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Êxodo 20:23

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 22 min de leitura·👁 9 acessos
Não façam ao meu lado deuses de prata, nem deuses de ouro façam para vocês.
Numa oficina de ourives do deserto, sobre uma bancada rústica, brincos e pulseiras de ouro e prata empilhados ao lado de um cadinho apagado e de um molde vazio em forma de bezerro; ao fundo, pela abertura da tenda, o monte coberto de nuvem.

Estudo


Não façam ao meu lado deuses de prata, nem deuses de ouro façam para vocês.

1. Introdução

A primeira lei do Código da Aliança é uma proibição que parece repetir o Decálogo, mas acrescenta uma expressão que o Decálogo não tinha: “ao meu lado”. O problema deixa de ser só pôr outro deus no lugar do SENHOR e passa a ser pôr alguma coisa junto dele. Os rabinos discutiram o que seria essa coisa — anjos, querubins, uma imagem do próprio Deus, ou um modo de tratar Deus como os outros povos tratavam os seus. Ibn Ezra leu no versículo o bezerro de ouro anunciado doze capítulos antes de acontecer. E o verso dá nome aos materiais: prata e ouro, os metais que o povo tinha trazido do Egito.

2. Contexto Histórico e Cultural

Como se fazia um deus de prata e de ouro

No Oriente antigo, uma estátua de culto raramente era de ouro maciço. O núcleo era de madeira, esculpido por um carpinteiro; o ourives o revestia com lâminas de ouro e de prata batidas e pregadas; depois a imagem era vestida, adornada com joias e instalada no santuário. Os profetas descrevem o processo com ironia de oficina. Isaías mostra o artesão que funde a imagem, o ourives que a cobre de ouro e lhe solda correntes de prata (Isaías 40:19). Jeremias completa a lista: a árvore cortada no mato, a prata batida que vem de Társis, o ouro de Ufaz, a roupa de azul e púrpura, os pregos e o martelo para que a estátua não tombe — “tudo obra de artesãos” (Jeremias 10:3-9).

A cerimônia que apagava o artesão

Os mesopotâmios conheciam muito bem essa objeção, e tinham um rito para responder a ela. Textos do primeiro milênio a.C., achados em Nínive e na Babilônia e publicados em 2001 por Christopher Walker e Michael Dick, descrevem o mis pî (“lavagem da boca”, em acádio), a cerimônia que transformava a estátua saída da oficina numa presença viva do deus. Durante uma noite e um dia, a imagem era levada da oficina até a margem do rio e depois ao templo, e a sua boca era lavada várias vezes com água, mel, manteiga e ervas aromáticas.

No meio do rito, os artesãos que tinham feito a estátua eram trazidos diante dela. As mãos deles eram simbolicamente atadas e “cortadas” com uma espada de madeira de tamargueira, e cada um jurava: “Eu não a fiz”. Quem a tinha feito, dizia a fórmula, era o deus dos artesãos. Uma das orações declara que a estátua “nasceu no céu”. O rito existia para que ninguém pudesse dizer que aquele deus tinha sido fabricado por mãos humanas.

É contra essa teologia que o versículo fala, e o verbo que ele escolhe é exatamente o que o rito negava. A frase usa “fazer” duas vezes — “não façam… nem façam” — e põe a fabricação no centro. O que o mesopotâmio jurava não ter feito, o israelita é proibido de fazer.

Bezerros e touros em Canaã

A arqueologia de Canaã tem as duas peças que mais se aproximam do bezerro de Êxodo 32. Em 1990, a expedição da Universidade Harvard em Ascalom, na costa sul, encontrou um bezerro de bronze recoberto de prata, com pouco mais de dez centímetros de comprimento, ainda dentro do pequeno santuário de cerâmica em forma de colmeia onde tinha sido guardado, perto do caminho que levava à porta da cidade. É de por volta de 1600 a.C., séculos antes de qualquer data proposta para o Êxodo. No começo dos anos 1980, Amihai Mazar (arqueólogo israelense) publicou um touro de bronze de cerca de dezoito centímetros, encontrado num pequeno recinto de culto ao ar livre nas colinas do norte de Samaria, do começo da Idade do Ferro — o período em que as aldeias israelitas começaram a aparecer na região.

