No mesmo dia foram circuncidados Abraão e Ismael, seu filho.
1. Introdução
O texto já disse isso.
Três versículos atrás, o narrador informou que Abraão circuncidou a casa inteira naquele exato dia. Agora repete a fórmula, e repete os nomes.
Repetição, no hebraico narrativo, quase nunca é descuido. É recurso — e aqui ele serve para fechar um bloco: a expressão do dia aparece na primeira frase do trecho e reaparece na penúltima, como as duas capas de um documento.
Vale, porém, notar quem está nesta frase e quem não está.
Estão Abraão e Ismael. O pai e o filho mais velho, unidos por um único verbo, na única vez em todo o capítulo em que compartilham a mesma ação.
Não está Isaque. Ele ainda não foi concebido e só receberá o sinal quatro capítulos adiante, aos oito dias de vida.
Ou seja: no dia em que o sinal do pacto foi instituído, os dois únicos homens da família a recebê-lo foram aquele com quem o pacto seria estabelecido — e aquele com quem ele expressamente não seria.
Este estudo trata dessa frase curta, do que a repetição faz, e de uma ausência que o texto não comenta e que muda a fotografia do capítulo.
2. Contexto Histórico e Cultural
A arquitetura do fecho
Os cinco últimos versículos do capítulo formam uma unidade organizada, e vale desenhá-la.
O versículo 23 narra a ação: Abraão toma o filho, os nascidos em casa, os comprados, e circuncida todos — e a frase termina com a fórmula do dia e com a nota de que foi feito conforme o ordenado.
Os versículos 24 e 25 anotam duas idades, com a mesma construção gramatical e sem verbo principal.
Este versículo retoma a fórmula do dia e nomeia os dois.
O versículo 27 amplia para a casa inteira, com as duas categorias, e fecha o capítulo.
A estrutura é simétrica. A ação e o total estão nas pontas; as duas idades, no meio; e a fórmula do dia aparece nas duas metades, prendendo o conjunto.
Esse tipo de composição — em que um elemento reaparece para marcar o encerramento de uma seção — é comum na literatura hebraica e é um dos recursos que os estudiosos usam para identificar unidades dentro do texto.
Por que os textos antigos repetem
A repetição incomoda o leitor moderno, treinado a valorizar a economia. Convém entender por que ela é abundante nos textos antigos.
A primeira razão é oral. Boa parte desse material circulou sendo ouvida antes de ser lida, e quem ouve não pode voltar atrás. A repetição funciona como âncora: recoloca a informação central antes que ela se perca.
A segunda é jurídica. Documentos de contrato e de registro, na Mesopotâmia e no Egito, repetem as cláusulas por extenso justamente para não deixar margem de interpretação. O capítulo 17 tem muito desse feitio: repete as categorias, repete as expressões, repete as fórmulas.
A terceira é estrutural, e é a que interessa aqui: repetir um elemento no fim do que se repetiu no começo delimita a peça.
Nada disso é hipótese ousada. É observação sobre o funcionamento de textos que se pode conferir em qualquer página do Pentateuco.
Um dia que se repete no Êxodo
Vale registrar um paralelo que confirma o padrão.
A fórmula solene deste versículo aparece duas vezes no capítulo 12 do Êxodo, também dentro de poucos versículos, também a respeito do mesmo acontecimento.
Primeiro, o texto diz que, passados quatrocentos e trinta anos, naquele mesmo dia saíram todos os exércitos do SENHOR da terra do Egito. Poucas linhas depois, repete: naquele mesmo dia o SENHOR tirou os filhos de Israel da terra do Egito.
É exatamente o que acontece aqui, nos versículos 23 e 26.
A coincidência de procedimento — a fórmula dita, e depois redita, em torno de um mesmo acontecimento fundador — é um dos elementos que aproximam esses dois blocos de texto na análise dos estudiosos, e que sustentam a hipótese de camadas de composição do Pentateuco. É hipótese amplamente adotada e amplamente discutida; o dado observável é o padrão.
Onde Isaque está
Uma nota de contexto que este versículo torna necessária.
O filho da promessa não existe. Não foi concebido. Nascerá dali a um ano, e será circuncidado aos oito dias, conforme o capítulo 21 registrará com a mesma fórmula de conformidade usada aqui.
Portanto, o capítulo que institui o pacto com Isaque termina sem Isaque.
Isso não é problema para o texto, que trabalha com naturalidade nesse tipo de defasagem entre o dito e o feito. Mas é um dado, e é dos mais notáveis do trecho.
3. Análise Teológica do Versículo
“No mesmo dia”
A fórmula é a mesma do versículo 23, e vale examinar o que muda com o retorno dela.
