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Mateus 18:16

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 9 min de leitura·👁 30 acessos
Mas, se ele não ouvir, leve com você mais uma ou duas pessoas, para que toda questão se confirme pela palavra de duas ou três testemunhas.
Três homens a caminho da casa de um quarto, que os espera na porta de braços cruzados, numa rua estreita de aldeia antiga.

Estudo


Mas, se ele não ouvir, leve com você mais uma ou duas pessoas, para que toda questão se confirme pela palavra de duas ou três testemunhas.

1. Introdução

A conversa a sós não deu certo. O segundo passo é voltar ao irmão com mais uma ou duas pessoas, "para que toda questão se confirme pela palavra de duas ou três testemunhas".

A frase cita a lei de Deuteronômio sobre testemunhas num tribunal, mas muda o uso dela. Em Deuteronômio, as testemunhas viram o crime. Aqui, as pessoas levadas não viram a ofensa: elas vão assistir à conversa. O que elas confirmam, e para quê, é a pergunta do versículo.

2. Contexto Histórico e Cultural

Quem podia testemunhar

A regra das duas ou três testemunhas, de Deuteronômio 19:15, era a base de todo processo judaico. O estudo de Gênesis 20:5 trata dela e do seu fundo no direito do antigo Oriente. No século I, a questão prática era outra: quem contava como testemunha.

Josefo (historiador judeu do século I, que escreveu para leitores romanos depois da guerra de 70) resume a regra assim nas Antiguidades Judaicas (IV.219): não se deve dar crédito a uma testemunha só, mas a três, ou pelo menos duas, e cuja vida confirme o que dizem. E acrescenta as exclusões do seu tempo: não se aceite o testemunho de mulheres nem o de escravos.

A testemunha, portanto, não era qualquer um. Precisava ser homem livre, adulto e de boa fama. A lei rabínica posterior juntaria à lista dos desqualificados os jogadores de dados, os que emprestavam a juros e outros de reputação duvidosa.

Testemunhas em Qumran

O Documento de Damasco, texto de regras da comunidade do mar Morto, tem uma seção inteira sobre testemunhas (CD 9:16-10:3). Ela traz duas exigências que ajudam a medir o versículo.

A primeira: quem testemunha um erro grave sozinho deve relatá-lo ao encarregado da comunidade, que o registra por escrito. Se o mesmo homem for visto de novo por outra testemunha, as duas palavras se somam, e o caso está completo. Os dois testemunhos não precisam ser do mesmo fato.

A segunda: ninguém é aceito como testemunha se não tiver idade para ser contado entre os membros da comunidade e se não temer a Deus.

Em Qumran, as testemunhas continuam sendo testemunhas do erro. O que muda em Mateus é justamente isso.

3. Análise Teológica do Versículo

"Mas, se ele não ouvir"

O versículo 15 terminou com "se ele lhe der ouvidos". Este começa com a outra possibilidade, e a trata com a mesma calma. Não há acusação nova, não há ameaça. Há um segundo passo.

"leve com você mais uma ou duas pessoas"

O grupo cresce, mas pouco. Com o ofendido, são duas ou três pessoas no total. O caso continua quase privado, e o irmão ainda não é exposto à comunidade.

O texto não diz quem devem ser essas pessoas. Não diz que sejam líderes, nem amigos do ofendido, nem gente que o irmão respeite. Diz só o número.

"para que toda questão se confirme pela palavra de duas ou três testemunhas"

A frase é quase uma citação de Deuteronômio 19:15. Mas em Deuteronômio as testemunhas são de um crime: viram o ato e depõem sobre ele. As pessoas levadas neste versículo não viram a ofensa, que aconteceu entre os dois. Elas vão assistir a uma conversa.

O que as testemunhas confirmam, se não viram a ofensa? Três leituras foram propostas.

Primeira leitura: confirmam que houve a tentativa. Se o irmão também não ouvir desta vez, elas poderão dizer à igreja, no terceiro passo, que ele foi procurado com cuidado e recusou. As testemunhas são da conversa, não do erro, e protegem o processo.

