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Gênesis 10:19

✍️ Por Alberto Adriano·25 de julho de 2026·⏱️ 23 min de leitura·👁 25 acessos
As fronteiras dos cananeus iam de Sidom, em direção a Gerar, até Gaza, e depois em direção a Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim, até Lasa.
Ampla paisagem arida do Levante ao entardecer, da costa distante ate a planicie, apenas pequenos povoados primitivos de cabanas de barro ao longe, ceu carregado e sombrio de juizo iminente, nada moderno

Estudo


As fronteiras dos cananeus iam de Sidom, em direção a Gerar, até Gaza, e depois em direção a Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim, até Lasa.

1. Introdução

Depois de enumerar os filhos de Canaã — de Sidom, o primogênito, até os povos que ocupavam a terra —, a Tábua das Nações faz algo que até aqui não havia feito com tanta nitidez: traça uma fronteira. Gênesis 10:19 deixa de listar nomes de povos e passa a desenhar um mapa. Diz por onde ia o limite dos cananeus: começa em Sidom, ao norte, desce em direção a Gerar e a Gaza, no sudoeste, e alcança as cidades da planície — Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim —, chegando até Lasa. Num único versículo, a Escritura contorna a terra que se tornaria o palco de quase toda a história bíblica que virá.

Há uma intenção clara nesse contorno. O autor não está apenas informando geografia antiga; está apresentando ao leitor a terra que Deus prometeria a Abraão, a terra em que Israel entraria, guerrearia e habitaria. Antes de a promessa ser feita, antes de o povo existir, o mapa já está desenhado. A Tábua das Nações localiza os cananeus dentro de limites precisos, como quem prepara o cenário de um drama que só começará muitos capítulos depois. Quem lê com atenção percebe que este versículo é uma espécie de planta baixa da futura Terra Prometida.

E, no entanto, há nesse mapa uma sombra. No meio dos nomes de fronteira, o texto menciona quatro cidades — Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim — que o leitor da Bíblia reconhece de imediato: são as cidades da planície que o fogo do céu destruiria em Gênesis 19. Aqui elas ainda estão de pé, servindo apenas de marco geográfico, pontos no limite da terra cananeia. Mas quem já conhece a história sabe o que será feito delas. É uma menção antecipatória, carregada de um peso que o versículo, na superfície, não expressa: a geografia traz embutido o prenúncio do juízo.

Estudar este versículo com honestidade exige, também, distinguir o que é firme do que é incerto. Alguns dos lugares nomeados são bem conhecidos e ainda existem: Sidom e Gaza são cidades reais, atestadas por toda a Antiguidade e presentes até hoje. Outros são mais nebulosos: Admá e Zeboim conhecem-se apenas pelas listas das cidades da planície, e Lasa é praticamente um enigma, de localização desconhecida. Reconhecer essa diferença — o que se sabe com segurança e o que apenas se supõe — não enfraquece o texto; torna a leitura mais verdadeira. Todo mapa antigo tem regiões nítidas e regiões enevoadas, e ler bem é saber distinguir umas das outras.

2. Contexto Histórico e Cultural

A terra que este versículo contorna era uma das mais disputadas do mundo antigo. Encravada entre o Egito, ao sul, e as grandes potências da Mesopotâmia, a nordeste, a faixa de Canaã funcionava como corredor obrigatório de exércitos, caravanas e culturas. Não era uma nação unificada, mas um mosaico de cidades-estado e povos que se sobrepunham na mesma estreita ponte de terra entre o deserto e o mar. Delimitar essa terra, como faz a Tábua, era descrever o território mais cobiçado e mais atravessado do Oriente Próximo.

A fronteira norte é fixada em Sidom, a antiga e célebre cidade fenícia da costa, primogênito de Canaã na genealogia do versículo anterior. Sidom, ao lado de Tiro, foi um dos grandes centros marítimos e comerciais do Levante, famosa pela navegação, pela púrpura e pelo comércio que espalhava por todo o Mediterrâneo. Colocá-la como marco setentrional é ancorar o limite da terra num ponto conhecidíssimo, uma referência que qualquer ouvinte antigo situaria de imediato no mapa.

