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Gênesis 39:7

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✍️ Por Alberto Adriano·5 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 41 acessos
Depois disso, aconteceu que a mulher do seu senhor pôs os olhos em José e disse: "Deite-se comigo."
Corredor interno de casa egípcia com colunas pintadas e uma porta entreaberta ao fundo, luz forte de um lado e sombra do outro, sem figuras em primeiro plano.

Estudo


Depois disso, aconteceu que a mulher do seu senhor pôs os olhos em José e disse: "Deite-se comigo."

1. Introdução

O capítulo vira aqui, e vira numa frase.

Os seis primeiros versículos descreveram uma ascensão contínua. Este introduz outra pessoa, outro tipo de olhar e uma exigência de duas palavras.

Três pontos organizam a leitura.

O primeiro é como a personagem é apresentada. Ela não tem nome. É "a mulher do seu senhor" — definida pela relação com o proprietário de José, e é assim que o capítulo inteiro se referirá a ela.

O segundo é a expressão "pôs os olhos". O texto usa a mesma parte do corpo que aparecera no versículo 4, quando José encontrou favor "aos olhos" de Potifar. O mesmo órgão, e um resultado oposto.

O terceiro é a fala. Em hebraico ela tem duas palavras. Nenhum preâmbulo, nenhuma justificativa, nenhuma tentativa de sedução — uma ordem no imperativo. O item 10 trata disso.

Vale antecipar o contraste que organiza o trecho: a exigência tem duas palavras, e a resposta de José, nos versículos 8 e 9, é o discurso mais longo dele em todo o capítulo.

2. Contexto Histórico e Cultural

A posição da senhora de uma casa egípcia

Para entender a cena é preciso saber quanto poder essa mulher tinha.

A esposa de um alto funcionário egípcio ocupava lugar de autoridade real dentro da propriedade. Comandava o serviço interno, dispunha dos servos, era tratada como senhora por todos os que ali trabalhavam. Documentos e pinturas mostram mulheres egípcias com capacidade jurídica considerável para a época: podiam possuir bens, herdar, mover ações, testemunhar.

Ou seja: não se trata aqui de alguém sem recursos. Trata-se de uma pessoa que manda, dirigindo-se a alguém que pertence à casa.

O que um escravo podia responder

Esta é a informação de fundo mais importante do capítulo, e o texto não a enuncia porque, para o leitor antigo, era óbvia.

Um escravo não tinha meios de recusar quem detinha poder sobre ele. Não havia autoridade a quem recorrer, não havia foro que ouvisse a palavra de um servo comprado contra a de um membro da família proprietária, não havia possibilidade de sair da casa. Fugir era crime, e escravos fugidos eram devolvidos.

Some-se a isso a condição específica de José: estrangeiro, sem parentes no país, sem comunidade, sem quem testemunhasse por ele.

É esse quadro que dá a medida do que os versículos 8 e 9 registram. A recusa dele não é uma escolha entre duas opções aceitáveis; é a rejeição de uma ordem por quem não tinha direito de rejeitar nada.

Adultério e pena de morte

Do outro lado, o risco era simétrico e igualmente grave.

Nos códigos do antigo Oriente Próximo, a relação com a mulher de outro homem era punida com a morte dos dois envolvidos. O código de Hamurabi, da Babilônia, prevê o afogamento do casal; leis assírias trazem disposições semelhantes; e a legislação israelita posterior, em Levítico 20:10 e Deuteronômio 22:22, estabelece a mesma pena.

Sobre o Egito a documentação é menos direta, mas os indícios apontam para punições severas, com a mulher em posição de risco alto.

José, portanto, está diante de uma situação sem saída boa: ceder o exporia à pena capital; recusar o exporia à retaliação de quem tinha poder sobre ele. O capítulo mostrará que a segunda hipótese se realizou.

A ausência de nome

Gênesis não nomeia essa personagem em nenhum momento.

Ela é sempre designada pela relação: "a mulher do seu senhor", aqui e no versículo 8; "a mulher dele", no versículo 9. É a mesma economia com que o texto trata Potifar depois do versículo 1, chamando-o de "seu senhor".

Tradições posteriores lhe atribuíram nomes — a literatura judaica antiga e o Alcorão trazem propostas diferentes —, e nenhuma delas vem do texto bíblico. Registrar isso é mais honesto do que adotar qualquer uma.

