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Êxodo 18:5

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 16 acessos
Jetro, sogro de Moisés, veio com os filhos e a mulher de Moisés até ele, no deserto onde estava acampado, no monte de Deus.
Um homem idoso de túnica e turbante conduz um jumento pelo deserto, seguido por dois meninos e uma mulher de véu, rumo a um acampamento de tendas ao pé de uma montanha de pedra avermelhada.

Estudo


Jetro, sogro de Moisés, veio com os filhos e a mulher de Moisés até ele, no deserto onde estava acampado, no monte de Deus.

1. Introdução

Jetro chega com a filha e os dois netos ao acampamento de Moisés, e o texto dá o endereço: "o monte de Deus". Esse endereço é o maior problema de ordem do capítulo, porque Israel só chega ao Sinai no capítulo seguinte. Desde o Talmude a tradição se divide entre os que põem a visita antes da entrega da Lei e os que a põem depois, e a resposta mexe com a leitura do capítulo inteiro. O versículo também traz duas miudezas que os rabinos leram com lupa: chama os meninos de filhos de Moisés, e diz que o sacerdote de Midiã foi "ao deserto", onde todos já estavam. A cena é de chegada, e quase nada acontece nela.

2. Contexto Histórico e Cultural

As únicas datas que o texto dá

O Êxodo quase não data os seus episódios, mas neste trecho do caminho ele dá três marcos, e são eles que criam o problema. Em Êxodo 16:1, Israel chega ao deserto de Sim "no décimo quinto dia do segundo mês depois que saíram da terra do Egito". Em Êxodo 19:1-2, "no terceiro mês" depois da saída, o povo parte de Refidim e chega ao deserto do Sinai, onde "Israel acampou ali, diante do monte". E em Números 10:11, no vigésimo dia do segundo mês do segundo ano, a nuvem se levanta e o acampamento deixa o Sinai. Entre o primeiro e o segundo marco cabem o maná, a água da rocha, a guerra contra Amaleque e, na ordem do livro, a visita de Jetro.

Números 33:12-15 dá o roteiro desse trecho com mais etapas do que o Êxodo: deserto de Sim, Dofca, Alus, Refidim, deserto do Sinai. O Êxodo pula Dofca e Alus. O itinerário confirma a ordem dos lugares, mas não diz quanto tempo o povo ficou em cada um.

Com esses números, Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) fizeram a conta para mostrar que a visita cabe antes do Sinai. Se o povo chegou a Sim no dia 15 e ficou lá até o sábado do maná, poderia ter saído no dia 19 ou 20, passado por Dofca e Alus e chegado a Refidim por volta do dia 22. A batalha seria no dia seguinte, Jetro chegaria um ou dois dias depois, e ainda sobrariam dias para a refeição, a sessão de julgamento e a escolha dos chefes antes do terceiro mês. A conta prova que a sequência do livro é possível; não prova que foi assim, e os próprios autores reconhecem que o texto não dá a data da chegada ao Sinai com a precisão que o cálculo supõe.

A distância até Midiã

Jetro sai de casa com uma mulher e duas crianças. Quanto ele andou depende de onde se põe o monte, e as quatro propostas de localização, com os seus problemas, estão expostas no estudo de Êxodo 3:1. O que o próprio texto sugere é proximidade. Em Êxodo 3:1, Moisés chega ao monte tocando o rebanho do sogro, isto é, a uma distância que um pastor percorre com ovelhas. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) tira daí a sua tese: o monte "ficava no caminho de Midiã, perto daquele país", e por isso Jetro podia alcançá-lo sem atravessar o deserto inteiro. Se Midiã fica a leste do golfo de Ácaba e o monte no sul da península do Sinai, a viagem contorna o golfo e leva semanas; se o monte fica no noroeste da Arábia, é questão de dias. O texto não dá distância nenhuma, e a narrativa trata o monte, de Êxodo 3:1 a Êxodo 18:5, como um lugar ao alcance da casa de Jetro.

O Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa), que segue a localização tradicional de Refidim no uádi Feiran e do Sinai no Jebel Musa, calcula pelo menos 24 milhas (cerca de 38 quilômetros) entre os dois lugares. É a medida que a leitura "antes do Sinai" precisa explicar: se Jetro chegou quando Israel estava em Refidim, como o versículo pode dizer que Moisés estava acampado "no monte de Deus"?

