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Êxodo 18:3

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 22 min de leitura·👁 9 acessos
e os dois filhos dela. O nome de um era Gérson, porque Moisés disse: “Sou estrangeiro em terra estrangeira”;
Um rapaz de cabelo escuro, de pé ao lado da mãe e de um avô idoso à entrada de um acampamento no deserto, olha para as tendas de Israel diante de um monte, enquanto um irmão mais novo segura a mão da mãe.

Estudo


e os dois filhos dela. O nome de um era Gérson, porque Moisés disse: “Sou estrangeiro em terra estrangeira”;

1. Introdução

O versículo continua a frase anterior: Jetro tomou Zípora "e os dois filhos dela", e o primeiro deles é apresentado de novo, com o nome e com a explicação do nome, palavra por palavra como em Êxodo 2:22. A explicação volta quando Moisés já saiu de Midiã, chefia um povo e está a caminho da terra prometida aos pais — e mesmo assim a frase é "sou estrangeiro em terra estrangeira". Os filhos são chamados "dela", e quem disse a frase precisa ser lembrado, porque o sujeito da oração é Jetro. As traduções antigas leram a mesma frase hebraica de modo diferente nos dois lugares, e os comentaristas deram pelo menos quatro razões para a repetição. A tradição rabínica ainda ouviu em "terra estrangeira" uma terra de deuses estrangeiros, e construiu sobre isso uma das suas lendas mais sombrias.

2. Contexto Histórico e Cultural

A mesma frase, traduzida duas vezes

O hebraico de Êxodo 18:3 repete o de Êxodo 2:22 sem mudar uma letra na explicação do nome. Os tradutores antigos tiveram, portanto, duas vezes a mesma frase diante de si, com dezesseis capítulos de distância. O que eles fizeram com ela mostra como a leram.

A Septuaginta (a tradução grega da Torá feita em Alexandria no século III antes de Cristo) traduziu de dois jeitos. Em Êxodo 2:22 escreveu paroikos eimi, "sou peregrino", no presente: Moisés fala da condição em que está. Em Êxodo 18:3 escreveu paroikos ēmēn, "eu era peregrino", no passado. O mesmo hebraico virou presente no lugar em que Moisés está em Midiã, e passado no lugar em que Midiã ficou para trás. O tradutor grego entendeu a repetição como lembrança: a frase que era descrição virou memória.

A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta do ano 400) fez o contrário: escreveu advena fui in terra aliena, "fui estrangeiro em terra alheia", no passado, nas duas vezes. E acrescentou em 18:3 duas palavras que não estão no hebraico, dicente patre, "dizendo o pai". Jerônimo percebeu que a frase hebraica tem Jetro por sujeito desde o versículo anterior e quis deixar claro que quem fala é Moisés.

Os Targumim (as traduções aramaicas lidas nas sinagogas) mantiveram a frase igual nos dois lugares. O de Ônquelos traduz literalmente, "residente fui em terra estrangeira". O chamado Targum de Jônatas acrescenta, nas duas vezes, "que não é minha" — a explicação de que "estrangeira" quer dizer "alheia a mim".

A ABC escolheu "sou" nos dois lugares, pela razão exposta no estudo de Êxodo 2:22: com verbos de estado, o perfeito hebraico costuma descrever uma condição que continua. O Chizkuni (comentário de Ezequias ben Manoá, rabino francês do século XIII) já dizia o mesmo deste versículo: a forma não deve ser entendida como passado.

Como se montava um livro antigo

A repetição exata chamou a atenção dos estudiosos modernos por outro motivo. Livros antigos não eram escritos de uma vez, do começo ao fim, como um romance. Eram compostos a partir de relatos que circulavam separados, oralmente ou em rolos curtos, e depois reunidos.

