terra do Egito; e Moisés levou na mão o cajado de Deus."
O mesmo verbo "tomar", com Moisés por sujeito. Em Êxodo 18:2 quem toma é Jetro, e a direção é a contrária.
Êxodo 4:27 — "O SENHOR disse a Arão: 'Vá ao deserto encontrar-se com Moisés.' Ele foi, encontrou-o no monte de Deus e o beijou."
A cena em que a Mekhilta e Rashi situam o conselho de Arão para mandar a família de volta. O versículo não fala em mulher nem em filhos.
O verbo do divórcio
Deuteronômio 24:1 — "Quando um homem tomar uma mulher e se casar com ela, e ela não encontrar favor aos olhos dele porque ele achou nela alguma coisa vergonhosa, ele lhe escreverá um documento de divórcio, o porá na mão dela e a despedirá da sua casa."
O versículo que Rabi Josué aproxima de Êxodo 18:2 pela palavra comum. A diferença é que ali há documento e motivo; aqui não há nenhum dos dois.
Isaías 50:1 — "Assim diz o SENHOR: Onde está o documento de divórcio da mãe de vocês, com o qual eu a despedi?"
O mesmo verbo, na boca de Deus, para dizer que a separação de Israel não foi um divórcio formal. A pergunta do profeta supõe que despedir e divorciar podiam ser coisas distintas — o que é exatamente a dúvida de Êxodo 18:2.
Outras despedidas com o mesmo verbo
Gênesis 21:14 — "Na manhã seguinte, Abraão se levantou cedo, tomou pão e um odre de água, entregou-os a Agar, pondo-os sobre o ombro dela, deu-lhe o menino e a despediu."
Outra mulher despedida com o filho, por iniciativa do marido. Agar vai para o deserto; Zípora, para a casa do pai.
Gênesis 38:11 — "Então Judá disse a Tamar, sua nora: 'Fique viúva na casa do seu pai, até que Selá, meu filho, cresça'; pois pensava: 'Que ele não morra também, como os seus irmãos.' E Tamar foi morar na casa do seu pai."
Uma mulher ligada a uma casa e mandada esperar na do pai. O motivo, aqui, o Gênesis declara — e é um motivo que Judá não diz em voz alta.
O presente de despedida
1 Reis 9:16 — "Faraó, rei do Egito, tinha subido, tomado Gezer e a queimado [...], e a deu como presente de despedida à sua filha, mulher de Salomão."
A ocorrência em que a palavra de Êxodo 18:2 significa o dote dado pelo pai. É a base da leitura dos "presentes".
Miqueias 1:14 — "Por isso você dará presentes de despedida a Moresete-Gate."
A terceira e última ocorrência do substantivo na Bíblia hebraica, em sentido figurado.
A outra ponta do capítulo
Êxodo 18:27 — "Então Moisés despediu o seu sogro, e ele foi para a sua terra."
O capítulo começa com Zípora "despedida" e termina com Jetro "despedido", pela mesma raiz. A diferença de sentido entre as duas pontas é assunto do estudo daquele versículo.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Então Jetro, sogro de Moisés, tomou Zípora, mulher de Moisés, depois que ele a tinha despedido,
Texto hebraico
וַיִּקַּח יִתְרוֹ חֹתֵן מֹשֶׁה אֶת־צִפֹּרָה אֵשֶׁת מֹשֶׁה אַחַר שִׁלּוּחֶיהָ׃
Transliteração
va-yiqqach Yitro choten Moshe et-Tsipporah eshet Moshe achar shilluchehah.
Análise palavra por palavra
וַיִּקַּח — va-yiqqach, "e tomou".
Verbo laqach, "tomar, pegar, levar", no Qal (a forma simples e ativa do verbo hebraico), na forma que encadeia a narrativa. É também o verbo comum do casamento — "tomar mulher" —, e é o verbo de Êxodo 4:20, em que Moisés "tomou" a mulher e os filhos.
יִתְרוֹ חֹתֵן מֹשֶׁה — Yitro choten Moshe, "Jetro, sogro de Moisés".
A mesma fórmula do versículo 1, agora sem o título de sacerdote. Choten é o pai da mulher: o parente que o casamento criou.
אֶת־צִפֹּרָה — et-Tsipporah, "Zípora".
Com a partícula que marca o objeto direto. O nome quer dizer "pássaro", no feminino. É a primeira vez que ele aparece desde Êxodo 4:25.
אֵשֶׁת מֹשֶׁה — eshet Moshe, "mulher de Moisés".
