📖 Navegar na Bíblia:
‹

Êxodo 19:22

›
✍️ Por Alberto Adriano·5 de outubro de 2026·⏱️ 22 min de leitura·👁 12 acessos
Também os sacerdotes, que se aproximam do SENHOR, se santifiquem, para que o SENHOR não irrompa contra eles.”
Diante de um monte envolto em fumaça e fogo, um pequeno grupo de homens israelitas de túnicas claras, mais velhos e de barba, está de pé um passo à frente da multidão, junto a uma linha de pedras no chão; um deles lava as mãos numa bacia de barro enquanto os outros baixam a cabeça.

Estudo


Também os sacerdotes, que se aproximam do SENHOR, se santifiquem, para que o SENHOR não irrompa contra eles.”

1. Introdução

A advertência ao povo ganha um segundo destinatário: "os sacerdotes, que se aproximam do SENHOR". O problema é que, no Êxodo, ainda não há sacerdotes em Israel — Arão só será consagrado nove capítulos adiante. Os rabinos discutiram quem eram esses homens: os primogênitos, os filhos de Arão, os anciãos ou os chefes do povo. A ordem dirigida a eles é dupla: que se santifiquem, justamente eles, que já tinham acesso, e que não contem com a posição. E a ameaça usa um verbo novo, o da brecha aberta num muro: se o povo romper o limite, Deus "irromperá".

2. Contexto Histórico e Cultural

Quem oferecia sacrifícios em Israel antes de existir o sacerdócio de Arão? A pergunta não é de detalhe, porque o Gênesis e o começo do Êxodo estão cheios de altares. Que o serviço era feito pelos chefes de família e pelos primogênitos, e que a Mishná formulou essa regra para a época anterior ao tabernáculo, está no estudo de Êxodo 18:12.

A Bíblia, por outro lado, nunca trata o sacerdócio como invenção de Israel. Antes de Arão, o texto já chamou de "sacerdote" quatro tipos de homem, todos de fora: Melquisedeque, "sacerdote do Deus Altíssimo" em Salém (Gênesis 14:18); Potífera, "sacerdote de Om", sogro de José (Gênesis 41:45); os sacerdotes do Egito, cujas terras o faraó não comprou (Gênesis 47:22); e Jetro, "sacerdote de Midiã" (Êxodo 2:16). David Zvi Hoffmann (rabino e estudioso alemão, 1843-1921, diretor do seminário rabínico de Berlim) tirou daí o argumento mais simples sobre este versículo: se todo povo tinha os seus sacerdotes, não faz sentido supor que Israel, durante a escravidão e a saída do Egito, não tivesse os seus. O versículo, para ele, fala dos sacerdotes que Israel tinha naquele momento — e não é possível saber com certeza quem eram.

Um indício do que eles faziam aparece cinco capítulos depois. Na cerimônia da aliança, Moisés envia "jovens dos filhos de Israel" para oferecer holocaustos e sacrifícios (Êxodo 24:5). O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá na sinagoga, dos primeiros séculos da era cristã) traduz "jovens" por "primogênitos". A tradução é interpretação, mas mostra como a sinagoga antiga entendia o culto antes de Arão: quem se aproximava do altar eram os filhos mais velhos.

A tradição judaica explicou também por que esse papel acabou. Quando os levitas são separados para o serviço do santuário, Deus diz que os toma "em lugar de todo primogênito" (Números 3:12). Rashi (Rabi Shlomo Yitzchaki, França, século XI), comentando essa passagem, dá a razão: o serviço era dos primogênitos, mas eles pecaram no episódio do bezerro de ouro e foram desqualificados; os levitas, que não tinham adorado o ídolo, foram escolhidos no lugar deles. A explicação é rabínica, e se apoia na cena de Êxodo 32:26-29, em que os levitas se reúnem ao lado de Moisés e recebem a ordem de "consagrar-se" ao SENHOR.

