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Êxodo 18:4

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 10 acessos
e o nome do outro era Eliézer, porque disse: “O Deus de meu pai foi a minha ajuda e me livrou da espada de Faraó.”
Num quintal de pedra em Midiã, à luz da tarde, um homem de barba escura ergue nos braços um menino recém-nascido diante de uma mulher sentada, enquanto um menino um pouco maior observa agarrado à túnica do pai.

Estudo


e o nome do outro era Eliézer, porque disse: “O Deus de meu pai foi a minha ajuda e me livrou da espada de Faraó.”

1. Introdução

O segundo filho de Moisés recebe aqui, pela primeira vez, nome e explicação: Eliézer, "Deus é ajuda", porque "o Deus de meu pai foi a minha ajuda e me livrou da espada de Faraó". Onde a frase do irmão não tinha Deus nenhum, esta o nomeia duas vezes, e chama a fuga de Moisés de livramento. O problema é que o Êxodo nunca mostrou uma espada: Faraó "procurou matar" Moisés (Êxodo 2:15), e a única espada de Faraó que o livro menciona é a que o inimigo promete desembainhar no mar (Êxodo 15:9). Quando o menino recebeu o nome e de que perigo a frase fala — a fuga, a morte do rei ou o mar — o texto não diz, e a tradição respondeu com lendas de execução, com cálculos de datas e até com um acréscimo à Bíblia latina, que passou a contar o nascimento de Eliézer em Êxodo 2:22.

2. Contexto Histórico e Cultural

Nomes de agradecimento

Dar a um filho um nome que agradece a um deus por ter salvado alguém era costume comum no Antigo Oriente. O estudo clássico do assunto é Die akkadische Namengebung ("A formação dos nomes acádios", 1939), do suíço Johann Jakob Stamm, que classificou milhares de nomes da Babilônia e da Assíria pelo que dizem. Uma das classes maiores é a dos nomes de agradecimento: frases curtas que declaram que o deus ajudou, salvou ou devolveu alguma coisa à família.

Dois exemplos mostram o tipo. Mušēzib-Marduk ("Marduk é o que salva") foi o nome de um rei da Babilônia no começo do século VII antes de Cristo. Aššur-rēṣūa ("Assur é o meu auxílio") foi o nome de um alto funcionário assírio, no tempo de Sargão II, que mandava ao rei relatórios sobre o reino de Urartu. A palavra acádia rēṣu, "auxílio, aliado", faz no segundo nome o papel que ézer faz em Eliézer.

O mesmo tipo existia entre os vizinhos de Israel. O nome do general cartaginês Asdrúbal é a forma latina do fenício Azrubaal, "Baal é auxílio" — a mesma palavra para "ajuda" de Eliézer, com outro deus. Os fenícios levaram o nome para Cartago, e os romanos o conheceram nas guerras púnicas.

Eliézer, portanto, pertence a um modelo conhecido. O que o versículo acrescenta ao modelo é a explicação longa: o nome comum de agradecimento vem acompanhado de uma frase que diz de quem é o deus ("de meu pai") e de que perigo ele livrou ("da espada de Faraó"). Os nomes acádios agradeciam em geral; este agradece por um episódio.

A Bíblia latina que conta o nascimento de Eliézer

O Êxodo hebraico nunca narra o nascimento de Eliézer. Mas os leitores da Idade Média ocidental o liam no capítulo 2. A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta do ano 400), nas edições correntes, acrescenta a Êxodo 2:22, logo depois do nome de Gérson: "E deu à luz outro, a quem chamou Eliézer, dizendo: Porque o Deus de meu pai é o meu auxílio e me livrou da mão de Faraó".

O acréscimo vem da tradição grega. Parte dos manuscritos da Septuaginta (a tradução grega feita no Egito entre os séculos III e II antes de Cristo) traz a mesma frase no capítulo 2, segundo os aparatos das edições críticas, e a edição grega de referência a deixa fora do texto. O detalhe denuncia a origem: no acréscimo, Moisés é livrado "da mão" de Faraó, que é a leitura grega de Êxodo 18:4; o hebraico diz "da espada".