Um paralelo egípcio, e só a menção

Há um texto egípcio antigo, o Conto dos Dois Irmãos, com uma cena de estrutura parecida: uma proposta recusada e uma acusação falsa em seguida.

A comparação é interessante e tem limites que precisam ser tratados com cuidado. O assunto pertence ao versículo 17 deste capítulo, e é lá que está desenvolvido.

3. Análise Teológica do Versículo

"Depois disso, aconteceu"

A abertura é uma fórmula de transição, e ela marca corte.

O que veio antes — a compra, a competência, a nomeação, a bênção, a confiança total — está encerrado. A expressão indica que outra coisa começa, sem informar quanto tempo passou.

Esse silêncio sobre o tempo é característico do capítulo. Entre a chegada de José e este momento houve anos, provavelmente; o texto não os mede em nenhum ponto.

"a mulher do seu senhor"

A apresentação da personagem cabe em quatro palavras, e todas elas são sobre outra pessoa.

Ela não é apresentada por nome, nem por idade, nem por origem, nem por qualquer característica própria. É definida pelo vínculo com o homem a quem José pertence. O texto a situa, antes de tudo, dentro da estrutura de propriedade da casa.

Repare no que isso produz. Ao chamá-la assim, o texto lembra ao leitor, na mesma frase em que a apresenta, que ela é a mulher do dono — o que já antecipa a natureza do problema. Não é uma mulher qualquer da casa. É a esposa de quem tem poder de vida e morte sobre José.

A designação se repetirá no versículo 8, quando José responder "à mulher do seu senhor", e ecoará no versículo 9, quando ele disser "porque é a mulher dele". José usa exatamente o mesmo vocabulário do relato.

"pôs os olhos em José"

A expressão hebraica é literalmente "levantou os olhos para" — e ela é comum, em si mesma neutra.

O que a carrega é o contexto e o que vem depois. Aqui ela descreve o momento em que uma pessoa passa a olhar outra de determinada maneira, e o texto não a desenvolve: não descreve o que ela sentiu, não explica de onde veio, não a acompanha por dentro.

Vale notar a economia. Gênesis não entra na cabeça dessa personagem em nenhum momento do capítulo. Sabe-se o que ela olha, o que ela diz e o que ela faz — nada mais.

E vale notar o eco com o versículo 4. Ali, José "encontrou favor aos olhos" de Potifar, e a consequência foi a promoção. Aqui, outros olhos se voltam para ele, e a consequência será a prisão. A mesma palavra, o mesmo servo, dois destinos opostos — e em nenhum dos dois casos José escolheu ser olhado.

"e disse: Deite-se comigo"

A fala é curta em português e mais curta ainda no original: duas palavras.

Não há saudação, não há elogio, não há oferta, não há ameaça enunciada, não há explicação. É um imperativo direto, dito por quem manda a quem obedece.

O item 10 trata da forma verbal. O que importa aqui é a natureza do que foi dito.

Isso não é uma proposta, no sentido de algo que se possa aceitar ou recusar em pé de igualdade. Quem fala é a senhora da casa; quem ouve é propriedade dela e do marido. Uma ordem dada nessas condições não deixa espaço para negociação — e o único espaço que restava a José era o de desobedecer, com o custo que a desobediência traria.

Convém marcar também o que a brevidade revela sobre a expectativa. Quem precisa convencer argumenta. Quem espera ser obedecido não argumenta: manda. A ausência de qualquer preâmbulo é, em si, uma informação sobre a relação de poder entre as duas pessoas.

O contraste que o trecho constrói

A comparação com o que vem a seguir é do próprio texto, e é impossível não vê-la.

A exigência tem duas palavras. A resposta de José, nos versículos 8 e 9, é a fala mais longa dele em Gênesis 39 — três argumentos encadeados, com a descrição da confiança recebida, o limite exato do que lhe foi entregue e uma pergunta final.

Uma ordem curta, uma recusa longa. Quem tem poder economiza palavras; quem não tem precisa de todas elas.

O que o texto não faz

Duas ausências merecem registro, e as duas são deliberadamente contidas.

O texto não descreve nada da cena além do essencial. Não há detalhe físico, não há ambientação, não há tentativa de tornar o episódio vívido. A sobriedade é do original.

