“Dos outros”, respondeu Pedro. Disse-lhe Jesus: “Então os filhos estão isentos.
1. Introdução
O versículo é a conclusão de um raciocínio em duas falas. Pedro responde à pergunta dos reis; Jesus tira a consequência.
Três pontos organizam a leitura.
O primeiro é a resposta de Pedro, "dos outros". É óbvia, e é justamente por ser óbvia que prende quem responde. Ao dizê-la, Pedro fornece a premissa de uma conclusão que ele ainda não viu.
O segundo é "então os filhos estão isentos". Aqui Jesus afirma um direito. Se o imposto é do templo, e o templo é de Deus, quem é filho de Deus não o deve. A frase não diz a quem se aplica, e as leituras se dividem.
O terceiro é o que vem depois. O direito é afirmado e, no versículo seguinte, não é usado. Este versículo é a metade da liberdade; o 27 é a outra.
2. Contexto Histórico e Cultural
Isenção de imposto como privilégio de quem pertence à casa
A ideia de que certas pessoas não pagam porque pertencem ao rei, ou ao deus, não era abstrata. Estava escrita em decretos.
O caso mais próximo do versículo envolve o próprio templo de Jerusalém. Flávio Josefo (historiador judeu do século I) transcreve nas Antiguidades Judaicas uma carta do rei selêucida Antíoco III, que tomou a Judeia dos egípcios por volta de 200 a.C. Nela o rei concede favores à cidade e ao templo, e declara isentos do imposto por pessoa, do imposto da coroa e do imposto do sal o conselho dos anciãos, os sacerdotes, os escribas do templo e os cantores do templo.
A lógica é a do versículo. Quem serve à casa do deus está livre das cobranças do rei. O pessoal do templo pertencia a outro senhor, e o rei, para honrar esse senhor, abria mão do que lhe seria devido.
Grau de certeza: a autenticidade do documento transcrito por Josefo é discutida, mas a maioria dos estudiosos o aceita como baseado num decreto real, e a prática de isentar pessoal de templos é bem conhecida no mundo helenístico.
A Bíblia hebraica conhecia a mesma recompensa
Em 1 Samuel 17:25, os soldados de Israel contam o que o rei Saul promete a quem matar o gigante: grandes riquezas, a filha em casamento, e "a casa de seu pai será livre em Israel". A palavra hebraica usada é a do homem liberto, e o sentido, pelo contexto, é o de isenção de tributos e de serviços ao rei. A família do herói passaria a pertencer ao círculo dos favorecidos.
Quem estava isento do próprio imposto do templo
O dado mais revelador está dentro da própria cobrança das duas dracmas, cuja história foi apresentada no estudo de Mateus 17:24.
A Mishná (a coletânea de tradições legais judaicas redigida por volta do ano 200), no tratado Shekalim, lista de quem os cobradores tomavam objetos como garantia quando o imposto atrasava: levitas, israelitas comuns, convertidos e escravos libertos. E lista de quem não tomavam: mulheres, escravos, menores — e sacerdotes.
Mulheres, escravos e menores não estavam obrigados. Se pagassem por vontade própria, o dinheiro era aceito. De estrangeiros e samaritanos, não se aceitava a contribuição de modo nenhum.
A disputa dos sacerdotes
O caso dos sacerdotes é o que mais se aproxima da frase de Jesus, porque ali a isenção era reivindicada e contestada.
A Mishná registra duas vozes. Segundo uma tradição atribuída a Ben Bukhri, transmitida na cidade de Jâmnia depois da destruição do templo, o sacerdote que paga o meio siclo não comete falta — o que supõe que ele não estava obrigado. Rabã Yohanan ben Zakai, o mestre que liderou a reconstrução do judaísmo depois do ano 70, responde que o sacerdote que não paga comete falta, e acusa os sacerdotes de interpretar as Escrituras em proveito próprio para se isentarem.
O argumento dos sacerdotes, segundo a mesma passagem, era técnico: as ofertas pagas com o dinheiro do imposto incluíam pães que eram comidos, e a oferta de um sacerdote, pela lei, tinha de ser inteiramente queimada; logo, se eles pagassem, criariam um problema ritual.
