Então Jesus partiu dali e retirou-se para as regiões de Tiro e Sidom.
1. Introdução
Dez palavras, e o evangelho muda de país.
Até aqui o capítulo era uma discussão religiosa entre judeus, dentro de Israel, sobre lavar as mãos antes de comer. Este versículo tira Jesus de lá e o põe a caminho da costa fenícia. É a única vez, em todo o Mateus, em que ele sai do território do seu povo.
O versículo tem três informações e nenhuma explicação. Saiu. Retirou-se. Foi para as regiões de Tiro e Sidom. Não há motivo declarado, não há anúncio de propósito, não há comentário do evangelista.
O peso está no verbo do meio, e ele não é o verbo neutro de viajar: é o do recuo. A análise teológica mostra o que isso decide sobre o tom da cena. O destino também não é neutro — "Tiro e Sidom" era, para um ouvinte judeu, menos um par de coordenadas do que um arquivo, e o contexto histórico abre esse arquivo.
Fica ainda uma vizinhança incômoda, que o texto monta e não comenta: Jesus acaba de dizer que a comida não contamina ninguém e, sem intervalo, entra em terra onde quase todo contato seria suspeito pelos critérios que estavam em disputa. O que se pode e o que não se pode concluir daí é o ponto mais delicado deste estudo.
2. Contexto Histórico e Cultural
Onde ficam as duas cidades
São portos da costa leste do Mediterrâneo, no território que hoje é o Líbano. Sidom fica ao norte; Tiro, cerca de quarenta quilômetros ao sul. Da Alta Galileia até Tiro são uns cinquenta quilômetros em linha reta — perto o bastante para ser destino realista de uma viagem a pé, longe o bastante para significar sair do próprio mundo.
Tiro tinha uma peculiaridade famosa: a cidade principal ocupava uma ilha junto à costa, e o assentamento continental servia de apoio. A posição a tornou quase intomável — Nabucodonosor a sitiou treze anos sem sucesso, e Alexandre só a venceu construindo um aterro. Daí vem, na literatura profética de Israel, a imagem de Tiro como potência que se julga intocável.
Uma economia que precisava da Galileia
Eram potências comerciais marítimas, com colônias por todo o Mediterrâneo — Cartago foi fundação de Tiro. A frota levava púrpura, vidro, cedro e metais, e trazia de volta uma riqueza que a região inteira reconhecia.
Havia, porém, uma dependência na direção contrária, e é ela que explica a relação com a vizinhança judaica. A faixa costeira é estreita e montanhosa, com pouca terra de plantio; o interior galileu produzia cereal, azeite e vinho em quantidade, e as cidades fenícias compravam alimento dos camponeses judeus. Atos 12:20 guarda o dado num aparte quase administrativo: os habitantes de Tiro e Sidom buscam a paz com Herodes "porque o seu país se abastecia do país do rei".
O resultado é uma convivência de dois andares: troca cotidiana embaixo, hostilidade cultural e religiosa em cima. Camponeses galileus vendiam a compradores que desprezavam e de cujo dinheiro dependiam. Flávio Josefo (historiador judeu do século I, que escreveu em grego para leitores romanos) chama os habitantes de Tiro de inimigos particularmente amargos dos judeus.
A moeda pagã na caixa do Templo
O imposto anual do Templo, de meio siclo, tinha de ser pago em moeda de prata de alto teor, e a que atendia a esse padrão com regularidade era o siclo de Tiro — cunhado numa cidade pagã, com a cabeça de Melcart, o deus de Tiro que os gregos identificavam com Héracles. A tradição rabínica registra a exigência sem rodeios: quando a Torá fala de prata, entende-se prata de Tiro.
Ou seja: o Templo de Jerusalém, centro do sistema de pureza, recebia o seu imposto em moedas com a imagem de um deus estrangeiro, cunhadas na cidade para onde Jesus se dirige neste versículo. O motivo era prático — pureza do metal, não pureza cerimonial —, e a lei religiosa acomodou a situação.
Grau de certeza: a exigência é bem atestada, pelas moedas encontradas e pelas fontes rabínicas. A ironia é observação do comentarista, e nenhum texto antigo a formula.
