Ora, os homens de Sodoma eram maus e grandes pecadores contra o SENHOR.
1. Introdução
O narrador interrompe o relato geográfico e emite um juízo. É raro no Gênesis, e por isso mesmo pesa: os homens de Sodoma eram maus e grandes pecadores contra o SENHOR.
A frase vem logo depois da informação de que Ló armava tendas naquela direção. A justaposição é o recurso: o texto não diz que Ló errou, mas coloca as duas frases lado a lado e deixa que o leitor faça a ligação.
A importância deste versículo, porém, ultrapassa o capítulo. Ele é a primeira caracterização bíblica de Sodoma, e a cidade se tornou, ao longo de milênios, um dos nomes mais carregados da tradição ocidental — frequentemente reduzido a uma única questão.
Este estudo trata do que o texto diz e do que a própria Bíblia diz em outros lugares sobre o assunto. E o que ela diz é mais amplo, e mais incômodo para leituras simplificadas, do que costuma aparecer nos púlpitos.
2. Contexto Histórico e Cultural
Duas palavras, dois pesos
O hebraico usa dois termos. O primeiro, raʿim, significa "maus" no sentido amplo — nocivos, danosos, corruptos. O segundo, chattaim, é "pecadores", da raiz que significa errar o alvo.
A ambos se acrescenta a qualificação "contra o SENHOR" e o intensificador "muito". A construção acumula, e o efeito é de condenação categórica. Não há gradação nem ressalva.
O que o texto aqui não especifica
Este versículo não diz em que consistia a maldade. Informa que eram maus e pecadores, e nada mais.
É importante registrar isso porque a especificação vem de outros textos, e cada um deles diz coisas diferentes. Tratar tudo como se fosse uma afirmação única e óbvia é o erro mais comum na leitura desta passagem.
O que Ezequiel diz
A definição mais explícita do pecado de Sodoma em toda a Bíblia não está no Gênesis. Está em Ezequiel 16:49-50, e vale citá-la na íntegra:
"Eis que esta foi a iniquidade de tua irmã Sodoma: soberba, fartura de pão, e abundância de ociosidade teve ela e suas filhas; mas nunca fortaleceu a mão do pobre e do necessitado. E se ensoberbeceram, e fizeram abominação diante de mim; por isso, vendo-o eu, as tirei dali."
O profeta enumera: soberba, fartura, ociosidade e, com destaque, não ter socorrido o pobre e o necessitado. Só então acrescenta o termo genérico "abominação".
Este é um dado factual do texto bíblico, e ele contraria a redução da tradição de Sodoma a uma única questão. Quem lê a Bíblia inteira encontra, na passagem mais detalhada sobre o assunto, uma lista encabeçada por soberba e indiferença aos pobres.
Outras passagens
A tradição bíblica sobre Sodoma é plural. Isaías 1:10-17 chama os líderes de Jerusalém de "príncipes de Sodoma" e especifica o problema: sacrifícios vazios, mãos cheias de sangue, ausência de justiça para o órfão e a viúva. Jeremias 23:14 associa os profetas de Jerusalém a Sodoma por adultério e mentira. Já Judas 7, no Novo Testamento, refere-se à imoralidade sexual.
O quadro completo, portanto, inclui violência, injustiça social, soberba, indiferença aos necessitados e conduta sexual. Reduzir a tradição a qualquer um desses elementos isolado é escolher uma parte e apresentá-la como o todo — e a parte escolhida costuma dizer mais sobre quem escolhe do que sobre o texto.
O episódio do capítulo 19, que narrará a tentativa de violência coletiva contra os hóspedes de Ló, será tratado no seu lugar, com o cuidado que exige. Aqui basta registrar que este versículo não o antecipa e não o especifica.
"Contra o SENHOR"
A qualificação orienta a natureza do juízo. Não se trata de desagrado social nem de padrão cultural: o texto apresenta a conduta como ofensa dirigida.
Vale notar que a mesma expressão será usada em Gênesis 18:20, quando o SENHOR falar do "clamor" que sobe de Sodoma — palavra que na Bíblia designa quase sempre o grito de quem sofre injustiça, como em Êxodo 3:7, sobre os israelitas oprimidos no Egito. A escolha do termo aponta para vítimas.
