E aconteceu que, no terceiro dia, ao amanhecer, houve trovões e relâmpagos, e uma nuvem pesada sobre o monte, e um som de trombeta muito forte; e todo o povo que estava no acampamento estremeceu.
1. Introdução
Chega a manhã do terceiro dia, e o encontro anunciado começa pelo ouvido: trovões, depois relâmpagos, uma nuvem pesada que cobre o monte e um som de trombeta muito forte, que ninguém é dito a tocar. O versículo não nomeia Deus nem diz de onde vem o som; registra o que se ouve e o que se vê, e a reação de quem estava no acampamento — todos estremecem, antes mesmo de sair das tendas. A tradição perguntou quem tocava aquela trombeta e deu respostas muito diferentes: Deus, anjos, nenhum instrumento. E o versículo entrou na liturgia judaica do Ano-Novo como o primeiro texto sobre o som do chifre.
2. Contexto Histórico e Cultural
O que era o shofar
A palavra traduzida por "trombeta" é shofar, o instrumento feito de chifre de carneiro ou de cabra, aquecido para ser moldado e furado na ponta. Não é a trombeta de metal que o português imagina. Produz poucas notas, duas ou três, e um som áspero, que se ouve de longe. Por ser de material orgânico, nenhum shofar do período bíblico chegou até nós; o que se conhece vem dos textos e, muito depois, das imagens em pisos de sinagogas da Antiguidade tardia, onde ele aparece ao lado do candelabro.
Israel usava duas famílias de instrumentos de sopro para dar sinais. Uma era a trombeta de metal batido, tocada por sacerdotes, com um código de toques para reunir e mover o acampamento (Números 10:1-10) — o instrumento caro e oficial, discutido no estudo de Êxodo 14:15. A outra era o shofar, que qualquer pastor podia fazer. É este o do Sinai.
Os usos do shofar em Israel
Na vida de Israel, o shofar soava em três situações, e as três ajudam a ouvir o Sinai.
A guerra. Eúde toca o shofar na região montanhosa de Efraim para reunir os homens contra Moabe (Juízes 3:27); o espírito do SENHOR reveste Gideão, e ele toca o shofar para convocar o seu clã (Juízes 6:34). O som chama para a luta e, ouvido pelo outro lado, anuncia o ataque.
O alarme. Os profetas usam o shofar como o som do perigo que se aproxima: "toquem o shofar na terra, gritem bem alto" (Jeremias 4:5); "a minha alma ouviu o som do shofar, o alarme da guerra" (Jeremias 4:19). Amós pergunta se é possível tocar o shofar numa cidade sem que o povo estremeça (Amós 3:6).
A coroação. Quando Salomão é ungido, "tocaram o shofar, e todo o povo disse: 'Viva o rei Salomão!'" (1 Reis 1:39). Absalão, ao tentar o golpe, manda espalhar pelas tribos: "quando ouvirem o som do shofar, digam: 'Absalão é rei em Hebrom'" (2 Samuel 15:10). O som anuncia que há um rei.
No Sinai, as três funções se sobrepõem. O som que acorda o acampamento é ao mesmo tempo o anúncio de uma chegada real e um alarme — e o efeito descrito, o povo inteiro estremecendo, é o que Amós diz que o shofar produz numa cidade.
O versículo na liturgia do Ano-Novo
A Mishná (a primeira grande compilação da lei oral judaica, fechada por volta do ano 200) determina, no tratado Rosh Hashaná 4:5-6, que a oração adicional do Ano-Novo tenha três blocos de versículos bíblicos — sobre a realeza de Deus, sobre a lembrança e sobre o shofar —, com pelo menos dez versículos cada, começando pela Torá e terminando pelos Profetas. No bloco do shofar, que a liturgia chama de Shofarot, o primeiro versículo da Torá é este, Êxodo 19:16, seguido de Êxodo 19:19 e Êxodo 20:18.
A bênção que introduz esses versículos, rezada até hoje nas sinagogas, começa com a cena do Sinai: "Tu te revelaste na nuvem da tua glória ao teu povo santo, para falar com eles". E os versículos dos Profetas que fecham o bloco incluem dois em que o shofar é tocado sem trombeteiro humano: "naquele dia se tocará um grande shofar" (Isaías 27:13) e "o Senhor DEUS tocará o shofar" (Zacarias 9:14). A liturgia pôs o chifre do Sinai na mesma série que o chifre do fim dos tempos, e é por isso que, para quem reza, o toque de cada Ano-Novo ecoa este versículo.