O que importa é o quadro. No fim do período do templo, havia um grupo que se considerava isento do imposto por pertencer à casa de Deus, e havia quem o acusasse de usar essa pertença como pretexto. A frase "os filhos estão isentos" foi dita dentro desse debate.
Grau de certeza: a Mishná é posterior, e a data exata da disputa é discutida. Mas ela se refere explicitamente ao tempo do templo e a personagens que viveram antes e logo depois de 70. É plausível que a controvérsia já existisse na geração de Jesus.
3. Análise Teológica do Versículo
"Dos outros", respondeu Pedro
A resposta é a única possível. Nenhum rei cobra imposto dos próprios filhos.
O que torna a resposta importante é o que ela faz com Pedro. No versículo 25, na rua, ele disse "Paga". Agora, em casa, ele diz que quem paga são "os outros". Pedro não percebe, mas as suas duas respostas, lidas juntas, puseram Jesus na posição de estrangeiro em relação ao templo — alguém que paga porque é de fora.
O raciocínio de Jesus não o acusa. Usa a segunda resposta para corrigir o que a primeira supunha.
"Disse-lhe Jesus"
No versículo 25, dentro de casa, Jesus falou primeiro. Aqui ele fala por último. A conversa é conduzida por ele de uma ponta à outra, e Pedro entra apenas com a premissa.
"Então"
A palavra é de conclusão. Não introduz uma opinião nova: tira a consequência do que Pedro acabou de admitir. Se os reis não cobram dos filhos, os filhos não devem.
O argumento só funciona se houver um passo não dito, e o passo é este: o imposto das duas dracmas é cobrado em nome de um Rei. O templo é casa de Deus, e o que se paga a ele se paga a Deus. Jesus não diz isso com palavras; a comparação inteira depende de o ouvinte completar.
"os filhos"
Aqui está a questão central do versículo: quem são os filhos? O texto não diz. Há quatro leituras, e cada uma tem apoio.
A primeira é que os filhos são Jesus. O plural seria apenas a forma geral da comparação — "os filhos dos reis" —, aplicada a um só. O Filho do dono do templo não deve imposto à casa do Pai. Essa leitura se apoia no que o próprio capítulo acabou de dizer: no versículo 5, a voz da nuvem chamou Jesus de "meu Filho amado". E em Mateus 12:6, ele disse que ali estava "algo maior do que o templo". É a leitura mais difundida.
A segunda é que os filhos são Jesus e os discípulos. O plural seria real. O argumento se apoia no versículo seguinte, onde o pagamento é feito "por mim e por você" — Jesus e Pedro juntos. E Mateus chama os discípulos de filhos de Deus: em Mateus 5:9, os pacificadores "serão chamados filhos de Deus"; em Mateus 6:9, eles aprendem a dizer "Pai nosso".
A terceira é que os filhos são Israel inteiro. Êxodo 4:22 chama Israel de "meu filho, o meu primogênito". Se todo israelita é filho de Deus, então nenhum israelita deveria pagar imposto à casa do seu Pai — e a frase seria uma crítica ao próprio imposto como instituição, e não uma exceção para um grupo. Alguns estudiosos defendem essa leitura e a ligam à discordância sobre o imposto que já existia no judaísmo, como mostra o item 2 do estudo de Mateus 17:24. É hipótese séria e minoritária.
A quarta vem dos leitores de Mateus depois do ano 70, quando as duas dracmas passaram a ser cobradas para Júpiter, como o estudo de Mateus 17:24 descreve. Nessa situação, "os filhos estão isentos" poderia soar como: quem pertence a Deus não deve nada a um deus estrangeiro — e ainda assim paga, para não provocar. É leitura possível do alcance do episódio para aquela comunidade, mas não é o sentido da cena, que se passa com o templo de Jerusalém de pé.
Não é possível decidir entre as quatro com base só neste versículo. As duas primeiras são as que o próprio episódio sustenta melhor, e não se excluem: o direito é primeiro de Jesus, e, pelo versículo seguinte, é estendido a Pedro.