E o texto não atribui a José nenhuma participação. Ele não olha, não fala, não responde neste versículo. A ação é inteiramente de outra pessoa, e a atribuição de responsabilidade que o capítulo faz é clara do começo ao fim.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

A mulher de Potifar

Aparece pela primeira vez neste versículo e sairá de cena no versículo 19. Não tem nome em Gênesis, nem em nenhum outro livro bíblico.

O texto lhe atribui quatro ações ao longo do capítulo: olha e fala, aqui; insiste, no versículo 10; agarra, no versículo 12; acusa, nos versículos 14 a 18. Nenhuma linha descreve o que ela pensava ou sentia.

Vale registrar a diferença de tratamento entre os dois discursos que o capítulo lhe atribui. A fala deste versículo tem duas palavras. As dos versículos 14 e 17 são longas, elaboradas e diferentes entre si conforme o público.

José

Neste versículo ele é apenas alvo. Não age, não fala, não reage — a primeira palavra dele em todo o capítulo virá no versículo 8.

Do ponto de vista jurídico, a posição dele é a de quem não pode recusar. Do ponto de vista do texto, é a de quem vai recusar mesmo assim.

Potifar

Ausente, e a ausência é do versículo 6: ele deixou de acompanhar a casa. Só reaparecerá no versículo 16, quando voltar para casa e receber a versão da mulher.

Tudo o que acontece entre os versículos 7 e 15 acontece sem que ele saiba.

A casa

Continua sendo o único cenário do capítulo. O versículo 11 informará que ela pode ficar vazia, e é essa possibilidade que o episódio vai explorar.

Onde este versículo está na sequência

É o ponto de virada de Gênesis 39. Os seis versículos anteriores formaram uma subida; os treze seguintes formam a descida.

A estrutura do capítulo é simétrica: José sobe numa casa, cai, e volta a subir numa prisão. Este versículo é o começo da primeira queda.

5. Pontos de Ensino

Uma ordem não é uma proposta

Quem fala manda na casa; quem ouve pertence à casa. Nessas condições, o que é dito no imperativo não admite recusa sem custo.

O texto não discute o assunto e não precisa: apresenta a posição das duas pessoas no versículo 1 e no versículo 4, e o leitor antigo sabia o que isso significava.

A brevidade da fala é informação

Duas palavras, sem preâmbulo. Quem espera ser obedecido não argumenta.

É útil notar isso como método de leitura: o tamanho de uma fala, num texto assim, diz algo sobre a relação entre quem fala e quem ouve. E a resposta de José, longa e argumentada, diz o outro lado da mesma coisa.

O texto não entra na cabeça de ninguém

Não há uma linha sobre o que ela sentia, nem sobre o que José sentiu.

Isso é característico da narrativa hebraica antiga, e tem efeito: a cena é julgada pelo que foi feito, e não por motivações que ninguém pode verificar. Comentários que reconstroem a psicologia dos personagens estão preenchendo um silêncio que o texto manteve.

Ser olhado não é ato de quem é olhado

José recebe dois olhares neste capítulo. O de Potifar, no versículo 4, o promove. O deste versículo o destrói.

Em nenhum dos dois casos ele fez alguma coisa para ser olhado. O paralelo entre as duas cenas é do texto, e ele mostra que o destino de José dependeu, nas duas vezes, do que outra pessoa decidiu ver.

A informação sobre a aparência não explica nada

O versículo 6 disse que José era bonito, e o versículo 7 narra o que aconteceu. Não há palavra de ligação entre as duas frases.

A responsabilidade que o capítulo atribui recai inteiramente sobre quem agiu. Isso é do texto, e vale repetir sempre que a passagem for lida.

6. Aspectos Filosóficos

O que resta a quem não pode dizer não

A cena instala uma situação sem saída jurídica. José não tem direito de recusar, não tem a quem recorrer e não tem para onde ir. A ordem que recebe vem de quem manda na casa em que ele é propriedade.

A questão de fundo é o que significa escolher em condições assim. Se nenhuma alternativa está aberta, ainda existe decisão? E se existe, qual é o valor dela?

O que o próprio texto responde

Gênesis 39 não formula a pergunta e responde a ela pelos fatos.

José recusa. A recusa não muda a estrutura, não lhe devolve a liberdade e não o protege — pelo contrário, é ela que produz a acusação e a prisão. Do ponto de vista prático, não resolveu nada.