Do outro extremo, o texto desce ao sudoeste, rumo a Gerar e a Gaza, na direção da planície costeira que beira o Egito. Essa região viria a ser o território filisteu — Gaza seria uma das cinco grandes cidades dos filisteus —, e Gerar aparece nas histórias dos patriarcas como a terra de Abimeleque, onde Abraão e Isaque peregrinaram. A fronteira, portanto, roça a faixa que a história bíblica associaria aos filisteus, o adversário recorrente de Israel nos tempos dos juízes e da monarquia. O mapa da Tábua já toca, de leve, o solo de conflitos futuros.

O ponto mais carregado do versículo, porém, é a menção às cidades da planície: Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim. Situadas na região do vale do Jordão, provavelmente próximas ao mar Morto, essas cidades formavam um conjunto que a tradição bíblica trataria como emblema da corrupção e do juízo. Aqui, em Gênesis 10, elas aparecem apenas como pontos de fronteira, marcos que indicam até onde ia a terra cananeia. Mas o ouvinte antigo, que conhecia o desfecho, ouvia esses nomes com um arrepio: eram as cidades sobre as quais choveria enxofre e fogo. A geografia guardava, silenciosa, a memória de uma catástrofe ainda por narrar.

Por fim, a fronteira alcança Lasa, um lugar cuja localização se perdeu. Diferentemente de Sidom e Gaza, que qualquer viajante encontraria, Lasa é um nome sem endereço certo: os estudiosos debatem onde ficaria, sem chegar a acordo. Alguns a associam a sítios a leste do mar Morto; outros a mantêm no campo do desconhecido. Que um mapa antigo termine num ponto incerto não surpreende — é próprio dos limites, sobretudo dos mais distantes, dissolverem-se na névoa. Lasa fecha o versículo como a borda enevoada de um mapa desenhado por mãos humanas.

3. Análise Teológica do Versículo

“E foi o limite dos cananeus desde Sidom,”

O versículo começa fixando um ponto conhecido e firme: Sidom, a grande cidade fenícia da costa, marco setentrional da terra cananeia. Teologicamente, é significativo que a Escritura se dê ao trabalho de traçar limites. Deus não é o Deus de um caos indistinto, mas de uma criação ordenada, repartida, com fronteiras e lugares definidos. Colocar Sidom como início do limite é ancorar a terra prometida na geografia real, no mundo concreto onde a história da salvação aconteceria. A promessa de Deus não paira no vago: ela tem endereço, coordenadas, um mapa que se pode percorrer.

“indo para Gerar, até Gaza;”

A fronteira desce ao sudoeste, tocando a faixa que viria a ser o território filisteu. Gerar e Gaza pertencem à planície costeira, terra que a história bíblica associaria ao adversário mais persistente de Israel. Há algo revelador em ver esses nomes já inscritos no mapa, muito antes de Sansão, de Golias, das guerras filisteias. O território do conflito futuro já está desenhado, esperando. Deus conhece de antemão o palco onde o seu povo lutaria; nada do que virá o apanha desprevenido. O limite da terra roça, desde já, o solo das batalhas por vir.

“indo para Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim,”

Aqui o versículo pronuncia os quatro nomes que carregam a sombra mais pesada de toda a Tábua. Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim são as cidades da planície que o juízo de Deus destruiria em Gênesis 19. Neste momento, porém, elas ainda estão de pé, servindo apenas de marco geográfico. É uma menção antecipatória de rara força: o leitor que conhece a Bíblia lê esses nomes e já ouve, ao longe, o estrondo do fogo que cairia sobre elas. A Escritura as coloca no mapa antes de contá-las na narrativa, e assim a própria geografia se torna advertência. A terra prometida traz, gravado em suas fronteiras, o lembrete de que a corrupção convoca o juízo.

“até Lasa.”

O versículo se encerra num ponto incerto. Lasa é um lugar de localização desconhecida, cuja identificação escapa aos estudiosos. Depois de nomes tão firmes como Sidom e Gaza, e tão graves como Sodoma e Gomorra, o mapa termina num marco enevoado, quase um horizonte. Há uma lição discreta nessa borda incerta: nem tudo na Escritura se entrega ao nosso conhecimento com a mesma clareza. Alguns pontos são nítidos; outros permanecem na penumbra. Reconhecer a existência de Lasa sem fingir saber onde ficava é parte de uma leitura honesta — a humildade de aceitar que o mapa antigo tem regiões que o tempo apagou.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Sidom — A célebre cidade fenícia da costa, primogênito de Canaã, marco norte da fronteira cananeia. Grande centro marítimo e comercial do Levante, famosa pela navegação e pela púrpura. É um ponto firme e conhecido, atestado por toda a Antiguidade e existente até hoje.

