E Resém, entre Nínive e Calá; esta é a grande cidade.
1. Introdução
Chegamos ao último versículo da pequena nota sobre Ninrode, aquele parêntese em que a Tábua das Nações deixou de listar nomes para contar uma história. Desde o versículo 8, o texto acompanhou o primeiro homem 'poderoso' da terra: viu-o fundar reinos em Sinar — Babel, Ereque, Acade, Calné — e depois avançar para a Assíria, onde ergueu Nínive, Reobote-Ir e Calá. Agora, no versículo 12, a lista de cidades se fecha com mais um nome e uma frase final: 'e Resém, entre Nínive e Calá; esta é a grande cidade.' Depois disso, o narrador retoma o ritmo seco da genealogia. A biografia do homem forte termina aqui, e termina falando de cidades.
Não é por acaso que o parêntese sobre o poder se encerra com um aglomerado urbano. O versículo é quase todo geografia: um nome novo, Resém, situado 'entre' duas cidades já mencionadas, e uma observação sobre grandeza. À primeira vista, parece apenas o arremate de uma lista topográfica. Mas o texto está desenhando algo maior do que um mapa. Está mostrando como o poder que 'começou' em um único homem se materializa em pedra e tijolo, em muralhas e ruas, num adensamento de cidades que se tocam e formam, juntas, uma metrópole. O império não é uma ideia abstrata: ele tem endereço, e o endereço é uma grande cidade.
Duas dificuldades honestas atravessam este versículo, e é bom nomeá-las desde o início. A primeira é Resém: não sabemos com segurança onde ficava. O texto a coloca 'entre Nínive e Calá', mas nenhum sítio arqueológico foi identificado com certeza como sendo essa cidade. A segunda é a frase final — 'esta é a grande cidade': a qual cidade ela se refere? A Resém, que acabou de ser nomeada? Ou ao conjunto todo, ao complexo urbano formado por Nínive, Calá e as povoações entre elas, lido como uma só grande metrópole? O hebraico permite as duas leituras, e convém sustentá-las sem forçar uma resposta que o texto não dá.
Por baixo dessas questões, porém, corre um tema que ilumina todo o conjunto de Gênesis: a cidade como símbolo do poder humano concentrado. A Tábua das Nações havia mostrado a humanidade se espalhando, cada família 'segundo a sua língua e a sua terra'. Aqui, ao contrário, ela se aglomera. Poucos capítulos adiante, essa mesma pulsão de ajuntar-se em vez de encher a terra explodirá em Babel; poucos capítulos depois, Deus responderá a ela chamando um único homem, Abraão, para dele fazer uma nação. Resém, escondida entre Nínive e Calá, é uma peça pequena de uma discussão enorme sobre onde mora a verdadeira grandeza.
2. Contexto Histórico e Cultural
O versículo se passa no coração da Assíria, a região norte da Mesopotâmia, ao longo do rio Tigre. Os nomes citados — Nínive e Calá — não são invenções: são duas das mais importantes cidades da história assíria, hoje bem conhecidas pela arqueologia. Nínive (a atual Mossul, no norte do Iraque) tornou-se a grande capital do império no seu apogeu; Calá (o sítio de Ninrude/Nimrud, cujo próprio nome moderno ecoa 'Ninrode') foi capital assíria por longos períodos, célebre pelos seus palácios e relevos. Entre essas duas cidades, o texto coloca Resém e afirma que ali havia 'a grande cidade'. O leitor está diante do berço geográfico de um dos maiores impérios do mundo antigo.
É preciso, contudo, ser honesto quanto aos limites do que se sabe. Nínive e Calá são identificáveis com alto grau de certeza; Resém, não. O nome não reaparece em nenhum outro lugar da Bíblia, e não há consenso arqueológico sobre a qual sítio ele corresponde. Foram propostas ligações com a acádica Resh-eni ('nascente', 'cabeceira de água') e com pequenas localidades da região de Nínive, mas nenhuma identificação se impõe. O mais prudente é classificar Resém como uma cidade de localização incerta, situada em algum ponto da faixa entre as duas grandes capitais assírias. Saber medir o grau de certeza faz parte de uma leitura séria: há nomes neste versículo que podemos apontar no mapa e um que, honestamente, não podemos.
