Ele lhes disse: “De fato vocês beberão o meu cálice; mas sentar-se à minha direita e à minha esquerda não cabe a mim conceder: isso pertence àqueles para quem foi preparado por meu Pai”.
1. Introdução
Jesus divide o pedido em dois e responde diferente a cada metade. O cálice, que ninguém pediu, ele concede: “De fato vocês beberão o meu cálice”. Os lugares, que eram o pedido, ele recusa — e a recusa é a frase mais difícil do capítulo, porque ele não diz que não quer, diz que não lhe cabe. O motivo vem numa passiva com o agente nomeado: os lugares já estão preparados, e quem os preparou foi o Pai. E, ao recusar, ele repete as palavras do pedido trocando um pronome: os lados que a mãe descreveu como dele passam a ser ditos por ele mesmo.
2. Contexto Histórico e Cultural
O que a história registra sobre os dois que beberiam o cálice
A promessa é verificável, e é raro que uma promessa de evangelho seja. Ela diz que dois homens nomeados morrerão como o mestre — e a história antiga tem material sobre os dois.
Sobre Tiago não há dúvida: Atos 12:2 registra que Herodes Agripa o matou à espada, por volta do ano 44, e é a única execução de um dos doze narrada no Novo Testamento. O episódio e os seus dados estão no estudo de Mateus 16:25.
Sobre João há duas tradições, e elas não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.
A primeira é a da velhice em Éfeso. Irineu de Lião, no fim do século II, escreve em Contra as heresias que João viveu até o tempo de Trajano, e Policrates, bispo de Éfeso, numa carta que Eusébio conserva na História eclesiástica, arrola João entre os grandes que repousam na cidade. É a tradição que a igreja antiga transmitiu amplamente, e a que sustenta a atribuição do quarto evangelho a um homem de idade avançada.
A segunda diz que João foi morto, como o irmão. Ela aparece atribuída a Papias — bispo de Hierápolis na primeira metade do século II, cuja obra se perdeu e só é conhecida por citações. Filipe de Side, no século V, e Jorge Hamartolos, no IX, informam ter lido no segundo livro de Papias que João, o irmão de Tiago, foi morto pelos judeus.
O argumento contra essa segunda tradição é forte: Eusébio leu Papias e citou-o com interesse, e não menciona nada parecido; Irineu, que também o conheceu, sustenta o contrário. Um fragmento transmitido por dois autores muito posteriores, contra o silêncio de quem tinha o livro na mão, não se sustenta como notícia histórica, e a maioria dos estudiosos o descarta.
Há uma observação de método que o caso impõe, e ela corta nos dois sentidos: uma tradição que faz uma profecia se cumprir é suspeita justamente por isso, porque pode ter nascido da profecia e não do fato. Quem lia este versículo e sabia do martírio de Tiago tinha um motivo pronto para procurar um martírio de João — e quem procura acha. Não é possível decidir. O que se pode afirmar é que o cumprimento literal da promessa nos dois irmãos depende de uma fonte frágil, e que o Novo Testamento só o documenta em um deles.
Lugares já preparados: o que a expressão significava
“Está preparado por meu Pai” não é uma imagem inventada na hora. A literatura judaica do período usava esse vocabulário para falar do mundo futuro, e o usava no mesmo tempo verbal: as coisas boas não vão ser feitas, já estão prontas.
O exemplo mais claro é o quarto livro de Esdras, obra judaica escrita por volta do fim do primeiro século — aproximadamente a mesma época do evangelho de Mateus. No capítulo 8, versículo 52, o anjo diz ao vidente: para você o paraíso está aberto, a árvore da vida está plantada, o tempo futuro está preparado, a cidade está construída, o descanso está designado. Cinco verbos no mesmo formato, todos indicando coisa concluída antes de o destinatário chegar.