"estão isentos"
A tradução diz "isentos"; o grego diz "livres". A palavra é a mesma que se usa para o homem livre em oposição ao escravo.
Isso muda o registro da frase. Não é só "estão dispensados de uma taxa". É "não estão submetidos". O imposto, nessa lógica, é marca de sujeição, e quem é filho não está sujeito.
E o verbo está no presente. Não é "estarão livres" nem "deveriam estar". É "estão". O direito não depende de ser reconhecido pelos cobradores; é afirmado como fato.
O que o versículo não diz
Três limites precisam ser marcados, porque este versículo é usado com frequência para o que ele não sustenta.
O primeiro: ele não diz que o imposto é injusto. Diz que os filhos não o devem. São afirmações diferentes. O templo pode ter direito de cobrar dos outros, e os filhos, ainda assim, não deverem.
O segundo: ele não diz que Jesus deixou de pagar. O versículo seguinte manda pagar.
O terceiro: ele não trata de impostos civis, do Estado, de Roma. A comparação usa reis, mas o objeto é a contribuição ao templo. Tirar daqui uma doutrina sobre isenção fiscal de religiosos ou sobre resistência a impostos é trocar a comparação pelo assunto.
O direito afirmado e não usado
O versículo termina na liberdade. Se o episódio acabasse aqui, a conclusão seria: Jesus não paga. Não acaba. O versículo 27 começa com "mas".
Esta é a estrutura do episódio inteiro, e ela é rara. Jesus não chega à obediência negando o direito; chega a ela depois de afirmá-lo. O que se vai pagar não é uma dívida reconhecida. É uma renúncia. O motivo e o modo da renúncia pertencem ao versículo 27.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pedro
Fornece a resposta que fecha o argumento. É a última fala dele no episódio; no versículo seguinte, ele só recebe ordens. Quem ele é no grupo já foi descrito nos estudos de Mateus 14:28 e Mateus 16:22.
Jesus
Conclui o raciocínio e, com ele, faz uma afirmação implícita sobre si mesmo: pertence à casa cujo imposto se discute. É a mesma identidade dita pela voz do monte no versículo 5, agora tratada em termos de direito.
"Os filhos"
Figura da comparação, sem identificação explícita. As leituras possíveis — Jesus, Jesus e os discípulos, Israel — estão no item 3.
O Rei implícito
Não é nomeado. É o dono do templo, a quem o imposto se destina, e o Pai dos filhos isentos. O argumento só funciona se ele estiver no lugar dos "reis da terra" do versículo anterior.
Os sacerdotes do templo
Não aparecem na cena, mas estão no fundo dela. Eram o grupo que, segundo a Mishná, reivindicava isenção do mesmo imposto por pertencer ao templo, como descrito no item 2.
5. Pontos de Ensino
A conclusão sai da boca de quem ouve
Jesus não impõe a tese. Faz Pedro dizer a premissa e só então tira a consequência. O discípulo não recebe uma regra: é conduzido a reconhecer algo que já sabia.
A filiação muda a relação com as obrigações religiosas
Quem é filho não está diante da casa de Deus como contribuinte. A relação é de pertença, não de dívida. Em Mateus, essa é a lógica do "Pai nosso": o discípulo não se aproxima de um cobrador, e sim de um Pai.
Isso não elimina as obrigações. Muda a razão delas.
Ter um direito não obriga a exercê-lo
O versículo afirma a liberdade com todas as letras. O seguinte mostra que ela não será usada. As duas coisas estão lado a lado de propósito, e nenhuma anula a outra: a renúncia não desmente o direito, e o direito não impede a renúncia.
O templo não é o último nível
Se os filhos não devem ao templo, o templo não está acima deles. O episódio confirma, em termos de imposto, o que Mateus 12:6 disse em termos de dignidade: há algo maior do que o templo.
6. Aspectos Filosóficos
Pode alguém ser livre e servo ao mesmo tempo?
O versículo afirma que os filhos são livres. O seguinte mostra um filho que paga como se não fosse. A pergunta que isso levanta é antiga, e ninguém a formulou de modo mais direto do que Martinho Lutero (reformador alemão do século XVI) no tratado Da liberdade do cristão, escrito em 1520, no ano mais agitado da sua ruptura com Roma.
