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Êxodo 20:7

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 10 acessos
Não tomarás em vão o nome do SENHOR, o teu Deus, porque o SENHOR não deixará impune quem tomar o seu nome em vão.
Ao pé do monte Sinai envolto em nuvem escura, um israelita de túnica simples ergue a mão direita diante de dois anciãos sentados à porta do acampamento, prestes a jurar; ao lado, outro homem aguarda de braços cruzados, e os anciãos o observam em silêncio, sérios, sob o céu carregado.

Estudo


Não tomarás em vão o nome do SENHOR, o teu Deus, porque o SENHOR não deixará impune quem tomar o seu nome em vão.

1. Introdução

É o mandamento sobre o nome de Deus — o terceiro na contagem judaica e na reformada, o segundo na católica e na luterana — e o primeiro do Decálogo a trazer a própria ameaça: "o SENHOR não deixará impune". O verbo hebraico não quer dizer "pronunciar", e sim "levantar" ou "carregar", e a palavra traduzida por "em vão" cobre tanto o vazio quanto a mentira. Daí as leituras que disputam o versículo há dois mil anos: jurar falso, jurar à toa, dizer o Nome sem necessidade ou carregá-lo sem honrá-lo. Os rabinos tiraram da frase uma lei de tribunal, com açoite e advertência solene antes do juramento. E a ameaça final, que nega o perdão em termos que o próprio Êxodo usa ao revés, fez da falta uma das mais graves da lista.

2. Contexto Histórico e Cultural

O juramento como prova

Num mundo sem cartório, sem recibo e quase sem escrita, muitas disputas não tinham testemunha. Quem guardou o animal do vizinho e o animal morreu sem ninguém ver não tinha como provar que não o vendeu. A saída era o juramento, e o próprio Código da Aliança prevê o caso: "o juramento do SENHOR haverá entre os dois" (Êxodo 22:10-11). O nome de Deus era a última instância de prova. Por isso o juramento falso não era só um pecado de língua: derrubava o único instrumento de justiça disponível naquele caso. O juramento como instituição regulada está no estudo de Gênesis 24:3.

Quatro juramentos vazios

A Mishná (a primeira compilação escrita da lei oral judaica, por volta do ano 200), no tratado Shevuot ("Juramentos"), capítulo 3, define o "juramento em vão" com exemplos da vida. Jurar o contrário do que todos estão vendo — que uma coluna de pedra é de ouro, que um homem é mulher. Jurar o impossível — "se eu não vi um camelo voando". Jurar que não se vai cumprir um mandamento — não testemunhar, não fazer a tenda da festa. E, na Mishná seguinte, jurar que vai comer um pão e depois jurar que não vai: o segundo juramento já nasce em vão, e qualquer coisa que a pessoa fizer viola um dos dois.

Nenhum desses juramentos engana alguém. Ninguém acredita que a coluna é de ouro. O juramento em vão, nessa definição, é o nome de Deus gasto numa frase que não tinha o que garantir.

O único pecado de palavra punido com açoite

O direito rabínico não açoitava por proibição que não envolvesse ato. O Talmude da Babilônia (Shevuot 21a) registra as exceções, em nome de Rabi Yosei, o galileu: quem jura, quem troca um animal consagrado por outro e quem amaldiçoa o próximo usando o Nome. E a base é este versículo, lido por Rabi Yochanan em nome de Rabi Shimon bar Yochai: o texto diz "o SENHOR não deixará impune", e não "ele não ficará impune". Quem não absolve é o tribunal do céu; o tribunal da terra açoita, e com o açoite absolve. A frase que parecia fechar a porta abre uma: a pena humana é o caminho para escapar da divina.

A advertência antes do juramento

O mesmo tratado (Shevuot 38b-39a) conserva o discurso que os juízes faziam a quem ia jurar num processo: "Saiba que o mundo inteiro tremeu quando o Santo, bendito seja, disse no Sinai: 'Não tomarás em vão o nome do SENHOR'". Seguiam as advertências. Nas outras faltas, a pena recai sobre quem pecou; nesta, também sobre a família e sobre a terra — "por causa do juramento a terra está de luto" (Jeremias 23:10). Nas outras, Deus espera gerações; nesta, cobra na hora, e a maldição entra "na casa de quem jura falsamente pelo meu nome" e a consome "com a madeira e as pedras" (Zacarias 5:4).