No mesmo mundo, o touro era o animal do deus da tempestade. Relevos sírios mostram Hadad, o deus do trovão, de pé sobre o dorso de um touro: o animal não é o deus, é o lugar onde o deus se apoia. Desde William F. Albright (arqueólogo norte-americano, 1891-1971), muitos estudiosos leem os bezerros de Israel, o do deserto e os de Jeroboão, nessa chave: um pedestal para um deus invisível, e não uma imagem dele. A hipótese é plausível e não é demonstrável, e ela importa para este versículo: se o bezerro era pedestal, ele não substituía o SENHOR; ficava “ao lado” dele.

3. Análise Teológica do Versículo

“Não façam ao meu lado deuses de prata”

O Decálogo já tinha proibido os outros deuses e as imagens (Êxodo 20:3-4). Por que o código abre repetindo a proibição? Porque não a repete: muda o ângulo. O Decálogo fala de deuses “diante de mim” e de imagem esculpida “para ti”. Este versículo fala de deuses “ao meu lado”, com uma preposição que só pode significar companhia. O que era uma das leituras possíveis do “diante de mim” — a soma, e não a troca, discutida no estudo de Êxodo 20:3 — aqui é a letra. A pergunta que a tradição fez é: o que se poria ao lado de Deus?

Primeira leitura: os servos de Deus. Rabi Ishmael, na Mekhilta (comentário rabínico ao Êxodo, compilado por volta do século III), tratado Bachodesh, seção 10, lê “ao meu lado” como “a figura dos meus servos que me servem no alto”: nem anjos, nem as rodas celestes da visão de Ezequiel, nem querubins. Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista francês do século XI) segue essa leitura. O Targum atribuído a Jônatas (paráfrase aramaica da Torá) amplia a lista: o sol, a lua, as estrelas, os planetas e os anjos. O perigo, nessa leitura, não é adorar um rival de Deus; é adorar a corte dele.

Segunda leitura: uma imagem do próprio Deus. Rabi Natan, na mesma seção da Mekhilta, entende: “não digam: vou fazer uma espécie de imagem e me prostrar diante dela”. E cita Deuteronômio 4:15, o versículo que lembra que o povo não viu figura nenhuma no Sinai. Aqui o que se põe “ao lado” de Deus é uma representação dele, feita com a intenção de honrá-lo.

Terceira leitura: um modo de tratar Deus. Rabi Akiva lê a preposição de outro jeito, como “comigo” no sentido de “no trato comigo”: não façam comigo o que os outros fazem com os seus deuses. Os outros, quando vem o bem, honram os seus deuses; quando vem o mal, os amaldiçoam. Vocês, quando eu trouxer o bem, deem graças; quando eu trouxer o sofrimento, deem graças também. E a Mekhilta cita Jó, que diz “o SENHOR deu, o SENHOR tirou, bendito seja o nome do SENHOR”, e responde à mulher que lhe pede para amaldiçoar Deus. A leitura de Akiva tira o versículo do campo das imagens e o põe no campo da relação: fazer um deus de prata é ter um deus que só vale enquanto paga.

Quarta leitura: intermediários feitos para a glória de Deus. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) lê o versículo junto com o anterior: eu falei com vocês sem intermediário; não façam figuras que recebam forças do alto pensando que as fazem para a minha glória. E acrescenta o exemplo: o bezerro de ouro, que Arão fez “para a glória de Deus”. Deus avisou no começo, diz Ibn Ezra, porque sabia o que o povo ia fazer.

As quatro leituras têm em comum o que o versículo tem de próprio: nenhuma delas supõe que o israelita queira abandonar o SENHOR. Em todas, ele quer acrescentar alguma coisa. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII), na leitura mística que ele chama de “caminho da verdade”, diz que “ao meu lado” equivale ao “diante de mim” do versículo 3 — e assim o código retoma, com outra palavra, o primeiro mandamento.

“nem deuses de ouro façam para vocês”

Por que prata e ouro, e não madeira e pedra? Poole (Matthew Poole, comentarista puritano inglês do século XVII) responde que os dois metais estão no lugar de todos os materiais, a parte pelo todo. O Ellicott (comentário inglês do século XIX) dá uma resposta histórica: a imagem fundida e recoberta de metal precioso foi a forma de ídolo que mais atraiu Israel ao longo da monarquia, das estátuas de Baal aos bezerros do reino do norte, e “quanto mais precioso o material, mais satisfeitos ficavam em adorá-lo”.

