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Êxodo 17:11

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 23 min de leitura·👁 15 acessos
E acontecia que, quando Moisés levantava a mão, Israel prevalecia; e quando baixava a mão, Amaleque prevalecia.
No alto de uma colina, ao entardecer, Moisés idoso ergue um braço com o cajado na mão enquanto, no vale abaixo, duas tropas se enfrentam numa nuvem de poeira.

Estudo


E acontecia que, quando Moisés levantava a mão, Israel prevalecia; e quando baixava a mão, Amaleque prevalecia.

1. Introdução

O versículo descreve uma alternância que se repetiu ao longo do dia: quando Moisés levantava a mão, Israel prevalecia; quando a baixava, prevalecia Amaleque. Não diz por quê, não diz que Moisés orava, não diz o que o cajado fazia. Os leitores responderam de quatro maneiras: era oração; o gesto tinha força por si; era um sinal para a tropa; ou, como quer a Mishná, a mão não fazia nada, e o que decidia era para onde o povo olhava. E a mão aqui é uma só — no versículo seguinte, serão as mãos.

2. Contexto Histórico e Cultural

Um versículo de guerra num tratado sobre o Ano Novo

A leitura mais influente deste versículo não está num comentário ao Êxodo. Está na Mishná (a primeira grande compilação da lei oral judaica, fechada por volta do ano 200), no tratado Rosh Hashaná, dedicado ao Ano Novo judaico — e chega lá por causa do shofar, o chifre de carneiro que se toca nessa festa.

O capítulo 3 do tratado discute uma questão de lei: quem ouve o toque do shofar cumpre a obrigação só por ouvir, ou precisa ter a intenção de cumprir? A Mishná 3:7 dá um caso. Um homem passa por trás de uma sinagoga, ou mora ao lado dela, e ouve o shofar. Se dirigiu o coração, cumpriu; se não dirigiu, não cumpriu. Dois homens ouviram o mesmo som, e só um deles cumpriu, porque só um deles prestou atenção.

Logo em seguida, a Mishná 3:8 cita o nosso versículo e pergunta: "E as mãos de Moisés faziam a guerra, ou quebravam a guerra?". A resposta: "Isto é para dizer a você que, enquanto Israel olhava para o alto e submetia o coração ao seu Pai que está nos céus, prevalecia; e, se não, caía". E acrescenta um segundo caso, a serpente de bronze de Números 21:8: "E a serpente matava, ou a serpente dava vida? Mas, quando Israel olhava para o alto e submetia o coração ao seu Pai que está nos céus, era curado; e, se não, definhava". Depois disso, a Mishná volta à lei: o surdo-mudo, o demente e o menor não podem tocar o shofar pela comunidade, porque quem não tem a obrigação não pode cumpri-la pelos outros.

A moldura explica a leitura. O versículo de Refidim entra num capítulo inteiro sobre intenção, entre dois casos de lei em que o mesmo ato exterior vale ou não vale conforme o que se passa por dentro de quem o pratica. A mão de Moisés, como o som do shofar, é um sinal exterior; o que decide é o coração de quem o recebe. O Talmude da Babilônia, ao comentar essa Mishná (Rosh Hashaná 29a), não acrescenta nada à interpretação, e Rashi, no comentário ao Êxodo, simplesmente remete o leitor para lá.

A versão da Mekhilta: três casos, e uma leitura dissidente

A Mekhilta de Rabi Ismael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo, compilado provavelmente entre os séculos III e IV), no tratado Amaleque, seção 1, traz a mesma pergunta com outras palavras: "As mãos de Moisés fortaleciam Israel ou quebravam Amaleque?". A resposta muda o verbo: sempre que Moisés levantava a mão, Israel "olhava para ela e cria naquele que tinha mandado Moisés fazer assim", e Deus fazia milagres por eles. A Mishná fala de submeter o coração; a Mekhilta fala de crer.

