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Gênesis 48:13

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✍️ Por Alberto Adriano·7 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 40 acessos
E José tomou os dois — Efraim com a sua direita, à esquerda de Israel, e Manassés com a sua esquerda, à direita de Israel — e os aproximou dele.
Homem de trajes egípcios conduzindo dois rapazes, um em cada mão, na direção de um ancião sentado na cama com os braços ainda baixos.

Estudo


E José tomou os dois — Efraim com a sua direita, à esquerda de Israel, e Manassés com a sua esquerda, à direita de Israel — e os aproximou dele.

1. Introdução

Este é o versículo mais técnico do capítulo. Ele não tem fala, não tem emoção e não tem comentário: tem uma planta baixa.

José pega os dois rapazes, um em cada mão, e os coloca de modo que Manassés, o mais velho, fique do lado da mão direita do avô, e Efraim do lado da esquerda. Para isso ele precisa segurar cada um com a mão contrária, porque está de frente para o pai — e o texto explica esse espelhamento com todas as letras, coisa que o Gênesis quase nunca faz.

O motivo da minúcia aparece no versículo seguinte. Sem esta planta baixa, ninguém entenderia o que Jacó faz com as mãos.

O estudo trata do que José está montando e por quê, do fato de que dois abençoados e duas mãos produzem hierarquia por necessidade, da volta dos nomes ao texto — e da ordem em que eles voltam.

2. Contexto Histórico e Cultural

Duas mãos, dois abençoados: a hierarquia é inevitável

Convém começar por um ponto estrutural, porque ele explica a cena inteira e costuma passar despercebido.

Uma bênção antiga era dada com a mão sobre a cabeça. Com um único destinatário, não há problema: a mão que se usa é a direita, e acabou. Com dois destinatários ao mesmo tempo, e duas mãos disponíveis, o arranjo produz uma classificação queira-se ou não. Uma das cabeças recebe a direita; a outra, obrigatoriamente, recebe a esquerda.

Não existe forma neutra de abençoar duas pessoas com as duas mãos. Ou se abençoa uma de cada vez, ou se aceita que a posição vai dizer alguma coisa.

É por isso que este versículo existe. Ele não descreve um detalhe de encenação: descreve a decisão que a cena obriga alguém a tomar.

Quem conduz o rito e quem posiciona as pessoas

Nas cerimônias antigas, essas duas funções costumavam estar separadas.

Quem executava o ato — o pai, o sacerdote, o rei — era uma pessoa. Quem trazia os participantes, colocava cada um no seu lugar e cuidava para que a sequência corresse é outra, e o trabalho dela era invisível justamente quando bem feito.

Aqui as duas funções estão dentro da mesma família e em posições que se atrapalham. Quem posiciona é José — e José não é um auxiliar neutro: é o pai dos dois rapazes que estão sendo classificados, e é o filho do velho que vai classificá-los.

Vale registrar que ninguém no texto acha isso estranho, e que o próprio Jacó pediu, em Gênesis 48:9, que os trouxessem a ele. A tarefa é de José por atribuição.

Direita e esquerda como polos fixos

Naquele mundo, direita e esquerda não eram apenas lados: eram valores.

A direita era o lado da força, da honra e do favor; a esquerda, o lado menor. O que a mão direita significava especificamente numa bênção — a documentação, as imagens, as fórmulas — é assunto do estudo de Gênesis 48:14, onde o problema se decide. E a ligação entre esses lados e os pontos cardeais, na maneira antiga de se orientar, está tratada no estudo de Gênesis 35:18.

O que interessa aqui é apenas isto: as posições já tinham significado antes de qualquer mão ser estendida. Ao colocar um rapaz de cada lado, José não estava arrumando o quarto. Estava atribuindo posições.

O problema do espelho, e como um texto antigo o resolve

Duas pessoas de frente uma para a outra têm as direitas em lados opostos. A minha direita fica diante da sua esquerda.

Isso é banal na vida e é um transtorno na escrita. Qualquer instrução antiga que precisasse indicar lados — um ritual, um contrato de divisão de terra, uma descrição de construção — enfrentava a mesma dificuldade, e a solução era sempre a mesma: dizer de quem é a direita. Sem o ponto de referência declarado, a instrução não funciona.