Sair da Galileia era sair de uma jurisdição
A Galileia era tetrarquia de Herodes Antipas; Tiro e Sidom pertenciam à província romana da Síria, com estatuto de cidades livres e administração própria. Atravessar aquela fronteira era passar para fora do alcance de Antipas — e o capítulo anterior acabou de narrar a execução de João Batista por ordem dele, registrando que o tetrarca ouvira falar de Jesus (Mateus 14:1-12). Se o movimento deste versículo é recuo diante de ameaça, a geografia colabora com a leitura, sem que o texto declare nada disso.
A fronteira era uma zona, não uma linha
A população da faixa costeira era majoritariamente não judaica, de cultura grega e fenícia. Mas havia comunidades judaicas nas cidades e nas áreas rurais próximas à Galileia, e trânsito comercial constante nas duas direções.
Isso evita duas caricaturas opostas: a de que Jesus mergulhou num vazio inteiramente pagão e a de que teria ficado num enclave judaico confortável. A região era mista, e o texto não informa onde exatamente ele esteve.
3. Análise Teológica do Versículo
"Então Jesus partiu dali"
A palavra que abre o versículo não é "portanto": é o "e" simples da narrativa. O evangelho tinha à disposição partículas de consequência — o equivalente grego de "por isso", de "por causa disto", de "naquele momento" — e usa todas elas em outros lugares. Aqui escolheu a conjunção neutra.
A ligação entre a controvérsia sobre pureza e a viagem é, portanto, de sequência, e não de causa declarada. Quem afirmar que Jesus foi a Tiro por causa da discussão sobre as mãos lavadas estará dizendo mais do que a frase diz.
"e retirou-se"
Aqui está o versículo. O verbo não é o de quem viaja: é o de quem sai de perto — o verbo do recuo, o mesmo que descreve tropa que se afasta e refugiado que procura lugar seguro.
E, no vocabulário deste evangelho, ele tem um comportamento constante. É com ele que José foge para o Egito, que Jesus deixa a Galileia quando João é preso, que se afasta quando os fariseus deliberam matá-lo, que se retira ao saber da execução do Batista. Nenhuma ocorrência descreve viagem missionária ou deslocamento neutro — o mapa completo está no item 10.
A consequência para a leitura é direta: o que este versículo narra é um recuo. Alguma coisa ficou difícil, e Jesus se afastou.
O que ficou difícil, o texto não diz. Duas ameaças estão na vizinhança imediata: uma política, a morte de João Batista e o interesse de Antipas por Jesus, contados no capítulo anterior; outra institucional, o confronto com a delegação vinda de Jerusalém, que os versículos 1 a 20 narraram e cujo efeito o versículo 12 registrou.
Qual das duas motivou a retirada, ou se as duas, ou se nenhuma — Mateus não informa. O vocabulário estabelece o tipo de movimento; não estabelece a causa.
Que a tradição de comentário não a respeitou é fácil de mostrar: para Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) a causa é a hostilidade dos fariseus; para Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) é evitar Herodes; para Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) é escapar das multidões e das ciladas. Três leitores atentos, três motivos diferentes, nenhum escrito no versículo.
O que Mateus corta de Marcos
Marcos 7:24 conta a mesma transição e acrescenta duas coisas: Jesus entrou numa casa, e não queria que ninguém soubesse, mas não conseguiu esconder-se. Mateus não tem nem uma nem outra. Some o lugar concreto e some, o que é mais significativo, a intenção de passar despercebido.
Por que o corte? Não é possível decidir. Há quem observe que Mateus tende a reduzir os detalhes que mostram Jesus limitado ou frustrado; há quem atribua a supressão a simples economia, já que ele abrevia Marcos com frequência. O efeito, esse é verificável: em Mateus, a retirada fica sem motivação declarada e sem fracasso registrado.
"para as regiões de Tiro e Sidom"
Ele entrou em território fenício ou apenas se aproximou da fronteira? A tradição de comentário discute isso há séculos, e a leitura restritiva é antiga e tem defensores de peso. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) sustenta que Jesus permaneceu fora dos limites da Terra Santa; Meyer (Heinrich Meyer, exegeta alemão do século XIX) fala em distritos galileus que fazem fronteira com aquelas cidades, sem entrada em solo pagão. O argumento de apoio é o versículo seguinte, que diz que a mulher "saiu" daquelas regiões — isto é, teria vindo ao encontro dele.
Contra ela pesam duas coisas. A construção grega indica movimento para dentro de uma região, e não aproximação. E Marcos 7:31 informa que o retorno se deu passando por Sidom, o que implica um circuito amplo em terra fenícia.
