Hipócritas! Bem profetizou Isaías a respeito de vocês, dizendo:
1. Introdução
Um versículo de uma linha, e três movimentos dentro dela.
O primeiro é uma palavra só: "Hipócritas!". Jesus para de argumentar e classifica. O segundo é a convocação de uma testemunha — Isaías, o profeta mais autorizado que um judeu do primeiro século podia ouvir citado. O terceiro é o endereço: "a respeito de vocês".
Cada um tem o seu lugar neste estudo. A palavra "hipócrita" vem do teatro grego e tem uma história que muda o que se entende dela; a análise do original a percorre. Quem foi Isaías, quando falou e por que a sua voz pesa tanto pertence ao contexto histórico. E o que significa aplicar a pessoas do primeiro século um oráculo dito setecentos anos antes — inclusive o que essa operação tem de legítimo e o que tem de escolha — é o assunto da análise teológica.
O versículo é uma dobradiça. Encerra a acusação que Jesus fez por conta própria e abre a citação que ocupa os dois versículos seguintes.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quem foi Isaías
Isaías, filho de Amós, profetizou em Jerusalém entre mais ou menos 740 e 700 antes de Cristo, sob quatro reis de Judá. É dos profetas mais bem amarrados à história conhecida: o livro registra episódios que aparecem também nos livros dos Reis e das Crônicas, e alguns têm confirmação em documentos assírios — o relato do próprio Senaqueribe sobre o cerco de Jerusalém em 701 a.C. corresponde ao cenário dos capítulos 36 e 37 de Isaías.
Um esclarecimento de método, porque ele é discutido e o leitor merece saber. A crítica bíblica, desde o fim do século XIX, distingue no livro pelo menos duas mãos: os capítulos 1 a 39, do profeta do oitavo século, e os capítulos 40 a 66, de autor ou autores do século VI. Há quem proponha mais camadas. Para o que interessa aqui, a discussão não muda nada: o oráculo que Jesus vai citar está no capítulo 29, dentro da primeira parte, e ninguém o disputa ao profeta histórico.
O momento do oráculo
O trecho que Jesus citará em seguida foi dito com Jerusalém sob ameaça militar direta. Os assírios avançavam, os dirigentes de Judá negociavam socorro com o Egito, e o culto no Templo seguia funcionando com regularidade impecável. É contra essa combinação que o profeta fala: uma cidade que se julga protegida porque cumpre o rito corretamente, enquanto a confiança real dela está em outro lugar.
A acusação original, portanto, é política tanto quanto religiosa, e é dirigida a uma população inteira — não a um grupo de especialistas.
Como se lia um profeta no primeiro século
Pegar um oráculo de setecentos anos antes e dizer que ele fala das pessoas que estão na sua frente parece, ao leitor de hoje, um salto arbitrário. Não era. Era o modo estabelecido de ler texto profético no período do Segundo Templo — o intervalo entre a reconstrução do Templo, por volta de 515 a.C., e a sua destruição em 70 d.C.
A demonstração mais completa disso está nos manuscritos do Mar Morto. A comunidade de Qumran produziu um gênero inteiro de comentários chamados pesharim ("interpretações", em hebraico), que funcionam sempre do mesmo jeito: cita-se o versículo antigo e emenda-se a fórmula "a interpretação disto é sobre…", seguida de um acontecimento ou de um personagem da própria comunidade. Habacuque, Naum, Isaías e vários Salmos foram lidos assim.
O pressuposto é duplo. A palavra do profeta não se esgotou quando foi dita — descreve um padrão, e o padrão pode reaparecer. E a comunidade que lê tem competência para identificar em quem, agora, ele reapareceu.
Jesus opera dentro desse modo de leitura, e o leitor do primeiro século reconheceria a operação sem estranhar. É informação necessária, porque sem ela o versículo parece um uso torto da Bíblia, e não é.
A Bíblia que se citava
Um dado que se tornará decisivo nos dois versículos seguintes: a citação que Jesus faz não segue o hebraico. Segue a Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento feita a partir do século III a.C. e usada correntemente pelos judeus de língua grega, dentro e fora da Palestina.
Isso não é peculiaridade desta passagem. É o padrão de Mateus, que escreve em grego para leitores que liam a Bíblia em grego. A diferença entre as duas versões, neste oráculo específico, tem consequência real para o argumento — e é o assunto da análise do original nos versículos 8 e 9.