Há um dado histórico que dá sentido à frase final do versículo: o fenômeno do adensamento urbano assírio. Nínive, Calá, Reobote-Ir e as povoações vizinhas não eram cidades isoladas em meio ao deserto; formavam, ao longo do Tigre, uma rede de núcleos urbanos próximos, com aldeias, subúrbios e muralhas que se estendiam e quase se emendavam. Os assíriólogos falam de um verdadeiro complexo metropolitano na região de Nínive. Dizer que ali estava 'a grande cidade' pode, portanto, não apontar para um único ponto, mas descrever esse conjunto — muitas cidades que, juntas, formavam uma só imensa concentração humana. É o retrato antigo de uma megalópole.
Para o leitor israelita, esses nomes carregavam um peso emocional imenso. A Assíria foi o império que destruiu o Reino do Norte e levou as dez tribos ao cativeiro; Nínive era a capital do inimigo por excelência. Não por acaso, séculos depois, o livro de Jonas descreveria Nínive com a mesma expressão que aparece aqui — 'a grande cidade' —, ao enviar o profeta a pregar contra ela (Jonas 1:2; 3:3). Quando um israelita lia, em Gênesis 10:12, que entre Nínive e Calá estava 'a grande cidade', não lia uma nota geográfica neutra: lia o embrião de uma potência que um dia esmagaria o seu povo. A Tábua das Nações estava plantando, discretamente, a semente de um drama que percorreria toda a história bíblica.
3. Análise Teológica do Versículo
“e Resém,”
O nome fecha a lista das cidades assírias de Ninrode. É um nome que não vai a lugar nenhum: aparece uma única vez em toda a Escritura e some. Isso, em si, é revelador. Resém não é celebrada por nenhum feito, não sedia nenhum episódio, não se torna símbolo de nada. Ela existe no texto apenas como mais um tijolo do adensamento urbano que Ninrode inicia. Há uma sobriedade quase irônica nisso: o poder que se ergue construindo cidades produz também nomes que ninguém guardará. Nem toda pedra assentada por um império sobrevive na memória; muitas, como Resém, viram apenas rumor entre duas cidades maiores.
“entre Nínive e Calá;”
A localização de Resém é dada por referência, não por si mesma: ela é definida pelo espaço entre duas cidades maiores. Essa pequena preposição — 'entre' — pinta a paisagem de todo o versículo: um território tão povoado que as cidades já se descrevem umas em relação às outras, encostadas, formando corredor. Não há mais vazio entre elas para preencher; há aglomeração. É a imagem exata do adensamento urbano assírio, em que os núcleos se aproximavam até quase se tocar. Onde a bênção de Gênesis 9 pedira que a humanidade 'enchesse a terra' — espalhando-se —, aqui a humanidade faz o oposto: comprime-se, junta-se, ergue cidade colada a cidade.
“esta é a grande cidade.”
A frase final é, ao mesmo tempo, a mais simples e a mais discutida do versículo. Em hebraico, hi ha'ir haggedolah — 'ela é a grande cidade'. A dúvida é gramatical e antiga: a qual cidade 'ela' se refere? Pode apontar para Resém, a última nomeada, dizendo que ela era a maior do grupo. Pode apontar para Calá, imediatamente anterior. E pode, num sentido mais amplo, resumir todo o conjunto — Nínive, Calá, Resém e as povoações entre elas — como uma única 'grande cidade', uma metrópole formada pela soma de muitas. O texto não resolve a ambiguidade, e é honesto reconhecê-lo. Mas, seja qual for o referente exato, o efeito é o mesmo: o parêntese sobre o poder de Ninrode termina apontando para a grandeza — e é uma grandeza medida em tamanho, em concentração, em cidade. A mesma expressão descreverá Nínive em Jonas, onde 'a grande cidade' é grande justamente naquilo que a torna alvo do juízo e da misericórdia de Deus. Aqui, sem julgar com palavras, o texto deixa a grandeza urbana como a última imagem do homem forte: Ninrode começou poderoso na terra e termina numa grande cidade.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Resém — A cidade que fecha a lista de fundações atribuídas a Ninrode. Situada 'entre Nínive e Calá', é de localização incerta: não foi identificada com segurança por nenhum sítio arqueológico e não reaparece na Bíblia. Funciona no texto como o último elo do adensamento urbano assírio, um nome entre nomes maiores.
