Ao segundo deu o nome de Efraim, pois disse: “Deus me fez frutífero na terra da minha aflição.”
1. Introdução
Depois de tudo, ele ainda chama o Egito de terra da sua aflição.
É essa a frase do versículo, e o contraste com o nome anterior é do próprio texto. Cinco pontos organizam a leitura.
O primeiro é a simetria com o versículo 51. Mesma fórmula, mesmo sujeito divino, mesma estrutura de explicação. Só o conteúdo muda.
O segundo é o verbo. "Fez frutífero" é o verbo da bênção do Gênesis, o de "frutificai e multiplicai-vos", e aqui aparece na primeira pessoa e no Egito.
O terceiro é a última expressão: "na terra da minha aflição". Ele governa, tem casa, mulher, dois filhos e o país inteiro nas mãos — e o nome que dá ao lugar é esse.
O quarto é a ordem dos dois nomes. Primeiro esquecer, depois frutificar. O texto não enuncia a sequência; ela aparece quando os dois versículos são lidos juntos.
O quinto é o que a palavra "aflição" vai fazer depois. É o mesmo termo que Êxodo usará para a escravidão de Israel naquele mesmo país. O item 10 mostra o percurso.
2. Contexto Histórico e Cultural
A casa sacerdotal de onde vinha a mãe
Pelo lado materno estes dois meninos eram netos de um sacerdote de Om, o centro do culto solar egípcio. O que era aquele templo, aquele sacerdócio e aquela teologia está no estudo de Gênesis 41:45.
O sumo sacerdote daquele templo tinha um título próprio, que se costuma traduzir por "o maior dos videntes". O sacerdócio de Om era também o mais culto do país: astronomia, calendário e cálculo eram parte do ofício, porque o culto solar exigia medir o tempo com precisão.
Da cidade sobrou pouco. Ela está hoje sob um bairro do Cairo, e o monumento que continua de pé no lugar é um obelisco de Senuseret I, da décima segunda dinastia, erguido por volta de 1950 antes de Cristo.
Retenha-se o arranjo, porque ele é o pano de fundo dos dois nomes. Os netos do maior sacerdócio solar do Egito receberam nomes hebraicos, explicados por frases hebraicas, a respeito do que o Deus do pai deles tinha feito. O Gênesis registra as duas coisas e não as comenta. Quem era Potífera e o que significava aquele casamento é assunto do estudo de Gênesis 41:45.
Ser estrangeiro no Egito
Esta é a moldura da última expressão do versículo, e ela tem dois lados que não se anulam.
De um lado, o Egito recebia estrangeiros e os absorvia. Semitas aparecem na documentação como servos, artesãos, soldados e funcionários, e alguns subiram alto. A pintura mais conhecida a respeito está no túmulo de Khnumhotep II, em Beni Hasan, e é de cerca de 1890 antes de Cristo: mostra um grupo de trinta e sete asiáticos chegando ao Egito com jumentos, roupas coloridas de padrão estrangeiro e mercadoria para trocar. Eles vêm negociar, e são registrados com naturalidade.
De outro lado, havia uma parede social, e quem a registra é o próprio Gênesis. Em Gênesis 43:32, quando José recebe os irmãos, servem-se três mesas separadas, porque os egípcios não podiam comer com hebreus — o texto diz que isso era abominação para eles. E em Gênesis 46:34 José avisa a família de que todo pastor de ovelhas é abominação para os egípcios.
As duas informações valem juntas. Um estrangeiro podia chegar ao segundo lugar do reino e continuar sendo, à mesa, alguém com quem não se come.
Filhos, no Egito
O Egito valorizava a descendência numerosa, e os textos de sabedoria egípcios recomendam ao homem que constitua casa e tenha filhos cedo. Ter dois filhos homens em poucos anos era, naquele meio, sinal de prosperidade tanto quanto o celeiro cheio.
Isso ajuda a entender por que o versículo trata os filhos como fruto, e usa para eles o mesmo campo de palavras que se usa para colheita. A metáfora não é enfeite literário: é como aquele mundo pensava.
O nome que virou território
Convém antecipar um dado que o item 4 desenvolve. Efraim deixou de ser nome de pessoa muito cedo. Virou nome de tribo, depois nome de uma região montanhosa inteira e, nos profetas, nome do reino do norte de Israel.
Ou seja: a frase que José disse sobre a própria vida acabou colada, por séculos, a um pedaço do mapa de Canaã — a terra que ele não estava pisando quando a disse.
3. Análise Teológica do Versículo
"Ao segundo deu o nome de Efraim"
A construção repete a do versículo anterior e a encurta.