É exatamente o que este versículo faz, e faz duas vezes. "Efraim com a sua direita, à esquerda de Israel"; "Manassés com a sua esquerda, à direita de Israel". Os dois sistemas de referência aparecem lado a lado, na mesma frase, para cada menino.

É uma precisão pouco comum neste livro, que costuma deixar quase tudo implícito. Ela existe porque, sem ela, o versículo seguinte seria ilegível.

A regra que José está aplicando

Uma última nota, e ela é de fundo jurídico.

A posição do filho mais velho não era preferência de família: era estatuto, com efeitos sobre a herança e sobre a chefia da casa depois da morte do pai. O que essa posição valia em bens está tratado nos estudos de Gênesis 48:5 e Gênesis 48:22.

O que interessa a este versículo é o lado prático: havia uma regra, e ela era conhecida por todos os presentes. José não está inventando um arranjo nem improvisando — está aplicando o procedimento padrão, do jeito que qualquer pessoa daquele mundo aplicaria. É por isso que a surpresa do versículo 17 é genuína.

3. Análise Teológica do Versículo

"E José tomou os dois"

O verbo é o mesmo que Jacó tinha usado em Gênesis 48:9, ao pedir "traze-os a mim". José faz o que foi pedido — e faz com um cuidado que ninguém pediu.

Note que ele os toma os dois, ao mesmo tempo, um em cada mão. Não os apresenta em sequência. Essa escolha, sozinha, já determina que vai haver um lado direito e um lado esquerdo.

"Efraim com a sua direita, à esquerda de Israel, e Manassés com a sua esquerda, à direita de Israel"

Esta é a frase mais precisa do capítulo, e vale desmontá-la devagar.

José está de frente para o pai. Por isso, para colocar Manassés do lado da mão direita do velho, ele precisa segurar Manassés com a própria mão esquerda. E, para colocar Efraim do lado esquerdo do velho, precisa segurá-lo com a própria direita.

O texto poderia ter dito apenas "colocou Manassés à direita de Israel e Efraim à esquerda". Preferiu descrever também qual mão de José segurava qual rapaz. Está descrevendo o gesto de dentro, do ponto de vista de quem executa.

É uma escrita quase de manual, e não é o hábito deste livro. O Gênesis costuma deixar implícita a metade do que acontece. Aqui ele soletra.

A razão aparece um versículo adiante: sem esta descrição, o leitor não teria como entender por que as mãos de Jacó precisaram se cruzar. A precisão deste versículo é o preparo do seguinte.

O que José está fazendo

Ele está montando a cena para que ela produza o resultado correto.

A regra é conhecida: o mais velho recebe a direita. Manassés é o mais velho. Portanto Manassés vai para o lado da direita do avô. Não há nada de calculista nisso — é competência, e é a coisa certa a fazer.

E repare no que José não faz. Não pergunta ao pai onde cada um deve ficar. Não diz "este é o primogênito", como dirá em Gênesis 48:18. Ele simplesmente arruma, porque não lhe ocorre que possa haver outra arrumação.

Aí está o pressuposto do versículo, e é ele que o capítulo vai desmontar: José supõe que a bênção segue a ordem de nascimento automaticamente. Basta pôr cada um no seu lugar, e o resto se cumpre sozinho.

O único gesto de José que não dá certo

Vale medir o tamanho do que vai acontecer.

José acerta tudo neste capítulo. Chega quando é chamado, traz os filhos, responde ao pai, aproxima os rapazes, reverencia, posiciona com exatidão. Nada disso falha.

O único gesto dele que não produz o efeito pretendido é este — e ele falha não por erro de execução, mas porque o velho recusa a premissa. A montagem estava perfeita. O que não estava previsto era um homem que atravessasse os braços.

Os nomes voltam ao texto, e voltam numa ordem

Desde Gênesis 48:5 os dois eram tratados por pronome: "estes", "os", "eles". Aqui o texto volta a separá-los pelo nome — porque agora a posição de cada um passou a importar.

E há um detalhe que merece atenção. Neste versículo, dedicado a colocar o primogênito no lugar de honra, o texto nomeia Efraim primeiro.

Não é caso isolado. Em Gênesis 48:1, quando José leva os filhos, a ordem é "Manassés e Efraim" — a ordem de nascimento. A partir de Gênesis 48:5, ela se inverte: "Efraim e Manassés". Aqui é Efraim primeiro; em Gênesis 48:20 a fórmula da bênção dirá "como Efraim e como Manassés".