Se o réu recuava, pagava e ia embora. Se insistia, o juiz fazia uma última declaração: "Não o fazemos jurar segundo a sua intenção, mas segundo a intenção de Deus e a do tribunal". O sentido oculto que a pessoa desse às palavras não contava. Séculos antes de a Europa discutir a "restrição mental" (o juramento verdadeiro só na cabeça de quem jura), o tribunal rabínico já a tinha fechado.

O juramento que anda sozinho

Na Mesopotâmia, o juramento tinha vida própria. A terceira tabuinha do Šurpu ("Queima", série de conjuros acádios contra o mal) enumera dezenas de casos de māmītu — palavra que quer dizer ao mesmo tempo o juramento e a maldição que ele solta — capazes de "agarrar" uma pessoa, como uma força solta que o sacerdote precisava desfazer com rito. O versículo pensa de outro modo. Não há força solta nem contágio: a consequência tem um sujeito com nome, "o SENHOR". O dano não é mágico, é pessoal — uma ofensa cobrada por quem foi ofendido.

3. Análise Teológica do Versículo

"Não tomarás"

O português diz "tomar", e o leitor pensa em pôr na boca. O hebraico diz outra coisa: o verbo é tissa ("levantarás", "carregarás"), o de levantar os olhos, levantar a voz, carregar um fardo. O que se proíbe é levantar o nome de Deus — e a pergunta é para onde.

Primeira leitura: levantar com a voz, isto é, dizer. É a de Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII): falar é "levantar" porque quem fala ergue a voz, como em Salmo 16:4, "nem levantarei os nomes deles nos meus lábios".

Segunda leitura: erguer, sem que o verbo signifique "dizer". Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) afirmam que esse verbo nunca quer dizer "pronunciar" na Bíblia, e apontam Salmo 24:4, que fala de quem "não ergueu a sua alma à falsidade": um gesto de entrega, não uma frase. O nome levantado em vão seria o nome posto a serviço de algo vazio.

Terceira leitura: carregar como se carrega uma insígnia. Carmen Joy Imes, estudiosa norte-americana do Antigo Testamento, defendeu em 2018, em Bearing YHWH's Name at Sinai ("Carregando o nome de YHWH no Sinai"), que o mandamento fala primeiro de identidade. O sumo sacerdote "carrega" os nomes das tribos gravados em pedras, com o mesmo verbo (Êxodo 28:12, 28:29); os sacerdotes "porão o meu nome sobre os filhos de Israel" (Números 6:27). Um povo que leva o nome de Deus o leva em vão quando vive como se não o levasse. É uma leitura minoritária, e os críticos lembram que "levantar o nome" em Salmo 16:4 é claramente coisa de lábios.

O texto não escolhe, e é provável que quem ouvia a frase no Sinai não separasse as três coisas como nós separamos.

"o nome do SENHOR, o teu Deus"

Não é qualquer nome divino. É o nome próprio que o Êxodo acabou de revelar: "Este é o meu nome para sempre" (Êxodo 3:15), o nome pelo qual Deus diz não ter se dado a conhecer aos patriarcas (Êxodo 6:3). A primeira lei sobre ele chega quando ele ainda é novidade. E chega logo depois da proibição dos outros deuses e das imagens; Nachmânides explica a ordem: primeiro se proíbe dar a outro a glória de Deus, depois se manda honrar o próprio nome dele.

"em vão"

A palavra hebraica cobre duas coisas que o português separa: o vazio e a falsidade. Toda a história do versículo depende de qual das duas se escolhe. O que, exatamente, o mandamento proíbe?

Primeira leitura: jurar falso. As traduções aramaicas lidas nas sinagogas antigas entendem assim: o Targum de Ônquelos diz "não jurarás pelo nome do SENHOR"; o Pseudo-Jônatas (paráfrase aramaica mais livre e mais tardia), "nenhum de vocês jure". A tradução judaica norte-americana de 1985 diz "Não jurarás falsamente pelo nome do SENHOR". Charles Ellicott (bispo anglicano do século XIX) e o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do mesmo século) acham que o perjúrio, falta enorme, merecia lugar no Decálogo, e o juramento à toa não.

