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Gênesis 17:2

✍️ Por Alberto Adriano·18 de agosto de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 4 acessos
Firmarei o meu pacto entre mim e você, e o multiplicarei imensamente.”
Homem idoso diante de uma tenda no deserto, ao entardecer, com colinas ao fundo.

Estudo


Firmarei o meu pacto entre mim e você, e o multiplicarei imensamente.”

1. Introdução

Duas coisas neste versículo o português não consegue carregar.

A primeira: no capítulo 15, a aliança foi cortada — o verbo hebraico usual, ligado aos animais partidos ao meio. Aqui ela é dada. Verbo diferente.

A segunda: "imensamente" traduz um advérbio repetido duas vezes no original. Muito, muito.

E o destinatário da promessa de multiplicação é um homem de noventa e nove anos.

2. Contexto Histórico e Cultural

Uma aliança que se dá

O idioma hebraico corrente para firmar pacto é "cortar aliança" — expressão ligada ao rito de partir animais, que o capítulo 15 descreve.

Este versículo usa outro verbo: dar.

A escolha é notável e é discutida.

O que é uma aliança

A palavra berit designa pacto, tratado, acordo formal.

O mundo em que o texto nasceu conhecia bem o gênero: tratados entre um soberano e um vassalo, com estrutura própria — identificação de quem impõe, histórico, estipulações, testemunhas, bênçãos e maldições.

O advérbio dobrado

O hebraico não diz apenas "muito". Diz a palavra duas vezes seguidas.

É recurso de ênfase, e as traduções o resolvem com "imensamente", "sobremaneira", "grandemente".

A quem se promete

A multiplicação é prometida a um homem de noventa e nove anos, cuja mulher tem oitenta e nove e nunca teve filhos.

O texto não comenta a desproporção. O versículo 17 mostrará que Abraão a percebeu.

Um vocabulário que vem do início do livro

O verbo multiplicar é o mesmo da bênção do primeiro capítulo do Gênesis, e o mesmo repetido a Noé depois do dilúvio.

3. Análise Teológica do Versículo

"Firmarei o meu pacto entre mim e você"

Convém começar pelo verbo, porque a escolha dele é o dado mais interessante do versículo e some por completo na tradução.

O hebraico bíblico tem uma expressão idiomática consagrada para o ato de estabelecer um pacto: karat berit, literalmente cortar uma aliança.

A expressão não é figurada por acaso. Ela vem do rito descrito no capítulo 15 deste mesmo livro, em que animais são partidos ao meio e as metades dispostas uma diante da outra, e algo semelhante a fogo passa entre elas.

O sentido do rito é razoavelmente claro a partir de paralelos antigos: quem passa entre as partes invoca sobre si a sorte dos animais, caso rompa o compromisso. Cortar a aliança é, ao pé da letra, cortar os bichos.

Ora: este versículo não usa esse verbo.

O hebraico traz aqui o verbo dar. Literalmente: darei a minha aliança entre mim e ti.

E o versículo 7 usará ainda um terceiro verbo, o de levantar, estabelecer, fazer subsistir.

Ou seja: dentro do mesmo episódio, e para a mesma aliança, o texto emprega vocabulário diferente do que empregou no capítulo 15.

Convém tratar disso com cuidado, porque há duas leituras e as duas merecem registro.

A primeira é literária. Cortar sugere um ato inaugural, com rito e sangue. Dar sugere concessão, entrega — algo que se outorga. Levantar sugere confirmar o que já existe, pôr de pé.

Nessa leitura, o capítulo 15 inaugura e o capítulo 17 confirma e amplia, e a mudança de verbo acompanha a mudança de função.

É leitura razoável e coerente com o conteúdo dos dois capítulos.

A segunda leitura é a que a crítica histórica propõe. A observação de que certos trechos do Pentateuco preferem sistematicamente um vocabulário — inclusive nesta questão dos verbos de aliança e na escolha entre os nomes divinos — está na base das teorias de fontes que dominaram o estudo acadêmico do assunto.

Nessa leitura, o capítulo 15 e o capítulo 17 seriam versões de tradições distintas sobre a aliança com Abraão, costuradas no texto que temos.

Não é possível decidir entre as duas, e há hoje quem conteste o modelo clássico de fontes.

Registro as duas porque o dado — a troca de verbos — é objetivo, e porque explicá-lo por uma só das vias seria apresentar como certo o que é discutido.

