trinta camelas com as suas crias, quarenta vacas e dez touros, vinte jumentas e dez jumentos.
1. Introdução
A lista termina aqui, e termina pelos animais mais caros.
Depois das cabras e das ovelhas do versículo anterior, entram camelas, vacas, touros e jumentos. O total do presente fecha em quinhentos e cinquenta cabeças, conta que pertence ao versículo 14.
Três pontos organizam a leitura.
O primeiro é a especificação das camelas. O texto não diz "trinta camelos": diz camelas que estão amamentando, com as crias junto. É a única espécie da lista em que nenhum macho é contado.
O segundo é o que os camelos levantam. A presença deles nas narrativas dos patriarcas é um dos pontos mais discutidos entre arqueólogos e historiadores, e vale enfrentar a discussão em vez de contorná-la.
O terceiro é o fecho pelos jumentos, que eram os animais de carga e de montaria daquele mundo — e a ausência completa de cavalos, que diz alguma coisa sobre a época retratada.
2. Contexto Histórico e Cultural
Camelas de leite
A especificação do texto é técnica, e quem a lê como detalhe decorativo perde o ponto.
Nas sociedades que criavam camelos, a fêmea em lactação era o bem mais valioso do rebanho. O leite de camela sustentava famílias inteiras em regiões onde nada mais crescia: é nutritivo, produzido em quantidade e disponível todo dia, ao contrário da carne, que só existe uma vez.
Uma camela em lactação produz por vários meses seguidos, e continua produzindo enquanto a cria estiver junto. Daí a menção às crias no versículo: elas não são um extra sentimental — são a condição para que o leite continue vindo.
Ellicott (comentarista inglês do século XIX) e outros observam que era exatamente por isso que Jacó escolheu fêmeas amamentando: entregava produção corrente, não apenas animais.
Convém notar o que isso significa em termos de valor. Trinta camelas em lactação, com crias, é um patrimônio de outra ordem em relação aos animais miúdos do versículo anterior — e é o item mais caro do presente inteiro.
Os camelos e a discussão sobre a data
Aqui está o ponto que a maioria dos comentários evita, e ele merece ser apresentado com as duas partes.
Gênesis põe camelos domesticados nas mãos dos patriarcas em vários momentos: na caravana do servo de Abraão, no capítulo 24; nos rebanhos de Jacó, em Gênesis 30:43; aqui; e na história de José, no capítulo 37. A cronologia tradicional situa esses acontecimentos entre 2000 e 1500 a.C., aproximadamente.
O problema é que a arqueologia da região não encontra camelos domesticados nessa época.
Um estudo de 2013, conduzido por Lidar Sapir-Hen e Erez Ben-Yosef, da Universidade de Tel Aviv, examinou ossos de camelo recolhidos nos sítios de mineração de cobre do vale do Arabá, entre o mar Morto e o mar Vermelho, e os datou por radiocarbono. O resultado: os ossos aparecem quase exclusivamente em camadas do último terço do século X a.C. em diante — ou seja, cerca de mil anos depois do cenário dos patriarcas, e já no período da monarquia israelita.
A conclusão que os autores tiram é que o camelo doméstico só se generalizou no sul do Levante por volta de 930 a 900 a.C., e que as menções em Gênesis refletem o mundo de quem escreveu, e não o mundo descrito.
O outro lado da discussão
A objeção existe, é séria, e não vem apenas de quem tem interesse apologético.
Primeiro: o estudo mede o sul do Levante, não a Mesopotâmia nem a Arábia. Há indícios bem mais antigos de camelos em relação com seres humanos fora de Canaã — figuras, ossos e menções textuais do terceiro e do segundo milênio a.C. Uma lista de forragem de Alalaque, cidade do norte da Síria, do século XVIII a.C., é citada como registro de alimentação de camelo, embora a leitura da tabuinha seja discutida.
Segundo: os ossos do Arabá medem uso em massa, num contexto industrial de mineração e transporte pesado. Uso ocasional, por poucos e para fins específicos, deixa pouquíssimo vestígio — e é exatamente isso que Gênesis descreve, com números pequenos e em mãos de famílias ricas.
Terceiro: Jacó não está em Canaã quando forma esse rebanho. Ele passou vinte anos em Harã, no norte da Mesopotâmia, que é justamente a região onde os indícios mais antigos aparecem.
