📖 Navegar na Bíblia:
‹

Mateus 19:2

›
✍️ Por Alberto Adriano·20 de setembro de 2026·⏱️ 17 min de leitura·👁 46 acessos
Grandes multidões o seguiram, e ele as curou ali.
Uma estrada poeirenta no vale do Jordão com dezenas de pessoas caminhando em grupos, algumas carregando doentes em esteiras, sob o sol forte.

Estudo


Grandes multidões o seguiram, e ele as curou ali.

1. Introdução

Multidões grandes vão atrás dele pela estrada, e ele cura — nove palavras em grego que enchem o cenário de gente e mostram o que ele faz enquanto viaja.

Marcos, contando a mesma cena, escreve que ele voltou a ensiná-las. Mateus escreve que ele as curou. A troca de verbo entre os dois evangelhos é pequena e não é acidental.

E há o "ali", no fim da frase, que prende a cura ao chão novo — a margem leste do Jordão, fora da Galileia.

2. Contexto Histórico e Cultural

Uma multidão na estrada, naquele trecho e naquele mês, tem explicação material.

O vale do Jordão era a via de peregrinação. Quem subia da Galileia para Jerusalém nas grandes festas — a Páscoa, principalmente — descia pelo vale, e a estrada ficava cheia por semanas. As famílias andavam em grupo por segurança, e os grupos se juntavam uns aos outros pelo caminho. Um viajante conhecido, andando naquele sentido naquela época, atraía companhia sem precisar convocar ninguém.

Mateus não diz que era época de festa. Mas a viagem termina na entrada em Jerusalém às vésperas da Páscoa, cinco capítulos adiante, e a subida do vale é o caminho de quem vai para lá. Que a multidão fosse em parte de peregrinos é hipótese razoável, e não um dado do texto.

O lugar já tinha gente acostumada a se juntar

A margem leste do Jordão não era terra virgem para ajuntamentos religiosos. Era ali que João Batista havia batizado, segundo João 1:28 e 10:40, e para ali acorria gente de Jerusalém, da Judeia e de toda a região do rio. A população local tinha memória recente de multidões descendo à água atrás de um pregador.

Isso ajuda a explicar a facilidade com que as multidões se formam neste versículo. Jesus chega a um território onde o hábito já existia, e onde João — que o havia batizado — tinha deixado seguidores.

O que custava seguir alguém por uma estrada

Seguir um mestre pelo vale não era passeio. Significava carregar comida, dormir ao relento ou em aldeias no caminho, e ficar longe do trabalho por dias. Para um lavrador ou um pescador, cada dia na estrada era um dia sem produzir. Para um doente carregado por parentes, o custo era maior ainda: alguém precisava largar tudo para transportá-lo.

E os doentes iam. Mateus registra, em outros lugares, que as pessoas traziam os seus enfermos — carregados, deitados em padiolas, postos no chão diante dele. O número de pessoas que se dispunham a isso é a medida real do que se esperava do encontro.

A cura sem pagamento e sem santuário

No mundo daquele tempo, procurar cura tinha endereço e preço. Havia o médico, que cobrava; havia os santuários de cura, onde o doente dormia no recinto sagrado à espera de um sonho e deixava uma oferta; havia os amuletos e as fórmulas, vendidos por especialistas. Todos os caminhos passavam por um pagamento, um lugar consagrado ou um rito.

O que Mateus descreve não tem nada disso. A cura acontece na estrada, sem templo, sem oferta, sem fórmula e sem contrapartida registrada. O evangelho nunca menciona dinheiro nas curas de Jesus, e essa ausência é constante em todo o livro — o que faz dela uma escolha do texto, e não um esquecimento.

Uma terra fora da Judeia

A Pereia tinha população judaica majoritária, mas era periferia: longe do templo, encostada no deserto e na fronteira com o reino nabateu. Quem morava ali estava longe da estrutura religiosa de Jerusalém. Curar "ali" é curar numa margem — geográfica antes de ser qualquer outra coisa.