Que estar perto do altar podia virar disputa, os próprios sacerdotes do Templo o mostraram séculos depois. A Mishná (a primeira compilação da lei oral judaica, por volta do ano 200), no tratado Yoma 2:1-2, conta que no início quem quisesse limpar as cinzas do altar corria pela rampa, e o primeiro a chegar ganhava o direito. Um dia dois chegaram juntos, um empurrou o outro, e o que caiu quebrou a perna. Quando o tribunal viu que a disputa trazia perigo, instituiu o sorteio. O episódio é tardio e não tem relação direta com o Sinai, mas descreve exatamente o risco que o versículo previne: a proximidade com o sagrado transformada em privilégio que se disputa.

3. Análise Teológica do Versículo

"Também os sacerdotes"

O "também" separa. A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, por volta do século III) tira daí uma regra de leitura: os sacerdotes não estão incluídos no "povo". Quando o texto quer os dois, nomeia os dois. Ela cita o Levítico ("pelos sacerdotes e por todo o povo da assembleia fará expiação", Levítico 16:33) e o Deuteronômio ("este será o direito dos sacerdotes da parte do povo", Deuteronômio 18:3). O versículo anterior advertiu o povo; os sacerdotes precisavam de uma advertência própria, porque se julgavam em outra categoria.

A Mekhilta acrescenta que o "também" inclui os anciãos. Rabbeinu Bahya (Bahya ben Asher, comentarista de Saragoça, século XIII) concorda: os setenta anciãos estão dentro da palavra.

Mas quem eram esses sacerdotes? A Mekhilta e o Talmude Babilônico (Zevachim 115b) registram uma discussão entre dois mestres do século II, e os comentaristas posteriores somaram outras leituras.

Primeira leitura: os primogênitos. É a de Rabi Yehoshua ben Korcha na Mekhilta e no Talmude. Rashi, Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, Espanha, século XII), Rashbam (Rabi Shmuel ben Meir, neto de Rashi, França, século XII), Bekhor Shor (Yosef Bekhor Shor, comentarista francês do século XII) e Shadal (Samuel David Luzzatto, Itália, século XIX) a seguem. Hoffmann observa que quase todos os comentaristas judeus a adotaram. Os primogênitos tinham sido declarados de Deus na noite da saída (Êxodo 13:2), e Ibn Ezra entende que eram eles que haviam oferecido no altar erguido depois da vitória sobre Amaleque (Êxodo 17:15).

Segunda leitura: Nadabe e Abiú. É a de Rabi, o compilador da Mishná. Os dois filhos mais velhos de Arão serão chamados a subir o monte em Êxodo 24:1 e morrerão diante do SENHOR, no dia da inauguração do santuário, por oferecerem "fogo estranho" (Levítico 10:1-2). O Talmude mostra o que a leitura explica: depois da morte deles, Moisés diz a Arão: "É isto o que o SENHOR falou: 'por meio dos que se aproximam de mim serei santificado'" (Levítico 10:3). Onde o SENHOR tinha dito isso? Aqui, responde Rabi. Rabbeinu Bahya mostra o paralelo palavra por palavra: "os que se aproximam" corresponde a "que se aproximam do SENHOR", e "serei santificado" a "se santifiquem". E acrescenta, citando um midrash, que a brecha anunciada neste versículo foi adiada para não estragar a alegria da entrega da Torá — e se cumpriu no oitavo dia da consagração. Nessa leitura, o versículo é uma advertência que esperou anos para ser entendida.

Terceira leitura: os anciãos, que eram primogênitos. Chizkuni (Chizkiyahu ben Manoach, comentarista francês do século XIII) une as duas primeiras: os sacerdotes eram os setenta anciãos, todos primogênitos das suas famílias.

Quarta leitura: os chefes e juízes. Chizkuni registra também a hipótese de que "sacerdotes" designe aqui os nobres e os juízes, os que "se aproximavam de Deus" para aprender as leis que deviam aplicar, porque "o julgamento é de Deus" (Deuteronômio 1:17). Ele argumenta que não se pode entender sacerdotes no sentido próprio, "porque ainda não tinham sido feitos sacerdotes". A palavra tem esse uso em outros lugares da Bíblia (item 10).

Os comentaristas cristãos ingleses chegaram a respostas parecidas por outro caminho. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) fala dos primogênitos ou chefes de família; Ellicott (Charles John Ellicott, bispo anglicano do século XIX) e o Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) respondem à acusação de anacronismo dizendo que o sacerdócio levítico substituiu outro já existente. A leitura que vê aqui a mão de um autor posterior, para quem "sacerdotes" já era uma classe conhecida, é discutida no estudo de Êxodo 19:24.