3. Análise Teológica do Versículo
“E eram os homens de Sodoma maus”
O adjetivo hebraico abrange o mau em sentido amplo: nocivo, danoso, corrupto. É a mesma raiz empregada em Gênesis 6:5, na descrição da condição humana antes do dilúvio.
“e grandes pecadores”
O termo deriva da raiz que significa errar o alvo. A forma substantiva designa quem falha de modo habitual, e não quem cometeu falta isolada. O intensificador final aplica-se ao conjunto da afirmação.
“contra o SENHOR”
A qualificação situa a conduta como ofensa dirigida, e não como desvio de padrão social. A mesma orientação aparecerá em Gênesis 18:20, na menção ao clamor que sobe da cidade.
O que o versículo não especifica
Nenhuma conduta é indicada. As especificações constam de outras passagens bíblicas, que não coincidem entre si. Ezequiel 16:49-50 enumera soberba, fartura, ociosidade e omissão em socorrer o pobre e o necessitado; Isaías 1:10-17 aponta culto vazio e ausência de justiça para órfãos e viúvas; Jeremias 23:14 menciona adultério e mentira; Judas 7 refere-se a imoralidade sexual.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
1. Os homens de Sodoma
Habitantes da cidade, objeto do juízo emitido pelo narrador.
2. Sodoma
Cidade da planície do Jordão, cuja destruição será narrada em Gênesis 19.
3. Ló
Mencionado no versículo anterior como quem armava tendas em direção à cidade.
4. O SENHOR
Referência do juízo. A conduta é qualificada como ofensa dirigida.
5. Ezequiel
Profeta cuja descrição em 16:49-50 constitui a passagem bíblica mais detalhada sobre o pecado da cidade.
5. Pontos de Ensino
O narrador raramente emite juízo
A condenação é categórica num livro que costuma narrar sem avaliar.
O versículo não especifica a conduta
As especificações constam de outras passagens, que não coincidem entre si.
A tradição bíblica sobre Sodoma é plural
Inclui soberba, injustiça social, indiferença aos necessitados e conduta sexual.
A posição da frase produz o efeito
Vem logo após a informação sobre a aproximação de Ló.
O clamor aponta para vítimas
A palavra usada em 18:20 é a mesma do grito dos oprimidos no Egito.
6. Aspectos Filosóficos
Um juízo raro
O Gênesis quase não avalia. Registrou o plano de Abrão no Egito sem qualificá-lo, registrou a escolha de Ló sem comentá-la, registrou a separação sem apontar culpados.
Quando um narrador assim emite juízo, o juízo pesa. E é útil notar sobre quem ele recai: não sobre as personagens principais, cujas condutas ficaram sem avaliação, mas sobre uma cidade inteira.
A tentação de reduzir
Sodoma se tornou um dos nomes mais usados e menos lidos da tradição. A maior parte das pessoas sabe o que a palavra significa culturalmente, e uma proporção muito menor leu o que a Bíblia efetivamente diz sobre a cidade.
O caso ilustra um mecanismo geral: quando um texto vira símbolo, o símbolo passa a operar no lugar do texto. E quem controla o símbolo raramente precisa voltar à fonte, porque a fonte já não é consultada.
Voltar a ela, neste caso, produz surpresa — encontra-se em Ezequiel uma lista encabeçada por soberba e indiferença aos pobres, que quase nunca aparece quando o nome é invocado.
Escolher qual parte do texto usar
A tradição bíblica sobre Sodoma é plural e inclui elementos diversos. Diante de uma pluralidade assim, todo intérprete seleciona.
A questão não é se há seleção — há sempre. A questão é se ela é declarada. Quem apresenta uma parte como o todo, sem informar que existem outras, não está interpretando: está usando a autoridade do texto para dizer o que escolheu dizer.
O procedimento honesto é o oposto: expor o conjunto, dizer qual leitura se privilegia e por quê, e deixar visível que houve escolha.
O clamor que sobe
A palavra que Gênesis 18:20 usará para descrever o que sobe de Sodoma é a mesma que descreve o grito dos oprimidos no Egito. É um dado pequeno e orientador.
Ele sugere que, na lógica do texto, o problema de uma cidade não se mede pelo que os seus habitantes fazem entre si por acordo, e sim pelo que fazem a quem não pode se defender. É a mesma lógica de Ezequiel: a acusação central é não ter fortalecido a mão do pobre.