No lado rabínico, a Mishná abre o capítulo 10 do tratado Sanhedrin com a fórmula de que todo Israel tem uma porção no mundo futuro, e passa a listar exceções. A porção é atribuída, não conquistada em concurso; quem atribui é Deus, e nenhum sábio se apresenta como distribuidor de porções. Essa reticência explica por que a frase de Jesus não soaria, a quem a ouviu, como confissão de fraqueza.
3. Análise Teológica do Versículo
“De fato vocês beberão o meu cálice”
Ele concede a parte que ninguém pediu.
O grego marca a divisão com um par de partículas que o português resolve com “de fato… mas”: quanto ao cálice, sim; quanto ao assento, não. A frase é, na forma, um despacho de duas linhas sobre um requerimento de dois itens — e o item deferido é o que não estava no pedido.
A pergunta virou anúncio. No versículo anterior havia “vocês podem?”; aqui há “vocês beberão”, no futuro do indicativo: não é licença para beber, é informação sobre o que vai acontecer. E o cálice ganha dono — ele diz “o meu cálice”, com possessivo, onde Marcos 10:39 escreve “o cálice que eu bebo”.
É também o único lugar em Mateus onde Jesus promete a discípulos nomeados uma parte no próprio destino. Em Mateus 16:24 a exigência da cruz é feita a “alguém”, sem nome; em Mateus 10:38-39, a um grupo. Aqui são dois homens identificados. Se o cumprimento se deu de fato nos dois é questão histórica, e o material está no item 2.
“mas sentar-se à minha direita e à minha esquerda”
Ele recusa citando o pedido. Não resume nem reformula: repete as palavras da mãe — e, ao repeti-las, troca um pronome.
No versículo 21 o pedido é “um à Tua direita e outro à Tua esquerda”: os lados são descritos de fora, por quem olha o trono e calcula distâncias. Aqui ele diz “à minha direita e à minha esquerda”. A frase passa da segunda para a primeira pessoa, e com isso os dois lugares deixam de ser posições num arranjo que outra pessoa imagina e passam a ser os lados de quem está falando.
Além disso, o que ele recusa não é um assento: é um ato. O grego põe o verbo “sentar-se” onde o português espera um substantivo, e a recusa incide sobre o sentar, não sobre a cadeira — o que desloca a pergunta de quantos lugares existem para quem faz alguém sentar-se. A forma grega está no item 10, com a diferença de cópia deste trecho, em que parte dos manuscritos lê “ou” em lugar de “e”.
A fórmula “um à direita e outro à esquerda” volta uma única vez em Mateus, na cena das três cruzes, e o que se conclui ou não disso está no estudo de Mateus 20:21.
“não cabe a mim conceder”
Amaciar esta frase não ajuda ninguém. Lida ao pé da letra, ela diz que o Filho não tem em suas mãos a distribuição dos lugares que lhe pedem — e a forma grega é ainda mais seca do que a portuguesa: “não é meu dar”.
Por que o Filho diz que não pode dar o que lhe pedem? Cinco leituras atravessam a história da interpretação.
Primeira leitura: é uma negação de poder. O Filho não tem essa autoridade, e o versículo o declara. Foi a leitura dos arianos, no século IV, que somaram este versículo aos outros de que se serviam para sustentar que o Filho é inferior ao Pai — entre eles a pergunta “por que você me chama de bom?”, de Mateus 19:17. É a leitura mais direta do grego, e é por isso que obrigou tanta gente a responder.
Segunda leitura: o “mas” significa “exceto”. Nessa saída a frase é “não me cabe conceder, a não ser àqueles para quem está preparado”, e a dificuldade desaparece: Jesus passa a afirmar que dá, só não dá a qualquer um. O Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) defende essa leitura, e Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) a adota como sentido correto. O apoio gramatical existe — em Marcos 9:8 a mesma conjunção grega funciona assim, “não viram ninguém, a não ser Jesus somente” —, mas o Cambridge Bible (“Bíblia de Cambridge”, série de comentários da universidade inglesa) observa que a construção, aqui, é duvidosa. É defensável; não é segura.