Ou seja: o próprio modo de listar os dois já mudou antes de as mãos se cruzarem, e continua mudado depois. Se isso é sinal deixado de propósito ou reflexo da posição que as duas tribos vieram a ter na história de Israel é discutido, e não é possível decidir. Que a inversão está ali, e é constante, é fato verificável.

"e os aproximou dele"

O mesmo verbo de Gênesis 48:10, quando José aproximou os dois pela primeira vez. A diferença é o cuidado: lá era só chegar perto; aqui é chegar perto de um jeito calculado.

É a segunda e última aproximação. Depois desta, quem se move é Jacó.

O que o texto não diz

Não diz que José desconfiava de alguma coisa. Não diz que ele quis garantir o resultado por medo de uma inversão. Não diz que agiu com segunda intenção.

O versículo é apresentado como procedimento comum, sem nenhuma marca de tensão. A tensão é toda do leitor, que já leu Gênesis 27 — e do próprio texto, que não avisa nada.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

José, que posiciona

É o sujeito dos três verbos do versículo: tomou, colocou, aproximou. Nenhum outro personagem age aqui.

Vale reter o contraste com o restante do bloco final do Gênesis. Nas cenas do Egito, José é quem decide, quem ordena e quem administra. Neste capítulo ele é quem carrega, quem posiciona e quem se abaixa — e a única decisão que toma é esta, sobre onde cada filho deve ficar.

Manassés, o primogênito, colocado à direita

O mais velho dos dois, nascido primeiro segundo Gênesis 41:51. Está sendo colocado no lado que a regra reserva a ele.

É a última vez, no capítulo, em que Manassés ocupa a posição que lhe cabe. Do versículo 14 em diante, ele é sempre o segundo — e em Gênesis 48:20 o texto fecha dizendo que Jacó "pôs Efraim adiante de Manassés".

Efraim, o mais novo, colocado à esquerda

O segundo filho, nascido depois, segundo Gênesis 41:52.

Neste versículo ele está no lado menor — e o texto, curiosamente, o nomeia antes do irmão. É a mesma ordem que aparece desde Gênesis 48:5 e que voltará em Gênesis 48:20.

Historicamente, Efraim viria a ser a tribo dominante do norte de Israel, a ponto de o nome dela ser usado pelos profetas como sinônimo do reino inteiro. Que isso tenha influído na ordem em que o Gênesis lista os dois é hipótese frequente entre os estudiosos, e não é demonstrável a partir do texto.

Israel, o ponto de referência

Jacó não faz nada neste versículo. Ele é mencionado duas vezes, e nas duas como referência espacial: "à esquerda de Israel", "à direita de Israel".

É uma posição literalmente central. Todo o versículo se organiza em torno do corpo de um homem que está imóvel, sentado na cama, e que não vê nada do que está sendo montado ao redor dele.

O quarto, como palco

A cena continua no mesmo lugar: casa no Egito, o velho sentado, o filho de pé diante dele, os dois rapazes agora colocados um de cada lado.

A partir daqui, e até o fim do capítulo, ninguém muda de lugar. Todo o resto acontece com as mãos.

5. Pontos de Ensino

Arrumar as condições não garante o resultado

José faz tudo certo. Conhece a regra, aplica a regra, posiciona com exatidão e não comete nenhum erro de execução.

E não funciona — porque o que ele controlava era a posição dos corpos, e a decisão estava em outro lugar. É a diferença entre preparar as condições de um resultado e ter o resultado nas mãos.

O trabalho bem feito costuma ser invisível

Este versículo descreve, com detalhe raro, uma tarefa que normalmente ninguém registra: colocar cada pessoa no lugar certo antes de uma cerimônia.

O Gênesis o registra porque, sem ele, o capítulo não se entende. É um bom lembrete de que a parte visível de um ato costuma depender de uma parte que ninguém vê.

Toda distribuição de lugares é uma declaração

Não havia como colocar dois rapazes diante de um homem com duas mãos sem dizer alguma coisa sobre eles. A escolha existia; a neutralidade, não.

Vale como observação geral: em muitas situações, recusar-se a classificar já é uma classificação, e o que parece arrumação prática costuma carregar juízo.