O que é uma aliança

Vale explicar a palavra, porque ela carrega um mundo.

O termo hebraico designa pacto, tratado, compromisso formal entre partes. Não é sinônimo de promessa: promessa é declaração unilateral, aliança supõe vínculo estabelecido e, em geral, obrigações.

O ambiente em que esses textos nasceram conhecia muito bem o gênero. Sobrevivem tratados do antigo Oriente Próximo, especialmente hititas e assírios, com estrutura reconhecível: apresentação do soberano que impõe o tratado, histórico da relação, estipulações que o vassalo deve cumprir, testemunhas invocadas, e a lista de bênçãos e maldições conforme o cumprimento.

Quem conhece esse formato reconhece elementos dele em vários textos bíblicos de aliança.

Convém, porém, registrar a diferença que salta aos olhos neste capítulo.

No tratado típico, o vassalo assume obrigações e o soberano garante proteção — e o descumprimento aciona maldições detalhadas.

Aqui, a única exigência que aparecerá é a circuncisão, a partir do versículo 10. Não há lista de estipulações. Não há bênçãos e maldições alinhadas. E o versículo anterior formulou dois imperativos sem anexar advertência nenhuma.

Registro a comparação como aproximação útil e imperfeita. Os paralelos existem e são reconhecidos; a correspondência não é ponto a ponto.

"entre mim e você"

Uma observação sobre a construção, que se repete no capítulo com insistência.

A expressão aparece aqui, e voltará nos versículos 7, 10 e 11 — em alguns casos ampliada para incluir a descendência.

O hebraico repete a preposição dos dois lados: entre mim e entre ti. É a forma corrente da língua para exprimir relação bilateral, e não carrega ênfase especial.

O que vale reter é a frequência. Num capítulo de vinte e sete versículos, a fórmula que nomeia as duas partes reaparece várias vezes, e a partir do versículo 7 ela se estende no tempo, alcançando gerações que ainda não existem.

"e o multiplicarei imensamente"

Aqui há dois pontos, um de vocabulário e outro de gramática.

O de vocabulário primeiro.

O verbo empregado é o de multiplicar, tornar numeroso. E ele não é neutro dentro deste livro.

É o verbo da bênção do primeiro capítulo do Gênesis, quando se diz aos seres vivos e depois ao ser humano que frutifiquem e se multipliquem. É o verbo repetido a Noé e aos seus filhos depois do dilúvio, quando a humanidade recomeça. E reaparecerá adiante, nas bênçãos aos patriarcas.

Ou seja: o vocabulário da criação e do recomeço é aplicado aqui a um homem particular.

Vale registrar isso como observação sobre o uso da palavra, e não como afirmação do narrador — ele não estabelece a ligação, e o verbo é comum o bastante para que a coincidência não prove intenção.

Mas quem lê o livro seguido encontra a mesma palavra nos três lugares, e o efeito é cumulativo.

O ponto de gramática é mais concreto.

O hebraico não diz "muito". Diz o advérbio duas vezes: meod meod.

A repetição é um recurso de intensificação corrente na língua, que não tem equivalente natural em português — dizemos "muito, muito" e soa infantil, então as traduções resolvem com "imensamente", "sobremaneira", "extraordinariamente".

Vale saber que o original é mais simples e mais insistente do que a nossa tradução consegue soar.

E vale notar onde essa mesma construção reaparece: no versículo 6, aplicada à fecundidade, e no versículo 20, na bênção de Ismael.

A quem isso é dito

Convém fechar registrando a desproporção, que o texto não comenta e que estrutura o capítulo inteiro.

Promete-se multiplicação sem medida a um homem de noventa e nove anos.

A mulher dele tem oitenta e nove, e o capítulo 16 abriu informando que ela não lhe dava filhos.

Existe um filho, Ismael, nascido de uma escrava, com treze anos neste momento.

O narrador não sublinha o absurdo. Não usa adjetivo, não comenta, não antecipa objeção.

Vale reter isso, porque o versículo 17 mostrará que o próprio Abraão fez a conta — prostrou-se, riu, e perguntou no coração se um homem de cem anos gera filho.

Ou seja: a desproporção que o narrador não comenta é exatamente a que o personagem percebe.

E, quando ele a percebe e ri, o texto não registra repreensão nenhuma.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Deus — quem fala; usa o verbo "dar" para a aliança, e não "cortar".