O que Lutero sustenta
O tratado se abre com duas frases que parecem se anular, e Lutero as põe assim de propósito: o cristão é senhor livre de todas as coisas e não está sujeito a ninguém; o cristão é servo de todas as coisas e está sujeito a todos.
Ele diz que as duas se apoiam em Paulo, que escreve em 1 Coríntios 9:19: "sendo livre de todos, fiz-me servo de todos". E resolve a contradição dividindo a pessoa em duas dimensões. Quanto à relação com Deus, o cristão é livre: nada do que ele faz ou deixa de fazer lhe dá ou lhe tira a condição de filho, que vem só da fé. Quanto à relação com o próximo, o cristão é servo: justamente porque não precisa das obras para si, pode fazê-las inteiramente para os outros.
O ponto fino é a ordem. A servidão não é o preço da liberdade nem uma limitação dela. É o que a liberdade faz quando não precisa se defender.
Onde os dois se encontram
O encontro não é aproximação feita pelo comentarista: é do próprio Lutero. No mesmo tratado, ao explicar por que o cristão livre se submete às autoridades, ele usa este episódio. Diz que Cristo chama a si mesmo e aos seus de filhos do rei, que não devem nada, e ainda assim se submete de livre vontade e paga o imposto.
A estrutura do versículo 26 e do 27 é a das duas frases de Lutero. Primeiro, "os filhos estão livres". Depois, "mas, para não escandalizar", paga-se. O direito vem antes e fica de pé; a renúncia vem depois e não o desmente.
Onde a aproximação não vale
Há duas distâncias.
A primeira é de assunto. A liberdade de Lutero é liberdade diante da exigência de obras para ser justificado — o problema do século XVI, que o texto de Mateus não tem. A liberdade do versículo é a do filho diante de um imposto do templo. Lutero lê a segunda com as categorias da primeira.
A segunda é de sujeito. Para Lutero, a frase vale para todo cristão. O versículo, como mostra o item 3, é ambíguo: pode valer só para Jesus, ou para Jesus e os seus. Aplicar a todos os crentes é uma das leituras possíveis, não a única.
O que a aproximação oferece é uma formulação para a tensão que Mateus apenas encena: a de ser livre de uma obrigação e cumpri-la, sem que a liberdade vire pretexto nem a obediência vire dívida.
7. Aplicações Práticas
Saber o que se deve e o que não se deve
O versículo mostra Jesus separando com clareza aquilo a que está obrigado daquilo a que não está — antes de decidir o que fazer. Muitas vezes a vida religiosa mistura as duas coisas: obrigações que são costume, contribuições que são pressão do grupo, práticas que ninguém sabe de onde vieram.
Há valor em perguntar: isto é dever meu, ou é algo que eu posso fazer ou não? A resposta não decide ainda o que fazer. Mas quem cumpre sabendo que é livre cumpre de outro modo.
A liberdade não é argumento para se afastar
É comum que alguém descubra que certa exigência de sua comunidade não tem base e, a partir disso, rompa. O versículo afirma a liberdade e não rompe. Ter razão sobre o direito não obriga a exercê-lo contra os outros.
Não usar a própria posição para se isentar
No fundo da cena estão os sacerdotes que se diziam isentos do imposto por pertencerem ao templo, acusados de interpretar as Escrituras a seu favor. Quem ocupa posição religiosa — pastor, padre, líder — tem sempre a tentação de achar que as regras comuns não se aplicam a ele. O versículo afirma um direito real e, logo depois, abre mão dele. É o contrário de usar a posição como pretexto.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Jesus estava dizendo que o imposto do templo era ilegítimo?
Não diretamente. Ele afirma que os filhos não o devem, não que ninguém o deve. A leitura de que a frase critica o imposto em si depende de entender "os filhos" como Israel inteiro, e é minoritária.
Os discípulos de hoje estão isentos de contribuir para a igreja?
O versículo não trata disso. O imposto em questão era a contribuição anual ao templo de Jerusalém, e o episódio termina com o pagamento. Usá-lo para justificar que um cristão não contribua para a sua comunidade é inverter o sentido da cena.
