Eles julgavam o povo em todo o tempo: a causa difícil traziam a Moisés, e toda causa pequena eles mesmos julgavam.
1. Introdução
O sistema de Jetro aparece funcionando, e quase com as palavras dele. Uma diferença, porém, salta na comparação: Jetro tinha dito que subiria a Moisés "toda causa grande"; o versículo diz que subia "a causa difícil". O critério passou da importância para a dificuldade, e o "toda" ficou pelo caminho. As formas verbais deixam de ser promessa e passam a descrever costume — "julgavam", "traziam" —, e duas delas são raras no hebraico bíblico. O que o versículo não conta é se o alívio prometido a Moisés e a paz prometida ao povo chegaram.
2. Contexto Histórico e Cultural
Por categoria ou por dificuldade
Todo sistema de justiça com mais de um nível precisa de uma regra para dizer o que sobe e o que fica. No mundo antigo, a regra mais comum não era a de Êxodo 18:26. Era a categoria: certos tipos de caso pertenciam, por natureza, ao tribunal mais alto, por mais simples que fossem; outros ficavam embaixo, por mais complicados que fossem.
As leis hititas
As leis do reino hitita, na Anatólia (a atual Turquia), redigidas a partir de cerca de 1650 antes de Cristo e copiadas até o fim do reino, por volta de 1200, e editadas criticamente por Harry Hoffner (The Laws of the Hittites, "As leis dos hititas", 1997), mostram esse modelo. Em vários parágrafos, depois de descrever um crime, o texto encerra com a fórmula "é caso para o tribunal do rei". Acontece, por exemplo, com a feitiçaria: o processo não fica com a autoridade local, sobe ao rei. O que decide a subida não é a dúvida dos juízes de baixo, é o tipo de crime. E o parágrafo 173 mostra a hierarquia por outro ângulo: quem se opuser à sentença do rei terá a casa transformada em ruína; quem se opuser à sentença de um dignitário terá a cabeça cortada. Há duas instâncias, e desobedecer a qualquer uma delas é crime.
A Mishná
A própria tradição judaica, quando organizou os seus tribunais, também os organizou por categoria. O primeiro capítulo do tratado Sanhedrin da Mishná (a primeira compilação escrita da lei oral judaica, por volta do ano 200) distribui as causas pelo tamanho do tribunal. Causas de dinheiro, roubo, ferimento e dano: três juízes (Sanhedrin 1:1). Causas que podem terminar em pena de morte: vinte e três (Sanhedrin 1:4). O julgamento de uma tribo inteira, de um falso profeta ou do sumo sacerdote, a decisão de uma guerra não obrigatória, a ampliação de Jerusalém: setenta e um, o Grande Sinédrio (Sanhedrin 1:5).
O critério é o que está em jogo, não a dificuldade. Uma causa de dinheiro intrincadíssima continua com três juízes; um homicídio de provas evidentes vai para vinte e três. A Mishná conhece também a escada da dúvida, pela qual a questão que ninguém sabe responder sobe de tribunal em tribunal, e essa escada está desenvolvida no estudo de Êxodo 18:22. Mas a porta de entrada de cada causa é definida pela matéria.
O que distingue Êxodo 18:26
Diante desses dois modelos, o critério do versículo é incomum. Não há lista de matérias reservadas a Moisés. Nada diz que homicídio, idolatria ou casos envolvendo chefes de família sobem automaticamente. Sobe "a causa difícil" — a que o juiz de baixo não consegue resolver. Pelo texto, uma morte de autoria clara podia ser julgada por um chefe de dez, e uma disputa sobre um odre de água, se fosse obscura, chegar a Moisés. A medida é a capacidade do juiz diante do caso, não a gravidade do caso diante da sociedade.
É difícil dizer quanto disso é desenho consciente e quanto é simplicidade de um sistema nascente. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) entendem que "difícil" era a causa para a qual não havia lei definida, e "pequena" a que se resolvia por leis existentes ou por princípios gerais de equidade. Nessa leitura, o critério do versículo é jurídico, não pessoal: sobe o que exige lei nova. Faz sentido num povo que ainda não tinha recebido a maior parte das suas leis.