3. Análise Teológica do Versículo
"E aconteceu que, no terceiro dia"
O prazo fixado em Êxodo 19:11 se cumpre na data exata. A expressão "no terceiro dia" marca, em toda a Bíblia hebraica, o dia em que uma espera se resolve, e o estudo de Gênesis 22:4 percorre essa série. Aqui ela não precisa de comentário: o leitor sabe, desde o versículo 11, que este é o dia.
"ao amanhecer"
O hebraico diz, ao pé da letra, "quando a manhã estava sendo" — uma forma que, ao que tudo indica, a Bíblia não usa em nenhum outro lugar para dizer "de manhã". A construção descreve um processo em curso: a manhã ainda está chegando quando os trovões começam.
Rashi (Salomão ben Isaque, comentarista judeu francês do século XI) leu na forma incomum uma inversão de hábito. Entre os homens, o discípulo espera o mestre; aqui, o mestre chegou antes e esperou o discípulo. Deus já estava no monte quando a manhã começou e o povo ainda não tinha saído. Rashi apoia a leitura num paralelo de Ezequiel: Deus manda o profeta sair para a planície, "e lá estava a glória do SENHOR", à espera dele (Ezequiel 3:22-23). A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo, compilado na terra de Israel por volta do século III) diz o mesmo de modo mais curto: Deus "levantou-se" antes deles.
A leitura é midrash, mas a gramática dá a ela um ponto de apoio real. O versículo não diz que os sinais vieram "pela manhã", depois que todos estavam prontos; diz que vieram enquanto a manhã se formava. O encontro não esperou o povo se arrumar.
"houve trovões e relâmpagos"
A primeira coisa que o texto registra é um som. A palavra hebraica para "trovões" é o plural de "voz", e esse duplo sentido será explorado pelos versículos seguintes, quando a voz de Deus responder a Moisés. Aqui, o que se ouve ainda não tem palavras.
A Mekhilta repara que o versículo usa o plural e conclui: "trovões, um diferente do outro; relâmpagos, um diferente do outro". Não era um estrondo repetido, mas uma variedade de sons e de clarões. A observação parece pequena e não é: ela recusa a ideia de um fenômeno mecânico e descreve algo que se percebe como articulado, quase como linguagem antes da linguagem.
Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) faz outra observação, sobre o lugar: a nuvem estava "sobre o monte", e só sobre ele; "e assim também os trovões e os relâmpagos". O céu do acampamento, nessa leitura, não estava coberto. O povo via de fora uma tempestade que não o alcançava. A frase "sobre o monte", posta logo depois da nuvem, permite a leitura sem impô-la.
"e uma nuvem pesada sobre o monte"
No versículo 9, Deus tinha prometido vir "na espessura da nuvem". Aqui a nuvem chega, e o adjetivo é "pesada". A palavra é da mesma família de "glória" em hebraico — a glória, na língua da Bíblia, é aquilo que tem peso. O Êxodo junta as duas palavras pouco depois: "a glória do SENHOR habitou sobre o monte Sinai, e a nuvem o cobriu por seis dias" (Êxodo 24:16). A nuvem pesada do versículo 16 é a primeira forma visível dessa glória: o que se mostra, no Sinai, é o que esconde.
"e um som de trombeta muito forte"
O versículo não diz que alguém tocou. Diz "houve" um som de shofar, com o mesmo verbo com que diz que "houve" trovões. Nas cenas narradas da Bíblia em que um shofar soa, há quase sempre quem o toque: os sacerdotes em Jericó, Eúde, Gideão, os que proclamam um rei. No Sinai, o instrumento soa sozinho. Quem o tocava? A tradição deu quatro respostas.
Primeira: ninguém, porque não era um instrumento. Para Ibn Ezra, o som do shofar foi "o grande prodígio" do Sinai. Trovões, relâmpagos e nuvens existem no mundo e são vistos todos os dias; um som de shofar sem chifre e sem fôlego "nunca foi ouvido até o dia das Dez Palavras". Por isso ele insiste que aquela trombeta "não era de chifre de carneiro". Ibn Ezra acrescenta que o povo estremeceu "por causa do som do shofar" — não dos trovões, que todos conheciam.