Ainda assim, ela é o único ato do capítulo que não é determinado por outra pessoa. Tudo o mais que acontece a José é decidido por terceiros: a venda, a compra, a promoção, a acusação, a prisão. A recusa é a única coisa que parte dele.

Onde o argumento não pode ir

É preciso resistir à conclusão consoladora de que a liberdade interior torna a servidão suportável.

O texto não diz isso, e as consequências que ele narra desmentem qualquer consolo: a recusa custa a José a posição, a reputação e a liberdade de movimento. Gênesis registra o preço sem sugerir que valeu a pena.

Também é preciso resistir ao inverso — usar a assimetria de poder para dizer que a decisão não existia. Ela existiu, e o capítulo a narra em detalhe nos versículos 8 e 9.

O que se pode afirmar, sem ir além: em uma situação sem alternativa aceitável, houve uma escolha, e ela foi cara. Ler nisso uma tese sobre a liberdade humana é leitura do comentarista; o texto apenas conta o que aconteceu.

7. Aplicações Práticas

Assédio começa com quem tem poder

Neste versículo quem age é quem manda, e quem sofre é quem depende.

É a configuração mais comum do problema, e o capítulo a apresenta sem disfarce: a desigualdade entre as duas pessoas está descrita desde o versículo 1. Reconhecer essa estrutura é o primeiro passo para avaliar qualquer situação parecida — a pergunta útil não é o que foi dito, e sim quem podia dizer aquilo a quem.

Não transferir para quem sofreu a explicação do que aconteceu

O texto informou a aparência de José no versículo anterior e não a usa como causa em nenhum momento.

Vale como cuidado concreto: ao ouvir um relato desse tipo, a primeira pergunta que costuma surgir — o que a pessoa fez, como estava, por que estava ali — desloca a responsabilidade de lugar. Gênesis 39 não faz essa pergunta em nenhum versículo.

Quem depende raramente tem quem testemunhe por ele

José era estrangeiro, comprado, sem família no país e sem comunidade. A palavra dele não valia contra a de um membro da casa.

Isso permanece verdadeiro em situações contemporâneas de dependência — trabalho informal, moradia cedida, vínculo migratório. Quem escuta um relato assim faria bem em considerar quanto custa, a quem o faz, simplesmente falar.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que a mulher de Potifar não tem nome?

Gênesis não a nomeia, e não explica por quê.

Vale notar que o texto trata Potifar do mesmo modo depois do versículo 1, chamando-o de "seu senhor". A economia de nomes é característica do capítulo, que vê a casa da posição de José: para ele, aquelas pessoas eram o senhor e a mulher do senhor.

Tradições posteriores lhe deram nomes, nenhum vindo do texto bíblico.

Quanto tempo passou entre o versículo 6 e este?

O texto não informa. A fórmula de abertura marca corte, não intervalo medido.

O que se pode deduzir é que houve tempo suficiente para que José se estabelecesse na administração e para que a casa prosperasse de modo perceptível. Qualquer número é estimativa.

José podia simplesmente ter saído de perto?

Não, e é importante dizê-lo.

Ele morava e trabalhava na casa dela, e a função que exercia exigia que circulasse por todos os cômodos. O versículo 11 mostrará exatamente isso: ele entra na casa para cumprir tarefas. Sair de perto significaria abandonar o cargo, o que um escravo não podia fazer.

Por que ela agiu assim?

O texto não diz.

Não há uma linha sobre motivo, sentimento ou circunstância. Comentários que reconstroem a psicologia dela — tédio, paixão, vingança contra o marido, desprezo pelo estrangeiro — estão propondo hipóteses, e é honesto apresentá-las como tais. Gênesis não entra nesse assunto.

A brevidade da fala tem algum sentido?

São duas palavras em hebraico, num imperativo direto, e o item 10 as analisa.

O que a brevidade mostra é a expectativa de obediência: quem precisa persuadir usa mais palavras. O contraste com a resposta longa de José, nos versículos 8 e 9, é evidente e provavelmente deliberado.

Havia risco para ela também?

Sim, e considerável.

Os códigos do antigo Oriente Próximo previam pena de morte para os dois envolvidos em adultério. Isso não atenua nada do que o capítulo narra, e ajuda a entender a violência da reação a partir do versículo 13: uma acusação imediata era, entre outras coisas, uma proteção.

