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Êxodo 17:13

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 13 acessos
E Josué abateu Amaleque e o seu povo ao fio da espada.
Vale pedregoso do deserto ao pôr do sol, com guerreiros amalequitas recuando em desordem para as colinas enquanto um jovem comandante israelita, de espada na mão, para à frente dos seus homens; no alto de uma colina ao fundo, contra o céu alaranjado, três figuras pequenas, a do meio sentada com os braços erguidos.

Estudo


E Josué abateu Amaleque e o seu povo ao fio da espada.

1. Introdução

A batalha termina numa frase de seis palavras hebraicas, e o crédito vai para quem lutou no vale: Josué. O verbo escolhido é raro — aparece só três vezes na Bíblia — e quer dizer "enfraquecer, prostrar", não "exterminar"; responde ao "prevalecia" do versículo 11. "Amaleque e o seu povo" deixa aberto quem estava do outro lado, e "ao fio da espada" diz que a vitória foi com arma, sem intervenção visível do céu. O versículo não conta mortos, não fala de despojo nem de Deus entregando o inimigo. Depois dele, o texto hebraico abre um parágrafo novo: a guerra acabou, e o que vem é a palavra sobre a memória.

2. Contexto Histórico e Cultural

Como terminava uma batalha antiga

Nas guerras antigas em campo aberto, a maior parte das mortes não acontecia enquanto as duas linhas se enfrentavam. Acontecia depois, quando uma delas cedia. Enquanto os combatentes estavam ombro a ombro, escudo com escudo, o choque produzia feridos e empurrões; quando um lado virava as costas e fugia, os perseguidores alcançavam homens desprotegidos. Vencer era fazer o outro lado se desfazer.

A Septuaginta (a tradução grega da Bíblia hebraica, feita no Egito a partir do século III a.C.) traduziu o verbo deste versículo exatamente com essa ideia: Josué "pôs em fuga" Amaleque. O verbo grego é o de "fazer virar": descreve o instante em que o inimigo dá as costas. A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta do ano 400) foi pelo mesmo caminho: fugavit, "afugentou". Para os dois tradutores, o versículo descreve o momento em que a linha de Amaleque se rompe, não um massacre.

O relato também não fala de perseguição. Em outras batalhas, a Bíblia segue os vencedores até longe: Abrão persegue os reis até Hobá, "ao norte de Damasco" (Gênesis 14:15); Josué persegue os amorreus pela subida de Bete-Horom (Josué 10:10). Aqui a batalha acaba ao pôr do sol, e o verso seguinte já é de Deus falando a Moisés. A noite fecha o combate antes de qualquer caçada.

Atingir os melhores

A Mekhilta de Rabi Ishmael (a mais antiga coletânea rabínica de comentário ao Êxodo, com material dos séculos II e III), no tratado Amaleque, seção 1, explica o "abateu" com um dado de tática: Rabi Yehoshua diz que Josué "desceu e cortou as cabeças dos seus heróis, os que estavam com ele nas fileiras da guerra". O Targum chamado de Pseudo-Jônatas (tradução aramaica livre do Pentateuco, com acréscimos explicativos) põe a mesma ideia dentro do próprio texto: Josué quebrou Amaleque "cortando as cabeças dos valentes do seu povo".

A leitura corresponde a um modo de guerrear conhecido do mundo bíblico. Os exércitos antigos dependiam de um núcleo de guerreiros de elite — os "valentes", os campeões —, e a queda deles desmanchava o resto. A Bíblia conhece o campeão que sai à frente das linhas, como Golias em 1 Samuel 17, e a cabeça do chefe inimigo levada como prova da vitória (1 Samuel 17:54; 31:9). Abater a elite e deixar o resto sem comando é vitória completa sem extermínio. É isso que Rashi, seguindo a Mekhilta, entende pelo verbo: Josué "não deixou senão os fracos entre eles, e não matou todos".