Gerar — Cidade da região sudoeste de Canaã, na direção do Egito, ligada às histórias dos patriarcas. Ali Abraão e Isaque peregrinaram, na terra do rei Abimeleque. Situa-se na faixa que viria a ser associada aos filisteus.

Gaza — Cidade da planície costeira, marco sudoeste da fronteira. Tornar-se-ia uma das cinco grandes cidades dos filisteus, adversários recorrentes de Israel. Como Sidom, é um ponto real, bem localizado e conhecido em toda a história antiga.

Sodoma e Gomorra — As duas cidades mais famosas da planície do Jordão, emblemas bíblicos da corrupção e do juízo. Aqui aparecem apenas como marcos de fronteira, ainda de pé; em Gênesis 19 serão destruídas por fogo do céu. Sua menção é uma antecipação carregada de sentido.

Admá e Zeboim — Duas outras cidades da planície, associadas a Sodoma e Gomorra e partícipes do mesmo destino de juízo. São conhecidas quase só pelas listas das cidades do vale; sua localização exata é incerta, embora a tradição as una às irmãs condenadas.

Lasa — O ponto final e mais obscuro da fronteira. Lugar de localização desconhecida, cuja identificação os estudiosos debatem sem consenso. Fecha o mapa numa borda enevoada, marca da incerteza que cerca os limites mais distantes.

As cidades da planície — O conjunto formado por Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim (e Zoar), situado provavelmente perto do mar Morto. A Tábua as coloca no mapa como marcos geográficos antes de a narrativa contar a sua destruição, ligando desde já a terra prometida à memória do juízo.

5. Pontos de Ensino

A promessa de Deus tem endereço concreto — Ao traçar limites reais — de Sidom a Gaza, até a planície —, a Escritura mostra que a terra prometida não é uma ideia vaga, mas um lugar no mundo. Deus age dentro da geografia da história, não fora dela.

A geografia pode carregar advertência — Sodoma e Gomorra aparecem aqui como simples marcos, mas o leitor sabe o que será feito delas. Um lugar pode guardar, em seu próprio nome, a lembrança de que a corrupção convoca o juízo.

Deus conhece de antemão o palco do que virá — O território filisteu e as cidades do juízo já estão no mapa muito antes dos conflitos e das catástrofes. Nada do que a história trará apanha a Deus de surpresa.

Honestidade diante do que não se sabe — Sidom e Gaza são certas; Admá, Zeboim e Lasa são incertas. Reconhecer essa diferença, sem forçar respostas onde falta evidência, é parte de uma leitura madura da Escritura.

O mapa da terra é o mapa da fidelidade de Deus — A mesma terra que a Tábua contorna aqui será prometida a Abraão e entregue à sua descendência. O versículo é um primeiro esboço daquilo que Deus, no seu tempo, cumpriria.

6. Aspectos Filosóficos

Há uma força singular no ato de traçar um limite. Definir uma fronteira é impor forma ao informe, separar um dentro de um fora, transformar uma extensão indistinta de terra num território com identidade. Este versículo faz exatamente isso: converte a vaga 'terra dos cananeus' num espaço contornado, com pontos de referência ao norte, ao sudoeste e no vale. Filosoficamente, o gesto revela uma concepção de mundo em que o espaço não é caos, mas ordem — lugares que se podem nomear, distâncias que se podem percorrer, limites que dão sentido ao que contêm. Nomear a fronteira é já um modo de compreender o mundo.

Chama a atenção, também, o modo como o texto insere no mapa nomes que só ganharão seu peso mais tarde. Sodoma e Gomorra estão aqui apenas como marcos, mas o leitor as lê à luz do que ainda virá. Isso suscita uma reflexão sobre o tempo e a leitura: o sentido de um instante nem sempre está no próprio instante, mas se completa quando visto do futuro. A Tábua das Nações convida a ler a história em duas direções ao mesmo tempo — para a frente, seguindo o fio dos acontecimentos, e para trás, reconhecendo nos detalhes antigos as sementes do que se desenrolaria. A menção antecipatória é uma forma de dizer que nada, no relato, é neutro: os nomes esperam o seu momento.