Algum copista antigo, portanto, achou que faltava no capítulo 2 o nascimento do segundo filho e o completou com o versículo do capítulo 18. O resultado é que, para quem lia a Bíblia em latim, Eliézer nasceu em Midiã, logo depois de Gérson, e a frase do nome se referia à fuga do Egito. O hebraico deixa essa questão aberta; o acréscimo a fechou.

3. Análise Teológica do Versículo

"e o nome do outro era Eliézer"

O hebraico não diz "o outro" nem "o segundo". Diz, de novo, "o um", a mesma palavra que apresentou Gérson. Eliézer é o segundo filho e é tratado como se fosse o primeiro. Os comentaristas acharam que isso não era só estilo.

O Chizkuni (comentário de Ezequias ben Manoá, rabino francês do século XIII) dá duas razões. A primeira: o nome de Eliézer lembra um acontecimento que tocou Moisés pessoalmente, a fuga do Egito, e por isso o menino pareceu a Moisés um primeiro filho. A segunda depende da lenda da Mekhilta segundo a qual Moisés prometera ao sogro criar o primeiro filho no culto dos ídolos: se Gérson tinha ficado incircunciso por causa do acordo com o sogro, Eliézer, circuncidado, seria o primeiro filho que pertencia a Deus. O Or HaChaim (comentário de Chaim ibn Attar, rabino marroquino do século XVIII) dá outra: o acontecimento que o nome de Eliézer recorda, a fuga, é anterior ao nascimento de Gérson; pela ordem dos fatos lembrados, Eliézer vem primeiro.

As três explicações são leituras de um detalhe que a gramática permite sem exigir: a Bíblia usa "o um... o um" para pares em outros lugares. O que o detalhe garante é só isto: o texto não hierarquiza os dois irmãos.

"porque disse"

O hebraico não tem o verbo aqui. Escreve só "porque o Deus de meu pai...". Abraão ibn Ezra (comentarista judeu espanhol do século XII) explica que o "disse" do versículo anterior vale para os dois nomes, como em Gênesis 41:52, em que José nomeia Efraim "porque Deus me fez frutífero" sem repetir o verbo. A ABC acrescentou "disse" para que a frase funcione em português. O efeito no hebraico é que a frase de Eliézer soa menos como citação e mais como explicação direta: o nome é aquilo.

"O Deus de meu pai foi a minha ajuda"

A diferença com o irmão é total. A frase de Gérson era toda em primeira pessoa e não tinha agente: "sou estrangeiro". A de Eliézer tem Deus como sujeito duas vezes, no nome e na explicação, e Moisés como quem recebe.

"O Deus de meu pai" é a fórmula dos patriarcas: Jacó a usa diante de Labão (Gênesis 31:5, 42), e Deus se apresenta a Moisés na sarça como "o Deus do seu pai" (Êxodo 3:6). De que pai se trata, o versículo não esclarece — Anrão, o pai que Moisés mal conheceu, ou o antepassado da família, Abraão, Isaque e Jacó. A fórmula serve aos dois sentidos.

E a data muda o sentido. Se Eliézer nasceu e foi nomeado em Midiã, antes da sarça, Moisés já chamava Deus de "Deus de meu pai" antes que Deus se apresentasse a ele assim, e a sarça teria apenas confirmado o que ele dizia. Se o nome foi dado depois, como querem Nachmânides e Ibn Ezra (adiante), a frase devolve a Deus, na primeira pessoa, o título que Deus usou na sarça. O texto não permite decidir. O fundo e o percurso da fórmula estão no estudo de Êxodo 15:2.

"Ajuda" não é palavra de subordinado. É a mesma de Gênesis 2:18, a "auxiliadora adequada", e nos Salmos é quase sempre Deus quem é a ajuda de alguém: "o meu socorro vem do SENHOR, que fez o céu e a terra" (Salmo 121:2). Chamar Deus de ajuda, na Bíblia, é chamá-lo de quem chega quando a força própria não basta.