O hebraico traz de novo beʿetsem hayom hazeh, a expressão construída sobre a palavra que significa osso: no âmago daquele dia, naquela data e não em outra.
Mas há uma diferença de posição, e ela produz efeito.
No versículo 23, a expressão vem no fim da frase, depois de descrita a operação inteira — como quem termina um relatório e então carimba a data.
Aqui ela abre o versículo. Vem antes de tudo, antes do verbo, antes dos nomes.
Em hebraico, pôr um elemento na frente é dar-lhe destaque. O narrador começa pela data, e só depois diz o que aconteceu nela.
O efeito é de solenidade. É a diferença entre fizeram tal coisa naquele dia e naquele dia, fizeram tal coisa.
Convém agora perguntar por que dizer de novo.
A repetição tem, aqui, pelo menos três funções que se pode identificar com segurança.
A primeira é delimitar. A expressão aparece no começo do trecho e perto do fim, e o que fica entre as duas menções é uma unidade: a execução da ordem, com os nomes e as idades.
A segunda é retomar depois de uma pausa. Os versículos 24 e 25 interromperam a narrativa para anotar dados — duas frases sem verbo principal, quase um formulário. Depois de uma pausa dessas, o narrador precisa recolocar o leitor na cena, e o faz repetindo a data.
Esse recurso é conhecido nos estudos de narrativa hebraica: quando um relato é interrompido por informação lateral, ele costuma ser retomado com a repetição de uma frase anterior, para religar o fio.
A terceira função é de ênfase pura. O narrador quer que fique gravado que tudo aconteceu no mesmo dia — não em dias sucessivos, não conforme a conveniência, não à medida que fosse possível.
E há uma quarta possibilidade, que registro como hipótese menos segura: a de que a repetição seja marca de costura entre materiais de origem distinta, com a fórmula servindo de emenda. É leitura defensável dentro da análise por camadas, e não é demonstrável a partir do texto isolado.
“foram circuncidados”
A forma verbal traz uma peculiaridade gramatical que vale explicar, porque ela é típica do hebraico e desaparece na tradução.
O verbo é nimmol: perfeito da conjugação passiva, terceira pessoa do masculino — no singular.
Mas os sujeitos são dois: Abraão e Ismael.
Em português, isso seria erro. Em hebraico, é normal e frequente: quando o verbo vem antes de um sujeito composto, ele costuma concordar apenas com o primeiro elemento, ou ficar no singular.
O fenômeno tem nome nos manuais e ocorre em muitos textos. Registro-o porque quem estuda o original tropeça nele, e porque é um daqueles detalhes que mostram que a língua tem lógica própria e não deve ser lida como se fosse a nossa.
Há uma segunda observação sobre esta forma verbal, e é mais interessante.
É a mesma conjugação passiva dos versículos 24 e 25, e será a do versículo 27. Ou seja: nos quatro últimos versículos do capítulo, todos os verbos referentes à circuncisão estão na voz passiva, exceto o do versículo 23, em que Abraão é o agente.
O narrador organiza assim: uma frase que diz quem fez, e três que dizem quem recebeu.
E, em nenhuma das três passivas, o agente é nomeado — nem sequer para Ismael, embora o versículo 23 já tenha informado que foi o pai.
“Abraão e Ismael, seu filho”
Aqui está o ponto mais denso deste versículo, e ele é de composição.
Esta é a única frase de todo o capítulo em que Abraão e Ismael partilham o mesmo verbo.
Vale conferir. No versículo 18, Abraão fala sobre o filho. No 20, Deus fala sobre o filho a Abraão. No 23, Abraão é o sujeito e Ismael é o objeto — ele o tomou e o circuncidou. Nos versículos 24 e 25, cada um tem a sua frase própria, separada.
Aqui, um só verbo, dois nomes ligados pela conjunção.
O que aconteceu com um aconteceu com o outro, na mesma forma verbal, no mesmo dia.
Convém dizer o que isso é e o que não é.
Não é declaração de igualdade de estatuto. O versículo 21 já estabeleceu, com clareza que não deixa dúvida, que o pacto seria de Isaque.
Mas é, no plano do sinal, uma equiparação real. A marca que Abraão carrega é a mesma que Ismael carrega, feita no mesmo dia, com o mesmo verbo.
E convém notar a aposição, que aparece pela terceira vez em quatro versículos: seu filho.
O narrador não escreve Abraão e Ismael. Escreve Abraão e Ismael, seu filho — insistindo, mais uma vez, no vínculo.