Abrão — aos noventa e nove anos, ainda com o nome antigo; recebe promessa de multiplicação.

A aliança (berit) — pacto formal; o gênero era conhecido no antigo Oriente Próximo em forma de tratados.

Gênesis 15 — onde a aliança foi "cortada", com os animais partidos ao meio.

O advérbio dobradomeod meod, "muito, muito"; recurso de ênfase do hebraico.

Sarai — não mencionada aqui; tem oitenta e nove anos e nunca teve filhos.

Ismael — o filho existente, de treze anos, nascido de escrava.

5. Pontos de Ensino

A aliança aqui é "dada", não "cortada". Verbo diferente do capítulo 15.

E no versículo 7 será "levantada". Três verbos para a mesma aliança.

Há duas explicações para isso. Literária e crítico-histórica; não é possível decidir.

"Cortar aliança" vem do rito dos animais partidos. A expressão é literal na origem.

Aliança não é promessa. Promessa é unilateral; aliança supõe vínculo e obrigações.

O formato lembra tratados antigos. Mas sem lista de estipulações nem maldições.

"Multiplicar" é o verbo da criação. Gênesis 1, e de novo com Noé.

O advérbio vem repetido no original. Muito, muito.

Promete-se multidão a um homem de 99 anos. A mulher tem 89 e é estéril.

O narrador não comenta o absurdo. Quem o percebe é Abraão, no versículo 17.

6. Aspectos Filosóficos

Três verbos para a mesma aliança

Convém abrir pelo detalhe que a tradução apaga por completo, porque ele organiza a leitura do capítulo.

O hebraico tem uma expressão consagrada para estabelecer pacto: cortar uma aliança.

Ela não é figurada por acaso. Vem do rito que o capítulo 15 descreve — animais partidos ao meio, as metades dispostas uma diante da outra, e algo como fogo passando entre elas. Paralelos antigos sugerem o sentido: quem passa entre as partes invoca sobre si a sorte dos bichos, caso rompa o compromisso.

Este versículo não usa esse verbo. Usa o verbo dar.

E o versículo 7 usará um terceiro, o de levantar, fazer subsistir.

Ou seja: para a mesma aliança, com o mesmo homem, o texto emprega vocabulário diferente daquele do capítulo 15.

O que fazer com esse dado

Há duas explicações, e as duas merecem registro.

A primeira é literária. Cortar sugere ato inaugural, com rito e sangue; dar sugere concessão, outorga; levantar sugere confirmar o que já existe. Nessa leitura, o capítulo 15 inaugura e o 17 confirma e amplia, e a troca de verbos acompanha a troca de função.

É razoável e coerente com o conteúdo dos dois capítulos.

A segunda é a da crítica histórica. A constatação de que certos trechos do Pentateuco preferem sistematicamente um vocabulário — inclusive nestes verbos e na escolha entre os nomes divinos — está na base das teorias de fontes. Nessa leitura, os dois capítulos seriam versões de tradições distintas sobre a mesma aliança, costuradas no texto final.

Não é possível decidir, e há hoje quem conteste o modelo clássico.

Registro as duas porque o dado é objetivo e porque explicá-lo por uma via só seria apresentar como resolvido o que é discutido.

Aliança não é promessa

Vale distinguir, porque em português as duas palavras se confundem.

Promessa é declaração unilateral: alguém se compromete a fazer algo.

Aliança supõe vínculo estabelecido entre partes e, em geral, obrigações — ainda que assimétricas.

O mundo desses textos conhecia bem o gênero. Sobrevivem tratados hititas e assírios com estrutura reconhecível: apresentação do soberano, histórico da relação, estipulações, testemunhas, e a lista de bênçãos e maldições conforme o cumprimento.

Vários textos bíblicos de aliança exibem elementos desse formato.

Convém, porém, notar o que falta aqui. A única exigência que aparecerá é a circuncisão, a partir do versículo 10. Não há lista de estipulações, não há bênçãos e maldições alinhadas — e o versículo anterior trouxe dois imperativos sem advertência anexa.

A aproximação com os tratados é útil e imperfeita. Os paralelos existem e são reconhecidos; a correspondência não é ponto a ponto.

A palavra que vem do começo do livro

O verbo multiplicar não é neutro dentro do Gênesis.