3. Análise Teológica do Versículo

"Grandes multidões o seguiram"

O verbo "seguir" tem dois usos em Mateus, e eles convivem sem que o evangelho os separe. Um é o do chamado: "siga-me", dito a Pedro, a Mateus, ao homem rico deste mesmo capítulo. O outro é o do movimento físico: a massa que anda atrás. Aqui é o segundo — e é sempre o segundo quando o sujeito é "as multidões".

A diferença importa porque o mesmo verbo, no mesmo livro, descreve o discípulo que larga a rede e a multidão que caminha atrás por alguns dias. O evangelho não avisa qual dos dois está em jogo; o leitor tem de ver pelo sujeito da frase.

E as multidões, em Mateus, nunca são apresentadas como seguidoras permanentes. Elas se formam, recebem, se admiram e se dispersam. No capítulo 27 há uma multidão diante de Pilatos. O evangelho não diz que é a mesma gente, e não diz que é outra.

"e ele as curou ali"

Marcos, no lugar correspondente, escreve que Jesus "voltou a lhes ensinar, como tinha costume" (Marcos 10:1). Mateus põe cura onde Marcos põe ensino.

Não é um caso isolado. Mateus faz a mesma substituição em outros pontos: onde Marcos 6:34 diz que Jesus, com compaixão da multidão, "começou a ensinar-lhes muitas coisas", Mateus 14:14 diz que ele "curou os que estavam doentes". O padrão se repete o bastante para não ser acaso.

Duas leituras foram propostas para isso, e nenhuma é demonstrável.

Primeira leitura: Mateus concentra o ensino nos cinco discursos. Como o evangelho reúne as falas longas em cinco blocos, o ensino avulso no meio da narrativa perde função; o que sobra para os intervalos é a ação. Nesse caso a troca é de arquitetura do livro, não de conteúdo.

Segunda leitura: Mateus está compondo o retrato do Messias curador. O evangelho cita Isaías 53:4 em Mateus 8:17 — "ele tomou sobre si as nossas fraquezas e carregou as nossas doenças" — e amarra as curas a essa profecia. Sob essa leitura, cada sumário de cura acrescenta uma linha ao mesmo quadro.

As duas podem valer juntas. O que o texto oferece é a troca de verbo; o motivo é inferência.

O que é um sumário, e o que ele faz aqui

Mateus tem várias frases assim: curtas, sem nome de doente, sem diálogo, sem lugar preciso. "E Jesus percorria toda a Galileia... curando toda enfermidade e toda doença no povo" (Mateus 4:23). "Muitos o seguiram, e ele curou todos eles" (Mateus 12:15). "E vieram a ele grandes multidões... e ele os curou" (Mateus 15:30).

Essas frases não contam um episódio. Elas dizem que muitos episódios aconteceram e não serão contados. Servem para duas coisas: dar escala ao que o evangelho narra em detalhe, e costurar um bloco ao seguinte.

Aqui a função de costura é visível. O versículo 1 é uma viagem; o versículo 3 é uma controvérsia. Entre os dois, este versículo põe o cenário em pé — há gente, há necessidade, há Jesus ocupado — e é diante dessa plateia que os fariseus vão se aproximar. A pergunta sobre o divórcio não será feita a sós.

"ali"

O advérbio no fim da frase parece dispensável, e não é. Ele amarra a cura ao lugar novo — a outra margem, fora da Galileia, fora do circuito conhecido. Em Mateus, o "ali" costuma aparecer quando o lugar acabou de mudar.

Há uma consequência discreta. Toda a primeira parte do evangelho mostrou Jesus curando na sua região, entre os seus. Este versículo mostra que a mudança de território não mudou o que ele faz. O texto não comenta isso; apenas põe o advérbio.

O que o versículo não diz

Não diz quantos eram, não nomeia um só doente, não descreve uma só cura, não registra uma palavra dita. Também não diz que os curados o seguiram depois. É um sumário, e o sumário paga o preço de ser sumário: dá o volume e apaga as pessoas.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

Jesus — a caminho de Jerusalém, cura na estrada. É a última vez que Mateus registra cura de multidões fora de Jerusalém; a próxima menção de curas coletivas será no pátio do templo, em Mateus 21:14.

As multidões — em Mateus, um personagem coletivo constante e sem nome. Aparecem admiradas em Mateus 7:28, com fome em Mateus 15:32, gritando na entrada da cidade em Mateus 21:9. O evangelho nunca as identifica individualmente nem diz de onde vinham, exceto em Mateus 4:25.