O contraste entre os lugares firmes e os lugares incertos abre outra meditação. Sidom e Gaza existem, podem ser tocadas; Lasa se dissolveu no esquecimento, e nem sabemos onde ficava. A geografia humana é assim: retém alguns lugares com nitidez e apaga outros por completo. E, no entanto, a Escritura inscreve o incerto ao lado do certo, sem hierarquia de tinta. Há aqui uma silenciosa recusa em fingir onisciência — o reconhecimento de que todo mapa é obra de mãos humanas, com regiões claras e regiões perdidas. Conviver com essa mistura de saber e não-saber é uma forma de honestidade que a maturidade exige.

Por fim, o versículo faz pensar na relação entre lugar e destino. As mesmas cidades que aqui marcam uma fronteira serão, adiante, o cenário de um juízo. O espaço geográfico e o drama moral se entrelaçam: não há território neutro na Escritura, pois cada lugar acaba por hospedar uma história de fidelidade ou de ruína. A terra não é apenas palco passivo; ela participa do sentido do que nela acontece. Ler a fronteira dos cananeus é, no fundo, ler o mapa de escolhas humanas que ainda estavam por ser feitas, e de um juízo divino que ainda estava por vir.

7. Aplicações Práticas

Confie que a promessa de Deus é concreta. Assim como a terra prometida tinha limites reais no mapa, aquilo que Deus reserva para você não é uma vaga esperança, mas algo que se realiza no mundo concreto da sua história. Caminhe com a confiança de quem sabe que as promessas de Deus têm endereço e cumprem-se no tempo.

Ouça as advertências que os lugares guardam. Sodoma e Gomorra apareciam apenas como marcos, mas seu nome anunciava um destino. Aprenda a reconhecer, nas situações e nos ambientes da sua vida, os sinais de para onde as coisas caminham. Nem todo aviso vem em palavras; alguns estão escritos no próprio rumo dos acontecimentos.

Descanse na presciência de Deus. O palco dos conflitos futuros já estava desenhado antes de qualquer batalha. Deus não é surpreendido pelo que ainda virá na sua vida. Diante do incerto, lembre-se de que Aquele que conhece o mapa inteiro já providenciou o caminho.

Seja honesto sobre o que você não sabe. A Escritura afirma o que é firme (Sidom, Gaza) e deixa em aberto o que é incerto (Lasa). Faça o mesmo na sua vida: sustente com convicção o que é claro e reconheça com humildade o que permanece obscuro. A honestidade diante das lacunas é sinal de maturidade.

Lembre-se de que nenhum lugar é neutro. Cada território da fronteira acabaria hospedando uma história de fidelidade ou de juízo. Também os espaços que você habita — sua casa, seu trabalho, suas relações — são cenários de escolhas que importam. Viva cada lugar como quem sabe que ali algo de eterno se decide.

Leia os detalhes áridos à luz do todo. Uma simples lista de fronteiras guarda o prenúncio de dramas inteiros. Não despreze as passagens que parecem secas na Bíblia: muitas vezes elas carregam, em silêncio, as sementes de histórias que só se compreendem mais adiante.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. O que Gênesis 10:19 está descrevendo?

Está traçando os limites da terra dos cananeus. Em vez de listar mais povos, o versículo desenha uma fronteira: do norte, em Sidom, desce ao sudoeste, rumo a Gerar e Gaza, e alcança as cidades da planície — Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim —, chegando até Lasa. É um mapa da terra que se tornaria a Terra Prometida.

2. Por que a Escritura se dá ao trabalho de traçar essa fronteira?

Porque essa terra é o palco de quase toda a história bíblica que viria. Ao delimitá-la já em Gênesis 10, o texto apresenta ao leitor o território que Deus prometeria a Abraão e no qual Israel entraria. O mapa é desenhado antes da promessa, como quem prepara o cenário de um drama que só começará muitos capítulos depois.

