No dia seguinte, Moisés sentou-se para julgar o povo, e o povo ficou de pé diante de Moisés desde a manhã até a tarde.
1. Introdução
Na véspera houve festa diante de Deus; no dia seguinte, Moisés senta-se para julgar, e o povo inteiro fica de pé à espera, da manhã até a tarde. É a primeira cena da Bíblia com um juiz em sessão permanente, e o juiz é um só. O versículo não diz quantas causas eram, nem de que tipo, nem se Moisés parou para comer. A tradição rabínica estranhou o "da manhã até a tarde" e tirou dele uma das frases mais citadas sobre a justiça: quem julga com verdade, nem que seja por uma hora, torna-se sócio de Deus na criação. A cena é o pano de fundo de tudo o que Jetro vai dizer no resto do capítulo.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quem julgava num povo sem tribunais
Israel no deserto não tinha juízes de carreira, nem escrito de lei para consultar, nem lugar fixo de audiência. No mundo antigo, a função de decidir disputas cabia ao chefe: o rei nas cidades-Estado, o patriarca no clã, os anciãos à porta da cidade. Quem governava, julgava, e a mesma pessoa fazia as duas coisas sem que ninguém visse nisso duas funções. A Bíblia de Cambridge (série de comentários da universidade inglesa, fim do século XIX) compara Moisés ao xeque beduíno, que ouvia queixas dos membros da tribo à porta da tenda — comparação tirada de relatos de viajantes europeus no Oriente, útil como imagem e frágil como prova, porque projeta costumes do século XIX sobre um texto antigo.
Albert Barnes (comentarista norte-americano do século XIX) sugere de onde viria tanta causa de uma vez: da partilha do despojo de Amaleque (Êxodo 17:13) e das brigas acumuladas na marcha. É hipótese; o texto não diz o que se julgava. A Mekhilta, ao comentar as "questões" de que Moisés fala logo adiante, pensa em casos de puro e impuro, e não em brigas por despojo.
O Talmude e os juízes que desmaiavam de fome
O Talmude Babilônico, no tratado Shabbat, folha 10a, guarda o uso rabínico mais conhecido deste versículo, e o contexto em que ele aparece diz muito. A página discute a hora em que um tribunal começa e termina. Rabi Yirmeya e Rabi Yona divergiam sobre o momento em que o julgamento começa: para um, quando os juízes se envolvem no manto de oração; para o outro, quando as partes começam a falar. A Gemara (a parte do Talmude que discute a Mishná) concilia os dois: o manto marca o início do primeiro caso do dia; nos seguintes, quando os juízes já estão envoltos, começa-se pela fala das partes. O julgamento tinha um rito de abertura, como a oração.
Logo depois vêm duas cenas. Rav Ami e Rav Asi estudavam entre as colunas da casa de estudo e, a cada hora, batiam no ferrolho da porta e diziam: "Quem tiver causa, entre." E Rav Chisda e Rabba bar Rav Huna passavam o dia inteiro julgando, até ficarem fracos de fome. Foi para eles que Rav Chiya bar Rav, da cidade de Difti, ensinou uma tradição antiga sobre o nosso versículo: "Passa pela sua cabeça que Moisés ficava julgando o dia inteiro? Quando ele estudaria a Torá?" A resposta é a frase famosa: todo juiz que julga um julgamento verdadeiro segundo a sua verdade, ainda que por uma hora só, é considerado pela Escritura como sócio do Santo, bendito seja, na obra da criação.
O argumento é técnico e curioso. Os rabinos ligam duas passagens que usam as mesmas palavras — "manhã" e "tarde" aqui, "tarde" e "manhã" em Gênesis 1:5. Se as palavras se repetem, as passagens se explicam uma pela outra: o juiz que faz justiça está fazendo o que Deus fez no primeiro dia. E a conclusão prática vem para os dois juízes famintos: basta julgar parte do dia. A frase grandiosa nasceu para mandar dois homens irem almoçar. A lista das horas de refeição que a mesma página do Talmude traz já foi apresentada no estudo de Êxodo 16:12.