"que se aproximam do SENHOR"

O verbo está numa forma que descreve o costume, não o momento: são "os que se aproximam", os que habitualmente chegam perto. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) explica: os que oferecem sacrifícios ao Nome glorioso e, com eles, se aproximam de Deus. Matthew Poole (comentarista puritano inglês do século XVII) faz a distinção que o versículo pede: não se aproximam agora, porque agora sacerdotes e povo estão à mesma distância; aproximam-se em geral, por ofício.

A frase põe a identidade deles em choque com a ordem que recebem. Eles são definidos pela proximidade, e o que lhes é dito é que fiquem longe. Ibn Ezra registra outra possibilidade, mais física: "os que se aproximam" seriam os que estavam na primeira fila, logo atrás do limite. Nos dois casos, quem estava mais perto era quem mais precisava ouvir.

"se santifiquem"

O povo já tinha sido santificado por Moisés durante três dias (Êxodo 19:14). Por que os sacerdotes precisam fazê-lo de novo, e por conta própria? Os comentaristas deram quatro explicações.

Para Rashi, "santificar-se" aqui é estar pronto para ficar no próprio lugar: os sacerdotes não deviam confiar na sua importância para subir. Bekhor Shor e Shadal dizem o mesmo com mais cor: que não digam "somos sacerdotes e próximos do Santo". Chizkuni completa: que não pensem "somos os servos dele e gente da casa".

Para Ibn Ezra, os primogênitos já eram santos por lei, e o que se pede é um acréscimo de santidade "no pensamento" — uma atenção interior que o banho e as roupas lavadas não dão.

Para o Haamek Davar (“Aprofundar a palavra”, comentário de Naftali Tzvi Yehuda Berlin, lituano do século XIX), a razão é o risco maior. Quem está mais perto recebe a força da revelação com mais intensidade; se não estiver preparado, a luz que dá vida se torna o que o fere. O povo, mais longe, não corria esse perigo.

O Pulpit Commentary supõe o mais simples: os sacerdotes tinham descuidado da santificação dos três dias, por se acharem dispensados dela.

As quatro explicações concordam num ponto que o texto sustenta: a ordem vai na direção contrária ao privilégio. Quem tinha mais acesso recebe a exigência mais pessoal.

"para que o SENHOR não irrompa contra eles"

O verbo é o da brecha: abrir um rombo num muro, arrebentar uma cerca. Rashi explica: Deus mataria alguns deles e deixaria uma brecha nas suas fileiras. A imagem é de um corpo de gente em formação, que perde homens e fica com um vão.

Bekhor Shor percebeu o espelho entre os dois versículos. No versículo anterior, o povo poderia "derrubar" o limite; neste, Deus poderia "romper" contra os sacerdotes. Os dois verbos são diferentes — a Bíblia de Cambridge (série de comentários da universidade inglesa, aqui o volume de S. R. Driver, 1911) insiste nisso —, mas os dois pertencem à linguagem do muro. Quem abrisse brecha no limite sofreria uma brecha. A transgressão e a consequência são descritas com a mesma imagem.

O texto não diz como seria essa irrupção. As traduções antigas preferiram verbos claros: a Septuaginta (a tradução grega feita no Egito nos séculos III-II a.C.) escreve "para que o Senhor não os afaste"; a Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta do ano 400), "para que não os fira"; Ônquelos, "para que não mate entre eles". O hebraico deixa a imagem sem explicar, e é nela que está o sentido: a santidade de Deus aparece como uma força contida por um limite, que, se o limite cair, se derrama sobre quem estiver mais perto.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os sacerdotes

Homens que "se aproximam do SENHOR" antes de existir o sacerdócio de Arão. A identidade é discutida: primogênitos, Nadabe e Abiú, anciãos ou chefes (item 3). O texto os distingue do povo e lhes dá uma advertência própria.

