Você vai se esgotar, você e também este povo que está com você; porque a tarefa é pesada demais para você; não pode fazê-la sozinho.
1. Introdução
Jetro explica por que o que Moisés faz não é bom, e a explicação tem três partes: o desgaste, o peso e a solidão. O verbo que a ABC traduz por "se esgotar" é o da folha que murcha e cai. O desgaste não é só de Moisés: o povo que espera o dia inteiro murcha com ele. E a frase final, "não pode fazê-la sozinho", voltará palavra por palavra à boca do próprio Moisés no livro de Números, quando ele disser a Deus que não aguenta mais carregar o povo.
2. Contexto Histórico e Cultural
A justiça do rei, acessível a qualquer um
No antigo Israel, o ideal era que qualquer pessoa pudesse levar a sua causa a quem governava, sem intermediário. Os livros dos Reis guardam uma cena que mostra esse acesso funcionando. Uma mulher de Suném, que por conselho do profeta Eliseu tinha passado sete anos na terra dos filisteus para fugir de uma fome, volta e encontra a casa e o campo ocupados. Ela vai "clamar ao rei" pessoalmente. O rei a ouve, pergunta, e manda um oficial devolver tudo, inclusive o que o campo tinha produzido durante a ausência dela (2 Reis 8:3-6).
É o modelo de Moisés em Êxodo 18:13-16: o povo vem diretamente ao chefe, e o chefe decide. O acesso direto tem duas faces. Para quem é atendido, é a garantia de ser ouvido por quem tem poder de resolver; para quem não é, é a fila sem fim. O que essa fila produziu na monarquia, quando Absalão se pôs à porta da cidade para interceptar os que não eram ouvidos, está no estudo de Êxodo 18:13.
A folha que murcha numa terra de verão seco
A imagem que Jetro escolhe vem da agricultura de uma terra com estações bem marcadas. No Levante, as chuvas caem do outono à primavera; de maio a outubro praticamente não chove. As plantas que não estão perto de água permanente vão perdendo a seiva ao longo do verão. A folha não cai de repente: amolece, enruga, perde a cor e por fim se solta.
É esse processo que os profetas e os salmistas usam como figura. Isaías compara Jerusalém a "um terebinto de folhas murchas e um jardim sem água" (Isaías 1:30); o Salmo 1 diz que o justo é como a árvore plantada junto às correntes de água, "cuja folha não murcha" (Salmo 1:3). Em todos os casos, murchar é o resultado de uma fonte que não basta: a planta gasta mais do que recebe.
É uma imagem precisa para o que Jetro observou. Moisés não estava doente nem tinha caído. Estava gastando, todos os dias, mais força do que repunha, e o resultado seria lento e certo como o da folha em agosto.
3. Análise Teológica do Versículo
"Você vai se esgotar"
O hebraico repete o verbo: literalmente, "murchar, você vai murchar". A repetição dá certeza à frase: não é um risco, é um desfecho. E o verbo é o da folha que seca e cai, não o do corpo que se cansa depois de um esforço e descansa à noite.
Rashi (Rabi Shlomo Yitzhaki, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI) descreve a imagem com cuidado de agricultor: a folha murcha "pelo calor e pela geada, e a sua força diminui; fica como que cansada e cai da videira". O desgaste é progressivo, vem do ambiente e termina em queda.
Que tipo de desgaste Jetro prevê? A tradição deu quatro respostas.
Primeira resposta: desgaste do corpo. É a leitura de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá, que diz "você vai se cansar"), de Rashi e da maioria dos comentaristas cristãos. Albert Barnes (comentarista norte-americano do século XIX) fala de "decadência e exaustão"; John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII) lembra que Moisés tinha constituição forte, mas que aquele trabalho passava do que um mortal suporta.
Segunda resposta: desgaste da honra. Na Mekhilta (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo, compilado na terra de Israel por volta do século III), Rabi Yehoshua lê a frase como "eles vão desonrar você e fazer você cair como folha"; Rabi Elazar de Modiim, como "eles vão humilhar você e irritar você, como a figueira cujas folhas murcham", e cita Isaías 34:4. Para os dois mestres, o sujeito escondido do desgaste é o povo. A fila que não anda vira queixa, a queixa vira desprezo, e a autoridade do juiz murcha antes do seu corpo.