A linguagem do extermínio nos relatos de guerra

O que torna o versículo notável, quando posto ao lado dos relatos de guerra do Oriente antigo, é o que ele não diz. Os registros reais da época falam de vitórias totais. K. Lawson Younger, especialista norte-americano em história do Oriente antigo, mostrou em Ancient Conquest Accounts ("Relatos antigos de conquista", 1990) que os anais assírios, hititas e egípcios usam fórmulas fixas de aniquilação — "não deixei sobrevivente", "a semente deles não existe mais" — que são convenção do gênero, e não contagem. A estela de Merneptá, que já aparece no estudo de Gênesis 32:28 como a primeira menção de Israel fora da Bíblia, é o caso clássico: diz que Israel "está devastado, a sua semente não existe" — e Israel continuou existindo.

Parte da própria Bíblia usa a mesma linguagem. O livro de Josué repete, cidade após cidade, que "não deixou sobrevivente" (Josué 10:28-40). Êxodo 14:28 diz que do exército de Faraó "não ficou nem um deles". O versículo de Refidim, ao contrário, escolhe um verbo de enfraquecimento e não acrescenta nenhuma fórmula de totalidade. Se o texto quisesse dizer extermínio, tinha à mão o vocabulário da época para isso. Não o usou.

3. Análise Teológica do Versículo

"E Josué abateu"

O sujeito da vitória é Josué. Não é Moisés, cujas mãos ocuparam os dois versículos anteriores, e não é Deus. Depois de tanta atenção ao gesto no alto da colina, a frase que decide a batalha olha para o vale e dá o resultado a quem segurou a espada.

Isso chama atenção porque a Bíblia tem uma fórmula pronta para vitórias desse tipo, e ela não está aqui: "o SENHOR o entregou nas suas mãos". É a frase de Números 21:34, de Josué 10:30 e de dezenas de outras batalhas. Em Refidim, Deus não entrega Amaleque a ninguém. O versículo registra só a ação humana, e quem quiser ver ali a mão divina precisa buscá-la nos versículos 11 e 12 ou nos seguintes.

Os comentadores rabínicos sentiram a falta e a supriram. Rabi Eliezer, na Mekhilta, lê na expressão "ao fio da espada" — literalmente "à boca da espada" — uma alusão à "boca" de Deus: "para nos dizer que esta guerra foi pela palavra do Todo-Poderoso". O Targum Pseudo-Jônatas incorpora essa leitura à tradução, e diz que Josué venceu "pela boca da palavra do SENHOR". Rabi Yehoshua chega lá por outro caminho: se Josué matou só os guerreiros de elite e poupou os fracos no meio do combate, é porque agia por ordem expressa de Deus — ninguém, no calor da luta, faria por conta própria uma distinção dessas. O texto hebraico não tem nenhuma das duas ideias. Elas mostram que a frase sem Deus incomodou.

O verbo não é nenhum dos verbos comuns de matar ou de ferir; é uma palavra que só aparece mais duas vezes na Bíblia, sempre com o sentido de debilitar, deixar sem forças, prostrar. As traduções oscilam porque o português não tem um equivalente exato: "desbaratou", "derrotou", "prostrou", "venceu". A ABC escolheu "abateu", que guarda a ambiguidade do original — abater pode ser derrubar, pode ser enfraquecer, pode ser matar, e o hebraico deixa as três portas abertas.

O que a palavra não diz é "exterminou". E Amaleque não foi exterminado: o mesmo capítulo anuncia guerra contra ele "de geração em geração", e o povo reaparece em 1 Samuel 15, no tempo de Saul, e em 1 Samuel 30, quando um bando amalequita saqueia Ziclag. Uma tradução que faça deste versículo uma aniquilação contradiz o resto da Bíblia.