Se essa leitura estiver correta — e ela tem apoio textual sólido —, a lição que Sodoma oferece é bem mais desconfortável para o leitor médio do que a versão consagrada.
7. Aplicações Práticas
Leia o texto antes de usar o símbolo
Sodoma é um dos nomes mais invocados e menos lidos da tradição. Quando um texto vira símbolo, o símbolo passa a operar no lugar dele.
Declare a sua seleção
A tradição bíblica sobre Sodoma é plural. Apresentar uma parte como o todo é usar a autoridade do texto para dizer o que se escolheu dizer.
Veja de onde vem o clamor
A palavra usada em 18:20 é a mesma do grito dos oprimidos no Egito. O texto aponta para vítimas.
Repare em quem o narrador julga e quem ele poupa
O plano de Abrão no Egito ficou sem avaliação. O juízo do livro recai aqui, sobre uma cidade.
Soberba e indiferença aos pobres estão na lista
Ezequiel 16:49 encabeça a acusação com elas. É a passagem bíblica mais detalhada sobre o assunto.
Onde você monta a tenda determina a sua vizinhança
A frase sobre Sodoma vem logo depois da aproximação de Ló. A ligação é do leitor, e o texto a torna inevitável.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Qual era o pecado de Sodoma segundo este versículo?
O versículo não especifica. Qualifica os habitantes como maus e pecadores contra o SENHOR, sem indicar conduta. Qualquer especificação vem de outras passagens bíblicas.
2. O que a Bíblia diz em outros lugares?
A passagem mais detalhada é Ezequiel 16:49-50, que enumera soberba, fartura de pão, abundância de ociosidade e não ter fortalecido a mão do pobre e do necessitado, acrescentando depois o termo genérico "abominação". Isaías 1:10-17 aponta culto vazio e ausência de justiça para órfãos e viúvas; Jeremias 23:14 menciona adultério e mentira; Judas 7 refere-se a imoralidade sexual.
3. É correto reduzir Sodoma a uma única questão?
Não, se o critério for o conjunto do texto bíblico. A tradição inclui violência, injustiça social, soberba, indiferença aos necessitados e conduta sexual. Apresentar um desses elementos como o todo é seleção, e seleção não declarada usa a autoridade do texto para dizer o que o intérprete escolheu.
4. Que peso tem a qualificação "contra o SENHOR"?
Retira o juízo do plano social e o apresenta como ofensa dirigida. A orientação se confirma em Gênesis 18:20, onde a palavra empregada para o que sobe de Sodoma é a mesma que descreve o grito dos oprimidos no Egito, em Êxodo 3:7 — o que aponta para a existência de vítimas.
5. O texto condena Ló por ter se aproximado?
Não. A frase sobre Sodoma vem imediatamente após a informação da aproximação, e a justaposição produz o efeito, mas o narrador não estabelece a ligação nem emite juízo sobre Ló.
9. Conexão com Outros Textos
Ezequiel 16:49-50
Eis que esta foi a iniquidade de tua irmã Sodoma: soberba, fartura de pão, e abundância de ociosidade teve ela e suas filhas; mas nunca fortaleceu a mão do pobre e do necessitado. E se ensoberbeceram, e fizeram abominação diante de mim; por isso, vendo-o eu, as tirei dali.
É a definição mais detalhada do pecado de Sodoma em toda a Bíblia, e encabeça a lista com soberba e indiferença aos necessitados.
Isaías 1:10-17
Ouvi a palavra do SENHOR, vós príncipes de Sodoma... Lavai-vos, purificai-vos... aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas.
O profeta aplica o nome da cidade aos líderes de Jerusalém e especifica o problema como culto vazio e ausência de justiça social.
Gênesis 18:20
Disse mais o SENHOR: Porquanto o clamor de Sodoma e Gomorra se tem multiplicado, e porquanto o seu pecado se tem agravado muito.
A palavra empregada para "clamor" é a mesma que descreve o grito dos oprimidos no Egito, em Êxodo 3:7.
Jeremias 23:14
Mas nos profetas de Jerusalém vejo coisa horrenda: cometem adultérios, e andam com falsidade... todos eles se tornaram para mim como Sodoma.
Outra aplicação profética do nome, com especificação distinta das anteriores.
Judas 7
Assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se corrompido como aqueles, e ido após outra carne, foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno.