Onde a cena acontece
Jesus está na Galileia, provavelmente na região de Genesaré, perto de Cafarnaum, segundo a localização dada em Mateus 14:34. Quem veio interpelá-lo desceu de Jerusalém. A distância importa: o oráculo que ele está prestes a citar foi dito na cidade de onde vieram os seus acusadores, e sobre os habitantes dela.
3. Análise Teológica do Versículo
"Hipócritas!"
Uma palavra, sozinha, sem verbo e sem qualificação. É a única vez em toda a conversa em que Jesus abandona o argumento e simplesmente nomeia.
O primeiro cuidado é não ler a palavra com o sentido que ela ganhou em português. Hoje "hipócrita" quer dizer, quase sempre, o sujeito que finge por dentro — que sabe que não acredita no que professa e mantém a pose por conveniência. Se for esse o sentido, a acusação de Jesus é sobre o estado de consciência dos fariseus, e ele não tinha como conhecê-lo. Ler assim rebaixa o versículo a um palpite psicológico.
A acusação é outra, e é mais séria. Nos versículos anteriores Jesus não descreveu um estado de alma: descreveu um mecanismo. Um dispositivo religioso que, funcionando exatamente como foi projetado, produz aparência de piedade máxima e resultado de abandono do pai velho. A distância entre o que aparece e o que resulta está no dispositivo, não na cabeça de quem o usa.
Isso muda tudo. Um fariseu podia invocar o voto com sinceridade completa, convencido de estar praticando o ato mais devoto da sua vida, e ainda assim estar sob a acusação — porque a acusação é sobre o que a prática faz, não sobre o que o praticante sente. É crítica ao sistema, não à alma de ninguém.
E é por ser assim que ela continua servindo. Uma acusação de fingimento consciente só atinge quem finge conscientemente, e essas pessoas são poucas. Uma acusação estrutural atinge qualquer construção religiosa que produza a mesma distância — inclusive as sustentadas por gente inteiramente de boa-fé, que são a maioria.
Convém, ainda assim, marcar o limite. O texto não diz "vocês são sinceros e mesmo assim estão errados". O texto diz "hipócritas", e a palavra tem carga de acusação pessoal — Jesus está falando com raiva, não redigindo um artigo. A leitura estrutural é a que dá conta do argumento inteiro dos versículos 3 a 9; que ela esgote a intenção de quem falou é bem menos evidente, e seria desonesto afirmar.
"Bem profetizou Isaías a respeito de vocês"
O elogio é ao profeta, e é sincero: Isaías acertou a descrição. Mas o que se entende por "profetizou" decide o sentido da frase inteira.
Se profetizar for prever o futuro, Jesus está dizendo que Isaías, no oitavo século antes de Cristo, viu de longe aqueles homens específicos e falou deles. É como muita pregação lê o versículo, e é leitura frágil: nada no capítulo 29 de Isaías aponta para o primeiro século, e ele não menciona fariseus, que só existiriam mais de quinhentos anos depois.
Se profetizar for falar em nome de Deus sobre o presente — que é o sentido corrente da palavra na Bíblia, e o que a análise do original detalha —, o que Jesus diz é outra coisa. Isaías descreveu um padrão de religião, com precisão, no tempo dele. O padrão reapareceu. A descrição continua servindo.
A diferença é grande e vale além deste versículo. Boa parte do que se chama de "profecia cumprida" no Novo Testamento não é acerto de previsão: é reconhecimento de que uma configuração antiga voltou a ocorrer. Quem procura no Antigo Testamento apenas previsões que bateram perde a maior parte do que os profetas fizeram, que foi falar do próprio tempo.
"a respeito de vocês"
Aqui está a operação mais interessante do versículo, e ela precisa ser dita sem enfeite: Isaías não estava falando dos fariseus.
Ele falava da população inteira de Jerusalém, numa crise militar concreta, sete séculos antes. O oráculo é amplo — "este povo" — e não distingue grupos. Jesus estreita o alvo: pega uma acusação feita a uma cidade e a aplica a meia dúzia de especialistas em lei religiosa que estão na frente dele.
Duas coisas precisam ser ditas sobre isso ao mesmo tempo. A primeira é que a operação era legítima e reconhecível: assim se lia profecia naquele mundo, e o contexto histórico deste estudo mostra como. A segunda é que ela continua sendo uma escolha. Do oráculo não decorre, por si, que os fariseus sejam o alvo; quem decide isso é quem cita. E o versículo não esconde: o "a respeito de vocês" é acrescentado por Jesus, não é parte do texto de Isaías.