A versão mais antiga, na Mekhilta
A Mekhilta de Rabi Ishmael (comentário rabínico ao Êxodo, de material do século II e III, mais antigo que o Talmude) traz a mesma ideia com outro raciocínio. Ela não pergunta pelo estudo de Moisés; pergunta pela rotina dos juízes: "Não é verdade que os juízes só julgam até a hora da refeição?" Se o texto diz "da manhã até a tarde", é porque quer ensinar outra coisa — que quem leva a causa até a sua verdade é como sócio na obra do princípio. A expressão hebraica da Mekhilta é "fazer o julgamento sair conforme a sua verdade". Não basta julgar com honestidade: é preciso levar o caso até onde ele é verdadeiro, e isso é trabalho de investigação, não só de boa intenção.
As duas versões concordam no essencial: nenhuma delas acredita que Moisés tenha de fato ficado o dia inteiro sentado. As duas leem a frase como hipérbole com mensagem. O texto do Êxodo, no entanto, não dá sinal de hipérbole; e Jetro, no versículo seguinte, repete a mesma expressão como quem descreve o que viu.
3. Análise Teológica do Versículo
"No dia seguinte"
Seguinte a quê? A leitura mais simples é a de Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) e do Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII): o dia depois da chegada de Jetro e da refeição com os anciãos. O Chizkuni acrescenta um detalhe humano — o dia anterior fora gasto em honrar o visitante, e por isso as causas se acumularam. A frase põe lado a lado dois dias muito diferentes: num, Moisés, Arão e os anciãos comem pão diante de Deus; no outro, Moisés está sozinho na cadeira, e os anciãos que comeram com ele não aparecem no tribunal. Rashi lê "no dia seguinte" de outra forma, como o dia depois do Yom Kippur (o Dia do Perdão) do ano seguinte, e com isso põe o capítulo fora da ordem cronológica — discussão que pertence ao estudo de Êxodo 18:5.
"Moisés sentou-se para julgar o povo"
Sentar-se é a postura de quem decide. O verbo é o mesmo que o Êxodo usou para Moisés duas vezes antes, e a sequência é eloquente. Em Êxodo 2:15 ele se sentou junto a um poço, fugitivo, sem casa. Em Êxodo 17:12, sentou-se numa pedra porque os braços já não aguentavam. Aqui se senta por ofício. O mesmo gesto marca o homem sem lugar, o homem esgotado e o homem com autoridade — e neste versículo as três coisas estão mais próximas do que parece, porque Jetro vai dizer que esta cadeira também esgota.
O objeto do verbo é "o povo", e não "as partes" ou "as causas". Julgar, nesta frase, é quase governar: o povo inteiro passa pelas mãos de um homem. Não há menção a outro juiz, a escrivão, a testemunha ou a guarda. O versículo desenha um tribunal de uma pessoa só.
"e o povo ficou de pé diante de Moisés"
A imagem é de multidão. O hebraico diz literalmente que o povo ficou de pé "sobre" Moisés, e o Targum de Ônquelos (tradução aramaica do Pentateuco, dos primeiros séculos da era comum) entende "em volta de Moisés". Não é uma fila ordenada; é uma aglomeração ao redor de um homem sentado.
Quem eram essas pessoas? O texto diz "o povo", sem distinção. Sforno (Ovádia Sforno, comentarista judeu italiano do século XVI) imagina uma ordem de atendimento: primeiro Moisés tratava das questões coletivas e ouvia os chefes; os particulares ficavam esperando a vez. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) supõem que parte dos que esperavam desistia e resolvia as coisas por conta própria. As duas leituras preenchem com plausibilidade o que o texto deixa em branco. Se ficar de pé diante de um homem sentado era desonra para o povo, é o que Jetro vai perguntar.
"desde a manhã até a tarde"
A frase é a mais discutida do versículo, porque parece exagero. Há três modos de lê-la.
Primeira leitura: é literal, e o problema é justamente esse. Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, França, século XII) explica: o dia inteiro, porque ele julgava sozinho e não tinha quem o ajudasse. Ibn Ezra até precisa a hora: "manhã" é o nascer do sol e "tarde" o pôr do sol, e cita o Salmo 104:23, "o homem sai para o seu trabalho e para o seu serviço até a tarde". A expressão é a medida de uma jornada de trabalho. Nessa leitura, o versículo informa um custo concreto: o povo perde o dia de trabalho esperando, e o juiz perde o dia julgando.