E a lista da Mekhilta tem três casos, não dois. Depois da mão e da serpente, vem o sangue da Páscoa: "o sangue faz alguma coisa ao anjo, ou a Israel?" — não; quando Israel o pôs nas portas, Deus teve compaixão deles. Os três objetos — a mão erguida, a serpente na haste, o sangue nos umbrais — são postos na mesma categoria: sinais visíveis que não agem por si.

Na mesma seção, Rabi Eliezer propõe outra coisa. Para ele, quando Moisés levantava as mãos, Israel se fortalecia "nas palavras da Torá que seriam dadas pelas mãos dele"; quando as baixava, Israel enfraquecia nelas. A guerra contra Amaleque vira uma alegoria do estudo, e a mão de Moisés, a mão que vai receber a Lei no Sinai.

O gesto das mãos erguidas como postura de oração, conhecido no Egito e na Mesopotâmia, está tratado no estudo de Êxodo 9:29.

3. Análise Teológica do Versículo

"E acontecia que"

O versículo não conta um momento; conta uma repetição. A forma verbal com que ele começa é a que o hebraico usa para o que acontecia de novo e de novo: "sempre que… então". A batalha não virou uma vez só. Oscilou o dia inteiro, e a oscilação acompanhava a mão de Moisés como uma sombra.

Isso muda o que o versículo descreve. Não é um milagre único, como a água da rocha, e sim uma regularidade observada: alguém — Moisés, Arão, Hur, os combatentes — percebeu, ao longo das horas, que as duas coisas andavam juntas. O texto registra a correlação e não diz como ela foi descoberta, nem se Moisés a conhecia de antemão. No versículo 9, ele anunciou o cajado, não o gesto.

"quando Moisés levantava a mão"

O que a mão levantada fazia? O versículo não responde, e a pergunta tem uma história longa. São quatro respostas principais.

Primeira leitura: Moisés orava. É a mais antiga e a mais difundida. O Targum Pseudo-Jônatas (paráfrase aramaica da Torá, de redação tardia) escreve "quando Moisés levantava as mãos em oração" e "quando descansava a mão da oração". Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) diz que o cajado era aquele com que Moisés levantaria a mão para orar. Ramban (Moisés ben Nachman, comentarista judeu catalão do século XIII) cita os Capítulos de Rabi Eliezer (obra narrativa judaica do século VIII ou IX): o povo saiu das tendas, viu Moisés ajoelhado e se ajoelhou, viu-o prostrado e se prostrou, viu-o de mãos abertas para o céu e abriu as mãos — "como o que conduz a oração faz, assim o povo responde depois dele". Os comentaristas cristãos clássicos seguem a mesma linha: para Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX), o versículo ensina "a eficácia da oração de intercessão".

A dificuldade é que o texto não menciona oração. Moisés não diz nada em todo o episódio, e o verbo "orar" ou "clamar", que o capítulo usou quatro versículos antes ("Moisés clamou ao SENHOR", Êxodo 17:4), não aparece aqui. Brevard Childs (estudioso norte-americano do Antigo Testamento, autor de um comentário ao Êxodo de 1974) trata a passagem justamente como o lugar em que a leitura da oração e a leitura do gesto eficaz por si mesmo disputam o mesmo texto. A oração é plausível, mas é preenchimento.

Segunda leitura: o gesto tinha força por si mesmo. Lido ao pé da letra, o versículo descreve um mecanismo: mão em cima, vantagem de Israel; mão embaixo, vantagem de Amaleque, sem nenhuma intermediação. É o que se esperaria de um gesto mágico, eficaz pelo próprio movimento. Parte da crítica moderna vê aqui uma camada antiga da história, anterior à leitura piedosa. E a própria tradição judaica pensou em termos de força contra força: Rashi (Rabi Salomão ben Isaque, comentarista judeu francês do século XI) conta, no versículo 9, que se escolheram homens capazes de desfazer feitiçaria "porque os filhos de Amaleque eram feiticeiros". Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) recusam essa leitura: o cajado não transmitia poder aos combatentes. Mas a recusa é teológica; o texto, sozinho, não a impede.