3. Análise Teológica do Versículo
"Eles julgavam o povo em todo o tempo"
A frase é a mesma do conselho de Jetro (Êxodo 18:22), palavra por palavra, e até com a mesma forma verbal no hebraico. O que muda é o lugar onde ela está. Lá, era o que deveria acontecer; aqui, é o que passou a acontecer. A Bíblia costuma narrar o cumprimento de uma ordem repetindo a ordem — "fizeram assim como lhes foi dito" —, e o leitor atento aprende a comparar as duas versões linha por linha, porque é nas diferenças que o texto fala.
Postas lado a lado, as duas frases diferem em três pontos. A causa que sobe deixou de ser "grande" e passou a ser "difícil". A palavra "toda", que Jetro pôs diante das causas grandes, desapareceu das difíceis, mas continua diante das pequenas. E as duas promessas com que Jetro fechava — "assim será mais leve para você, e eles levarão a carga com você" — não aparecem no relato.
O versículo também mudou de tempo. O capítulo começou contando um dia: "no dia seguinte, Moisés sentou-se para julgar" (Êxodo 18:13). Agora não há dia nenhum; há um costume. "Julgavam", "traziam", "julgavam": o texto descreve uma rotina que se repetia, e Rashi observa que o Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá nas sinagogas) marca essa diferença com formas de ação contínua, que não usa no conselho. A cena acabou; começou uma instituição.
"a causa difícil traziam a Moisés"
Por que a causa "grande" do conselho virou a causa "difícil" da execução? Há três respostas, e cada uma lê o capítulo de um modo.
Primeira resposta: as duas palavras dizem a mesma coisa, e a segunda explica a primeira. "Grande", em Jetro, já queria dizer "grave, pesada, difícil de resolver". O versículo 26 só torna explícito o que estava implícito, e impede uma leitura errada do conselho, a de que os poderosos teriam acesso direto a Moisés e o povo comum ficaria com os juízes menores. É assim que a Mekhilta (comentário rabínico ao Êxodo, dos primeiros séculos da era comum) usa este versículo, e a discussão está no estudo de Êxodo 18:22.
Segunda resposta: a prática corrigiu o plano. "Grande" é um critério de importância; "difícil" é um critério de complexidade, e os dois não coincidem. Uma causa pode ser grande e fácil — muito dinheiro, partes conhecidas, fatos claros — ou pequena e difícil — uma briga entre vizinhos sem testemunha e sem lei aplicável. Ao fazer subir só a difícil, o sistema deixou de dar tratamento especial ao que é importante e passou a dar tratamento especial ao que é obscuro. Deuteronômio 1:17 confirma a direção: Moisés manda os juízes ouvirem "o pequeno como o grande" e, na mesma frase, diz "a causa que for difícil demais para vocês, tragam a mim". A palavra que o Deuteronômio usa para o que sobe é a da execução, não a do conselho.
Terceira resposta: mudou o ponto de vista. "Grande" é como a causa parece de cima, para quem vê o povo inteiro; "difícil" é como ela parece de baixo, para o juiz que precisa decidir. O "difícil demais para vocês" de Deuteronômio 1:17 mostra que a dificuldade é relativa a quem julga. Um chefe de dez experiente resolve o que um chefe de mil inexperiente não resolveria. O critério do versículo, nessa leitura, não está na causa; está na relação entre a causa e o juiz.
As três leituras são defensáveis, e o texto não permite escolher uma com segurança. O que ele garante é a troca de palavra, e que a palavra adotada é a que o Deuteronômio repetirá.
A queda do "toda" pede mais cautela. Jetro dissera "toda causa grande trarão a você"; o versículo diz "a causa difícil traziam". Pode ser só estilo. Pode ser também que o sistema real fizesse subir menos do que Jetro imaginava: não toda causa de certo tipo, mas aquela causa, a que de fato travava. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) supõe que só chegavam a Moisés as causas que pareciam difíceis aos chefes de mil, depois de passarem pelos degraus de baixo. É hipótese; o texto não descreve a passagem entre os níveis.