Eshet é a forma de ishah, "mulher", ligada ao nome seguinte: "a mulher de". Em hebraico a mesma palavra serve para "mulher" e para "esposa". A construção não traz adjetivo nem restrição: não diz "a que foi mulher de Moisés", diz "mulher de Moisés".
אַחַר — achar, "depois de".
Preposição de tempo. Rashbam observa que ela costuma marcar algo que acontece depois de um fato conhecido pelo leitor, como o carneiro que Abraão vê "depois" da cena do altar (Gênesis 22:13). Aqui o fato anterior não foi contado, e é isso que dá à palavra seguinte o seu peso.
שִׁלּוּחֶיהָ — shilluchehah, "os envios dela", "o despedimento dela".
É a palavra decisiva do versículo, e tem três características que explicam as cinco leituras do item 3.
A primeira é a forma. Shilluchim é um substantivo plural da raiz sh-l-ch, "enviar", feito sobre o Piel (a forma intensiva do verbo hebraico). O plural aqui não indica vários envios: é o plural que o hebraico usa para nomes de ações e de estados, como kippurim, "expiação", ou millu'im, "investidura". Uma tradução literal seria "o despedimento".
A segunda é o sufixo. A terminação -ehah quer dizer "dela", e o hebraico não marca se Zípora é quem sofre o envio ou quem o faz. "O despedimento dela" pode ser "o fato de ela ter sido despedida" ou "o fato de ela ter mandado". A leitura natural, e a da ABC, é a primeira; a de Sforno, com os recados de Zípora, depende da segunda. E o agente da despedida, "ele", não está escrito: a ABC o acrescenta porque o contexto o pede.
A terceira é o uso. O substantivo aparece só três vezes na Bíblia hebraica. Aqui; em 1 Reis 9:16, onde é o presente que Faraó dá à filha casada com Salomão; e em Miqueias 1:14, os presentes de despedida a uma cidade. Nas duas outras ocorrências, portanto, a palavra quer dizer "presente". É daí que nasce a leitura dos dotes, registrada por Ibn Ezra e Rashbam.
O verbo da mesma raiz, no Piel, cobre o resto do campo. É o verbo do marido que "despede" a mulher com documento de divórcio (Deuteronômio 24:1, 3) e o de Deus perguntando pelo documento com que "despediu" a mãe de Israel (Isaías 50:1). É o verbo de "deixe ir o meu povo", que atravessa as pragas, e o da alforria do escravo (Deuteronômio 15:12). E é o verbo do último versículo deste capítulo: "Moisés despediu o seu sogro" (Êxodo 18:27). O capítulo abre e fecha com a mesma raiz, e a ABC a traduziu pelo mesmo verbo, "despedir", nas duas pontas.
As traduções antigas escolheram cada uma um sentido. A Septuaginta (a tradução grega feita no Egito entre os séculos III e II antes de Cristo) escreve meta tēn aphesin autēs, "depois da liberação dela": aphesis é a palavra grega da soltura e da remissão, a mesma do ano do jubileu. A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta de 400) escreve quam remiserat, "que ele tinha mandado de volta". O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica lida nas sinagogas) troca de raiz e escreve batar de-patrah, "depois que ele a dispensou", com o verbo p-t-r, "soltar, dispensar". É o verbo que a língua dos rabinos usa para o divórcio: na fórmula do documento registrada na Mishná (Guitin 9:3), o divórcio se chama get piturin, "documento de dispensa". Das três traduções antigas, a aramaica é a que fica mais perto da leitura do divórcio, sem dizê-la.
11. Conclusão
Com base no que foi exposto, a primeira conclusão é que o Êxodo trata a vida familiar de Moisés como informação de bastidor. Uma separação conjugal, com mulher e filhos fora de todos os acontecimentos da saída do Egito, cabe numa palavra subordinada, e só é dita quando se torna necessária para explicar quem chega com Jetro. O livro não é a biografia de Moisés; é a história do que Deus fez por meio dele, e a família entra e sai dessa história conforme ela precisa.
A segunda é que a palavra decisiva não permite decidir o que houve. Ela pode significar divórcio, envio de volta, dote ou recado, e as cinco leituras que a tradição construiu sobre ela têm apoio parcial no hebraico e nenhuma prova. O que o versículo garante é menos e é firme: houve uma separação atribuída a Moisés, ela não teve motivo declarado, e Zípora continuou a ser chamada "mulher de Moisés".
A terceira é que quem desfaz a separação não é quem a fez. O verbo do versículo tem Jetro por sujeito. O mesmo homem que um dia deu a filha a um fugitivo agora a devolve a um chefe de povo, e o capítulo que começa com essa entrega terminará com o mesmo verbo de despedida aplicado a ele.