Segunda leitura: é impossível, logo quer dizer outra coisa. É a da Mekhilta e do Talmude (item 2): Moisés não podia julgar o dia todo; a frase existe para ligar o julgamento verdadeiro à criação do mundo. A ligação tem um detalhe que os rabinos não exploram e que salta aos olhos: em Gênesis 1:5 a ordem é "tarde e manhã"; aqui é "manhã e tarde". A criação vai da escuridão para a luz; o dia do juiz vai da luz para o cansaço.
Terceira leitura: o que durava o dia inteiro era a espera, não a audiência. O sujeito da frase "desde a manhã até a tarde" é o povo que ficou de pé, e não Moisés que julgou. Gramaticalmente, a expressão está presa a "ficou de pé". O versículo mede o tempo pelo lado de quem esperava. Nessa leitura, que o próprio texto favorece pela ordem das palavras, o problema não é a carga de trabalho do juiz, mas a fila.
Não é possível decidir entre a primeira e a terceira só pela gramática, e as duas são compatíveis: um juiz que trabalha o dia inteiro e um povo que espera o dia inteiro são a mesma cena vista de dois lugares. A segunda leitura é de outro gênero — é ensino a partir do texto, não explicação dele. O que o versículo afirma com segurança é o que Jetro vai ver: um homem sentado, muita gente de pé e um dia que acaba sem que a fila acabe.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Moisés — aqui pela primeira vez no papel de juiz permanente. Até agora ele tinha sido porta-voz diante de Faraó, condutor na marcha e intercessor na sede e na guerra. O livro não narra quando nem como ele assumiu a função de julgar; ela aparece já em pleno funcionamento.
O povo — sem distinção de tribo, de clã, de família. O número que o livro dá para os homens que saíram do Egito (Êxodo 12:37) torna fisicamente impossível que todos estivessem ali no mesmo dia. "O povo" é o conjunto dos que tinham causa, ou o povo como figura do todo.
Os anciãos — ausentes, e a ausência conta. Existiam como grupo desde o Egito, tinham acompanhado Moisés diante da rocha em Refidim (Êxodo 17:5-6) e comeram com Jetro na véspera (Êxodo 18:12). Não aparecem no tribunal.
Jetro — não é nomeado neste versículo, mas está presente: o que se descreve aqui é o que ele vai ver.
O lugar — o acampamento "no monte de Deus" (Êxodo 18:5). O versículo não diz onde Moisés se sentava: à entrada da tenda dele, num espaço aberto, à porta do acampamento. O Êxodo só dará lugar fixo para quem busca a Deus mais adiante, na tenda armada fora do acampamento (Êxodo 33:7).
O evento — uma jornada comum de audiências. Não há crise, milagre ou rebelião. Depois de Amaleque e da visita de Jetro, o capítulo entra na rotina, e é na rotina que surge o problema.
5. Pontos de Ensino
1. A justiça aparece primeiro como rotina, não como lei. Antes do Sinai e de qualquer código, já existe gente com causa e alguém que decide. O capítulo começa pelo serviço, não pela teoria.
2. O texto mede a justiça pelo tempo de quem espera. "Desde a manhã até a tarde" está ligado ao povo de pé. A demora não é detalhe administrativo: um dia inteiro parado custa trabalho, comida e paciência.
3. Concentração não é virtude automática. O versículo não critica Moisés; ele apenas mostra. Mas o quadro — um juiz, um povo inteiro — já traz o problema que Jetro vai nomear.
4. A tradição rabínica deu ao trabalho do juiz o maior elogio possível. Julgar com verdade é participar da criação. E usou o elogio para tirar o juiz da cadeira na hora do almoço — a grandeza da função não exige que ele se destrua nela.
5. Os que comeram com Moisés não julgam com ele. A comunhão da véspera não se converte em divisão de trabalho no dia seguinte. A cena registra uma assimetria que o texto deixará Jetro resolver.
6. Aspectos Filosóficos
A santidade na fila do tribunal
A frase do Talmude — o juiz que julga com verdade é sócio de Deus na criação — levanta uma pergunta que a filosofia religiosa costuma evitar: onde está o sagrado? Num êxtase, num retiro, numa experiência interior? Ou numa tarde gasta decidindo de quem é um boi?