Avaliação honesta: a leitura restritiva parece motivada por desconforto teológico mais do que pelo texto — ela existe para conciliar esta viagem com a proibição de ir aos gentios que o próprio evangelho traz em Mateus 10:5. Mas Mateus, sozinho, não permite decidir onde ele esteve. Não há descrição nenhuma do lugar: nem casa, nem sinagoga, nem praça, nem estrada.
O que o texto estabelece é o nome do destino, e o nome já basta para o efeito. As duas cidades aparecem sempre juntas na Bíblia — Jeremias 47:4, Joel 3:4, Zacarias 9:2, Atos 12:20 — e funcionam como unidade: designam menos dois lugares específicos do que um bloco inteiro, a Fenícia costeira, com o seu comércio, os seus deuses e a sua riqueza estrangeira.
Por que este versículo está exatamente aqui
O fato bruto é a justaposição. Nos versículos 1 a 20, uma disputa sobre o que contamina o ser humano, com a conclusão de que a contaminação não vem do que entra pela boca. Aqui, sem intervalo, Jesus vai a uma terra onde o contato cotidiano seria problemático pelos critérios que estavam em disputa.
Que a sequência seja intencional é plausível, e é a leitura de boa parte dos comentadores modernos: Mateus organiza o seu material, e já demonstrou cuidado com a arquitetura ao longo do capítulo. Mas quatro limites contêm a leitura, e marcá-los é o que separa análise de sermão.
O primeiro: Mateus não comenta. Não há "e por isso foi", não há "para mostrar que" — a ligação é de sequência. O segundo: o verbo é de retirada, não de missão; se o evangelista quisesse apresentar a viagem como abertura programática aos não judeus, tinha à mão os verbos de ida e de envio.
O terceiro: o próprio Jesus dirá, três versículos adiante, que não foi enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel, e qualquer leitura que faça deste versículo uma declaração de universalismo terá de responder àquela frase. O quarto: a cena que vem a seguir não é de pregação — ninguém é ensinado, ninguém é chamado, nenhuma multidão é reunida.
Conclusão prudente: a justaposição merece ser notada, e a interpretação que transforma o versículo em programa vai além do que ele sustenta. O que se pode afirmar é que Mateus, tendo acabado de relativizar uma fronteira de pureza, narra em seguida a travessia de uma fronteira geográfica — e entrega as duas coisas ao leitor sem ligá-las por escrito.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus
É o único personagem nomeado, e a única ação atribuída a ele é o deslocamento. Não fala, não ensina, não cura. Sai e vai.
Vale notar que o nome próprio é escrito, e não subentendido. Quem falava no versículo 20 já era ele, e o grego permitiria continuar sem repetir o sujeito: nomeá-lo de novo marca o início de uma unidade narrativa.
Os discípulos, presentes sem serem mencionados
Não aparecem neste versículo, mas estão na viagem: o versículo 23 os traz falando com Jesus sobre a mulher que grita atrás do grupo. O texto não registra reação nenhuma da parte deles à mudança de território — nem pergunta, nem objeção. O silêncio chama atenção, porque Mateus registra reações dos discípulos em outros pontos deste mesmo capítulo (Mateus 15:12 e 15:15).
Tiro
Cidade portuária fenícia, com o núcleo original numa ilha junto à costa. Na Bíblia hebraica ela aparece nos dois registros, e reduzi-la a um só descarta metade dos dados.
Como parceira: Hirão, rei de Tiro, enviou cedro e artesãos a Davi (2 Samuel 5:11) e depois a Salomão para a construção do Templo (1 Reis 5), e o fundidor de bronze responsável pelas colunas do santuário era um homem de Tiro (1 Reis 7:13-14). Como alvo de oráculo: Ezequiel 26 a 28 dedica três capítulos à queda da cidade, com a acusação central de soberba fundada na riqueza, e Amós e Joel a acusam de tráfico de pessoas. As imputações são concretas, e não xenofobia genérica.
Sidom
Porto ao norte de Tiro, e mais antigo que ela. Na tábua das nações, Sidom é apresentada como o primogênito de Canaã (Gênesis 10:15) — dado que ficará relevante no versículo seguinte, quando o evangelista escolher uma palavra específica para descrever a mulher que aparece.