Dois comentários ingleses do século XIX tiraram daí explicações diferentes para este versículo. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa) supõe que o capítulo 18 tenha sido escrito primeiro como peça independente, num rolo à parte, e só depois incorporado ao livro: por isso apresenta os filhos de Moisés como se o leitor ainda não os conhecesse. O Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) atribui os versículos 2 a 4 a quem organizou o texto final, que precisava harmonizar a família de Êxodo 2 e 4 com a que chega em Êxodo 18, e para isso reapresentou Gérson, apresentou Eliézer e informou a separação.

As duas hipóteses explicam a repetição como costura. Nenhuma pode ser provada, e ambas deixam de lado a pergunta que os comentaristas judeus fizeram: o que a frase quer dizer agora, no lugar onde está.

3. Análise Teológica do Versículo

"e os dois filhos dela"

O versículo não começa uma frase; continua a do versículo 2. Jetro tomou Zípora "e os dois filhos dela". Os meninos entram na história como parte do que o avô leva: vêm junto com a mãe, na mesma lista de objetos do verbo "tomar".

"Dois" resolve uma conta que o livro deixara aberta. Em Êxodo 4:20 Moisés partiu de Midiã com "a mulher e os filhos", no plural, quando o Êxodo só tinha registrado o nascimento de um. Aqui o número aparece pela primeira vez. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) explica por que o versículo apresenta os dois filhos neste ponto, fora do lugar do nascimento: Eliézer nunca teve uma cena de nome, e esta era a primeira ocasião de nomeá-lo. Gérson vem junto para que o par fique completo.

"O nome de um era Gérson"

O texto não diz "o primeiro" nem "o mais velho". Diz "um", e no versículo seguinte dirá "o outro" com a mesma palavra, "um". A apresentação é a de uma lista de nomes, não a de uma genealogia com ordem de nascimento. Gérson vem primeiro por ser o mais velho, mas a frase não o marca como primogênito.

"porque Moisés disse"

O hebraico escreve só "porque disse", sem sujeito. E o sujeito gramatical da frase inteira, desde o versículo 2, é Jetro: "Jetro tomou Zípora e os dois filhos dela... porque disse". Ao pé da letra, quem teria dito "sou estrangeiro" seria o sogro.

Ninguém leu assim. Nachmânides diz expressamente que o "disse" se liga a Moisés, mencionado no versículo 1, e não a Jetro; a Vulgata acrescentou "o pai" (item 2); a ABC escreveu "Moisés". Mas a ambiguidade mostra o tipo de frase que é: uma citação de algo dito há muito tempo, encaixada numa oração que fala de outra pessoa. Moisés não está dizendo a frase agora. O versículo lembra que ele a disse.

"Sou estrangeiro em terra estrangeira"

A pergunta é por que repetir, palavra por palavra, uma explicação que o leitor já conhece desde Êxodo 2:22. As respostas são quatro.

Primeira resposta: para identificar o menino. É a do Or HaChaim (comentário de Chaim ibn Attar, rabino marroquino do século XVIII). Passaram-se muitos anos desde o nascimento de Gérson, e a explicação do nome garante que este é o mesmo filho de Êxodo 2, e não outro filho do mesmo nome. O nome sozinho podia confundir; o nome com a frase é uma assinatura.

Segunda resposta: porque o texto foi costurado de peças. É a dos comentaristas modernos que o item 2 apresentou: a repetição denuncia um relato que circulou separado, ou o trabalho de quem juntou as partes.

Terceira resposta: para pôr os dois nomes lado a lado como resumo da vida de Moisés. É a de Nachmânides. O texto quis lembrar a bondade de Deus com um homem que tinha sido estrangeiro em terra estrangeira, que agradeceu por ter escapado da espada de Faraó e que agora era rei sobre Israel. Lidos juntos, os dois nomes contam a biografia do pai em duas frases: a do exilado e a do salvo.

Quarta resposta: porque a frase mudou de sentido. Dita em Midiã, a frase descrevia um fugitivo instalado numa casa que não era a dele. Repetida aqui, no deserto, ela é dita sobre um homem que já tem povo e destino. O que significa ser "estrangeiro em terra estrangeira" quando se está no meio dos seus?