Joseph Ber Soloveitchik (1903-1993), rabino e filósofo nascido na atual Bielorrússia, doutor em filosofia por Berlim e, por mais de quatro décadas, mestre de Talmude na Yeshiva University, em Nova York, deu a essa pergunta uma das respostas mais firmes do século XX. Em Ish ha-Halakhah ("O homem da halakhá", 1944; a halakhá é a lei religiosa judaica em todos os seus detalhes práticos), ele descreve dois tipos humanos e um terceiro que os supera.
O primeiro é o homem do conhecimento, que olha o mundo para entendê-lo, como o cientista. O segundo é o homem religioso, que olha o mundo e sente que ele não basta: busca o que está além, desconfia do concreto, quer fugir para o transcendente. O homem da halakhá não é nenhum dos dois. Ele chega ao mundo com um sistema ideal já pronto — a lei —, assim como o matemático chega à natureza com as suas construções, e aplica esse sistema às coisas concretas: ao alimento, ao contrato, à fronteira de um campo, ao dia de descanso. Para ele, o transcendente não é para onde se foge; é o que se traz para baixo, para dentro da vida comum. O lugar da santidade é este mundo, medido e regulado.
No fim da obra, Soloveitchik escreve que o grande sonho da consciência halákhica é a criação: o homem é chamado a ser criador, a completar o mundo e a si mesmo. Não está comentando Êxodo 18 — que se saiba, ele não usa este versículo no livro —, mas a frase do Talmude cabe exatamente no esquema dele. O juiz que leva uma causa até a sua verdade está fazendo o que o homem da halakhá faz: pegando uma lei ideal e fazendo-a descer a um caso miúdo, entre dois vizinhos que brigam. E é nesse ponto, e não fora dele, que a tradição diz que o homem se torna sócio da criação.
Onde o modelo ajuda a ler o versículo
Ele explica por que a cena do Êxodo é tão sóbria. Não há anjo, nuvem, voz. Há um homem sentado e uma fila. Para a leitura que Soloveitchik representa, isso não é um intervalo entre os momentos religiosos do livro; é um deles. O dia seguinte à festa é tão sagrado quanto a festa.
Onde o modelo não alcança
Em dois pontos. Primeiro, o homem da halakhá é um tipo ideal, desenhado a partir do estudioso que domina a lei — e o versículo olha também para o outro lado, para o povo de pé. A filosofia de Soloveitchik fala muito de quem aplica a lei e pouco de quem espera por ela. Segundo, o versículo não idealiza a cena: no seguinte, ela será chamada de "não boa" (Êxodo 18:17). O próprio Soloveitchik, anos depois, em The Lonely Man of Faith ("O homem de fé solitário", 1965), descreveu ao lado do homem que domina e organiza o mundo um segundo tipo, o homem que precisa de companhia e de aliança, e disse que a vida religiosa exige os dois. A cadeira solitária de Moisés é exatamente o lugar onde as duas figuras se encontram.
7. Aplicações Práticas
Quem decide precisa olhar para quem espera. O versículo conta o tempo pelo lado do povo. Em qualquer função em que muitas pessoas dependem de uma decisão — um gerente que aprova pedidos, um pai que arbitra brigas, um pastor que atende fiéis, um funcionário que libera documentos —, a pergunta não é só "estou trabalhando bastante?", mas "quanto tempo os outros estão parados por minha causa?".
Trabalho comum também é lugar de fidelidade. A tradição rabínica pôs a frase sobre a criação numa cena de rotina. Quem passa o dia resolvendo pequenas disputas, conferindo papéis ou ouvindo reclamações não está longe do que é importante. A frase serve também de limite: nem por isso precisa ficar sem comer.
A festa não dispensa o expediente. Na véspera houve celebração; no dia seguinte, o trabalho volta. A cena não opõe as duas coisas e não deixa uma apagar a outra.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Que tipo de causa chegava a Moisés?
O texto não diz. As hipóteses vão das brigas pelo despojo de Amaleque (Barnes) às questões de pureza ritual (a Mekhilta, no versículo 16). O versículo 16 só diz que eram "questões" entre "um e outro" — disputas entre partes, portanto, e não apenas consultas.
Por que os anciãos não ajudavam, se já existiam?