O costume é seguido por quem nunca o viu falhar

José aplica a regra da primogenitura sem hesitar, numa família em que ela já foi contrariada duas vezes — com Isaque sobre Ismael e com o próprio Jacó sobre Esaú.

O texto não comenta essa ironia. Ela está disponível para quem leu o livro desde o começo, e não para quem está dentro da cena.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo levanta uma questão que a vida prática enfrenta o tempo todo: até onde vai o controle de quem organiza as condições de um acontecimento?

José faz um trabalho impecável. Identifica a regra em vigor, calcula o espelhamento das mãos, segura cada rapaz com o braço correto e coloca cada um no lado que lhe cabe. Do ponto de vista de quem prepara, não há nada a corrigir.

A questão é que preparar não é o mesmo que determinar. Existe uma diferença real entre criar as condições em que um resultado se torna provável e produzir o resultado — e essa diferença não é de grau: é de natureza. O primeiro trabalho é sobre o mundo; o segundo dependeria de dispor da vontade alheia, e ninguém dispõe.

Há aí um limite que costuma ser mal compreendido. A ilusão não está em achar que a preparação ajuda — ela ajuda, e neste caso quase bastou. A ilusão está em confundir o alcance de um plano com a sua qualidade. Um plano perfeito continua sendo um plano, e planos não decidem por terceiros.

O versículo mostra isso de um jeito quase geométrico. José organiza um espaço; Jacó move dois braços. O trabalho maior é o de José, e a decisão é do outro.

E vale a observação final: a arrumação de José não foi desfeita. Manassés continuou à direita do velho, exatamente onde foi posto. O que mudou não foi a posição dos corpos, e sim o percurso das mãos. Um arranjo pode permanecer intacto e ainda assim não produzir o efeito para o qual foi montado.

7. Aplicações Práticas

Fazer a sua parte com capricho, sabendo que ela é só a sua parte

José prepara tudo com exatidão e não obtém o que queria. O texto não o repreende por ter preparado, nem sugere que ele devia ter deixado por conta do acaso.

A aplicação é sóbria: preparar bem continua sendo a coisa certa a fazer, mesmo quando o resultado não depende de quem prepara. O erro não estava no cuidado — estava em supor que o cuidado bastava.

O serviço que ninguém agradece

Alguém precisa levar as pessoas até a sala, colocar cada uma no seu lugar e cuidar da ordem das coisas. É trabalho que só se nota quando falta.

Neste capítulo, é o segundo homem do Egito que o faz — e o Gênesis achou por bem descrevê-lo em detalhe. Vale como reconhecimento de um tipo de tarefa que costuma ficar fora do relato.

Rever o pressuposto quando o resultado surpreende

O que falhou aqui não foi um passo do procedimento: foi a suposição de que o procedimento decidia o assunto.

Quando algo bem executado não produz o efeito esperado, a primeira pergunta útil raramente é "onde errei na execução". Costuma ser: o que eu estava dando por certo sem ter verificado?

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que o texto descreve as mãos de José, e não só a posição dos meninos?

Porque José está de frente para o pai, e nessa posição as direitas se invertem. Sem dizer qual mão dele segurava qual rapaz, a instrução ficaria ambígua — e o cruzamento das mãos no versículo seguinte se tornaria incompreensível.

José estava tentando forçar o resultado?

O texto não diz nada nesse sentido. Ele está aplicando a regra corrente: o mais velho recebe a mão direita. Nada na cena sugere desconfiança ou manobra — a surpresa dele, em Gênesis 48:17, indica o contrário.

Por que ele não perguntou ao pai onde cada um deveria ficar?

Porque não lhe ocorreu que houvesse dúvida. A ordem de nascimento resolvia a questão, e ele agiu como qualquer pessoa daquele mundo agiria. É justamente esse pressuposto que o versículo seguinte desfaz.

Por que o texto nomeia Efraim antes de Manassés, se está colocando o mais velho à direita?

Essa inversão aparece desde Gênesis 48:5 e volta em Gênesis 48:20. Há quem veja nela um sinal deixado de propósito e há quem a atribua à importância que a tribo de Efraim veio a ter no norte de Israel. Não é possível decidir; o dado, porém, é constante no capítulo.

Jacó desfez a arrumação de José?