Há ainda uma resposta de palavras dentro do próprio episódio. O versículo 11 dizia que, conforme a mão de Moisés, Israel "prevalecia" ou Amaleque "prevalecia" — o verbo da força, do mais forte. O 13 fecha com o verbo da fraqueza. Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII) aponta o par: como antes estava escrito "Amaleque prevalecia", agora está escrito que Josué o "enfraqueceu". Força contra fraqueza, os dois polos de uma mesma balança. O detalhe tem consequência: o que se descreve não é a destruição de Amaleque, é a inversão de quem estava em cima.

"Amaleque e o seu povo"

Por que dois nomes, se Amaleque já é um povo? A dupla tem quatro explicações.

Primeira explicação: Amaleque é o chefe, e "o seu povo" são os guerreiros dele. É a leitura de Matthew Poole (comentarista puritano inglês do século XVII): o rei e o exército. Ela supõe que "Amaleque" pudesse designar o líder, como "Faraó" designa o rei do Egito.

Segunda explicação: Amaleque é o povo, e "o seu povo" são os aliados. Obadias Sforno (comentarista italiano do século XVI) diz que "o seu povo" é "o que se juntou de outros povos para guerrear"; o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) fala dos "amalequitas propriamente ditos e das tribos sujeitas a eles".

Terceira explicação: a dupla abrange toda a gente de Amaleque, inclusive quem não combatia. Rabi Eliezer, na Mekhilta, atribui a cada partícula da frase um grupo — os guerreiros, a mulher e os filhos. É a leitura mais violenta das quatro, e nasce de técnica de leitura, não do sentido da frase.

Quarta explicação: é som. Amaleq e ammo ("o seu povo") começam pelos mesmos sons, e a dupla pode ser simplesmente um modo enfático de dizer "Amaleque inteiro". É hipótese, plausível num texto que gosta de ecos sonoros, e não há como prová-la.

A Septuaginta tomou partido sem dizer: escreveu "Amaleque e todo o seu povo". O "todo" não está no hebraico. Com uma palavra, o tradutor grego aumentou o alcance da vitória.

"ao fio da espada"

A fórmula é a mesma que o Gênesis usa para o massacre de Siquém, e o seu sentido — a espada que tem "boca" e devora — está no estudo de Gênesis 34:26. Aqui o que pesa é o contraste com o verbo.

"Ao fio da espada", em quase todas as cerca de cinquenta ocorrências, acompanha cidade tomada e população morta. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) diz que a expressão "sempre denota grande matança"; a Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) traduz por "sem quartel", isto é, sem poupar ninguém. Mas o verbo deste versículo é de enfraquecimento. A frase junta, portanto, uma palavra branda e uma fórmula dura, e cada leitor puxou para um lado.

A tradição judaica puxou para o lado da contenção. A mesma Mekhilta que viu a palavra de Deus na "boca" da espada registra outra frase de Rabi Yehoshua: Josué "não os mutilou, mas os julgou com misericórdia". A espada matou, mas não profanou corpos. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) puxaram para o outro, lendo a batalha como figura de uma guerra sem trégua.

O texto não decide. Não diz quantos morreram, não diz se houve perdas em Israel, não diz o que aconteceu com quem fugiu. A ausência de números é ela mesma um dado: num livro que conta 600 mil homens a pé (Êxodo 12:37), a primeira batalha não tem contagem nenhuma.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Josué. É a primeira vitória dele. Entrou no relato dois versículos antes, sem pai e sem tribo, recebendo de Moisés a ordem de escolher homens; agora fecha a batalha com o nome como sujeito do verbo. O homem que comandará a entrada em Canaã começa a carreira assim: num combate defensivo, com gente recrutada na véspera, e com uma vitória que o texto mede em enfraquecimento, não em conquista.

Amaleque. Aqui é o povo, não o antepassado. Sai de Refidim derrotado e não destruído — tanto que, ainda no deserto, volta a atacar Israel junto com os cananeus (Números 14:45). A origem do povo e a sua história posterior estão no estudo de Gênesis 36:12.