Quem anda na frente

Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) lê a ordem dos nomes como retrato da caravana: "Jetro ia na frente, os filhos de Moisés atrás dele, e depois deles a mulher de Moisés, como é o costume". O chefe da família abre a marcha e responde por ela; a mulher vem por último, protegida pelos que vão adiante. É leitura de costume, não informação do texto, mas explica por que o versículo põe os filhos antes da mãe, o contrário do que fazem os versículos 2 e 6.

3. Análise Teológica do Versículo

"Jetro, sogro de Moisés, veio"

O verbo está no singular, embora o sujeito seja um grupo: Jetro, os filhos e a mulher. O hebraico faz isso quando o primeiro nome da lista é o que comanda a ação, e os outros vêm agregados a ele. Quem chega é Jetro; Zípora e os meninos chegam com ele. A cena inteira, até o versículo 12, será dele. A mulher e os filhos de Moisés entram no acampamento neste versículo e, depois do seguinte, não voltam a ser mencionados em todo o livro.

"com os filhos e a mulher de Moisés"

O hebraico diz apenas "os filhos dele e a mulher dele", e "dele" pode ser Jetro, o sujeito da frase, ou Moisés, o último nome citado. A gramática não decide. John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII) achou necessário esclarecer: "não com os seus próprios filhos e a sua mulher, mas com os filhos e a mulher de Moisés". A tradução ABC desfaz a ambiguidade e escreve "de Moisés", porque os versículos 2 a 4 já disseram de quem se trata.

A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III) faz a pergunta contrária: por que dizer isto, se o versículo seguinte já fala de "sua mulher e os dois filhos dela"? A resposta é que "dela" poderia levar alguém a pensar que eram filhos de Zípora com outro homem; por isso o texto diz aqui "os filhos dele", "e eram filhos de Moisés, e não de outro". A leitura é engenhosa e mostra o cuidado dos rabinos com cada possessivo. Mas ela responde a uma suspeita que o texto não levanta: em nenhum lugar o Êxodo insinua outra paternidade.

"até ele, no deserto"

Todos estavam no deserto; o texto não precisava dizer. A Mekhilta lê o dado supérfluo como elogio: "a Escritura registra admiração. Ele vivia na glória do mundo e escolheu ir para um deserto desolado". Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI) acrescenta o motivo: Jetro foi "para ouvir as palavras da Torá". O elogio pressupõe que o sacerdote de Midiã vivia bem, e o texto nada diz da casa dele além de rebanhos e sete filhas (Êxodo 2:16). Nachmânides lê de modo mais geográfico: "deserto" seria a borda da região onde ficava o monte, e o versículo diria que Jetro chegou à beira do deserto em que Moisés acampava.

"onde estava acampado"

O hebraico usa uma forma verbal de estado, não de ação: não "onde ele acampou", mas "onde ele estava acampado". Ibn Ezra apoia nisso o seu argumento principal: a forma indica permanência, "ele estava acampado ali havia muitos dias". Um acampamento de passagem, como o de Refidim, não seria descrito assim. A objeção é que a mesma forma serve para qualquer situação em curso, longa ou curta; ela diz que Moisés estava lá quando Jetro chegou, não há quanto tempo.

Repare também no sujeito. É Moisés, no singular, quem "estava acampado". O texto não diz "onde Israel acampava". O acampamento é apresentado do ponto de vista de quem chega: Jetro não vem visitar um povo, vem encontrar o genro.

"no monte de Deus"

Aqui está o nó. "O monte de Deus" é o Horebe de Êxodo 3:1, o lugar da sarça. Mas Israel só chega ao Sinai em Êxodo 19:1-2, e o capítulo 17 deixou o povo em Refidim. Ou o capítulo 18 está fora da ordem dos acontecimentos, ou o "monte de Deus" está sendo dito em sentido largo, ou Jetro estava num lugar e Moisés em outro. A pergunta é antiga e recebeu quatro respostas.