"e me livrou da espada de Faraó"

O Êxodo nunca mostrou essa espada. Em Êxodo 2:15 diz que Faraó "procurou matar Moisés" e que Moisés "fugiu". Não há prisão, nem julgamento, nem arma. A pergunta é: de que perigo a frase fala? Há três respostas.

Primeira resposta: da execução que Faraó ordenou depois da morte do egípcio. É a leitura mais antiga e a que liga o nome à fuga de Êxodo 2:15. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) e o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) a seguem. A tradição rabínica preencheu o vazio com uma cena de execução. Na Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo, por volta do século III), Rabi Josué conta que Faraó soube do caso pela denúncia do hebreu de Êxodo 2:14 e mandou levar Moisés ao cepo; quando a lâmina já estava no pescoço dele, um anjo desceu com a aparência de Moisés, os carrascos prenderam o anjo, e Moisés fugiu. Deus tornou os homens de Faraó mudos, surdos e cegos, e ninguém soube dizer onde Moisés estava — e é a isso, diz a Mekhilta, que Deus alude em Êxodo 4:11: "Quem faz o mudo, o surdo, o que enxerga e o cego?".

Shemot Rabá (coleção medieval de sermões rabínicos sobre o Êxodo), no capítulo 1, conta outra versão: a espada atingiu o pescoço de Moisés dez vezes, e o pescoço ficou "como uma torre de marfim" (Cântico dos Cânticos 7:4), sem que a lâmina o ferisse. Rashi (Salomão ben Isaque, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI), no comentário a este versículo, resume: o pescoço ficou como uma coluna de mármore. As lendas são tentativas de dar uma espada a uma frase que fala de espada, e nenhuma delas está no Êxodo.

Segunda resposta: da ameaça que só acabou com a morte do rei. Ibn Ezra, no comentário a Êxodo 2:15, propõe que Eliézer nasceu na época em que Deus disse a Moisés que "morreram todos os que procuravam a sua vida" (Êxodo 4:19). Enquanto aquele Faraó vivia, Moisés tinha medo; com a morte dele, sentiu-se livre, e o nome do filho registrou isso. Obadias Sforno (comentarista italiano do século XVI) vai na mesma direção e lembra que um rei poderoso alcançava longe: Acabe mandou procurar Elias em todos os reinos vizinhos (1 Reis 18:10). O livramento, nessa leitura, não foi uma cena; foi a morte do perseguidor.

Terceira resposta: do exército afogado no mar. Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) admite que o nome pode aludir não à fuga, mas à destruição da tropa de Faraó no mar. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) inclui o afogamento entre as bondades que os dois nomes resumem. E o próprio Êxodo dá um apoio a essa leitura que os comentaristas não destacam: a única espada de Faraó que o livro menciona é a do mar. No cântico, o inimigo diz: "desembainharei a minha espada, a minha mão os desapossará" (Êxodo 15:9). E é no mesmo cântico, sete versículos antes, que aparece a outra metade da frase de Eliézer, "o Deus de meu pai" (Êxodo 15:2). As duas expressões do nome têm par exato no canto do mar.

Isso não prova que Eliézer tenha sido nomeado depois do mar — ele já existia muito antes. Mas mostra que a explicação, do jeito como está escrita em Êxodo 18:4, usa a língua do cântico. É plausível que o texto tenha formulado o agradecimento do pai com as palavras do livramento maior.

Quando o menino recebeu o nome?

A pergunta depende das respostas anteriores, e o texto não a responde. Nachmânides, no comentário a Êxodo 4:20, constrói uma cronologia completa: Zípora estava grávida quando Moisés viu a sarça; o menino nasceu quando Moisés voltou a Jetro, mas a pressa da missão não deixou tempo para circuncidá-lo nem para dar-lhe nome; na noite do caminho a mãe o circuncidou e também não o nomeou; só depois, no Egito, vendo-se livre de todos os que o procuravam, Moisés o chamou Eliézer. O Pulpit Commentary supõe que o nome foi dado antes de Moisés mandar a família de volta. A Vulgata, como se viu no item 2, põe o nome em Midiã, junto ao de Gérson.