Na história de Israel, Sidom carrega dois episódios de sinal oposto. Jezabel, a rainha que instalou o culto de Baal no Reino do Norte, era filha de Etbaal, rei dos sidônios (1 Reis 16:31). E Sarepta, que pertencia a Sidom, foi onde Elias, perseguido dentro de Israel, foi sustentado por uma viúva estrangeira (1 Reis 17:8-24) — precedente antigo, canônico e pouco lembrado.
Herodes Antipas, ausente e próximo
Não é mencionado, mas o capítulo anterior o pôs em cena: mandou executar João Batista e, ouvindo falar de Jesus, disse aos servos que era João ressuscitado dos mortos (Mateus 14:1-2). A Galileia era jurisdição dele; a costa fenícia, não. Se a retirada tem componente de segurança, o dado é pertinente — mas a conexão é do leitor, e Mateus não a faz.
A viagem, que é o evento do versículo
Da bacia do lago até as proximidades de Tiro são vários dias a pé, subindo para as montanhas da Alta Galileia e depois descendo para a costa. Não é passeio nem desvio curto: é decisão de itinerário com custo real, com os problemas de alojamento e de comida que isso implica em território onde as regras de mesa dos anfitriões seriam outras. O texto não menciona nada disso, e a viagem pressupõe tudo isso.
5. Pontos de Ensino
1. O verbo escolhido define a cena
Mateus tinha vários verbos de deslocamento à disposição e escolheu o do recuo, que no seu evangelho descreve sempre afastamento diante de perigo. A cena é de retirada, não de expedição, e quem lê o versículo como início de campanha entre os não judeus está lendo contra o vocabulário.
2. O texto não dá motivo, e a lacuna é para ficar aberta
Há duas ameaças recentes na narrativa e nenhuma delas é apontada como causa. Preencher o vazio é trabalho legítimo de leitor, desde que a conjectura continue reconhecível como tal — o que raramente acontece, como mostra a variedade de motivos que a tradição de comentário atribuiu ao versículo.
3. O nome do destino carrega uma história inteira
"Tiro e Sidom" não é apenas indicação geográfica. Traz consigo o cedro do Templo, a moeda com que se pagava o seu imposto, a princesa que instalou o Baal em Israel, três capítulos de Ezequiel e a viúva que sustentou Elias. O ouvinte antigo escutava tudo isso no par de nomes.
4. A relação com aquelas cidades era ambivalente, não simplesmente hostil
O mesmo Tiro que os profetas condenaram forneceu o material do Templo e a prata do imposto do Templo. A mesma Sidom de Jezabel abrigou Elias. Ler a região apenas como "terra pagã inimiga" apaga metade dos dados.
5. A justaposição é significativa, e o seu alcance é limitado
Sair de uma disputa sobre pureza e entrar em território estrangeiro chama atenção, e provavelmente foi montado assim. Mas o evangelista não comenta, e o próprio Jesus vai restringir o alcance da sua missão três versículos adiante.
6. Aspectos Filosóficos
O problema
Alguém atravessa uma fronteira e entra em terra que não é a sua. Que direito tem o recém-chegado? E que dever tem quem já estava lá?
O versículo não formula a pergunta — apenas registra a travessia. A questão do estrangeiro atravessa toda esta passagem, e começa aqui, com Jesus na posição de quem chega.
As páginas seguintes pensam a cena com um vocabulário que ela não conhece. Mateus não tem conceito de direito e não teoriza nada: escreve dez palavras e passa adiante.
Kant: a hospitalidade não é favor, é direito
Em 1795, Immanuel Kant publicou um opúsculo chamado Zum ewigen Frieden ("À paz perpétua", em alemão — um projeto de tratado internacional escrito na forma irônica de um documento diplomático). O terceiro artigo definitivo desse projeto fundou um campo inteiro de discussão: o direito de cidadania mundial deve limitar-se às condições da hospitalidade universal.
E Kant explica imediatamente o que entende por hospitalidade, com uma precisão que é o ponto decisivo. Não se trata, diz ele, de filantropia — de bondade, de generosidade, de acolhimento afetuoso. Trata-se de direito: o direito que um estrangeiro tem de não ser tratado com hostilidade pelo simples fato de haver chegado ao território de outro.
A distinção é fina e muda tudo. Se acolher é bondade, quem não acolhe é apenas pouco generoso, e ninguém pode exigir dele coisa alguma. Se não hostilizar é direito, quem hostiliza comete uma injustiça, e o estrangeiro tem o que reclamar. Kant desloca a questão do terreno da virtude para o da obrigação.