Terceira resposta: desgaste da clareza. Rashbam (Rabi Samuel ben Meir, neto de Rashi, França, século XII) e, depois dele, Chizkuni (comentarista francês do século XIII) aproximam o verbo de outro, quase igual, que significa "confundir", o mesmo de Babel (Gênesis 11:7). A cena que eles imaginam é sonora: todos falam ao mesmo tempo, um grita que quer ser ouvido primeiro, o outro grita também, e Moisés já não entende o que lhe dizem, nem eles o que ele responde.
Quarta resposta: desgaste inútil. Jerônimo, na Vulgata (a tradução latina da Bíblia, feita por volta de 400), traduz "você se consome num trabalho tolo" (stulto labore consumeris). Ele ligou o verbo a uma palavra hebraica de som parecido que quer dizer "tolo". A tradução acrescenta um juízo que o hebraico não faz: Jetro não chama o trabalho de Moisés de tolice.
A primeira leitura é a que o vocabulário mais sustenta; a segunda é a mais penetrante, porque percebe que a autoridade também se gasta. Nenhuma exclui a outra.
"você e também este povo que está com você"
O hebraico diz "também você, também este povo". Os dois "também" põem o líder e o povo no mesmo plano: os dois murcham.
Quem é "este povo que está com você"? A pergunta parece ociosa, mas recebeu respostas diferentes.
Primeira resposta: o povo inteiro, os que fazem fila. É o sentido mais imediato e é o que o versículo 23 confirma, quando Jetro promete que, com a reforma, "todo este povo chegará em paz ao seu lugar".
Segunda resposta: o círculo próximo de Moisés. A Mekhilta lê os dois "também" como acréscimos e, na versão de Rabi Elazar de Modiim, enumera: "você" é Moisés; o primeiro "também" é Arão; o segundo, Nadabe e Abiú; "este povo que está com você" são os setenta anciãos. Rashi acrescenta Hur. Sforno (Rabi Ovadia Sforno, comentarista italiano do século XVI) fala dos "membros do seu tribunal". Nessa leitura, Moisés já tinha ajudantes, e mesmo eles não bastavam.
Terceira resposta: os litigantes no sentido moral. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) lembram que quem espera demais desiste do tribunal e resolve as coisas pela força. O povo que "murcha" é o que perde a confiança na justiça.
A segunda resposta tem consequência: se até o círculo de Arão, Hur e os anciãos estava no limite, a solução não podia ser reforçar o círculo. Tinha de ser outra estrutura.
"porque a tarefa é pesada demais para você"
A palavra hebraica para "pesada" é a mesma que, no capítulo anterior, descreve as mãos de Moisés durante a batalha contra Amaleque: "as mãos de Moisés ficaram pesadas" (Êxodo 17:12). Lá, a solução foi uma pedra para ele sentar e dois homens segurando os seus braços, um de cada lado. Aqui, Jetro vai propor a mesma coisa em forma de instituição: outros sustentando o que Moisés não aguenta sustentar sozinho. O texto não liga as duas cenas, mas a palavra liga.
A construção hebraica diz literalmente "é pesado além de você": o peso é medido contra o tamanho de quem carrega. Não se trata de uma tarefa pesada em si, mas de uma tarefa desproporcional àquele homem.
A Mekhilta põe na boca de Jetro uma comparação de canteiro de obras: "Olhe para esta viga. Quando está úmida, dois ou três entram debaixo dela e não conseguem levantá-la; quatro ou cinco entram debaixo dela e conseguem". O peso não muda; muda o número de ombros.
"não pode fazê-la sozinho"
Pela terceira vez no trecho aparece a palavra "sozinho". Jetro perguntou por que Moisés se sentava sozinho (Êxodo 18:14), avaliou que aquilo não era bom (Êxodo 18:17) e agora diz que é impossível.
A frase não acusa Moisés de orgulho. Ela constata um limite. Moisés não tinha dito que podia fazer tudo sozinho; tinha só explicado por que o povo vinha a ele. Jetro responde com aritmética, não com moral.
Anos depois, no deserto, essa frase volta, e na boca de Moisés. O povo chora por carne, e Moisés diz a Deus: "Eu sozinho não posso carregar todo este povo, porque é pesado demais para mim" (Números 11:14). Os três elementos são os mesmos: "não posso", "sozinho", "pesado demais para mim". O que Jetro disse de fora, Moisés agora diz de dentro.