O que se pode afirmar

Que o segundo filho tem um nome de agradecimento, que a explicação atribui a Deus o fato de Moisés estar vivo, e que o perigo nomeado é "a espada de Faraó". A frase transforma em ato de Deus uma fuga que Êxodo 2:15 conta como ato de Moisés. Qual foi o perigo e quando o nome foi dado, não é possível decidir: a leitura da fuga tem por si a ordem dos fatos; a da morte do rei, o versículo de Êxodo 4:19; a do mar, as palavras do próprio cântico.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Eliézer, filho de Moisés

Segundo filho de Moisés e de Zípora. O Êxodo não narra o nascimento dele, e este é o único versículo do livro que o nomeia. Pela sequência do relato, ele já existia quando Moisés partiu de Midiã com "os filhos" (Êxodo 4:20). Nachmânides, apoiado em Shemot Rabá, e boa parte dos comentaristas cristãos identificam nele o menino que Zípora circuncidou na noite do caminho (Êxodo 4:25); outros pensam em Gérson. O texto não diz qual dos dois foi.

Fora do Êxodo, Eliézer tem uma descendência registrada. 1 Crônicas 23:17 informa que ele teve um único filho, Reabias, mas que "os filhos de Reabias foram muitíssimos". E 1 Crônicas 26:25-28 desce a linhagem até um certo Selomite, descendente de Eliézer por Reabias, que no tempo de Davi cuidava, com os irmãos, dos tesouros das coisas consagradas — o despojo de guerra que Samuel, Saul, Abner, Joabe e o próprio Davi tinham dedicado ao santuário. O filho cujo nome agradece por ter sido salvo de uma espada deu origem a uma família que guardava os despojos das espadas de Israel.

Os outros Eliézer da Bíblia

O nome é antigo e se repete. O primeiro é o servo de Abraão, "Eliézer de Damasco" (Gênesis 15:2), apontado como herdeiro antes do nascimento de Isaque. Depois aparecem um sacerdote que tocava trombeta diante da arca no tempo de Davi (1 Crônicas 15:24), um profeta que repreendeu o rei Josafá (2 Crônicas 20:37), um dos chefes que Esdras mandou buscar levitas (Esdras 8:16) e um Eliézer na genealogia de Jesus, em Lucas 3:29. Nenhum deles tem relação com o filho de Moisés além do nome.

O Faraó da espada

O rei que "procurou matar Moisés" em Êxodo 2:15. Morreu, segundo Êxodo 2:23, "muito tempo depois", e Deus o confirmou a Moisés em Êxodo 4:19: "morreram todos os que procuravam a sua vida". O Faraó do mar, de Êxodo 14 e 15, é outro rei. A frase de Eliézer fala de "Faraó" sem dizer qual, e é essa indefinição que permite as três leituras do item 3.

Moisés

O pai que nomeia, e o homem de quem o nome fala. A frase de Eliézer é, junto com a de Gérson, a única fala de Moisés sobre a própria vida que o Êxodo guarda dos anos de Midiã — se é de Midiã que ela vem. Uma diz o que ele era; a outra, por que ainda estava vivo.

5. Pontos de Ensino

1. Dois filhos, duas frases, dois momentos. Gérson resume o exílio sem Deus; Eliézer, o livramento com Deus. Lidos juntos, os nomes contam a passagem de Moisés da constatação para a gratidão.

2. A fuga vira livramento quando é contada de novo. Êxodo 2:15 narra a saída do Egito como ato de Moisés: ele fugiu. O nome de Eliézer conta o mesmo fato como ato de Deus: ele me livrou. O texto não corrige nenhuma das duas versões; põe as duas no livro.

3. O texto não diz de que espada. A fuga, a morte do rei e o mar são leituras possíveis, e cada uma tem apoio. As lendas que mostram a lâmina no pescoço de Moisés nasceram para preencher um vazio que o Êxodo deixou.

4. A língua do agradecimento é a do cântico. "O Deus de meu pai" e a "espada" de Faraó têm par exato no canto do mar (Êxodo 15:2 e 15:9). A explicação do nome fala a língua do maior livramento do livro.