Segunda: Deus. O Pirquê de Rabi Eliezer (obra narrativa rabínica dos séculos VIII ou IX) diz que Deus mesmo tocou no Sinai, com o chifre esquerdo do carneiro oferecido no lugar de Isaque. A leitura tem apoio bíblico num versículo de Zacarias, "o Senhor DEUS tocará o shofar" (Zacarias 9:14), que a liturgia judaica pôs, como se viu no item 2, ao lado deste.
Terceira: os anjos. É a leitura de comentaristas protestantes como John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII) e Joseph Benson (pastor metodista inglês, da geração seguinte): a trombeta foi tocada por "milhares de anjos" que acompanhavam a descida de Deus. Eles a apoiam em Deuteronômio 33:2, onde Deus vem do Sinai "com miríades de santos", e em passagens do Novo Testamento que dizem que a lei foi dada por meio de anjos. É uma leitura de conjunto, que o versículo não contém.
Quarta: não se pode saber. O comentário de Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) declara que é impossível decidir se o som foi produzido por meios naturais ou por anjos; o de Jamieson, Fausset e Brown (comentário escocês do século XIX) afirma, ao contrário, que foi "outra coisa que não uma trombeta material", soprada "por outro meio que não o fôlego humano". Os dois concordam no que importa: o texto não mostra o trombeteiro.
A ausência do sujeito não parece descuido. No mesmo capítulo, o versículo 13 tinha previsto um toque do chifre de carneiro como sinal de licença, e lá também ninguém é nomeado. Mas o versículo 16 vai além: não fala nem de Deus. Deus não aparece como sujeito de nenhum verbo deste versículo; o texto descreve tudo pelo lado de quem está embaixo e ouve.
"Muito forte" é o grau que Ibn Ezra explica com uma comparação simples: mais forte do que qualquer shofar que eles já tivessem ouvido. Que o som ainda aumentaria, contra a natureza de um instrumento de sopro, é o que diz o versículo 19.
"e todo o povo que estava no acampamento estremeceu"
O povo ainda está no acampamento. Só no versículo seguinte Moisés o tira das tendas para ir ao encontro de Deus. O tremor acontece de longe, antes de qualquer aproximação, e alcança "todo o povo", sem exceção.
O Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII) lê o verbo como movimento, e não como medo: o povo ouviu os sons ainda nas camas, percebeu que a Presença o esperava no monte, e se agitou. Nachmânides (Moisés ben Nachman, comentarista catalão do século XIII) lê o oposto, e mais fundo. Ele recolhe uma tradição dos místicos segundo a qual a voz ouvida no Sinai era o "Temor de Isaque" — o nome que Jacó dá ao Deus do pai em Gênesis 31:42 e 31:53. Bahya ben Asher (comentarista de Saragoça, discípulo da escola de Nachmânides, século XIII) explicita a ligação: por isso o texto diz que o povo "estremeceu", com o mesmo verbo de Isaque, que "estremeceu violentamente" quando descobriu que tinha abençoado o filho errado (Gênesis 27:33). O tremor do Sinai seria o mesmo tremor do patriarca diante de um Deus que se mostra sem pedir licença.
As duas leituras não se excluem. A primeira descreve o que o corpo fez; a segunda, o que a tradição ouviu nele. O que o texto diz é só que todos tremeram — e, no versículo 18, será o próprio monte que vai tremer, com o mesmo verbo.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O povo no acampamento
Todos, sem distinção, e ainda dentro das tendas. O versículo os descreve só pelo que fazem — estremecem — e pelo lugar onde estão. É a última vez no capítulo que o povo aparece afastado do monte; no versículo 17, ele sai ao encontro.
Deus, que não é nomeado
Nenhuma palavra do versículo tem Deus por sujeito. Ele aparece no versículo seguinte ("ao encontro de Deus") e no 18 ("o SENHOR tinha descido"). Aqui só há os sinais. O leitor sabe quem chega porque o versículo 11 anunciou; o povo, no acampamento, só ouve.