Os doentes — implícitos no verbo "curou". Mateus lista, em outros sumários, quem costumava aparecer: mancos, cegos, mudos, aleijados, paralíticos, os que os contemporâneos chamavam de lunáticos e os tidos por possuídos.

Lugares

A margem leste do Jordão — o "ali" do versículo. Território da Pereia, fora da Galileia e fora da Judeia propriamente dita.

A estrada do vale — a via de peregrinação entre o norte e Jerusalém, usada nas grandes festas.

Eventos

A formação da multidão — o ajuntamento que acompanha a travessia e serve de plateia para a controvérsia dos versículos seguintes.

As curas — relatadas em bloco, sem nenhum caso narrado.

5. Pontos de Ensino

O que é contado em detalhe é uma amostra

Os sumários dizem que houve muito mais do que o evangelho narra. Quem lê Mateus está lendo uma seleção, e o próprio livro avisa disso nestas frases curtas.

Seguir e ser discípulo não são sinônimos

O mesmo verbo cobre a multidão que caminha atrás e o pescador que larga a rede. Mateus não distingue com palavras; distingue com o sujeito da frase e com o que vem depois. A multidão recebe e se dispersa; o discípulo é chamado pelo nome.

A mudança de território não mudou a prática

O "ali" põe a cura fora da Galileia, na primeira parada da viagem. O que Jesus fazia entre os seus, ele faz também fora.

Mateus prefere a cura ao ensino nos intervalos

Onde Marcos escreve "ensinava", Mateus escreve "curou". A comparação entre os dois evangelhos no mesmo ponto mostra uma escolha de composição, e é um dos casos em que a diferença entre eles é fácil de verificar.

O cenário do que vem a seguir

A controvérsia sobre o divórcio acontece diante dessa multidão. Quem pergunta tem plateia, e quem responde também. O versículo existe, em parte, para montar esse palco.

6. Aspectos Filosóficos

Uma frase como esta levanta uma questão que costuma passar em branco: o que se perde quando muitas histórias viram um número.

Um sumário é uma operação de escala. Ele troca o caso pelo volume: em vez de um cego com nome, uma quantidade. O ganho é real — sem esse recurso, nenhum relato caberia num livro, e o leitor não teria como saber que o pouco narrado é amostra de muito. A perda também é real, e é do mesmo tamanho: cada pessoa curada neste versículo teve um corpo, uma história e um nome, e nada disso sobreviveu à frase.

A escolha entre contar um caso e contar o conjunto não é neutra. O caso individual produz reconhecimento: o leitor vê alguém, e o que vê tem rosto. O conjunto produz magnitude: o leitor entende o tamanho, e o tamanho é justamente o que nenhum caso isolado consegue transmitir. As duas formas dizem verdades diferentes sobre o mesmo acontecimento, e nenhuma substitui a outra.

Mateus usa as duas. O evangelho narra em detalhe o leproso, o centurião, a sogra de Pedro, a mulher que tocou a veste — e depois escreve "e curou todos". O detalhe é o que faz o leitor acreditar; o sumário é o que faz o leitor entender a escala. Retirado um dos dois, o retrato desanda: só detalhes fazem parecer episódico o que era constante, e só sumários fazem parecer estatística o que era encontro.

A multidão como sujeito

Há uma segunda questão no versículo, e é sobre o que uma multidão é. O texto atribui ação a ela: ela seguiu. Mas uma multidão não decide; quem decide são as pessoas que a compõem, cada uma pelo seu motivo. Chamá-la de sujeito é um atalho de linguagem que esconde essa diversidade.

O atalho é conveniente e engana. Faz parecer que houve uma escolha coletiva onde houve centenas de escolhas individuais e nem sempre coincidentes: um veio pela cura, outro por curiosidade, outro porque a família inteira ia, outro porque já estava na estrada indo para a festa. O relato apaga essas razões e devolve um verbo no plural.