O efeito é apontar o dedo. Não "os hipócritas em geral", não "quem age assim". Vocês. Não sobra espaço para os interpelados se lerem como aludidos de passagem.
E há um detalhe que a distância de dois mil anos apaga: o oráculo foi dito sobre Jerusalém, e os interpelados vieram de Jerusalém. A frase devolve à cidade a acusação que a cidade guardava no seu próprio livro sagrado.
"dizendo:"
A palavra parece vazia e não é. Ela avisa que o que vem a seguir é fala reproduzida, não resumo — os versículos 8 e 9 estão inteiros dentro de aspas que o grego não tinha como marcar.
Vale registrar a diferença em relação a Marcos, que conta a mesma cena e escreve "como está escrito" (Marcos 7:6). Marcos remete ao livro; Mateus remete à boca do profeta. É diferença pequena e não muda o sentido, mas mostra que os dois evangelistas não copiaram um ao outro palavra por palavra neste ponto.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Isaías
O profeta convocado como testemunha. Atuou em Jerusalém no século VIII antes de Cristo e é o mais citado de todos os profetas no Novo Testamento. O livro dele era lido regularmente na sinagoga, o que significa que os interpelados conheciam de cor o trecho que estava para ser recitado contra eles.
O povo de Jerusalém do século VIII
O alvo original do oráculo, e um personagem que a leitura corrente costuma esquecer. Não eram especialistas em lei nem uma seita: era a população de uma cidade sitiada, que ia ao Templo, cumpria o calendário religioso e contava com o Egito para se salvar. A acusação nasceu ampla e popular, e só depois foi estreitada.
Os fariseus e escribas de Jerusalém
Os destinatários da aplicação. São os mesmos do início do capítulo: a delegação que desceu da capital para interpelar Jesus na Galileia. O plural e o vocativo os alcançam um por um.
A Septuaginta
Não é pessoa nem lugar, mas é um personagem desta cena. A tradução grega do Antigo Testamento, começada em Alexandria no século III antes de Cristo, era a Bíblia da maior parte dos judeus que liam em grego. É dela, e não do hebraico, que sai a citação dos dois versículos seguintes — e a escolha tem consequência para o argumento.
O teatro grego, ao fundo
Não entra na cena, mas está dentro da palavra que Jesus usa. A análise do original explica de onde ela vem e o que carrega.
5. Pontos de Ensino
Nomear é um ato, e Jesus o pratica
Depois de quatro versículos de argumento cuidadoso, ele interrompe e diz uma palavra. Há um momento em que descrever o mecanismo já não basta e é preciso dar nome ao que se descreveu. O versículo mostra que essa passagem do argumento à nomeação não é falha de temperamento: é parte do método.
A acusação mais útil é a que não depende da intenção
Ninguém tem acesso ao coração alheio, e discussões sobre sinceridade não vão a lugar nenhum: cada lado afirma a própria boa-fé e a conversa acaba. Uma acusação que olha para o efeito da prática, e não para a alma de quem a pratica, pode ser examinada por qualquer um, inclusive por quem está sendo acusado.
Uma denúncia ganha peso quando não é a primeira
Jesus podia ter continuado por conta própria. Preferiu mostrar que o que está denunciando já foi denunciado antes, no livro que os seus interlocutores reconheciam como palavra de Deus. Uma crítica isolada é opinião; a mesma crítica com precedente é padrão identificado.
Ler um texto antigo é aplicá-lo a alguém
Toda leitura de um texto sagrado escolhe um destinatário, e a escolha nunca vem escrita no texto. Aqui a escolha é declarada — "a respeito de vocês" — e por isso pode ser discutida. O uso perigoso do texto profético não é o que aponta o alvo, é o que finge não estar apontando nenhum.
A acusação é a mesma há setecentos anos
Entre o profeta e esta cena passaram-se o exílio, o retorno, os gregos, os Macabeus e Roma. Mudou o regime, mudou a língua, mudou a organização religiosa. O padrão denunciado atravessou tudo isso intacto — o que sugere que ele não depende de nenhuma configuração histórica particular.
6. Aspectos Filosóficos
Dá para enganar a si mesmo?