O texto não explica. Pode ser que a ideia simplesmente não tivesse ocorrido a ninguém; pode ser que o povo só aceitasse a decisão de Moisés, como ele próprio dirá no versículo 15; pode ser que os anciãos tivessem funções de representação, mas não de julgamento. Nenhuma das três se prova. O que o capítulo mostra é que a solução veio de fora — de um sacerdote estrangeiro.
Mulheres e estrangeiros traziam causas?
"O povo" no hebraico é palavra genérica. Mais tarde a Torá registrará casos levados a Moisés por mulheres (as filhas de Zelofeade, Números 27) e envolvendo filho de pai egípcio (Levítico 24:10-11). Nada impede que já fosse assim, mas este versículo não o diz.
Moisés julgava todos os dias?
O verbo descreve um dia específico, "o dia seguinte". Mas a pergunta de Jetro no versículo 14 usa o particípio, que em hebraico indica ação habitual: o que Jetro viu num dia era o costume. A Mishná, mais tarde, proibirá julgar em sábado e em dia de festa (Mishná Beitsá 5:2), mas o Êxodo não fala de calendário de audiências.
9. Conexão com Outros Textos
A pergunta que este versículo responde
Êxodo 2:14 — "E o homem respondeu: 'Quem o pôs como chefe e juiz sobre nós? Você pretende me matar como matou o egípcio?' Então Moisés teve medo e pensou: 'Sem dúvida a coisa se sabe.'"
O hebreu que brigava no Egito negou a Moisés o direito de julgar. Anos depois, Moisés está sentado julgando o povo inteiro. O estudo de Êxodo 2:14 já mostrou esse arco; aqui basta notar que o primeiro julgamento de Moisés foi rejeitado por um homem, e este é aceito por uma multidão.
As outras vezes em que Moisés se sentou
Êxodo 2:15 — "Faraó ficou sabendo do caso e procurou matar Moisés; mas Moisés fugiu da presença de Faraó e foi morar na terra de Midiã. Lá se sentou junto a um poço."
Êxodo 17:12 — "Mas as mãos de Moisés ficaram pesadas; então tomaram uma pedra e a puseram debaixo dele, e ele se sentou sobre ela; e Arão e Hur sustentavam as mãos dele, um de um lado e o outro do outro; assim as mãos dele ficaram firmes até o pôr do sol."
Três vezes o mesmo verbo, três situações. No Êxodo 17, Moisés sentado também durou um dia inteiro, e só aguentou porque dois homens o sustentaram. No Êxodo 18 ele está sentado o dia inteiro outra vez, e ninguém o sustenta. A semelhança é de vocabulário e de situação; se o texto quis o paralelo, não se pode provar.
A ordem invertida da criação
Gênesis 1:5 — "Deus chamou a luz de 'dia', e as trevas de 'noite'. Houve tarde e manhã: o primeiro dia."
É o versículo com que a Mekhilta e o Talmude ligam o juiz à criação (item 2). Lá, "tarde e manhã"; aqui, "manhã e tarde".
Uma juíza sentada
Juízes 4:5 — "Ela ficava sentada debaixo da palmeira de Débora, entre Ramá e Betel, na região montanhosa de Efraim, e os israelitas subiam até ela para que julgasse as suas causas."
O mesmo quadro de Êxodo 18:13 — alguém sentado, o povo que vem até ele — com uma mulher no lugar de Moisés e um lugar fixo, a palmeira. É o modelo de juiz único que Israel continuou a conhecer depois da reforma de Jetro.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
No dia seguinte, Moisés sentou-se para julgar o povo, e o povo ficou de pé diante de Moisés desde a manhã até a tarde.
Texto hebraico
וַיְהִי מִמָּחֳרָת וַיֵּשֶׁב מֹשֶׁה לִשְׁפֹּט אֶת־הָעָם וַיַּעֲמֹד הָעָם עַל־מֹשֶׁה מִן־הַבֹּקֶר עַד־הָעָרֶב׃
Transliteração
va-yehi mi-mochorat, va-yeshev Mosheh lishpot et-ha-am; va-ya'amod ha-am al-Mosheh min-ha-boqer ad-ha-arev.
Análise palavra por palavra
וַיְהִי — va-yehi, "e aconteceu". Forma do verbo hayah, "ser, acontecer", com a partícula que encadeia a narrativa. Abre uma cena nova; a ABC não a traduz, porque em português o "no dia seguinte" já faz esse trabalho.
