Quando o demônio foi expulso, o mudo passou a falar. Então as multidões ficaram maravilhadas, e disseram: Nunca se viu algo assim em Israel!
1. Introdução
Aqui vem o desfecho do milagre. O demônio é expulso, a voz é devolvida e a multidão reage com espanto. Em uma única frase, Mateus reúne libertação, cura e admiração — três efeitos do encontro com Jesus. O homem que pouco antes era apresentado em silêncio agora fala, e o povo reconhece que está diante de algo sem precedentes.
O versículo fecha o episódio do mudo e, ao mesmo tempo, prepara o contraste com a reação dos fariseus, no versículo seguinte. Enquanto o povo se maravilha, os líderes religiosos vão atribuir o milagre ao mal. Por ora, porém, o foco está na confissão espontânea da multidão: nunca se viu algo assim em Israel.
2. Contexto Histórico e Cultural
Israel guardava na memória grandes feitos de Deus: a abertura do mar, o maná no deserto, o fogo descido sobre o altar de Elias. A frase "nunca se viu algo assim" é, portanto, fortíssima na boca daquele povo. Não é elogio leve; é o reconhecimento de que ali acontecia algo que ultrapassava até as maravilhas do passado.
A diferença é que, desta vez, Deus caminhava no meio do povo, derrubando pessoalmente a tirania do mal. O espanto da multidão tem fundo religioso: eles percebem que aquele homem não é apenas mais um mestre ou curandeiro. A reação coletiva mostra como o ministério de Jesus rompia com tudo o que se conhecia.
3. Análise Teológica do Versículo
“E, expulso o demônio,”
Essa frase destaca a autoridade de Jesus sobre as forças demoníacas, tema recorrente nos Evangelhos. O ato de exorcismo demonstra o seu poder divino e o cumprimento das profecias do Antigo Testamento sobre o Messias trazer libertação (Isaías 61:1). No contexto cultural da Judeia do primeiro século, a possessão demoníaca era muitas vezes associada a males físicos, e o exorcismo era sinal de intervenção divina. A capacidade de Jesus de expulsar demônios sem rituais elaborados, ao contrário dos exorcistas da época, ressalta a sua autoridade singular.
“o mudo passou a falar.”
A restauração da fala ao homem mudo significa uma cura milagrosa, enfatizando a compaixão e o poder de Jesus. No simbolismo bíblico, a fala representa a comunicação e a relação, tanto com Deus quanto com os outros. Esse milagre restaura não apenas a capacidade física do homem, mas também as suas conexões sociais e espirituais. Serve como um tipo de despertar espiritual, em que Jesus traz clareza e voz aos que foram silenciados pelo pecado e pela opressão.
“E as multidões se maravilhavam,”
A reação das multidões reflete o impacto dos milagres de Jesus sobre o público. O seu assombro indica o reconhecimento de algo extraordinário, desafiando a sua compreensão das normas religiosas e espirituais. Essa resposta é coerente com outras ocasiões nos Evangelhos em que as obras de Jesus provocam admiração e curiosidade, levando muitas vezes a perguntas mais profundas sobre a sua identidade e missão.
“dizendo: Nunca tal se viu em Israel!”
Essa afirmação ressalta a natureza sem precedentes do ministério de Jesus. Embora Israel tivesse uma história de profetas e milagres, a escala e a autoridade das obras de Jesus eram incomparáveis. Essa frase pode ser vista como cumprimento das expectativas messiânicas presentes em textos como Isaías 35:5-6, que falam da era vindoura de salvação marcada por curas milagrosas. Também destaca o reconhecimento crescente de Jesus como uma figura que transcende as expectativas tradicionais, apontando para a sua natureza divina e para a inauguração de uma nova aliança.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus
A figura central da passagem, que realiza o milagre de expulsar o demônio e devolver a fala ao homem.
O homem que era mudo
Antes silenciado pela opressão demoníaca, agora liberto e capaz de falar. A sua nova voz é, em si, um testemunho do poder de Jesus.
As multidões
O povo que testemunha o milagre e reage com espanto, reconhecendo que nunca se vira algo assim.
Israel
O cenário cultural e religioso, que dá peso à declaração: aquele povo, marcado por grandes feitos de Deus, admite estar diante de algo único.
5. Pontos de Ensino
A autoridade de Jesus sobre o mal
Ao expulsar o demônio, Jesus confirma o seu poder sobre as forças espirituais. O crente pode confiar nesse poder para vencer o mal na própria vida.
O cumprimento da profecia messiânica
A cura do mudo realiza promessas do Antigo Testamento sobre o Messias, reforçando a fé em Jesus como o Salvador prometido.
A resposta de fé e admiração
O espanto da multidão é a reação correta diante da obra de Deus. Somos animados a responder com fé e adoração quando vemos a mão dele agir.
O poder do testemunho
A fala recuperada do homem é um testemunho vivo. Também nós somos chamados a contar como Jesus transformou a nossa vida.
Cura espiritual e física
Os milagres de Jesus alcançam tanto a alma quanto o corpo, lembrando o seu cuidado completo conosco.
6. Aspectos Filosóficos
O espanto da multidão levanta uma questão sobre o limite do possível. Toda cultura constrói uma ideia do que pode ou não acontecer. Quando algo rompe esse limite, o ser humano reage com assombro — sinal de que reconhece estar diante de algo que não cabe nas suas categorias. A frase "nunca se viu algo assim" é a confissão honesta de quem topou com o extraordinário.