Como entender a volta da frase? Há três leituras.
Primeira leitura: a reforma de Jetro resolveu o problema dos processos, não o problema do povo. Os juízes aliviaram Moisés das causas, mas não das queixas, e em Números 11 o que pesa é a revolta por comida, não a fila do tribunal.
Segunda leitura: Moisés aprendeu a frase com Jetro. O conselho ensinou a ele a linguagem para reconhecer o próprio limite, e quando o limite volta ele já sabe nomeá-lo.
Terceira leitura: são duas tradições sobre a origem da liderança partilhada em Israel, que a Torá conservou lado a lado. Numa, a ideia vem de um sacerdote de Midiã e a escolha é humana; na outra, vem de Deus, que tira do espírito de Moisés e o põe sobre setenta anciãos (Números 11:16-17). Deuteronômio 1:9-18 guarda uma terceira versão, na qual Moisés conta a reforma sem mencionar Jetro. É a leitura de boa parte da crítica moderna, e é discutida.
O texto não escolhe. O que ele deixa claro é que a impossibilidade de carregar sozinho não foi uma impressão passageira de um visitante: o próprio Moisés a confirmou mais tarde, com as mesmas palavras.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Moisés
É o "você" do versículo, repetido três vezes no hebraico. Até aqui o livro o mostrou cansado só uma vez, e de modo físico: os braços que pesaram na batalha contra Amaleque (Êxodo 17:12). Agora é outro sujeito que diz que ele está se gastando, e o desgaste não vem de um dia de guerra, vem da rotina.
O povo que está com Moisés
No sentido imediato, as pessoas que ficaram de pé diante dele da manhã à tarde (Êxodo 18:13-14). Na leitura rabínica, o círculo que já o ajudava: Arão, seu irmão; Hur, que tinha sustentado os seus braços em Refidim e a quem Moisés deixará encarregado do povo junto com Arão quando subir o monte (Êxodo 24:14); Nadabe e Abiú, filhos de Arão; e os anciãos de Israel, que Moisés vinha reunindo desde o Egito (Êxodo 3:16; 4:29).
O sogro de Moisés
Continua falando. O versículo é a segunda frase do seu parecer e a justificativa da primeira.
Os setenta anciãos de Números 11
Não estão no versículo, mas a frase final dele os anuncia. No acampamento de Quibrote-Hataavá ("Sepulcros do Desejo"), depois de o povo chorar por carne, Moisés repete a Deus que não pode carregar sozinho todo o povo. A resposta divina é reunir setenta anciãos e pôr sobre eles parte do espírito que estava sobre Moisés (Números 11:14-17). O episódio fica no fim da caminhada pelo deserto do Sinai, em data posterior à deste capítulo.
5. Pontos de Ensino
1. O limite de uma pessoa não é defeito moral. Jetro não diz que Moisés é orgulhoso ou centralizador. Diz que a tarefa é maior do que ele. O texto trata a impossibilidade como fato a ser reconhecido, não como pecado a ser confessado.
2. O desgaste do líder atinge quem depende dele. "Você e também este povo." Quem carrega sozinho uma responsabilidade comum não paga sozinho o preço; os que esperam também murcham.
3. O desgaste é lento. A imagem é da folha que seca ao longo do verão, não da árvore que cai na tempestade. Por isso ele passa despercebido para quem está dentro e é visível para quem chega de fora.
4. A autoridade também se gasta. A leitura da Mekhilta, de que o povo vai "desonrar" Moisés, mostra uma dimensão que o cansaço físico esconde: o juiz que demora perde o respeito antes de perder as forças.
5. A frase de Jetro volta na boca de Moisés. Em Números 11:14, ele próprio diz a Deus que não pode carregar sozinho todo o povo. O que foi diagnóstico de fora vira confissão de dentro, e o leitor da Torá ouve as duas.