Quem não está aqui
Vale agora fazer a observação que este versículo torna inevitável e que a leitura devocional costuma não fazer.
Isaque não aparece.
Não podia aparecer, é verdade: não fora concebido. Mas a consequência disso merece ser enunciada, porque ela é forte.
O capítulo 17 é o capítulo do pacto com Isaque. Duas vezes o texto diz isso — no versículo 19 e no 21 —, e a segunda com uma inversão sintática que serve para contrastar com o filho mais velho.
E o capítulo termina com o sinal desse pacto no corpo de Abraão e no corpo de Ismael.
No dia em que a marca foi instituída, portanto, os dois homens da família que a carregavam eram aquele com quem o pacto seria feito e aquele com quem ele expressamente não seria.
O que fazer com esse dado?
Primeiro, não fazer demais. O texto não comenta, não ironiza, não constrói paradoxo. Registra a sequência dos fatos na ordem em que eles aconteceram, e a defasagem entre a promessa e o cumprimento é normal em toda esta narrativa.
Segundo, não fazer de menos. A fotografia do fim do capítulo é essa, e ela desmonta uma leitura simplista segundo a qual o sinal do pacto identificaria os eleitos e separaria os que estão dentro dos que estão fora.
Nesta cena, a marca não separa nada. Está no corpo do filho que não herdará, e não está no corpo do que herdará — que ainda não existe.
Registro isso como leitura, marcando bem: é observação do comentarista sobre a montagem do capítulo, e não afirmação do narrador.
Vale acrescentar que o próprio Antigo Testamento faz, muito depois, uma observação vizinha desta. Jeremias lista povos circuncidados — Egito, Edom, Amom, Moabe — e conclui que todas as nações são incircuncisas, e que a casa de Israel é incircuncisa de coração. O argumento dele pressupõe exatamente isto: que a marca, sozinha, não estabelece quem está dentro.
O que o versículo não diz
Não diz quem operou. É a terceira frase passiva seguida sem agente.
Não diz nada sobre a ordem entre pai e filho — quem primeiro, quem depois.
Não menciona nenhuma testemunha, nenhuma palavra dita, nenhum gesto além do próprio ato.
Não registra reação de nenhum dos dois, nem naquele momento nem nos dias seguintes.
E não comenta a ausência de Isaque, embora ela seja o fato mais notável da fotografia final.
Duas passivas, dois efeitos
Vale ainda uma observação sobre o que a voz passiva faz com a cena, porque ela é diferente da que se faz sobre a gramática.
Quando o versículo 23 disse que Abraão tomou o filho e circuncidou a casa, o leitor viu um homem agindo. Havia mãos, havia decisão, havia alguém responsável pelo que estava acontecendo.
A partir do versículo 24, isso desaparece. As frases informam que fulano foi circuncidado, e ninguém aparece segurando nada.
O efeito é de distanciamento. A cena deixa de ser uma cena e vira um registro — e é justamente essa a transição que o capítulo faz nos seus últimos versículos.
Convém não atribuir intenção onde não há prova. O hebraico usa a conjugação passiva com naturalidade em relatos desse tipo, e é provável que o narrador não estivesse buscando efeito nenhum.
Mas o resultado de leitura é real, e vale percebê-lo: o capítulo começa com uma voz falando a um homem prostrado e termina com formas verbais que não têm sujeito visível.
O que Ismael carrega a partir daqui
Há uma consequência deste versículo que atravessa o resto do ciclo e que quase nunca é notada.
A partir deste dia, Ismael carrega no corpo o sinal de um pacto do qual não é o herdeiro.
Ele o levará para o deserto, depois da expulsão. Levará ao casamento com a egípcia escolhida pela mãe. Levará à criação dos doze filhos que o capítulo 25 lista pelo nome. Levará até a morte, aos cento e trinta e sete anos.
O texto nunca comenta isso. Não diz o que aquela marca significava para ele, nem se ele a transmitiu aos descendentes, nem se a associava ao pai que o mandou embora.
Registro a observação como leitura, e marco bem o limite: é o comentarista que junta as informações, e o narrador não faz o comentário em lugar nenhum.
Ainda assim, a situação está no texto e é notável. Um homem carrega pela vida inteira o sinal de uma aliança que foi expressamente atribuída a outro — e que lhe foi aplicada aos treze anos, pelo pai, num dia que ele não escolheu.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Abraão — nomeado ao lado do filho e sujeito do mesmo verbo, pela única vez no capítulo.
Ismael — chamado seu filho pela terceira vez em quatro versículos. Recebe o sinal do pacto do qual não será o herdeiro.