Primeira resposta: Jetro veio antes da entrega da Lei, e o capítulo está na ordem certa. É a posição de Saadia Gaon (rabino e filósofo do Egito e da Babilônia, século X), citada por Ibn Ezra, e é a que se tira da opinião de Rabi Yehoshua na Mekhilta, para quem Jetro veio por ter ouvido da guerra contra Amaleque. Nachmânides, depois de pesar os dois lados, fica com ela e resolve a dificuldade com a geografia: quem chegou ao monte foi Jetro, que vinha de Midiã, e não Moisés. "Jetro deixou Midiã com a filha e as crianças e veio ao monte Sinai. Naquele momento, Moisés estava em Refidim." Do monte, Jetro mandou dizer "eu venho a você" (versículo 6), e Moisés saiu ao seu encontro (versículo 7). A leitura resolve a cronologia e ainda explica por que Moisés precisou "sair": o sogro estava em outro lugar. Keil e Delitzsch preferem outra saída: o próprio Êxodo já tinha posto a rocha de Refidim "em Horebe" (Êxodo 17:6), e então Refidim ficaria nas imediações do monte, sem contradição nenhuma.

Segunda resposta: Jetro veio depois da entrega da Lei, e o capítulo foi posto fora do lugar. É a tese de Ibn Ezra, que a data no segundo ano, depois de erguido o tabernáculo. Os argumentos são quatro. A forma "estava acampado" indica permanência. Jetro oferece holocausto e sacrifícios (versículo 12) e o texto não fala em altar novo, o que supõe o altar do tabernáculo. Moisés diz que faz o povo conhecer "os estatutos de Deus e as suas leis" (versículo 16), o que supõe a Lei já dada. E Deuteronômio 1:6-15 põe a escolha dos chefes de mil e de cem logo antes da partida do Horebe: "o SENHOR nosso Deus nos falou em Horebe: vocês já ficaram bastante tempo neste monte… Naquele tempo eu lhes disse: não posso levar vocês sozinho". O Talmude registra a mesma divisão. No tratado Zevachim 116a, os filhos de Rabi Chiyya e Rabi Yehoshua ben Levi discutem: um diz que o episódio de Jetro foi antes da entrega da Torá, o outro, que foi depois. A discussão nasce de uma questão de sacrifícios, porque o versículo 12 é usado como prova num debate sobre o culto antes do Sinai. Entre os cristãos, John Lightfoot (hebraísta inglês do século XVII), segundo Gill, chegou a pôr a visita entre Números 10:10 e 10:11, na véspera da partida do Sinai.

Terceira resposta: as duas coisas, em momentos diferentes. Rashi admite que Jetro tenha chegado antes do Sinai, mas lê o "dia seguinte" do versículo 13, com a Mekhilta, como o dia seguinte ao Yom Kippur (o Dia da Expiação, quando Moisés desceu com as segundas tábuas), e põe a partida de Jetro no segundo ano, quando Moisés diz a Hobabe "nós estamos partindo" (Números 10:29). Nessa leitura o capítulo junta, por assunto, coisas que aconteceram em meses diferentes. Nachmânides levanta contra a data tardia uma objeção que ninguém respondeu bem: se Jetro chegou depois do Sinai, por que Moisés lhe conta o que Deus fez a Faraó e as dificuldades do caminho (versículo 8), e não diz uma palavra sobre a voz de Deus no monte, que seria o maior de todos os feitos? Ele mesmo arrisca uma resposta, que soa fraca: Moisés não contou porque tinha acabado de acontecer e todos sabiam.

Quarta resposta: a dos comentaristas críticos modernos, que leem o capítulo como peça escrita à parte e encaixada depois. O Ellicott's Commentary ("Comentário de Ellicott", obra inglesa do século XIX) admite duas saídas: o "monte de Deus" pode designar toda a região montanhosa do Sinai, como "deserto" designa toda a terra estéril; ou a mudança de acampamento de Êxodo 19:1-2 aconteceu antes da chegada de Jetro e só foi contada depois. E acrescenta que o capítulo "tem toda a aparência" de uma porção avulsa. O Cambridge Bible é mais direto: o versículo é "um forte argumento" de que o capítulo 18 estava originalmente num ponto posterior da narrativa.

Por que, então, estaria aqui? Ibn Ezra responde pelo assunto: o livro acabou de contar o mal que Amaleque fez a Israel e quis pôr ao lado o bem que Jetro fez, para que Israel lembrasse dos descendentes dele quando fosse guerrear contra Amaleque. É o que Saul faz em 1 Samuel 15:6, ao avisar os queneus para se afastarem dos amalequitas "porque vocês foram bondosos com todos os filhos de Israel quando subiram do Egito". A ordem seria de sentido, não de calendário. Os rabinos tinham um princípio para isso, "não há antes nem depois na Torá", com o limite de que ele vale quando o texto passa de um assunto a outro; o princípio e o limite estão no estudo de Êxodo 16:11. Jetro e o Sinai são assuntos diferentes, e o princípio se aplicaria aqui sem esforço.