O monte
Coberto pela nuvem, cercado pelos limites do versículo 12, e lugar de onde vêm os trovões, os relâmpagos e o som. Neste versículo ele é o foco de tudo o que se vê e se ouve, e ainda não fumega nem treme — isso vem no versículo 18.
O trombeteiro ausente
A figura que o versículo não mostra e que a tradição tentou preencher: Deus, para o Pirquê de Rabi Eliezer; anjos, para Gill e Benson; nenhum, para Ibn Ezra. A liturgia do Ano-Novo resolve a ausência à sua maneira: todo ano, um membro da comunidade toca o shofar diante da arca, lembrando o som que, no Sinai, não teve trombeteiro à vista.
Os comentaristas
Bahya ben Asher (morto em 1340), pregador de Saragoça, escreveu um comentário à Torá que combina sentido literal, midrash, filosofia e cabala, e por isso conservou muitas tradições místicas que Nachmânides só mencionava de passagem. O Pirquê de Rabi Eliezer é uma narrativa da história bíblica atribuída a Rabi Eliezer ben Hircano, mestre do século I, mas escrita provavelmente na terra de Israel, sob domínio islâmico. Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch, luteranos alemães, escreveram juntos, entre 1861 e 1875, um comentário a todo o Antigo Testamento. Jamieson, Fausset e Brown publicaram em 1871 um comentário a toda a Bíblia, um escocês, um irlandês e outro escocês.
O tempo
A manhã do terceiro dia, que a tradição rabínica identificou com um sábado, o sexto ou o sétimo do terceiro mês, conforme a contagem.
5. Pontos de Ensino
O encontro começa pelo ouvido. Antes de qualquer imagem nítida, há sons: trovões e um shofar. A visão, quando vem, é de uma nuvem que esconde. O versículo descreve uma presença que se impõe ao ouvido, o sentido que não se pode fechar.
O texto descreve o que se percebe, não a causa. Não há sujeito para o som nem nome para quem chega. A tradição quis saber quem tocava, e as respostas dela vão de Deus a ninguém; o versículo, sozinho, fica com o que o povo ouviu.
Quem chegou primeiro foi Deus. A forma "quando a manhã estava sendo" deu a Rashi a imagem do mestre que espera o aluno. A leitura é da tradição, mas aponta uma coisa que o texto mostra: os sinais começam antes de o povo sair das tendas.
Ninguém ficou de fora do tremor. "Todo o povo" estremeceu, ainda de longe. O versículo não separa os corajosos dos medrosos, nem os preparados dos distraídos. O que se segue — sair ao encontro — é feito por gente que já tremia.
6. Aspectos Filosóficos
Descrever o que aparece sem decidir o que o causa
Diante deste versículo, os leitores fizeram quase sempre a mesma pergunta: o que produziu aquele som? Deus, anjos, um fenômeno da natureza, um prodígio sem instrumento? O versículo não responde. Ele faz outra coisa: diz o que se ouviu, o que se viu e o que aconteceu com quem ouvia. Existe uma tradição filosófica que transformou essa atitude em método.
Gerardus van der Leeuw (1890-1950), historiador das religiões e teólogo holandês, professor em Groningen e, por um ano, ministro da Educação do seu país depois da Segunda Guerra, publicou em 1933 a Fenomenologia da religião. O livro tenta descrever as religiões do mundo sem começar perguntando se são verdadeiras ou falsas, nem de onde vêm. A palavra "fenomenologia" vem do grego e quer dizer, ao pé da letra, o estudo "do que aparece". O que interessa a van der Leeuw é o que aparece a quem vive a religião, e como aparece.
Para isso ele pede ao estudioso uma atitude que chama de epoché (termo grego que significa "suspensão", tomado do filósofo Edmund Husserl): pôr entre parênteses a pergunta pela realidade última do que se descreve. Não para negá-la, mas para não deixar que ela atropele a descrição. Quem decide de antemão que o som do Sinai foi um trovão, ou que foi um anjo, já não escuta o texto — escuta a própria explicação.
O conceito central do livro é o de Poder. Para van der Leeuw, na raiz de toda experiência religiosa está o encontro com algo que se impõe, que é mais forte do que quem o encontra, que não se deixa controlar e que se manifesta em coisas, lugares, pessoas e sons. A resposta humana a esse encontro, antes de qualquer doutrina, é uma reação do corpo: recuo, tremor, respeito misturado com medo. Ele a descreve como a postura de quem guarda distância daquilo que não pode dominar.