O sujeito do verbo continua sendo "eles", os chefes. Quem leva a causa a Moisés é o juiz, não quem está em litígio. O versículo não prevê que uma das partes, insatisfeita com a sentença do chefe de dez, possa subir por conta própria. A subida é decisão de quem julga, e o direito de apelar, como o conhecemos, não está no desenho.
"e toda causa pequena eles mesmos julgavam"
Aqui o versículo mantém a palavra de Jetro: "pequena". O resultado é um par desencontrado. Jetro opunha grande e pequena, duas pontas da mesma régua. O versículo opõe difícil e pequena, que pertencem a réguas diferentes. O contrário de difícil é fácil; o contrário de pequena é grande. Uma causa grande e fácil não cabe em nenhuma das duas frases, e o texto não diz para onde ia. A explicação mais simples é que, na prática, "pequena" passou a significar "simples", como a Septuaginta entendeu ao traduzir por "leve" (item 10). Mas a assimetria está no hebraico, e mostra que a execução não é cópia do plano.
"Eles mesmos" encerra a frase com ênfase: a causa pequena terminava ali. Moisés não a via. Isso tem um custo que o versículo não menciona. O homem que, no versículo 13, conhecia cada briga do acampamento, porque todas passavam por ele, deixa de saber o que acontece no cotidiano do povo. Só lhe chega o que ninguém conseguiu resolver.
O que o versículo não conta
Jetro tinha prometido três resultados: Moisés poderia "manter-se de pé", o trabalho ficaria mais leve, e o povo chegaria "em paz ao seu lugar" (Êxodo 18:22-23). O relato da execução descreve o funcionamento e cala sobre os efeitos. Não diz que Moisés descansou, nem que as filas acabaram, nem que o povo ficou em paz. A próxima vez que a Torá mostrar Moisés diante do peso do povo, em Números 11, ele estará de novo dizendo que não aguenta. O versículo registra que o sistema existiu; não registra que resolveu.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os chefes
Sujeito dos três verbos. São os homens escolhidos no versículo anterior, agora chamados só de "eles". Julgam, decidem o que é difícil e levam a Moisés. Pela primeira vez no livro, há israelitas exercendo autoridade judicial sobre outros israelitas sem ser Moisés.
Moisés
Aparece uma vez, como destino: "traziam a Moisés". Deixou de ser quem recebe todas as causas e passou a ser a última instância. O versículo não diz o que ele fazia com as causas difíceis; o conselho de Jetro previa que as levasse a Deus (Êxodo 18:19).
O povo
Objeto do julgamento, "em todo o tempo". No versículo 13, o povo ficava de pé da manhã à tarde; aqui, ele simplesmente é julgado, sem fila descrita.
As causas
"A causa difícil" e "a causa pequena". A palavra hebraica é a mesma que no capítulo vale também por "palavra", "coisa" e "questão" (Êxodo 18:16). O versículo não dá exemplo de nenhuma das duas.
O evento
O funcionamento regular do novo sistema judicial. É o último versículo do capítulo sobre a justiça; o seguinte já é a partida de Jetro. Logo depois, no capítulo 19, Israel chega ao Sinai e começa a receber a Lei que esses mesmos juízes passarão a aplicar.
5. Pontos de Ensino
1. A execução não é cópia do plano. O versículo repete o conselho de Jetro quase palavra por palavra, e é por isso que as diferenças pesam: "grande" virou "difícil", o "toda" das causas grandes sumiu, as promessas de alívio não aparecem. A Bíblia ensina a ler comparando.
2. Importância e dificuldade são coisas diferentes. O sistema que funcionou mandava para cima o que era difícil, não o que era importante. Uma justiça que privilegia o importante tende a privilegiar os importantes; a que privilegia o difícil distribui a atenção conforme a necessidade do caso.
3. Dificuldade é relativa a quem julga. "Difícil demais para vocês", dirá Deuteronômio 1:17. O mesmo caso pode ser simples para um juiz e obscuro para outro, e o sistema depende de que cada um reconheça o próprio limite.
4. O texto descreve uma rotina, não um milagre. Nada no versículo é extraordinário. Homens comuns julgam causas comuns, todos os dias. A justiça de Israel começa como instituição, não como prodígio.
5. O relato não promete resultado. O versículo diz que o sistema funcionava; não diz que resolveu tudo. Deixar de narrar o alívio prometido é também uma forma de honestidade.