3. Por que Sodoma e Gomorra aparecem aqui, se só seriam destruídas em Gênesis 19?

Aqui elas figuram apenas como marcos geográficos, cidades ainda de pé que indicam até onde ia a terra cananeia. Mas é uma menção antecipatória: o leitor que conhece a Bíblia reconhece esses nomes e já sabe o destino delas. A geografia, assim, carrega um prenúncio do juízo que ainda seria narrado.

4. Qual é o grau de certeza sobre a localização desses lugares?

Varia bastante. Sidom e Gaza são plenamente conhecidas, cidades reais atestadas por toda a Antiguidade e existentes até hoje. Sodoma e Gomorra ligam-se à região do mar Morto, embora seu sítio exato seja debatido. Admá e Zeboim são mais obscuras, e Lasa é praticamente um enigma, de localização desconhecida. É honesto afirmar o que é firme e reconhecer o que é incerto.

5. Que ligação há entre este versículo e a promessa a Abraão?

A mesma terra cuja fronteira é aqui traçada será, mais adiante, prometida a Abraão e à sua descendência. O que em Gênesis 10 é apenas mapa geográfico, em Gênesis 15 e 17 se torna herança prometida. O versículo é um primeiro esboço da terra que Deus, no seu tempo, entregaria ao povo que dele nasceria.

6. Por que a fronteira toca a região que seria dos filisteus?

Porque Gerar e Gaza pertencem à planície costeira do sudoeste, terra que a história bíblica associaria aos filisteus, adversários persistentes de Israel. Ver esses nomes já no mapa, muito antes dos conflitos, mostra que o território das batalhas futuras já estava desenhado. Deus conhecia de antemão o palco onde o seu povo lutaria.

7. O que significa a fronteira terminar em Lasa, um lugar desconhecido?

Significa que nem tudo na Escritura se entrega ao nosso conhecimento com igual clareza. Lasa é um marco real para o autor antigo, mas sua localização se perdeu, e os estudiosos não chegam a acordo. Reconhecer isso, sem fingir saber, é parte de uma leitura honesta: o mapa antigo tem pontos nítidos e pontos que o tempo apagou.

9. Conexão com Outros Textos

“Naquele mesmo dia fez o SENHOR uma aliança com Abrão, dizendo: À tua descendência tenho dado esta terra, desde o rio do Egito até ao grande rio Eufrates.” (Gênesis 15:18)

A terra cuja fronteira a Tábua aqui esboça torna-se, nesta aliança, herança prometida à descendência de Abraão. O que em Gênesis 10 é apenas mapa geográfico, ali se converte em promessa. A delimitação e a dádiva se espelham.

“E também dava-te a terra em que peregrinaste, toda a terra de Canaã em possessão perpétua; e ser-lhes-ei o seu Deus.” (Gênesis 17:8)

A confirmação da promessa: a terra dos cananeus, contornada neste versículo, é dada a Abraão e à sua descendência em possessão perpétua. O limite traçado na Tábua desenha, de antemão, o contorno da fidelidade de Deus.

“E, tendo o SENHOR feito descer enxofre e fogo, do SENHOR desde os céus, sobre Sodoma e Gomorra, destruiu aquelas cidades e toda aquela campina.” (Gênesis 19:24-25)

O desfecho anunciado pela menção antecipatória deste versículo. As cidades que aqui figuram como marcos de fronteira, ainda de pé, seriam destruídas pelo juízo divino. A geografia guardava, desde já, o prenúncio da catástrofe.

“Como Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim, a que o SENHOR destruiu na sua ira e no seu furor?” (Deuteronômio 29:23)

As quatro cidades da planície reaparecem juntas, exatamente como neste versículo, agora como advertência solene ao próprio Israel. A lista de marcos geográficos de Gênesis 10 torna-se, aqui, símbolo do juízo que a infidelidade convoca.

“Como te deixaria, ó Efraim? como te entregaria, ó Israel? como te faria como Admá? como te poria como Zeboim?” (Oséias 11:8)

Admá e Zeboim, tão obscuras na geografia, tornam-se na boca do profeta imagens do juízo que Deus, movido pela compaixão, hesita em executar sobre o seu povo. Os nomes de fronteira ganham profundidade teológica ao longo da Escritura.