"O seu povo". Os combatentes de Amaleque, os aliados que se juntaram a ele ou a população inteira, conforme a leitura (item 3). O texto não dá número, nem nome de chefe, nem descrição.

Os combatentes de Israel. Não aparecem como sujeito no versículo, mas estão nele: a espada não é de Josué sozinho. São os "homens" que ele escolheu no versículo 9 — gente que saíra do Egito poucas semanas antes, sem tradição militar. O texto não diz quantos eram nem se alguém morreu.

Refidim. O lugar da batalha, o mesmo da falta de água. O versículo não o nomeia, mas a cena não mudou de lugar desde o versículo 8.

A batalha. A primeira guerra de Israel como povo, e a primeira em que Israel luta. No mar, Moisés tinha dito ao povo que o SENHOR lutaria por eles e que eles ficariam calados (Êxodo 14:14). Em Refidim, há espada na mão de israelitas. A mudança acontece sem comentário.

5. Pontos de Ensino

1. O mérito vai para quem lutou. O versículo não transfere a vitória para o homem do alto da colina. O gesto de Moisés teve o seu lugar nos versículos anteriores; o resultado é registrado em nome de quem esteve no vale. A leitura devocional que faz da batalha apenas uma lição sobre oração esquece esta frase.

2. Vencer não é aniquilar. O texto escolheu um verbo de enfraquecimento quando tinha à disposição verbos e fórmulas de destruição total. A primeira vitória militar de Israel é descrita como a inversão da força, não como o fim do inimigo. Quem lê o versículo como modelo de guerra total lê o que ele não diz.

3. A guerra é defensiva. Amaleque veio e atacou (versículo 8). Josué sai para responder. Nada no relato sugere expansão, conquista de território ou captura de bens. Isso não torna a violência inocente, mas define o tipo de batalha que o texto narra.

4. O versículo não fala de Deus, e os leitores falaram por ele. O versículo não diz que o SENHOR entregou o inimigo. Os rabinos acrescentaram a "boca" de Deus na espada; os tradutores acrescentaram outras coisas. O leitor honesto registra o que o texto diz e o que lhe foi acrescentado, e não confunde os dois.

5. Não há celebração da matança. Nem número de mortos, nem despojo, nem cântico. O cântico do mar (Êxodo 15) celebrou o afogamento dos egípcios com detalhes; o fim da batalha de Refidim é seco. O que vem logo depois não é festa, é uma ordem de escrever.

6. A vitória não encerra o conflito. O inimigo enfraquecido continua existindo, e o próprio capítulo prevê guerra futura. O versículo descreve uma batalha ganha, não uma questão resolvida.

6. Aspectos Filosóficos

Uma guerra pode ser justa? E, se pode, até onde ela pode ir? O versículo não formula essas perguntas, mas as põe em cena: um povo atacado se defende, vence, e o texto descreve a vitória com um verbo que fica aquém do extermínio. É a matéria-prima de toda a discussão ocidental sobre os limites da guerra.

Norberto Bobbio (1909-2004), filósofo do direito e da política italiano, professor em Turim, dedicou a essa discussão um dos seus livros mais lidos, O problema da guerra e as vias da paz (1979), que nasceu de aulas universitárias. Bobbio parte de uma constatação: o pensamento ocidental tratou a guerra quase sempre como algo que precisa ser justificado. E classifica as justificações. Há as que veem na guerra um bem — motor de progresso, escola de virtudes —, e há as que a tratam como mal, mas mal menor, aceitável em certas condições. A segunda família é a da doutrina da guerra justa, que vem da Antiguidade e da Idade Média e dominou o direito internacional por séculos.

Na doutrina da guerra justa, a defesa contra uma agressão é a causa mais sólida de todas. E a doutrina não se contenta com a causa: exige também que os meios sejam proporcionais e que a guerra tenha um fim — que ela termine quando o agressor deixa de ameaçar. Uma guerra pode começar justa e tornar-se injusta pelo modo como é feita.