Há também uma reflexão sobre a admiração como porta para a fé. O assombro pode parar em si mesmo, virar mera curiosidade, ou pode se transformar em reconhecimento e entrega. A diferença entre a multidão maravilhada e os fariseus, que logo se opõem, não está no que viram — ambos testemunharam o mesmo —, mas no que escolheram fazer com o que viram.
7. Aplicações Práticas
Deixe o espanto virar adoração. Reconhecer a grandeza de Deus é só o começo. Permita que aquilo que o admira na obra dele se transforme em louvor e em confiança.
Use a sua voz como testemunho. Assim como o homem curado passou a falar, conte o que Deus fez por você. O seu relato pode despertar a fé de outra pessoa.
Confie no poder de Jesus sobre o que o aprisiona. Nenhuma força do mal resiste à sua ordem. Leve a ele aquilo que parece impossível de mudar.
Não pare na superfície do milagre. Busque o Autor, não apenas o benefício. O sinal existe para apontar para quem o realiza.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Qual é o significado de Mateus 9:33?
O versículo mostra Jesus expulsando o demônio, devolvendo a fala ao homem e despertando o espanto da multidão. Revela a sua autoridade sobre o mal, o cumprimento das profecias e a singularidade do seu ministério.
2. Como o versículo demonstra a autoridade de Jesus sobre o plano espiritual?
A expulsão é imediata e sem resistência: Jesus fala e o demônio sai. Não há disputa de poder, o que evidencia o seu domínio total sobre o mundo invisível.
3. O que a reação da multidão nos ensina sobre a fé?
A admiração é uma resposta legítima diante da obra de Deus, mas precisa avançar para a adoração e a confiança. O assombro é o início; a fé é o destino.
4. Como este milagre se conecta às profecias messiânicas?
Isaías havia anunciado que, nos tempos do Messias, a língua dos mudos falaria com alegria. Ao curar o mudo, Jesus confirma diante de todos que é o Salvador prometido.
5. Como aplicar hoje o poder de cura de Jesus?
Levando a ele tanto as feridas da alma quanto as necessidades concretas, na certeza de que o seu cuidado alcança a pessoa por inteiro.
6. O que o versículo ensina sobre como reagir à obra de Deus na vida dos outros?
Ensina a reconhecer e celebrar o agir de Deus, glorificando-o, em vez de competir, desconfiar ou minimizar — o caminho oposto ao dos fariseus.
9. Conexão com Outros Textos
A cena ganha profundidade quando lida ao lado de outras passagens.
Lucas 11:14
E Jesus estava expulsando um demônio, e este era mudo. E aconteceu que, saindo o demônio, o mudo falou, e as multidões se maravilharam.
Relato paralelo, com o mesmo padrão: expulso o demônio, devolvida a voz, o povo se admira.
Marcos 7:37
E ficavam muito admirados, dizendo: Ele faz tudo bem! Aos surdos faz ouvir, e aos mudos falar.
Eco direto do cumprimento de Isaías: Jesus faz o surdo ouvir e o mudo falar, e o povo reconhece a perfeição da sua obra.
Marcos 2:12
E logo ele se levantou, tomou o leito, e saiu na presença de todos, de tal maneira, que todos ficaram admirados, e glorificaram a Deus, dizendo: Nunca vimos algo assim.
Mesma reação de espanto que glorifica a Deus diante do inédito.
Mateus 12:23
E todas as multidões se admiravam e diziam: Não é este o Filho de Davi?
A admiração começa a levar o povo à pergunta certa sobre a identidade de Jesus.
João 7:46
Os oficiais responderam: Ninguém jamais falou assim como este homem.
Outra confissão da singularidade de Jesus, agora a respeito das suas palavras.
10. Original Grego e Análise
Texto em português: E, expulso o demônio, o mudo falou; e as multidões se maravilharam, dizendo: Nunca se viu algo assim em Israel!
Texto grego: καὶ ἐκβληθέντος τοῦ δαιμονίου, ἐλάλησεν ὁ κωφός· καὶ ἐθαύμασαν οἱ ὄχλοι λέγοντες, Οὐδέποτε ἐφάνη οὕτως ἐν τῷ Ἰσραήλ.
Transliteração: kai ekblēthentos tou daimoniou, elalēsen ho kōphos; kai ethaumasan hoi ochloi legontes, Oudepote ephanē houtōs en tō Israēl.
Análise palavra por palavra:
- ekblēthentos (tendo sido expulso): a forma do verbo indica uma ação concluída — o demônio já está fora. A libertação é o ponto de partida para o que vem depois.
- elalēsen (falou): verbo no passado pontual, marcando o instante exato em que a voz retorna. O silêncio se rompe de uma vez.
- kōphos (mudo): o mesmo termo do versículo anterior, ligando as duas cenas. Aqui descreve quem volta a falar.
- ethaumasan (maravilharam-se): expressa um espanto profundo, admiração diante de algo extraordinário.
- oudepote (nunca): advérbio enfático de negação total no tempo — "em tempo algum". Reforça o caráter inédito do que viram.
- ephanē (foi visto, apareceu): aponta para algo que se manifestou publicamente, à vista de todos, e não em segredo.
11. Conclusão
Mateus 9:33 mostra, em poucas palavras, o que acontece quando Jesus age: o mal recua, a voz volta e o povo se admira. A libertação espiritual e a cura física caminham juntas, e o resultado é uma multidão reconhecendo que está diante de algo nunca visto.
O versículo deixa um convite e um alerta. O convite é que o nosso espanto diante de Deus se transforme em adoração e testemunho. O alerta vem do contraste com os fariseus, que viram o mesmo milagre e escolheram a oposição. Diante da obra de Cristo, ninguém fica neutro: ou se rende em louvor, ou endurece o coração.