6. Aspectos Filosóficos
Quem acerta mais: um juiz sozinho ou vários juízes votando? E, se for melhor que sejam vários, quantos? O versículo descreve um sistema em que cada causa é decidida por um homem só — o chefe de dez, de cinquenta, de cem, de mil — e em que a causa difícil sobe não para um colegiado maior, mas para outro homem só, Moisés. A pergunta sobre essa escolha tem uma resposta matemática, e ela foi dada no fim do século XVIII.
Marie-Jean-Antoine-Nicolas de Caritat, marquês de Condorcet (1743-1794), matemático e filósofo francês, publicou em 1785 o Ensaio sobre a aplicação da análise à probabilidade das decisões tomadas por pluralidade de votos. O problema que o movia era jurídico: como compor um tribunal para que a chance de condenar um inocente fosse a menor possível. A resposta ficou conhecida como "teorema do júri de Condorcet".
O teorema diz o seguinte. Suponha que cada juiz decida sozinho, sem combinar com os outros, e que cada um tenha mais de cinquenta por cento de chance de acertar. Nesse caso, a decisão da maioria acerta mais do que qualquer juiz individual, e a chance de acerto da maioria cresce à medida que se acrescentam juízes, até se aproximar da certeza. Mas o teorema tem um avesso, que Condorcet também demonstrou: se cada juiz tiver menos de cinquenta por cento de chance de acertar, acrescentar juízes piora a decisão. A maioria de muitos incompetentes erra com quase certeza.
O avesso do teorema ilumina o critério deste versículo. A causa que sobe a Moisés é justamente a "difícil" — aquela em que o juiz comum tem pouca chance de acertar. Pela matemática de Condorcet, juntar muitos juízes comuns para decidir esse tipo de causa seria o pior caminho: multiplicaria o erro. O caminho que o versículo descreve é outro: levar a causa difícil ao juiz de maior competência, e, segundo o conselho de Jetro, a Deus por meio dele (Êxodo 18:19). Para as causas pequenas, em que cada juiz acerta quase sempre, um só basta. O desenho de Êxodo 18:26 não é o de Condorcet, mas não é ingênuo diante dele.
A tradição judaica posterior seguiu outro caminho, e mais parecido com o de Condorcet. A Mishná (a primeira compilação escrita da lei oral judaica, por volta do ano 200) substituiu o juiz único pelo colegiado: três juízes para causas de dinheiro, vinte e três para causas de vida e morte, setenta e um para as maiores (item 2). E ajustou a maioria ao risco do erro. No tratado Sanhedrin 1:6, a Mishná diz que, para absolver, basta a maioria de um voto; para condenar, é preciso maioria de dois, e o tribunal deve ter número ímpar de juízes para não empatar. É exatamente a preocupação de Condorcet: exigir mais para condenar do que para absolver, porque o erro contra o inocente é o pior. O tratado Avot (Ética dos Pais, 4:8) põe a regra num aforismo: "Não julgue sozinho, porque só Um julga sozinho".
Condorcet sabia que o seu teorema dependia de condições difíceis de cumprir. A principal é a independência: os juízes não podem se influenciar uns aos outros, nem seguir o mesmo líder. Num sistema hierárquico como o do Êxodo, essa condição falha de propósito. O chefe de dez sabe que acima dele há um chefe de cinquenta, e todos sabem que no topo está Moisés. A hierarquia corrige o erro de baixo levando o caso para cima; o colegiado corrige o erro somando opiniões. São duas soluções diferentes para o mesmo problema, e o versículo escolheu a primeira.
A biografia de Condorcet deu ao tema da justiça um fim amargo. Defensor da Revolução Francesa, deputado, autor de um projeto de constituição, ele caiu em desgraça durante o Terror, viveu escondido meses em Paris e foi preso em 1794. Morreu na cela, em Bourg-la-Reine, dois dias depois, em circunstâncias não esclarecidas. O teórico dos tribunais que não erram foi vítima de um regime que julgava por suspeita.