“Filhos de Canaã: Sidom, seu primogênito, e Hete, e o jebuseu... E depois se espalharam as famílias dos cananeus.” (Gênesis 10:15-18)

O contexto imediato: depois de nomear os filhos de Canaã, a Tábua encerra a lista traçando o limite da terra que ocupavam. Este versículo é a moldura geográfica que fecha a genealogia cananeia, ligando os povos ao território.

“E de um sangue fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados, e os limites da sua habitação.” (Atos 17:26)

Paulo enuncia a verdade que a Tábua já praticava ao traçar fronteiras: é Deus quem determina os limites da habitação dos povos. A delimitação da terra cananeia é um caso particular dessa ordenação divina do espaço e da história.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português (nossa tradução):

As fronteiras dos cananeus iam de Sidom, em direção a Gerar, até Gaza, e depois em direção a Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim, até Lasa.

Texto hebraico:

וַיְהִי גְּבוּל הַכְּנַעֲנִי מִצִּידֹן בֹּאֲכָה גְרָרָה עַד־עַזָּה בֹּאֲכָה סְדֹמָה וַעֲמֹרָה וְאַדְמָה וּצְבֹיִם עַד־לָשַׁע׃

Transliteração:

vayhi gevul haKna'ani miTsidon bo'akhah Gerarah ad-Azzah bo'akhah Sedomah va'Amorah ve'Admah uTsvoyim ad-Lasha.

Análise palavra por palavra:

vayhi (וַיְהִי) — “e foi / e era”: o verbo hayah (“ser, estar, tornar-se”) com o vav consecutivo, forma típica da narrativa hebraica. Aqui introduz uma descrição: “e o limite era...”. É a fórmula que abre tantas frases do relato bíblico, dando início, neste caso, não a um evento, mas ao traçado de uma fronteira.

gevul (גְּבוּל) — “limite, fronteira, território”: palavra-chave do versículo. Gevul designa tanto a linha divisória quanto a extensão que ela delimita — a borda e o terreno contido nela. É o termo que a Escritura usa para as fronteiras das tribos, das nações e da própria terra prometida. Sua presença aqui marca a passagem da genealogia (lista de povos) para a geografia (desenho do território).

haKna'ani (הַכְּנַעֲנִי) — “o cananeu”: o artigo ha mais o gentílico Kna'ani, no singular coletivo, designando o povo cananeu como um todo. O 'limite do cananeu' é o contorno da terra ocupada por esse conjunto de povos. É a mesma construção singular-coletiva usada em toda a lista dos filhos de Canaã.

miTsidon (מִצִּידֹן) — “desde Sidom”: a preposição min (“de, desde”) unida a Tsidon (Sidom), a cidade fenícia. Marca o ponto de partida da fronteira, o marco norte. Tsidon é nome bem atestado, ligado à raiz que alguns associam à ideia de 'pesca' ou 'caça', condizente com a vocação marítima da cidade.

bo'akhah (בֹּאֲכָה) — “indo em direção a / até chegar a”: expressão idiomática, formada do verbo bo (“vir, entrar”), que funciona como indicador de direção: 'na direção de', 'rumo a'. Repete-se duas vezes no versículo, guiando o olhar primeiro para Gerar e depois para Sodoma. É a bússola gramatical que orienta o traçado da fronteira.

Gerarah (גְרָרָה) — “para Gerar”: o topônimo Gerar com o sufixo direcional -ah (o chamado he locativo), que indica movimento 'em direção a Gerar'. Gerar é a cidade dos patriarcas, na faixa sudoeste, ligada às histórias de Abraão e Isaque com Abimeleque.

ad-Azzah (עַד־עַזָּה) — “até Gaza”: a preposição ad (“até”) mais Azzah (Gaza). Fixa o extremo sudoeste da fronteira. Azzah deriva de uma raiz ligada à ideia de 'força' — a cidade forte —, e tornar-se-ia uma das cinco cidades dos filisteus.