E há a objeção inversa, que também precisa ser registrada: ausência de prova não é prova de ausência, mas invocar esse princípio sem limite serviria para defender qualquer coisa.
Onde a discussão está
Não é possível decidir com os dados atuais, e é honesto dizer isso.
O que se pode afirmar é o seguinte. Que o camelo doméstico só se torna comum no sul do Levante no século X a.C. é conclusão bem sustentada. Que isso torne impossível a presença de alguns camelos em mãos de uma família rica seiscentos anos antes, vindos do norte, é outra afirmação, e essa não está demonstrada.
Também é honesto registrar o que a discussão implica. Se as menções forem acréscimo do tempo de quem escreveu, isso não invalida a história — significa que ela foi contada com o vocabulário de quem a transmitiu, o que acontece em toda narrativa antiga. E se não forem, o quadro de Gênesis se sustenta como está.
Não há consenso, e quem apresentar a questão como resolvida — para qualquer dos lados — está indo além do que os dados permitem.
Bois e jumentos
Os dois fecham a lista, e as funções deles eram distintas.
O gado bovino servia à lavoura e ao transporte pesado: puxava arado e carroça, e era abatido em ocasiões importantes. Exigia pasto melhor e mais água do que ovelha e cabra, o que fazia dele um animal de quem podia sustentá-lo.
O jumento era o veículo. Carregava carga, levava gente e aguentava terreno ruim com pouca água — o que o tornava insubstituível nas rotas de Canaã. Andar montado num jumento não era humildade, como a leitura moderna às vezes sugere: era sinal de posição, e Juízes 5:10 chama de nobres justamente os que cavalgam jumentas brancas.
Cavalos não aparecem, e a ausência é coerente. Em Gênesis, cavalos só surgem no Egito, em Gênesis 47:17. Eles chegam ao Levante ligados ao carro de guerra, e não fazem parte da economia dos pastores.
3. Análise Teológica do Versículo
"trinta camelas com as suas crias"
A primeira metade do versículo é a mais cuidadosa da lista inteira.
Duas coisas a distinguem. A primeira é que o texto especifica o estado do animal — não camelas em geral, e sim camelas que estão amamentando. A segunda é que ele acrescenta as crias, que são os únicos filhotes mencionados em todo o presente.
Repare no que isso faz com a conta. Nos outros pares, o número informado é o número de animais. Aqui não: são trinta camelas mais um número indeterminado de crias. O total de quinhentos e cinquenta, que o versículo 14 apura, deixa esses filhotes de fora, porque não há como contá-los.
Há ainda uma ausência que salta aos olhos de quem leu o versículo anterior: nenhum camelo macho é listado.
Isso admite mais de uma explicação, e não é possível decidir. Pode ser que os machos estivessem entre as crias, e o texto simplesmente não os separe. Pode ser que a fêmea em lactação fosse o que interessava, e que o macho, para um presente, não acrescentasse valor equivalente. Pode ser que Jacó tivesse poucos e não quisesse desfazer-se deles.
O que se pode afirmar é que a exceção quebra o padrão dos outros quatro pares, e que quebrar um padrão dessa forma, numa lista tão regular, é o tipo de detalhe que não costuma ser acidente.
"quarenta vacas e dez touros"
A proporção muda: quatro fêmeas por macho, em vez das dez do versículo anterior.
A mudança tem razão prática, e o item 2 do versículo 14 trata das proporções. O que importa aqui é notar que o texto não aplica uma fórmula única. Cada espécie tem o seu número, e isso é o que distingue uma lista montada por quem entende do assunto de uma lista inventada.
Vale registrar o peso econômico. Cinquenta bovinos, em valor, provavelmente superam os quatrocentos e quarenta animais miúdos do versículo 14 inteiro. O presente é maior do que a soma das cabeças sugere, porque as cabeças não valem o mesmo.
"vinte jumentas e dez jumentos"
A lista termina em dois para um, a proporção mais equilibrada de todas.
A explicação não é reprodutiva. O jumento macho não era mantido apenas para cobrir fêmeas: era animal de trabalho, e trabalho de carga era o que mais fazia falta. Manter metade de machos é o que faz sentido para quem precisa transportar coisas.
E há uma consequência prática imediata, que o versículo 16 aproveitará: um presente com trinta jumentos é um presente que se move sozinho, com carga, sem depender de carroça nem de estrada boa.