Terceira leitura: era um sinal para a tropa. Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, comentarista do século XII), que vivia no norte da França, explica com o que conhecia das guerras do seu tempo: quando os combatentes veem o estandarte erguido, criam coragem; quando o veem caído, fogem. Ele usa até a palavra do francês antigo para o estandarte de guerra, o gonfanon, escrita em letras hebraicas. Ibn Ezra responde com uma objeção prática: se fosse só isso, Arão ou Hur poderiam segurar o cajado, ou fincá-lo num lugar alto, e Moisés não precisaria cansar os braços. O gesto do comandante que, do alto, dá o sinal sem lutar — o de Josué com o dardo diante de Ai — está no estudo de Êxodo 9:22.

Quarta leitura: a mão não fazia nada, e o que decidia era o olhar do povo. É a resposta da Mishná e da Mekhilta (item 2), e ela tem uma consequência teológica forte. A causa da vitória sai de Moisés e passa para os combatentes. A mão erguida vira um ponto para onde olhar, e o que vence é a direção do coração de quem olha. Ibn Ezra, depois de recusar a leitura do estandarte, declara que "o certo é o que disseram os nossos antigos" — e cita esta.

O limite dessa quarta leitura precisa ser dito. O versículo diz "quando Moisés levantava a mão", não "quando o povo olhava". A Mishná põe entre a mão e a vitória um elo — o olhar, a submissão do coração — que o texto não menciona. Ela resolve o escândalo de uma vitória que depende de um braço, mas resolve acrescentando.

"Israel prevalecia"

O verbo não é "vencia". É "prevalecia", "levava vantagem", e o mesmo verbo serve aos dois lados. Nenhum dos dois vence neste versículo; os dois alternam a superioridade. O desfecho só vem no versículo 13, e com outro verbo.

A simetria é completa: "quando levantava… Israel prevalecia; quando baixava… Amaleque prevalecia". O texto não dá a Israel nenhuma vantagem de origem. Sem a mão erguida, Amaleque é o mais forte. A batalha, entregue a si mesma, estava perdida.

"e quando baixava a mão"

O verbo hebraico não é "baixar" no sentido de largar ou desistir. É "fazer descansar", "deixar repousar" (item 10). O texto não acusa Moisés de negligência; descreve o braço que descansa. O Targum Pseudo-Jônatas conserva a nuance: "quando descansava a mão da oração".

Por que ele a deixava descansar? Ramban dá duas respostas. Pelo sentido simples: por cansaço, porque as mãos pesavam; ele viu que Amaleque avançava e pediu a Arão e Hur que as sustentassem. E cita o Sefer ha-Bahir ("Livro da Claridade", obra da mística judaica que circulou na Provença no século XII), segundo o qual Moisés não deixava Amaleque vencer de propósito: é que ninguém pode permanecer três horas seguidas com as palmas estendidas para o céu. Na primeira explicação, o corpo cede; na segunda, uma regra de oração obriga a pausa.

"a mão"

No hebraico, a mão é uma só, nas duas metades do versículo. No versículo seguinte, serão "as mãos de Moisés", no plural, que ficam pesadas. As traduções antigas puseram o plural já aqui (item 10).

Há duas explicações para o singular. Uma: Moisés segurava o cajado numa mão, como anunciou no versículo 9 ("com o cajado de Deus na mão"), e é essa mão, a do cajado, que sobe e desce. Outra: o singular é só um modo de falar, e Moisés levantava os dois braços desde o começo; Keil e Delitzsch insistem que Arão e Hur sustentaram as duas mãos ao mesmo tempo. Ramban, como se viu, imagina uma passagem de uma coisa à outra: primeiro o cajado estendido, depois as palmas abertas. O texto não permite decidir, mas registra a passagem do singular ao plural no exato momento em que o gesto se torna pesado.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés e a série das mãos

Moisés tem oitenta anos (Êxodo 7:7). Desde o começo do livro, o gesto da mão marca os momentos em que Deus age por meio dele. Em Êxodo 4:2-4 a mão segura o cajado que vira serpente; em Êxodo 7:19 e 8:5-6, Arão estende a mão sobre as águas do Egito; em Êxodo 9:22-23, 10:12-13 e 10:21-22, Moisés estende a mão para o céu ou sobre a terra, e vêm o granizo, os gafanhotos, a escuridão; em Êxodo 14:16, 21 e 26-27, ele estende a mão sobre o mar, e o mar se abre e se fecha.