Lá estava escrito "ao primogênito"; aqui, apenas "ao segundo". A palavra "filho" nem aparece — o hebraico diz "e o nome do segundo chamou Efraim". É economia de quem já disse o essencial uma vez.
Vale registrar a ironia que o livro vai construir depois, e marcá-la como observação, não como afirmação do texto: o que está sendo chamado de segundo é o que passará à frente. Em Gênesis 48:14-19 Jacó cruzará as mãos, José protestará e o avô manterá a inversão. Aqui, porém, nada disso está no horizonte. O versículo apenas conta.
"pois disse: Deus me fez frutífero"
O sujeito continua sendo Deus, e o padrão do versículo 51 se repete inteiro: nome, causa, agente divino, primeira pessoa.
O que muda é o verbo, e ele não é qualquer verbo. É o da bênção original do Gênesis — o "frutificai e multiplicai-vos" dito em Gênesis 1:28, repetido a Noé em Gênesis 9:1, prometido a Abraão em Gênesis 17:6 e dito a Jacó por Deus em Betel, em Gênesis 35:11. É palavra de promessa, e o item 10 percorre as ocorrências.
Duas consequências decorrem disso.
A primeira: pela segunda vez neste bloco, a linguagem das promessas da família aparece aplicada ao que acontece com José no Egito. A primeira foi a areia do mar, no versículo 49, e o estudo daquele versículo trata dela. Aqui a coincidência é mais estreita, porque o verbo é usado na primeira pessoa e a respeito de filhos — que é exatamente o objeto das promessas.
A segunda: José não diz que prosperou. Diz que foi feito frutificar. O crédito vai para fora dele, como no versículo anterior, e o padrão do capítulo se mantém desde o versículo 16.
"na terra da minha aflição"
Esta é a expressão do versículo, e ela é desconcertante pelo lugar em que aparece.
Faça-se o inventário do momento em que a frase é dita. José tem cerca de trinta e cinco anos. Governa o Egito. Anda no segundo carro do reino. Tem nome egípcio dado pelo próprio Faraó, casa, mulher de família sacerdotal, dois filhos, e celeiros que ele parou de contar. Está no melhor momento da vida de qualquer pessoa da sua época.
E o nome que ele dá ao país é este.
Antes de qualquer interpretação, convém fixar o que a frase é gramaticalmente: um qualificativo do lugar, não uma descrição do estado presente dele. "Terra da minha aflição" diz o que aquele lugar foi para ele, e não o que ele está sentindo naquele dia.
E a aflição a que se refere tem endereço conhecido: os treze anos entre a cisterna e o palácio. Ler assim é o mais provável, e é o que Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) sustentam ao observar que, mesmo depois da elevação, o Egito continuou sendo para José a terra da aflição.
O que não se pode afirmar é o resto, e é bom ser explícito sobre isso.
Não se pode afirmar que ele estivesse infeliz. O texto não diz uma palavra sobre o estado de espírito dele, e o versículo é de agradecimento, não de queixa.
Não se pode afirmar que ele quisesse voltar. Keil lê na expressão um traço de saudade da terra prometida, e a leitura é possível e atraente; ela não está escrita.
Não se pode afirmar que ele estivesse fazendo uma acusação ao Egito ou a Faraó. O país o havia tratado, nos últimos anos, melhor do que qualquer outro o teria tratado.
O que se pode afirmar é o gesto: tendo à disposição todos os rótulos favoráveis que a vida dele naquele momento autorizava, ele escolheu este, e o pôs dentro do nome de um filho.
Os dois nomes, lidos juntos
É aqui que o par produz o que nenhum dos dois produz sozinho, e o contraste não é do comentarista: os dois versículos estão lado a lado e foram construídos com a mesma fórmula.
No versículo 51, o Egito é o lugar onde ele esqueceu. No versículo 52, é o lugar onde ele sofreu.
As duas frases foram ditas pelo mesmo homem, provavelmente com poucos anos de intervalo, sobre o mesmo país, e o Gênesis as registra em sequência sem uma palavra de conciliação entre elas. Não há "mas", não há "ainda assim", não há explicação.
Uma leitura possível, e ela é do comentarista, é que a segunda frase corrige a primeira sem confessar que a corrige — quem esqueceu tudo não chamaria o lugar de terra da sua aflição. Outra leitura possível é que as duas convivam sem tensão nenhuma na cabeça de quem as disse: esqueceu a dor, e continua sabendo onde ela aconteceu.
Não é possível decidir. O texto entrega as duas frases e some.
O que a palavra vai fazer depois
Há um dado que só aparece quando se olha para adiante, e ele é verificável.