Segunda leitura: ajudam a convencer. A palavra de um só pode parecer mágoa pessoal; a de três, não. A presença delas dá peso à correção e aumenta a chance de o irmão ouvir. Nessa leitura, a meta continua sendo a do versículo 15: ganhar o irmão.

Terceira leitura: avaliam a queixa. As pessoas levadas ouvem os dois lados. Podem concluir que o ofendido tem razão, ou que não tem. Nessa leitura, elas protegem também o acusado, porque a queixa de um só não basta para levá-lo à igreja.

Não é possível decidir entre as três, e elas não se excluem. A terceira costuma ser esquecida, e é a que o texto de Deuteronômio sustenta melhor: a regra das duas testemunhas existia para impedir que alguém fosse condenado pela palavra de um acusador só.

"toda questão"

A palavra traduzida por "questão" significa também "palavra", como o hebraico davar ("palavra", "coisa", "assunto"). O que se confirma é o assunto inteiro: o que houve, o que foi dito e o que o irmão respondeu.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O irmão

O mesmo do versículo 15, que não ouviu na conversa a sós.

Quem corrige

O ofendido, ou quem viu o erro, conforme a forma do versículo 15 que se adote.

As uma ou duas pessoas

Não são nomeadas nem qualificadas. O versículo as chama de testemunhas, mas elas não presenciaram a ofensa.

O procedimento

É o segundo dos três passos. O primeiro está no versículo 15; o terceiro, diante da igreja, no 17.

5. Pontos de Ensino

O segundo passo ainda é pequeno

Duas ou três pessoas no total. O irmão ainda não é exposto à comunidade.

As testemunhas são da conversa

Elas não viram a ofensa. Estão ali para o que acontece a partir de agora.

A regra protege os dois lados

A exigência de mais de uma palavra impede que uma queixa isolada leve alguém à comunidade.

A meta não mudou

O versículo não fala em condenar. O segundo passo existe porque o primeiro não bastou para ganhar o irmão.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo toca um problema antigo: como saber o que se passou entre duas pessoas quando cada uma conta a sua versão. Um desentendimento a dois é simétrico, e a palavra de um vale tanto quanto a do outro. A entrada de terceiros quebra essa simetria sem decidir de antemão para que lado. A verdade, aqui, não é descoberta por um juiz de fora, e sim pela conversa que se torna pública em pequena escala. É uma forma de dizer que certos fatos só se estabelecem entre várias pessoas.

7. Aplicações Práticas

Não leve aliados; leve testemunhas

A tentação é levar à segunda conversa quem já concorda com você. O versículo pede testemunhas, e uma testemunha só vale se puder concluir contra quem a trouxe. Escolha pessoas que o outro também respeite.

Mantenha o círculo pequeno

Uma ou duas pessoas. Não o grupo inteiro, não a família toda, não uma mensagem para vários. O caso continua sendo tratado com o menor número possível de pessoas.

Esteja pronto para ouvir

Se as testemunhas avaliam a queixa, podem concluir que a razão não está com você. O segundo passo também é uma chance de descobrir isso.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Quem deve ser escolhido como testemunha?

O texto não diz. A lei judaica do tempo exigia testemunhas de boa fama, e Qumran exigia idade e temor a Deus. Mateus não dá critério nenhum além do número.

As testemunhas falam na conversa ou só observam?

O versículo não esclarece. Na segunda leitura do item 3, elas falam e ajudam a convencer; na primeira, basta que estejam presentes. É provável que se esperasse das duas coisas um pouco.

9. Conexão com Outros Textos

A lei citada

Deuteronômio 19:15 — "Uma só testemunha não bastará contra alguém em qualquer crime ou pecado que tenha cometido; pela palavra de duas ou de três testemunhas se confirmará a questão."

Em Deuteronômio, as testemunhas viram o crime. Em Mateus, vão à conversa.

A regra usada por Paulo

2 Coríntios 13:1 — "Esta é a terceira vez que vou visitar vocês. Toda questão se confirmará pela palavra de duas ou de três testemunhas."