Segunda leitura: jurar à toa, sem mentira. É a de Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI): "em vão" é "por nada", e o exemplo é a coluna de pedra jurada de ouro.

O Talmude junta as duas. O versículo diz "em vão" duas vezes, e Rabi Yochanan conclui que a primeira proíbe o juramento vazio e a segunda o falso (Shevuot 21a). Ônquelos faz o mesmo na tradução, sem comentar: o primeiro "em vão" vira "à toa", o segundo vira "falsamente". O que parecia repetição vira duas leis numa frase.

Terceira leitura: dizer o Nome sem necessidade, mesmo sem jurar. Nachmânides a defende como o sentido simples. O Talmude conhece a consequência: quem pronuncia uma bênção desnecessária transgride este mandamento (Berakhot 33a; a frase é atribuída a Rav, ou a Resh Lakish, ou aos dois com Rabi Yochanan). E a cautela chegou à ordem das palavras: quem consagra um animal deve dizer "oferta ao SENHOR", e não "ao SENHOR, oferta" — se mudar de ideia depois de dizer o Nome, o Nome terá sido dito por nada.

Quarta leitura: levar o nome sem honrá-lo, para quem entende o verbo como "carregar". O pecado não é uma frase; é uma vida que desmente o nome que exibe.

A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III) acrescenta um passo antes de todas. Levítico 19:12 já proibia jurar falso; o que o Êxodo acrescenta? A resposta está no verbo: "não levantarás" proíbe também assumir o juramento. "Enquanto você não se compromete a jurar, eu sou o seu Deus; quando você assume o juramento, eu sou o seu juiz." Entrar no juramento já muda a relação.

O limite: o versículo não contém a palavra "jurar". Quem o lê só como lei de juramento depende da tradição e dos paralelos; quem o lê como qualquer uso vazio do Nome depende da palavra "em vão". Nenhuma leitura pode ser descartada pelo texto sozinho.

"porque o SENHOR não deixará impune"

Dos dez mandamentos, só quatro trazem motivo: o das imagens traz ameaça e promessa (Êxodo 20:5-6), o do sábado uma razão (Êxodo 20:11), o dos pais uma promessa (Êxodo 20:12). Este traz só a ameaça.

E a ameaça usa o verbo de "limpar", "declarar inocente". Nachmânides pergunta por que não se usou a fórmula das imagens, "visito a culpa", e responde: porque quem jura em vão não se acha culpado; acha que Deus vai perdoar. O versículo responde a essa expectativa: não vai.

Mais adiante, Deus se apresenta como aquele que "de modo nenhum deixa impune" (Êxodo 34:7), numa frase que diz literalmente "limpar, não limpará". A Mekhilta resolve a contradição aparente — limpa quem se arrepende, não limpa quem não se arrepende — e acrescenta que aqui nem o arrependimento basta. É nesse ponto que ela coloca a lição de Rabi Ishmael sobre os quatro graus do perdão: o arrependimento apaga a falta contra um mandamento positivo; a proibição violada precisa também do Dia da Expiação; as faltas graves precisam ainda do sofrimento; a profanação do Nome só se apaga com a morte. Rabi Judá, o Príncipe, traça a linha exatamente aqui: do "não tomarás" para cima, o arrependimento sozinho só suspende a pena.

Abraão ibn Ezra (comentarista judeu espanhol do século XII) chega à mesma gravidade por um caminho prático. O assassino e o adúltero não pecam quando querem, porque têm medo de ser apanhados. Quem tem o hábito de jurar jura dezenas de vezes por dia e já nem percebe — e, repreendido, jura que não jurou. A falta mais leve na aparência é a mais frequente na prática.

"quem tomar o seu nome em vão"

A segunda metade repete a primeira, mas muda duas coisas. O "tu" vira "quem": a ordem a cada israelita se torna princípio que vale para qualquer um. E Deus, que nos versículos anteriores falava em primeira pessoa — "diante de mim", "os que me odeiam" —, passa a falar de si na terceira: "o SENHOR não deixará impune", "o seu nome". A partir daqui, o Decálogo não volta à primeira pessoa. A mudança está na base da discussão rabínica sobre quais mandamentos o povo ouviu da boca de Deus, apresentada no estudo de Êxodo 19:25.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Quem fala e a quem. Deus fala no Sinai ao povo reunido ao pé do monte e se dirige a cada israelita no singular: "não tomarás".