O fim da lista
Como o versículo anterior, este não tem verbo. É a continuação de um inventário, e termina sem conclusão, sem soma e sem comentário.
Gênesis não escreve "ao todo, quinhentos e cinquenta animais". Não escreve "era um presente enorme". Não escreve o que Jacó pensava ao terminar de separá-los.
Quem quiser o total precisa somar. O livro entrega os números e vai embora.
Essa contenção tem efeito. Depois de quatro versículos em que se ouviu um homem confessar medo e indignidade, dois versículos de contabilidade seca — e no versículo seguinte a voz volta, dando ordens a servos.
O que a lista revela sem dizer
Uma observação final, que decorre do conjunto e não de nenhuma frase isolada.
Todos os lotes são reprodutivos. Fêmeas em maioria, machos em número suficiente, camelas em lactação com as crias juntas. Não há um único animal escolhido para abate.
Isso quer dizer que o presente é uma unidade que se sustenta e cresce. Esaú não está recebendo o equivalente a uma festa; está recebendo o equivalente a uma renda.
O texto não comenta essa característica em lugar nenhum. Ela está inteiramente nos números.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os camelos
Animal de deserto, capaz de percorrer longas distâncias com pouca água e de carregar cargas que jumentos não carregam.
Em Gênesis aparecem várias vezes: na caravana enviada a Harã para buscar Rebeca, no capítulo 24 — onde há uma cena inteira construída em torno de dar água a eles —, entre os bens que Jacó acumula em Gênesis 30:43, aqui, e na caravana dos ismaelitas que leva José ao Egito.
São também o objeto de uma das discussões mais conhecidas entre arqueologia e texto bíblico, tratada no item 2.
As vacas e os touros
Gado bovino, animal de tração e de valor alto. Exige pasto e água em quantidade, o que restringe onde pode ser criado.
Na economia de Canaã, ter bois significava lavrar terra — e lavrar terra significa alguma fixação, ao contrário do rebanho miúdo, que se move.
Os jumentos
O meio de transporte padrão da região. Foi montado em jumentos que os irmãos de José desceram ao Egito, e é num jumento que Abraão sobe o monte no capítulo 22 de Gênesis.
Andar montado era sinal de posição, não de modéstia. A leitura que associa o jumento à humildade vem de textos muito posteriores e de outro contexto.
O vale do Arabá
Depressão que corre do mar Morto ao golfo de Ácaba, na fronteira entre Israel e Jordânia, e centro de mineração de cobre na Antiguidade. É de lá que vêm os ossos de camelo datados por radiocarbono que estão no centro da discussão do item 2. Não tem relação direta com esta cena, que se passa muito ao norte.
Harã
Cidade do norte da Mesopotâmia onde Jacó viveu vinte anos e formou todo o rebanho que está distribuindo. A localização importa para a discussão sobre os camelos: os indícios mais antigos de convivência entre homens e camelos vêm daquela parte do mundo, e não de Canaã.
5. Pontos de Ensino
O detalhe técnico carrega o sentido
"Trinta camelas" e "trinta camelas amamentando, com as crias" não são a mesma informação.
A segunda diz que se está entregando produção em andamento, e não apenas animais. Quem não conhece criação lê a mesma frase e não vê diferença nenhuma — e é assim que boa parte da precisão dos textos antigos se perde na leitura.
A ausência também informa
Não há cavalos na lista, e não há um único animal escolhido para abate.
A primeira ausência situa a cena numa época e num tipo de economia; a segunda revela a natureza do presente. Reparar no que não está escrito é parte de ler bem, e costuma render mais do que reparar no que está.
Números que valem coisas diferentes
Quinhentos e cinquenta cabeças não são quinhentas e cinquenta unidades equivalentes.
Cinquenta bovinos provavelmente valem mais do que quatrocentas e quarenta cabras e ovelhas. Contar não é o mesmo que avaliar, e quem soma sem pesar chega a conclusões erradas — o que vale muito além desta passagem.
Enfrentar a objeção em vez de contorná-la
A presença de camelos aqui é um dos pontos em que texto e arqueologia não se encaixam bem.
Há duas maneiras ruins de lidar com isso: fingir que a objeção não existe, e aceitá-la como se estivesse encerrada. As duas dispensam o leitor de pensar. O caminho honesto é apresentar os dois lados, dizer onde cada um é forte e reconhecer que a questão continua aberta.