A leitura estrutural da acusação, exposta na análise teológica, levanta um problema filosófico de primeira ordem. Se alguém pratica com sinceridade uma religião que produz o contrário do que ela promete, o que exatamente está acontecendo dentro dessa pessoa? Ela mente? Ignora? Ou existe um terceiro estado, em que se sabe e não se sabe ao mesmo tempo?
Duas correntes trataram desse problema, e o comentarista as traz aqui como ferramenta de leitura. Nenhuma delas está no versículo, que não tem teoria da consciência e não discute nada disso.
Sartre: a má-fé
Jean-Paul Sartre dedicou a esse problema um capítulo inteiro de O Ser e o Nada (1943), sob o nome de má-fé — em francês mauvaise foi. A dificuldade que ele enfrenta é lógica: mentir exige duas pessoas, uma que sabe a verdade e outra que a ignora. Quando as duas são a mesma, a operação deveria ser impossível, porque o mentiroso conheceria a mentira.
A saída de Sartre é recusar a ideia de um inconsciente que esconderia a verdade de nós. Para ele, a má-fé é uma conduta, não um estado: um modo de dirigir a atenção que nunca chega a formular claramente aquilo que evita, e que precisa ser refeito o tempo todo. Não se decide de uma vez não ver; sustenta-se, dia após dia, um jeito de olhar que não encontra.
O exemplo que ficou famoso é o do garçom de café que representa o papel de garçom — gestos rápidos demais, atenção exagerada, o corpo inteiro dedicado a ser aquilo. Sartre não o acusa de fingir. Observa que ele se refugia num papel para não ter de se haver com a liberdade de ser outra coisa. Vestir a função inteira é uma forma de descansar de si.
Aplicada a este versículo, a categoria explica o que a acusação psicológica não explicava. Não é preciso supor que os fariseus soubessem estar burlando o mandamento. Basta supor que o cumprimento perfeito do papel religioso — a técnica jurídica, o rigor do rito, a competência no manejo da lei — funcionasse como o lugar em que a pergunta pelo resultado não precisa ser feita. A máscara não engana só quem olha. Descansa quem a usa.
Há um limite honesto nessa aproximação. Sartre é ateu e trata a má-fé como fuga da liberdade, sem nenhuma referência a Deus ou a mandamento; a acusação do versículo pressupõe uma norma divina violada. As duas críticas coincidem no diagnóstico da conduta e divergem inteiramente sobre o que está sendo traído.
Os estoicos: que o discurso combine com a vida
Séculos antes, e num registro bem menos técnico, os estoicos romanos já tinham feito da distância entre o dito e o vivido o problema central da filosofia moral.
Sêneca, nas Cartas a Lucílio, escreve que a exigência primeira é que as palavras concordem com a vida, e que ninguém está de acordo consigo mesmo se o que faz desmente o que diz. A frase é habitualmente citada como conselho de coerência pessoal, e é mais do que isso: para os estoicos, filosofia que não se converte em conduta não é conhecimento incompleto, é conhecimento nenhum.
Epicteto foi mais direto. Nos Discursos, diz que as ovelhas não trazem ao pastor a grama que comeram para mostrar o quanto pastaram — produzem lã e leite. Do mesmo modo, quem aprendeu não deve exibir as doutrinas: deve mostrar as obras que vieram delas. É a mesma medida deste versículo, com outra imagem — o valor do ensino se verifica no que ele produz, não no que ele declara.
O que muda entre uma coisa e outra
Vale marcar a diferença, porque ela não é pequena. Para os estoicos, o remédio da incoerência é o esforço próprio: quem percebe a distância entre discurso e vida trabalha para fechá-la, e a filosofia serve exatamente para isso. Para Sartre, o problema é mais teimoso, porque a própria percepção pode ser parte da fuga — é possível fazer da lucidez sobre a própria incoerência mais um jeito de não mudar.
Nenhuma das duas leituras está no texto, e nenhuma decide o caso dos fariseus. O que as duas ajudam a ver é por que a acusação de Jesus não precisa provar má intenção para se sustentar.
7. Aplicações Práticas
Parar de discutir intenções
A acusação deste versículo tem um uso prático imediato, e ele é contraintuitivo: examinar a prática, não o coração.
Discussões religiosas sobre sinceridade não terminam. Quem é acusado de fingir responde que não finge, e ninguém tem como verificar. A conversa morre ali, com os dois lados convencidos da própria retidão. Trocar a pergunta muda o terreno: em vez de "você está sendo sincero?", pergunta-se "o que esta prática produziu na vida das pessoas que ela atinge?". Essa segunda pergunta tem resposta, e a resposta pode ser conferida por qualquer um dos dois lados.