9. Conexão com Outros Textos

Levantar os olhos para alguém

Gênesis 39:4 — "Assim José encontrou favor aos olhos dele."

O mesmo órgão, três versículos antes, com resultado oposto. José é promovido por um olhar e destruído por outro.

2 Samuel 11:2 — "E aconteceu que, à tarde, Davi se levantou do seu leito (...) e viu do terraço uma mulher que se estava lavando."

A cena mais próxima em estrutura: quem tem poder vê e manda buscar. A diferença é que ali o texto narra o abuso consumado, e aqui narra a recusa.

A construção "deite-se comigo"

Gênesis 39:12 — "Então ela o agarrou pela roupa e disse: Deite-se comigo!"

A repetição literal da mesma ordem, cinco versículos adiante, agora acompanhada de força física.

2 Samuel 13:11 — "e disse-lhe: Vem, deita-te comigo, minha irmã."

Amnom a Tamar, com a mesma construção. A resposta dela, no versículo seguinte, é longa e argumentada, como a de José — e ali a recusa não impede o crime.

A recusa que custa caro

Gênesis 39:20 — "E o senhor de José o tomou e o pôs no cárcere."

O resultado direto do que este versículo inicia.

Daniel 3:17-18 — "Mas, se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses."

Outra recusa dita por estrangeiros sem poder diante de quem podia matá-los, e também sem garantia de desfecho.

Advertências posteriores sobre o mesmo tipo de situação

Provérbios 6:24-25 — "Para te guardarem da mulher má (...) Não cobices no teu coração a sua formosura, nem te prendas com os seus olhos."

O livro de Provérbios trata longamente do tema, e é preciso notar a diferença de situação: ali o destinatário é um jovem livre, que pode escolher onde estar. José não podia.

Provérbios 7:13 — "E pegou dele, e o beijou; e com semblante desavergonhado lhe disse."

A cena mais parecida em vocabulário, e igualmente construída sobre o gesto de agarrar.

A ausência de nome

Gênesis 39:8 — "Mas ele recusou e disse à mulher do seu senhor."

Gênesis 39:19 — "Quando o seu senhor ouviu as palavras que a mulher lhe dizia."

Do começo ao fim, sempre pela relação com o marido, nunca por nome próprio.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Depois disso, aconteceu que a mulher do seu senhor pôs os olhos em José e disse: "Deite-se comigo."

Texto hebraico

וַיְהִי אַחַר הַדְּבָרִים הָאֵלֶּה וַתִּשָּׂא אֵשֶׁת־אֲדֹנָיו אֶת־עֵינֶיהָ אֶל־יוֹסֵף וַתֹּאמֶר שִׁכְבָה עִמִּי׃

Transliteração

wa-yehi ahar ha-devarim ha-eleh wa-tissa eshet-adonav et-eineha el-Yosef wa-tomer shikhvah immi.

Análise palavra por palavra

אַחַר הַדְּבָרִים הָאֵלֶּה — ahar ha-devarim ha-eleh, "depois destas coisas".

Fórmula de transição frequente em Gênesis. Davar significa palavra e também coisa, assunto, acontecimento — de modo que a expressão cobre tanto "depois destas palavras" quanto "depois destes fatos".

Ela aparece em Gênesis 15:1, antes da promessa a Abrão, e em Gênesis 22:1, antes do episódio do sacrifício de Isaque. É marcador de nova unidade, e não indicação de intervalo medido: o texto não diz quanto tempo passou.

וַתִּשָּׂא — wa-tissa, "e levantou". Do verbo nasa, levantar, erguer, carregar.

A construção completa é "levantar os olhos para", expressão comum e em si mesma neutra. Ela descreve simplesmente dirigir o olhar a alguma coisa: em Gênesis 13:10 Ló levanta os olhos e vê a planície do Jordão; em Gênesis 22:4 Abraão levanta os olhos e vê o lugar de longe.

O que carrega a expressão aqui é o objeto e o que se segue. O verbo não traz, por si, nenhum conteúdo de desejo.

אֵשֶׁת־אֲדֹנָיו — eshet-adonav, "a mulher do seu senhor".

Ishah é a palavra para mulher e para esposa — o hebraico não as distingue. Adonav é "seu senhor", a mesma palavra usada desde o versículo 2 para designar Potifar.