6. Aspectos Filosóficos
Como se sabe alguma coisa sobre o passado
A discussão sobre os camelos deste versículo levanta uma questão que ultrapassa em muito o assunto dos camelos: o que exatamente autoriza alguém a afirmar que algo não existia numa época?
O raciocínio arqueológico funciona assim. Escava-se, encontra-se, data-se. Onde não se encontra, conclui-se com prudência — e a prudência é justamente o ponto difícil.
O problema da ausência
A frase "ausência de prova não é prova de ausência" é verdadeira e é usada mal com enorme frequência.
Ela é verdadeira porque muita coisa não deixa vestígio: objetos de matéria orgânica apodrecem, populações pequenas quase não aparecem no registro, e o que se escavou é uma fração ínfima do que existe debaixo da terra.
E é usada mal porque, levada ao limite, ela protege qualquer afirmação. Se a ausência de indícios nunca conta como argumento, então nenhuma reconstrução do passado pode ser contestada, e a arqueologia deixa de ser uma disciplina.
O critério que resolve a tensão, na prática, é probabilístico. A ausência pesa quando o vestígio deveria estar lá — quando o objeto é durável, o uso seria intenso e a área foi bem escavada. E pesa pouco quando qualquer dessas condições falha.
Aplicado ao caso
É essa distinção que organiza a discussão do item 2.
Osso de camelo é durável e aparece bem no registro. Os sítios do Arabá foram escavados com método e datados por radiocarbono. Nesse recorte, a ausência pesa: é bem estabelecido que o camelo não era de uso corrente no sul do Levante antes do século X a.C.
Mas o que a cena descreve não é uso corrente. São trinta animais, em mãos de uma família rica, formados em outra região. Nesse recorte, a ausência pesa muito menos — porque o vestígio de um punhado de animais, num período mal documentado, poderia não existir de qualquer forma.
As duas coisas são compatíveis, e é por isso que a questão continua aberta.
O limite
Convém dizer o que esta reflexão não faz.
Ela não salva o texto nem o condena. Não decide se os camelos estavam ali. O que ela oferece é um modo de avaliar argumentos — e a constatação, incômoda para os dois lados, de que a mesma regra que impede concluir depressa contra o texto também impede concluir depressa a favor dele.
7. Aplicações Práticas
Dar o que continua rendendo
As camelas vão amamentando, com as crias junto. Não é gesto sentimental: é entrega de produção em andamento.
A aplicação é direta. Quando se ajuda alguém, existe a ajuda que resolve o dia e existe a que instala uma capacidade. A segunda custa mais atenção e rende menos gratidão imediata — e é a que muda a situação de quem recebe.
Conhecer o assunto antes de agir nele
Cada proporção da lista é a correta para a sua espécie.
Isso só é possível porque o homem que montou os lotes passou vinte anos no campo. Boa vontade sem competência produz gestos que não funcionam — e a competência, quando existe, quase nunca é notada, porque o que ela produz simplesmente dá certo.
Não fugir das objeções à própria posição
Quem tem alguma convicção — religiosa ou não — encontra, mais cedo ou mais tarde, um dado que não se encaixa nela.
Há dois hábitos ruins: ignorar o dado, e capitular diante dele sem examinar. O caminho útil é o terceiro, e é trabalhoso: entender o argumento contrário na versão mais forte dele, ver onde ele é sólido, ver onde ele se estende além do que sustenta, e conviver com o que ficar em aberto.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que nenhum camelo macho é mencionado?
O item 3 apresenta as explicações possíveis e nenhuma se impõe.
O que se pode acrescentar é que a exceção é real: todos os outros quatro pares da lista trazem fêmeas e machos, e só os camelos não. Numa lista tão regular, isso chama atenção — mas Gênesis não explica.
As crias entram na conta dos quinhentos e cinquenta?
Não. O total apurado no versículo 14 soma apenas os animais numerados, e as crias das camelas não recebem número.
Ou seja: o presente é maior do que o total citado, numa quantidade que não se pode determinar.
A presença de camelos prova que o texto é tardio?
Prova não, e o item 2 expõe a discussão com os dois lados.
A conclusão razoável é que a datação dos ossos do Arabá estabelece bem quando o camelo se tornou comum no sul do Levante, e que daí não decorre automaticamente a impossibilidade de uso ocasional muito antes, em outra região. Não há consenso.