Nínive — Uma das grandes capitais da Assíria, situada onde hoje está Mossul, no norte do Iraque. Tornar-se-ia a capital do império no seu auge e, no livro de Jonas, seria chamada 'a grande cidade' — a mesma expressão deste versículo. Para Israel, símbolo máximo do poder inimigo.
Calá — Outra capital assíria, o sítio hoje conhecido como Nimrud — nome moderno que ecoa o de Ninrode. Célebre pelos seus palácios e relevos, é a segunda referência que baliza a posição de Resém. Com Nínive, forma o par entre o qual o texto localiza 'a grande cidade'.
A grande cidade — Não um lugar novo, mas uma qualificação: 'a grande cidade' que o versículo destaca. Pode designar Resém, ou o complexo urbano formado por Nínive, Calá e as povoações vizinhas, lido como uma só metrópole. É a última imagem do parêntese sobre Ninrode — a grandeza feita de pedra e concentração humana.
Ninrode — O primeiro 'poderoso' da terra, cuja nota se encerra aqui. Ainda que não seja nomeado neste versículo, é dele o reino que se estende de Babel até a Assíria; as cidades listadas são o desdobramento concreto do seu poder. Com a grande cidade entre Nínive e Calá, a Escritura sela o retrato do homem forte e volta à sua genealogia.
5. Pontos de Ensino
A grandeza humana costuma medir-se em concentração. O poder de Ninrode culmina numa 'grande cidade'. A régua do mundo para a grandeza é o tamanho, o acúmulo, a densidade — muitos reunidos sob um só domínio. A Escritura registra essa medida sem endossá-la, deixando o leitor perguntar se é essa a grandeza que conta.
Concentrar-se pode ser o contrário de obedecer. A bênção de Gênesis 9 mandara encher a terra, espalhar a vida. O adensamento assírio faz o oposto: comprime a humanidade em cidades coladas umas às outras. Há um modo de crescer que na verdade recusa o chamado de Deus a se espalhar e abençoar.
Nem toda pedra assentada permanece. Resém, ponta do império, sumiu da memória e do mapa. O poder ergue muito que o tempo apaga. A permanência não se compra com muralhas; nomes de cidades poderosas viram incerteza arqueológica, enquanto uma promessa de Deus atravessa milênios.
A honestidade também é virtude na leitura da Bíblia. Sabemos onde ficavam Nínive e Calá; não sabemos ao certo onde ficava Resém, nem a qual cidade se refere 'a grande cidade'. Reconhecer o grau de certeza de cada coisa — o que é firme e o que é conjetura — é parte de honrar o texto em vez de forçá-lo.
As grandes cidades do homem estão sempre sob o olhar de Deus. A mesma 'grande cidade' que aqui coroa o poder de Ninrode reaparece em Jonas como alvo do juízo e da misericórdia. Nenhuma metrópole é grande demais para escapar de Deus, nem pequena demais para merecer a sua compaixão.
6. Aspectos Filosóficos
Há uma lógica silenciosa no modo como a Bíblia encerra o retrato do primeiro homem forte: ela o faz terminar numa cidade. O poder, quando amadurece, deixa de ser força pessoal e vira estrutura — muralha, rua, aglomeração. Ninrode começou 'poderoso na terra', como um indivíduo; termina como fundador de um complexo urbano onde milhares vivem sob a sombra do seu domínio. A cidade é a forma acabada do poder concentrado: nela, muitos passam a depender de poucos, e o que era vigor de um homem se torna a ordem de uma multidão. Gênesis não condena a cidade em si, mas observa, com atenção, de onde ela nasce e a quem serve.