O nome. O nome próprio de Deus, as quatro letras que a ABC traduz por "SENHOR", revelado a Moisés na sarça (Êxodo 3:15). É ele, e não o título genérico "Deus", o objeto do mandamento.

O lugar na lista. Terceiro mandamento na contagem judaica e na reformada; segundo na católica e na luterana. O texto é o mesmo nas três tradições e reaparece idêntico em Deuteronômio 5:11.

Os intérpretes. Rabi Ishmael (começo do século II), a quem se atribui a Mekhilta; Rabi Judá, o Príncipe (fim do século II), que compilou a Mishná; Rabi Shimon bar Yochai e Rabi Yochanan, as vozes do Talmude sobre o açoite e a absolvição; Ônquelos, a quem a tradição atribui a tradução aramaica mais lida da Torá; e os medievais Rashi, Ibn Ezra e Nachmânides.

5. Pontos de Ensino

O nome é proibido de ser usado à toa, não de ser usado. O mesmo Pentateuco que proíbe o juramento vazio manda jurar pelo nome do SENHOR (Deuteronômio 6:13). O mandamento não cria um tabu sobre a palavra; protege o seu valor. O que se condena é o uso que não tem nada a garantir ou que garante uma mentira.

Quem jura pelo nome empenha o nome. Ibn Ezra resume o mecanismo do juramento numa frase: quem o faz está dizendo "assim como Deus é verdadeiro, é verdadeiro o que eu digo". Se a palavra falha, o que fica desmentido não é só o falante. Por isso o juramento falso foi lido como ofensa a Deus, e não apenas ao próximo enganado.

Uma frase pode ser um ato. O direito rabínico não punia palavras com açoite — salvo esta. O juramento é a fala que faz alguma coisa: compromete, prova, encerra uma disputa. É por isso que ele aparece entre os mandamentos que regulam o culto, e não apenas entre os que regulam a convivência.

A lei alcança o que o tribunal não alcança. O perjúrio quase nunca se prova, e o juramento à toa nem chega ao tribunal. O versículo põe a sanção onde a justiça humana não chega: "o SENHOR não deixará impune". É uma das poucas leis do Decálogo que reconhece, no próprio texto, o limite de quem vai aplicá-la.

Só se pode abusar do que foi confiado. O mandamento vem depois da revelação do nome, não antes. Um povo que não conhecia o nome não teria como gastá-lo; o que recebe o nome recebe junto a responsabilidade por ele. A ordem dos acontecimentos no Êxodo — primeiro a sarça, depois o Sinai — faz da proibição uma consequência da proximidade, e não uma medida de distância.

6. Aspectos Filosóficos

O que dá força a uma palavra? Quem diz "eu vi" ou "eu pago" pode estar mentindo, e o ouvinte sabe disso. O juramento resolve o problema pondo atrás da frase um fiador maior do que quem a diz. O versículo protege esse fiador. A pergunta filosófica que ele levanta é de onde vem a obrigação de dizer a verdade — e o que acontece com ela quando o fiador deixa de ser invocado.

Ernst Tugendhat e o "dever" sem fiador

Ernst Tugendhat (1930-2023) nasceu em Brno, na atual República Tcheca, numa família judia que fugiu do nazismo — a casa dos pais, desenhada por Mies van der Rohe, é a célebre Vila Tugendhat. Ensinou na Alemanha e passou longos anos no Chile. Foi um dos que levaram a filosofia analítica da linguagem para dentro da tradição alemã e dedicou a parte final da obra à ética, sobretudo nas Lições sobre ética (Vorlesungen über Ethik, 1993), traduzidas no Brasil.

O ponto de partida das Lições é a situação de quem já não aceita a autoridade religiosa como base da moral. Tugendhat examina a palavra "deve" e conclui que ela só faz sentido em relação a uma sanção: dizer que alguém "tem de" fazer algo é dizer que, se não fizer, algo acontece. Um dever absoluto, sem sanção nenhuma, é para ele uma expressão sem conteúdo. A moral se sustenta em sanções de outro tipo — a indignação dos outros, a vergonha ou a culpa de quem falhou — e o seu fundamento possível, sem Deus, é o respeito recíproco entre iguais.