O versículo 16 parece escrito por alguém que praticava a epoché sem conhecer o nome. Não diz quem toca; não diz sequer quem chega. Diz que houve sons, que houve uma nuvem e que todos tremeram. Descreve uma manifestação de poder pelo lado de quem a recebe, e para aí. As perguntas sobre a causa — Ibn Ezra, o Pirquê de Rabi Eliezer, Gill, os estudiosos que buscaram tempestades e vulcões — vieram depois, e o texto as deixa em aberto. Keil e Delitzsch, ao dizerem que é "impossível decidir", estavam, sem querer, do lado de van der Leeuw.
A leitura também ajuda a entender por que o som vem primeiro. Os olhos podem se fechar ou se desviar; o ouvido não. Um som forte alcança quem está dentro da tenda, de costas, dormindo. Se o que se manifesta é Poder, no sentido de van der Leeuw, o som é a forma mais adequada para ele aparecer: não pede consentimento para chegar. Essa é uma reflexão sobre o versículo a partir do autor, não uma tese que ele tenha escrito sobre o Sinai.
O método tem limites, e foi discutido. Críticos posteriores acusaram a fenomenologia de van der Leeuw de esconder, sob a aparência de descrição neutra, pressupostos de teólogo cristão; outros, de tirar generalizações amplas demais de exemplos escolhidos à vontade. Aplicado à Bíblia, ele tem um risco específico: o texto não é um relato de experiência bruta, mas uma narrativa composta, que escolhe o que mostrar. A ausência do trombeteiro pode ser fenomenologia; pode ser também técnica literária de quem sabia que o que não se mostra assusta mais. As duas coisas não se excluem, e o versículo não permite decidir entre elas.
7. Aplicações Práticas
O versículo descreve uma teofania única e não oferece muitas aplicações diretas. Uma tem relação real com ele.
É a disposição de ficar com o que se percebe antes de correr para a explicação. Diante de uma experiência forte — um luto, uma notícia, uma beleza que desarma, um medo —, a tendência é perguntar logo "o que causou isso?" e classificar. O versículo faz o contrário: registra o som, a nuvem e o tremor, e deixa a causa sem nome. Há experiências que ficam mais bem guardadas quando são descritas com exatidão do que quando são explicadas depressa.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O tremor foi medo?
O texto usa um verbo que serve para o medo e para o abalo físico, e não especifica. O Chizkuni leu agitação; Nachmânides e Bahya leram o temor diante de Deus. O que o capítulo diz depois sugere que havia medo: no capítulo 20, o povo pede a Moisés que fale ele, "para que não morramos" (Êxodo 20:19). Mas esse pedido vem depois de ouvir a voz, não no momento do versículo 16.
Por que o texto não fala de fogo aqui?
O versículo 16 tem trovões, relâmpagos, nuvem e som; o fogo só aparece no versículo 18, como o meio da descida de Deus. A sequência é progressiva: primeiro o que se ouve de longe, depois o que se vê de perto. Pode ser só a ordem natural de quem descreve uma aproximação; pode ser composição deliberada. O texto não indica.
O povo sabia que aquele era o sinal combinado?
Sabia que era o terceiro dia, porque Moisés tinha avisado. Mas o sinal combinado no versículo 13 era o toque longo do chifre de carneiro, para dar licença de subir. O que soa agora é outro instrumento, e o efeito é o contrário: em vez de subir, o povo treme. Se alguém confundiu os dois sons, o texto não registra.
9. Conexão com Outros Textos
O shofar que faz tremer
Amós 3:6 — "Tocará o shofar na cidade sem que o povo estremeça? Haverá desgraça na cidade sem que o SENHOR a tenha feito?"
O par deste versículo — o som do chifre e o tremor do povo — numa pergunta que não espera resposta. Para Amós, quem ouve o shofar treme; no Sinai, foi exatamente o que aconteceu.
Deus que toca o shofar
Zacarias 9:14 — "O SENHOR aparecerá sobre eles, e a sua flecha sairá como o relâmpago; o Senhor DEUS tocará o shofar e avançará nos redemoinhos do sul."