Os primogênitos

Os filhos mais velhos de cada família de Israel, declarados pertencentes a Deus na saída do Egito: "Consagre a mim todo primogênito" (Êxodo 13:2). Mais tarde serão substituídos pelos levitas no serviço do santuário (Números 3:12).

Nadabe e Abiú

Os dois filhos mais velhos de Arão e de Eliseba (Êxodo 6:23). Subirão com Moisés, Arão e os setenta anciãos e "verão o Deus de Israel" (Êxodo 24:1, 9-10). Morrerão consumidos por fogo diante do SENHOR no dia da inauguração do santuário (Levítico 10:1-2). Uma das leituras rabínicas os identifica com os "sacerdotes" deste versículo.

Arão

Irmão de Moisés, chamado até aqui "Arão, o levita" (Êxodo 4:14), nunca "sacerdote". Não é mencionado neste versículo; aparece no seguinte com permissão para subir.

Os anciãos

Os chefes das famílias e das tribos, que receberam de Moisés as palavras da aliança (Êxodo 19:7). A Mekhilta e Rabbeinu Bahya os incluem no "também" deste versículo.

Rabi Yehoshua ben Korcha e Rabi

Os dois mestres cuja discussão sobre a identidade dos sacerdotes está registrada na Mekhilta e no Talmude. Rabi Yehoshua ben Korcha foi um sábio da segunda metade do século II. "Rabi", sem mais nada, é o título de Rabi Yehudah ha-Nasi, o Príncipe, chefe dos sábios na terra de Israel por volta do ano 200 e compilador da Mishná.

5. Pontos de Ensino

1. A advertência mais pessoal vai para quem está mais perto. O povo recebe a ordem de não avançar; os sacerdotes, a de se santificarem por si mesmos. A proximidade aumenta a exigência, não a diminui.

2. Ofício não dispensa preparo. Todas as leituras do "se santifiquem" convergem: os sacerdotes não podiam contar com o cargo para estar prontos. O que se pedia deles era uma preparação além da que já tinham.

3. O sacerdócio de Israel tem uma história anterior a Arão. O versículo supõe homens que já faziam o serviço do altar. O Êxodo não esconde que o culto existia antes da sua organização definitiva.

4. O texto deixa em aberto quem eram esses sacerdotes. Primogênitos, filhos de Arão, anciãos ou chefes: cada leitura tem apoio, nenhuma é imposta pelo versículo. A identidade deles é interpretação, e assim deve ser apresentada.

5. A santidade aparece como força que precisa de limite. A imagem da brecha mostra que o perigo não está em Deus querer ferir, mas no que acontece quando o limite cai. A distância é uma proteção.

6. Aspectos Filosóficos

Um versículo que fala de "sacerdotes" antes de qualquer ordenação levanta uma pergunta filosófica que dividiu a Europa no século XVI: o sacerdócio pertence à natureza da religião — toda religião precisa de alguém que ofereça em nome dos outros — ou é uma instituição criada por um ato positivo, uma escolha, uma lei?

Roberto Belarmino (1542-1621), jesuíta italiano, professor no Colégio Romano, cardeal a partir de 1599, foi quem deu a forma mais sistemática à resposta católica. Belarmino já apareceu neste site, no estudo de Mateus 16:18, como o adversário que Hobbes escolheu na questão do poder do papa; aqui interessa outra parte da sua obra. Nas Disputas sobre as controvérsias da fé cristã (1586-1593), a grande obra de polêmica contra os reformadores protestantes, ele dedicou uma seção inteira ao sacrifício e ao sacerdócio.

O argumento de Belarmino se apoia numa distinção que vem de Tomás de Aquino (Suma Teológica, segunda parte da segunda parte, questão 85). Oferecer sacrifício a Deus é exigência da lei natural: em todos os tempos e entre todos os povos, os seres humanos reconheceram a soberania divina oferecendo-lhe alguma coisa. Mas a forma do sacrifício — o quê, como, por quem — é determinada por lei positiva, divina ou humana. Daí decorre que o sacerdócio, em algum grau, é tão antigo quanto a religião: onde há sacrifício, há alguém separado para oferecê-lo. Antes da Lei de Moisés, esse papel cabia aos patriarcas, aos chefes de família e aos primogênitos; Melquisedeque era o exemplo maior. Com a Lei, o sacerdócio passou a uma família determinada. Na escala dessa teologia, a história tem três estados: o da lei natural, o da lei escrita e o da graça.