Não é possível decidir. Cada resposta tem a seu favor um versículo e contra si outro, e o Êxodo não data a chegada de Jetro. O que o texto garante é o lugar: Jetro encontra Moisés no monte em que Deus tinha prometido, em Êxodo 3:12, que Israel o serviria. Seja qual for a data, o primeiro visitante que o livro leva até ali, depois da saída do Egito, é o homem cujo rebanho Moisés tocava quando chegou ao monte pela primeira vez.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jetro

Sacerdote de Midiã e sogro de Moisés, pela terceira vez nomeado assim em cinco versículos. É o homem que recebeu Moisés fugitivo, lhe deu a filha e o deixou voltar ao Egito com a frase "Vá em paz" (Êxodo 4:18). O nome dele aparece no capítulo até o versículo 12; dali em diante o texto o chama só de "o sogro de Moisés". Os outros nomes que a Bíblia lhe dá e o problema da identificação estão no estudo de Êxodo 2:18.

Zípora

Filha de Jetro e mulher de Moisés. Não é nomeada neste versículo, é "a mulher de Moisés". O nome dela aparece três vezes no livro: no casamento (Êxodo 2:21), na circuncisão do filho (Êxodo 4:25) e na chegada (Êxodo 18:2). Depois do versículo seguinte, ela some do Êxodo sem uma palavra e sem uma ação.

Os filhos

Gérson e Eliézer, nomeados nos versículos 3 e 4. Saíram com o pai rumo ao Egito em Êxodo 4:20 e voltaram para o avô, sem cena narrada. Chegam agora ao acampamento de um povo que não conhecem. O versículo os chama de filhos de Moisés; o seguinte, de filhos dela.

O deserto e o acampamento

O último acampamento nomeado foi Refidim (Êxodo 17:1), onde o povo brigou por água e lutou contra Amaleque. O próximo será o deserto do Sinai (Êxodo 19:2). O versículo não dá nome ao deserto em que Jetro chega, e é isso que permite as leituras do item 3.

O monte de Deus

O Horebe, onde Moisés viu a sarça (Êxodo 3:1) e onde Arão o encontrou na volta para o Egito (Êxodo 4:27). Esta é a terceira vez que a expressão aparece no livro, e nas três alguém da família de Moisés está na cena.

5. Pontos de Ensino

1. O texto nem sempre conta na ordem do calendário. O "monte de Deus" aparece antes de o povo chegar ao monte. Desde a Antiguidade, leitores judeus e cristãos admitiram que a Torá às vezes agrupa episódios por assunto. Reconhecer isso não é desconfiar do texto; é lê-lo como ele foi escrito.

2. Uma dificuldade honesta pode ficar sem solução. Ibn Ezra, Nachmânides e Rashi leram o mesmo versículo e chegaram a três datas diferentes, cada um com argumento. Nenhum deles escondeu a dificuldade para proteger a sua leitura. O estudo sério da Bíblia herda essa franqueza.

3. A ordem de um livro também ensina. Se o capítulo foi posto aqui por causa do assunto, a lição está no lado a lado: depois do povo do deserto que ataca Israel, vem o estrangeiro do deserto que chega em paz. A sequência foi escolhida para ser lida junta.

6. Aspectos Filosóficos

Crônica ou história?

O versículo põe o leitor diante de uma pergunta que não é só de calendário: um relato que agrupa os fatos por sentido, e não pela data em que aconteceram, ainda é um relato verdadeiro? Ibn Ezra acha que o capítulo de Jetro foi posto aqui para ficar ao lado de Amaleque; se ele tem razão, o Êxodo trocou a ordem dos acontecimentos pela ordem do significado. Para muitos leitores modernos isso soa como defeito. Para um filósofo italiano do século XX, seria a própria definição de história.

Benedetto Croce e a história contemporânea

Benedetto Croce (1866-1952), filósofo e historiador de Nápoles, escreveu em Teoria e storia della storiografia ("Teoria e história da historiografia", 1917) a frase que o tornou conhecido: "toda história verdadeira é história contemporânea". Ele não queria dizer que só se deve estudar o presente. Queria dizer que o passado só vira história quando responde a uma pergunta viva de quem o conta. Um fato narrado porque interessa agora é história; um fato registrado só porque aconteceu numa data é outra coisa.