O argumento dele é geométrico, e vale pela franqueza: a superfície da Terra é esférica e finita. Ninguém pode se espalhar ao infinito, e como a posse originária do solo é comum, ninguém tem direito originário de estar num lugar mais do que qualquer outro. A hospitalidade decorre dessa aritmética, e não de um sentimento.
Kant também marca o limite do que concede: o estrangeiro tem direito de visita, não direito de hóspede — pode chegar e pedir contato, não pode exigir residência. É um mínimo, e Kant sabia que era um mínimo.
O que a cena faz com a tese
Posto ao lado do versículo, o argumento de Kant produz um resultado curioso: quem está exercendo o direito de visita, aqui, é Jesus. Ele é o que chega, e a terra, os deuses e as regras de mesa são de outros.
E o versículo não registra hostilidade nenhuma da parte dos moradores. Ninguém o expulsa, ninguém o interpela, ninguém pergunta o que ele veio fazer. A única coisa que acontece na terra estrangeira é alguém de lá pedir socorro a alguém de fora — o que inverte a expectativa, porque o problema da hospitalidade costuma ser formulado com o estrangeiro na posição de quem pede.
A inversão é dado do texto e não conclusão dele: Mateus simplesmente não menciona a chegada, o que pode significar acolhida tranquila ou apenas economia narrativa. O que se pode afirmar é que o único conflito registrado nesta terra estrangeira não é entre o povo de lá e o visitante — é entre o visitante e uma moradora que quer alguma coisa dele.
O limite da aproximação
Kant escreve sobre Estados e sobre direito público; o versículo narra um homem andando por uma estrada com um grupo de companheiros. Aplicar a categoria diretamente seria anacronismo: no primeiro século não havia direito de circulação, e a proteção do viajante dependia de laços particulares de hospedagem, não de tratados.
O que sobrevive à diferença de época é a pergunta. O que se deve a quem chega, e o que se deve a quem está fora do grupo? Este versículo põe a questão pela geografia; os seguintes vão pô-la pela pessoa, e ali a resposta ficará muito mais difícil.
7. Aplicações Práticas
Saber a hora de sair de um lugar
O verbo do versículo descreve o afastamento de quem percebeu que ficar custaria mais do que valia. Não é rendição e não é indiferença: é a leitura correta de um momento.
Reconhecer esse momento é habilidade prática, e é mal ensinada. A cultura religiosa premia a permanência — quem fica é fiel, quem sai desiste —, e isso produz gente que continua em situações já mortas por medo do julgamento alheio: emprego que adoeceu, comunidade que virou disputa permanente, projeto que consome tudo e não entrega nada.
O critério útil não é o desconforto, que é péssimo indicador, porque coisas boas doem. O critério é a produtividade da presença: o que exatamente ainda acontece pelo fato de você estar aí? Se a resposta honesta for "nada, mas eu estou", é hora de considerar a retirada. E convém fazê-la como o verbo indica — de forma deliberada, sem estardalhaço, preservando o que ainda vai ser necessário depois.
Não confundir sequência com causa
O texto liga a controvérsia e a viagem com um simples "e". Não diz "por isso". A diferença é a raiz de um erro de leitura muito comum, e não só de leitura bíblica.
A mente converte sequência em causa automaticamente. Aconteceu A, depois B, logo A causou B. O mecanismo é útil na maior parte do tempo e responde por boa parte das conclusões erradas que as pessoas defendem com convicção: a mudança de hábito que "resolveu" o problema que já estava melhorando, o gesto religioso que "trouxe" o resultado que viria de qualquer forma, a decisão gerencial que "salvou" a empresa no trimestre em que o mercado inteiro subiu.
O exercício é simples e desagradável. Diante de uma explicação causal que você aceita, tente formular pelo menos uma sequência alternativa que produziria o mesmo resultado. Se não conseguir formular nenhuma, provavelmente não olhou direito. Se conseguir, guarde as duas e diminua a sua certeza na proporção.
Ir aonde o seu argumento leva
Quem acabou de sustentar em público que a contaminação não vem de fora fica numa posição incômoda se, no dia seguinte, evita cuidadosamente todo lugar que a antiga regra desaconselhava. O deslocamento narrado aqui não é declarado como coerência, e produz o efeito de uma. É possível defender uma tese e organizar a própria vida como se ela fosse falsa, sem que ninguém precise mentir: basta não ir, não convidar, não frequentar, não empregar.