6. O peso se mede contra quem carrega. O hebraico diz "pesado além de você". A mesma tarefa, dividida, deixa de ser pesada demais. É o que a parábola da viga molhada, na Mekhilta, põe em imagem.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo levanta uma questão que a filosofia política conhece bem: o que fazer quando a tarefa de quem governa é maior do que uma pessoa, e as pessoas a quem se poderia passar parte dela não são de confiança? Um dos que a trataram com mais franqueza foi Francesco Guicciardini (1483-1540), diplomata e historiador florentino, governador de províncias do papa e comandante dos exércitos pontifícios, nos seus Ricordi ("Lembranças"), uma coleção de mais de duzentas anotações curtas sobre política e vida prática, escritas entre 1512 e 1530 e publicadas só depois da sua morte.
O cansaço que não se vê
Numa das anotações da redação final, Guicciardini escreve: "As grandezas e as honras são comumente desejadas porque tudo o que nelas há de belo e de bom aparece por fora, esculpido na superfície; mas os incômodos, as fadigas, os aborrecimentos e os perigos ficam escondidos e não se veem" (Ricordi C 16).
É o que se passa no tribunal de Moisés. O que aparece por fora é o homem sentado, consultado por todos, decidindo. O que fica escondido é o desgaste. Jetro, recém-chegado, vê o que estava escondido, e a palavra que escolhe é a da folha que murcha sem ninguém perceber.
O chefe que não pode largar nada
Em outra anotação, Guicciardini dá a regra que ele mesmo seguia: "Nos negócios, não basta dar-lhes o princípio, a direção, o movimento; é preciso segui-los e nunca se desprender deles até o fim". E justifica: "tanta é a negligência, a preguiça e a maldade dos homens, tantos os impedimentos e as dificuldades que as coisas têm por natureza" (C 192).
É a ética do Moisés de antes de Jetro: quem quer que as coisas saiam bem precisa acompanhá-las pessoalmente. Guicciardini diz que esse cuidado lhe trouxe grande honra. Mas a regra tem um limite que ele mesmo conhecia, e é o limite que Jetro aponta: ela funciona para quem cuida de alguns negócios, não para quem tem um povo inteiro na fila.
A escassez de quem possa ajudar
A saída seria entregar parte da carga a outros. Guicciardini sabe disso e mostra por que é difícil. "Os príncipes, ainda que grandes, têm enorme falta de ministros bem qualificados." O ministro que serve em coisas grandes precisa de "suficiência extraordinária, e destes se encontram raríssimos; e além disso é necessário que seja de grandíssima fé e integridade, e esta é talvez mais rara que a primeira" (C 3). Se é difícil achar quem tenha uma das duas qualidades, mais raro ainda é achar quem tenha as duas.
O remédio que ele propõe é o tempo: o príncipe prudente escolheria "ministros ainda não feitos", que, experimentados de coisa em coisa, se acostumassem aos negócios, "porque é difícil achar de uma vez homens feitos dessa qualidade, mas pode-se bem esperar fazê-los com o tempo" (C 3).
O que o Êxodo responde
O conselho de Jetro passa pelos mesmos pontos. Ele vê o desgaste escondido (Êxodo 18:18). Recusa a ética do controle pessoal de tudo. E, quando chegar a hora de dizer quem deve ajudar, vai pôr o caráter na frente da competência: homens capazes, sim, mas que temam a Deus, que sejam fiéis e que odeiem o lucro desonesto (Êxodo 18:21). Guicciardini concordaria que a integridade é a qualidade mais rara.
Há uma diferença de fundo. O pessimismo de Guicciardini sobre os homens é quase total: a negligência, a preguiça e a maldade são a regra. O conselho de Jetro supõe que existem, "dentre todo o povo", homens com as qualidades necessárias, e em número suficiente para chefiar grupos de dez. Não diz que serão perfeitos; diz que existem. A confiança de Jetro não é ingenuidade, porque ele mantém as causas difíceis com Moisés (Êxodo 18:22); mas é uma aposta que o florentino dificilmente faria.
Seria forçado ler o Êxodo à luz da Florença do século XVI. O que a comparação mostra é que o problema que Jetro aponta não é técnico: é a tensão, que todo governo conhece, entre a impossibilidade de fazer tudo e a dificuldade de confiar em quem faria parte.
7. Aplicações Práticas
Reconhecer o limite antes da queda. A folha que murcha não avisa; ela vai perdendo a força aos poucos. Quem cuida sozinho de um pai doente, de um negócio familiar ou de uma comunidade costuma perceber o próprio esgotamento tarde, quando as forças já faltam. O verbo de Jetro ensina a procurar o sinal antes da queda: o que se gasta todo dia sem ser reposto.