A comparação tem limites claros. Condorcet calcula probabilidades com juízes iguais e independentes; o Êxodo descreve uma hierarquia com um vértice que fala com Deus. O que o teorema não alcança é o que o texto supõe: que a causa realmente difícil não se resolve somando votos humanos. Mas ele mostra, com rigor, por que mandar o difícil para cima, em vez de espalhá-lo, pode ser a escolha certa.
7. Aplicações Práticas
Saiba o que é difícil para você. O sistema só funcionava se o chefe de dez reconhecesse quando uma causa passava da sua capacidade. Em qualquer trabalho com níveis — um hospital, uma escola, uma equipe —, o profissional que encaminha a tempo o caso que não sabe resolver é tão necessário quanto o que resolve os que sabe. Encaminhar não é fraqueza; é o que impede o erro de ficar escondido embaixo.
Não confunda importante com difícil. Quem coordena gente tende a reservar para si o que parece importante e a delegar o resto. O versículo sugere outra régua: o que precisa subir é o que os outros não conseguem resolver, não o que dá mais visibilidade.
Quem fica só com os casos difíceis perde o contato com os simples. Moisés deixou de ver as brigas pequenas do acampamento. Quem ocupa a última instância precisa achar outros meios de saber como vive o povo que já não passa pela sua porta.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Que tipo de causa era "difícil"?
O versículo não dá exemplo. Se "difícil" for a causa sem lei aplicável, como pensavam Keil e Delitzsch (item 2), os casos que a Torá deixa em suspenso até Moisés perguntar a Deus — o blasfemo de Levítico 24, o homem que apanha lenha no sábado em Números 15, as filhas de Zelofeade em Números 27 — mostram o tipo; a leitura que o Talmude faz deles, a partir de Deuteronômio 1:17, está no estudo de Êxodo 18:15.
Uma das partes podia recorrer a Moisés contra a sentença do chefe?
O versículo não prevê isso. Quem leva a causa é o juiz, não o litigante (item 3). Nada impede que, na prática, alguém procurasse Moisés diretamente, mas o texto não descreve esse caminho.
O que Moisés fazia com as causas difíceis?
O conselho de Jetro dizia: "leve você as questões a Deus" (Êxodo 18:19). O versículo não repete a parte divina; diz só que as causas chegavam a Moisés. Nos casos suspensos da Torá, Moisés espera, consulta, e a resposta vem como lei para o futuro.
Por que as formas verbais deste versículo são diferentes das do conselho?
Porque o conselho era futuro e ordem, e a execução é passado e costume. Mas duas formas, "traziam" e "julgavam", têm também uma grafia rara no hebraico bíblico, que os comentaristas medievais discutiram. A análise está no item 10.
O sistema durou?
O Pentateuco não volta a falar dos chefes de dez como juízes. O Deuteronômio, no fim do deserto, ordena "juízes e oficiais em todas as suas cidades" (Deuteronômio 16:18), um sistema por localidade, não por grupos de pessoas. É provável que a organização do deserto tenha sido substituída quando o povo se fixou na terra; o texto não registra a passagem.
9. Conexão com Outros Textos
O conselho que este versículo cumpre
Êxodo 18:22 — "Eles julgarão o povo em todo o tempo; toda causa grande trarão a você, e toda causa pequena eles mesmos julgarão. Assim será mais leve para você, e eles levarão a carga com você."
Mesmas palavras no começo; "grande" que vira "difícil"; "toda" que some; a segunda metade, a do alívio, que não volta.
O Deuteronômio segue a execução
Deuteronômio 1:17 — "Não façam acepção de pessoas no julgamento: ouçam o pequeno como o grande; não tenham medo de ninguém, porque o julgamento é de Deus. E a causa que for difícil demais para vocês, tragam a mim, e eu a ouvirei."
O mesmo verbo de "difícil", ligado a "para vocês". E, na mesma frase, "pequeno" e "grande" passam a designar pessoas — que devem ser ouvidas do mesmo modo —, não causas.
A palavra "difícil" no Êxodo
Êxodo 1:14 — "E amarguraram a vida deles com trabalho pesado: a argamassa, os tijolos e todo o serviço do campo. Todo o trabalho que lhes impunham era com brutalidade."