A verificação é objetiva. Tome uma posição que você defende e liste três consequências práticas que ela teria se você a levasse a sério — de agenda, de convívio, de dinheiro. Depois confira quantas estão de fato acontecendo. A distância entre a lista e a realidade é a medida do quanto a posição é opinião e do quanto ela é vida.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Quanto tempo Jesus ficou naquela região?
O texto não diz, e Mateus não dá indicação nenhuma de duração. Quem fornece um indício é Marcos: em Marcos 7:31 o retorno se dá saindo dos limites de Tiro, passando por Sidom e chegando ao mar da Galileia pelo meio da Decápolis (a liga de dez cidades de cultura grega, a leste e ao sul do lago). É um circuito largo. Se a informação é geográfica exata, a estada foi longa; se é apenas a maneira de Marcos indicar território não judaico, não se pode calcular nada. Não é possível decidir.
Ele já tinha tido contato com gente daquela região?
Sim, e o dado está registrado. Marcos 3:8 conta que entre os que vinham procurá-lo havia gente dos arredores de Tiro e de Sidom. Lucas 6:17 diz o mesmo, ao descrever a multidão que veio ouvi-lo e ser curada.
Isso desfaz a impressão de que a viagem levou Jesus a um lugar onde ninguém sabia quem ele era. Havia notícia circulando naquela direção havia tempo, e gente de lá que já o tinha procurado. É informação que muda a leitura do versículo seguinte, e que Mateus não fornece.
Por que tantos comentaristas insistem que ele não pisou em solo pagão?
Porque o próprio evangelho traz, em Mateus 10:5, a instrução de não tomar o caminho dos gentios nem entrar em cidade de samaritanos. Quem lê os dois textos juntos precisa explicar como o mestre faz o que proibiu aos discípulos.
A saída de parte da tradição foi restringir a viagem à faixa de fronteira. É solução conciliadora, e vale dizer que ela resolve um problema de coerência, não uma dificuldade do texto: nada em Mateus 15:21 sugere aproximação em vez de entrada.
9. Conexão com Outros Textos
O mesmo verbo de retirada em Mateus
Mateus 2:13-14 — "Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito... e retirou-se para o Egito."
Mateus 2:22 — "Ouvindo, porém, que Arquelau reinava na Judeia... temeu ir para lá; e, avisado em sonho, retirou-se para as regiões da Galileia." A construção é quase idêntica à deste versículo: mesmo verbo, mesma expressão para "as regiões de".
Mateus 12:14-15 — "E os fariseus, tendo saído, formaram conselho contra ele, para o matarem. Jesus, sabendo isso, retirou-se dali." O motivo está escrito no versículo anterior.
Mateus 14:13 — "Jesus, ouvindo isto, retirou-se dali num barco, para um lugar deserto."
Tiro e Sidom como parceiras de Israel
2 Samuel 5:11 — "Hirão, rei de Tiro, enviou mensageiros a Davi, e madeira de cedro, e carpinteiros e pedreiros."
1 Reis 7:13-14 — "E enviou o rei Salomão, e mandou trazer de Tiro a Hirão, filho de uma mulher viúva... e era artífice em bronze." O fundidor das colunas do Templo.
Tiro e Sidom como catástrofe e como alvo de oráculo
1 Reis 16:31 — "tomou por mulher a Jezabel, filha de Etbaal, rei dos sidônios; e foi e serviu a Baal."
Ezequiel 28:5 — "o teu coração se elevou por causa das tuas riquezas." O centro da acusação dos três capítulos dedicados à queda de Tiro.
Joel 3:4-6 — "E também que tendes vós comigo, Tiro e Sidom?... vendestes os filhos de Judá aos filhos dos gregos." Amós 1:9 traz a mesma acusação de tráfico de pessoas.
O precedente em terra sidônia
1 Reis 17:9 — "Levanta-te, vai a Sarepta, que pertence a Sidom, e habita ali; eis que eu ordenei ali a uma mulher viúva que te sustente." É o único caso, na Bíblia hebraica, de profeta de Israel sustentado por uma mulher fenícia, e a geografia é praticamente a mesma deste versículo. Em Lucas 4:25-27, Jesus cita o episódio na sinagoga de Nazaré, e a reação do auditório é tentar matá-lo.