O adensamento humano guarda uma ambivalência profunda. Reunir-se é bom: a cidade é cultura, troca, proteção, engenho — o lugar onde a humanidade floresce em cooperação. Mas a mesma concentração que protege pode oprimir; a mesma proximidade que gera cultura pode gerar Babel. O que decide não é o tamanho, e sim a direção do coração coletivo. Uma cidade pode existir para servir aos seus e a Deus, ou para 'fazer um nome' contra o céu. A 'grande cidade' de Gênesis 10 aponta, sem dizê-lo, para a segunda possibilidade — não porque o número seja mau, mas porque, na história de Ninrode, a grandeza sempre esteve a serviço do domínio, não da bênção.
Há um contraste que atravessa todo o livro e que este versículo deixa preparado. Diante da cidade que junta multidões para se engrandecer, Deus responderá, poucos capítulos adiante, chamando um único homem. A Ninrode, que faz uma grande cidade, opõe-se Abraão, de quem Deus fará uma grande nação — não pela concentração, mas pela promessa; não erguendo muralhas, mas gerando um filho na velhice. A grandeza da cidade se constrói de baixo para cima, empilhando poder; a grandeza da nação de Abraão desce de cima para baixo, como dom. Uma se mede em número de habitantes; a outra, na fidelidade de quem prometeu. O leitor é convidado a perguntar qual das duas grandezas é, no fim, a verdadeira.
Por fim, há uma meditação sobre a permanência escondida na incerteza de Resém. O império assírio quis durar para sempre; suas cidades eram feitas de tijolo cozido, seus reis se gravavam em relevos que julgavam eternos. E, no entanto, uma das cidades desta lista virou um nome que nem sabemos localizar. A pedra passa, o poder rui, a grande cidade se torna ruína e conjetura. O que permanece não é o que o homem ajunta, mas o que Deus promete. Nisso, o versículo mais árido da nota sobre Ninrode diz a coisa mais grave: toda grandeza que se apoia apenas em si mesma caminha, mais cedo ou mais tarde, para o esquecimento.
7. Aplicações Práticas
Reveja a régua com que mede a sua vida. O império de Ninrode termina numa 'grande cidade' — grandeza medida em tamanho e concentração. Também nós somos tentados a medir o valor pelo quanto acumulamos e reunimos. Pergunte-se se a sua noção de sucesso não é apenas a de Ninrode: maior, mais, mais denso. Diante de Deus, há outra medida.
Não confunda ajuntar com obedecer. Nem todo crescimento é fidelidade. A Assíria cresceu comprimindo-se; a bênção de Deus mandava espalhar vida e bem. Há projetos, carreiras e ambições que crescem justamente por recusarem o chamado de Deus a servir e abençoar. Vigie se o seu 'crescer' está na direção da bênção ou apenas do domínio.
Trabalhe pelo que permanece. Resém foi ponta de um império e hoje é apenas um nome incerto. Muito do que o mundo ergue com estrondo o tempo apaga. Invista naquilo que não vira ruína — o caráter, os vínculos, a fé, o bem feito a pessoas. O que se faz para Deus dura mais que qualquer muralha.
Seja honesto sobre o que sabe e o que não sabe. O texto nos ensina a distinguir Nínive, que se pode apontar no mapa, de Resém, que não. Na fé como na vida, há maturidade em dizer 'disto tenho certeza' e 'nisto não tenho'. A honestidade sobre os limites do próprio conhecimento é mais forte do que a falsa segurança de quem finge saber tudo.
Lembre-se de que nenhuma cidade escapa a Deus. A 'grande cidade' que aqui coroa o poder humano é, em Jonas, alcançada pelo juízo e pela misericórdia. Por maior que seja o poder ao seu redor — instituições, impérios, sistemas —, nada está fora do alcance de Deus. Isso humilha o orgulhoso e consola o oprimido: a última palavra sobre toda grande cidade é dele.