Em todos esses casos, o gesto é feito uma vez, e o efeito segue. Refidim é diferente em dois pontos. Primeiro, o gesto não foi ordenado por Deus: ninguém mandou Moisés levantar a mão. Segundo, o efeito não segue o gesto uma vez; acompanha-o enquanto ele dura, e cessa quando ele cessa. A mão deixa de ser o gatilho de um acontecimento e passa a ser a condição contínua dele.

Israel e Amaleque

Os dois aparecem como sujeitos coletivos, no singular — "Israel prevalecia", "Amaleque prevalecia" —, como dois corpos. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá nas sinagogas antigas) prefere "os da casa de Israel" e "os da casa de Amaleque", deixando claro que se trata das pessoas, e não de nomes de antepassados.

Os leitores antigos

A Mishná do tratado Rosh Hashaná foi organizada por volta do ano 200 por Rabi Judá, o Príncipe, chefe da comunidade judaica da terra de Israel. A Mekhilta registra discussões de mestres do século II, como Rabi Josué e Rabi Eliezer. Rashbam e Ibn Ezra são do século XII, um no norte da França, outro na Espanha e na Itália; Ramban, do século XIII, na Catalunha. A pergunta "o que a mão fazia?" atravessou, portanto, pelo menos mil anos de leitura judaica sem uma resposta única.

5. Pontos de Ensino

O texto descreve e não explica. Mão em cima, vantagem de Israel; mão embaixo, vantagem de Amaleque. Toda explicação — oração, magia, sinal, fé do povo — foi acrescentada pelos leitores.

O gesto não foi ordenado. Nas pragas e no mar, Deus mandou Moisés estender a mão. Em Refidim, ninguém manda. A iniciativa é de Moisés, e a correlação aparece no meio da batalha.

A vitória dependia de algo que não estava no campo. Sem a mão erguida, Amaleque era mais forte. O texto não dá a Israel nenhuma superioridade própria.

A tradição deslocou a força para o coração. A Mishná transforma o versículo num ensino sobre intenção: o sinal exterior vale pelo que desperta em quem o vê. É uma leitura poderosa, e é leitura.

O descanso da mão não é condenado. O verbo do "baixar" é o do repouso. O texto não acusa Moisés; registra o limite do corpo e prepara a solução do versículo seguinte.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo põe lado a lado duas coisas de natureza diferente: um movimento do braço, que Moisés sente e controla, e uma mudança na batalha, que acontece longe dele e que ele só pode ver. A pergunta da Mishná — "as mãos de Moisés faziam a guerra?" — é, no fundo, uma pergunta sobre causa: o que sabemos de verdade quando dizemos que uma coisa produziu outra?

Maine de Biran e o sentimento do esforço

Maine de Biran (1766-1824), filósofo francês que foi também administrador e deputado, construiu toda a sua obra sobre uma experiência que todos têm e quase ninguém examina: a de fazer força. No Memorial sobre a decomposição do pensamento (Mémoire sur la décomposition de la pensée, 1804) e no Ensaio sobre os fundamentos da psicologia (Essai sur les fondements de la psychologie, escrito por volta de 1812), ele chamou de "fato primitivo" a consciência do esforço voluntário.

Quando levanto o braço, diz Biran, não percebo apenas que o braço subiu, como perceberia o movimento de uma coisa qualquer. Sinto que eu o levanto, e sinto que o braço resiste — pesa, cansa, cede. Nesse encontro entre a vontade e a "resistência orgânica" do próprio corpo, o eu se descobre como causa. Não deduzo que sou causa; sinto-me causando. Para Biran, é daí, e só daí, que vem a nossa ideia de causa e de força. Contra a tese empirista de que nunca percebemos uma causa, apenas uma coisa seguida de outra, ele respondia que há um caso em que a percebemos por dentro: o do nosso próprio esforço.