Terceira leitura: falta apenas o verbo. Depois do “mas” não há predicado nenhum no grego, e o leitor tem de fornecer um — “mas será dado àqueles para quem está preparado”. Meyer (Heinrich August Wilhelm Meyer, exegeta alemão do século XIX) trabalha assim e recusa, com aspereza, as tentativas de reduzir o que a frase reserva: há coisas que Deus guarda para si, e não há atenuante a procurar.
Quarta leitura: a frase é sobre o ofício, não sobre a natureza. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) sustenta que a Cristo não faltava poder: como mediador, a distribuição não era matéria a ser fixada por ele naquele momento e segundo a própria vontade. É a linha que os padres capadócios desenvolveram contra Eunômio, no século IV, ao responder aos arianos — a obediência e a condição servil do Filho pertencem à encarnação, e não ao que ele é; Gregório de Nissa formula assim: ao tomar parte na criação, ele tomou parte também na servidão. A leitura é coerente, e depende de uma distinção que o versículo não faz.
Quinta leitura: ele não está dizendo que não pode, e sim que não fará por favor. Crisóstomo, na Homilia 65 sobre Mateus, argumenta que a frase não nasce de falta de vigor, mas da recusa de corromper a lei da justiça: o lugar vai a quem se tornou apto para ele. O Expositor’s Greek Testament (“Testamento Grego do Expositor”, comentário inglês do fim do século XIX) usa a comparação do presidente dos jogos gregos, que entrega a coroa ao vencedor e não pode entregá-la por simpatia. Bengel (Johann Albrecht Bengel, filólogo alemão do século XVIII) diz o mesmo de outro modo: ele não nega a autoridade, declara a quem dará.
Entre as cinco, o versículo não decide. O que ele faz, e todas reconhecem, é retirar o assunto do terreno do pedido. Nenhuma das leituras gregas torna a recusa mais suave: a que mais a atenua, a segunda, ainda diz que a decisão não é dele.
“isso pertence àqueles para quem foi preparado por meu Pai”
O verbo está num tempo que informa duas coisas ao mesmo tempo: a ação acabou e o resultado permanece. Os lugares estão preparados — antes do pedido, antes da conversa, antes da viagem.
O mesmo verbo volta duas vezes no fim do evangelho, e as duas ocorrências são a chave. Em Mateus 25:34 o Rei convida à herança do Reino “que foi preparado para vocês desde a criação do mundo”; em Mateus 25:41 o fogo eterno está “preparado para o diabo e os seus anjos”. Nas duas a preparação é anterior, e na primeira o critério é dado com todas as letras no resto da cena: o que se fez aos menores. Mateus fornece, em outro lugar, o critério que aqui ele cala — e o critério não é linhagem, não é pedido e não é proximidade pessoal.
Jerônimo, no comentário a Mateus, tira daí a formulação mais afiada da tradição antiga: o reino dos céus não pertence a quem dá, mas a quem recebe, e quem se provar digno receberá o que está preparado “não para uma pessoa, mas para uma vida”. Na sequência ele registra, e rejeita, uma leitura que quase ninguém cita — alguns entendiam que os dois lugares estavam destinados a Moisés e Elias, vistos pouco antes conversando com Jesus no monte. Jerônimo acha isso implausível, e observa que os nomes dos que se sentam no Reino não são ditos justamente para que os demais não se considerem excluídos pelos poucos que fossem nomeados.
Fica o limite: o verbo não diz se “preparado” significa decidido de antemão a respeito de pessoas determinadas, ou reservado para quem vier a se ajustar. É sobre essa ambiguidade que se construíram séculos de disputa a respeito de predestinação, e este versículo não a resolve. Ele afirma que os lugares não estão à venda e que o Pai é o agente — e a passiva, aqui, não esconde ninguém, porque nomeia quem age.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
“Meu Pai”
A pessoa decisiva do versículo não está presente na cena: é quem preparou os lugares.