Prefira ser bênção a ser grande. Entre a grande cidade de Ninrode e a grande nação prometida a Abraão, escolha o caminho de Abraão. Não gaste a vida tentando erguer um nome pela força e pelo acúmulo; deixe que a sua grandeza seja a de abençoar os outros. É essa a única grandeza que Deus se compromete a fazer durar.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Onde ficava Resém?
Não se sabe com certeza. O texto a situa 'entre Nínive e Calá', na região da Assíria, ao longo do Tigre, mas nenhum sítio arqueológico foi identificado com segurança como sendo Resém. O nome aparece só aqui em toda a Bíblia. O mais honesto é tratá-la como uma cidade de localização incerta, em algum ponto entre as duas grandes capitais assírias.
2. A qual cidade se refere 'esta é a grande cidade'?
O texto é ambíguo, e essa ambiguidade é antiga. A frase pode apontar para Resém, a última nomeada; pode apontar para Calá; ou pode resumir todo o conjunto — Nínive, Calá, Resém e as povoações vizinhas — como uma única 'grande cidade', uma metrópole formada pela soma de várias. O hebraico permite as três leituras, e o mais prudente é reconhecer que não há como decidir com certeza.
3. Por que a mesma expressão aparece no livro de Jonas?
Porque 'a grande cidade' (ha'ir haggedolah) é a forma como a Bíblia designa Nínive em Jonas 1:2 e 3:3. Isso liga os dois textos: a grandeza que aqui coroa o poder de Ninrode é, em Jonas, o que faz de Nínive alvo tanto do juízo quanto da misericórdia de Deus. A metrópole do homem forte torna-se, séculos depois, a cidade que Deus decide poupar ao vê-la se arrepender.
4. O que significa o adensamento urbano assírio neste versículo?
Significa que Nínive, Calá, Resém e as povoações vizinhas não eram cidades isoladas, mas núcleos urbanos próximos que, juntos, formavam uma grande concentração humana ao longo do Tigre. A frase 'esta é a grande cidade' pode descrever exatamente esse complexo metropolitano — muitas cidades lidas como uma só. É o retrato antigo de uma megalópole, e a imagem do poder humano concentrado em pedra.
5. Por que a Bíblia se detém em nomes de cidades numa genealogia?
Porque as cidades são a forma concreta do poder que a nota sobre Ninrode quer mostrar. Depois de dizer que ele 'começou a ser poderoso na terra', o texto mostra em que esse poder se materializa: reinos e cidades, de Babel à Assíria. Terminar na 'grande cidade' é fechar o retrato do homem forte com a sua obra mais visível — a metrópole, símbolo do domínio humano concentrado.
6. Qual é o contraste entre a grande cidade e a promessa a Abraão?
Ninrode faz uma grande cidade juntando multidões e poder; poucos capítulos adiante, Deus promete fazer de Abraão uma grande nação a partir de um só homem e de um filho gerado na velhice. Uma grandeza se constrói pela concentração e pela força; a outra desce como dom e promessa. O texto opõe o caminho de dominar, de Ninrode, ao caminho de abençoar, de Abraão.
7. O que este versículo, tão árido, ensina para hoje?
Ensina a desconfiar da grandeza que se mede só por tamanho e acúmulo, a distinguir o que sabemos do que apenas supomos, e a trabalhar pelo que permanece. Resém foi ponta de um império e virou nome incerto; a promessa de Deus atravessou os séculos. Diante de toda 'grande cidade', o convite é preferir ser bênção a ser potência.
9. Conexão com Outros Textos
“Daquela terra ele saiu para a Assíria e edificou Nínive, Reobote-Ir, Calá.” (Gênesis 10:11)
O versículo imediatamente anterior, do qual o nosso é a continuação direta. Resém e 'a grande cidade' completam a lista de fundações assírias de Ninrode iniciada aqui; os dois versículos formam uma única frase sobre o avanço do poder para a Assíria.