Nessa quarta resposta entram as leituras da expressão "terra estrangeira", e a tradição tem três.

Rabi Josué, na Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo, por volta do século III), lê ao pé da letra: terra estrangeira é terra estrangeira, e Moisés fala de Midiã.

Rabi Elazar de Modiim, na mesma Mekhilta, lê "terra de culto estrangeiro". Moisés teria dito: já que o mundo inteiro serve a ídolos, eu servirei Àquele que falou e o mundo existiu. A esta leitura a Mekhilta junta uma história. Quando Moisés pediu Zípora em casamento, Jetro pôs uma condição: o primeiro filho seria criado no culto dos ídolos; os seguintes, no culto do Deus do céu. Moisés aceitou e jurou — e a Mekhilta lê o "concordou" de Êxodo 2:21 como juramento, apoiada em 1 Samuel 14:24, onde a mesma forma verbal descreve o juramento que Saul impõe ao povo. Por isso, conclui a lenda, o anjo veio matar Moisés na pousada, e Zípora teve de circuncidar o filho (Êxodo 4:24-25). O Chizkuni, no versículo seguinte, tira a consequência: Gérson não tinha sido circuncidado por causa do acordo com o sogro.

A lenda não tem apoio no texto bíblico, e diz mais sobre a inquietação dos rabinos com o casamento de Moisés com a filha de um sacerdote estrangeiro do que sobre Moisés. Mas ela tem uma lógica interna: explica de uma vez o "terra estrangeira" deste versículo, o "concordou" de Êxodo 2:21 e a noite do caminho. E tem um eco na própria Bíblia, que os rabinos conheciam bem: em Juízes 18:30, um neto de Gérson aparece como sacerdote de um santuário com imagem — o caso e a letra suspensa que o encobre estão no estudo de Êxodo 2:22.

A terceira leitura é a do Or HaChaim, e é a mais ampla. A terra estrangeira de Moisés seria o próprio mundo: ele nunca se sentiu em casa nesta vida, nem antes de fugir do Egito, nem depois. Nessa leitura, a repetição em Êxodo 18 é natural, porque nenhuma chegada desfaz essa condição.

O que se pode afirmar

Que o texto quis o nome e a explicação de novo, inteiros, num momento em que a situação de Moisés tinha mudado completamente. A razão não está escrita. A leitura que identifica o menino é a mais modesta e a mais segura; a de Nachmânides, que lê os dois nomes como par, é a que melhor se apoia no versículo seguinte; a lenda da Mekhilta é engenhosa e não pode ser atribuída ao texto. O que fica é o fato: a frase de um estrangeiro instalado em Midiã é dita outra vez no momento em que ele deixa de ser estrangeiro entre os seus — e o texto não a corrige.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Gérson

Filho mais velho de Moisés e de Zípora, nascido em Midiã. O livro o nomeou em Êxodo 2:22, levou-o, com toda a probabilidade, na viagem rumo ao Egito em Êxodo 4:20, e o devolve aqui, chegando ao acampamento com o avô. A idade dele não é dada. Pela sequência do relato, ele nasceu antes da sarça e dos anos do Egito, e pode já não ser criança quando chega ao deserto; o texto não permite calcular.

Ele não diz nenhuma palavra em todo o Êxodo, e nenhum ato lhe é atribuído. O que se sabe da descendência dele, nas listas de levitas de 1 Crônicas, e o caso difícil de Juízes 18:30 estão no estudo de Êxodo 2:22.

Moisés

Aparece como autor de uma frase antiga, citada. Quando a disse, era um fugitivo do Egito que morava na casa de um sacerdote estrangeiro e cuidava de ovelhas que não eram suas. Quando ela é repetida, ele é o homem por meio de quem Deus tirou Israel do Egito. O versículo junta as duas situações sem comentar a distância entre elas.

Zípora

Mãe dos dois meninos. O versículo os apresenta como "filhos dela", e é por meio dela que entram na frase: Jetro toma a filha e, com ela, os netos.