O cansaço de quem carrega tudo também cansa os outros. Jetro diz que o povo vai se esgotar junto com Moisés. Na vida comum, quem centraliza tudo cria filas: a família que espera uma decisão, os colegas que esperam uma resposta, os filhos que esperam atenção. A sobrecarga de um vira a espera de muitos.
Dizer "não posso sozinho" não é fracasso. O próprio Moisés dirá essas palavras mais tarde (Números 11:14). Num texto que o trata como o maior dos profetas, a frase não diminui ninguém. É a constatação de que algumas tarefas, por natureza, são de muitos.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se a reforma de Jetro funcionou, por que Moisés se queixa do mesmo peso em Números 11?
O item 3 apresentou três leituras. A pergunta que fica é outra: o texto de Números não menciona os chefes de mil, de cem, de cinquenta e de dez. Se eles existiam, por que não aparecem quando o povo se revolta por carne? Uma resposta é que a função deles era judicial e a crise de Números 11 não era um processo. Outra é que as tradições não foram harmonizadas. Não há consenso.
Moisés corria risco real de adoecer?
O texto não diz. Jetro faz uma previsão, e a Torá não registra nenhuma doença de Moisés; ao contrário, diz que aos cento e vinte anos "os seus olhos não tinham escurecido, nem o seu vigor tinha se perdido" (Deuteronômio 34:7). Pode-se ler isso como confirmação de que o conselho foi seguido a tempo, mas é uma inferência, não uma afirmação do texto.
Por que Jetro fala do povo antes de falar do peso?
A ordem da frase é: você vai murchar, você e o povo; porque é pesado demais; você não pode sozinho. O povo entra logo depois de Moisés, antes da explicação. Uma leitura possível é que, para Jetro, o dano ao povo é parte do diagnóstico, e não consequência secundária. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista e gramático judeu da Espanha, século XII) propõe ler "porque é pesado demais" como uma segunda razão, independente da primeira: o desgaste já seria motivo suficiente, e o peso seria outro.
Jerônimo tinha razão em chamar o trabalho de "tolo"?
Pelo hebraico, não: o verbo é o de murchar, e Jetro não usa nenhuma palavra de censura ao juízo de Moisés. Mas a tradução latina marcou a leitura ocidental por mais de mil anos, e quem lê "trabalho tolo" ouve uma repreensão que o texto não contém.
Por que Moisés, em Números 11, não cita Jetro?
O texto não diz. Moisés fala com Deus, e não com o povo, e diz o que sente com as palavras que tem. Que essas palavras sejam as do sogro pode ser memória, pode ser coincidência, pode ser o modo de o texto ligar os dois episódios. Não é possível decidir.
9. Conexão com Outros Textos
A frase de Jetro na boca de Moisés
Números 11:14 — "Eu sozinho não posso carregar todo este povo, porque é pesado demais para mim."
Os mesmos três elementos de Êxodo 18:18: "não posso", "sozinho", "pesado demais para mim". Muda quem fala e a quem: lá, o sogro a Moisés; aqui, Moisés a Deus. E muda o verbo: Jetro falava de "fazer" a tarefa; Moisés fala de "carregar" o povo, como quem leva um peso nas costas.
A mesma frase, contada ao povo
Deuteronômio 1:9, 12 — "Naquele tempo eu disse a vocês: 'Eu sozinho não posso carregar vocês.' [...] Como poderei eu sozinho carregar o peso, a carga e as contendas de vocês?"
Na recapitulação que abre o Deuteronômio, Moisés atribui a si mesmo a constatação e não nomeia o sogro. A lista do versículo 12 é reveladora: além do "peso" e da "carga", as "contendas", isto é, os processos. É a terceira vez que a frase aparece na Torá, e o que significa a ausência de Jetro nessa versão é o assunto do estudo de Êxodo 18:24.
As mãos que pesaram
Êxodo 17:12 — "Mas as mãos de Moisés ficaram pesadas; então tomaram uma pedra e a puseram debaixo dele, e ele se sentou sobre ela; e Arão e Hur sustentavam as mãos dele, um de um lado e o outro do outro; assim as mãos dele ficaram firmes até o pôr do sol."