Isaque — ausente. Não foi concebido, e receberá o sinal aos oito dias, no capítulo 21. O capítulo do pacto com ele termina sem ele.
A fórmula do dia — beʿetsem hayom hazeh. Aparece no versículo 23, no fim da frase, e aqui, na abertura. Fecha o bloco que as duas menções delimitam.
O verbo no singular — nimmol, passivo, na terceira pessoa do singular, com dois sujeitos. É concordância normal em hebraico quando o verbo antecede o sujeito composto.
A voz passiva — domina os quatro últimos versículos. Só no 23 Abraão aparece como agente; nos demais, todos são pacientes, e ninguém é nomeado como executor.
O paralelo do Êxodo — a mesma fórmula solene aparece duas vezes no capítulo 12, também em torno de um mesmo acontecimento fundador.
O argumento de Jeremias — muito depois, o profeta observará que povos circuncidados continuam incircuncisos de coração. O raciocínio pressupõe que a marca, sozinha, não define quem está dentro.
5. Pontos de Ensino
A repetição é técnica, não descuido. A fórmula do dia abre e fecha o bloco final do capítulo, delimitando a unidade e religando o fio depois da pausa das idades.
A posição da fórmula mudou. No versículo 23 ela vinha no fim, como carimbo; aqui abre a frase, o que em hebraico é dar destaque.
Um verbo, dois sujeitos. A forma está no singular com Abraão e Ismael como sujeitos — concordância normal no hebraico quando o verbo vem primeiro.
É a única vez que pai e filho compartilham um verbo. Em todas as outras menções do capítulo, um é sujeito e o outro é objeto, ou cada um tem a sua frase.
Ninguém é nomeado como executor. Três frases passivas seguidas, e o agente nunca aparece — nem mesmo no caso de Ismael, cuja operação o versículo 23 atribuiu ao pai.
Isaque não está na fotografia. O capítulo que institui o pacto com ele termina com o sinal desse pacto no corpo de Abraão e de Ismael.
A marca, ali, não separa ninguém. Está em quem não herdará e falta em quem herdará. Registro como leitura da montagem, e não como afirmação do texto.
O Antigo Testamento faz observação vizinha. Jeremias nota que povos circuncidados continuam incircuncisos de coração — o que pressupõe que o sinal, sozinho, não define pertença.
6. Aspectos Filosóficos
Dizer duas vezes
A repetição é vista, hoje, como falha de estilo. Textos bem escritos, aprendemos, não repetem: variam, sintetizam, avançam.
Vale examinar de onde vem essa expectativa, porque ela é histórica e não universal.
Ela vem da leitura silenciosa e do livro impresso, em que o leitor pode voltar a qualquer momento, sublinhar, conferir. Nesse regime, repetir é desperdício de espaço.
No regime anterior — texto ouvido, ou lido em voz alta para um grupo — repetir é a única forma de garantir que o essencial permaneça. Quem ouve não volta atrás.
Isso muda o modo de avaliar o versículo. Ele não é redundante por descuido de um compilador distraído: é construído para funcionar no ouvido.
A observação vale além do texto antigo. Boa parte do que se comunica hoje falha exatamente por supor o regime errado — dito uma vez só numa reunião, num aviso, numa conversa, como se todos estivessem lendo com atenção e pudessem voltar atrás.
A marca que não separa
O capítulo institui um sinal de pertencimento, e termina com esse sinal no corpo de quem não herdará o pacto, e ausente do corpo de quem herdará.
Isso levanta uma questão sobre a natureza dos sinais de identidade em geral, e ela não é apenas religiosa.
Um sinal serve para distinguir. Se todos o têm, não distingue; se quem deveria tê-lo não o tem, também não. A eficácia dele depende de uma correspondência exata entre o sinal e a realidade que ele deveria indicar.
E essa correspondência falha o tempo todo — com diplomas que não correspondem a competências, com sobrenomes que não correspondem a vínculos, com filiações que não correspondem a convicções.
O Antigo Testamento acabaria por reconhecer isso a respeito do próprio rito, e o fez pela boca dos profetas. O argumento de Jeremias — povos circuncidados que continuam incircuncisos de coração — é a formulação mais direta.
Registro que essa crítica não vem de fora nem é posterior ao cânon. É interna, e está no mesmo conjunto de livros que instituiu o sinal.
Estar de fora do próprio capítulo
Há uma situação curiosa na montagem deste trecho, e ela merece uma reflexão.
Isaque é o assunto do capítulo. É por causa dele que houve a correção do versículo 19, a delimitação do 21 e a data do ano seguinte. E ele não aparece em nenhuma cena.