Mas esse conhecimento tem fronteira. O que sinto por dentro é a passagem da minha vontade ao meu braço. Do braço para fora — para a pedra que ele empurra, para o mundo que muda —, já não sinto nada; vejo, e infiro.

O que a ideia ilumina no versículo

O versículo traça exatamente essa fronteira. Há a mão de Moisés, que ele levanta e deixa descansar: aí está a causa que ele sente, com o peso que o versículo seguinte vai mostrar. E há o vale, onde Israel e Amaleque alternam a vantagem: aí está o efeito, que ele só vê de longe. Entre os dois não há nenhum contato físico, nenhuma corda, nenhuma ordem gritada. Há só a coincidência, repetida o dia inteiro.

As leituras do item 3 podem ser entendidas como maneiras diferentes de atravessar essa fronteira. A leitura mágica estende o esforço de Moisés até o vale, como se a força do braço passasse direto para os combatentes. A leitura da oração põe Deus no meio: o esforço de Moisés vai para cima, e o efeito vem de cima. A Mishná põe o povo no meio: o braço não age sobre a batalha, age sobre os olhos de quem luta. Nos três casos, o que Moisés sente é só o primeiro trecho do caminho.

E Biran ajuda a ver por que o cansaço importa. Para ele, o esforço só se conhece pela resistência que encontra; um braço que não pesasse não revelaria vontade nenhuma. O versículo descreve uma força que não é mantida sem custo. A mão desce porque o corpo resiste — e o texto, ao registrar isso, recusa a imagem de um poder que fluísse de Moisés sem esforço.

Onde a leitura para

Biran fala da consciência de si, num vocabulário da psicologia filosófica do começo do século XIX. O Êxodo não tem interesse nenhum pela experiência interior de Moisés: não diz o que ele sentia, se sabia do efeito, se fazia força de propósito. Aplicar o "fato primitivo" à colina de Refidim é leitura de quem comenta. O que se pode afirmar é que o versículo separa com nitidez o gesto de quem está no alto e o resultado no vale, e deixa sem nome o que os liga — e foi justamente esse vazio que a tradição inteira tentou preencher.

7. Aplicações Práticas

Há esforços que só valem enquanto duram. A mão de Moisés não resolvia a batalha de uma vez; sustentava a vantagem enquanto estava no alto. Muitas coisas da vida funcionam assim — o cuidado de alguém doente, a atenção a um filho, a manutenção de uma amizade. Não há um gesto definitivo; há um gesto que precisa ser renovado, e que cansa.

Descansar não é desistir. O verbo do "baixar a mão" é o do repouso, e o texto não acusa Moisés. Quem sustenta um esforço longo vai precisar de pausa, e a pausa tem custo. A resposta do capítulo ao cansaço não é exigir mais força do mesmo braço, e sim outras mãos — mas isso já é o versículo seguinte.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Quem percebeu a relação entre a mão e a batalha?

O texto não diz. Pode ter sido Moisés, olhando o vale; podem ter sido Arão e Hur, ao lado dele; podem ter sido os combatentes, se viam o alto. Ramban supõe que foi Moisés: ao baixar as mãos por cansaço, ele viu Amaleque avançar e pediu ajuda. É a leitura mais natural, e o texto não a confirma.

Se a mão erguida decidia, por que não amarrar o braço num poste?

É a objeção que Ibn Ezra faz à leitura do estandarte, e ela vale contra toda leitura mecânica. Se bastasse o objeto no alto, qualquer um poderia segurá-lo, ou ele poderia ser fincado no chão. O versículo seguinte responde só em parte: Arão e Hur sustentam as mãos, mas são as mãos de Moisés, e é ele quem fica lá. O texto supõe que o gesto precisava ser dele.

Por que Deus faria a vitória depender do braço cansado de um homem velho?

O texto não atribui o arranjo a Deus. Em nenhum momento do episódio Deus fala, ordena o gesto ou explica a correlação. A pergunta supõe uma intenção divina que o versículo não declara. O que ele mostra é que, naquele dia, a sorte de um povo esteve presa a um corpo com limites.