É o verbo da bênção do primeiro capítulo, dita aos seres vivos e depois ao ser humano. É o verbo repetido a Noé e aos filhos depois do dilúvio, quando a humanidade recomeça. E reaparece adiante, nas bênçãos aos patriarcas.

O vocabulário da criação e do recomeço é aplicado aqui a um homem particular.

Registro como observação sobre o uso da palavra, e não como afirmação do narrador — ele não estabelece a ligação, e o verbo é comum o bastante para que a coincidência não prove intenção.

Mas quem lê o livro seguido encontra o mesmo termo nos três lugares.

Muito, muito

Uma observação sobre o advérbio, que o português não consegue reproduzir sem soar estranho.

O hebraico não diz "muito". Diz a palavra duas vezes seguidas.

A repetição é recurso corrente de intensificação na língua. Como "muito, muito" soa infantil em português, as traduções resolvem com "imensamente", "sobremaneira", "extraordinariamente".

Vale saber que o original é mais simples e mais insistente do que a nossa versão consegue soar — e que a mesma construção volta no versículo 6, sobre a fecundidade, e no versículo 20, na bênção de Ismael.

A conta que o narrador não faz

Convém fechar pela desproporção, que estrutura o capítulo inteiro e que o texto se recusa a comentar.

Promete-se multiplicação sem medida a um homem de noventa e nove anos.

A mulher dele tem oitenta e nove, e o capítulo anterior abriu informando que ela não lhe dava filhos. Existe um filho de escrava, com treze anos.

O narrador não sublinha nada disso. Não usa adjetivo, não comenta, não antecipa objeção.

E vale reter por quê: o versículo 17 mostrará que o próprio Abraão fez a conta. Prostrou-se, riu, e perguntou no coração se um homem de cem anos gera filho.

A desproporção que o narrador cala é exatamente a que o personagem percebe — e, quando ele a percebe e ri, não há repreensão registrada.

7. Aplicações Práticas

Traduções apagam escolhas de vocabulário

O hebraico tem uma expressão consagrada para estabelecer pacto — cortar uma aliança —, ligada ao rito dos animais partidos que o capítulo 15 descreve. Este versículo não a usa: emprega o verbo dar, e o versículo 7 empregará um terceiro, o de levantar.

Para a mesma aliança, com o mesmo homem, o vocabulário muda. E em português tudo isso vira "firmar".

Vale como hábito de leitura: quando um texto repete um assunto, repare se repete também as palavras. A troca de termo costuma carregar informação, e é justamente o que a tradução uniformiza para soar bem.

Nem toda diferença tem uma explicação só

A troca de verbos comporta duas leituras. A literária diz que cortar inaugura, dar outorga e levantar confirma, de modo que o capítulo 15 institui e o 17 amplia. A crítico-histórica diz que os dois capítulos vêm de tradições distintas, costuradas no texto final — observação que está na base das teorias de fontes.

Não é possível decidir, e há hoje quem conteste o modelo clássico.

Apresentar só uma delas seria dar como resolvido o que é discutido. Guarde o critério para qualquer assunto em que você tenha lado: expor a explicação concorrente com a força que ela tem é o que separa estudo de propaganda.

Aliança e promessa não são a mesma coisa

Promessa é declaração unilateral; aliança supõe vínculo estabelecido entre partes e, em geral, obrigações. O mundo desses textos conhecia bem o gênero — sobrevivem tratados hititas e assírios com estrutura reconhecível: soberano, histórico, estipulações, testemunhas, bênçãos e maldições.

E vale notar o que falta aqui: não há lista de estipulações nem de maldições, e a única exigência virá no versículo 10.

A distinção ajuda a examinar os seus próprios compromissos. Muita coisa que chamamos de acordo é promessa unilateral disfarçada, em que só um lado tem obrigação — e descobrir isso tarde, no meio de um desentendimento, costuma sair caro.

Repare no que o narrador escolheu não comentar

Promete-se multiplicação sem medida a um homem de noventa e nove anos, cuja mulher tem oitenta e nove e nunca teve filhos. O narrador não usa adjetivo, não sublinha o absurdo, não antecipa objeção.

Quem faz a conta é o personagem: no versículo 17, Abraão se prostra, ri e pergunta se um homem de cem anos gera filho.

Isso vale como método de leitura e como consolo. O texto não exige que você ache razoável o que ele conta — o próprio protagonista não achou, e não foi repreendido por isso.