A essa outra coisa Croce deu o nome de crônica. A crônica é a lista dos fatos na ordem do tempo, com datas e nomes, mas sem o interesse que os liga. Para ele, a crônica não vem antes da história, como matéria-prima; vem depois, como um cadáver: é a história que perdeu o pensamento que a animava e ficou só como registro. "A história é história viva; a crônica é história morta." Uma lista de reis pode ter sido, um dia, a narrativa apaixonada de uma dinastia; quando ninguém mais se importa com o motivo, sobra a lista.

O que essa distinção ilumina no versículo

Lida com os olhos de Croce, a discussão dos comentaristas muda de figura. Os que perguntam em que dia Jetro chegou estão fazendo crônica: querem pôr o fato no seu lugar da fila. Os que perguntam por que ele foi contado aqui estão fazendo história: querem saber que interesse prendeu este episódio a este ponto do livro. Ibn Ezra, que defende a data tardia, é justamente quem dá a resposta "histórica" no sentido de Croce: o capítulo está aqui porque responde a Amaleque. A ordem do Êxodo, nessa leitura, não é desleixo de cronista. É a marca de um texto escrito para uma pergunta presente, a pergunta de como Israel deveria tratar os povos do deserto.

E Croce ajuda a ver o que o versículo ainda conserva de crônica. "O monte de Deus", "onde estava acampado", o deserto, os filhos, a mulher: são dados de lugar e de pessoas, e é por causa deles que se percebe a costura. Se o Êxodo fosse só história no sentido de Croce, não teria deixado o endereço que denuncia a mudança de ordem. O texto guarda os dois níveis, e é por isso que a pergunta existe.

Onde a aproximação para

Croce era um filósofo da imanência: para ele, a história é obra do espírito humano e não há nela outra mão. O Êxodo conta uma história em que Deus age, e a "pergunta viva" que organiza o livro não é só a de Israel, é a do Deus que o tirou do Egito. Croce também não se ocupava em saber se os fatos de um relato antigo aconteceram; o Êxodo afirma que aconteceram. A distinção entre crônica e história serve para entender a ordem do capítulo; não serve para dizer se o capítulo é verdadeiro, e Croce não pretenderia que servisse.

7. Aplicações Práticas

Ler sem exigir o que o texto não promete

Quem abre a Bíblia esperando um diário com datas tropeça neste versículo e pode concluir que ela erra. Quem a lê como ela se apresenta, um livro que junta episódios por sentido e às vezes avisa o leitor só pelo endereço, encontra aqui um exemplo de como ler com atenção. A aplicação é de método: perguntar o que o texto quer dizer com a ordem que escolheu antes de acusá-lo de desordem.

Conviver com uma pergunta aberta

Três dos maiores comentaristas judeus discordaram sobre a data deste versículo e continuaram lendo o mesmo livro com a mesma reverência. Em grupos de estudo, em famílias, em igrejas e sinagogas, nem toda dificuldade precisa ser resolvida para que a leitura continue. O que o versículo pede é que a dificuldade seja dita, e não escondida.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Como Jetro sabia onde encontrar Moisés?

O texto não diz. Or ha-Chayim (Chayim ibn Attar, comentarista marroquino do século XVIII) dá uma explicação: Moisés tinha contado à família onde Deus lhe aparecera e o que lhe dissera em Êxodo 3:12, "vocês servirão a Deus neste monte". Jetro, sabendo da saída do Egito, foi ao monte esperando encontrar o povo ali. A explicação é plausível e combina com a leitura de Nachmânides, para quem Jetro chegou ao monte antes do povo. Mas é dedução; o Êxodo não registra conversa nenhuma sobre isso.

Se o capítulo está fora de ordem, por que o versículo 1 parece ligá-lo ao capítulo 17?

Porque a ligação é de assunto, não de tempo. O versículo 1 diz que Jetro "ouviu tudo o que Deus tinha feito por Moisés e por Israel"; o que exatamente ele ouviu é discutido no estudo daquele versículo. Mesmo os que põem a visita depois do Sinai aceitam que a notícia possa ter chegado a Midiã muito antes de Jetro partir.

A leitura tardia muda o sentido do capítulo?