E vale registrar a consequência da hipótese contrária: mesmo que as menções sejam do vocabulário de quem escreveu, isso descreveria um modo normal de transmitir histórias antigas, não uma invenção do episódio.
Esaú precisava de tudo isso?
Pelo capítulo seguinte, não. Em Gênesis 33:9 ele diz que já tem muito, e recusa.
Isso não torna o presente inútil, mas muda o que ele significa. Serviu a quem enviou, não a quem recebeu.
9. Conexão com Outros Textos
Camelos nas narrativas dos patriarcas
Gênesis 24:10-11 — "O servo tomou dez camelos do seu senhor e partiu. (...) Fez os camelos ajoelharem-se fora da cidade, junto a um poço, ao anoitecer."
A cena mais detalhada com camelos em Gênesis, e a que dá a medida do trabalho que dar de beber a eles representava.
O resumo dos vinte anos em Harã, e a origem dos animais deste versículo.
Gênesis 37:25 — "E eis que vinha uma caravana de ismaelitas de Gileade, com os seus camelos carregados de especiarias, bálsamo e mirra, descendo para o Egito."
Jumentos e posição social
Juízes 5:10 — "Vocês, que cavalgam jumentas brancas, que se assentam sobre ricos tapetes e que andam pelo caminho, falem disso."
O verso que desmente a leitura do jumento como sinal de humildade: quem monta é a gente de posição.
Gênesis 22:3 — "Levantou-se Abraão de manhã cedo, albardou o seu jumento e tomou consigo dois dos seus servos e Isaque, seu filho."
Cavalos, que não estão aqui
Gênesis 47:17 — "José lhes deu pão em troca de cavalos, de rebanhos, de gado e de jumentos."
A primeira menção a cavalos em Gênesis, já no Egito, o que é coerente com o quadro econômico das cenas anteriores.
Rebanhos como riqueza
Jó 42:12 — "E o SENHOR abençoou o fim de Jó mais do que o princípio: teve catorze mil ovelhas, seis mil camelos, mil juntas de bois e mil jumentas."
A mesma lista de espécies, na mesma ordem de grandeza que este versículo, e é o ponto de comparação clássico para medir o presente de Jacó.
O leite como alimento
Provérbios 27:27 — "E o leite das cabras será suficiente para o teu sustento, para o sustento da tua casa e para o sustento das tuas servas."
O princípio econômico que explica por que Jacó manda fêmeas em lactação: o que alimenta uma casa é a produção diária, não o abate.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
trinta camelas com as suas crias, quarenta vacas e dez touros, vinte jumentas e dez jumentos.
Texto hebraico
גְּמַלִּים מֵינִיקוֹת וּבְנֵיהֶם שְׁלֹשִׁים פָּרוֹת אַרְבָּעִים וּפָרִים עֲשָׂרָה אֲתֹנֹת עֶשְׂרִים וַעְיָרִם עֲשָׂרָה
Transliteração
gemallim meniqot u-veneihem sheloshim, parot arba'im u-farim asarah, atonot esrim va-ayarim asarah.
Análise palavra por palavra
גְּמַלִּים — gemallim, "camelos". Plural de gamal.
A palavra hebraica é a origem, por caminhos indiretos, do nome do animal em quase todas as línguas europeias: o grego kamēlos e o latim camelus vêm de uma forma semítica próxima desta.
מֵינִיקוֹת — meniqot, "que amamentam", "de leite".
Esta é a palavra decisiva do versículo, e ela é um particípio na forma causativa do verbo yanaq, "mamar". A forma causativa transforma "mamar" em "fazer mamar", ou seja, amamentar.
O termo é usado em outros lugares para amas de leite. Em Êxodo 2:7, a irmã de Moisés se oferece para chamar uma meneqet — uma mulher que amamente — para o bebê tirado das águas; em Gênesis 35:8 aparece Débora, a ama de Rebeca, com essa mesma designação.
Aplicada às camelas, a palavra especifica o estado produtivo do animal. Não são camelas quaisquer: são camelas dando leite.
וּבְנֵיהֶם — u-veneihem, "e as suas crias", literalmente "e os seus filhos".
A palavra é ben, "filho", no plural com sufixo. O hebraico não tem termo separado para filhote de animal: usa a mesma palavra que usa para filho de gente.