Os amalequitas viam Moisés?

Nada no texto indica. Se a leitura do sinal estiver certa, o gesto falava só aos de Israel; se a leitura mágica estiver certa, nem precisava ser visto. A Mishná, ao fazer tudo depender do olhar de Israel para o alto, deixa Amaleque fora da explicação.

9. Conexão com Outros Textos

As mãos erguidas como oração

Salmo 28:2 — "Ouve a voz das minhas súplicas, quando clamo a ti, quando levanto as minhas mãos para o teu santo santuário."

Salmo 141:2 — "Suba a minha oração diante de ti como incenso, e o levantar das minhas mãos como a oferta da tarde."

Nos Salmos, levantar as mãos é o gesto de quem ora, e o salmo 141 o compara a uma oferta. É nesse vocabulário que a leitura da oração apoia a cena de Refidim. Mas os salmos dizem a palavra "súplica" e "oração"; o Êxodo 17 não diz.

Lamentações 3:41 — "Levantemos o nosso coração com as mãos a Deus nos céus."

O coração e as mãos subindo juntos. É quase a fórmula da Mishná sobre este versículo: olhar para o alto e submeter o coração. Lamentações faz do gesto exterior o sinal de um movimento interior — a mesma ligação que os rabinos leram em Refidim.

Os outros sinais que não agem por si

Números 21:8 — "E o SENHOR disse a Moisés: 'Faça uma serpente ardente e ponha-a sobre uma haste; e todo aquele que for mordido e olhar para ela viverá.'"

O par que a Mishná e a Mekhilta põem ao lado da mão de Moisés. Aqui o texto diz expressamente o que em Refidim fica implícito: quem olha vive. O olhar está no próprio versículo de Números; no Êxodo, foi acrescentado.

Êxodo 12:13 — "O sangue lhes servirá de sinal nas casas em que estiverem; quando eu vir o sangue, passarei por cima de vocês…"

O terceiro caso da Mekhilta. O sangue nos umbrais, como a mão erguida, é um sinal visível — e quem o vê, aqui, é Deus.

A mão do outro comandante

Josué 8:26 — "Josué não recolheu a mão com que estendera o dardo até ter destruído completamente todos os moradores de Ai."

O homem que lutou no vale em Refidim será, anos depois, o que mantém a mão erguida até o fim da batalha. A cena de Ai lê Refidim pela leitura do sinal; e Josué, ao contrário de Moisés, não cansa.

A mão que abriu o mar

Êxodo 14:16 — "E você, levante o seu cajado, estenda a mão sobre o mar e divida-o, para que os filhos de Israel passem pelo meio do mar em terra seca."

No mar, o gesto foi ordenado e feito uma vez. Em Refidim, não foi ordenado e precisou durar. O mesmo cajado e a mesma mão, em dois regimes diferentes.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E acontecia que, quando Moisés levantava a mão, Israel prevalecia; e quando baixava a mão, Amaleque prevalecia.

Texto hebraico

וְהָיָה כַּאֲשֶׁר יָרִים מֹשֶׁה יָדוֹ וְגָבַר יִשְׂרָאֵל וְכַאֲשֶׁר יָנִיחַ יָדוֹ וְגָבַר עֲמָלֵק׃

Transliteração

ve-hayáh ka'ashér yarím Moshé yadó ve-gavár Yisra'él; ve-kha'ashér yaníach yadó ve-gavár Amaléq.

Análise palavra por palavra

וְהָיָה — ve-hayáh, "e acontecia".

Verbo hayah, "ser, acontecer", numa forma que, na narrativa, indica ação repetida no passado: "e acontecia, cada vez que". Não é o "e aconteceu" das histórias, que usa outra forma. Os dois verbos "prevalecia" que vêm depois estão na mesma forma de repetição. O versículo inteiro descreve um padrão, não um fato único.

כַּאֲשֶׁר יָרִים מֹשֶׁה יָדוֹ — ka'ashér yarím Moshé yadó, "quando Moisés levantava a mão".