Quem ocupa o palco são os que não são o assunto: o pai, o irmão mais velho, os servos.
Isso descreve uma situação reconhecível. Boa parte do que se faz por alguém acontece na ausência dessa pessoa — planejamento de herança, decisões sobre um filho que ainda não nasceu, preparação de um lugar para quem vai chegar.
O trabalho é feito por quem está; o beneficiário é quem virá.
Vale notar, sem forçar, que os dois que executam a ordem naquele dia são exatamente os dois que menos ganham com ela. Abraão tem noventa e nove anos; Ismael não herdará o pacto. O que eles fazem é para outro.
O executor sem nome
Uma última observação, sobre a voz passiva.
Três frases seguidas dizem que alguém foi circuncidado, e nenhuma diz por quem. A gramática apaga o agente.
Isso é comum em linguagem administrativa de qualquer época, e vale notar o efeito. A voz passiva desloca a atenção do responsável para o resultado. Diz-se que foi decidido, que foram feitos cortes, que houve mudanças — e o sujeito desaparece.
No caso do capítulo 17, a passiva provavelmente não tem essa intenção: o versículo 23 já nomeara Abraão como agente, e o texto não está escondendo nada.
Ainda assim, o efeito de leitura permanece, e é útil percebê-lo. Vale prestar atenção às frases sem sujeito que se ouve todos os dias, e perguntar quem, exatamente, fez.
O que fica quando a cena vira registro
Há uma passagem de gênero acontecendo nos últimos versículos do capítulo, e ela merece atenção.
Até o versículo 23, o texto narra: alguém fala, alguém ri, alguém pede, alguém sobe, alguém toma o filho e age.
Do 24 em diante, o texto registra: idades, nomes, categorias, alcance. As frases perdem os verbos de ação e ganham a forma de um assentamento.
Essa transição do relato para o registro é um dos traços mais característicos deste capítulo, e vale pensar em como ela funciona.
Narrativa e registro fazem coisas diferentes com a memória. A narrativa preserva o sentido de um acontecimento — por que aconteceu, o que se disse, quem reagiu como. O registro preserva o fato — quem, quando, quantos.
A narrativa é mais interessante e menos confiável. O registro é o contrário.
Um texto que faz as duas coisas, como este capítulo, produz um efeito particular: dá o sentido e depois crava os dados, como se dissesse que aquilo não é apenas uma boa história.
Convém registrar o limite dessa observação. Que um texto tenha forma de registro não significa que registre um acontecimento histórico; documentos podem ser compostos muito depois dos fatos que descrevem, e a forma administrativa é imitável. O que se pode afirmar é que o autor deste capítulo quis que o fim dele soasse como um assentamento — e essa intenção é visível na própria gramática.
7. Aplicações Práticas
1. Dizer de novo o que importa
O narrador repete a data porque não quer correr o risco de que ela se perca depois das duas frases de registro que vieram no meio.
A tendência oposta é comum em quem comunica: dizer uma vez, com capricho, e supor que ficou. Não fica. As pessoas estavam distraídas, tinham outras coisas na cabeça, ou simplesmente ouviram e esqueceram.
A providência é chata e funciona: repetir o essencial no fim, com outras palavras. Não é falta de confiança em quem ouve; é reconhecimento de como a atenção funciona. Quem conduz reuniões, dá aulas ou cria filhos já descobriu isso, geralmente à força.
2. Fazer junto
Esta é a única frase do capítulo em que pai e filho aparecem sob o mesmo verbo. Antes, um era sujeito e o outro objeto; agora, os dois receberam a mesma coisa.
Há uma diferença grande entre fazer algo por alguém e passar pela mesma coisa que essa pessoa. Quem manda o filho estudar e não estuda, quem exige do time o que não faz, quem prescreve dieta comendo outra coisa — todos estão do lado do verbo transitivo.
Vale perguntar, nas exigências que você faz: eu estou incluído nelas? Nem sempre é possível estar, porque posições são diferentes. Quando é, faz uma diferença que ninguém precisa explicar.
3. Trabalhar por quem ainda não chegou
Os dois homens marcados naquele dia são os dois que menos ganham com o pacto: um está no fim de um século de vida, o outro não herdará.
Isso descreve boa parte do trabalho sério que se faz no mundo — plantar árvore cuja sombra não se usará, montar sistema que outro vai operar, construir uma reputação que a próxima geração da família vai herdar.
Não é sacrifício heroico nem exige linguagem grandiosa. É apenas a constatação de que quem faz e quem colhe raramente são a mesma pessoa, e de que a alternativa — só fazer o que rende para si dentro do próprio prazo — produz uma vida bem menor.