A mesma raiz de "pesado", um capítulo antes. Em Refidim, o peso das mãos foi resolvido com ajuda improvisada; em Êxodo 18, o peso da tarefa será resolvido com ajuda organizada. Nas duas cenas, Moisés continua no centro, sustentado por outros.
A figueira e a videira
Isaías 34:4 — "Todo o exército dos céus se desfará, e os céus se enrolarão como um rolo de pergaminho; todo o seu exército cairá, como cai a folha da videira, como cai a folha murcha da figueira."
É o versículo que a Mekhilta cita para explicar o verbo de Jetro, e que Rashi também usa. O mesmo verbo descreve o fim do cosmo em Isaías e o fim das forças de Moisés no Êxodo. A figura é idêntica: o que estava preso cai quando seca.
A folha que não murcha
Salmo 1:3 — "Ele é como árvore plantada junto a correntes de água, que dá o seu fruto no tempo certo e cuja folha não murcha; e tudo o que ele faz prospera."
O contrário da ameaça de Jetro. A árvore do Salmo não murcha porque tem fonte constante. Lido ao lado de Êxodo 18:18, o salmo explica por que Moisés murcharia: não por falta de virtude, mas por gastar mais do que a fonte repunha.
O que murcha e o que permanece
Isaías 40:7-8 — "A erva seca e a flor murcha, quando o sopro do SENHOR passa sobre ela; de fato, o povo é erva. A erva seca e a flor murcha, mas a palavra do nosso Deus permanece para sempre."
O mesmo verbo, aplicado à fragilidade de todo o povo. Isaías contrapõe o que murcha à palavra que permanece. O Êxodo, sem dizer, faz algo parecido: o homem que transmite a palavra vai murchar; a palavra precisa de mais de um portador.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Você vai se esgotar, você e também este povo que está com você; porque a tarefa é pesada demais para você; não pode fazê-la sozinho.
Texto hebraico
נָבֹל תִּבֹּל גַּם־אַתָּה גַּם־הָעָם הַזֶּה אֲשֶׁר עִמָּךְ כִּי־כָבֵד מִמְּךָ הַדָּבָר לֹא־תוּכַל עֲשֹׂהוּ לְבַדֶּךָ׃
Transliteração
navol tibbol, gam-attah gam-ha-am ha-zeh asher immakh; ki-khaved mimmekha ha-davar, lo-tukhal asohu levaddekha.
Análise palavra por palavra
נָבֹל תִּבֹּל — navol tibbol, "você vai se esgotar", literalmente "murchar, você murchará".
A raiz é n-b-l, "murchar, secar, cair". A construção junta o infinitivo do verbo (navol, a forma que nomeia a ação sem pessoa nem tempo) à forma de futuro na segunda pessoa (tibbol, "você murchará"). Repetir o verbo dessa maneira é o modo hebraico de dar ênfase e certeza: "certamente vai murchar". As traduções portuguesas antigas diziam "totalmente desfalecerás".
É a única vez que o verbo aparece na Torá. No resto da Bíblia hebraica, quase sempre fala de plantas: a folha da videira e da figueira (Isaías 34:4), o terebinto (Isaías 1:30), a flor do campo (Isaías 40:7-8), a folha da árvore à beira da água (Salmo 1:3; Ezequiel 47:12), a erva verde (Salmo 37:2), a coroa de flores dos bêbados de Efraim (Isaías 28:1, 4). Às vezes o sentido se alarga: a terra inteira "murcha" de luto (Isaías 24:4), um monte "desmorona" (Jó 14:18), os estrangeiros "perdem o ânimo" diante do rei (Salmo 18:45). Isaías aplica a imagem ao povo inteiro: "todos nós murchamos como a folha" (Isaías 64:6). Aplicado a um indivíduo, como aqui, o verbo é raríssimo.
Há uma raiz igual na forma e diferente no sentido, que dá naval, "tolo", "insensato" (Deuteronômio 32:6; é o nome do marido de Abigail em 1 Samuel 25), e nevalah, "infâmia" ou "cadáver". Os léxicos tratam as duas como palavras distintas. Foi essa semelhança que levou Jerônimo ao "trabalho tolo" da Vulgata (item 3). E Rashbam ligou o verbo ainda a uma terceira raiz parecida, b-l-l, "misturar, confundir", a de Babel.