Midiã e a "terra estrangeira"

Quando a frase foi dita pela primeira vez, a terra estrangeira mais próxima era Midiã, onde Moisés vivia. Agora a família acaba de deixar Midiã e chega ao deserto do monte de Deus, que não é terra de ninguém em particular. A frase repetida não se refere a nenhum lugar novo; o item 3 expõe as leituras que tentaram dizer a que lugar ela se refere agora.

5. Pontos de Ensino

1. Uma frase pode mudar de sentido sem mudar de palavras. "Sou estrangeiro em terra estrangeira" é a mesma frase em Êxodo 2:22 e aqui. Em Midiã ela descrevia o presente de um fugitivo; no deserto, depois do mar, ela lembra um passado, ou declara uma condição que a chegada não desfez. O tradutor grego percebeu e mudou o tempo do verbo.

2. Os nomes guardam a história do pai. Gérson e Eliézer, lidos juntos, resumem a vida de Moisés antes do chamado: o exílio e a escapada. Os meninos carregam nos nomes uma biografia que não é a deles.

3. A repetição tem mais de uma explicação, e nenhuma se impõe. Identificar o menino, costurar relatos, pôr os dois nomes em par, ou mostrar que a condição de estrangeiro persiste: as quatro respostas cabem no texto, e quem ensina deve dizer de quem é cada uma.

4. Lendas também são documentos. A história do juramento de Moisés ao sogro não está na Bíblia. Ela mostra o que incomodava os leitores antigos — um líder de Israel casado com a filha de um sacerdote estrangeiro — e como eles tentaram explicar, de uma vez, três passagens obscuras.

6. Aspectos Filosóficos

O estrangeiro que chegou e continua estrangeiro

O versículo põe uma pergunta que vai além da biografia de Moisés: ser estrangeiro é uma situação, que termina quando se chega a casa, ou é uma condição, que acompanha a pessoa aonde ela for? Moisés já não está em Midiã, já tem um povo, está a caminho da terra prometida aos pais — e o texto repete, sem corrigir, "sou estrangeiro em terra estrangeira".

O estudo de Êxodo 2:22 leu a frase com Vilém Flusser, que pensou o migrante a partir da própria vida de exilado. Flusser fala de uma perda biográfica: o chão que se tinha e se perdeu. O versículo 18:3 pede outra pergunta, porque nele a perda já foi, em tese, reparada. É a pergunta de Helmuth Plessner.

A posição excêntrica

Helmuth Plessner (1892-1985), filósofo e sociólogo alemão, perdeu a cátedra em 1933 por ser filho de pai de origem judia, viveu exilado em Groningen, na Holanda, e escondeu-se durante a ocupação alemã. Antes disso, em 1928, publicara Die Stufen des Organischen und der Mensch ("Os graus do orgânico e o homem"), obra que fundou o que se chamou de antropologia filosófica.

A tese central é uma comparação de posições. A planta está aberta ao ambiente e não tem centro. O animal tem centro: vive a partir dele, dentro do seu corpo e do seu meio, sem se ver de fora. O ser humano também vive a partir de um centro, mas consegue sair dele e olhar a si mesmo de fora. Plessner chamou isso de exzentrische Positionalität ("posicionalidade excêntrica"): o homem está no seu lugar e, ao mesmo tempo, fora dele, olhando.

Daí Plessner tira três "leis" da condição humana. A primeira: o homem é artificial por natureza — precisa construir cultura, costume e instituição, porque nada lhe vem pronto. A segunda: tudo o que lhe parece imediato é mediado — até o sentimento mais espontâneo passa pela linguagem e pelo hábito. A terceira, a que interessa aqui, é a do "lugar utópico": o homem não tem lugar próprio definitivo. Está sempre "sem lugar" no sentido em que nenhum lugar o contém por inteiro, e por isso procura um apoio absoluto que não encontra no mundo.