É por isso que a multidão dos evangelhos é tão difícil de julgar. Ela recebe, se admira, aclama na entrada de Jerusalém e grita diante do governador, e o leitor fica tentado a construir uma personagem volúvel a partir disso. O texto, porém, nunca diz que é a mesma gente. A personagem coletiva é uma construção da leitura, não uma afirmação do evangelho.

7. Aplicações Práticas

O volume e o caso

Quem trabalha com muita gente aprende a falar em números e perde a capacidade de ver rostos; quem só vê rostos perde a noção do tamanho do problema. O versículo mostra as duas coisas convivendo no mesmo livro: casos narrados um a um, e frases que dizem "todos". Sustentar as duas ao mesmo tempo é difícil e é necessário.

O trabalho durante o deslocamento

A cena é de viagem, e o trabalho não parou. A estrada não foi tratada como intervalo. Isso vale para qualquer rotina em que boa parte do tempo se gasta entre um lugar e outro.

O que se faz longe do território conhecido

A cura aconteceu fora da Galileia, na primeira parada de uma viagem, diante de gente desconhecida. Fazer o mesmo fora do próprio lugar, sem a estrutura e sem o reconhecimento que se tinha em casa, é uma exigência real.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. A diferença entre Mateus ("curou") e Marcos ("ensinou") indica que um dos dois está errado?

Não é o que a diferença mostra. Os dois descrevem um período de dias ou semanas na estrada, em que houve cura e houve ensino; cada evangelho registrou o que servia ao seu plano. Mateus concentra o ensino em cinco discursos e deixa a ação para os intervalos; Marcos não tem essa estrutura. A escolha é de composição, e é verificável comparando os dois textos em vários pontos.

2. O versículo diz que as multidões creram em Jesus?

O texto não diz. Diz que seguiram e que foram curadas. Em Mateus, as multidões costumam aparecer admiradas, necessitadas ou assustadas, e o evangelho raramente lhes atribui fé. Atribuir conversão a elas aqui é acrescentar ao texto.

3. Por que o versículo não conta nenhuma cura em particular?

Porque não é um relato de episódio, e sim um resumo. A função dele é dar escala e ligar a viagem do versículo 1 à controvérsia do versículo 3. Mateus usa esse recurso pelo menos meia dúzia de vezes, sempre nas passagens de um bloco a outro.

4. Havia motivo prático para tanta gente na estrada?

Havia. O vale do Jordão era a via de peregrinação para Jerusalém, e nas semanas que antecediam as grandes festas a estrada ficava cheia. Além disso, a margem leste tinha memória recente dos ajuntamentos em torno de João Batista. Que a multidão deste versículo fosse em boa parte de peregrinos é hipótese plausível; o texto não afirma.

5. Por que o "ali" aparece no fim da frase?

Porque o lugar tinha acabado de mudar. O versículo anterior tirou Jesus da Galileia; este mostra que a cura continua na margem nova. O advérbio prende a ação ao território recém-alcançado, sem que o texto precise comentar a mudança.

9. Conexão com Outros Textos

O mesmo trecho em Marcos

Marcos 10:1 — "E levantando-se dali, Jesus se foi aos limites da Judeia, por dalém do Jordão; e as multidões voltaram a se juntar a ele, e voltou a lhes ensinar, como tinha costume."

Onde Mateus escreve "curou", Marcos escreve "ensinar". É o ponto de comparação mais direto do versículo.

Os outros sumários de cura em Mateus

Mateus 4:23 — "E Jesus percorria toda a Galileia, ensinando nas sinagogas deles, pregando o evangelho do Reino e curando toda enfermidade e toda doença no povo."

Mateus 9:35 — "E Jesus percorria todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas deles, pregando o evangelho do Reino e curando toda enfermidade e toda doença."

Mateus 12:15 — "Sabendo disso, Jesus retirou-se dali. Muitos o seguiram, e ele curou todos eles,"

Mateus 15:30 — "E vieram a ele grandes multidões, trazendo consigo mancos, cegos, mudos, aleijados e muitos outros; e os colocaram aos pés de Jesus, e ele os curou."

Quatro frases do mesmo feitio, espalhadas pelo evangelho. Juntas, dizem que o narrado em detalhe é uma pequena parte.

A substituição de "ensinar" por "curar", noutro ponto

Mateus 14:14 — "Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão, teve compaixão dela e curou os que estavam doentes."