Não. Os dois rapazes ficaram exatamente onde foram postos. O que Jacó mudou foi o trajeto das próprias mãos — a posição dos corpos permaneceu intacta.

Por que não abençoar um de cada vez?

O texto não explica. Vale observar que abençoar dois ao mesmo tempo, com duas mãos, obriga a estabelecer uma ordem entre eles: não existe forma neutra de fazê-lo. A escolha de bendizer os dois juntos é, em si, parte do que produz o problema.

9. Conexão com Outros Textos

O pedido que este versículo cumpre

Gênesis 48:9 — "Traze-os a mim, e eu os abençoarei." A ordem de Jacó, quatro versículos antes, com o mesmo verbo de tomar que abre este.

Gênesis 48:10 — "Então José os aproximou dele, e ele os beijou e os abraçou." A primeira aproximação, sem posicionamento. Esta é a segunda, e calculada.

A ordem em que os dois nomes aparecem

Gênesis 48:1 — "Então ele tomou consigo seus dois filhos, Manassés e Efraim." A ordem de nascimento, no início do capítulo.

Gênesis 48:5 — "os seus dois filhos, Efraim e Manassés." A ordem invertida, e é a que o capítulo passa a usar.

Gênesis 48:20 — "Deus faça de você como Efraim e como Manassés." A fórmula final, com o mais novo à frente.

A regra que José está aplicando

Deuteronômio 21:17 — "Mas ao primogênito reconhecerá, dando-lhe porção dobrada de tudo quanto tiver, porque ele é o princípio da sua força; o direito da primogenitura é seu." A codificação posterior do estatuto que José dá por evidente.

As vezes em que essa regra já tinha sido contrariada nesta família

Gênesis 17:19-21 — "Sara, sua mulher, lhe dará um filho... e estabelecerei a minha aliança com ele. Quanto a Ismael, também o abençoei." Isaque, o mais novo, recebe a aliança.

Gênesis 25:23 — "Duas nações há no seu ventre... e o mais velho servirá ao mais novo." A palavra dada a Rebeca antes do nascimento dos gêmeos.

Direita e esquerda como lados de valor

Eclesiastes 10:2 — "O coração do sábio está à sua direita, mas o coração do tolo, à sua esquerda." A oposição dos dois lados usada como imagem pronta, séculos depois.

Mateus 25:33 — "E porá as ovelhas à sua direita, mas os bodes à esquerda." A mesma classificação, ainda em uso no Novo Testamento.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E José tomou os dois — Efraim com a sua direita, à esquerda de Israel, e Manassés com a sua esquerda, à direita de Israel — e os aproximou dele.

Texto hebraico

וַיִּקַּ֣ח יוֹסֵף֮ אֶת־שְׁנֵיהֶם֒ אֶת־אֶפְרַ֤יִם בִּֽימִינוֹ֙ מִשְּׂמֹ֣אל יִשְׂרָאֵ֔ל וְאֶת־מְנַשֶּׁ֥ה בִשְׂמֹאל֖וֹ מִימִ֣ין יִשְׂרָאֵ֑ל וַיַּגֵּ֖שׁ אֵלָֽיו׃

Transliteração

wayyiqqách Yosséf et-shneihém et-Efráyim biminó missemól Yisraél ve'et-Menashshéh vismoló miminím Yisraél wayyaggésh eláv

Análise palavra por palavra

וַיִּקַּח · wayyiqqách — "e ele tomou"

Raiz laqach, tomar, pegar, no passado narrativo. É o mesmo verbo que Jacó usou no imperativo em Gênesis 48:9, ao dizer "traze-os a mim" — o pedido e a execução usam a mesma palavra.

אֶת־שְׁנֵיהֶם · et-shneihém — "os dois deles"

Shnei é a forma de ligação do numeral dois, com o sufixo de terceira pessoa do plural. O hebraico diz literalmente "os dois deles", construção que insiste na dupla como conjunto.

O detalhe importa: José não toma um e depois o outro. Toma os dois, num movimento só. É essa simultaneidade que obriga a haver um lado direito e um lado esquerdo.

בִּימִינוֹ · biminó — "com a sua direita"

Preposição be ("com", instrumental) mais yamin, a mão direita, com sufixo de terceira pessoa.

Yamin é uma palavra de duplo emprego no hebraico: designa a mão direita e também o sul, pela maneira antiga de se orientar de frente para o nascente. O que a direita significava numa bênção é o assunto do estudo de Gênesis 48:14.