A referência do Novo Testamento, que acrescenta o elemento de imoralidade sexual ao conjunto da tradição.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português — ABC
Ora, os homens de Sodoma eram maus e grandes pecadores contra o SENHOR.
Texto hebraico
וְאַנְשֵׁי סְדֹם רָעִים וְחַטָּאִים לַיהוָה מְאֹד׃
Transliteração
we-anshei Sedom raʿim we-chattaim la-YHWH meod.
Análise palavra por palavra
וְאַנְשֵׁי סְדֹם — we-anshei Sedom, "e os homens de Sodoma"
Anshei é o plural construto de ish, "homem". A expressão designa os habitantes da cidade. A mesma construção reaparecerá em Gênesis 19:4, na cena diante da casa de Ló.
רָעִים — raʿim, "maus"
Adjetivo da raiz raʿaʿ, que abrange o mau em sentido amplo: nocivo, danoso, corrupto, prejudicial. É a mesma raiz empregada em Gênesis 6:5, sobre a maldade do homem antes do dilúvio.
וְחַטָּאִים — we-chattaim, "e pecadores"
Da raiz chata, cujo sentido original é errar o alvo, falhar em atingir. A forma substantiva designa quem falha habitualmente, e não quem cometeu uma falta isolada.
לַיהוָה — la-YHWH, "contra o SENHOR"
A preposição le tem amplitude e admite ser lida como "para", "diante de" ou "contra". No contexto, a leitura de ofensa dirigida é a corrente. A qualificação retira o juízo do plano meramente social.
מְאֹד — meod, "muito"
O advérbio vem em posição final, aplicando-se ao conjunto. É o mesmo intensificador empregado em 13:2 sobre a riqueza de Abrão e em 12:14 sobre a beleza de Sarai.
Nota sobre o que o versículo não diz
Nenhuma conduta específica é mencionada. O texto qualifica sem especificar. A especificação vem de outras passagens bíblicas, e elas não coincidem entre si: Ezequiel 16:49-50 enumera soberba, fartura, ociosidade e não ter socorrido o pobre e o necessitado, acrescentando depois o termo genérico "abominação"; Isaías 1:10-17 aponta culto vazio e ausência de justiça para órfãos e viúvas; Jeremias 23:14 menciona adultério e mentira; Judas 7 refere-se a imoralidade sexual.
Nota textual
Não há variantes relevantes.
11. Conclusão
Uma frase de juízo num livro que quase não julga.
Quatro pontos ficam de pé. O primeiro é a raridade do procedimento: o Gênesis registrou o plano de Abrão no Egito sem qualificá-lo e a escolha de Ló sem comentá-la, e emite aqui uma condenação categórica — sobre uma cidade, e não sobre as suas personagens principais. O segundo é o acúmulo de termos: maus, pecadores, contra o SENHOR, muito. Não há gradação nem ressalva. O terceiro é o que o versículo não faz: não especifica conduta alguma. O quarto é a posição da frase, imediatamente depois da aproximação de Ló — a ligação entre as duas é do leitor, e o texto a torna inevitável.
Sobre a natureza do pecado de Sodoma, a honestidade exige apresentar o conjunto. A passagem bíblica mais detalhada é Ezequiel 16:49-50, e ela enumera: soberba, fartura de pão, abundância de ociosidade e, com destaque, não ter fortalecido a mão do pobre e do necessitado — acrescentando só então o termo genérico "abominação". Isaías 1:10-17 aponta culto vazio e ausência de justiça para órfãos e viúvas; Jeremias 23:14 menciona adultério e mentira; Judas 7 refere-se a imoralidade sexual.
O quadro completo inclui violência, injustiça social, soberba, indiferença aos necessitados e conduta sexual. Reduzir a tradição a qualquer um desses elementos isolado é escolher uma parte e apresentá-la como o todo — e vale notar que a parte escolhida costuma dizer mais sobre quem escolhe do que sobre o texto.
Há ainda um dado orientador: a palavra que Gênesis 18:20 usará para o que sobe de Sodoma é a mesma que descreve o grito dos oprimidos no Egito, em Êxodo 3:7. Na lógica do texto, o que se mede não é o que os habitantes fazem entre si por acordo, mas o que fazem a quem não pode se defender.