Lido com essas categorias, o versículo 13 é curioso. A causa, no relato, é defensiva: Amaleque veio e atacou. O meio é a espada. E o resultado descrito é o enfraquecimento do agressor, não a sua destruição. Se alguém quisesse ilustrar com um texto antigo a ideia de uma vitória limitada, encontraria aqui uma frase adequada. A Mekhilta, aliás, já tinha dado um passo nessa direção ao dizer que Josué "não os mutilou, mas os julgou com misericórdia" — uma restrição sobre o modo de combater, que é exatamente a segunda metade da doutrina.

Mas Bobbio é útil também porque não deixa a leitura ficar confortável. A tese central do livro é que a doutrina da guerra justa entrou em crise no século XX. Com as armas nucleares, nenhuma guerra entre grandes potências pode mais ser proporcional: o meio destrói qualquer fim. Bobbio chama a guerra, nessas condições, de "via bloqueada" — um caminho que já não leva a lugar nenhum. E a crise, para ele, não é só técnica: cada lado sempre se apresenta como o que se defende, e a justiça da causa, invocada pelos dois, deixa de decidir alguma coisa.

É aqui que o capítulo do Êxodo e a filosofia de Bobbio se tocam pelo lado incômodo. O versículo 13 descreve uma vitória limitada, mas os versículos seguintes falam de apagar a memória de Amaleque e de guerra "de geração em geração". O que começou como defesa é imediatamente projetado como hostilidade sem prazo. A guerra justa, na sua forma clássica, exige um fim; a que o capítulo anuncia não tem. Este estudo não desenvolve essa segunda parte, que pertence aos versículos finais do capítulo — mas registra que o mesmo relato contém as duas lógicas, e que a frase sóbria de Refidim é a mais próxima do que a tradição posterior chamou de limite.

Num artigo de jornal de 1983, que depois deu título à coletânea O terceiro ausente, Bobbio observou que a guerra é o estado das relações em que falta um terceiro acima das partes — um juiz ou um mediador. Em Refidim, não há terceiro. Há dois povos, e um Deus que o próprio texto põe de um dos lados.

Bobbio pensou a guerra entre Estados modernos, e o Êxodo narra um choque no deserto entre grupos sem Estado. Transpor categorias é útil para ver o que o texto faz; não serve para julgar o texto pelo direito de hoje, nem — muito menos — para aplicar o nome de Amaleque a qualquer povo atual. O que a comparação mostra é que o versículo, isolado, contém a ideia de uma vitória que para; e que essa ideia convive, no mesmo capítulo, com a ideia oposta.

7. Aplicações Práticas

Dar o crédito a quem fez o trabalho. Depois de dois versículos sobre o homem do alto da colina, o resultado é registrado em nome de quem esteve no vale. Em qualquer empreendimento em que alguém coordena e outros executam, a frase é um lembrete prático: o relato da vitória precisa conter o nome de quem a obteve no chão.

Saber parar. O verbo do versículo descreve uma vitória que muda a relação de forças e não vai além. Conflitos de trabalho, de família, de vizinhança têm esse ponto: aquele em que o outro já não ameaça. Continuar depois dele raramente é defesa. O versículo não formula a regra, mas descreve uma vitória que para nesse ponto.

Ler com cuidado os textos de guerra. Quem usa a Bíblia para falar de luta espiritual, de inimigos e de vitórias costuma passar direto por versículos como este. Repare no que ele não diz: não fala de extermínio, não celebra mortes, não conta cadáveres. Usar esta frase como licença para destruir quem se considera inimigo é ler o que ela não contém.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Quantos amalequitas morreram?

O texto não diz, e nenhuma fonte antiga diz. A fórmula "ao fio da espada" sugere mortes; o verbo "abateu" sugere derrota sem aniquilação. As leituras rabínicas vão de "só os campeões" (Rabi Yehoshua) a "todos, inclusive mulheres e crianças" (Rabi Eliezer, pela decomposição das palavras), e nenhuma delas é informação: são interpretações do mesmo silêncio.