“E disseram: Vinde, edifiquemos uma cidade e uma torre cujo cume toque nos céus, e façamos para nós um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra.” (Gênesis 11:4)
O projeto de Babel explicita o que a 'grande cidade' de Gênesis 10 já insinuava: a humanidade que se concentra para se engrandecer, recusando o mandato de encher a terra. A cidade como recusa da dispersão querida por Deus.
“Levanta-te, e vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até mim.” (Jonas 1:2)
Aqui reaparece a mesma expressão — 'a grande cidade' — aplicada a Nínive. A metrópole que em Gênesis coroa o poder de Ninrode é, em Jonas, o alvo do clamor de Deus: a grandeza que a torna temível é a mesma que a coloca sob o seu olhar.
“E Nínive era uma grande cidade de Deus, de três dias de caminho.” (Jonas 3:3)
De novo 'a grande cidade', agora medida pelo tamanho — três dias para atravessá-la. O adensamento urbano que Gênesis 10 registra torna-se, em Jonas, o cenário de um dos maiores gestos de misericórdia divina: Deus poupa a imensa cidade que se arrepende.
“Ora, o SENHOR disse a Abrão: Sai-te da tua terra... e far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome, e tu serás uma bênção.” (Gênesis 12:1-2)
O contraponto decisivo. Onde Ninrode faz uma grande cidade pela força, Deus promete fazer de Abraão uma grande nação pela graça — não para dominar os povos, mas para abençoá-los. Duas grandezas, dois caminhos.
“E devastará a terra da Assíria com a espada, e a terra de Ninrode nas suas entradas...” (Miqueias 5:6)
Séculos depois, 'terra de Ninrode' já era sinônimo da Assíria. As cidades que ele fundou — Nínive, Calá, Resém — condensaram-se num único rótulo do império opressor que Deus prometeu julgar.
“Porque não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura.” (Hebreus 13:14)
O fecho do arco. Toda 'grande cidade' construída pelo homem — como a que some entre Nínive e Calá — é passageira. A fé aponta para outra cidade, não erguida por mãos humanas, cuja permanência não depende de muralhas, mas de Deus.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português (nossa tradução):
e Resém, entre Nínive e Calá; esta é a grande cidade.
Texto hebraico:
וְאֶת־רֶסֶן בֵּין נִינְוֵה וּבֵין כָּלַח הִוא הָעִיר הַגְּדֹלָה׃
Transliteração:
ve'et-Resen ben Ninveh uven Kálach hi ha'ir haggedolah.
Análise palavra por palavra:
ve'et-Resen (וְאֶת־רֶסֶן) — “e Resém”: o 'e' liga esta cidade à lista anterior, e a partícula et a marca como objeto do verbo 'edificou' do versículo 11 — Resém é mais uma cidade construída no avanço para a Assíria. O nome Resen aparece uma única vez em toda a Bíblia; as traduções portuguesas o vertem ora 'Resém', ora 'Resen'. Já se sugeriu ligá-lo ao acádico Resh-eni, 'cabeceira de água', 'nascente', mas a etimologia é incerta, e a cidade permanece de localização desconhecida.
ben ... uven (בֵּין ... וּבֵין) — “entre ... e (entre)”: a construção hebraica repete a preposição 'entre' antes de cada cidade — literalmente 'entre Nínive e entre Calá' —, um modo idiomático de situar algo no meio de duas referências. A repetição sublinha que Resém não tem localização própria: existe apenas como o ponto no espaço que separa (e liga) duas cidades maiores. É a gramática do adensamento — cidades definidas umas pelas outras.