Vale inclusive para dentro. Ninguém consegue auditar a própria sinceridade — a auto-observação é justamente o que está comprometido. Consegue-se, com algum trabalho, olhar o resultado: quem foi cuidado, quem ficou sem, o que sobrou de concreto.
Quando a competência religiosa vira abrigo
Há um perfil que o versículo alcança em cheio: a pessoa que sabe muito de religião e usa esse saber como lugar onde não precisa responder por nada. O domínio do vocabulário, a familiaridade com o texto, a facilidade em resolver casos difíceis — tudo isso pode funcionar como prova de estar em ordem, e dispensar a pergunta que importaria.
O sinal de alerta é a resposta técnica dada a uma objeção prática. Quando alguém aponta um dano concreto e recebe de volta uma explicação bem construída sobre por que aquilo é correto, sem que o dano seja sequer examinado, o mecanismo está funcionando.
Ler o texto sagrado como se ele falasse sempre dos outros
Jesus aplica um oráculo antigo a pessoas presentes, e aponta o dedo. O uso corrente do versículo faz o mesmo gesto com uma diferença decisiva: aponta sempre para longe. Os hipócritas são os fariseus históricos, ou a denominação vizinha, ou a liderança que não se gosta.
A prática que decorre é simples de enunciar e difícil de sustentar: ao ler uma acusação bíblica, procurar primeiro onde ela pega em quem está lendo, e só depois, se for o caso, onde pega nos outros. Não é humildade decorativa. É a única ordem em que a leitura produz alguma coisa, porque sobre os outros não se tem poder nenhum de correção.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Jesus está xingando?
Há carga de raiva na palavra, e seria falso alisá-la. Mas ela não é só isso: no argumento em que aparece, funciona como classificação do que acabou de ser descrito. Xingamento não se demonstra, e Jesus passou quatro versículos demonstrando.
Se a crítica é ao sistema, alguém tem culpa?
Tem, e o texto não recua disso. A leitura estrutural explica por que a acusação não depende de má intenção, mas não dissolve a responsabilidade: quem sustenta um dispositivo, aplica-o e decide que ele vale responde pelo que ele produz, sabendo ou não. Foi exatamente isso que o versículo anterior estabeleceu ao trocar "a tradição dos anciãos" por "a tradição de vocês".
Por que Isaías, e não outro profeta?
Porque o oráculo do capítulo 29 descreve com exatidão o caso em discussão: culto correto e coração distante. Havia outros textos possíveis — Jeremias 7, Miqueias 6, Amós 5 —, todos sobre culto vazio. Nenhum, porém, junta boca, lábios, coração e ensino humano na mesma frase, que é o que Jesus precisa. Além disso, Isaías era o profeta mais lido e mais citado, e falou sobre Jerusalém, de onde vieram os interpelados.
Marcos conta a mesma coisa?
Quase. Em Marcos 7:6 a ordem é outra — primeiro "bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas", com a palavra dura encaixada no meio da frase — e a citação é introduzida por "como está escrito". Mateus destaca "hipócritas" na frente, sozinho, e diz "dizendo". A acusação é a mesma; em Mateus ela chega antes e mais seca.
Isso vale para cristãos?
O texto não diz nada sobre cristãos, que não existiam quando a cena aconteceu. Mas o critério que Jesus usa não tem nada de específico ao judaísmo do primeiro século: ele pergunta o que uma prática religiosa produz, e essa pergunta pode ser feita a qualquer religião, inclusive à de quem lê. Estender a acusação é aplicação do leitor, não afirmação do texto — e é aplicação defensável.
9. Conexão com Outros Textos
O oráculo que vem a seguir
Isaías 29:13 — o texto que Jesus está prestes a recitar, e que os versículos 8 e 9 reproduzem. Dito com Jerusalém sob cerco assírio.
A palavra "hipócrita" em Mateus
Mateus 6:2, 6:5, 6:16 — esmola, oração e jejum praticados "para serem vistos". Aqui a palavra é aplicada ao fiel comum, não aos especialistas.
Mateus 23:13-29 — as sete acusações do discurso final, todas abertas pela mesma palavra. É a versão desenvolvida do que aqui cabe numa exclamação.
Mateus 24:51 — "a sua parte com os hipócritas". A palavra usada como categoria de destino, e não como descrição de conduta.