O que essa análise ilumina no versículo

Primeiro, a forma. Este é o mandamento que explicita a sanção com mais secura. Na linguagem de Tugendhat, o versículo diz em voz alta o que todo "deve" pressupõe — e diz quem aplica a sanção.

Segundo, o juramento. Para Tugendhat, quem afirma algo levanta uma pretensão de verdade e se expõe a ter de justificá-la. O juramento é a afirmação feita justamente onde não há justificação possível. Quem jura empresta para a própria frase uma sanção que não depende de prova: a de Deus. O juramento em vão é, nessa luz, a fraude da garantia — o fiador mais alto usado para cobrir uma frase que não tinha nada a garantir, ou que garantia o falso.

Terceiro, a divergência. Se a verdade pode ser sustentada pela indignação mútua e pelo respeito, o juramento perde a função — e é o que se vê nos Estados modernos que trocaram o juramento religioso pelo "compromisso" de dizer a verdade, com pena civil para quem mente. Mas o versículo não trata só da eficácia social da palavra: trata de uma ofensa ao nome usado. As duas posições se separam aqui, e nenhuma refuta a outra. Uma pergunta como a verdade se sustenta entre iguais; a outra, o que é devido a quem é chamado como testemunha.

Tugendhat não comenta o Êxodo, e o seu projeto é deliberadamente uma ética sem Deus; a aproximação é leitura nossa.

7. Aplicações Práticas

O lugar onde o versículo toca a vida comum é a frase de reforço. "Juro por Deus", "Deus é testemunha", "pela minha mãe": quem fala assim quer que acreditem nele e põe alguma coisa sagrada como garantia. A tradição judaica leu nesses usos o alvo mais frequente do mandamento. A aplicação que tem relação real com o texto é simples: guardar a invocação do nome para quando ela garante alguma coisa — e, quando ela for feita, cumprir.

O segundo ponto é o dos compromissos solenes que ainda hoje se fazem diante de Deus: votos de casamento, promessas em cerimônias religiosas, juramentos de posse onde a fórmula os inclui. São juramentos no sentido próprio do versículo. Quem os faz sem a intenção de cumprir, ou os esquece, entra exatamente no caso que os juízes do Talmude advertiam antes de alguém jurar.

O terceiro vale para quem lê o verbo como "carregar". Pôr o nome de Deus na fachada, no adesivo do carro, na marca de uma empresa ou na campanha de um candidato é carregá-lo diante dos outros. A leitura não proíbe isso; mostra o risco. O nome exibido passa a responder pelo comportamento de quem o exibe.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Dizer "meu Deus!" numa exclamação viola o mandamento?

Pela leitura rabínica do juramento, não: não há juramento numa exclamação. Pela leitura de Nachmânides, que estende o mandamento a todo uso desnecessário do Nome, a questão se coloca — mas o objeto dele é o nome próprio, as quatro letras, e não o título genérico. O "Deus" do português é título. É provável que a exclamação comum esteja fora do alcance original do versículo; muitas tradições cristãs a incluem por extensão, como sinal de pouco caso.

Se o juramento é tão perigoso, por que a Lei não o proíbe de vez?

Porque precisava dele. O juramento era a prova onde não havia outra, e o Deuteronômio manda jurar pelo nome do SENHOR (Deuteronômio 6:13; 10:20). A Lei regula a instituição e cerca o abuso; não a abole.

A tradição judaica deixou de pronunciar o Nome por causa deste versículo?

Não diretamente. O versículo não proíbe pronunciar o nome; proíbe levantá-lo em vão. O costume de substituí-lo na leitura por "Senhor" se formou depois, nos séculos que antecedem a era cristã, e a Septuaginta (a tradução grega feita a partir do século III antes de Cristo) já escreve "Senhor" no lugar dele. A tradição ligou o costume ao mandamento como uma cerca: quem não diz o nome nunca o diz em vão. A cerca é posterior ao texto.

Usar o nome de Deus para justificar uma decisão já tomada entra no mandamento?

Entra, para quem lê "em vão" como "a serviço de algo vazio ou falso". O caso clássico é anterior ao Sinai: Jacó, diante do pai cego, atribui ao SENHOR o sucesso de uma caça que não fez. A análise desse padrão está no estudo de Gênesis 27:20.