Ninveh / Kálach (נִינְוֵה / כָּלַח) — “Nínive / Calá”: as duas grandes capitais assírias, identificáveis com segurança pela arqueologia (Nínive na atual Mossul; Calá no sítio de Nimrud). Servem de balizas geográficas conhecidas para posicionar a desconhecida Resém — o texto ancora o incerto no certo.
hi (הִוא) — “ela/esta é”: pronome de terceira pessoa que introduz a frase final. Justamente por ser um pronome, o seu referente é ambíguo: pode retomar Resém, a última nomeada, Calá, a anterior, ou o conjunto todo. É desta única palavra que nasce a antiga discussão sobre a qual cidade se aplica a grandeza. O hebraico não desfaz a dúvida.
ha'ir haggedolah (הָעִיר הַגְּדֹלָה) — “a grande cidade”: ha'ir, 'a cidade', de 'ir; haggedolah, 'a grande', de gadol. Note-se o artigo definido duplo — 'a cidade, a grande' —, que destaca e singulariza: não uma grande cidade qualquer, mas 'a grande cidade'. É exatamente a mesma expressão que designa Nínive em Jonas 1:2 e 3:3. Seja qual for o referente, o versículo termina cravando a palavra 'grande' sobre a paisagem urbana do poder de Ninrode.
Nota teológica:
Todo o peso teológico do versículo se concentra na tensão entre o que é certo e o que é incerto, e entre o pequeno e o grande. De um lado, nomes firmes — Nínive, Calá — e, no meio deles, um nome que se apagou, Resém: o próprio texto encena a fragilidade da grandeza humana, pois nem todas as suas cidades sobrevivem sequer na memória. De outro lado, a frase se fecha com um pronome ambíguo e um artigo enfático: hi ha'ir haggedolah, 'esta é a grande cidade'. A ambiguidade do 'esta' e a ênfase do 'grande' não são defeitos do texto, mas o seu método sóbrio: sem condenar com palavras, a Escritura deixa o retrato de Ninrode terminar apontando para a grandeza urbana — a mesma que Jonas mostrará sob o juízo e a misericórdia de Deus. O parêntese sobre o primeiro homem forte começa com um verbo de poder ('começou a ser poderoso') e termina com um substantivo de poder ('a grande cidade'). Entre um e outro, a Bíblia deixa suspensa a pergunta que carregará até Abraão: a verdadeira grandeza está na cidade que o homem ajunta, ou na nação que Deus promete?
11. Conclusão
Gênesis 10:12 fecha, sem alarde, o único trecho narrativo da Tábua das Nações. O parêntese que se abrira sobre Ninrode — o primeiro homem 'poderoso na terra' — termina onde tal poder sempre desemboca: numa cidade grande. Resém, escondida entre Nínive e Calá, é o último tijolo desse retrato. E há uma sobriedade eloquente no modo como o texto encerra: não com uma condenação, não com um elogio, mas com uma paisagem urbana e uma palavra — 'grande'. O homem forte começou como indivíduo e termina como metrópole; o vigor de um vira a ordem de muitos.
É preciso ler o versículo com honestidade, medindo o grau de certeza de cada coisa. Sabemos onde ficavam Nínive e Calá; não sabemos onde ficava Resém, nem a qual cidade exatamente se refere 'a grande cidade' — se a ela, se a Calá, se ao complexo urbano todo, lido como uma só imensa concentração humana. Essas incertezas não enfraquecem o texto; ao contrário, mostram uma Escritura que não força respostas e um leitor que aprende a distinguir o que é firme do que é conjetura. E, no meio da incerteza, um dado permanece nítido: a mesma 'grande cidade' que aqui coroa o poder de Ninrode será, em Jonas, alvo do juízo e da compaixão de Deus. Nenhuma metrópole humana está fora do seu alcance.
Por baixo dos nomes áridos, o versículo prepara a grande pergunta de Gênesis. De um lado, a cidade que junta multidões para se engrandecer e fazer um nome — Babel a seguir, a Assíria mais tarde. De outro, um Deus que, diante de toda essa concentração de poder, escolhe um único homem, Abraão, e promete dele fazer uma grande nação, não pela força, mas pela graça. A grande cidade se ergue de baixo, empilhando poder; a grande nação desce de cima, como dom. Resém some entre Nínive e Calá, o império vira ruína e nome incerto, mas a promessa feita a um só homem atravessa os séculos. E nisso o versículo mais seco da nota sobre Ninrode diz a verdade mais grave de todas: a grandeza que dura não é a que o homem ajunta, mas a que Deus concede.