Por que Jesus explica a Pedro, se vai pagar de qualquer jeito?
Porque o motivo do pagamento importa. Pagar como devedor e pagar como filho que renuncia a um direito são coisas diferentes, e o versículo existe para que Pedro — e o leitor — saiba qual das duas acontece no versículo 27.
Há manuscritos que acrescentam algo a este versículo?
Há um acréscimo antigo, tratado no item 10, que prolonga o diálogo com uma nova fala de Pedro e de Jesus. Ele não está nos manuscritos principais e não pertence ao texto original.
9. Conexão com Outros Textos
Quem é o Filho
Mateus 17:5 — "Enquanto ele ainda falava, uma nuvem luminosa os cobriu, e dela saiu uma voz que dizia: 'Este é o meu Filho amado, em quem me agrado. Escutem-no!'"
No mesmo capítulo, a voz que identifica o Filho.
Mateus 12:6 — "Pois eu digo a vocês que aqui está algo maior do que o templo."
A relação de Jesus com o templo, dita antes em outros termos.
Lucas 2:49 — "Por que vocês me procuravam? Não sabiam que eu devia estar na casa de meu Pai?"
O templo como casa do Pai, na boca de Jesus menino.
Os discípulos como filhos
Mateus 5:9 — "Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus."
Mateus 6:9 — "Vocês, portanto, orem assim: Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome."
A filiação estendida aos que seguem Jesus.
Israel como filho
Êxodo 4:22 — "E você dirá a Faraó: 'Assim diz o SENHOR: Israel é o meu filho, o meu primogênito.'"
A base da leitura que vê em "os filhos" o povo inteiro.
A isenção prometida pelo rei
1 Samuel 17:25 — "Ao homem que o matar, o rei dará grandes riquezas, lhe dará a sua filha e tornará livre em Israel a casa de seu pai."
A liberdade de impostos como favor a quem pertence ao círculo do rei.
Livre e servo
1 Coríntios 9:19 — "Porque, sendo livre de todos, fiz-me servo de todos, para ganhar o maior número possível."
A frase de Paulo que Lutero pôs na abertura do seu tratado.
1 Pedro 2:16 — "Vivam como pessoas livres, mas não usem a liberdade como pretexto para fazer o mal; vivam como servos de Deus."
A mesma tensão, numa carta atribuída ao discípulo da cena.
Gálatas 5:13 — "Vocês, irmãos, foram chamados para a liberdade. Mas não usem a liberdade para dar ocasião à carne; ao contrário, sirvam uns aos outros pelo amor."
A liberdade que se converte em serviço.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
“Dos outros”, respondeu Pedro. Disse-lhe Jesus: “Então os filhos estão isentos.
Texto grego
λέγει αὐτῷ ὁ Πέτρος, Ἀπὸ τῶν ἀλλοτρίων. ἔφη αὐτῷ ὁ Ἰησοῦς, Ἄραγε ἐλεύθεροί εἰσιν οἱ υἱοί.
Transliteração
legei autō ho Petros, Apo tōn allotriōn. ephē autō ho Iēsous, Arage eleutheroi eisin hoi huioi.
Diferenças entre manuscritos
O Textus Receptus (a edição grega impressa no século XVI que a ABC segue) traz "diz-lhe Pedro: dos outros". Os manuscritos mais antigos trazem uma construção mais curta, "e tendo ele dito: dos outros", sem o nome de Pedro. O sentido é o mesmo.
Há ainda um acréscimo que merece registro, porque mostra como leitores antigos sentiram a falta de um passo. Um manuscrito minúsculo tardio (escrito em letra cursiva, identificado pelo número 713) e a tradição do Diatessarão (a harmonia dos quatro evangelhos composta por Taciano no século II, conhecida por traduções e citações) prolongam o diálogo depois de "os filhos estão isentos": Simão diz "sim", e Jesus responde, em substância, "então dê você também, como se fosse estrangeiro para eles". O acréscimo não está nos manuscritos principais de nenhuma família e não é original. Mas é um comentário antigo embutido no texto: alguém quis deixar explícito que o pagamento seria feito na posição de "outro", por renúncia.