A palavra que José usa para o Egito — aflição — é a mesma que Êxodo 3:7 põe na boca de Deus a respeito do povo escravizado naquele mesmo país: "tenho visto a aflição do meu povo, que está no Egito". E é a que Israel recitava em Deuteronômio 26:7 ao lembrar o que passou ali.
Ou seja: o rótulo que José pregou no país, num momento em que o país estava sendo generoso com ele, é o rótulo com que o país entrará na memória de Israel para sempre.
O Gênesis não faz essa ligação, e é preciso dizê-lo com clareza: reconhecê-la é leitura de quem lê os dois livros seguidos. O que é objetivo é a coincidência de vocabulário, e ela é forte.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Efraim, a pessoa
Segundo filho de José, nascido no Egito nos anos de fartura. Como o irmão, não tem uma única fala registrada em toda a Bíblia.
Aparece em Gênesis 46:20, na lista dos que estavam no Egito, e em Gênesis 48, quando Jacó adota os dois netos e os põe no lugar de filhos, conforme Gênesis 48:5. Na bênção, o avô cruza as mãos e coloca a direita sobre a cabeça dele, o mais novo, e declara que o irmão menor será maior — o episódio está em Gênesis 48:13-20.
A tribo
Efraim recebeu o coração de Canaã: a região montanhosa central, entre Betel e a planície de Jezreel, descrita em Josué 16.
Foi um território pequeno e bom, e ali ficaram lugares decisivos. Siquém, Betel e sobretudo Silo, onde a tenda da congregação foi armada e onde a arca permaneceu por gerações, conforme Josué 18:1 e 1 Samuel 1:3.
De Efraim veio Josué, filho de Num, segundo Números 13:8 — o homem que conduziu a entrada em Canaã. E de Efraim veio também Jeroboão, filho de Nebate, conforme 1 Reis 11:26, que dividiu o reino e fundou o do norte.
Quando Efraim virou o nome de um reino
Esta é a parte que mais importa para entender o alcance do nome.
Depois da divisão, a tribo de Efraim se tornou a mais poderosa do norte, e os profetas passaram a chamar o reino inteiro pelo nome dela. Em Isaías 7:2 e 7:9, Efraim é o reino do norte. Em Oseias o nome aparece dezenas de vezes com esse valor, e Oseias 11:8 traz a frase mais conhecida: "como te deixaria, ó Efraim?".
Esse reino foi destruído pela Assíria em 722 antes de Cristo, e sua população, deportada.
Registre-se o percurso sem tirar dele mais do que ele dá: o nome que significa fruto na terra da aflição acabou sendo o nome do reino que foi arrancado da própria terra. O Gênesis não faz o comentário, e a coincidência é do leitor.
Om, ou Heliópolis
A cidade da família materna. Aparece em Gênesis 41:45, aqui pela via do versículo 50, e ainda em Ezequiel 30:17, onde é anunciada a sua queda. Jeremias 43:13 a chama de Bete-Semes, "casa do sol", traduzindo a função dela.
O que era o culto de lá está no item 2. Quem era Potífera é assunto do estudo de Gênesis 41:45.
A aflição, como episódio
Os treze anos a que a expressão se refere estão todos narrados: a cisterna em Gênesis 37:24, a venda em Gênesis 37:28, a casa de Potifar em Gênesis 39:1, a acusação em Gênesis 39:14-18, a prisão em Gênesis 39:20 e os dois anos de esquecimento em Gênesis 40:23, medidos no versículo 1 deste capítulo.
5. Pontos de Ensino
Prosperar não é o mesmo que pertencer
José tem tudo o que aquele país podia dar, e chama o país de terra da sua aflição. As duas coisas cabem na mesma frase porque são de ordens diferentes.
Isso desmonta uma equivalência muito comum: a de que quem foi bem-sucedido num lugar deve, por isso, sentir-se dele. Sucesso é o que se recebe; pertencimento é outra coisa, e não se compra com o primeiro.
É útil nos dois sentidos. Serve a quem se cobra por não se sentir em casa onde a vida vai bem, e serve a quem confunde acolhida com integração.
Nomear a dor com precisão não é ingratidão
José está agradecendo quando diz aquilo. A frase inteira é de reconhecimento — Deus me fez frutífero —, e o rótulo duro está dentro do agradecimento, não contra ele.
Há aqui uma lição de linguagem que vale a pena. Dizer com exatidão o que um período foi não anula o bem que veio depois. Quem precisa maquiar o passado para poder agradecer o presente está fazendo as duas coisas mal.