מִשְּׂמֹאל יִשְׂרָאֵל · missemól Yisraél — "do lado esquerdo de Israel"

Semol é a esquerda, e vale a mesma dupla função: a palavra designa também o norte.

A preposição aqui é min, "de". A construção "de a esquerda de Israel" soa estranha em português e é natural em hebraico: indica o lado a partir do qual a pessoa está posicionada, isto é, "vindo pela esquerda de Israel".

Repare no que a frase faz: ela dá dois pontos de referência ao mesmo tempo. A mão é a de José; o lado é o de Israel. Sem esse duplo endereço, a instrução seria ambígua, porque os dois homens estão de frente um para o outro e as direitas deles apontam para lados opostos.

וְאֶת־מְנַשֶּׁה בִשְׂמֹאלוֹ מִימִין יִשְׂרָאֵל · ve'et-Menashshéh vismoló miminím Yisraél — "e Manassés com a sua esquerda, do lado direito de Israel"

A segunda metade repete a primeira com os termos trocados, palavra por palavra.

O resultado é uma estrutura em espelho: direita de José e esquerda de Israel na primeira parte; esquerda de José e direita de Israel na segunda. As quatro palavras de lado aparecem nas quatro posições possíveis, formando um desenho fechado.

Esse tipo de construção não é enfeite. Ele reproduz na frase o que está acontecendo no espaço — dois corpos de frente um para o outro, com os lados invertidos. Quem lia em voz alta ouvia o cruzamento antes de ele acontecer.

וַיַּגֵּשׁ אֵלָיו · wayyaggésh eláv — "e os aproximou dele"

Verbo nagash no Hiphil, a forma causativa: fazer aproximar-se. É exatamente a mesma forma que fecha Gênesis 48:10.

Uma observação de detalhe: aqui o verbo aparece sem objeto expresso. Em Gênesis 48:10 o texto escreveu "aproximou-os"; aqui escreve apenas "aproximou dele". O objeto se entende pelo contexto, e a omissão é normal em hebraico.

Uma palavra sobre os nomes

Vale registrar a ordem em que eles aparecem: Efraim primeiro, Manassés depois — num versículo cujo assunto é justamente colocar Manassés no lugar do primogênito.

Essa é a ordem que o capítulo usa desde Gênesis 48:5 e que se manterá até o fim. Só em Gênesis 48:1, na primeira menção, o texto segue a ordem de nascimento. Se a inversão é deliberada ou reflete a posição histórica das duas tribos é questão discutida e sem resposta firmada.

11. Conclusão

Do exame do versículo, o que se sustenta é isto.

A cena obriga a uma classificação. Duas cabeças e duas mãos, uma delas a direita: não existe modo neutro de abençoar dois ao mesmo tempo. A decisão que o capítulo vai narrar já estava exigida pela geometria da cena antes de qualquer intenção entrar em jogo.

José aplica a regra corrente, e a aplica bem. Calcula o espelhamento, segura cada rapaz com o braço correto e coloca o primogênito do lado da mão direita do avô. Não há erro de execução em nenhum ponto, e o texto não sugere segunda intenção.

O que falha é o pressuposto, não o procedimento. José supõe que a bênção acompanha automaticamente a ordem de nascimento. É o que qualquer pessoa daquele mundo suporia — e é exatamente essa suposição que o versículo seguinte desmonta.

A arrumação permanece intacta. Manassés continua à direita do velho até o fim da cena. O que muda é o trajeto das mãos. Um arranjo pode estar perfeito e mesmo assim não produzir o efeito para o qual foi montado.

A precisão incomum do versículo tem função. O Gênesis, que costuma deixar quase tudo implícito, aqui soletra qual mão de José segurava qual rapaz e de que lado de Israel cada um ficava. Sem isso, o cruzamento do versículo 14 seria ilegível — e a minúcia é, ela mesma, um sinal de que o autor sabia para onde estava indo.

E os nomes já vinham trocados. Desde Gênesis 48:5 o texto lista Efraim antes de Manassés, inclusive neste versículo, dedicado a pôr Manassés no lugar de honra. Se é sinal deixado de propósito ou reflexo do que as duas tribos vieram a ser, não é possível decidir — mas a inversão é constante e verificável.

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