O adjetivo que no capítulo 18 qualifica a causa ("difícil") é o mesmo que, no capítulo 1, qualificava a escravidão — ali a ABC o traduz por "pesado". O que era "duro" no Egito era o trabalho imposto; no deserto, é a questão que um juiz não consegue resolver.
Os juízes por cidade
Deuteronômio 16:18 — "Juízes e oficiais você constituirá em todas as suas cidades que o SENHOR, seu Deus, lhe dá, segundo as suas tribos, e eles julgarão o povo com justo julgamento."
"E eles julgarão o povo" — a mesma frase de Êxodo 18:22 e 18:26, e o único outro lugar da Bíblia em que ela aparece, agora para tribunais fixos em cidades. O sistema do deserto, organizado por grupos de pessoas, vira sistema de lugares.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Eles julgavam o povo em todo o tempo: a causa difícil traziam a Moisés, e toda causa pequena eles mesmos julgavam.
Texto hebraico
וְשָׁפְטוּ אֶת־הָעָם בְּכָל־עֵת אֶת־הַדָּבָר הַקָּשֶׁה יְבִיאוּן אֶל־מֹשֶׁה וְכָל־הַדָּבָר הַקָּטֹן יִשְׁפּוּטוּ הֵם׃
Transliteração
ve-shafetu et-ha-am be-khol-et; et-ha-davar ha-qasheh yevi'un el-Moshe, ve-khol-ha-davar ha-qaton yishputu hem.
Análise palavra por palavra
וְשָׁפְטוּ — ve-shafetu, "e julgavam".
Verbo shafat, "julgar", no Qal (a forma simples do verbo hebraico), terceira pessoa do plural, na forma de perfeito precedida de "e". Em Êxodo 18:22, a mesma palavra, com as mesmas letras e as mesmas vogais, valia como futuro: "e julgarão". Aqui, depois de uma narrativa no passado, ela vale como passado habitual: "e julgavam", "costumavam julgar". O hebraico bíblico usa essa forma para ações repetidas, e a Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) observa que todos os verbos do versículo são desse tipo e descrevem um costume. A frase completa "e julgarão (julgavam) o povo" só aparece três vezes na Bíblia hebraica: Êxodo 18:22, Êxodo 18:26 e Deuteronômio 16:18.
אֶת־הָעָם בְּכָל־עֵת — et-ha-am be-khol-et, "o povo em todo o tempo".
Idêntico a Êxodo 18:22: "em toda ocasião", a qualquer hora.
אֶת־הַדָּבָר הַקָּשֶׁה — et-ha-davar ha-qasheh, "a causa difícil".
Davar é "palavra, coisa, causa", a palavra que neste capítulo muda de sentido sete vezes. Ha-qasheh é o adjetivo qasheh, "duro", com o artigo. A raiz q-sh-h é a da dureza física e moral: o "trabalho pesado" da escravidão (Êxodo 1:14), o povo "de dura cerviz", isto é, de pescoço duro, teimoso (Êxodo 32:9), a resposta "dura" de Roboão ao povo (1 Reis 12:13). Só aqui, em toda a Bíblia hebraica, o adjetivo qualifica davar: "causa dura" é expressão única. O verbo da mesma raiz aparece em Deuteronômio 1:17, asher yiqsheh mikkem, "que for difícil demais para vocês".
Três diferenças em relação a Êxodo 18:22 estão nestas palavras. A primeira é o adjetivo: lá, ha-gadol, "o grande"; aqui, ha-qasheh, "o duro". A segunda é a falta de kol, "toda": lá, kol-ha-davar ha-gadol; aqui, só et-ha-davar ha-qasheh. A terceira é a partícula et, que marca o objeto direto e vem antes da expressão, deslocada para o começo da frase: em português seria "a causa difícil, essa eles traziam". A ordem põe em destaque o que sobe.
יְבִיאוּן — yevi'un, "traziam".
Verbo bo, "vir", no Hiphil (a forma causativa do verbo hebraico): "fazer vir", "trazer". Imperfeito, terceira pessoa do masculino plural, com valor de ação repetida no passado. A forma comum seria yavi'u, exatamente a de Êxodo 18:22. Aqui vem com um nun final acrescentado, yevi'un, e com a primeira vogal reduzida por causa disso. O nun final no plural do imperfeito é uma terminação antiga, frequente em textos mais arcaicos e em passagens de estilo solene; a explicação da terminação está no estudo de Êxodo 5:7. A forma yevi'un só ocorre aqui em toda a Bíblia hebraica. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá nas sinagogas) a traduz por maytin, um particípio — "estavam trazendo" —, e Rashi observa a escolha.