O bem pode vir de onde não se queria estar
Nada no versículo sugere que José tenha escolhido o Egito, e tudo no livro anterior mostra o contrário: ele foi levado para lá dentro de uma caravana, vendido pelos irmãos.
O que o versículo registra é que o crescimento aconteceu ali mesmo. Não depois de sair, não em outro lugar, não quando as condições melhorassem — na terra da aflição, com esse nome.
Os dois nomes formam uma ordem
Primeiro Manassés, depois Efraim. Primeiro o que ficou para trás, depois o que veio.
O texto não enuncia essa sequência como princípio, e seria forçado transformá-la em regra de vida. O que se pode notar é que ela existe: aquele homem só nomeia o fruto depois de nomear o esquecimento, e os dois nomes são a mesma biografia contada em duas etapas.
Quem carrega o nome não é quem o escolheu
Efraim atravessou a vida chamando-se por uma frase sobre a aflição do pai, e depois dele uma tribo inteira, uma serra e um reino carregaram a mesma palavra.
Vale como advertência prática. O que se cria com o próprio assunto dentro costuma durar mais que o assunto, e continua repetindo aquilo muito depois de a pessoa que o viveu ter morrido.
6. Aspectos Filosóficos
A questão: o que é pertencer a uma terra, e o que é viver na que não é a sua?
O versículo põe a questão de um jeito que a filosofia raramente consegue: numa frase só, e sem argumentar.
José cresceu no Egito. Foi feito frutífero ali, com todas as letras. E, na mesma sentença, chama o lugar de terra da sua aflição. Fruto e chão são coisas diferentes, e ele as separa sem explicar por quê.
A pensadora que fez desse assunto o centro de uma obra inteira é a única deste capítulo a receber este lugar.
Simone Weil e O Enraizamento
Simone Weil (filósofa francesa, 1909-1943) escreveu L'Enracinement — "O Enraizamento" — em Londres, em 1943, como relatório encomendado pela França Livre sobre o que seria preciso para reconstruir o país depois da guerra. Ela morreu naquele mesmo ano, aos trinta e quatro, na Inglaterra. O livro saiu em 1949, e Albert Camus, que o publicou, o tinha na conta de obra fundamental.
É preciso saber de onde ela escrevia. Weil era judia, estava exilada, tinha visto a França ocupada e a sua própria família dispersa. O livro sobre raízes foi escrito por alguém que não tinha mais nenhuma.
A tese
Ela abre com uma afirmação que sustenta o resto: o enraizamento é talvez a mais importante e a menos reconhecida das necessidades da alma humana — e uma das mais difíceis de definir.
A definição que ela propõe é precisa e vale citar pelo que exclui. Uma pessoa tem raiz pela participação real, ativa e natural na existência de uma coletividade que conserva vivos certos tesouros do passado e certos pressentimentos do futuro.
Repare no que essa definição pede. Não basta estar num lugar: é preciso participação real. Não basta gostar dele: é preciso participação ativa. Não basta decidir pertencer: a palavra é natural, isto é, pela via comum da língua, do trabalho, da vizinhança, do costume herdado. E a coletividade em questão precisa fazer duas coisas ao mesmo tempo — guardar o passado e apontar para o futuro.
Weil insiste ainda que toda pessoa precisa de várias raízes, e que é através dos meios de que participa naturalmente que ela recebe quase toda a sua vida moral, intelectual e espiritual.
O desenraizamento
A parte central do livro trata do contrário disso, e é a mais dura.
Weil aponta duas causas principais de desenraizamento: a conquista militar e o dinheiro. A primeira arranca as pessoas do lugar. A segunda dissolve, sem violência aparente, todos os outros motivos de agir, e acaba desenraizando quem nunca saiu do lugar nenhum.
E ela sustenta uma tese sombria, que é dela e precisa ser apresentada como dela: quem foi desenraizado tende a desenraizar. O desenraizado, escreve ela, ou cai numa inércia de alma quase equivalente à morte, ou se lança numa atividade que tende a desenraizar outros — muitas vezes os que ainda não estavam.
Onde isso ilumina o versículo
Aplique-se a definição dela ao caso, e o resultado é exato.
José tem, no Egito, quase tudo o que a vida oferece. Não tem participação natural numa coletividade que guarde o passado dele. O passado dele está em Canaã, com um pai que ele não vê há vinte anos, e a coletividade em que ele vive é aquela cujos membros, segundo o próprio Gênesis, não se sentavam à mesa com hebreus.
A distinção que Weil formula é a que o versículo faz sem formular: fruto não é raiz. José foi feito frutífero, e o chão continua sendo o da aflição.