“Meu Pai”, com possessivo na primeira pessoa, é uma marca do evangelho de Mateus. Ele o põe na boca de Jesus cerca de quinze vezes — entre elas Mateus 7:21, Mateus 11:27, Mateus 18:35, Mateus 25:34 e Mateus 26:39 —, e é a forma que Jesus usa ao falar da própria relação com Deus, nunca a que usa ao ensinar os discípulos a rezar. Ali é “Pai nosso”. A diferença é consistente em Mateus e não é comentada por ele.
Neste versículo o possessivo trabalha em contraste com o outro possessivo da frase. Jesus diz “o meu cálice” e diz “meu Pai”, e entre as duas coisas ele põe o que não é dele.
Os que não são nomeados
“Aqueles para quem foi preparado” é uma expressão sem nomes. Ninguém é identificado, nem no versículo nem no resto do evangelho: Mateus não informa quem se senta à direita e à esquerda, e a promessa de Mateus 19:28 fala de doze tronos sem distribuir os assentos. Jerônimo lê nesse silêncio uma intenção, e a leitura é dele, não do texto.
Os dois irmãos, e o que fica pendente entre eles
Tiago e João saem desta conversa com um sim e um não. Em nenhum ponto do evangelho eles respondem à segunda metade — não há réplica, não há protesto, não há aceitação registrada. O versículo seguinte informa o que aconteceu em vez disso: os outros dez se indignaram.
5. Pontos de Ensino
Um pedido pode ser deferido em parte
A resposta não é sim nem não: é sim para um item e não para o outro, com o motivo de cada um. É o formato mais honesto que existe para lidar com pedido misto, e é raro na linguagem religiosa, que costuma oscilar entre a promessa total e a recusa total.
O que se concede não é o que se pediu
Eles pediram lugar; receberam cálice. A parte deferida do requerimento é a que não estava nele — e continua sendo resposta ao requerimento, não mudança de assunto.
Lugar não se obtém pedindo
Qualquer que seja a leitura da frase difícil, ela retira o assunto do terreno do requerimento. Nem o pedido da mãe, nem a proximidade dos dois, nem a disposição deles para o cálice produzem o assento.
O critério existe, e está em outro lugar
O versículo não diz por que alguém recebe o lugar preparado. Mateus 25:34-40 diz, na cena do julgamento, e o critério é o que se fez aos menores. Quem quiser saber o que aqui está calado precisa ir até lá.
O que o versículo não ensina
Ele não ensina que o Filho é menor que o Pai — essa é uma das cinco leituras, e a que a tradição cristã majoritária recusou. Também não ensina que os lugares estejam fechados: o texto diz que estão preparados, e não informa para quem.
6. Aspectos Filosóficos
Um homem com autoridade reconhecida declara, sobre a própria autoridade, que ela não alcança determinada coisa. O problema filosófico do versículo é esse — e ele é mais duro do que parece, porque a filosofia política moderna aprendeu a pensar limites de poder como limites externos: constituição, separação de poderes, direitos. Limite declarado de dentro é outra figura. A teoria da soberania lida mal com ela: um soberano que pode se vincular a si mesmo já não é soberano, e um que não pode não está vinculado.
Solovyov: o divino se mostra por autolimitação
É nesse ponto que se instala toda a obra de Vladimir Solovyov (1853-1900), filósofo russo, nas Leituras sobre a Deus-humanidade (Tchtenia o Bogotchelovetchestve, 1878-1881 — o título russo é formado sobre a palavra que Solovyov cunhou, “Deus-humanidade”, a união do divino e do humano sem supressão de nenhum dos dois).