Quem quer voltar para casa

Plessner fecha a obra com uma frase que parece escrita para este versículo: "Quem quer voltar para casa, para a pátria, para o abrigo, tem de entregar-se à fé. Mas quem fica com o espírito não volta." Para ele, a religião promete o lugar definitivo que a condição humana não dá; a filosofia, que ele escolheu, aceita não voltar.

O capítulo 18 do Êxodo não toma partido nessa alternativa, mas a encena. Moisés está no deserto, perto do monte em que receberá a Lei, depois de ter visto o Deus de seus pais tirá-lo da espada de Faraó — e o nome do primeiro filho continua dizendo que ele é estrangeiro. Na linguagem de Plessner, a fé não apagou a excentricidade: a chegada não transformou o lugar em casa. É o que a terceira leitura rabínica do item 3, a do Or HaChaim, diz com outras palavras: a terra estrangeira de Moisés é o mundo.

O limite da comparação

Plessner fala da estrutura de todo ser humano; o versículo fala de um homem e de uma frase dita num momento da vida dele. A repetição pode ter razões bem mais simples, como identificar o menino (item 3). Ler nela uma tese sobre a condição humana é escolha do comentarista. O que o texto oferece, e que dá margem à leitura, é o fato de que a frase não foi atualizada: ninguém escreveu "fui estrangeiro, e agora não sou".

7. Aplicações Práticas

Chegar não apaga o que se viveu. Moisés virou chefe de um povo, e o nome do filho continuou dizendo "estrangeiro". Quem muda de posição — um imigrante que se estabeleceu, alguém que saiu da pobreza, quem sarou de uma doença longa — não precisa apagar a frase que disse no tempo difícil. Ela pode continuar sendo verdadeira em outro sentido, e pode ser a lembrança que impede de tratar mal quem está agora onde a pessoa já esteve.

A Lei que Moisés receberá diz exatamente isso, poucos capítulos adiante: "não oprima o estrangeiro; vocês sabem o que é a vida do estrangeiro, porque foram estrangeiros na terra do Egito" (Êxodo 23:9). O versículo 18:3 mostra a frase pessoal antes de ela virar lei para todos.

Os nomes que se dão aos filhos falam dos pais. Gérson carregou a vida inteira um nome que resumia a situação do pai, e foi apresentado por ele de novo, diante do acampamento, décadas depois. Quem nomeia um filho por uma experiência própria lhe entrega uma história que não é dele. O versículo não julga a escolha de Moisés; mostra que ela acompanhou o menino.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O nome de Gérson ofendia o sogro?

A pergunta não é ociosa. O nome declara que Midiã, a terra de Jetro, era terra estrangeira para Moisés, e a frase é repetida justamente na cena em que Jetro traz o menino. O Or HaChaim chega a dizer que Moisés escolheu as palavras com cuidado: o nome soa como a raiz hebraica de "expulsar", e Moisés teria explicado "fui estrangeiro" para que o sogro não ouvisse "fui expulso" — não por ele, Jetro, que o acolhera. O texto não registra reação nenhuma de Jetro ao nome, nem aqui nem em Êxodo 2.

Por que o texto não diz nada sobre a infância dos meninos?

Porque o Êxodo não se interessa por ela. Gérson e Eliézer são nomeados em três versículos do livro (Êxodo 2:22, 18:3 e 18:4) e aparecem sem nome em outros quatro (Êxodo 4:20, 4:25, 18:5 e 18:6), sempre como parte de uma lista, de uma explicação de nome ou de uma cena da mãe. Não falam, não agem, não recebem cargo. O silêncio contrasta com os filhos de Arão, que terão nomes, funções e histórias próprias.

Os filhos de Moisés sucederam o pai?

Não. A liderança passa a Josué, que não é parente de Moisés, e o sacerdócio aos filhos de Arão. Os filhos de Moisés ficam entre os levitas comuns, segundo as listas de 1 Crônicas 23. O Êxodo não comenta, e a Bíblia em geral também não. O texto só registra o resultado.

"Sou estrangeiro" ainda é verdade em Êxodo 18?