A Mekhilta tem uma leitura mais estranha e mais fina. Ela aplica os dois metais aos querubins que Deus mesmo vai mandar fazer sobre a arca (Êxodo 25:18). Os querubins são de ouro e são dois. Se alguém os fizer de prata, ou fizer quatro em vez de dois, eles deixam de ser querubins e passam a ser “deuses de prata” e “deuses de ouro”. Rashi repete. O mesmo objeto, prescrito por Deus, vira ídolo quando muda o material ou o número. Nessa leitura, o que define a idolatria não é a forma do objeto, é a obediência ou a desobediência de quem o fez.

E “para vocês”? A Mekhilta dá duas respostas. A primeira: não digam “já que a Torá permitiu querubins no santuário, vou fazê-los também nas sinagogas e nas casas de estudo”. A segunda: não digam “vamos fazer como os outros fazem nas províncias”. Nas duas, “para vocês” marca a iniciativa própria: o que vem de ordem é culto, o que vem de imitação é ídolo.

O bezerro anunciado

Ibn Ezra não é o único a ouvir o capítulo 32 neste versículo. Doze capítulos adiante, o povo dá o ouro a Arão, ele faz um bezerro e diz: “Estes são os seus deuses, ó Israel, que o tiraram da terra do Egito” (Êxodo 32:4). E logo em seguida levanta um altar diante dele e anuncia: “Amanhã será festa ao SENHOR” (Êxodo 32:5). O bezerro não substitui o SENHOR; a festa é para o SENHOR. Poole viu isso e tirou a conclusão: o povo pretendia adorar o SENHOR no bezerro, e foi exatamente o que este versículo proibiu — fazer de ouro algo “ao lado” dele.

O texto do capítulo 20 não nomeia o bezerro, e ler a proibição como profecia é uma leitura, não um dado. Mas a sequência literária é forte: a primeira lei que Moisés recebe na escuridão é a que o povo vai quebrar enquanto ele ainda estiver no monte.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O SENHOR

Fala na primeira pessoa e se põe como referência espacial da proibição: “ao meu lado”. É o único ponto fixo do versículo; tudo o que se proíbe é definido pela posição em relação a ele.

Os filhos de Israel

Destinatários da proibição no plural, “vocês”. A lei não se dirige a um rei nem a sacerdotes, que ainda não existem como classe, mas ao povo inteiro, que é quem vai, no capítulo 32, juntar o ouro.

A prata e o ouro

Os metais estão nas mãos do povo por um motivo narrado: as joias de prata e de ouro pedidas aos egípcios na saída (Êxodo 12:35-36). O que o povo vai fazer com esse ouro — o bezerro no capítulo 32, o santuário nos capítulos 35 a 38 — está no estudo de Êxodo 12:36.

Arão e o bezerro

Arão não aparece neste versículo, mas é o executor do que ele proíbe. No capítulo 32, enquanto Moisés está no monte, ele recebe os brincos do povo, funde o ouro, faz o bezerro, levanta um altar e proclama a festa. Os leitores que ouvem o bezerro neste versículo põem Arão, por antecipação, na cena.

Os querubins

As duas figuras de ouro que Deus vai mandar pôr sobre a tampa da arca (Êxodo 25:18-20). A Mekhilta e Rashi leem a proibição deste versículo como a cerca que impede os querubins de se multiplicarem ou de mudarem de material.

Jeroboão

Rei do reino do norte, séculos depois. Ao separar-se de Jerusalém, faz dois bezerros de ouro, põe um em Betel e outro em Dã, e repete a frase do capítulo 32: “Eis os seus deuses, ó Israel, que o fizeram subir da terra do Egito” (1 Reis 12:28).

5. Pontos de Ensino

1. A proibição que abre o código não é contra a troca de Deus por outro deus, mas contra o acréscimo. O versículo supõe um israelita que continua fiel ao SENHOR e quer pôr alguma coisa ao lado dele.

2. A tradição leu “ao meu lado” de quatro maneiras — a corte celeste, uma imagem de Deus, um trato interesseiro com Deus, um intermediário feito para a glória dele. Todas descrevem tentações de gente religiosa, não de descrentes.

3. Na leitura da Mekhilta sobre os querubins, um mesmo objeto pode ser culto ou ídolo conforme siga ou não a instrução recebida. A fronteira entre os dois não passa pela forma, passa pela iniciativa.