Yarím é do verbo rum, "ser alto, estar elevado", na forma Hifil (a forma causativa do verbo hebraico: "fazer ficar alto", ou seja, levantar). É o verbo que Deus usa para o cajado no mar: "levante o seu cajado" (Êxodo 14:16). Yadó, "a mão dele", está no singular, com o sufixo de terceira pessoa. A forma do verbo, no futuro hebraico, também carrega a ideia de repetição: "sempre que levantava".

וְגָבַר יִשְׂרָאֵל — ve-gavár Yisra'él, "Israel prevalecia".

Gavar é "ser forte, levar a melhor, prevalecer". Da mesma raiz vem gibbor, o valente, o guerreiro. O verbo descreve vantagem, não vitória. Em Gênesis 7:18-20 ele diz das águas do dilúvio, que "se avolumaram" e cobriram os montes; em Gênesis 49:26, das bênçãos de Jacó, que "superam" as dos montes antigos. É força que sobe por cima de outra.

וְכַאֲשֶׁר יָנִיחַ יָדוֹ — ve-kha'ashér yaníach yadó, "e quando baixava a mão".

Yaníach é do verbo nuach, "repousar", também no Hifil. Esse verbo tem duas conjugações no Hifil, com sentidos diferentes: uma, com a consoante do meio dobrada, quer dizer "depositar, deixar num lugar"; a outra, sem dobrar, quer dizer "dar descanso, aliviar". A forma daqui é a segunda. Ao pé da letra, Moisés "dava descanso à mão". É o mesmo verbo de "o SENHOR lhes deu descanso ao redor" (Josué 21:44). O hebraico não usa aqui o verbo comum de "baixar" ou "abaixar"; usa o do repouso.

וְגָבַר עֲמָלֵק — ve-gavár Amaléq, "Amaleque prevalecia".

A mesma palavra da primeira metade, com o outro sujeito. As duas metades da frase são construídas em espelho, e a única coisa que muda, além do sujeito final, é o verbo da mão.

As traduções antigas

A Septuaginta (a tradução grega da Bíblia hebraica, feita no Egito a partir do século III antes de Cristo) põe o plural nas duas metades: tas cheîras, "as mãos". O Targum de Ônquelos faz o mesmo: yedohi, "as mãos dele". A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta do ano 400) também: manus. As três harmonizaram o versículo com o seguinte, onde o hebraico já diz "as mãos". O singular é exclusivo do texto hebraico.

A Vulgata acrescenta uma palavra que não está em lugar nenhum do original: sin autem paululum remisisset, "mas, se ele as afrouxasse um pouquinho". O "um pouquinho" de Jerônimo torna a dependência ainda mais estreita — qualquer descuido mínimo mudava a batalha. É uma interpretação embutida na tradução.

Ônquelos ainda acrescenta "os da casa de" antes de Israel e de Amaleque. E a Septuaginta traduz "prevalecia" por katíschyen, "tinha a força sobre", e "baixava" por kathēken, "deixava cair" — perdendo a nuance do repouso que o hebraico tem.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que ele é uma descrição sem explicação, e foi essa ausência que gerou a sua história. Oração, magia, estandarte, olhar do povo: cada leitura é uma tentativa de dar nome ao elo entre a mão no alto e a vantagem no vale. O texto deixa o elo sem nome, e quem o lê precisa saber que todas as respostas vieram depois.

A segunda é que a leitura que prevaleceu na tradição judaica — a da Mishná — salva o versículo de parecer magia, mas paga um preço. Ela tira a força da mão de Moisés e a põe no coração do povo, acrescentando um elo que o texto não traz. A força da leitura está em ser uma doutrina sobre intenção; o seu limite está em não ser o que o versículo diz.

A terceira é que o versículo trata o cansaço sem condenação. O braço que desce "descansa", e o texto não culpa quem descansa. Ao fazer uma vitória depender de um esforço que não pode ser mantido sem fim, o versículo prepara a resposta do seguinte: a força que um homem não consegue sustentar sozinho vai ser sustentada por outros.

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