Culto correto e coração distante
1 Samuel 15:22 — "obedecer é melhor do que sacrificar". A formulação mais antiga do princípio.
Jeremias 7:9-11 — furtar, matar e adulterar, e depois apresentar-se no Templo. O mesmo diagnóstico, feito à mesma cidade, um século depois de Isaías.
Amós 5:21-24 — "aborreço as vossas festas... corra o juízo como as águas". A recusa profética do culto desacompanhado de justiça.
Ezequiel 33:31 — ouvem as palavras e não as praticam; "com a boca mostram muito amor, mas o coração segue a avareza". O paralelo mais próximo do oráculo de Isaías.
O gesto de aplicar o profeta ao presente
Mateus 13:14-15 — Jesus aplica Isaías 6:9-10 à multidão que ouve as parábolas. O mesmo procedimento, dois capítulos antes, com outro trecho do mesmo profeta.
Atos 28:25-27 — Paulo, em Roma, aplica o mesmo trecho de Isaías aos judeus que o ouviram. O procedimento atravessa o Novo Testamento.
O paralelo direto
Marcos 7:6 — a mesma fala, com a palavra "hipócritas" no meio da frase e a citação introduzida por "como está escrito".
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Hipócritas! Bem profetizou Isaías a respeito de vocês, dizendo:
Texto grego
ὑποκριταί, καλῶς προεφήτευσεν περὶ ὑμῶν Ἠσαΐας, λέγων,
Transliteração
hypokritai, kalōs proephēteusen peri hymōn Ēsaias, legōn,
Análise palavra por palavra
ὑποκριταί — hypokritai, "hipócritas". Está no vocativo, o caso do chamamento direto: não é uma descrição feita a terceiros, é uma palavra dirigida a quem está na frente.
A origem da palavra é o teatro. Hypokritēs vem do verbo hypokrinomai, formado de hypo ("debaixo") mais krinō ("julgar, decidir, responder"). O sentido de partida é "responder de baixo" — e o "de baixo" é literal: no teatro grego o ator respondia às falas do coro por trás de uma máscara, a prosōpon. Hypokritēs era o nome técnico do ofício.
Não havia nada de negativo nisso. O ator do teatro clássico era profissional pago, membro de uma associação de artistas, e a peça era cerimônia pública da cidade. A máscara não era disfarce: era instrumento de trabalho, e permitia que dois ou três atores fizessem todos os papéis de uma tragédia.
O sentido pejorativo — aquele cuja aparência não corresponde ao que é — nasceu depois, no período helenístico, por deslizamento natural: quem vive de representar personagens é a imagem óbvia de quem não é o que mostra. No grego do primeiro século as duas camadas convivem, e é da segunda que Jesus se serve.
Há um dado sobre a Galileia que merece registro, com a cautela devida. Séforis, cidade a poucos quilômetros de Nazaré e reconstruída por Herodes Antipas, tinha um teatro cujas ruínas foram escavadas. A datação é discutida: parte dos arqueólogos a coloca no início do primeiro século, o que a tornaria contemporânea da infância de Jesus; outros a levam para o fim do século ou depois. Não é possível decidir. O que se pode afirmar é que a instituição do teatro não era estranha à Galileia do período, e que a palavra não chegava aos ouvidos como termo puramente livresco.
A palavra na Bíblia grega
Aqui está a nuance que a leitura corrente costuma perder. A Septuaginta quase não usa hypokritēs, e quando usa não é no sentido teatral: em Jó 34:30 e 36:13, por exemplo, a palavra traduz o hebraico chanef ("ímpio, profano, corrompido"), que não tem nada a ver com representação nem com máscara.
Ou seja: para um leitor judeu formado na Bíblia grega, "hipócrita" soava antes como "ímpio" do que como "ator". A camada teatral está na origem da palavra e ilumina o que Jesus quer dizer, mas seria exagero afirmar que os ouvintes a escutaram como metáfora de teatro. O mais provável é que tenham escutado uma acusação de impiedade — e essa é a leitura mais segura.
A palavra em Mateus
Mateus emprega hypokritēs treze vezes, mais do que Marcos, Lucas e João somados. É palavra característica dele, e o uso se divide em duas faixas: umas vezes recai sobre o fiel comum que pratica a devoção para ser visto, outras sobre fariseus e escribas em polêmica pública. As passagens estão reunidas na conexão com outros textos.