A tese é que o divino não se manifesta completamente no exercício da onipotência, e sim num ato de renúncia a si. Solovyov constrói isso lendo Filipenses 2:7, onde o texto diz que Cristo “se esvaziou” — o termo grego que a teologia chama de kenosis, “esvaziamento”, a renúncia voluntária a prerrogativas. Para Solovyov, esse esvaziamento não é um episódio: é a forma pela qual o absoluto pode se relacionar com uma liberdade que não seja a sua. Poder que não se limita não é, no sistema dele, o poder mais alto — é uma força entre forças, e por isso incapaz de gerar outra coisa além de submissão.
Aplicado ao versículo, o argumento diz que “não me cabe conceder” não seria subtração de divindade, e sim a sua forma própria. É uma leitura possível, e conveniente para quem quer salvar a frase; e é preciso marcar que ela tem um preço alto, apontado pelos críticos de Solovyov desde o início: se os atributos divinos dependem de uma decisão, eles deixam de ser atributos.
O impostor é o que distribui
Há um segundo texto de Solovyov que toca este versículo de maneira quase incômoda: a Breve narrativa do Anticristo, que fecha os Três diálogos (Tri razgovora, 1900), escrita no último ano da vida dele.
Na narrativa, o Anticristo chega ao poder mundial e convoca um concílio das igrejas. Ali ele não ameaça ninguém: oferece a cada confissão exatamente aquilo que ela mais quer — aos católicos a restituição da sede e da autoridade do papa, aos ortodoxos um instituto de arqueologia cristã, aos protestantes um centro de pesquisa bíblica. Os três que recusam pedem Cristo. A marca do impostor, em Solovyov, é que ele concede o que se pede.
O contraste com o versículo é direto e não é tema emprestado: quem tem autoridade recusa distribuir, e na história russa quem distribui é a figura falsa. O ponto filosófico é que atender o pedido é a forma mais barata de exercer poder, porque transforma quem pede em devedor e dispensa qualquer critério.
O limite desta leitura
Nada disso está em Mateus: o evangelho não discute atributos divinos, não usa a palavra kenosis e não tem teoria da soberania. E há uma objeção limpa a fazer a Solovyov aqui — Jesus não diz “eu escolho não dar”, diz “não me cabe dar”. Se o limite não é escolhido, a autolimitação não explica a frase: ela ilumina a quarta e a quinta leituras do item 3, não a primeira. O que fica é a pergunta que Solovyov obriga a fazer: por que se supõe, sem exame, que poder maior é o que concede mais?
7. Aplicações Práticas
Dizer “isso não me cabe” sem perder a autoridade
Quem exerce qualquer função de decisão recebe pedidos que não estão na sua alçada, e a saída mais comum é a pior: prometer o que não se pode entregar, para não parecer sem poder. O versículo mostra o contrário — declarar o limite e continuar respondendo pelo que é seu. Jesus não se desculpa, não explica em excesso e não deixa de conceder o que lhe cabe conceder.
Não transformar proximidade em vantagem
Os dois pediram com um capital real: eram dos mais próximos, e a mãe estava ali para lembrar isso. A resposta não nega a proximidade e nega o efeito dela. É o que qualquer pessoa em posição de escolher precisa conseguir fazer com quem lhe é próximo — e é a coisa mais difícil de fazer, porque a recusa passa por ingratidão.
Um limite honesto
O que o versículo não oferece é conforto sobre o próprio lugar. Ele diz que os lugares estão preparados e não diz para quem, e usá-lo para garantir a alguém que o seu lugar está guardado é acrescentar ao texto exatamente a informação que ele retém. A aplicação possível é sobre como responder a pedidos, não sobre como ter certeza do próprio destino.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se os lugares já estão preparados, o pedido teria alguma chance?
Pela letra do versículo, não — e não porque o pedido fosse mau, mas porque a matéria não se decide por pedido. O texto não diz, porém, que os destinatários já estavam escolhidos independentemente do que fizessem: “preparado” informa que o lugar está pronto, e cala a respeito do critério. A pergunta continua aberta, e é dela que vive a discussão sobre predestinação.