Há também, no livro que estamos lendo, um eco da tese sombria dela — e aqui é preciso pisar com muito cuidado. Em Gênesis 47:21 o texto registra que, durante a fome, José transferiu a população do Egito para as cidades; o texto hebraico tradicional diz isso, e outras versões antigas trazem uma leitura diferente e mais dura. O assunto pertence ao estudo de Gênesis 41:56 e a Gênesis 47, e não se desenvolve aqui. Registre-se apenas o que é honesto registrar: a aproximação entre aquele episódio e a frase de Weil é do comentarista, o Gênesis não a faz, e usá-la como acusação a José seria pôr no texto um juízo que ele não emite.
Onde a aproximação não vale
Quatro limites.
O primeiro é de mundo. Weil escreve sobre a França do século vinte, sobre operários de fábrica, sobre a escola, sobre a colonização e sobre a guerra. Nenhuma dessas realidades existe no versículo, e as categorias dela chegam aqui como analogia.
O segundo é de vocabulário. O Gênesis não tem palavra para raiz nesse sentido, nem discute pertencimento em lugar nenhum. A palavra que o versículo usa é fruto, que é o oposto exato do campo em que Weil trabalha.
O terceiro é sobre o estado de José. O texto não diz que ele sofria de desenraizamento, nem que se sentia fora do lugar, nem que quisesse estar em outro. Toda descrição da vida interior dele é acréscimo.
O quarto é o mais importante. A tese de que o desenraizado desenraiza é uma afirmação de Weil sobre o século dela, e não um princípio verificado. Transportá-la para o Egito antigo e usá-la para explicar o que José fez é exatamente o tipo de leitura que este texto não autoriza.
O que sobra, e uma contraprova do próprio livro
Sobra a distinção, que é útil e que o versículo faz sozinho: dar fruto num lugar não é ter raiz nele.
E sobra um dado que o Gênesis fornece muito depois, e que fecha o assunto melhor do que qualquer comentário. Em Gênesis 50:25, no fim de uma vida inteira passada no Egito, com dois filhos, netos e bisnetos nascidos ali, José faz os irmãos jurarem que levarão os ossos dele embora quando saírem.
Noventa e tantos anos depois desta frase, ele ainda não tinha feito daquele chão o seu chão. É o próprio livro que diz, e é o comentário mais forte que existe sobre a expressão deste versículo.
7. Aplicações Práticas
Chamar o lugar pelo que ele foi
É a aplicação direta, e ela vale para quem vive longe de onde começou — quem migrou, quem mudou de cidade atrás de trabalho, quem refez a vida depois de uma ruptura.
Existe uma pressão social para resolver isso por decreto: ou o lugar novo é ótimo e a pessoa deve estar grata, ou é péssimo e ela deve voltar. José não faz nem uma coisa nem outra. Reconhece o que recebeu e nomeia o que o lugar foi para ele, na mesma frase, sem escolher entre as duas.
Na prática, isso libera de uma exigência falsa. Não é preciso decidir se um lugar é bom ou ruim para poder viver nele.
Não confundir prosperar com pertencer
São medidas independentes, e tratá-las como se fossem uma só produz erro nas duas direções.
Quem vai bem e não se sente em casa tende a concluir que há algo errado consigo. Não há: são coisas diferentes, e a segunda demora mais e depende de outras condições — convivência, língua, vínculo, tempo.
Quem se sente em casa e não vai bem tende a concluir que precisa sair. Também não é automático. Vale examinar as duas contas separadamente antes de tomar decisão grande com base numa só.
O que se transmite a filhos nascidos onde os pais não escolheram estar
Manassés e Efraim nasceram num país que o pai não escolheu, de uma mãe daquele país, e receberam nomes na língua dele, com explicações que falam de coisas que eles nunca viveram.
Toda família nessa situação faz escolhas parecidas, e quase sempre sem perceber que está escolhendo: a língua de casa, a comida, o que se conta e o que não se conta sobre de onde se veio. O versículo não dá receita. Mostra que a decisão é tomada, e que ela chega aos filhos em forma de identidade.
A gratidão que não precisa apagar nada
Um exercício prático, tirado da forma da frase: agradecer sem reescrever a história.
Muita gente acha que reconhecer o bem recebido exige dizer que valeu a pena, que tudo tinha um propósito, que hoje é grata pelo que sofreu. José não diz nada disso. Diz que foi feito frutífero, e diz onde. As duas informações ficam de pé juntas, e é exatamente por isso que a frase soa verdadeira.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Efraim é mesmo um dual? O que significa?
A forma da palavra tem a terminação que em hebraico marca o par, e vários comentaristas leram o nome como "duplamente frutífero" — é a leitura de Keil, e Ellicott sugere que a terminação intensifica o sentido.