5. Os dois filhos não são postos em hierarquia. O texto chama os dois de "o um". Nenhum é apresentado como primogênito, e nenhum herdará o cargo do pai.

6. Aspectos Filosóficos

Quem salvou Moisés: ele ou Deus?

Êxodo 2:15 conta a fuga com Moisés como sujeito: Faraó procurou matá-lo, "mas Moisés fugiu". O nome de Eliézer conta o mesmo fato com Deus como sujeito: "me livrou da espada de Faraó". Se Moisés fugiu, o que Deus fez? E se Deus livrou, a fuga foi mérito de quem? É uma das perguntas mais antigas da filosofia religiosa — a relação entre a providência divina e a ação humana —, e um pensador judeu da Idade Média a enfrentou com uma resposta que serve bem a este versículo.

Hasdai Crescas e a luz do Senhor

Hasdai Crescas (por volta de 1340 a 1410) foi rabino em Barcelona e depois em Saragoça, conselheiro dos reis de Aragão e chefe das comunidades judaicas do reino. Nos massacres de judeus de 1391, o filho único dele, recém-casado, foi morto em Barcelona, como ele mesmo conta numa carta. Quase vinte anos depois terminou a sua obra filosófica, Or Adonai ("A luz do Senhor", 1410), escrita em grande parte contra Aristóteles e contra os filósofos judeus que o seguiam, Maimônides à frente.

Dois temas da obra tocam o versículo.

A ação humana como causa

O primeiro é a escolha. Crescas sustenta que tudo o que acontece tem causas, inclusive as decisões humanas: uma coisa pode ser "possível em si mesma" e, ao mesmo tempo, "necessária pelas suas causas". Isso não torna inútil o esforço humano, argumenta ele, porque o esforço é justamente uma das causas. Quem pergunta "se estava determinado, por que agir?" esquece que a ação faz parte do que determina o resultado. E a vontade continua sendo de quem age: o que se pede ao ser humano é que consinta e se alegre com o bem que faz, não que escape da cadeia de causas.

Aplicado a Moisés, o raciocínio dissolve a falsa alternativa. A fuga foi ato de Moisés, decidido por ele, com medo verdadeiro ("Moisés teve medo", Êxodo 2:14). E foi, ao mesmo tempo, o caminho pelo qual ele foi livrado. As duas frases do Êxodo — "Moisés fugiu" e "Deus me livrou" — descrevem o mesmo acontecimento em níveis diferentes. Na linguagem de Crescas, a fuga é a causa próxima; o livramento é o nome que se dá à ordem inteira em que ela se encaixou.

A providência pelo amor

O segundo tema é a providência. Maimônides tinha ensinado que a proteção de Deus sobre cada pessoa é proporcional ao grau de conhecimento que ela alcança: quanto mais o intelecto se aproxima de Deus, mais protegido o indivíduo. Crescas rejeitou essa medida. Para ele o que liga o ser humano a Deus é o amor, não a inteligência, e é segundo o amor e a dedicação que a providência se exerce. O Deus de Crescas não é o pensamento que pensa a si mesmo, como em Aristóteles; é um Deus que ama e se alegra em fazer o bem.

A frase de Eliézer fala essa língua. Moisés não diz "a minha prudência me salvou", nem "Deus salva os sábios". Diz "o Deus de meu pai foi a minha ajuda". O livramento é descrito por uma relação de família — o Deus de um pai, ajudando um filho —, e não por um mérito.

O limite

Crescas escrevia como filósofo, com a dor de quem viu a espada alcançar o próprio filho, e a resposta dele não explica por que uns são livrados e outros não. O versículo também não explica. Ele registra o agradecimento de um sobrevivente, e o texto não faz dele regra: o Êxodo inteiro está cheio de gente que a espada de Faraó alcançou. Ler a frase de Eliézer com Crescas ajuda a ver que ela não nega a fuga de Moisés; não ajuda a transformar o livramento de um homem em promessa para todos.