Por que ele repete as palavras do pedido em vez de resumi-las?
O texto não explica. O efeito é que a recusa fica colada ao que foi pedido, sem margem para o requerente alegar que foi mal entendido — e, ao repetir, Jesus muda o pronome, o que transforma a descrição de fora numa fala em primeira pessoa. Ler nisso uma intenção é leitura; o que se observa é o procedimento.
A frase difícil prova que o Filho é inferior ao Pai?
Foi usada nesse sentido no século IV, e é uma das cinco leituras do item 3. As respostas antigas não se apoiam em correção do texto, e sim em distinções — entre o que o Filho é e o ofício que exerce, ou entre não poder e não querer fazer por favor. Nenhuma dessas distinções está escrita aqui, e o versículo, por si, não decide a questão.
Por que ele promete o cálice, que é ruim, e nega o assento, que é bom?
Porque o que ele tem para repartir é o cálice. Os lugares não são dele; a própria morte é. Dito assim, o versículo deixa de parecer um prêmio de consolação e passa a ser um inventário: ele dá o que possui.
A promessa se cumpriu nos dois irmãos?
Em Tiago, sim, e o Novo Testamento o registra. Em João, depende de uma tradição frágil, examinada no item 2. É o ponto em que a honestidade obriga a dizer que a verificação não fecha.
9. Conexão com Outros Textos
O que está preparado
Mateus 25:34 — “Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que foi preparado para vocês desde a criação do mundo’.”
Mateus 25:41 — “Então dirá também aos que estiverem à esquerda: ‘Afastem-se de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e os seus anjos’.”
O mesmo verbo deste versículo, nas duas direções. Em Mateus 25 a cena inteira dá o critério que aqui fica calado, e o critério é o que se fez aos menores.
1 Coríntios 2:9 — “As coisas que olho não viu, nem ouvido ouviu, nem subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam.”
Paulo usa o mesmo verbo grego e acrescenta uma condição que este versículo não nomeia: amar. A frase é uma citação livre de Isaías 64:4, e a diferença está justamente na cláusula final — no profeta são “os que esperam nele”, e em Paulo “os que o amam”. Quem procura, no Novo Testamento, um critério para o que está preparado, encontra aqui um; e ele não é o mesmo que Mateus 25 fornece, embora não o contrarie.
A promessa de doze tronos de Mateus 19:28, que provavelmente gerou o pedido, distribui tronos e não distribui assentos — e é essa lacuna que a mãe tentou preencher.
Um lugar preparado, dito de outro modo
João 14:2-3 — “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se não fosse assim, eu teria dito a vocês. Vou preparar lugar para vocês. E, quando eu for e preparar lugar para vocês, voltarei e os levarei comigo.”
O verbo é o mesmo do versículo, e a diferença é decisiva: em João quem prepara é Jesus. As duas frases não se contradizem — uma fala de moradas, a outra de dois assentos ao lado do trono —, mas convém não ler uma pela outra.
Onde Marcos difere
Marcos 10:40 — “Mas o sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não é meu dar, e sim daqueles para quem está preparado.”
Marcos escreve “ou”, e não “e”; e não repete o possessivo na segunda metade. As duas diferenças são pequenas e estão no item 10, porque envolvem também variação entre manuscritos.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Ele lhes disse: “De fato vocês beberão o meu cálice; mas sentar-se à minha direita e à minha esquerda não cabe a mim conceder: isso pertence àqueles para quem foi preparado por meu Pai”.
Texto grego
λέγει αὐτοῖς· Τὸ μὲν ποτήριόν μου πίεσθε, τὸ δὲ καθίσαι ἐκ δεξιῶν μου καὶ ἐξ εὐωνύμων μου οὐκ ἔστιν ἐμὸν δοῦναι, ἀλλ’ οἷς ἡτοίμασται ὑπὸ τοῦ πατρός μου.