Isso vale a pena registrar porque a expressão do versículo 11 — "as mães com os filhos" — usa exatamente esse mesmo par de palavras, mãe e filhos. Quatro versículos separam uma coisa da outra: ali, o medo de que as mães sejam mortas com os filhos; aqui, mães e filhos seguindo juntos como presente.
A ligação pode ser acaso, porque as duas palavras são das mais comuns da língua. Não é possível demonstrar intenção, e ela não é necessária para que o leitor a perceba.
שְׁלֹשִׁים — sheloshim, "trinta".
Plural de shalosh, "três", como o hebraico forma todas as dezenas.
Note a posição do número: ele vem depois de tudo — "camelas amamentando e suas crias, trinta". Em português a ordem seria inversa. O hebraico admite as duas, e aqui o número fecha o grupo.
פָּרוֹת — parot, "vacas". Plural de parah.
Palavra específica para a fêmea do gado bovino. É a que aparece no sonho do faraó, em Gênesis 41:2, com as sete vacas gordas e as sete magras — e é também a da novilha vermelha do ritual de Números 19.
וּפָרִים — u-farim, "e touros". Plural de par.
O macho bovino adulto. A palavra é a mesma que designa o novilho oferecido em sacrifício em boa parte da legislação de Levítico e de Números, onde é o animal de maior porte do sistema de ofertas.
Vale notar a simetria com o versículo anterior: parah e par formam par pela raiz, do mesmo modo que outras duplas de fêmea e macho no hebraico.
אֲתֹנֹת — atonot, "jumentas". Plural de aton.
A fêmea do jumento, e o animal de montaria por excelência. É a palavra de Juízes 5:10, com as jumentas brancas dos que têm posição, e é a da jumenta de Balaão, em Números 22, que fala.
Convém registrar que o hebraico tem várias palavras para jumento, conforme o sexo e a idade, o que é sinal de quanto o animal importava.
וַעְיָרִם — va-ayarim, "e jumentos novos". Plural de ayir.
Aqui o termo é mais específico do que as traduções costumam mostrar. Ayir não é o jumento adulto genérico — é o macho jovem, o burrico.
É a palavra que aparece em Gênesis 49:11, na bênção de Jacó a Judá, e em Zacarias 9:9, no verso sobre o rei que vem montado num jumento, "num jumentinho, filho de jumenta" — texto que os evangelhos retomarão.
A escolha do termo indica animais em idade de trabalho pela frente, não animais gastos. Mais uma vez, o presente é montado com quem tem futuro pela frente.
Sobre a forma do versículo
Como o anterior, este não traz nenhum verbo conjugado. São substantivos, um particípio e numerais.
A lista termina sem soma e sem fecho. Quem quiser o total precisa somar — e a conta pertence ao versículo 14.
11. Conclusão
O versículo fecha a enumeração do presente, e dele decorrem algumas conclusões.
A primeira é sobre a precisão do texto. Não se lê "trinta camelos", e sim camelas em lactação com as crias junto — a única espécie da lista cujo estado produtivo é especificado, e a única em que nenhum macho é contado. É o item mais valioso do presente, e o único cujo número real fica em aberto, porque as crias não são contadas.
A segunda é sobre o conjunto. Somadas as proporções deste versículo às do anterior, todos os lotes são reprodutivos: fêmeas em maioria, machos em quantidade suficiente, jumentos novos, camelas com leite. Não há um único animal separado para abate. Disso decorre que o presente não é uma recepção — é uma renda transferida.
A terceira é sobre o que a lista situa no tempo. Há camelos, bois e jumentos; não há cavalos. A ausência de cavalos é coerente com o quadro econômico das narrativas dos patriarcas, em que o cavalo só aparece no Egito.
A quarta é a que a presença dos camelos obriga a enfrentar. A datação por radiocarbono dos ossos do vale do Arabá estabelece com solidez que o camelo doméstico só se tornou comum no sul do Levante a partir do século X a.C. Daí não decorre, porém, que alguns animais não pudessem existir séculos antes em mãos de uma família rica, vindos do norte da Mesopotâmia, que é justamente de onde Jacó vem. As duas coisas são compatíveis, e a questão continua aberta: quem a apresentar como resolvida, para qualquer lado, está indo além dos dados.
E permanece o silêncio do texto. Gênesis não soma, não qualifica e não comenta. Entrega dois versículos de números e devolve a palavra a Jacó no versículo seguinte, dando ordens a servos.