Muda o lugar do conselho de Jetro na história de Israel. Se ele veio antes do Sinai, os chefes de mil e de cem foram organizados antes da Lei, e a primeira estrutura de justiça do povo foi sugestão de um estrangeiro, sem mandamento escrito. Se veio depois, a organização é aplicação da Lei já dada, e o conselho de Jetro é sobre como administrar o que Deus tinha ordenado. Os versículos 13 a 26 podem ser lidos das duas maneiras, e a escolha da data pesa sobre essa leitura.

Existe algum manuscrito ou versão antiga que ponha o capítulo 18 em outro lugar?

Não. O Texto Massorético (o texto hebraico padronizado pelos escribas judeus da Idade Média), a Septuaginta (a tradução grega feita entre os séculos III e II antes de Cristo) e as demais versões antigas trazem o capítulo exatamente aqui. A hipótese de que ele tenha estado num ponto posterior é dedução a partir do conteúdo, não de uma cópia diferente. A Septuaginta, aliás, mantém "no monte de Deus" e não tenta harmonizar nada.

9. Conexão com Outros Textos

Os marcos do calendário

Êxodo 16:1 — "Partiram de Elim, e toda a congregação dos filhos de Israel chegou ao deserto de Sim, que fica entre Elim e o Sinai, no décimo quinto dia do segundo mês depois que saíram da terra do Egito."

Êxodo 19:1-2 — "No terceiro mês depois que os filhos de Israel saíram da terra do Egito, neste dia, chegaram ao deserto do Sinai. Partiram de Refidim, chegaram ao deserto do Sinai e acamparam no deserto; ali Israel acampou diante do monte."

Os dois versículos que emolduram o capítulo 18. O segundo repete o verbo "acampar" duas vezes e diz "diante do monte", como se o povo chegasse ali pela primeira vez.

Números 10:11-12 — "No segundo ano, no segundo mês, no vigésimo dia do mês, a nuvem se levantou de cima do tabernáculo do testemunho. Os filhos de Israel partiram do deserto do Sinai, por etapas."

A data da partida do Sinai, que Rashi e Ibn Ezra usam para situar a despedida de Jetro.

O monte da promessa

Êxodo 3:12 — "E Deus respondeu: 'Eu estarei com você; e este será o sinal de que fui eu que o enviei: quando você tirar o povo do Egito, vocês servirão a Deus neste monte.'"

O sinal prometido na sarça estava preso a este lugar. É por isso que "o monte de Deus" não é um endereço qualquer quando aparece no versículo 5.

Horebe já em Refidim

Êxodo 17:6 — "'Eis que eu estarei de pé diante de você, ali, sobre a rocha, em Horebe; você ferirá a rocha, e dela sairá água, e o povo beberá.' E Moisés fez assim, diante dos olhos dos anciãos de Israel."

O versículo em que Keil e Delitzsch apoiam a ideia de que Refidim ficava nas imediações do monte, o que dispensaria a hipótese de capítulo fora do lugar.

A reforma contada como acontecida no Horebe

Deuteronômio 1:6 e 1:9 — "O SENHOR nosso Deus nos falou em Horebe: 'Vocês já ficaram bastante tempo neste monte.' … Naquele tempo eu lhes disse: 'Não posso levar vocês sozinho.'"

"Naquele tempo" amarra a escolha dos chefes à véspera da partida do Horebe. É o principal argumento de Ibn Ezra para a data tardia.

A gratidão aos descendentes de Jetro

1 Samuel 15:6 — "Saul disse aos queneus: 'Vão, retirem-se, desçam do meio dos amalequitas, para que eu não destrua vocês junto com eles; porque vocês foram bondosos com todos os filhos de Israel quando subiram do Egito.' E os queneus se retiraram do meio dos amalequitas."

Para Ibn Ezra e Nachmânides, a razão de o capítulo de Jetro vir logo depois do de Amaleque: a Torá preparava esta cena, séculos adiante.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Jetro, sogro de Moisés, veio com os filhos e a mulher de Moisés até ele, no deserto onde estava acampado, no monte de Deus.

Texto hebraico

וַיָּבֹא יִתְרוֹ חֹתֵן מֹשֶׁה וּבָנָיו וְאִשְׁתּוֹ אֶל־מֹשֶׁה אֶל־הַמִּדְבָּר אֲשֶׁר־הוּא חֹנֶה שָׁם הַר הָאֱלֹהִים׃

Transliteração

va-yavó Yitró chotén Moshé u-vanáv ve-ishtó el-Moshé el-ha-midbár asher-hú chonéh shám har ha-Elohím.