Sedomah va'Amorah (סְדֹמָה וַעֲמֹרָה) — “para Sodoma e Gomorra”: Sedom (Sodoma), novamente com o he locativo direcional, e Amorah (Gomorra) unida pela conjunção ve. São as duas cidades da planície mais célebres, aqui apenas marcos, adiante alvos do juízo. Sedom e Amorah tornar-se-iam, na Escritura, sinônimos de corrupção e ruína.

ve'Admah uTsvoyim (וְאַדְמָה וּצְבֹיִם) — “e Admá e Zeboim”: mais duas cidades da planície, associadas a Sodoma e Gomorra no mesmo destino. Admah guarda semelhança com adamah (“solo, terra”), e Tsvoyim liga-se à ideia de 'gazelas'. São nomes obscuros, conhecidos quase só destas listas.

ad-Lasha (עַד־לָשַׁע) — “até Lasa”: a preposição ad (“até”) mais Lasha (Lasa), o ponto final da fronteira. É um lugar de localização desconhecida, cuja identificação permanece incerta. Fecha o versículo numa borda enevoada, o extremo mais obscuro do mapa.

Nota gramatical e teológica:

O traço mais característico deste versículo é a passagem da genealogia para a geografia: depois de enfileirar os filhos de Canaã, o texto usa a palavra gevul (“limite, fronteira”) para desenhar o território que esse povo ocupava. A estrutura é guiada por marcadores de direção — miTsidon (“desde Sidom”), bo'akhah (“rumo a”) repetido, ad (“até”) —, que conduzem o olhar do norte ao sudoeste e à planície, como o dedo que percorre um mapa. Vale notar o grau desigual de certeza entre os nomes: Tsidon (Sidom) e Azzah (Gaza) são plenamente conhecidas e existem até hoje; Sedom e Amorah (Sodoma e Gomorra) ligam-se à região do mar Morto, com sítio debatido; Admah e Tsvoyim (Admá e Zeboim) são obscuras; e Lasha (Lasa) é praticamente um enigma. A Escritura inscreve os pontos firmes e os incertos lado a lado, com a mesma tinta, sem esconder que o conhecimento humano alcança uns com nitidez e outros apenas de longe. Teologicamente, o mais notável é a menção antecipatória de Sedom e Amorah: nomeadas aqui como simples marcos de fronteira, elas carregam, para quem conhece o resto do livro, a sombra do fogo que sobre elas cairia. A geografia torna-se, assim, prenúncio; e o limite da terra prometida traz, gravado, o lembrete de que a corrupção convoca o juízo. Reconhecer o firme e admitir o incerto é parte de uma leitura honesta deste antigo mapa da terra.

11. Conclusão

Gênesis 10:19 parece apenas o fecho geográfico de uma lista de povos, mas é, na verdade, o primeiro esboço da terra que ocuparia o centro de toda a história bíblica. Com poucos traços — de Sidom, ao norte, a Gerar e Gaza, no sudoeste, e às cidades da planície, até Lasa —, a Tábua das Nações desenha a futura Terra Prometida antes mesmo de a promessa ser feita. O mapa é traçado com antecedência, como quem prepara o palco de um drama que só começará muito mais tarde, com Abraão, com o Êxodo, com a conquista. É um lembrete de que a história bíblica tem um Autor que escreve com longa antecipação.

Sobre esse mapa, porém, já paira uma sombra. No meio dos marcos de fronteira, o texto pronuncia quatro nomes — Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim — que o leitor reconhece de imediato: são as cidades que o fogo do céu destruiria em Gênesis 19. Aqui elas ainda estão de pé, servindo apenas de referência geográfica, mas quem conhece o desfecho ouve nelas o eco do juízo por vir. A menção antecipatória transforma a geografia em advertência: a terra prometida traz, gravado em suas fronteiras, o lembrete de que a corrupção não fica impune. O mapa e a moral se entrelaçam.

Por fim, este versículo convida a uma leitura honesta, que distingue o firme do incerto. Sidom e Gaza são pontos reais, conhecidos até hoje; Admá, Zeboim e sobretudo Lasa perdem-se na névoa do tempo. Reconhecer essa diferença não enfraquece a Escritura — torna a nossa leitura mais verdadeira. E, sob a aparente aridez de uma lista de fronteiras, corre a mesma grande promessa que atravessa todo o Gênesis: a terra que aqui é apenas contornada será, no tempo de Deus, entregue à descendência de Abraão. O limite traçado por mãos antigas é já o desenho, ainda pálido, da fidelidade de um Deus que cumpre o que promete.

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