אֶל־מֹשֶׁה — el-Moshe, "a Moisés".
Em Êxodo 18:22, Jetro dissera elekha, "a você". A execução troca o pronome pelo nome.
וְכָל־הַדָּבָר הַקָּטֹן — ve-khol-ha-davar ha-qaton, "e toda causa pequena".
Idêntico a Êxodo 18:22: aqui o kol permanece.
יִשְׁפּוּטוּ הֵם — yishputu hem, "eles mesmos julgavam".
Verbo shafat, Qal, imperfeito, terceira pessoa do masculino plural. A forma esperada seria yishpetu, que é exatamente a de Êxodo 18:22 (yishpetu-hem). Aqui a segunda vogal é um u pleno, escrito com a letra vav: yishputu. É outra forma única na Bíblia. Os comentaristas medievais discutiram por quê.
Rashi (Rabi Salomão ben Isaque, comentarista francês do século XI) diz que yishputu é o mesmo que yishpetu e cita um caso parecido, lo ta'avuri em Rute 2:8, no lugar de lo ta'avri. E acrescenta que Ônquelos traduziu as formas do conselho como ordem ("que julguem", "que tragam") e as da execução como ação ("estavam julgando", "estavam trazendo"), porque umas são de instrução e outras de cumprimento. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) diz que Rashi "quis distinguir entre as duas formas e não conseguiu", porque o sentido é o mesmo, e propõe uma explicação pela posição na frase: yishpetu, em Êxodo 18:22, está no meio do versículo, sob um sinal de pausa menor; yishputu, aqui, é a penúltima palavra, ligada a hem, na pausa maior do fim do versículo, que costuma alterar as vogais. Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, comentarista francês do século XII) registra apenas a troca de vogal. Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII) anota que as duas formas, yevi'un e yishputu, são de presente contínuo. A pergunta, portanto, ficou entre uma diferença de sentido (Rashi, via Ônquelos) e uma diferença de som (Ibn Ezra), e a maioria dos gramáticos modernos segue Ibn Ezra.
Hem, "eles", repete o sujeito depois do verbo, como em Êxodo 18:22: "julgavam eles mesmos".
As versões antigas
A Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita no Egito a partir do século III antes de Cristo) apagou a diferença entre conselho e execução. Nos dois versículos, ela usa hyperonkon, "excessivo, de peso demais", para a causa que sobe a Moisés. E, para a causa que fica, variou ao contrário: em Êxodo 18:22, ta brachea tōn krimatōn, "as causas breves"; aqui, pan rhēma elaphron, "toda causa leve". O hebraico trocou o adjetivo da causa que sobe; o grego trocou o da causa que fica. O Targum de Ônquelos manteve a distinção do hebraico: pitgam qashei, "causa difícil", e pitgam ze'eir, "causa pequena".
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira: o sistema que funcionou não foi exatamente o que Jetro propôs. Repetiu as palavras dele onde elas serviam e trocou a que importava — a régua do que sobe a Moisés passou da importância para a dificuldade. Seja correção da prática, seja esclarecimento do sentido, a troca está no texto, e é ela que o Deuteronômio vai adotar.
A segunda: o critério escolhido coloca a dificuldade na relação entre o juiz e o caso, não no caso sozinho. Isso faz a justiça depender da honestidade de cada juiz sobre o próprio limite, e é por isso que as qualidades de caráter pedidas no conselho não eram enfeite. Um sistema que manda para cima o que é difícil só funciona se ninguém esconder o que não sabe.
A terceira: o versículo fala de rotina, não de resultado. Ele mostra a instituição em marcha, com verbos de costume e formas antigas, e cala sobre o alívio e a paz prometidos. A Torá registra o que foi feito e deixa ao resto da história — e ao leitor — a avaliação do que isso resolveu.