Há razão para prudência. Nomes de lugar em hebraico terminam com frequência nessa mesma forma sem que haja par nenhum envolvido, e o próprio nome do Egito no hebraico tem a mesma terminação. O item 10 desenvolve.
O que se pode afirmar é que o texto explica o nome pelo verbo frutificar, e que a explicação dada é essa. O sentido exato da terminação é discutido e não se decide aqui.
Por que Jacó inverteu a ordem dos dois netos?
O Gênesis não explica em Gênesis 48, e o próprio Jacó recusa justificar: quando José tenta corrigi-lo, ele responde apenas que sabe o que está fazendo.
A explicação que o livro fornece é indireta e é histórica: Efraim de fato se tornou a tribo dominante do norte, a ponto de emprestar o nome ao reino inteiro. A bênção descreve o que veio a acontecer.
Vale ainda a observação de que a inversão do primogênito é padrão no Gênesis — Isaque e Ismael, Jacó e Esaú, Judá e os irmãos mais velhos. Reconhecer o padrão não é o mesmo que explicá-lo.
José se sentia egípcio?
Não é possível decidir, e os dados vão nas duas direções.
A favor: nome egípcio dado por Faraó, mulher egípcia de família sacerdotal, cargo egípcio, barba raspada como os egípcios no versículo 14, e uma vida inteira passada no país. Em Gênesis 42:8 os próprios irmãos não o reconhecem, e em Gênesis 42:23 ele fala com eles por intérprete.
Contra: nomes hebraicos para os dois filhos, com explicações em hebraico; esta expressão; o pedido de Gênesis 47:29-30, para não ser sepultado no Egito; e o juramento de Gênesis 50:25 sobre os ossos.
O texto nunca formula a pergunta. Ela é do leitor, e a resposta honesta é que os dois conjuntos de dados são reais.
Por que o versículo é tão mais curto que o anterior?
Porque a fórmula já foi estabelecida. O versículo 51 precisou dizer quem nomeava, que era o primogênito e qual a explicação inteira; este aproveita a estrutura e diz só o que muda.
O efeito, de todo modo, é que a frase mais dura do par é também a mais rápida. Ela passa em dez palavras.
A "aflição" é dos treze anos ou do presente?
O mais provável é que seja dos treze anos, e é assim que a maior parte dos comentaristas lê: a expressão qualifica o lugar pelo que ele foi, e não descreve o momento.
Mas o hebraico não decide isso, e a construção admite as duas leituras. Quem quiser ler que José continuava se sentindo afligido no Egito tem apoio gramatical e não tem apoio no contexto, que é de fartura e de agradecimento.
Por que ele não chamou o filho de algo ligado ao Egito?
O texto não diz. Registre-se apenas o contraste: o pai carrega nome egípcio dado pelo rei, a mãe é egípcia, os meninos nascem no Egito — e os dois nomes são hebraicos, explicados por frases hebraicas.
Se isso foi decisão consciente de manter alguma coisa, ou apenas o hábito de quem pensa na própria língua, permanece em aberto.
9. Conexão com Outros Textos
O verbo da bênção original
Gênesis 1:28 — "E Deus os abençoou e lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra."
Gênesis 35:11 — "Disse-lhe Deus: Eu sou o Deus Todo-Poderoso; frutifica e multiplica-te; uma nação, sim, uma multidão de nações sairá de ti."
A segunda é dita a Jacó em Betel. É o verbo que o filho dele usa aqui, na primeira pessoa e no Egito.
A palavra "aflição", na boca da família
Gênesis 29:32 — "Lia concebeu e deu à luz um filho, e chamou-lhe Rúben, pois disse: O SENHOR viu a minha aflição; agora, portanto, meu marido me amará."
Gênesis 31:42 — "Se o Deus de meu pai (...) não fora comigo, certamente me despedirias vazio. Deus viu a minha aflição e o trabalho das minhas mãos, e repreendeu-te ontem à noite."
A primeira é a avó de José nomeando um filho pela própria aflição, no mesmo formato deste versículo. A segunda é o pai dele, usando a mesma palavra ao se libertar de vinte anos de serviço a Labão.
A mesma palavra, aplicada ao povo no mesmo país
Êxodo 3:7 — "Disse o SENHOR: Tenho visto claramente a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus feitores."
Deuteronômio 26:7 — "Clamamos ao SENHOR, Deus de nossos pais, e o SENHOR ouviu a nossa voz, e viu a nossa aflição, o nosso trabalho e a nossa opressão."
A confissão que todo israelita recitava reúne as duas palavras que José usou para nomear os dois filhos. A ligação não é feita pelo Gênesis; a coincidência de vocabulário é verificável.