Depende do que se entende por estrangeiro. No sentido jurídico, Moisés já não mora entre outro povo: está no meio de Israel. No sentido que a tradição deu à frase — estranho a um mundo de cultos alheios, ou estranho ao próprio mundo —, continua verdadeira. O texto não decide; repete a frase inteira e deixa as duas possibilidades de pé.

9. Conexão com Outros Textos

A primeira vez da frase

Êxodo 2:22 — "Ela deu à luz um filho, e Moisés lhe deu o nome de Gérson, dizendo: 'Sou estrangeiro em terra estrangeira.'"

O original que Êxodo 18:3 repete. A diferença está toda em volta da frase: lá, o nascimento; aqui, a chegada.

Outros que se disseram estrangeiros

Gênesis 23:4 — "Sou estrangeiro e forasteiro entre vocês; cedam-me uma propriedade para sepultura entre vocês, para que eu sepulte a minha falecida."

Abraão, depois de décadas em Canaã, ainda se apresenta como estrangeiro. Como em Êxodo 18:3, o tempo de permanência não muda a condição declarada.

Salmo 39:12 — "Ouve a minha oração, SENHOR, escuta o meu clamor [...], porque sou estrangeiro junto de ti, peregrino como todos os meus pais."

A frase transposta para a relação com Deus. É o caminho que a leitura do Or HaChaim percorre: o estrangeiro não em Midiã, mas no mundo.

Levítico 25:23 — "A terra não será vendida para sempre, porque a terra é minha; vocês são estrangeiros e moradores comigo."

A Lei aplica a todo Israel, já na terra, a condição que Moisés atribuiu a si mesmo. Ninguém deixa de ser estrangeiro ao chegar: a terra continua sendo de outro.

A lei que nasce da memória do estrangeiro

Êxodo 23:9 — "Não oprima o estrangeiro; vocês sabem o que é a vida do estrangeiro, porque foram estrangeiros na terra do Egito."

O que em Êxodo 18:3 é a frase de um homem vira, cinco capítulos depois, fundamento de uma lei para um povo.

O que se conta de Moisés fora do Êxodo

Atos 7:29 — "Com essa palavra Moisés fugiu e tornou-se estrangeiro na terra de Midiã, onde gerou dois filhos."

O discurso de Estêvão resume os anos de Midiã com a palavra grega da Septuaginta para "estrangeiro residente", a mesma de Êxodo 2:22 e 18:3, e com o número exato de filhos que este versículo dá.

O que veio depois

1 Crônicas 23:14-15 — "Quanto a Moisés, o homem de Deus, os seus filhos foram contados na tribo de Levi. Os filhos de Moisés: Gérson e Eliézer."

A única outra passagem da Bíblia que nomeia os dois juntos. O cronista os põe entre os levitas, sem cargo especial.

Juízes 18:30 — "Os filhos de Dã levantaram para si a imagem esculpida; e Jônatas, filho de Gérson, filho de Moisés, ele e os seus filhos foram sacerdotes da tribo de Dã até o dia do exílio da terra."

O texto que a lenda do juramento parece iluminar e que os escribas cobriram com uma letra suspensa, transformando "Moisés" em "Manassés".

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

e os dois filhos dela. O nome de um era Gérson, porque Moisés disse: “Sou estrangeiro em terra estrangeira”;

Texto hebraico

וְאֵת שְׁנֵי בָנֶיהָ אֲשֶׁר שֵׁם הָאֶחָד גֵּרְשֹׁם כִּי אָמַר גֵּר הָיִיתִי בְּאֶרֶץ נָכְרִיָּה׃

Transliteração

ve-et shenei vaneiha asher shem ha-echad Gershom, ki amar: ger hayiti be-erets nokhriyah.

Análise palavra por palavra

וְאֵת — ve-et, "e".

A conjunção ve, "e", com et, a partícula que marca o objeto direto. É a prova gramatical de que o versículo 3 não é uma frase nova: os dois filhos são o segundo objeto do verbo "tomou", do versículo 2. Jetro tomou "Zípora... e os dois filhos dela".