As versões antigas variam. Ônquelos traduz com um verbo aramaico de cansaço, mil'ah til'eh, "cansar, você se cansará", conservando a repetição. A Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria nos séculos III e II a.C.) faz o mesmo com outro verbo e acrescenta um adjetivo: phthorâi kataphtharêsêi anypomonêtôi, "você se consumirá com um desgaste insuportável", e escreve "todo este povo", com um "todo" que o hebraico não tem.
גַּם־אַתָּה גַּם־הָעָם הַזֶּה — gam-attah gam-ha-am ha-zeh, "também você, também este povo".
Gam, "também", repetido, funciona como "tanto... quanto". Ha-am ha-zeh, "este povo", com o demonstrativo, é a expressão que Moisés usa nos momentos de crise para falar de Israel diante de Deus (Êxodo 17:4; 32:9; Números 11:11-14). Na boca de Jetro, não tem tom de irritação: aponta para a fila que ele está vendo.
אֲשֶׁר עִמָּךְ — asher immakh, "que está com você".
Relativo asher e a preposição im, "com", com o sufixo da segunda pessoa. A forma immakh, com a vogal longa, é a que o hebraico usa no fim de frase ou antes de pausa. "Com você" pode ser companhia ou dependência; o contexto pede a segunda.
כִּי־כָבֵד מִמְּךָ הַדָּבָר — ki-khaved mimmekha ha-davar, "porque a tarefa é pesada demais para você".
Ki, "porque". Kaved, "pesado", adjetivo da raiz da glória, do fígado e da boca "pesada" de Moisés; o campo inteiro da raiz está no estudo de Êxodo 4:10. Mimmekha é a preposição min, "de", com sufixo; depois de um adjetivo, ela compara: "pesado de você" quer dizer "pesado além de você", "mais pesado do que você". É a construção do comparativo hebraico, que não tem uma palavra para "mais". O hebraico mede a tarefa pelo homem. Ha-davar é a palavra que a ABC traduz aqui por "a tarefa".
לֹא־תוּכַל — lo-tukhal, "você não pode".
Do verbo yakhol, "poder, ser capaz", na segunda pessoa do futuro, com a negação lo. É o verbo da capacidade, não da permissão: Jetro não diz que Moisés não deve, diz que não consegue. O mesmo verbo, na primeira pessoa, abre a queixa de Moisés em Números 11:14 (lo ukhal, "não posso") e a sua recordação em Deuteronômio 1:9.
עֲשֹׂהוּ — asohu, "fazê-la".
Infinitivo de asah, "fazer", com o pronome "o" grudado no fim. Ibn Ezra notou que a forma é irregular: verbos como asah, cuja última letra é fraca, costumam formar esse infinitivo com um t (asoto), e aqui ele aparece formado como o de um verbo regular. É uma das raridades gramaticais do versículo, sem consequência para o sentido.
לְבַדֶּךָ — levaddekha, "sozinho".
É a palavra do homem "sozinho" de Gênesis 2:18 e a do "sozinho" com que Jetro tinha perguntado em Êxodo 18:14. Ela forma uma corrente na Torá sobre o peso da liderança: Êxodo 18:14 e 18:18, Números 11:14 e 11:17 ("e você não o carregará sozinho"), Deuteronômio 1:9 e 1:12. Em seis versículos, a solidão de Moisés diante do povo é nomeada com a mesma palavra.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira: para o Êxodo, o limite de Moisés é um dado, não uma culpa. Jetro mede a tarefa contra o homem e conclui que ela passa dele. Ninguém é repreendido por ter limite; o erro seria ignorá-lo.
A segunda: o dano de ignorar o limite não fica com o líder. O verbo da folha que murcha é aplicado a Moisés e ao povo na mesma frase. Um juiz sozinho não é só um homem cansado: é uma comunidade inteira esperando.
A terceira: a constatação de Jetro sobreviveu a ele. Moisés a repete a Deus em Números e ao povo em Deuteronômio, e em nenhuma das vezes a contesta. O que começou como parecer de um visitante passou a ser a forma como a Torá descreve a liderança de Moisés: um homem que não pode carregar sozinho.