4. Sinais que deixaram de corresponder
No fim deste capítulo, a marca do pacto está em quem não o herdará e falta em quem o herdará.
Sinais de pertencimento perdem correspondência com o tempo. O crachá de quem já não faz o trabalho, o título de quem não exerce a função, o sobrenome de quem rompeu com a família, a filiação de quem já não concorda com nada daquilo.
Vale um inventário ocasional dos seus próprios sinais: quais deles ainda correspondem a alguma coisa e quais viraram formalidade. Não é obrigatório abandonar os que viraram formalidade — muitos têm valor por outros motivos. É útil, porém, saber quais são.
5. Quem fez, exatamente?
Três frases seguidas informam que alguém foi circuncidado sem dizer por quem. A gramática apaga o responsável.
Essa construção é usada todos os dias, e nem sempre por acaso: foi decidido, houve um corte, chegou-se à conclusão. Quando o sujeito desaparece, a responsabilidade desaparece junto.
A prática útil é dupla. Ao ouvir uma frase dessas, perguntar quem. E, ao falar, evitar usá-la para se proteger — dizer eu decidi custa mais e vale mais do que foi decidido.
6. Fechar o que se abriu
A fórmula do dia aparece no começo do bloco e volta perto do fim. O texto fecha o que abriu.
Conversas, projetos e processos raramente são fechados assim. Começam com um assunto declarado, derivam para outros, e terminam sem que ninguém volte ao ponto inicial para dizer em que ele ficou.
O hábito de retomar o começo antes de encerrar — em uma reunião, em uma conversa difícil, num texto — custa dois minutos e resolve mal-entendidos que durariam semanas.
7. O que a interrupção faz com a atenção
Os versículos 24 e 25 interromperam a narrativa para anotar idades. Depois de uma pausa dessas, o narrador precisou repetir a data para recolocar o leitor na cena.
Isso é uma observação prática sobre o custo das interrupções. Depois de qualquer desvio, é preciso pagar um preço para retomar — e o preço costuma ser subestimado por quem interrompe.
Vale, quando você for quem retoma, gastar uma frase recolocando o assunto em vez de continuar de onde parou como se ninguém tivesse saído do ar. E vale, quando você for quem interrompe, saber que o custo existe e recai sobre o outro.
8. Não estar presente no que é seu
Isaque é o assunto de todo o capítulo e não aparece em uma linha sequer da cena.
Muita coisa que pertence a alguém é decidida e preparada na ausência dessa pessoa. Isso é inevitável em parte dos casos — não se consulta quem ainda não nasceu — e evitável em muitos outros.
A distinção prática é simples de fazer: a pessoa não está presente porque não pode estar, ou porque ninguém a chamou? A segunda hipótese é bem mais comum do que se admite, e corrigi-la exige apenas um convite.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Por que o texto repete que foi no mesmo dia?
Por três razões que se pode identificar com segurança. A fórmula delimita o bloco, aparecendo no versículo 23 e aqui. Ela religa o fio depois da pausa das idades, que interrompeu a narrativa com duas frases de registro. E dá ênfase: tudo aconteceu numa data só. Há ainda a hipótese, menos segura, de que a repetição marque uma costura entre materiais de origem distinta.
2. Há diferença entre esta ocorrência e a do versículo 23?
Sim, de posição. No versículo 23 a fórmula vem no fim da frase, depois de descrita a operação, como um carimbo de data. Aqui ela abre o versículo, antes do verbo e dos nomes. Em hebraico, deslocar um elemento para a frente é dar-lhe destaque, e o efeito é de maior solenidade.
3. Por que o verbo está no singular se há dois sujeitos?
Porque é assim que o hebraico costuma funcionar quando o verbo antecede um sujeito composto: a concordância se faz com o primeiro elemento, ou fica no singular. Em português seria erro; ali é construção normal, registrada nos manuais e frequente no Antigo Testamento.
4. Quem circuncidou Abraão e Ismael?
O versículo não diz. É a terceira frase passiva seguida sem agente nomeado. Sobre Ismael, o versículo 23 já informara que foi o pai. Sobre Abraão, não há informação em lugar nenhum do capítulo, e a idade de noventa e nove anos torna implausível que tenha operado a si mesmo com facilidade.
5. Por que Isaque não aparece?
Porque não fora concebido. Nascerá dali a um ano e será circuncidado aos oito dias, conforme o capítulo 21. A consequência é notável e vale enunciá-la: o capítulo que institui o pacto com Isaque termina com o sinal desse pacto no corpo de Abraão e no de Ismael.