שְׁנֵי בָנֶיהָ — shenei vaneiha, "os dois filhos dela".

Shenei é a forma de shnayim, "dois", ligada ao substantivo seguinte. Baneiha é o plural de ben, "filho", com o sufixo de terceira pessoa feminina, "dela". O mesmo grupo de palavras volta no versículo 6.

אֲשֶׁר שֵׁם הָאֶחָד — asher shem ha-echad, "dos quais o nome de um".

Asher é o relativo, "que", "dos quais"; shem, "nome", ligado ao seguinte; ha-echad, "o um", com artigo. É a fórmula hebraica para apresentar um par de pessoas: "o nome de um era X, e o nome do outro era Y". Abraão ibn Ezra lembra os paralelos: os dois homens que ficaram no acampamento em Números 11:26, "o nome de um era Eldade, e o nome do segundo, Medade", e os dois rochedos de 1 Samuel 14:4, "o nome de um era Bozez, e o nome do outro, Sené". Neste capítulo, como se verá no versículo 4, o segundo membro do par também é chamado de "o um", e não de "o segundo".

גֵּרְשֹׁם — Gershom, "Gérson".

A grafia é a mesma de Êxodo 2:22. As duas explicações do nome — a do texto, pelo som de ger ("estrangeiro") e sham ("lá"), e a da linguística, pela raiz garash ("expulsar") — não mudam aqui. Ibn Ezra comenta precisamente este versículo para dizer que a Bíblia não segue regra gramatical ao formar nomes próprios: o nome "deveria" ser Garsham, se viesse de gar sham, "morou lá", e o hebraico se contenta com a semelhança de som, como em Caim e "adquiri" (Gênesis 4:1).

כִּי אָמַר — ki amar, "porque disse".

Ki, "porque"; amar, "disse", no perfeito, terceira pessoa do masculino singular, sem sujeito expresso. A ausência do sujeito é o que permite, ao pé da letra, ligar o verbo a Jetro, sujeito da frase desde o versículo 2. A ABC acrescentou "Moisés", como a Vulgata acrescentara "o pai".

גֵּר הָיִיתִי בְּאֶרֶץ נָכְרִיָּה — ger hayiti be-erets nokhriyah, "sou estrangeiro em terra estrangeira".

Idêntica, letra por letra, à frase de Êxodo 2:22. O par ger (o estrangeiro que mora entre outros) e nokhriyah (o que é alheio), o perfeito hayiti e a falta de artigo em "terra" foram analisados no estudo de Êxodo 2:22. O que é próprio deste versículo é a recepção da frase nas traduções antigas, exposta no item 2: o grego mudou o tempo do verbo entre os dois lugares, e os Targumim mantiveram a frase igual.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, a primeira conclusão é que o versículo é uma peça de ligação com uma frase antiga dentro. Gramaticalmente, ele só completa o versículo anterior: Jetro tomou a filha e os netos. O que o faz ser mais do que uma lista é a decisão de repetir inteira, e sem atualizar, a explicação do nome de Gérson.

A segunda é que a repetição não tem razão declarada, e as razões propostas dizem coisas muito diferentes. Para uns, ela só identifica o menino; para outros, denuncia a costura de dois relatos; para Nachmânides, põe lado a lado as duas frases que resumem a vida de Moisés; para a Mekhilta e para o Or HaChaim, revela que "terra estrangeira" sempre quis dizer mais do que Midiã. O texto comporta as quatro e não confirma nenhuma.

A terceira é que a frase, ao voltar, mudou de lugar sem mudar de palavras. Dita por um fugitivo em Midiã, era descrição do presente; dita na chegada ao acampamento de Israel, é ou lembrança do que passou ou afirmação de que a condição de estrangeiro sobreviveu à chegada. O tradutor grego escolheu a lembrança; o hebraico, ao manter a frase como estava, deixou aberta a outra possibilidade — a de que Moisés, mesmo entre os seus, continuasse a ser, de algum modo, o homem de fora.

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