7. Aplicações Práticas

Contar de novo o que se viveu. Moisés viveu uma fuga e, em algum momento, passou a chamá-la de livramento. Quem olha para trás e reconta um período difícil da própria vida pode fazer o mesmo caminho: o que foi vivido como sobrevivência, às pressas, pode ser reconhecido depois como cuidado. O versículo não obriga ninguém a essa leitura; mostra que ela é possível e que não apaga o esforço de quem fugiu.

Gratidão que fica escrita. Moisés não agradeceu só em oração: pôs o agradecimento no nome do filho, onde seria repetido a vida inteira. Há agradecimentos que só duram se ficarem registrados em algo que se usa todo dia — um nome, um costume, uma data guardada na família.

O agradecimento de um não é regra para todos. A frase é de um homem que sobreviveu. Ela não diz que todo perseguido escapa. Quem a usa para consolar alguém que perdeu uma pessoa para a violência deve lembrar que o próprio Êxodo começa com meninos que a ordem de Faraó não poupou.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O nome de Eliézer aprova a morte do egípcio?

Moisés fugiu porque matou um homem (Êxodo 2:12-15), e o nome do filho agradece a Deus por ele ter escapado da punição. Daí a pergunta: o agradecimento equivale a dizer que a morte do egípcio foi justa? O versículo não diz. Ele agradece pela vida de Moisés, não comenta o ato que pôs essa vida em risco. A avaliação moral daquele golpe pertence ao capítulo 2, e o Êxodo também ali se abstém de sentenciar.

Quem deu o nome, Moisés ou Zípora?

A explicação está em primeira pessoa e fala de "meu pai" e de "Faraó": quem fala é Moisés. O Pulpit Commentary supõe que Zípora tenha deixado o menino sem nome na noite em que o circuncidou e que Moisés tenha completado a falta depois. É conjectura. O versículo atribui a frase ao pai, como fez com Gérson.

Eliézer viveu o que o nome dele agradece?

Não, se o nome se refere à fuga de Moisés, anterior ao nascimento dele. E também não, se se refere ao mar: pela informação do versículo 2, ele estava em Midiã quando Israel atravessou. O menino carrega o agradecimento por um livramento do pai que ele próprio não viu.

Há relação entre este Eliézer e o servo de Abraão?

Só o nome. Nenhum texto bíblico liga os dois, e o nome era comum o bastante para reaparecer em várias épocas. O sentido é o mesmo — "meu Deus é ajuda" —, e é curioso que nas duas vezes ele apareça ligado a uma questão de herança e de filhos: o Eliézer de Abraão é o herdeiro que um filho vai substituir; o de Moisés é um filho que não herdará o cargo do pai.

9. Conexão com Outros Textos

A fuga que o nome agradece

Êxodo 2:15 — "Faraó ficou sabendo do caso e procurou matar Moisés; mas Moisés fugiu da presença de Faraó e foi morar na terra de Midiã. Lá se sentou junto a um poço."

O mesmo acontecimento, contado com Moisés como sujeito. Não há espada no versículo.

Êxodo 4:19 — "O SENHOR disse a Moisés, em Midiã: 'Volte ao Egito, porque morreram todos os que procuravam a sua vida.'"

O versículo em que Ibn Ezra situa o nome de Eliézer: o livramento como notícia da morte do perseguidor.

Êxodo 4:11 — "E o SENHOR lhe disse: 'Quem fez a boca do homem? Quem faz o mudo, o surdo, o que enxerga e o cego? Não sou eu, o SENHOR?'"

A pergunta que a Mekhilta lê como alusão à fuga de Moisés: os homens de Faraó teriam ficado mudos, surdos e cegos para que ele escapasse.

As duas expressões no cântico do mar

Êxodo 15:2 — "A minha força e o meu cântico é o SENHOR; ele se tornou a minha salvação. Este é o meu Deus, e eu o adornarei; o Deus de meu pai, e eu o exaltarei."

Êxodo 15:9 — "O inimigo disse: 'Perseguirei, alcançarei, repartirei o despojo; a minha alma se fartará deles; desembainharei a minha espada, a minha mão os desapossará.'"