É de Mateus, mais do que de qualquer outro livro, que vem a associação duradoura entre "fariseu" e "hipócrita" na cultura ocidental. Vale saber que se trata de vocabulário de polêmica, escrito por uma das partes, e não de descrição neutra de um partido religioso.
καλῶς — kalōs, "bem". Advérbio comum, que serve tanto para elogiar quanto para ironizar, conforme o contexto. Marcos usa a mesma palavra poucos versículos antes num sentido claramente irônico — "bem invalidais o mandamento de Deus" (Marcos 7:9). Aqui não há ironia: o elogio é à pontaria do profeta.
προεφήτευσεν — proephēteusen, "profetizou". Aoristo, o tempo do fato acabado: Isaías falou, uma vez, e a fala ficou.
O verbo vem de prophētēs, composto de pro mais phēmi ("falar"). O pro, aqui, não significa "antes" no tempo, e sim "diante de", "em nome de". Na religião grega o prophētēs era o funcionário do santuário que traduzia em palavra articulada o que a sacerdotisa dizia em transe — não previa nada, apenas falava em nome de quem tinha acesso ao deus.
A Septuaginta usou essa palavra para traduzir o hebraico navi, o profeta de Israel, cuja função também não era, na maioria dos casos, adivinhar. Isaías, Jeremias, Amós, Oseias e Miqueias falam sobre o presente das suas nações: descrevem o estado da religião, da política e da justiça, e anunciam a consequência previsível daquilo. Previsão de acontecimentos futuros existe, mas é a minoria.
O verbo, portanto, não diz que Isaías enxergou os fariseus. Diz que ele falou com autoridade de profeta sobre um fenômeno — e é sobre a permanência desse fenômeno que a frase de Jesus se apoia.
περὶ ὑμῶν — peri hymōn, "a respeito de vocês". A preposição peri com o genitivo indica o assunto de que se fala, sem ambiguidade nenhuma. E o pronome está na segunda pessoa do plural: é para os presentes.
Note-se a posição: o "a respeito de vocês" vem antes do nome do profeta, o que no grego dá ênfase ao elemento adiantado. A frase, na ordem original, é quase "bem profetizou a respeito de vocês — Isaías".
Ἠσαΐας — Ēsaias, forma grega de Yeshayahu, "o SENHOR salva". O nome é um dos que trazem dentro o nome de Deus, como Jeremias, Ezequias e Zacarias.
λέγων — legōn, "dizendo". Particípio presente de legō, falar. A construção — verbo principal seguido deste particípio para introduzir fala direta — é decalque do hebraico, onde a palavra lemor cumpre a mesma função, e aparece centenas de vezes no Novo Testamento. Serve de aspas: o que vem depois é citação, não paráfrase.
11. Conclusão
Três coisas se concluem do que foi visto.
Comece-se pelo que está sendo acusado. Não é a alma de ninguém. A palavra dura recai sobre uma prática cujo efeito diverge da aparência, e essa divergência pode existir com sinceridade completa de quem a pratica. Conclui-se daí que a acusação de hipocrisia, no sentido em que este versículo a faz, não exige provar má intenção — e é justamente por não exigir que ela continua utilizável dois mil anos depois, quando ninguém pode mais interrogar as intenções de ninguém.
Depois, o uso da Bíblia. Jesus não encontra os fariseus escritos em Isaías: aplica a eles uma acusação que o profeta fez a outra gente, em outro século, por outro motivo imediato. Conclui-se que a leitura do texto antigo é sempre um ato de quem lê, e que o valor dela depende de a configuração ser mesmo a mesma. Quando é, a aplicação ilumina; quando não é, vira violência com apoio bíblico. O versículo dá o exemplo bem feito, e dá também o modelo do que pode ser mal feito.
A terceira é sobre a permanência. Entre o oráculo e esta cena passaram-se sete séculos, um exílio, três impérios e uma reorganização completa da vida religiosa de Israel. Nada disso desfez o padrão. Conclui-se que ele não é defeito de uma época nem de um partido: é uma possibilidade permanente da vida religiosa organizada, que reaparece com outras roupas sempre que houver rito a cumprir e resultado a não examinar.
Fica uma advertência que decorre das três juntas. Este versículo é a arma retórica mais fácil de manejar em todo o evangelho, e a mais fácil de manejar mal. Quem o usa sem o argumento que o precede — os quatro versículos de demonstração — está fazendo o contrário do que ele faz.