O original costuma ser mais simples e mais insistente

O hebraico não diz "muito": diz a palavra duas vezes seguidas. Como "muito, muito" soa infantil em português, as traduções resolvem com "imensamente" ou "sobremaneira" — e a mesma construção volta no versículo 6 e no 20.

A versão elegante custa a insistência do original.

Serve de alerta para a tentação inversa, que é comum em quem prega: enfeitar o texto para que soe mais solene. O que soa mais bonito frequentemente diz menos, e a força de muita frase bíblica está justamente na repetição crua.

Palavras carregam a história de onde vieram

O verbo multiplicar não é neutro no Gênesis: é o da bênção do primeiro capítulo, dita aos seres vivos e ao ser humano, e o repetido a Noé depois do dilúvio, quando a humanidade recomeça. Aqui ele é aplicado a um homem particular.

Registro como observação sobre o uso, e não como afirmação do narrador, que não estabelece a ligação.

Ainda assim, quem lê o livro seguido encontra o mesmo termo nos três lugares, e o efeito é cumulativo. É assim que um texto longo constrói sentido — não por declaração, e sim por repetição que o leitor atento junta sozinho.

Compromisso duradouro pede as duas partes nomeadas

A fórmula "entre mim e você" reaparece nos versículos 7, 10 e 11, em alguns casos ampliada para incluir a descendência. O hebraico repete a preposição dos dois lados, e a partir do versículo 7 a relação se estende a gerações que ainda não existem.

Num capítulo de vinte e sete versículos, isso é insistência considerável.

Vale a analogia prática: acordos que duram costumam nomear quem está de cada lado e por quanto tempo. Os que se desfazem quase sempre foram feitos com as partes implícitas e o prazo subentendido.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que "firmarei" e não "cortarei" o pacto?

Porque o hebraico aqui usa o verbo dar, e não a expressão idiomática consagrada, que é "cortar uma aliança". A expressão consagrada vem do rito descrito no capítulo 15 — animais partidos ao meio, com as metades dispostas uma diante da outra.

Isso é relevante?

É, porque o capítulo usa ainda um terceiro verbo no versículo 7, o de levantar ou fazer subsistir. Para a mesma aliança, com o mesmo homem, o vocabulário muda em relação ao capítulo 15 — e em português tudo isso vira "firmar".

Como se explica a troca de verbos?

Há duas leituras. A literária: cortar inaugura, dar outorga, levantar confirma — de modo que o capítulo 15 institui e o 17 amplia. A crítico-histórica: os dois capítulos seriam versões de tradições distintas, costuradas no texto final, observação que está na base das teorias de fontes do Pentateuco. Não é possível decidir, e há hoje quem conteste o modelo clássico.

O que significa "aliança"?

Pacto, tratado, compromisso formal entre partes. Não é sinônimo de promessa: promessa é declaração unilateral, enquanto aliança supõe vínculo estabelecido e, em geral, obrigações.

Havia algo parecido fora da Bíblia?

Havia, e é bem documentado. Sobrevivem tratados do antigo Oriente Próximo, especialmente hititas e assírios, com estrutura reconhecível: apresentação do soberano, histórico da relação, estipulações, testemunhas invocadas, e lista de bênçãos e maldições. Vários textos bíblicos de aliança exibem elementos desse formato.

Este capítulo segue esse formato?

Só em parte, e a diferença importa. Não há lista de estipulações nem bênçãos e maldições alinhadas; a única exigência aparecerá no versículo 10, a circuncisão. E o versículo anterior trouxe dois imperativos sem advertência anexa. A aproximação é útil e imperfeita.

O que quer dizer "imensamente"?

O hebraico não diz "muito" — diz o advérbio duas vezes seguidas. A repetição é recurso corrente de intensificação na língua, e como "muito, muito" soa infantil em português, as traduções resolvem com "imensamente" ou "sobremaneira". A mesma construção volta no versículo 6 e no 20.

O verbo "multiplicar" tem alguma particularidade?

Não é neutro dentro do Gênesis. É o verbo da bênção do primeiro capítulo, dita aos seres vivos e ao ser humano, e o repetido a Noé depois do dilúvio. O vocabulário da criação e do recomeço aparece aqui aplicado a um homem particular. Registro como observação de uso; o narrador não estabelece a ligação.

A promessa era razoável?