4. O versículo insiste no verbo “fazer”. O problema dos deuses de prata e de ouro, aqui, é que eles são fabricados; e o povo vizinho, que fabricava os seus, precisava de um rito para jurar que não os tinha fabricado.

5. A primeira lei do código é também a primeira a ser quebrada. O leitor do Êxodo sabe disso, e a proibição soa, retrospectivamente, como aviso.

6. Aspectos Filosóficos

O que exatamente está errado em pôr algo “ao lado” de Deus, se a intenção é honrá-lo? A pergunta parece de catecismo, mas é filosófica: ela obriga a decidir se a idolatria é um erro de conhecimento — acreditar em algo falso — ou uma falha de relação — dar a alguém o que se devia a outro.

Moshe Halbertal, filósofo israelense nascido em 1958 e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, escreveu em coautoria, em 1992, o livro Idolatria, que é até hoje o estudo filosófico mais citado sobre o tema. A tese central é que a Bíblia e a tradição judaica pensaram a idolatria por meio de várias imagens diferentes, e que cada imagem define o pecado de outro modo.

A primeira é a do casamento. Nos profetas, Israel é a esposa e Deus o marido; a idolatria é adultério (Oseias 1-3, Ezequiel 16). Nesse modelo, o problema não está no que a esposa pensa sobre o outro homem, mas no fato de se dar a ele. A falta é de exclusividade. E o modelo tem uma consequência curiosa, que Halbertal explora: uma esposa pode ser infiel sem deixar de amar o marido. Pôr alguém “ao lado” já é a traição, mesmo que o primeiro continue em primeiro lugar.

A segunda imagem é a do erro. Aqui a idolatria é uma representação falsa de Deus: acreditar que ele tem corpo, que pode ser contido num objeto, que age por meio de figuras. É o modelo filosófico, que culmina em Maimônides. E Halbertal mostra que esse modelo traz uma pergunta difícil: se o problema é representar mal, existe representação permitida? Ele distingue a representação por semelhança — a estátua que se parece com aquilo que representa — da representação por convenção ou por contiguidade, como a arca, o templo, o nome. As segundas indicam onde Deus se faz presente sem pretender mostrar como ele é. A Bíblia, nessa leitura, proíbe as primeiras e institui as segundas.

A terceira é a do intermediário. Maimônides conta, no começo das suas leis sobre a idolatria, que ela nasceu de um raciocínio piedoso: se Deus criou as estrelas para governar o mundo e as honrou, é justo honrá-las também, como se honra os ministros de um rei. O erro começa como homenagem ao rei. Halbertal mostra como esse relato transforma a idolatria em algo que nasce dentro da religião verdadeira, por excesso de reverência — exatamente o que a leitura de Rabi Ishmael vê em “ao meu lado”: as figuras dos servos que servem no alto.

Aplicadas ao versículo, as três imagens não se excluem, mas uma delas se ajusta melhor ao texto. “Ao meu lado” é linguagem de casamento, não de epistemologia (a parte da filosofia que estuda o conhecimento). O versículo não discute o que o israelita pensa sobre o deus de prata; discute onde ele o põe. O bezerro de Êxodo 32 confirma: o povo não errou sobre quem o tinha tirado do Egito — chamou a festa de festa “ao SENHOR”. Pelo modelo do erro, o bezerro seria quase inocente, um pedestal mal escolhido. Pelo modelo da traição, ele é o caso exemplar: fidelidade declarada e um segundo objeto de culto ao lado.

Halbertal tem uma observação que ilumina a leitura de Rabi Akiva. Se a idolatria é um problema de relação, ela pode existir sem objeto nenhum: no modo de tratar Deus como um fornecedor que se honra quando entrega e se amaldiçoa quando falha. O deus de prata, nessa leitura, é antes uma atitude do que um metal. O livro não comenta a Mekhilta; a aproximação é deste estudo.

7. Aplicações Práticas

A relação real deste versículo com a vida comum está na forma da tentação que ele descreve. Ninguém, nele, quer trocar de Deus. A tentação é acrescentar: uma garantia a mais, um objeto que torne a presença palpável, um amuleto ao lado da oração, uma instituição ao lado da fé que acaba ocupando o lugar dela. O versículo não diz que esses acréscimos são inevitáveis; diz que são o primeiro risco que o código julgou necessário nomear.