1 Timóteo 5:19 — "Não aceite acusação contra um presbítero, a não ser com base em duas ou três testemunhas."

Paulo aplica a mesma regra dentro das igrejas, e na carta a Timóteo ela serve para proteger o acusado.

A regra aplicada a Jesus

João 8:17 — "E na lei de vocês está escrito que o testemunho de duas pessoas é verdadeiro."

Três que viram

Mateus 17:1 — "Seis dias depois, Jesus levou consigo Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago, e os conduziu, sozinhos, a um monte alto."

O verbo "levar consigo" é o mesmo deste versículo, "leve com você". Mateus não diz que os três discípulos serviam de testemunhas.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Mas, se ele não ouvir, leve com você mais uma ou duas pessoas, para que toda questão se confirme pela palavra de duas ou três testemunhas.

Texto grego (Textus Receptus)

ἐὰν δὲ μὴ ἀκούσῃ, παράλαβε μετὰ σοῦ ἔτι ἕνα ἢ δύο, ἵνα ἐπὶ στόματος δύο μαρτύρων ἢ τριῶν σταθῇ πᾶν ῥῆμα.

Transliteração

ean de mē akousē, paralabe meta sou eti hena ē dyo, hina epi stomatos dyo martyrōn ē triōn stathē pan rhēma.

Análise palavra por palavra

ἐὰν δὲ μὴ ἀκούσῃ — ean de mē akousē, "mas, se ele não ouvir". É a condição do versículo 15 negada, com o mesmo verbo akouō, "ouvir, dar atenção".

παράλαβε μετὰ σοῦ — paralabe meta sou, "leve com você". Imperativo aoristo de paralambanō, "tomar consigo, levar junto". É o verbo de Mateus 17:1, quando Jesus "levou consigo" Pedro, Tiago e João, e de Mateus 26:37, no Getsêmani.

ἔτι ἕνα ἢ δύο — eti hena ē dyo, "mais uma ou duas". Eti, "ainda, além disso". Os números estão no masculino, pessoas.

ἵνα — hina, "para que". Indica a finalidade do segundo passo.

ἐπὶ στόματος δύο μαρτύρων ἢ τριῶν — epi stomatos dyo martyrōn ē triōn, "pela palavra de duas ou três testemunhas", literalmente "sobre a boca de duas testemunhas ou três".

"Sobre a boca de" é uma expressão hebraica, al-pi, "conforme a palavra de". A ABC a traduz pelo sentido: "pela palavra de".

Martys é "testemunha", quem declara o que sabe. A palavra ganhou mais tarde o sentido de "mártir", quem testemunha com a própria morte, e é dela que vem a palavra portuguesa.

A frase segue de perto a Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento) de Deuteronômio 19:15, que diz "sobre a boca de duas testemunhas e sobre a boca de três testemunhas se firmará toda palavra". Mateus encurta a fórmula, mas mantém o vocabulário.

σταθῇ — stathē, "se confirme". Aoristo passivo do subjuntivo de histēmi, "pôr de pé, firmar". No passivo, "ficar de pé, ser estabelecido". A questão "fica de pé" quando tem mais de uma voz a sustentá-la.

πᾶν ῥῆμα — pan rhēma, "toda questão". Rhēma é "o que é dito, palavra", e, sob influência do hebraico davar, também "coisa, assunto, caso". A tradução "questão" escolhe o sentido de caso.

11. Conclusão

Do que se viu, o versículo leva a duas conclusões.

A lei das testemunhas muda de função. Em Deuteronômio, as testemunhas viram o crime e depõem. Aqui, não viram a ofensa; vão à conversa. Elas podem atestar a tentativa, reforçar a correção ou avaliar a queixa, e as três funções servem ao mesmo fim do versículo anterior.

O segundo passo protege os dois lados. O irmão ainda não é exposto à comunidade, e o ofendido não pode levá-lo à igreja com a própria palavra apenas. A regra que em Deuteronômio impedia a condenação por um acusador só continua, em Mateus, a impedir que uma queixa isolada decida o caso.

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