6. Isso significa que Ismael estava incluído no pacto?
É preciso separar as coisas. No plano do sinal, sim: ele carrega a mesma marca, feita no mesmo dia, com o mesmo verbo. No plano do pacto propriamente dito, o versículo 21 já foi explícito ao dizer que ele seria estabelecido com Isaque. O que a montagem do capítulo mostra é que a marca, sozinha, não estabelece quem está dentro — e essa é observação do comentarista sobre a composição, não afirmação do narrador.
7. Existe apoio bíblico para essa observação?
Existe, e vem de dentro do próprio Antigo Testamento. Jeremias lista povos circuncidados — Egito, Edom, Amom, Moabe, além de Judá — e conclui que todas as nações são incircuncisas e que a casa de Israel é incircuncisa de coração. O argumento só funciona se o sinal físico, por si, não bastar para definir pertença.
8. Por que o narrador insiste em seu filho?
É a terceira vez em quatro versículos, e nenhuma delas é necessária para identificar Ismael. A leitura mais econômica é que a repetição reafirma o vínculo justamente no trecho em que o pacto acabou de ser dirigido a outro. O texto não comenta a própria insistência.
9. Há paralelos dessa dupla menção da data em outros lugares?
Há um bastante próximo. No capítulo 12 do Êxodo, a mesma fórmula solene aparece duas vezes em poucos versículos, a respeito do mesmo acontecimento: a saída do Egito. O procedimento é idêntico ao daqui, e a coincidência é um dos elementos que aproximam esses blocos na análise dos estudiosos.
10. O que este versículo acrescenta ao 23, afinal?
Acrescenta a equiparação no plano do sinal. No versículo 23, Abraão é o agente e Ismael está no meio de uma lista de categorias. Aqui, os dois são nomeados lado a lado, sob um único verbo, na única frase do capítulo em que compartilham a mesma ação.
9. Conexão com Outros Textos
Gênesis 17:23 — a primeira ocorrência da fórmula, no fim da frase.
“…e lhes circuncidou a carne do prepúcio, como Deus lhe ordenara.” — ali a data vem depois de descrita a operação; aqui, antes de tudo.
Gênesis 7:13 — a mesma fórmula, no dia em que a arca se fechou.
Naquele mesmo dia entraram na arca Noé, e Sem, Cam e Jafé, filhos de Noé, a mulher de Noé e as três mulheres dos seus filhos, com eles;
Êxodo 12:41 — a fórmula na saída do Egito, primeira ocorrência.
E passados quatrocentos e trinta anos, no mesmo dia saíram todos os exércitos do SENHOR da terra do Egito.
Êxodo 12:51 — a mesma fórmula repetida poucos versículos depois, exatamente como aqui.
E naquele mesmo dia o SENHOR tirou os filhos de Israel da terra do Egito, agrupados em seus esquadrões.
Êxodo 12:17 — a terceira ocorrência no mesmo capítulo do Êxodo, agora na instituição da festa.
E guardareis a festa dos pães ázimos, porque em este mesmo dia tirei vossos exércitos da terra do Egito: portanto guardareis hoje em vossas gerações por costume perpétuo.
Gênesis 21:4 — o sinal chegando ao filho da promessa, quatro capítulos adiante.
E Abraão circuncidou seu filho Isaque aos oito dias, como Deus lhe havia ordenado.
Jeremias 9:25 — o anúncio que embaralha a fronteira do sinal.
Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que castigarei todo circunciso e todo incircunciso:
Jeremias 9:26 — a conclusão que pressupõe que o sinal, sozinho, não define pertença.
A Egito, a Judá, a Edom, aos filhos de Amom e de Moabe, e a todos os dos cantos mais distantes, que moram no deserto; pois todas as nações são incircuncisas; mas toda a casa de Israel é incircuncisa no coração.
Deuteronômio 30:6 — a promessa de uma operação de outra ordem.
E circuncidará o SENHOR teu Deus teu coração, e o coração de tua descendência, para que ames ao SENHOR teu Deus com todo teu coração e com toda tua alma, a fim de que tu vivas.
Levítico 12:3 — a regra do oitavo dia, retomada na legislação posterior.
E ao oitavo dia circuncidará a carne de seu prepúcio.
Atos 7:8 — o resumo da cena feito séculos depois, num discurso.
E ele lhe deu o pacto da circuncisão; e assim gerou a Isaque, e o circuncidou ao oitavo dia; e Isaque gerou a Jacó, e Jacó aos doze patriarcas.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português (A Bíblia Comentada)
No mesmo dia foram circuncidados Abraão e Ismael, seu filho.