E quantos israelitas morreram?

Também não se sabe. O versículo 11 diz que, quando a mão baixava, Amaleque prevalecia — o que supõe momentos de recuo e, provavelmente, baixas. O texto não as registra. Relatos de vitória, na Bíblia e fora dela, raramente contam os próprios mortos; a exceção bíblica mais clara é Josué 7:5, os trinta e seis mortos de Ai, contados porque a derrota tinha causa a ser descoberta.

Por que não houve despojo?

O texto não fala de despojo, e o silêncio pode ter mais de uma razão. Amaleque é apresentado como grupo que vem atacar, não como cidade com bens a tomar; um bando em movimento leva pouco. Pode ser também que o relato simplesmente não se interesse. O contraste é com Números 31, onde a guerra contra Midiã termina com uma lista minuciosa de despojos e com regras para reparti-los. Em Refidim, nada.

Josué agiu por conta própria ou por ordem de Deus?

No versículo 9, Josué agiu por ordem de Moisés, e o texto não registra ordem divina para a batalha. A ideia de que ele lutou "pela palavra do Todo-Poderoso" é dos rabinos (item 3). O que se pode dizer é que a ordem de Deus só aparece depois, no versículo 14, e diz respeito à memória, não ao combate.

Por que o texto passa direto da vitória para Deus falando, sem festa?

No manuscrito hebraico, o versículo termina com uma marca de parágrafo (item 10). A batalha é uma unidade fechada; o que vem em seguida é outra. A falta de celebração pode ser estilo de prosa — o Êxodo celebra em poesia, e o cântico do mar já cumpriu essa função —, ou pode indicar que o centro do episódio não é a vitória, mas o que se fará com a lembrança dela. As duas explicações são plausíveis.

9. Conexão com Outros Textos

As outras duas vezes do verbo

Jó 14:10 — "Mas o homem morre e fica prostrado; o ser humano expira, e onde está ele?"

O mesmo verbo de "abateu", agora sem objeto: é o homem que fica sem forças, estendido. Ibn Ezra aproxima as duas ocorrências para dizer que a palavra pode ser transitiva (enfraquecer alguém) ou não (enfraquecer-se). Em Jó, o enfraquecimento é a morte; em Refidim, a palavra deixa em aberto até onde ele foi.

Isaías 14:12 — "Como você caiu do céu, estrela da manhã, filho da alva! Como foi lançado por terra, você que abatia as nações!"

O conquistador que "abatia" povos agora está no chão. A única outra ocorrência de sentido militar do verbo está num poema sobre a queda de quem o praticava.

A força e a fraqueza no mesmo episódio

Êxodo 17:11 — "E acontecia que, quando Moisés levantava a mão, Israel prevalecia; e quando baixava a mão, Amaleque prevalecia."

O verbo da força, duas vezes, e logo depois, no 13, o da fraqueza. A batalha é narrada como uma balança.

Êxodo 32:18 — "Mas Moisés respondeu: 'Não é o som de quem canta vitória, nem o som de quem grita derrota; é som de canto que eu ouço.'"

A palavra traduzida por "vitória" vem da raiz de "prevalecia"; a traduzida por "derrota" vem da raiz de "abateu". O par volta, e de novo com Josué em cena: é ele quem, descendo do monte com Moisés, acha que o barulho do acampamento é de guerra. Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, França, século XII) explica o verbo deste versículo justamente por esse grito de "derrota". O único homem do Êxodo que conhecia na prática o som de uma batalha é o vencedor de Refidim.

Joel 3:10 — "Forjem espadas das suas relhas de arado e lanças das suas podadeiras; o fraco diga: 'Eu sou forte.'"

O "fraco" é um adjetivo da mesma raiz; o "forte", da raiz de "prevalecer". O profeta junta os dois polos numa frase só, convocando para a guerra quem não teria forças para ela. (Na Bíblia hebraica, este versículo é Joel 4:10.)