As mesmas cidades dentro do evangelho de Mateus
Mateus 11:21-22 — "Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom fossem feitos os milagres que em vós se fizeram, há muito que se teriam arrependido... haverá menos rigor para Tiro e Sidom, no dia do juízo, do que para vós." As duas cidades já haviam servido de padrão de comparação favorável contra as cidades da Galileia. O leitor chega a este versículo com essa frase na memória, e o evangelista não faz a ligação por escrito.
A cena paralela
Marcos 7:24 — "levantando-se dali, foi para os termos de Tiro e de Sidom; e, entrando numa casa, não queria que alguém o soubesse, mas não pôde esconder-se." Os dois detalhes que Mateus omite.
Marcos 7:31 — "tendo saído dos termos de Tiro e de Sidom, foi até ao mar da Galileia, por meio dos termos de Decápolis." O trajeto de retorno, que implica entrada em território fenício.
A genealogia e o contexto econômico
Gênesis 10:15 — "E Canaã gerou a Sidom, seu primogênito, e a Hete."
Atos 12:20 — "estava irritado contra os de Tiro e de Sidom; porém eles... pediam paz, porque o seu país se abastecia do país do rei."
10. Original Grego e Análise
Nota preliminar: o Novo Testamento foi escrito em grego koiné (a forma comum da língua grega no primeiro século), e é sobre o grego que incide a análise deste painel.
Texto em português
Então Jesus partiu dali e retirou-se para as regiões de Tiro e Sidom.
Texto grego
Καὶ ἐξελθὼν ἐκεῖθεν ὁ Ἰησοῦς ἀνεχώρησεν εἰς τὰ μέρη Τύρου καὶ Σιδῶνος.
Transliteração
Kai exelthōn ekeithen ho Iēsous anechōrēsen eis ta merē Tyrou kai Sidōnos.
Análise palavra por palavra
Καὶ — kai, "e". Conjunção coordenativa, a mais frequente do grego do Novo Testamento. Liga sem estabelecer relação lógica.
A tradução por "então" acrescenta um matiz de consequência temporal que o grego não marca. Não é erro — é a forma natural de encadear narrativa em português —, mas a partícula original é mais fraca.
ἐξελθὼν — exelthōn, "tendo saído". Particípio aoristo ativo, nominativo masculino singular, de exerchomai ("sair"), composto de ek ("para fora de") e erchomai ("vir, ir").
O particípio aoristo, junto de um verbo principal também no aoristo, indica normalmente ação anterior: "tendo saído... retirou-se". É a construção participial circunstancial, comuníssima na narrativa grega.
ἐκεῖθεν — ekeithen, "dali". Advérbio de lugar que indica a origem do movimento. Forma-se sobre ekei ("lá") com o sufixo -then, que marca procedência.
É uma das articulações prediletas deste evangelho: aparece em Mateus 9:9, 9:27, 11:1, 12:9, 12:15, 13:53, 15:21, 15:29 e 19:15, sempre encerrando uma unidade e abrindo outra. Quando o leitor de Mateus encontra este advérbio, pode contar que um bloco terminou.
ὁ Ἰησοῦς — ho Iēsous, "Jesus". Nome próprio com artigo definido, nominativo, sujeito da oração. A forma grega transcreve o hebraico Yeshua, forma tardia de Yehoshua ("o SENHOR salva"), e é a mesma com que a Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita a partir do século III a.C.) chama Josué. O artigo com nome próprio é normal em grego e não acrescenta ênfase; o que tem função é a explicitação do sujeito, já subentendido desde o versículo 20.
ἀνεχώρησεν — anechōrēsen, "retirou-se". A palavra decisiva do versículo. Aoristo do indicativo ativo, terceira pessoa do singular, de anachōreō.
A formação é ana- (prefixo com sentido de "para trás") mais chōreō ("dar lugar, ceder espaço, retirar-se"), derivado de chōra ("espaço, região, terra"). O composto significa "afastar-se", "recuar". No grego secular é termo militar e político: a retirada de tropas, o afastamento de alguém de um posto, o refúgio em lugar seguro. Da mesma família vem anachōrētēs ("aquele que se retira"), de onde o português "anacoreta".
A estatística é o argumento principal. O verbo ocorre dez vezes em Mateus (Mateus 2:12, 2:13, 2:14, 2:22, 4:12, 9:24, 12:15, 14:13, 15:21 e 27:5), contra quatro em todo o restante do Novo Testamento: Marcos 3:7, João 6:15, Atos 23:19 e Atos 26:31. É vocabulário característico deste evangelista.