A leitura de Rabi Akiva aponta para um teste que qualquer pessoa religiosa pode fazer consigo mesma: a relação com Deus muda de sinal conforme as coisas dão certo ou errado? Quem agradece no bem e se revolta no mal está tratando Deus, diz Akiva, como os vizinhos tratavam os deuses deles. A Mekhilta não pede resignação; pede que a relação não dependa do resultado. Jó é o exemplo que ela escolhe, e Jó, no resto do livro, também protesta — mas não troca de Deus nem o amaldiçoa.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se o Decálogo já proibiu as imagens, por que repetir?

Ibn Ezra responde que a repetição é estilo, e que o sentido é um só. Mas o versículo não é cópia: muda o número (de “tu” para “vocês”), muda o objeto (de “imagem” para “deuses”), nomeia os materiais e acrescenta “ao meu lado”. A leitura mais econômica é que o Decálogo enuncia o princípio e o código o aplica a um caso concreto — o metal precioso fundido —, que era o tipo de ídolo que o povo tinha à mão.

Arão sabia que estava violando esta lei?

O texto não diz se o povo já tinha ouvido a lei quando fez o bezerro. Pela ordem do relato, Moisés só desce para contar “todas as palavras do SENHOR” em Êxodo 24:3, antes de subir de novo por quarenta dias; o povo teria ouvido este versículo antes do capítulo 32. Mas a sequência das subidas e descidas de Moisés é das mais discutidas do livro, e não é possível afirmar o que Arão sabia.

Os querubins da arca não seriam “deuses de ouro” ao lado de Deus?

É exatamente a objeção que a Mekhilta antecipa, e ela responde dentro do próprio sistema: os querubins são permitidos porque prescritos, em número e material definidos, e só viram ídolos se o fiel os multiplicar ou alterar. As outras respostas, de fora da tradição rabínica, entram na discussão sobre o que o Decálogo proíbe ao proibir imagens, no estudo de Êxodo 20:4.

A proibição vale só para metais preciosos?

Ninguém na tradição a leu assim. Poole a chama de figura da parte pelo todo; a Mekhilta a estende às imagens de anjos e astros; o Decálogo, um pouco antes, já proibia qualquer figura. O versículo nomeia prata e ouro porque são os materiais em que se faziam deuses de prestígio.

9. Conexão com Outros Textos

O bezerro: a proibição quebrada

Êxodo 32:4 — “Ele recebeu o ouro das mãos deles, deu-lhe forma com um buril e fez um bezerro de metal fundido. E disseram: ‘Estes são os seus deuses, ó Israel, que o tiraram da terra do Egito.’”

Êxodo 32:5 — “Arão viu isso e construiu um altar diante dele, e Arão proclamou: ‘Amanhã será festa ao SENHOR.’”

O bezerro é chamado de “deuses” e, ao mesmo tempo, a festa é do SENHOR: um objeto posto ao lado, não no lugar.

1 Reis 12:28 — “O rei, depois de se aconselhar, fez dois bezerros de ouro e disse ao povo: ‘É demais para vocês subir a Jerusalém. Eis os seus deuses, ó Israel, que o fizeram subir da terra do Egito.’”

Jeroboão repete a frase de Arão quase palavra por palavra.

Os profetas e os metais

Oseias 8:4 — “Com a sua prata e o seu ouro fizeram para si ídolos, para serem destruídos.”

Oseias 13:2 — “Fazem para si imagens de metal fundido com a sua prata, ídolos segundo o seu entendimento, tudo obra de artesãos.”

Oseias, profeta do reino do norte, usa os dois verbos e os dois metais deste versículo contra os bezerros de Samaria.

Jeremias 10:9 — “Trazem prata batida de Társis e ouro de Ufaz, obra de artesão e de mãos de ourives; a roupa deles é azul e púrpura; tudo é obra de mestres.”

A descrição da oficina que o rito mesopotâmico tentava apagar.

A razão da proibição

Deuteronômio 4:15-16 — “Guardem bem as suas almas, pois não viram forma alguma no dia em que o SENHOR falou com vocês em Horebe, do meio do fogo; para que não se corrompam e façam para si imagem esculpida, figura de qualquer forma.”

O versículo que Rabi Natan cita na Mekhilta para ler “ao meu lado” como imagem do próprio Deus.

A leitura de Rabi Akiva

Jó 2:10 — “Receberemos de Deus o bem, e não receberemos o mal?”

A resposta de Jó à mulher, que a Mekhilta usa como modelo de quem não trata Deus “como os outros tratam os seus deuses”.