Promete-se multiplicação sem medida a um homem de noventa e nove anos, cuja mulher tem oitenta e nove e nunca teve filhos. O narrador não comenta a desproporção, não usa adjetivo e não antecipa objeção — mas o versículo 17 mostrará que o próprio Abraão fez a conta, riu e perguntou se um homem de cem anos gera filho. E não foi repreendido por isso.

9. Conexão com Outros Textos

Gênesis 15:18Naquele mesmo dia fez o SENHOR um pacto com Abrão.

Onde a aliança foi "cortada", com o rito dos animais partidos.

Gênesis 15:9-10E ele partiu-os pelo meio, e pôs cada parte deles em frente da outra.

O rito de onde vem a expressão idiomática.

Jeremias 34:18-19Os que passaram entre as partes do bezerro.

A explicação mais clara do rito dentro da própria Bíblia.

Gênesis 17:7Estabelecerei o meu pacto entre mim e você e a sua descendência.

O terceiro verbo, no mesmo capítulo.

Gênesis 1:28Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra.

A primeira ocorrência do verbo, na bênção da criação.

Gênesis 9:1,7Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra.

O mesmo verbo repetido a Noé, no recomeço.

Gênesis 17:6Eu o farei extremamente fecundo.

A mesma construção do advérbio dobrado, poucos versículos adiante.

Gênesis 17:20O farei fecundo e o multiplicarei imensamente.

A mesma fórmula aplicada a Ismael.

Gênesis 16:1Sarai, mulher de Abrão, não lhe dava filhos.

A informação que torna a promessa desproporcional.

Gênesis 17:17Riu e disse no seu coração: Poderá nascer um filho a um homem de cem anos?

A conta que o narrador não faz, feita pelo personagem.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Firmarei o meu pacto entre mim e você, e o multiplicarei imensamente.”

Texto hebraico

וְאֶתְּנָה בְרִיתִי בֵּינִי וּבֵינֶךָ וְאַרְבֶּה אוֹתְךָ בִּמְאֹד מְאֹד

Transliteração

weʾettenah beriti beini uveinekha wearbeh otekha bimʾod meʾod

Palavra por palavra

וְאֶתְּנָה (weʾettenah) — "e darei"

Forma do verbo natan, dar, com terminação que exprime vontade ou intenção — algo como "quero dar", "hei de dar".

Aqui está o ponto de vocabulário do versículo.

A expressão idiomática consagrada para estabelecer pacto é karat berit, cortar uma aliança — e é a que o capítulo 15 emprega.

Este versículo usa outro verbo. E o versículo 7 usará heqim, do verbo levantar, fazer subsistir.

בְרִיתִי (beriti) — "o meu pacto"

O substantivo berit com sufixo de primeira pessoa.

Designa pacto, tratado, compromisso formal. A etimologia é discutida — propõe-se ligação com o verbo de cortar, com um termo acádico para vínculo, ou com a ideia de comer junto.

Não é possível decidir.

בֵּינִי וּבֵינֶךָ (beini uveinekha) — "entre mim e entre ti"

O hebraico repete a preposição dos dois lados, construção corrente da língua para relação bilateral.

A fórmula reaparece nos versículos 7, 10 e 11, em alguns casos ampliada para incluir a descendência.

וְאַרְבֶּה (wearbeh) — "e multiplicarei"

Forma causativa do verbo rabah, ser muito, tornar-se numeroso. Na forma causativa: fazer numeroso, multiplicar.

É o verbo da bênção de Gênesis 1:28 e o repetido a Noé em 9:1 e 9:7.

בִּמְאֹד מְאֹד (bimʾod meʾod) — "com muito muito"

Aqui está o traço que o português não reproduz.

O advérbio meod, muito, aparece duas vezes seguidas, a primeira com preposição.

A repetição é recurso corrente de intensificação no hebraico. Como a tradução literal soaria infantil, as versões resolvem com "imensamente", "sobremaneira", "extraordinariamente".

A mesma construção volta no versículo 20, na bênção de Ismael — e vale notar que ali ela é idêntica, palavra por palavra.

Nota — o que a repetição faz

Vale fechar observando um traço geral da língua, porque ele explica muita coisa na leitura do Antigo Testamento.

O hebraico bíblico dispõe de poucos recursos de ênfase comparado ao português. Não tem a variedade de advérbios de intensidade que temos, nem a gradação de adjetivos que usamos com naturalidade.