Relâmpago e shofar juntos, e Deus como quem toca. É o versículo que dá apoio à leitura do Pirquê de Rabi Eliezer e que a liturgia do Ano-Novo pôs na mesma série que este.
Isaías 27:13 — "Naquele dia se tocará um grande shofar, e virão os que estavam perdidos na terra da Assíria e os que estavam dispersos na terra do Egito, e adorarão o SENHOR no monte santo, em Jerusalém."
O "grande shofar" sem trombeteiro nomeado, que reúne os dispersos num monte santo. O Pirquê de Rabi Eliezer faz deste o segundo chifre do carneiro de Isaque.
A glória que espera
Ezequiel 3:22-23 — "A mão do SENHOR veio ali sobre mim, e ele me disse: 'Levante-se, saia para a planície, e lá falarei com você.' Eu me levantei e saí para a planície, e eis que a glória do SENHOR estava ali."
O paralelo de Rashi para "ao amanhecer": quem chega ao lugar marcado encontra Deus já à espera.
O tremor de Isaque
Gênesis 27:33 — "Então Isaque estremeceu violentamente e disse: 'Quem foi, então, que caçou e me trouxe caça? Comi de tudo antes de você chegar, e o abençoei; e abençoado ele será.'"
O versículo que Bahya ben Asher liga a este: o mesmo verbo, e o "Temor de Isaque" como nome do que se ouviu no Sinai.
Os trovões e os relâmpagos na memória dos salmos
Salmo 77:18 — "O ronco do seu trovão estava no redemoinho; os relâmpagos iluminaram o mundo; a terra tremeu e estremeceu."
O salmo que recorda a travessia do mar usa a mesma combinação — trovão, relâmpago, tremor — para dizer que Deus passou. A linguagem do Sinai serve para outras aparições.
O que o povo fez depois
Êxodo 20:18 — "Todo o povo via os trovões e as tochas, o som da trombeta e o monte fumegando; o povo viu, tremeu e ficou de longe."
O mesmo quadro, visto depois das Dez Palavras: o tremor do versículo 16 vira distância.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E aconteceu que, no terceiro dia, ao amanhecer, houve trovões e relâmpagos, e uma nuvem pesada sobre o monte, e um som de trombeta muito forte; e todo o povo que estava no acampamento estremeceu.
Texto hebraico
וַיְהִי בַיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי בִּהְיֹת הַבֹּקֶר וַיְהִי קֹלֹת וּבְרָקִים וְעָנָן כָּבֵד עַל־הָהָר וְקֹל שֹׁפָר חָזָק מְאֹד וַיֶּחֱרַד כׇּל־הָעָם אֲשֶׁר בַּמַּחֲנֶה׃
Transliteração
va-yehi va-yom ha-shelishi bi-hyot ha-boqer, va-yehi qolot u-veraqim ve-anan kaved al-ha-har, ve-qol shofar chazaq me'od; va-yecherad kol-ha-am asher ba-machaneh.
Análise palavra por palavra
וַיְהִי — va-yehi, "e aconteceu". O verbo hayah, "ser, acontecer", com a partícula que encadeia a narrativa. Aparece duas vezes no versículo: a primeira abre a cena ("e aconteceu, no terceiro dia"); a segunda introduz os fenômenos ("e houve trovões"). O mesmo verbo ainda aparece, numa terceira forma, em "ao amanhecer". O versículo é construído sobre "acontecer" e "haver", não sobre ações de alguém.
בַיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי — va-yom ha-shelishi, "no terceiro dia". A preposição be, "em", com o artigo, yom, "dia", e o ordinal shelishi, "terceiro". Cumpre ao pé da letra o la-yom ha-shelishi do versículo 11.
בִּהְיֹת הַבֹּקֶר — bi-hyot ha-boqer, "ao amanhecer". A preposição be com o infinitivo de hayah: literalmente "no ser a manhã", "quando a manhã estava acontecendo". O hebraico tinha formas comuns para "de manhã" (ba-boqer, "pela manhã"), e não as usa aqui. A forma escolhida põe a ação no meio do processo de amanhecer, e é nela que Rashi apoia a ideia de que Deus chegou primeiro.