Análise palavra por palavra
λέγει αὐτῷ ὁ Πέτρος — legei autō ho Petros, "diz-lhe Pedro".
Presente de legō dentro de narrativa passada, o mesmo recurso do "diz: Sim" do versículo anterior. As duas respostas de Pedro, a da rua e a de casa, estão no mesmo tempo verbal.
Ἀπὸ τῶν ἀλλοτρίων — apo tōn allotriōn, "dos alheios".
Pedro repete literalmente a segunda alternativa da pergunta de Jesus. O sentido de allotrios está no estudo de Mateus 17:25, item 10.
ἔφη αὐτῷ ὁ Ἰησοῦς — ephē autō ho Iēsous, "disse-lhe Jesus".
Ephē é aoristo de phēmi, "dizer, declarar". O verbo é menos comum que legō e tem um tom de pronunciamento. A troca de verbo — Pedro "diz", Jesus "declarou" — marca a diferença entre dar uma resposta e tirar uma conclusão.
Ἄραγε — arage, "então, portanto".
Combinação de duas partículas: ara, que introduz uma consequência lógica ("logo, por conseguinte"), e ge, que reforça ("de fato, com certeza"). O conjunto equivale a "então, com certeza" ou "segue-se, portanto".
No Novo Testamento a combinação é rara, e em Mateus aparece em mais um lugar: Mateus 7:20, "portanto, pelos seus frutos vocês os reconhecerão". Nos dois casos, ela fecha um raciocínio que partiu de um exemplo tirado da vida comum — lá as árvores, aqui os reis.
ἐλεύθεροί — eleutheroi, "livres".
Plural de eleutheros, a palavra grega para "livre" no sentido social e jurídico: o que não é escravo. É o vocabulário da cidade grega, onde a liberdade era, antes de tudo, um estatuto.
O termo tem um uso financeiro próprio: livre de impostos, isento de encargos. Os decretos helenísticos de isenção empregam essa família de palavras. A tradução "isentos" é, portanto, precisa quanto ao contexto e perde o eco social.
Em Mateus a palavra só aparece aqui. Paulo é quem a usa com mais peso, e é a de Gálatas 5:1, "para a liberdade Cristo nos libertou", e a de 1 Coríntios 9:19, a frase que Lutero usou.
εἰσιν — eisin, "são, estão".
Presente do verbo "ser". A frase é uma afirmação de estado, sem tempo futuro nem modo de possibilidade.
οἱ υἱοί — hoi huioi, "os filhos".
Plural com artigo. O artigo retoma "os filhos deles" da pergunta do versículo 25: são os filhos dos reis da comparação. A gramática não diz a quem a comparação se aplica — o plural pode ser genérico, próprio de uma comparação, ou real. As leituras estão no item 3.
11. Conclusão
Com base no que foi examinado, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que Jesus se põe, diante do templo, na posição de filho da casa e não de contribuinte. O argumento só funciona se o imposto for do Rei e se ele for filho desse Rei. O versículo não diz isso com palavras, mas não se sustenta sem isso. Somado à voz do monte, no versículo 5, e à frase sobre "algo maior do que o templo", em Mateus 12:6, ele é uma afirmação de identidade feita em linguagem de direito.
A segunda é que o direito afirmado é real, e não retórico. A palavra usada é a do homem livre, o verbo está no presente e a conclusão sai de uma premissa que o próprio Pedro deu. Num tempo em que sacerdotes reivindicavam isenção do mesmo imposto e eram acusados de usar a pertença ao templo em proveito próprio, a frase não é banal. Quem ouve não pode depois tratar o pagamento do versículo seguinte como reconhecimento de dívida.
A terceira é que a quem o direito se estende permanece em aberto. Jesus, Jesus com os seus, Israel inteiro — o texto admite as três, e o versículo seguinte, com o "por mim e por você", inclina para a segunda sem fechar a questão. O que se pode concluir com segurança é que a liberdade vem antes do gesto de pagar, e que o gesto não a revoga.