E o padrão de uso é consistente. Com a única exceção de Mateus 9:24, onde tem o sentido banal de "afastem-se" dirigido à multidão, o verbo descreve sempre afastamento diante de perigo ou de situação insustentável: a fuga para o Egito, o desvio diante de Arquelau, a saída da Galileia quando João é preso, a retirada quando os fariseus conspiram, o recuo depois da execução do Batista. Em nenhuma ocorrência descreve viagem missionária.
εἰς τὰ μέρη — eis ta merē, "para as regiões". Preposição eis com acusativo, que indica movimento para dentro, mais o artigo neutro plural e o substantivo meros.
Meros significa "parte, porção, quinhão". No plural com sentido geográfico designa "os distritos", "os arredores" — as regiões que gravitam em torno de uma cidade.
A construção inteira é praticamente idêntica à de Mateus 2:22, onde José anechōrēsen eis ta merē tēs Galilaias ("retirou-se para as regiões da Galileia"): mesmo verbo, mesma preposição, mesma expressão geográfica, e nos dois casos alguém se afasta de uma ameaça.
Quanto ao alcance: eis com acusativo indica movimento para dentro, e a leitura mais direta é a de entrada na região. Marcos 7:24 usa horia ("limites, território"), termo que comporta os dois sentidos. Nenhum dos dois evangelhos descreve o lugar onde Jesus esteve, e a questão permanece em aberto.
Τύρου — Tyrou, "de Tiro". Genitivo de Tyros, transcrição do fenício e hebraico Tsor, "rocha" — nome que descreve a formação onde a cidade se assentava. A Septuaginta usa esta mesma forma para traduzir o Tsor hebraico nos oráculos proféticos, e por isso o leitor judeu de língua grega encontrava exatamente esta palavra em Isaías 23, em Ezequiel 26 a 28, em Amós 1 e em Joel 3.
Σιδῶνος — Sidōnos, "de Sidom". Genitivo de Sidōn, transcrição do fenício e hebraico Tsidon. A etimologia mais aceita liga o nome à raiz semítica de "pescar" — a cidade da pesca, coerente com a origem portuária.
A frase montada
Dez palavras, sem nenhuma oração subordinada e sem nenhuma indicação de motivo, de tempo ou de propósito. O peso está inteiramente no verbo principal e nos dois nomes próprios; o resto é estrutura de ligação.
Nota textual
O versículo é estável, e as edições críticas não registram variantes de peso. Por contraste, o paralelo de Marcos 7:24 tem tradição mais movimentada: parte dos testemunhos traz "os limites de Tiro" e parte traz "os limites de Tiro e Sidom".
11. Conclusão
Do que foi exposto, este versículo leva a quatro conclusões.
A primeira é sobre o tipo de movimento. O vocabulário decide, e decide sem margem: o que se narra é um recuo, e não uma expedição. Qualquer leitura que faça do versículo o começo de uma campanha entre os não judeus trabalha contra a palavra que o próprio evangelista escolheu — palavra que ele repetiu dez vezes no livro, sempre com o mesmo sentido.
A segunda é sobre a causa, e ela é negativa. O texto não a fornece, e a variedade de motivos que a tradição de comentário atribuiu à viagem — hostilidade dos fariseus, medo de Herodes, fuga das multidões — mostra o que acontece quando uma lacuna assim fica aberta: cada leitor deposita nela o que lhe parece plausível, e o depósito acaba sendo lido como se fosse texto.
A terceira é sobre o destino. Um nome de lugar pode conter uma história inteira, e é o caso aqui: aquelas duas cidades entram no versículo carregando o cedro que ergueu o Templo, a prata com que ele era sustentado, a rainha que instalou o Baal em Israel, os oráculos de condenação e a viúva que salvou um profeta perseguido. O dossiê é ambivalente nos dois sentidos, e quem o reduz a "terra pagã inimiga" descarta metade do que ele contém.
A quarta é sobre o que a composição autoriza. Que Mateus tenha posto uma travessia de fronteira geográfica logo depois de uma disputa sobre fronteiras de pureza é chamativo, e provavelmente deliberado. Mas ele não liga as duas coisas por escrito, não usa o verbo de missão, e três versículos adiante restringe explicitamente o alcance do que veio fazer. Um texto que monta a sequência e recusa o comentário está pedindo do leitor exatamente aquilo que a pregação corrente costuma dispensar: notar a montagem e não confundi-la com uma tese.