Os reformadores responderam de outro ponto. Lutero, no manifesto À nobreza cristã da nação alemã (1520), sustentou que todos os batizados são igualmente sacerdotes, e que o padre ou pastor exerce apenas uma função que a comunidade lhe confia. Para ele, o sacerdócio separado não era exigência da natureza, e sim uma construção histórica que a Igreja tinha transformado em casta. A pergunta de fundo era a mesma: a mediação está inscrita na própria religião, ou é uma organização que pode ser desfeita?

O versículo do Êxodo cai exatamente no ponto de passagem que Belarmino descreve. Há "sacerdotes" — homens que se aproximam de Deus por costume, sem nenhum ato de instituição contado no texto. E há a ordem de que se santifiquem, isto é, de que não confiem na posição que têm. A posição existe, mas não protege. É como se o texto reconhecesse o sacerdócio natural e, no mesmo gesto, retirasse dele a segurança. Alguns capítulos depois virá a instituição positiva, com Arão, as vestes e a unção (Êxodo 28-29); e, se a leitura rabínica de Rashi estiver certa, os primogênitos perderão o lugar.

A distinção de Belarmino ajuda a ver também o que o versículo não diz. Ele não diz que os sacerdotes sejam necessários para que o povo se aproxime; ao contrário, sacerdotes e povo recebem a mesma proibição no versículo 24. Nesse momento, a mediação não é feita por uma classe, e sim por um homem só, Moisés. O Sinai, portanto, não se encaixa inteiro em nenhuma das duas posições: há sacerdotes, mas quem leva a palavra não é sacerdote.

O limite precisa ficar claro. O argumento de Belarmino foi construído para defender a missa católica numa polêmica do século XVI, e não para explicar o Êxodo. O versículo não fala de lei natural, nem de sacrifício, nem de instituição. O que ele permite é dar nome a uma tensão que mostra sem resolver: a existência de pessoas mais próximas do sagrado e a recusa de que essa proximidade sirva de garantia.

7. Aplicações Práticas

Quem tem mais acesso deve ser o primeiro a se preparar. Num grupo, numa empresa, numa comunidade religiosa, quem ocupa posição de confiança costuma se dispensar das regras que impõe aos outros. O versículo inverte: a ordem pessoal vai justamente para quem está mais perto.

Não transformar proximidade em disputa. A história dos sacerdotes do Templo que corriam pela rampa até um deles quebrar a perna mostra o que acontece quando estar perto do que é importante vira prêmio. O remédio daquela época foi simples — um sorteio — e serve como lembrete: quando a proximidade gera competição, a regra precisa ser impessoal.

Não confiar no título. A frase "somos sacerdotes e próximos dele", que os comentaristas puseram na boca desses homens, é a de quem acha que o cargo já faz o trabalho. Médico, juiz, pastor ou professor sabem o perigo dessa frase: ela é o começo da negligência.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se os primogênitos eram os sacerdotes, por que não são chamados assim?

O texto prefere "sacerdotes", a palavra do ofício, e não "primogênitos", a palavra do parentesco. Talvez porque a advertência se dirige à função — os que se aproximam — e não ao nascimento. Talvez porque nem todo primogênito servia. O versículo não explica, e as leituras do item 3 mostram que a dúvida é antiga.

Os sacerdotes chegaram a romper o limite?

Nada no Êxodo indica isso. A leitura rabínica que identifica os sacerdotes com Nadabe e Abiú vê o cumprimento da ameaça muito depois, em Levítico 10; mas é uma ligação feita pelos mestres, não pelo texto.

Por que a ameaça diz "o SENHOR" e não "eu"?

A frase toda está na boca de Deus, e ainda assim ele fala de si na terceira pessoa: "para que o SENHOR não irrompa". O efeito é de afastamento, como numa fórmula legal, e o versículo não comenta. A alternância entre "eu" e "o SENHOR" na boca de Deus volta no Decálogo, onde os rabinos a usaram num argumento que está no estudo de Êxodo 19:25.

Arão estava entre esses sacerdotes?