A repetição no fim do Êxodo

Êxodo 34:17 — “Não farás para ti deuses de metal fundido.”

Depois do bezerro, a proibição volta, agora com o nome exato do que foi feito.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Não façam ao meu lado deuses de prata, nem deuses de ouro façam para vocês.

Texto hebraico

לֹא תַעֲשׂוּן אִתִּי אֱלֹהֵי כֶסֶף וֵאלֹהֵי זָהָב לֹא תַעֲשׂוּ לָכֶם׃

Transliteração

lo ta'asun itti; elohei khesef ve-elohei zahav lo ta'asu lakhem.

Na Bíblia hebraica, este é o versículo 20 do capítulo.

Análise palavra por palavra

לֹא תַעֲשׂוּן — lo ta'asun, “não farão”, com valor de “não façam”.

O verbo asah, “fazer”, no imperfeito, segunda pessoa do plural, com a negação lo, a da proibição permanente. A terminação -un, com um “n” a mais, é uma forma mais longa e mais antiga do plural, que aparece em textos solenes e poéticos; no fim do mesmo versículo o verbo volta na forma comum, ta'asu, sem o “n”. O versículo abre e fecha com o mesmo verbo e a mesma negação, em duas formas diferentes.

אִתִּי — itti, “comigo”, “ao meu lado”.

A preposição et no sentido de “com”, mais o sufixo de primeira pessoa. Não se confunde com o et que marca o objeto direto: com sufixo, as duas palavras ganham formas diferentes (a do objeto seria oti, “me”). A preposição indica companhia, proximidade, estar junto. A ABC traduz por “ao meu lado” para não perder a imagem espacial; “comigo” também é tradução correta, e é a que permite a leitura de Rabi Akiva, “no trato comigo”.

Os sinais de leitura da tradição massorética (o sistema medieval de acentos e vogais do texto hebraico) põem a pausa principal do versículo logo depois desta palavra. Lido pelos acentos, o versículo tem duas metades: “Não façam comigo; deuses de prata e deuses de ouro não façam para vocês”. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) chama atenção para isso: a primeira metade fica sem objeto, e a Mekhilta e o Targum precisam completar — “a figura dos meus servos”. A ABC segue a leitura que liga “ao meu lado” aos deuses de prata, que é a da maioria das traduções.

אֱלֹהֵי כֶסֶף וֵאלֹהֵי זָהָב — elohei khesef ve-elohei zahav, “deuses de prata e deuses de ouro”.

Elohei é elohim na forma ligada ao termo seguinte: “deuses de”. A mesma palavra que, com verbo no singular, designa o Deus de Israel, aqui, ligada a um metal, designa ídolos. Kesef é a prata e também, por extensão, o dinheiro; zahav é o ouro. A ordem prata-ouro é a comum na Bíblia hebraica (“prata e ouro”), o inverso da ordem portuguesa.

לֹא תַעֲשׂוּ לָכֶם — lo ta'asu lakhem, “não façam para vocês”.

Lakhem, “para vocês”, a preposição le- com o sufixo de segunda pessoa do plural. Indica para quem, ou em proveito de quem, a coisa é feita. É a mesma construção do “para ti” de Êxodo 20:4, agora no plural. A Septuaginta, na sua tradução, não traz “comigo”: diz apenas “não façam para vocês deuses de prata, e deuses de ouro não façam para vocês”. A expressão que deu origem a toda a discussão rabínica não está no texto grego.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que o código de Israel começa nomeando uma tentação de gente fiel. “Ao meu lado” supõe alguém que não quer abandonar o SENHOR, e sim somar a ele uma presença de metal. É por isso que o bezerro de Êxodo 32 pôde ser recebido com uma festa “ao SENHOR”.

A segunda é que a fronteira entre culto e ídolo, nesta lei, passa pela origem da iniciativa. A Mekhilta o diz com os querubins: o mesmo ouro, prescrito, é culto; multiplicado por conta própria, é ídolo. O versículo inteiro gira em torno do verbo “fazer”, e não em torno da aparência do objeto.

A terceira é que a proibição, lida como relação e não só como regra sobre objetos, alcança atitudes sem metal nenhum. A leitura de Rabi Akiva, que vê no versículo a proibição de tratar Deus conforme ele entrega ou falha, mostra que a própria tradição judaica estendeu o “deus de prata” para além das oficinas de ourives.

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