O que ele faz, no lugar disso, é repetir.

Repete o advérbio, como aqui. Repete o substantivo para formar superlativo — o que produz expressões como "cântico dos cânticos" ou "santo dos santos", que significam o cântico supremo e o lugar mais santo. Repete o verbo para intensificar a ação.

Ou seja: onde o português busca a palavra mais forte, o hebraico diz a mesma palavra outra vez.

Isso tem consequência prática para quem lê traduções. Uma versão que verta "muito, muito" soa pobre, e uma que verta "imensamente" soa elegante — mas a segunda esconde que o original é insistente e simples, e não sofisticado.

Registro como observação sobre a língua. Não convém extrair daí nenhuma conclusão teológica: repetir é como o hebraico enfatiza, e não sinal de nada em particular neste versículo.

11. Conclusão

Duas particularidades do original desaparecem inteiramente na passagem para o português, e vale recuperá-las, porque uma delas organiza o capítulo e a outra explica um traço geral da língua.

A primeira está no verbo que abre a frase. Existe em hebraico uma locução fixa para o ato de estabelecer pacto, e ela diz literalmente cortar uma aliança — imagem que não é decorativa, pois remete ao procedimento narrado no capítulo 15, com animais seccionados e as metades postas frente a frente, entre as quais passa algo semelhante a fogo. Documentos antigos esclarecem o gesto: atravessar as partes equivale a chamar sobre si o destino daqueles animais em caso de quebra do compromisso. Pois bem — não é essa a locução empregada aqui. O texto lança mão do verbo dar, e adiante, no versículo 7, recorrerá a um terceiro, o de erguer ou fazer subsistir. Três termos distintos, portanto, para um único pacto e um único homem.

Diante disso há duas vias interpretativas, ambas dignas de menção. Uma delas é de ordem literária e nota que cortar convém a um ato inaugural, dar convém a uma outorga e erguer convém a uma confirmação — de modo que o capítulo 15 institui e o presente capítulo ratifica e alarga. A outra provém da crítica histórica: a percepção de que determinados blocos do Pentateuco privilegiam sistematicamente certo vocabulário, incluindo estes verbos e a preferência por um ou outro nome divino, sustenta as hipóteses de fontes que dominaram o estudo acadêmico. Nesse enquadramento, os dois capítulos preservariam tradições diversas a respeito do mesmo pacto. Nenhuma das vias se impõe, o modelo clássico tem hoje contestadores, e apresentar apenas uma delas seria fazer passar por assentado aquilo que segue em disputa.

A segunda particularidade está no fecho. Onde se lê "imensamente", o hebraico simplesmente repete: diz "muito" e diz "muito" de novo. Trata-se de um recurso corriqueiro naquela língua, que dispõe de poucos advérbios de intensidade e resolve a ênfase pela reiteração — o mesmo mecanismo que produz fórmulas como "cântico dos cânticos" ou "santo dos santos", isto é, o cântico supremo e o recinto mais sagrado. Nossas versões optam por "imensamente" ou "sobremaneira" porque a repetição literal soaria pueril em português; o efeito colateral é que o original passa a parecer sofisticado quando na verdade é insistente e cru. A mesma construção reaparece no versículo 6 e, palavra por palavra, no versículo 20, sobre Ismael.

Cabe ainda registrar o vocabulário da multiplicação, que carrega história. O verbo empregado é aquele da bênção inaugural do livro, dirigida aos viventes e depois ao ser humano, e é o mesmo que se repete a Noé quando a humanidade recomeça após o dilúvio. Aplicá-lo agora a um indivíduo específico produz ressonância — que anoto como observação sobre o uso da palavra, e não como tese do narrador, já que ele nada declara a respeito e o termo é comum demais para que a coincidência prove intenção.

Resta o que o relato se recusa a comentar. Anuncia-se descendência incontável a alguém de noventa e nove anos, casado com uma mulher de oitenta e nove que o capítulo precedente apresentou como incapaz de lhe dar filhos; existe um menino de treze anos, havido de uma escrava. Nenhum adjetivo sublinha a desproporção, nenhuma objeção é antecipada, nenhum comentário acompanha o anúncio. E convém saber por quê: o próprio Abraão fará essa conta no versículo 17, prostrando-se, rindo e indagando se um centenário gera filhos — sem que se registre qualquer repreensão.

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