"O Deus de meu pai" e a espada do inimigo, no mesmo canto. São as duas metades da explicação do nome de Eliézer.

O Deus do pai que ajuda

Gênesis 49:25 — "pelo Deus de seu pai, que o ajuda, e pelo Todo-Poderoso, que o abençoa com bênçãos dos céus lá do alto, com bênçãos do abismo que jaz embaixo, com bênçãos dos seios e do ventre."

Na bênção de Jacó a José, "o Deus de seu pai" e o verbo "ajudar" aparecem juntos, como no nome de Eliézer. É a mesma combinação, no futuro, para um filho que também viveu longe da família e foi livrado.

Salmo 146:5 — "Feliz aquele que tem o Deus de Jacó por sua ajuda, cuja esperança está no SENHOR, o seu Deus."

A mesma construção gramatical de Êxodo 18:4, "ter Deus como ajuda" (item 10), num salmo que contrapõe a ajuda de Deus à dos príncipes.

Outro Eliézer

Gênesis 15:2 — "Abrão respondeu: 'Senhor DEUS, que me darás, se continuo sem filhos, e o herdeiro da minha casa é Eliézer de Damasco?'"

A primeira ocorrência do nome na Bíblia, num servo que seria herdeiro na falta de filho.

A descendência

1 Crônicas 23:17 — "Os filhos de Eliézer: Reabias, o chefe. Eliézer não teve outros filhos; mas os filhos de Reabias foram muitíssimos."

O que a Bíblia registra do filho de Moisés depois do Êxodo.

A espada de Faraó, invertida

Ezequiel 32:31 — "Faraó os verá e se consolará por toda a sua multidão; mortos à espada estão Faraó e todo o seu exército, diz o Senhor DEUS."

Fora de Êxodo 18:4, é só aqui e no versículo seguinte que as palavras "espada" e "Faraó" aparecem lado a lado no hebraico. E aqui Faraó não empunha a espada: morre por ela.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

e o nome do outro era Eliézer, porque disse: “O Deus de meu pai foi a minha ajuda e me livrou da espada de Faraó.”

Texto hebraico

וְשֵׁם הָאֶחָד אֱלִיעֶזֶר כִּי־אֱלֹהֵי אָבִי בְּעֶזְרִי וַיַּצִּלֵנִי מֵחֶרֶב פַּרְעֹה׃

Transliteração

ve-shem ha-echad Eli'ezer, ki-Elohei avi be-ezri va-yatsileni me-cherev Par'oh.

Análise palavra por palavra

וְשֵׁם הָאֶחָד — ve-shem ha-echad, "e o nome do um".

A mesma expressão do versículo 3, repetida para o segundo filho. Ao pé da letra: "o nome do um era Gérson... e o nome do um era Eliézer". O hebraico podia ter escrito ha-sheni, "o segundo", como faz em Números 11:26 com Medade; aqui não escreveu. A Septuaginta (a tradução grega feita no Egito entre os séculos III e II antes de Cristo) corrigiu para "o segundo" (tou deuterou), e a ABC para "o outro". As leituras do detalhe estão no item 3.

אֱלִיעֶזֶר — Eli'ezer, "Eliézer".

Nome formado por Eli, "meu Deus", e ezer, "ajuda": "meu Deus é ajuda". A análise do nome e da palavra ezer foi feita no estudo de Gênesis 15:2, onde o nome aparece pela primeira vez. O que é próprio deste versículo é que a explicação reproduz as duas partes do nome, cada uma no seu lugar: Eli volta como Elohei avi, "o Deus de meu pai", e ezer volta como be-ezri, "a minha ajuda". É explicação por desdobramento, não por semelhança de som, como fora a de Gérson.

כִּי — ki, "porque".

Sem o verbo "disse", que a frase de Gérson tinha. Abraão ibn Ezra explica que o "disse" do versículo anterior vale também para este, e compara Gênesis 41:52.

אֱלֹהֵי אָבִי — Elohei avi, "o Deus de meu pai".