9. Conexão com Outros Textos

A segunda versão do mandamento

Deuteronômio 5:11 — "Não tomarás em vão o nome do SENHOR, o teu Deus, porque o SENHOR não deixará impune quem tomar o seu nome em vão."

Palavra por palavra igual. O Deuteronômio mexe no sábado, nos pais e na cobiça; este mandamento ele repete sem tocar, ameaça incluída.

As leis vizinhas

Levítico 19:12 — "Não jurem falsamente pelo meu nome, profanando assim o nome do seu Deus. Eu sou o SENHOR."

A lei que dá nome ao ato: jurar falso é "profanar", tornar comum o que é santo. Foi a partir dela que a Mekhilta perguntou o que o Êxodo acrescentava.

Números 30:2 — "Quando um homem fizer um voto ao SENHOR ou um juramento, assumindo uma obrigação, não quebrará a sua palavra: fará conforme tudo o que saiu da sua boca."

O outro lado do mandamento: a palavra dada diante de Deus obriga.

As mesmas três palavras num salmo

Salmo 24:3-4 — "Quem subirá ao monte do SENHOR? Quem ficará no seu lugar santo? Aquele que tem mãos limpas e coração puro, que não ergueu a sua alma à falsidade e não jurou com engano."

O salmo reúne o vocabulário do mandamento: "limpas" é da raiz de "não deixará impune" (literalmente, "não declarará limpo"); "ergueu" é o verbo de "tomarás"; "falsidade" é a palavra de "em vão". O que o mandamento proíbe, o salmo descreve pelo avesso, como condição para subir ao monte de Deus.

O nome carregado entre os povos

Ezequiel 36:22-23 — "Não é por causa de vocês que eu faço isto, casa de Israel, mas por causa do meu santo nome, que vocês profanaram entre as nações para onde foram. Santificarei o meu grande nome, profanado entre as nações."

O nome profanado não por juramento, mas por conduta: o povo que o levava foi visto vivendo sob ele. É o texto que mais apoia a leitura de "carregar o nome".

O nome antes do Sinai

Gênesis 32:29 — "Jacó lhe perguntou: 'Diga-me, por favor, o seu nome.' Mas ele respondeu: 'Por que pergunta o meu nome?' E o abençoou ali."

O nome recusado no Gênesis e o nome dado e protegido no Êxodo; entre os dois está a sarça. O estudo de Gênesis 32:29 trata do nome como acesso e do seu uso mágico no mundo antigo.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Não tomarás em vão o nome do SENHOR, o teu Deus, porque o SENHOR não deixará impune quem tomar o seu nome em vão.

Texto hebraico

לֹ֥א תִשָּׂ֛א אֶת־שֵֽׁם־יְהוָ֥ה אֱלֹהֶ֖יךָ לַשָּׁ֑וְא כִּ֣י לֹ֤א יְנַקֶּה֙ יְהוָ֔ה אֵ֛ת אֲשֶׁר־יִשָּׂ֥א אֶת־שְׁמ֖וֹ לַשָּֽׁוְא׃

Transliteração

lo tissa et-shem YHWH Elohekha la-shav ki lo yenaqqeh YHWH et asher-yissa et-shemo la-shav.

Análise palavra por palavra

לֹא תִשָּׂא — lo tissa, "não tomarás".

A negação lo com o imperfeito é a forma das proibições permanentes do Decálogo: não uma ordem para o momento, mas uma regra que vale sempre. O verbo é nasa, "levantar, erguer, carregar", no Qal (a forma simples do verbo hebraico), segunda pessoa do masculino singular. O campo é amplo: levantar os olhos (Gênesis 13:10), levantar a voz (Gênesis 21:16), "carregar a culpa" (Levítico 5:1) e até "perdoar", que em hebraico é "carregar o pecado" de alguém (Gênesis 50:17). A Septuaginta traduz por lémpsē, "tomarás", e a Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta de 400) por adsumes, "assumirás". Foi por elas que o "tomar" chegou ao português.

אֶת־שֵׁם — et-shem, "o nome de".