Transliteração
legei autois· To men potērion mou piesthe, to de kathisai ek dexiōn mou kai ex euōnymōn mou ouk estin emon dounai, all’ hois hētoimastai hypo tou patros mou.
Notas textuais
Duas divergências entre as edições gregas afetam este versículo, e nenhuma muda a doutrina. Uma terceira é menor: as edições críticas põem entre colchetes um τοῦτο (“isto”) depois de ἐμόν e omitem o segundo μου.
O Textus Receptus (“texto recebido”, a edição grega do século XVI que a ABC segue no Novo Testamento) acrescenta, depois de “vocês beberão o meu cálice”, a cláusula καὶ τὸ βάπτισμα ὃ ἐγὼ βαπτίζομαι βαπτισθήσεσθε — kai to baptisma ho egō baptizomai baptisthēsesthe, “e serão batizados com o batismo com que eu sou batizado”. É a mesma disputa do versículo anterior, com o mesmo conjunto de manuscritos e o mesmo quadro de explicações, exposto no estudo de Mateus 20:22.
Segunda: onde o texto impresso tradicional lê καὶ (“e”) entre a direita e a esquerda, alguns dos manuscritos mais antigos — o Vaticano, o códice L, o Teta, a família 1 e o minúsculo 33 — leem ἤ (“ou”). A avaliação é difícil, porque em Marcos 10:40 acontece o inverso: ali o “ou” tem apoio esmagador e é o “e” que parece harmonização com Mateus. O caso é classificado como indeciso.
Análise palavra por palavra
λέγει αὐτοῖς — legei autois, “diz-lhes”. Presente do indicativo num relato de fatos passados, uso corrente nos diálogos de Mateus. O pronome está no plural: a fala continua dirigida aos dois filhos.
Τὸ μέν… τὸ δέ — to men… to de, “por um lado… por outro”.
Este par de partículas é o esqueleto da frase e não tem tradução direta em português: separa dois membros e os opõe, e as traduções o resolvem com “de fato… mas”, como faz a ABC. A resposta está, gramaticalmente, organizada como uma lista de dois itens.
ποτήριόν μου — potērion mou, “meu cálice”. O possessivo é de Mateus; Marcos 10:39 escreve “o cálice que eu bebo”.
πίεσθε — piesthe, “vocês beberão”.
Futuro do indicativo de pinō, na segunda pessoa do plural. A forma é de voz média, mas isso não carrega sentido especial: o futuro desse verbo se constrói assim em grego. O que importa é o modo — indicativo, e não subjuntivo nem imperativo. Não é permissão nem ordem: é anúncio.
τὸ δὲ καθίσαι — to de kathisai, “mas o sentar-se”.
Infinitivo aoristo de kathizō, sentar-se. O que interessa à frase é a forma, não o verbo: o artigo neutro transforma o infinitivo num substantivo, de modo que o objeto da recusa é o ato de sentar-se, e não o assento. Em português a construção não tem equivalente direto, e a ABC a resolve com o infinitivo solto, “sentar-se”.
ἐκ δεξιῶν μου καὶ ἐξ εὐωνύμων μου — ek dexiōn mou kai ex euōnymōn mou, “à minha direita e à minha esquerda”.
Literalmente, “a partir das minhas partes direitas e das minhas partes esquerdas”: os dois adjetivos estão no plural, num modo de dizer fixo que o grego usava para lados.
O adjetivo usado para “esquerda” é euōnymos, e não o comum aristeros: um eufemismo herdado da linguagem dos presságios, que aqui significa apenas “esquerda”.
O que é próprio deste versículo é o possessivo. No pedido do versículo 21 os lados são “teus”; aqui são “meus”, e o grego repete o pronome nos dois membros — dexiōn mou e euōnymōn mou.
οὐκ ἔστιν ἐμὸν δοῦναι — ouk estin emon dounai, “não é meu dar”.