A espada que tem boca

Gênesis 34:26 — "Mataram ao fio da espada Hamor e o seu filho Siquém, tiraram Diná da casa de Siquém e saíram."

A primeira vez da fórmula na Bíblia, num massacre que o próprio Jacó condena (Gênesis 34:30; 49:5-7). A mesma expressão, em Refidim, acompanha um verbo muito mais contido.

Quando o texto quer dizer extermínio, ele diz

Êxodo 14:28 — "As águas voltaram e cobriram os carros e os cavaleiros de todo o exército de Faraó, que tinham entrado atrás deles no mar; não ficou nem um deles."

Josué 10:28 — "Naquele dia Josué tomou Maquedá e a feriu ao fio da espada, e ao seu rei; destruiu totalmente a cidade e todos os que nela estavam; não deixou nenhum sobrevivente."

O mesmo Josué, a mesma fórmula da espada, e agora com a declaração de totalidade que falta em Refidim. A comparação mostra que o vocabulário do extermínio estava disponível, e que o Êxodo 17:13 não o usou.

Amaleque depois de Refidim

1 Samuel 30:17 — "Davi os feriu desde o crepúsculo até a tarde do dia seguinte, e nenhum deles escapou, a não ser quatrocentos jovens que montaram em camelos e fugiram."

Gerações depois, Amaleque ainda existe — e mesmo numa vitória de Davi descrita com "nenhum escapou", quatrocentos escapam. A própria Bíblia desmente, por dentro, a ideia de que um destes combates tenha posto fim ao povo.

A vitória dada pelo SENHOR

Números 21:34 — "Mas o SENHOR disse a Moisés: 'Não tenha medo dele, porque eu o entreguei nas suas mãos, a ele, a todo o seu povo e à sua terra.'"

A fórmula que o versículo de Refidim não usa. Em outras batalhas do deserto, a vitória é declarada como entrega divina; aqui é atribuída só ao braço de Josué.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E Josué abateu Amaleque e o seu povo ao fio da espada.

Texto hebraico

וַיַּחֲלֹשׁ יְהוֹשֻׁעַ אֶת־עֲמָלֵק וְאֶת־עַמּוֹ לְפִי־חָרֶב׃

Transliteração

va-yachalosh Yehoshua et-Amaleq ve-et-ammo le-fi-charev.

Análise palavra por palavra

וַיַּחֲלֹשׁ — va-yachalosh, "e abateu".

Verbo da raiz ch-l-sh, no Qal (a forma simples do verbo hebraico), terceira pessoa do masculino singular, na forma que encadeia a narrativa. É a palavra central do versículo, e uma das mais raras do vocabulário militar da Bíblia: o verbo aparece só três vezes em todo o Antigo Testamento — aqui, em Isaías 14:12 e em Jó 14:10.

O sentido básico é "ser fraco, enfraquecer". Em Jó, o homem que morre "fica prostrado"; em Isaías, o rei da Babilônia "abatia as nações". A raiz produziu mais duas palavras, cada uma também de ocorrência única: o adjetivo challash, "fraco", em Joel 3:10 ("o fraco diga: eu sou forte"), e o substantivo chalushah, "derrota", em Êxodo 32:18. No hebraico pós-bíblico e no moderno, chalash é a palavra comum para "fraco" — o sentido de fraqueza é o que a raiz conservou.

Ibn Ezra observa que o verbo tem aqui uma vocalização diferente da de Jó (va-yachalosh aqui, va-yechelash lá) e que as duas formas são equivalentes, como em outros verbos que variam entre uma vogal e outra. E nota que a raiz, como alguns verbos hebraicos, pode ter objeto ou não ter: aqui Josué enfraquece alguém; em Jó, o homem enfraquece.