Não há como saber. O versículo seguinte o separa de todos — "suba você, e Arão com você; mas os sacerdotes e o povo não" —, o que sugere que, fosse quem fosse, o grupo dos sacerdotes não o incluía.

9. Conexão com Outros Textos

A frase que este versículo explicaria

Levítico 10:3 — "Então Moisés disse a Arão: 'É isto o que o SENHOR falou: Por meio dos que se aproximam de mim serei santificado, e diante de todo o povo serei glorificado.' E Arão ficou em silêncio."

Dita depois da morte de Nadabe e Abiú. Rabi, no Talmude, entende que a fala citada por Moisés é a deste versículo do Êxodo. As palavras-chave coincidem: "os que se aproximam" e "santificar".

A brecha aberta por Deus, na história

1 Crônicas 13:11 — "Davi se entristeceu porque o SENHOR tinha aberto brecha em Uzá, e chamou aquele lugar Perez-Uzá, até o dia de hoje."

1 Crônicas 15:13 — "Porque, da primeira vez, vocês não estavam lá, o SENHOR, nosso Deus, abriu brecha contra nós, pois não o buscamos segundo o que estava ordenado."

O Cronista faz a ligação que interessa a este versículo. Davi explica a morte de Uzá pela ausência dos levitas no transporte da arca: a brecha veio porque os que deviam se aproximar não estavam no seu lugar e os que estavam não deviam estar. É a mesma lógica do Sinai, aplicada séculos depois.

Salmos 106:29 — "Eles o provocaram com os seus atos, e uma praga irrompeu entre eles."

O salmo usa o mesmo verbo para a praga do episódio de Baal-Peor (Números 25). Ali não é Deus o sujeito, e sim a praga que "irrompe" — mostrando que o verbo descreve o efeito, mais do que o modo.

Os primogênitos e os levitas

Êxodo 13:2 — "Consagre a mim todo primogênito; tudo o que abre a madre entre os filhos de Israel, tanto de homem como de animal, é meu."

Números 3:12 — "Eu tomei os levitas do meio dos filhos de Israel, em lugar de todo primogênito que abre a madre entre os filhos de Israel; os levitas serão meus."

O começo e o fim do papel que a leitura majoritária atribui aos "sacerdotes" deste versículo.

Os sacerdotes antes de Arão, em ação

Êxodo 24:5 — "E enviou jovens dos filhos de Israel, que ofereceram holocaustos e sacrificaram novilhos como sacrifícios de comunhão ao SENHOR."

Os únicos oficiantes israelitas do Sinai antes da consagração de Arão. Ônquelos os chama de primogênitos.

Quem se aproxima, na lei do santuário

Números 18:7 — "Mas você e os seus filhos com você cuidarão do seu sacerdócio em tudo o que diz respeito ao altar e ao que está dentro do véu; o estranho que se aproximar será morto."

A regra definitiva, depois que o sacerdócio de Arão foi instituído. O que no Sinai era uma advertência de ocasião torna-se lei permanente, com o mesmo verbo de aproximação.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Também os sacerdotes, que se aproximam do SENHOR, se santifiquem, para que o SENHOR não irrompa contra eles.”

Texto hebraico

וְגַ֧ם הַכֹּהֲנִ֛ים הַנִּגָּשִׁ֥ים אֶל־יְהוָ֖ה יִתְקַדָּ֑שׁוּ פֶּן־יִפְרֹ֥ץ בָּהֶ֖ם יְהוָֽה׃

Transliteração

ve-gam ha-kohanim ha-niggashim el-YHWH yitqaddashu pen-yifrots bahem YHWH.

Análise palavra por palavra

וְגַם — ve-gam, "e também".

Advérbio de acréscimo. Liga este versículo à advertência do anterior e, ao mesmo tempo, marca que se trata de outro grupo. Foi desse "também" que a Mekhilta tirou a inclusão dos anciãos.

הַכֹּהֲנִים — ha-kohanim, "os sacerdotes".