Texto hebraico (Códice de Leningrado)
בְּעֶצֶם הַיּוֹם הַזֶּה נִמּוֹל אַבְרָהָם וְיִשְׁמָעֵאל בְּנוֹ׃
Transliteração
beʿetsem hayom hazeh nimmol Avraham weYishmaʿel beno.
Palavra por palavra
בְּעֶצֶם beʿetsem — no osso de, no âmago de. ʿEtsem significa osso, e por extensão a substância ou o núcleo de uma coisa. Aplicada ao tempo, a palavra produz uma expressão que exclui aproximação.
הַיּוֹם הַזֶּה hayom hazeh — este dia. Substantivo com artigo, seguido do pronome demonstrativo, também com artigo — construção normal em hebraico, em que o demonstrativo concorda em definição com o substantivo.
נִמּוֹל nimmol — foi circuncidado. Perfeito da conjugação passiva, terceira pessoa do masculino singular, da raiz mul. Note-se o singular diante de dois sujeitos: quando o verbo precede um sujeito composto, o hebraico costuma concordar apenas com o primeiro elemento. É construção regular, registrada nos manuais.
אַבְרָהָם Avraham — Abraão. Primeiro dos dois sujeitos, e aquele com quem o verbo concorda.
וְיִשְׁמָעֵאל בְּנוֹ weYishmaʿel beno — e Ismael, seu filho. Segundo sujeito, com a aposição que já aparecera nos versículos 23 e 25. Esta é a única frase do capítulo em que os dois nomes partilham um mesmo verbo.
Nota sobre a ordem das palavras
A frase começa pela expressão temporal, e não pelo verbo. Em hebraico, a ordem habitual da narrativa põe o verbo à frente; deslocar outro elemento para essa posição é recurso de ênfase.
O contraste com o versículo 23 é instrutivo. Lá a mesma fórmula aparece perto do fim, depois de descrita a operação inteira. Aqui abre o versículo. O deslocamento não muda o conteúdo e muda o peso: a data passa a ser o assunto da frase, e o resto vem como complemento dela.
Vale ainda notar que este versículo não traz nenhum verbo de ação — apenas a forma passiva. Nos quatro últimos versículos do capítulo, só o 23 apresenta Abraão como agente; os demais o apresentam, junto com os outros, como quem recebe.
Nota textual
A tradução grega antiga usa aqui o plural — perietmēthē aparece nas edições com variação de número entre os manuscritos, e algumas testemunhas concordam com os dois sujeitos, corrigindo o singular hebraico. É o tipo de ajuste que um tradutor faz sem pensar, porque a língua de destino exige concordância que a língua de origem não exige.
Registro o caso porque ele ilustra bem uma coisa: nem toda diferença entre o hebraico e as versões antigas indica um texto original diferente. Muitas são apenas o efeito de traduzir de uma língua com uma gramática para outra com gramática distinta — e distinguir esses casos dos que apontam variantes reais é justamente o trabalho da crítica textual.
11. Conclusão
Uma frase que repete o que já foi dito, e que por isso mesmo merece atenção.
O capítulo fecha o bloco final com o mesmo recurso com que o abriu: a fórmula solene da data, agora deslocada para o início da frase, onde pesa mais. Entre as duas menções ficaram a ação e as idades — e o conjunto forma um registro completo.
O conteúdo novo é discreto e importa. Pela primeira e única vez no capítulo, Abraão e Ismael aparecem sob o mesmo verbo. Antes disso, um sempre foi sujeito e o outro objeto, ou cada um teve a sua frase separada. Aqui, um verbo, dois nomes, e a aposição que insiste no vínculo pela terceira vez em quatro versículos.
E há a ausência, que este estudo tratou como o dado mais notável do fecho.
O capítulo do pacto com Isaque termina com o sinal desse pacto no corpo de um homem de noventa e nove anos e no de um rapaz de treze — e o filho da promessa não está em lugar nenhum da fotografia, porque ainda não foi concebido.
Não vou construir sobre isso mais do que ele sustenta: a defasagem entre o dito e o feito é normal nesta narrativa, e o narrador não faz nenhum comentário. Mas a fotografia é essa, e ela desautoriza a leitura simples segundo a qual a marca separaria de imediato os que estão dentro dos que estão fora. Naquele dia, não separou.
Vale ainda reter que essa observação não é invenção moderna nem manobra crítica. Os profetas de Israel chegariam à mesma conclusão por outro caminho, ao notar que povos inteiros cumpriam o rito e continuavam, no julgamento deles, incircuncisos por dentro. A crítica ao sinal nasce dentro do conjunto de livros que o instituiu.