A construção prende as duas palavras: ela é definida pela relação com o dono de José. O texto usará essa fórmula outra vez no versículo 8, e José a repetirá com outras palavras no versículo 9.

אֶת־עֵינֶיהָ — et-eineha, "os olhos dela".

Aqui o et é a partícula de objeto direto. Ayin, olho, é a mesma palavra do versículo 4, onde José achou favor "aos olhos" de Potifar.

A repetição da palavra nas duas cenas é do texto. Que ela seja intencional, não se pode afirmar.

שִׁכְבָה עִמִּי — shikhvah immi, "deita-te comigo".

Aqui está o achado deste versículo, e ele é de forma antes de ser de sentido.

São duas palavras. Em hebraico, a fala inteira da personagem tem dois vocábulos — não há vocativo, não há partícula de cortesia, não há complemento. É o discurso mais curto atribuído a alguém em todo o capítulo.

Shikhvah é o imperativo do verbo shakhav, deitar-se. O verbo é comum e cobre desde deitar para dormir, como em Gênesis 28:11, até morrer e "deitar-se com os pais", como em Gênesis 47:30. Acompanhado da preposição im, "com", e de uma pessoa, ele designa a relação sexual.

Vale notar um detalhe da forma. O imperativo aparece aqui com uma terminação que, em hebraico, costuma acrescentar ênfase ou insistência ao pedido — a mesma terminação que se encontra em ordens enfáticas de outros textos. Não é atenuação; se algo, é reforço.

Por que a brevidade importa

O contraste com o que vem a seguir é imediato e mensurável.

A ordem tem duas palavras. A resposta de José, nos versículos 8 e 9, ocupa dois versículos inteiros, com três argumentos encadeados e uma pergunta final — é o discurso mais longo dele em Gênesis 39, e um dos mais longos de toda a história dele antes do reencontro com os irmãos.

Essa desproporção diz algo sobre a posição de cada um. Quem manda não precisa de palavras: a autoridade faz o trabalho que o argumento faria. Quem obedece, ao recusar, precisa de todas — porque a recusa dele não tem nenhuma força própria e depende inteiramente de convencer.

É observação sobre a forma do texto, verificável no original, e não interpretação psicológica dos personagens.

A repetição da mesma ordem

As duas palavras voltarão idênticas no versículo 12, quando a ordem for acompanhada de força física.

Entre uma ocorrência e outra está o versículo 10, que informa que ela falava "dia após dia". O texto registra, portanto, uma exigência repetida ao longo de um período, e não um episódio isolado.

A mesma construção verbal aparece em 2 Samuel 13:11, na fala de Amnom a Tamar. Ali, como aqui, a recusa é longa e argumentada; ali, ao contrário daqui, ela não impede o crime.

11. Conclusão

Deste versículo, que é o ponto de virada do capítulo, decorrem quatro conclusões.

A primeira é sobre a forma da fala. Ela tem duas palavras em hebraico, no imperativo, sem preâmbulo, sem justificativa e sem tentativa de persuasão. Disso decorre que o que se enuncia ali não é uma proposta entre iguais: é uma ordem dada por quem manda na casa a quem pertence à casa, e a economia de palavras é a marca dessa expectativa de obediência.

A segunda é o contraste que essa brevidade prepara. A resposta de José, nos dois versículos seguintes, é a fala mais longa dele em todo o capítulo. Quem tem autoridade dispensa argumento; quem não tem depende inteiramente dele — e essa desproporção é verificável no original, não é leitura.

A terceira é sobre a apresentação da personagem. Ela é definida pela relação com o proprietário de José, e assim permanecerá até o fim. O texto não a nomeia, não entra nos pensamentos dela e não explica o que a moveu: registra o que ela olhou, o que disse e o que fez.

A quarta é sobre a atribuição de responsabilidade. Neste versículo José não age, não fala e não reage — a ação é inteiramente de outra pessoa. Nenhuma palavra do capítulo liga a informação sobre a aparência dele, dada no versículo 6, ao que acontece aqui.

Fica registrada a situação sem saída em que o próximo versículo o encontrará: um estrangeiro comprado, sem parentes no país, sem quem testemunhe por ele, diante de uma ordem que a lei da casa não lhe permitia recusar.

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