Plural de kohen, "sacerdote", com artigo: "os sacerdotes", como grupo conhecido. A etimologia da palavra é discutida; não há consenso sobre a raiz. A palavra cognata em árabe, kāhin, designava no tempo anterior ao Islã o adivinho, o que pronunciava oráculos — um papel diferente do de quem serve no altar, o que mostra que o termo comum aos dois povos se especializou em direções distintas.

Na Bíblia hebraica, kohen nem sempre é ministro do culto. Em 2 Samuel 8:18 o texto diz que "os filhos de Davi eram sacerdotes", e o paralelo em 1 Crônicas 18:17 troca a palavra por "os primeiros ao lado do rei"; em 1 Reis 4:5, Zabude é "sacerdote, amigo do rei". Esses usos sustentam a leitura de Chizkuni, para quem os kohanim deste versículo seriam chefes e juízes, e não oficiantes.

הַנִּגָּשִׁים — ha-niggashim, "que se aproximam".

Particípio do Nifal (forma do verbo hebraico que costuma ter sentido passivo ou reflexivo) de nagash, "aproximar-se". O particípio com artigo funciona como descrição permanente: "os que se aproximam", por ofício. O mesmo verbo é o da aproximação ritual ao altar (Êxodo 28:43, 30:20) e o do "estranho que se aproximar" em Números 18:7. A Septuaginta traduz por engízontes, "os que se aproximam", e acrescenta ao nome divino "o Senhor Deus".

אֶל־יְהוָה — el-YHWH, "do SENHOR", literalmente "ao SENHOR".

A preposição de direção. Ônquelos, como de hábito, evita a imagem física: "que se aproximam para servir diante do SENHOR".

יִתְקַדָּשׁוּ — yitqaddashu, "se santifiquem".

Da raiz q-d-sh, "separar como santo", no Hitpael, a forma reflexiva: santificar-se a si mesmo. No versículo 10 e no 14 era Moisés quem santificava o povo, com o verbo na forma causativa; aqui os sacerdotes devem fazê-lo por si. O verbo está no imperfeito com valor de ordem.

פֶּן — pen, "para que não".

A conjunção de receio, a mesma do versículo anterior. Em dois versículos seguidos, Deus explica as ordens pelo que quer evitar.

יִפְרֹץ — yifrots, "irrompa".

Da raiz parats, "romper, abrir brecha", no imperfeito. O campo da raiz — o nascimento de Perez, a prosperidade que "arrebenta", a brecha em Uzá — está no estudo de Gênesis 38:29. O que é próprio deste versículo é a construção com a preposição be- e Deus por sujeito, "romper contra": ela só volta em Êxodo 19:24 e nos relatos de Uzá (2 Samuel 6:8; 1 Crônicas 13:11; 15:13). Em todos, o contexto é a aproximação indevida do sagrado. No Salmo 106:29 a construção é a mesma, mas quem irrompe é a praga.

בָּהֶם — bahem, "contra eles".

A preposição be- com o pronome da terceira pessoa do plural. Pode significar "em", "entre" ou "contra". Rashi a lê como "entre eles", abrindo um vão nas fileiras; as traduções antigas, como "contra eles".

יְהוָה — YHWH, "o SENHOR".

O nome divino aparece duas vezes no versículo, no começo e no fim. A segunda vez é a que surpreende: Deus fala de si mesmo pelo nome, na terceira pessoa, como sujeito da ameaça.

11. Conclusão

Com base no que foi visto, conclui-se primeiro que o Êxodo reconhece um culto israelita anterior à sua organização. Há homens que "se aproximam do SENHOR" antes de Arão ser consagrado, e o texto os chama de sacerdotes sem explicar quem são. A tradição preencheu a lacuna de quatro maneiras, e nenhuma delas é imposta pelo versículo.

Conclui-se também que, no Sinai, a proximidade não é garantia. A ordem mais pessoal do capítulo — santificar-se por conta própria — é dada justamente a quem já tinha acesso. O texto não nega o lugar desses homens; nega que o lugar os proteja.

E conclui-se, por fim, que a imagem que sustenta o versículo é a do limite como muro. Se o povo derrubar o limite, Deus abrirá uma brecha. A santidade não aparece como hostil, e sim como uma força que precisa de contenção — e quem estiver mais perto, quando a contenção cair, será o primeiro atingido.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Êxodo 19:22

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%