A construção é mais seca em grego do que em qualquer tradução portuguesa. Emon é o adjetivo possessivo de primeira pessoa, e a fórmula “não é meu” funciona como funciona em português “não é da minha conta”: indica que a matéria não está na alçada de quem fala. Meyer insiste nesse sentido e adverte contra as explicações que procuram esvaziá-lo. O infinitivo é dounai, aoristo de didōmi, dar — não prometer, não decidir, não escolher: dar, no sentido de entregar o objeto.
ἀλλ’ οἷς — all’ hois, “mas àqueles a quem”.
Aqui está o problema de sintaxe do versículo. Depois de alla, a conjunção adversativa forte, não vem verbo nenhum: vem só um pronome relativo no plural dativo, sem antecedente expresso. O leitor tem de completar a frase, e o modo como a completa decide o sentido, como o item 3 mostra. A ausência não é erro — a língua admite frases em que o segundo membro deixa o verbo implícito —, e o que ela produz é ambiguidade real.
ἡτοίμασται — hētoimastai, “está preparado”.
Perfeito passivo de hetoimazō, preparar, deixar pronto. O perfeito grego descreve uma ação concluída cujo resultado continua valendo: não é “foi preparado no passado”, é “está pronto e assim permanece”.
O verbo está no singular, embora o relativo esteja no plural, porque o sujeito não são as pessoas — é o assento. Em Mateus, hetoimazō aparece sete vezes: Mateus 3:3, aqui, Mateus 22:4, Mateus 25:34 e 25:41 e Mateus 26:17 e 26:19. As duas últimas dão um encadeamento que o evangelho não comenta: a última coisa preparada em Mateus, antes da prisão, é a refeição em que o cálice é passado aos discípulos.
ὑπὸ τοῦ πατρός μου — hypo tou patros mou, “por meu Pai”. A preposição hypo com genitivo marca o agente de uma voz passiva, e por isso a passiva deste versículo não é das que escondem quem age: a frase recusa o pedido e diz de quem depende a matéria.
11. Conclusão
Do que foi exposto, quatro conclusões se sustentam.
A primeira é que o versículo separa o que se pode repartir do que não se pode, e reparte o primeiro. Jesus entrega o cálice — a própria morte — e retém os assentos. Conclui-se daí que o que ele tem para dar aos dois, neste ponto do evangelho, é aquilo de que é dono; os lugares não entram no inventário.
A segunda é que a recusa não se torna suave em nenhuma das leituras possíveis. Entendida como falta de autoridade, como “exceto”, como elipse, como declaração sobre o ofício ou como recusa de favorecimento, a frase conclui sempre o mesmo: os lugares não se obtêm requerendo. As cinco leituras divergem sobre o motivo e convergem sobre o efeito.
A terceira é que o tempo do verbo desloca a questão para trás. Os lugares estão preparados, e estavam antes da conversa. Segue-se que a discussão sobre quem se senta não é uma disputa em aberto que o pedido pudesse influenciar — e segue-se também, porque o verbo não diz mais que isso, que nenhuma das duas grandes respostas sobre predestinação pode ser extraída deste versículo sozinho.
A quarta é que a promessa feita aqui é a única do evangelho que a história pode, em princípio, verificar — e que ela se verifica pela metade. Um dos dois irmãos morreu como Jesus, e o Novo Testamento o registra em uma linha. Do outro, as fontes discordam. Um estudo honesto não pode fechar esse ponto, e a tentação de fechá-lo é grande justamente porque o versículo o anuncia.
E resta um detalhe de forma que sustenta tudo isso. Ao recusar, Jesus repete as palavras do pedido e troca um pronome: os lados que a mãe havia descrito como dele passam a ser ditos por ele mesmo. A recusa não muda de assunto e não se afasta do que foi pedido — fica colada a ele, e é por isso que não há como ler o versículo como evasiva.