קֹלֹת — qolot, "trovões". Plural de qol, "voz, som". No plural e sem complemento, designa os trovões, como na praga do granizo. Note a grafia sem as letras que indicam as vogais longas — a forma curta, que os escribas conservaram aqui; no versículo 19 o mesmo substantivo volta no singular, como "voz". O campo da palavra está no estudo de Êxodo 9:23, e o do adjetivo "pesada" e do verbo "estremecer", nos de Êxodo 4:10 e Gênesis 27:33.
וּבְרָקִים — u-veraqim, "e relâmpagos". Plural de baraq, "relâmpago, clarão". A palavra serve também para o brilho de uma arma: a espada "afiada para brilhar como relâmpago" (Ezequiel 21:10) e a lança que reluz (Naum 3:3). É, além disso, um nome próprio: Baraque, o chefe militar que lutou ao lado de Débora (Juízes 4), chamava-se "Relâmpago".
וְעָנָן כָּבֵד — ve-anan kaved, "e uma nuvem pesada". Anan é a palavra comum para nuvem, a mesma da coluna de nuvem (Êxodo 13:21) e da nuvem prometida no versículo 9. Kaved, "pesado", é o adjetivo da raiz de kavod, "glória". No versículo 9, a nuvem tinha sido descrita por outra palavra, av, "espessura"; aqui o texto passa a falar em peso.
עַל־הָהָר — al-ha-har, "sobre o monte". A preposição al, "sobre, em cima de". É ela que permite a leitura de Ibn Ezra de que a nuvem cobria só o monte.
וְקֹל שֹׁפָר — ve-qol shofar, "e um som de trombeta". Qol no singular, ligado a shofar: "som de shofar". Sem artigo: não "o" shofar, mas "um" — nenhum instrumento conhecido do povo, nenhum dono. A origem da palavra shofar é discutida; uma hipótese a liga a um termo acádio para a cabra montesa, de cujo chifre se faziam instrumentos, mas não é demonstrável.
חָזָק מְאֹד — chazaq me'od, "muito forte". Chazaq é "forte, firme", o mesmo adjetivo da "mão forte" com que Deus tirou Israel do Egito (Êxodo 13:9); me'od, "muito". O versículo 19 dirá que o som "ia ficando cada vez mais forte", com o mesmo adjetivo.
וַיֶּחֱרַד — va-yecherad, "e estremeceu". O verbo charad, no Qal (a forma simples e ativa do verbo hebraico), singular, com "todo o povo" por sujeito coletivo. É o verbo que o versículo 18 usará para o monte.
כׇּל־הָעָם אֲשֶׁר בַּמַּחֲנֶה — kol-ha-am asher ba-machaneh, "todo o povo que estava no acampamento". Kol, "todo"; ha-am, "o povo"; asher, "que"; ba-machaneh, "no acampamento". Machaneh vem do verbo chanah, "acampar", o mesmo de Êxodo 19:2 ("ali Israel acampou"). A oração "que estava no acampamento" localiza o tremor: ele aconteceu nas tendas, antes da saída do versículo 17.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, Êxodo 19:16 leva a três conclusões.
A primeira é que a teofania do Sinai é contada do ponto de vista de quem está embaixo. O versículo não tem Deus como sujeito de nenhum verbo, não mostra quem toca o shofar, não explica a nuvem. Registra o que chega ao acampamento — som, clarão, peso — e o efeito sobre as pessoas. Quem quer saber o que acontecia no alto do monte precisa sair do versículo.
A segunda é que a pergunta pela causa, que ocupou tantos leitores, é legítima e não tem resposta no texto. Ibn Ezra, o Pirquê de Rabi Eliezer, os comentaristas protestantes dos anjos e os que buscaram fenômenos naturais propuseram soluções incompatíveis entre si, e todas vão além do que está escrito. O versículo sustenta com mais segurança a posição de Keil e Delitzsch: é impossível decidir.
A terceira é que o efeito, esse sim, é afirmado sem reserva: todos tremeram, antes de dar um passo. O encontro que o capítulo prepara desde o versículo 10 começa assim — não com o povo indo ao monte, mas com o monte chegando ao povo pelo ouvido. E a liturgia judaica, ao pôr este versículo à frente dos que repete a cada Ano-Novo, fez do som do Sinai um som que continua a ser ouvido.