No lugar correspondente, Marcos 6:34 diz que ele começou a ensinar-lhes muitas coisas. O mesmo padrão deste versículo.

O último sumário de cura do evangelho

Mateus 21:14 — "Cegos e mancos aproximaram-se dele no templo, e ele os curou."

Depois deste versículo, só resta esse — e já dentro de Jerusalém.

As curas e a profecia

Mateus 8:17 — "para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías: Ele tomou sobre si as nossas fraquezas e carregou as nossas doenças."

É a chave com que Mateus liga a atividade de cura ao que esperava do Messias.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Grandes multidões o seguiram, e ele as curou ali.

Texto grego (Textus Receptus)

καὶ ἠκολούθησαν αὐτῷ ὄχλοι πολλοί, καὶ ἐθεράπευσεν αὐτοὺς ἐκεῖ.

Transliteração

kai ēkolouthēsan autō ochloi polloi, kai etherapeusen autous ekei.

Análise palavra por palavra

ἠκολούθησαν — ēkolouthēsan, "seguiram". Aoristo do indicativo ativo de akoloutheō, formado de a- com sentido de companhia e keleuthos, "caminho": literalmente "ir pelo mesmo caminho que". O verbo rege dativo, e por isso "a ele" (autō) aparece sem preposição. Em Mateus ele cobre tanto o chamado ao discipulado (Mateus 4:20, 9:9, e o convite ao homem rico em Mateus 19:21) quanto o deslocamento físico das multidões; a palavra é a mesma e o sentido se decide pelo contexto.

ὄχλοι πολλοί — ochloi polloi, "multidões muitas". Ochlos é a massa de gente reunida, a turba, e tem um tom levemente depreciativo no grego clássico — a gente comum, por oposição aos notáveis. Mateus usa a palavra cerca de cinquenta vezes, quase sempre em plural com polloi, e sempre para o povo indiferenciado. O plural de ochlos é curioso: não é uma multidão grande, são várias multidões, o que sugere grupos que se somam.

ἐθεράπευσεν — etherapeusen, "curou". Aoristo do indicativo ativo de therapeuō. O sentido primeiro do verbo não é médico: é "servir, prestar serviço, cuidar de" — do mesmo campo de therapōn, "servidor, assistente". Daí passou a "cuidar de um doente" e, no uso do Novo Testamento, a "curar". A palavra portuguesa "terapia" vem daí. O aoristo apresenta a ação como um todo concluído, sem descrever duração: não diz se foi num dia ou em semanas.

αὐτοὺς — autous, "os", no masculino plural. O pronome retoma as multidões, e não "os doentes entre eles": gramaticalmente, quem foi curado foram as multidões. Mateus faz o mesmo em Mateus 12:15. Em Mateus 14:14, ao contrário, ele especifica "os que estavam doentes".

ἐκεῖ — ekei, "ali". Advérbio simples de lugar. Não é enfático em grego, mas tem função: amarra a cura ao território que o versículo anterior acabou de nomear. As edições críticas modernas trazem o mesmo advérbio; não há variante neste versículo.

11. Conclusão

O versículo é de transição, e cumpre a função com nove palavras. Ele enche a estrada de gente, mostra Jesus trabalhando durante a viagem e monta a plateia diante da qual a controvérsia dos próximos versículos vai acontecer.

A troca de verbo em relação a Marcos — cura onde o outro evangelho põe ensino — é verificável e se repete em outros pontos. Ela não indica contradição sobre o que aconteceu, e sim escolhas diferentes de composição: Mateus reúne o ensino longo em cinco blocos e deixa a ação para os intervalos.

O sumário paga o preço de ser sumário. Não há nome, não há caso, não há diálogo. O que o leitor recebe é escala: muita gente, muita necessidade, e a informação de que o pouco narrado em detalhe no evangelho é amostra de algo bem maior.

O "ali" do fim da frase é o que amarra tudo ao chão novo. Fora da Galileia, em território de fronteira, longe do templo e das sinagogas conhecidas, a prática continua a mesma. O texto não comenta a mudança; registra o advérbio e segue.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Mateus 19:2

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%