Et marca o objeto direto definido e não se traduz. Shem, "nome", na forma presa ao que vem depois. Ibn Ezra observa que shem e zekher ("lembrança") são quase sinônimos, como no par de Êxodo 3:15, com uma diferença: a lembrança pode ser só pensada; o nome é sempre coisa dita.

יְהוָה אֱלֹהֶיךָ — YHWH Elohekha, "o SENHOR, o teu Deus".

O nome próprio de quatro letras, que a leitura judaica substitui por Adonai ("meu Senhor") e a ABC traduz por "SENHOR", seguido de Elohim, "Deus", com o sufixo "o teu". A fórmula atravessa o Decálogo sempre no singular: o mandamento é dirigido a cada um.

לַשָּׁוְא — la-shav, "em vão".

A preposição le, "para", com artigo, mais shav: literalmente "para o vazio", "para a falsidade". Shav designa o que não tem consistência: os ídolos são "vaidades" (Salmo 31:6), a visão falsa é "visão de shav" (Ezequiel 13:6-7), o trabalho que não dá fruto é "em vão" (Salmo 127:1-2). Keil e Delitzsch a ligam a uma raiz que significa "estar devastado, ermo": o que está vazio por dentro. Por isso a palavra cobre ao mesmo tempo o inútil e o mentiroso. A Septuaginta diz epì mataíō, "para uma coisa vã"; a Vulgata usa duas palavras nas duas ocorrências, in vanum e frustra, ambas "em vão".

כִּי — ki, "porque".

Introduz o motivo, como no mandamento das imagens (Êxodo 20:5).

לֹא יְנַקֶּה — lo yenaqqeh, "não deixará impune".

Verbo naqah no Piel (a forma intensiva ou causativa do verbo hebraico), imperfeito, terceira pessoa. A raiz quer dizer "estar limpo, estar livre"; o Piel é "declarar limpo, inocentar". É a raiz do "você estará livre deste juramento" de Gênesis 24:8, cujo estudo trata da palavra no contexto do juramento. Aqui vem negada: o SENHOR não declarará livre. A fórmula reaparece em Êxodo 34:7, Números 14:18 e Naum 1:3, sempre dobrada ("limpar, não limpará"); aqui vem simples. A Septuaginta traduz por katharísē, "purificará", o verbo grego da limpeza ritual.

יְהוָה — YHWH, "o SENHOR".

Sujeito depois do verbo, sem o "teu Deus" da primeira metade. É a primeira vez no Decálogo que Deus aparece como sujeito na terceira pessoa.

אֵת אֲשֶׁר־יִשָּׂא — et asher-yissa, "quem tomar".

Asher, "que, quem", abre a oração relativa; yissa é o mesmo verbo nasa, agora na terceira pessoa. A troca de "tu" para "aquele que" transforma a ordem em regra geral.

אֶת־שְׁמוֹ — et-shemo, "o seu nome".

Shem com o sufixo de terceira pessoa, "o nome dele".

לַשָּׁוְא — la-shav, "em vão".

A mesma palavra fecha as duas metades. Ônquelos traduz a primeira ocorrência por le-magana, "à toa", e a segunda por le-shiqra, "para a mentira". Depois dela, o rolo hebraico abre uma petuchah (o espaço que vai até o fim da linha e marca o fim de uma seção): o mandamento do nome fica isolado dos vizinhos.

11. Conclusão

Do que foi visto, o versículo leva a três conclusões.

A primeira: o mandamento não é, na origem, uma regra de boas maneiras. Ele protege a última garantia de verdade de uma sociedade sem documentos. Gastar essa garantia à toa, ou empenhá-la numa mentira, atingia a justiça no ponto em que ela não tinha mais em que se apoiar — e atingia aquele cujo nome foi dado em garantia.

A segunda: o alcance do "em vão" fica aberto, e a abertura parece mais deliberada que acidental. A palavra junta o vazio e o falso; o verbo junta dizer e carregar. As leituras do juramento, do uso desnecessário e da conduta que desmente o nome não se excluem; a tradição que tentou reduzir a frase a um sentido teve sempre de admitir o outro.

A terceira: a gravidade não vem do tamanho da falta, mas de quem a julga. Onde o tribunal humano não alcança, ou não se importa, o texto põe o próprio dono do nome como juiz, e diz exatamente o que o infrator espera não ouvir — que não será declarado limpo.

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