As versões antigas traduziram cada uma a seu modo. Além do "pôs em fuga" grego e latino (item 2), o Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá nas sinagogas) escolheu "quebrou" (tabbar), e o Pseudo-Jônatas também. Rashbam explica com uma palavra só: "venceu-os". Nenhuma das traduções antigas escolheu "matou".

יְהוֹשֻׁעַ — Yehoshua, "Josué".

O nome como sujeito do verbo, logo depois dele, na ordem normal da prosa hebraica. É a primeira vez que Josué é sujeito de um verbo de vitória.

אֶת־עֲמָלֵק וְאֶת־עַמּוֹ — et-Amaleq ve-et-ammo, "Amaleque e o seu povo".

Et é a partícula que marca o objeto direto em hebraico; não se traduz. Aparece duas vezes, uma diante de cada nome, o que dá aos dois o mesmo peso: não é "Amaleque com o seu povo", é "Amaleque e também o seu povo".

Ammo é am, "povo", com o pronome possessivo da terceira pessoa masculina: "o povo dele". O pronome trata Amaleque como uma pessoa que tem um povo — exatamente como a Bíblia fala de Faraó e "o seu povo" (Êxodo 8:4) ou de Ogue e "todo o seu povo" (Números 21:34). Daí a leitura de Amaleque como chefe.

Há também um eco de som: Amaleq e ammo começam ambos pela consoante ayin seguida de m. Se o eco é intencional, não é possível decidir; que ele está no texto, está.

לְפִי־חָרֶב — le-fi-charev, "ao fio da espada".

Literalmente, "segundo a boca da espada". A fórmula, com a imagem da espada que devora, está analisada no estudo de Gênesis 34:26.

O que as versões fizeram com ela neste versículo é o que interessa aqui. A Septuaginta trocou a imagem por um termo direto: "em matança de espada". O Targum de Ônquelos manteve a "boca", mas a leu como "palavra": le-fitgam de-charev, "pela palavra da espada" — o mesmo deslizamento entre boca e palavra que a Mekhilta usa para dizer que a guerra foi "pela boca" de Deus. O Pseudo-Jônatas fez as duas coisas: Josué venceu "pela boca da palavra do SENHOR, com matança de espada".

A marca de parágrafo

Depois da última palavra, o texto massorético (o texto hebraico padrão, fixado pelos escribas da Idade Média) traz a letra pe, sinal de "parágrafo aberto": o resto da linha fica em branco no rolo da Torá, e o texto recomeça na linha seguinte. É a divisão mais forte que o rolo conhece. A batalha, que começou no versículo 8, fecha aqui; o versículo 14 abre unidade nova, com Deus falando.

11. Conclusão

Com base no que foi exposto, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que a vitória de Refidim é contada como obra humana. O texto podia ter atribuído o resultado a Deus, como faz em outras batalhas, ou ao gesto de Moisés, que ocupou os versículos anteriores. Atribuiu-o a Josué. A leitura que vê no episódio apenas a eficácia de um gesto no alto da colina precisa lidar com uma frase final que olha para o vale.

A segunda é que o texto mede a vitória pela mudança de forças, não pelo número de mortos. Entre todas as palavras que tinha à disposição, escolheu a mais rara e a mais contida, e não acrescentou nenhuma fórmula de totalidade. As traduções e as leituras posteriores ampliaram ou restringiram a violência da frase — a Septuaginta acrescentou "todo", Rabi Eliezer estendeu o alcance a mulheres e filhos, Rabi Yehoshua o limitou aos campeões e falou em misericórdia. O hebraico ficou no meio, e é dele que se deve partir.

A terceira é que o fim da batalha não é o fim da história. Um inimigo enfraquecido continua existindo, e o próprio texto, ao fechar o parágrafo, deixa a palavra seguinte para Deus — que não vai falar da vitória, mas da memória. O versículo 13 é o ponto em que o relato militar termina e o problema começa.

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Êxodo 17:13

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Novo Testamento774 / 7.957 9,73%