מִמָּחֳרָת — mi-mochorat, "no dia seguinte". A preposição min, "a partir de", unida a mochorat, "o amanhã, o dia depois". A palavra sozinha não diz depois de quê; o ponto de referência vem do contexto, e foi essa abertura que permitiu as leituras discutidas no item 3.
וַיֵּשֶׁב — va-yeshev, "e sentou-se". Verbo yashav, que significa ao mesmo tempo "sentar-se" e "morar, estabelecer-se". Aqui o sentido é o físico, mas o segundo não está longe: Moisés não apenas se senta; instala-se numa função.
מֹשֶׁה — Mosheh, "Moisés". Sujeito, depois do verbo, na ordem normal da narrativa hebraica.
לִשְׁפֹּט — lishpot, "para julgar". Infinitivo do verbo shafat com a preposição le, que indica finalidade. A raiz cobre julgar, decidir causas e governar; é a raiz de shofet, "juiz", e do nome do livro de Juízes, cujos "juízes" são sobretudo líderes.
אֶת־הָעָם — et-ha-am, "o povo". A partícula et marca o objeto direto. O povo é o objeto do julgamento — não "entre o povo", como no versículo 16 será "entre um e outro", mas o próprio povo.
וַיַּעֲמֹד — va-ya'amod, "e ficou de pé". Verbo amad, o termo comum para estar de pé, parar, permanecer. Está no singular porque o sujeito, "o povo", é um coletivo singular em hebraico. É o primeiro dos três verbos de "ficar de pé" do capítulo; no versículo 14 Jetro usará outro, e no versículo 23 o mesmo amad voltará aplicado a Moisés.
הָעָם — ha-am, "o povo". Repetido: a frase tem o povo como objeto na primeira metade e como sujeito na segunda.
עַל־מֹשֶׁה — al-Mosheh, "diante de Moisés", literalmente "sobre Moisés". A preposição al com o verbo de ficar de pé descreve quem está em pé junto de alguém sentado ou deitado — e quem fica assim, na Bíblia, costuma ser quem serve: é a construção de Abraão de pé junto aos visitantes enquanto eles comem, estudada em Gênesis 18:8. A Mekhilta e Rashi tiram daí que o povo estava como servos diante de um rei; o Targum de Ônquelos escolhe "em volta de", que descreve o espaço sem avaliar.
מִן־הַבֹּקֶר עַד־הָעָרֶב — min-ha-boqer ad-ha-arev, "desde a manhã até a tarde". Boqer é a manhã, a partir do romper do dia; erev é a tarde que cai, o fim do dia, de onde vem também a palavra para o pôr do sol. Os dois com artigo, "a manhã" e "a tarde": um dia determinado, do começo ao fim. Em Gênesis 1:5 os mesmos dois substantivos aparecem em ordem inversa e sem artigo.
As versões antigas
A Septuaginta (a tradução grega da Bíblia hebraica, feita no Egito a partir do século III antes de Cristo) traduz "sentou-se" por synekáthisen, verbo que em grego pode significar "sentar-se junto" ou "reunir-se em sessão" — termo de tribunal e de conselho. A tradução grega dá à cena um ar de audiência formal que o hebraico, mais simples, não tem. Diz também que o povo "estava presente junto a" Moisés, sem a ideia de ficar de pé por horas. A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, do século IV) segue o hebraico: o povo "assistia a Moisés desde a manhã até a tarde".
11. Conclusão
Com base no que o versículo mostra, a primeira conclusão é que o problema de Êxodo 18 nasce na rotina, e não numa crise. Não houve revolta nem fome; houve um dia comum de audiências, e foi ele que revelou o limite do arranjo.
A segunda é que o texto mede esse limite pelo lado de quem espera. A expressão "desde a manhã até a tarde" está presa ao povo de pé, e é essa espera que Jetro vai ver primeiro.
A terceira é que a tradição soube dar à mesma cena a sua maior dignidade e o seu limite na mesma frase: o juiz que busca a verdade participa da criação, e justamente por isso não precisa ficar sentado até desfalecer. O versículo prepara as duas coisas que o capítulo vai dizer — que o trabalho de Moisés é sagrado e que, do jeito que está, não é bom.