Elohei é a forma de Elohim, "Deus", ligada à palavra seguinte; avi é "meu pai", av com sufixo de primeira pessoa. As mesmas duas palavras, na mesma ordem, estão em Êxodo 15:2. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica lida nas sinagogas) mantém o singular, "o Deus de meu pai".

בְּעֶזְרִי — be-ezri, "a minha ajuda", literalmente "como minha ajuda".

Ezer, "ajuda", com o sufixo "minha" e a preposição be, que costuma significar "em". Aqui ela não indica lugar: é o uso que as gramáticas chamam de beth essentiae ("o beth da essência", em latim), em que a preposição apresenta a qualidade em que alguém age. "O Deus de meu pai [esteve] como a minha ajuda." O hebraico nem sequer põe o verbo "ser": a frase é nominal. Gesenius (hebraísta alemão do século XIX, autor da gramática de referência) cita este versículo entre os exemplos da construção, e o Salmo 146:5 tem a mesma forma, "feliz aquele que tem o Deus de Jacó por sua ajuda" (be-ezro).

O Targum de Ônquelos traduziu por be-sa'adi, "no meu amparo", com a palavra aramaica de apoio, a mesma família de "sustentar" e "escorar".

וַיַּצִּלֵנִי — va-yatsileni, "e me livrou".

Verbo natsal no Hifil (a forma causativa do verbo hebraico), "fazer escapar", "arrancar de", com o sufixo "me". É o verbo do livramento no Êxodo inteiro, e o capítulo 18 o repete quatro vezes nos versículos 8, 9 e 10, na boca de Moisés e de Jetro. O versículo 4 é a primeira ocorrência do capítulo, e a única em que quem é livrado é um homem, e não o povo.

מֵחֶרֶב פַּרְעֹה — me-cherev Par'oh, "da espada de Faraó".

Me é a preposição de origem, "de"; cherev, "espada", ligada a Par'oh, "Faraó". Cherev é a arma de lâmina em geral, da espada curta ao punhal; no Êxodo, é a palavra da ameaça (Êxodo 5:3, 5:21), da batalha (Êxodo 17:13) e da fala do inimigo no mar (Êxodo 15:9).

A expressão "espada de Faraó" não volta em nenhum outro lugar da Bíblia hebraica. As traduções antigas se dividem diante dela. A Septuaginta escreve "da mão de Faraó" (ek cheiros Pharaō), trocando a arma pelo poder, numa fórmula que lembra o "livrar da mão dos egípcios" do resto do capítulo. A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta do ano 400) mantém "da espada" (de gladio Pharaonis) aqui, mas no acréscimo a Êxodo 2:22, copiado do grego, traz "da mão" (item 2). O Targum de Ônquelos e o de Jônatas mantêm "da espada". O hebraico, que é o texto mais concreto, é o único que pede uma arma — e foi para dar conta dela que nasceram as lendas da execução de Moisés.

11. Conclusão

Com base no que foi exposto, a primeira conclusão é que o versículo completa a biografia de Moisés que o versículo 3 começou. Os dois nomes juntos dizem o que ele foi em Midiã: um homem de fora, e um homem que sabia estar vivo por ajuda de outro. O segundo nome tem Deus duas vezes onde o primeiro não tinha nenhuma, e é o par, não cada nome sozinho, que conta a história.

A segunda é que a frase de Eliézer reconta como livramento uma fuga que o Êxodo narrou como ato de Moisés. As duas versões ficam no livro, lado a lado, e nenhuma anula a outra: Moisés fugiu, e Deus o livrou. O versículo não explica como as duas coisas se combinam; registra que, para quem viveu, foram uma só.

A terceira é que o perigo nomeado não pode ser identificado com segurança. "A espada de Faraó" não aparece na cena da fuga, e as palavras da explicação têm par no cântico do mar. A fuga, a morte do rei e o mar continuam sendo três leituras possíveis, e as lendas da lâmina no pescoço de Moisés mostram o quanto os leitores antigos precisaram ver a espada que o texto só nomeia. O que fica firme é o agradecimento, escrito no nome de um menino que, ao chegar ao acampamento, carrega a gratidão do pai por um livramento que ele mesmo não viu.

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Êxodo 18:4

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