A família frutificando no Egito
Gênesis 47:27 — "Assim habitou Israel na terra do Egito, na terra de Gósen; e nela adquiriram propriedades, e frutificaram, e multiplicaram-se muito."
Êxodo 1:7 — "Mas os filhos de Israel foram fecundos, e se multiplicaram muito, e se tornaram fortíssimos; e a terra se encheu deles."
O mesmo verbo deste versículo, agora aplicado ao povo inteiro no mesmo país — e, em Êxodo, é justamente essa multiplicação que provoca o medo de Faraó e a escravidão.
Viver e plantar em terra estrangeira
Jeremias 29:5-7 — "Edificai casas e habitai-as; plantai pomares e comei o seu fruto. (...) Buscai a paz da cidade para onde vos fiz levar cativos, e orai por ela ao SENHOR."
A ordem dada aos deportados na Babilônia é a que José cumpriu sem que ninguém lhe mandasse. A comparação é do leitor, e é útil.
A recusa de fazer daquele chão o seu
Gênesis 50:25 — "José fez jurar os filhos de Israel, dizendo: Certamente Deus vos visitará, e fareis transportar os meus ossos daqui."
O fecho da questão que esta expressão abre, dado pelo próprio livro, quase noventa anos depois.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Ao segundo deu o nome de Efraim, pois disse: “Deus me fez frutífero na terra da minha aflição.”
Texto hebraico
וְאֵת שֵׁם הַשֵּׁנִי קָרָא אֶפְרָיִם כִּי־הִפְרַנִי אֱלֹהִים בְּאֶרֶץ עָנְיִי
Transliteração
wə·'êṯ šêm haš·šê·nî qā·rā 'ep̄·rā·yim kî-hip̄·ra·nî 'ĕ·lō·hîm bə·'e·reṣ 'ā·nə·yî
Análise palavra por palavra
וְאֵת שֵׁם הַשֵּׁנִי קָרָא — wə·'êṯ šêm haš·šê·nî qā·rā, "e o nome do segundo chamou".
A ordem das palavras muda em relação ao versículo anterior. Lá o verbo vinha primeiro; aqui o objeto vem primeiro e o verbo por último. É recurso comum do hebraico para pôr o novo elemento em destaque — e o novo elemento é "o segundo".
šê·nî é o ordinal "segundo", da mesma raiz de dois. Note-se o que falta: não está escrito "o segundo filho". O substantivo é dispensado porque o versículo 50 já informou que eram dois.
אֶפְרָיִם — 'ep̄·rā·yim, "Efraim".
O nome termina na forma que em hebraico marca o par, o dual, e é daí que vem a tradução tradicional "duplamente frutífero", adotada por Keil e sugerida por Ellicott.
Convém apresentar a objeção. Nomes de lugar em hebraico terminam com frequência dessa mesma maneira sem que exista dualidade nenhuma — e o próprio nome hebraico do Egito, miṣ·ra·yim, tem a mesma terminação, o que se explica de várias formas e por nenhuma de modo conclusivo. Os léxicos ligam o nome também a 'ep̄·rāṯ, Efrata, e o parentesco entre as duas formas é discutido.
O que é certo é o que o texto faz: explica o nome pelo verbo da frase seguinte, por semelhança de som e de raiz aparente. As explicações de nome no Gênesis funcionam por jogo de palavras, não por derivação rigorosa, e é assim que esta deve ser lida.
כִּי־הִפְרַנִי — kî-hip̄·ra·nî, "porque me fez frutificar".
Verbo na conjugação Hifil — a forma causativa do hebraico, que transforma "dar fruto" em "fazer dar fruto" —, passado, terceira pessoa masculina do singular, com sufixo de primeira pessoa.
A raiz é pā·rāh, dar fruto, ser fecundo. E ela não é uma raiz qualquer: é a da bênção fundadora do livro.
O percurso dela no Gênesis é o seguinte. Em Gênesis 1:22 e 1:28, na criação, dita aos animais e aos homens. Em Gênesis 9:1 e 9:7, a Noé depois do dilúvio. Em Gênesis 17:6, a Abraão, com a promessa das nações. Em Gênesis 17:20, sobre Ismael. Em Gênesis 28:3 e 35:11, a Jacó. E depois de José: em Gênesis 47:27, quando a família inteira frutifica no Egito, e em Êxodo 1:7, onde é essa fecundidade que assusta o novo Faraó e desencadeia a escravidão.
Ou seja, a palavra que José escolhe para agradecer é a mesma que, um livro adiante, descreve o crescimento do povo que motivará a opressão. O Gênesis não faz a ligação; a ocorrência é verificável.