Análise palavra por palavra

וַיָּבֹא — va-yavó, "e veio". Raiz b-w-', vir, chegar, entrar, na forma verbal que encadeia a narrativa. Está no singular, embora a lista de quem chega tenha três termos: no hebraico bíblico, o verbo que vem antes de um sujeito composto costuma concordar com o primeiro nome, que é o principal. Jetro chega; os outros chegam com ele. O mesmo verbo volta no fim do versículo 7, agora no plural: "e entraram na tenda".

יִתְרוֹ חֹתֵן מֹשֶׁה — Yitró chotén Moshé, "Jetro, sogro de Moisés". Chotén, "sogro" (a raiz está no estudo de Êxodo 18:1). A forma ligada, "sogro de", gruda o título ao nome de Moisés. A palavra "sogro" aparece treze vezes no capítulo, e em nenhuma delas Moisés é chamado de genro: a relação é sempre vista a partir de Jetro.

וּבָנָיו וְאִשְׁתּוֹ — u-vanáv ve-ishtó, "e os filhos dele e a mulher dele". Banim, filhos, e ishah, mulher, cada um com o sufixo da terceira pessoa do masculino singular. O sufixo não diz a quem se refere: pode ser Jetro, que está na frase, ou Moisés, o nome mais próximo. Daí a nota de Gill e a pergunta da Mekhilta (item 3). A Septuaginta (a tradução grega dos séculos III e II antes de Cristo) tira os possessivos e escreve "os filhos e a mulher", deixando ao leitor completar.

אֶל־מֹשֶׁה אֶל־הַמִּדְבָּר — el-Moshé el-ha-midbár, "até Moisés, até o deserto". A preposição el, "para, até", repetida duas vezes seguidas: o destino é uma pessoa e um lugar. Midbar é a terra de pasto sem lavoura e sem cidade, onde se leva o rebanho, e não necessariamente areia. É a repetição da preposição que faz o deserto parecer sobrar na frase, e foi sobre essa sobra que a Mekhilta construiu o elogio a Jetro.

אֲשֶׁר־הוּא חֹנֶה שָׁם — asher-hú chonéh shám, "onde ele estava acampado". Literalmente "que ele acampa ali": o relativo asher, o pronome hu, "ele", e sham, "ali", que retoma o lugar no fim, como o hebraico costuma fazer nas frases de "onde". Choneh é particípio Qal (a forma simples do verbo hebraico) da raiz ch-n-h, acampar, a mesma de machaneh, acampamento. O particípio descreve situação em curso. Ibn Ezra o leu como estada longa; a forma, por si, não mede a duração.

הַר הָאֱלֹהִים — har ha-Elohím, "o monte de Deus". Har, monte, ligado a ha-Elohim, "Deus", com artigo. O sentido da expressão e o motivo de o monte já se chamar assim antes da sarça estão no estudo de Êxodo 3:1. Aqui, o dado novo é a pontuação. Os acentos da leitura sinagogal, que marcam as pausas do texto massorético, põem uma pausa leve depois de "ali" e deixam "o monte de Deus" como um acréscimo explicativo: "onde ele estava acampado, ali: o monte de Deus". A expressão não está ligada ao verbo "acampar" por preposição; está posta ao lado. Nachmânides aproveitou essa folga para ler "e Jetro chegou ao monte de Deus", separando o lugar de Jetro do lugar de Moisés.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a duas conclusões. A primeira é que a data da visita de Jetro não pode ser fixada pelo texto. O endereço "monte de Deus" contradiz a ordem do livro, e cada solução, da geografia de Nachmânides à data tardia de Ibn Ezra, troca uma dificuldade por outra. O que se pode afirmar é que o Êxodo pôs o capítulo aqui de propósito, e que essa decisão é de sentido: o leitor deve ler Jetro logo depois de Amaleque.

A segunda é que o versículo trata a chegada como assunto de família antes de ser assunto de povo. Quem chega é o sogro, e o que ele traz são a filha e os netos de Moisés, chamados filhos dele num versículo e dela no outro. O lugar é o da promessa feita na sarça, mas o primeiro encontro ali, depois do Egito, é doméstico. Seja qual for a data, o livro quis que o monte recebesse uma família antes de receber a Lei.

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