Note-se ainda que a forma causativa põe a iniciativa fora de José, exatamente como no versículo 51. Ele não frutificou: foi feito frutificar.
בְּאֶרֶץ עָנְיִי — bə·'e·reṣ 'ā·nə·yî, "na terra da minha aflição".
Duas palavras, e a segunda é a que carrega tudo.
'ō·nî é aflição, miséria, condição de quem está oprimido ou humilhado. Vem da raiz 'ā·nāh, que significa afligir, humilhar, submeter, e que gera também a palavra traduzida por pobre e por manso.
As ocorrências no Gênesis formam uma linha, e ela é notável porque atravessa a família inteira.
Em Gênesis 16:11, o anjo diz a Agar que o SENHOR ouviu a sua aflição — e a cena se passa numa fuga do Egito para o deserto. Em Gênesis 29:32, Lia nomeia Rúben dizendo que o SENHOR viu a sua aflição. Em Gênesis 31:42, Jacó diz a Labão que Deus viu a sua aflição e o trabalho das suas mãos. E aqui, em Gênesis 41:52, José usa a mesma palavra para o país onde está.
Depois do Gênesis, a palavra se fixa num único assunto. Em Êxodo 3:7 Deus diz ter visto a aflição do seu povo no Egito; em Êxodo 3:17 promete tirá-los da aflição do Egito; em Êxodo 4:31 o povo crê ao saber que o SENHOR viu a sua aflição. Em Deuteronômio 16:3 o pão sem fermento da Páscoa é chamado pão de aflição, em memória daquilo. E em Deuteronômio 26:7 a palavra aparece na confissão obrigatória, ao lado de 'ā·māl — o mesmo par que José usou para nomear os dois filhos, primeiro um e depois o outro.
'e·reṣ é a terra, o país. É a palavra que percorre este capítulo inteiro na expressão "a terra do Egito", repetida dezenas de vezes. Aqui, e só aqui, o Egito recebe outro complemento: não é a terra do Egito, é a terra da minha aflição.
A frase inteira
Dez palavras em hebraico, contra doze do versículo anterior. É a explicação de nome mais curta do par, e a mais dura.
E ela termina na palavra "minha aflição" — última posição, a de maior destaque na frase hebraica, e a mesma posição em que o versículo 51 havia deixado "meu pai".
Os dois versículos, portanto, fecham nas duas coisas que José não resolveu: a família e o que passou.
11. Conclusão
Cinco conclusões decorrem do versículo.
A primeira é a que o texto oferece sem precisar de ajuda: prosperidade e pertencimento não são a mesma coisa, e um homem no auge da vida pode chamar de terra da sua aflição o país que lhe deu tudo. A frase não é queixa nem ingratidão — está dentro de um agradecimento —, e é justamente por isso que ela funciona.
A segunda é sobre o par de nomes. Os dois versículos foram construídos com a mesma fórmula e dizem coisas que não se encaixam: no primeiro o Egito é onde ele esqueceu, no segundo é onde ele sofreu. O Gênesis os põe lado a lado e não concilia. Ou a segunda frase corrige a primeira sem admitir, ou as duas conviviam sem conflito na cabeça de quem as disse. Não é possível decidir.
A terceira é sobre o crédito. Em nenhum dos dois nomes José se apresenta como autor do que aconteceu. Foi feito esquecer, foi feito frutificar. O padrão vem desde o versículo 16, quando ele recusou o mérito da interpretação diante de Faraó, e se mantém aqui, em privado, diante de um recém-nascido.
A quarta é sobre a palavra escolhida. O termo que ele aplica ao Egito é o que a família vinha usando para a própria desgraça — Agar, Lia e Jacó o usaram antes dele — e é o que Israel usará para a escravidão naquele mesmo país. José põe no Egito, no melhor momento da sua vida, o rótulo com que o Egito ficará na memória do povo. A ligação é do leitor; a coincidência de vocabulário é do texto.
A quinta é a que o livro dá muito depois e que fecha o assunto. Em Gênesis 50:25, no fim de uma vida inteira ali, com filhos, netos e bisnetos nascidos naquele chão, ele faz jurarem que levarão os seus ossos embora. O que ele disse aqui, aos trinta e poucos anos, ele continuava dizendo aos cento e dez.
Fica em aberto o que este bloco de dois versículos não entrega e nunca entregará: em que tom aquelas frases foram ditas, o que Azenate ouviu, e o que os dois meninos entenderam quando tiveram idade para perguntar por que se chamavam assim.













