Por isso Sara riu consigo mesma, dizendo: “Depois de velha, e sendo o meu senhor também já velho, ainda terei esse prazer?”
1. Introdução
Uma mulher velha escuta, atrás da tenda, uma conversa em que não foi chamada a falar.
Ouve que terá um filho no ano seguinte. E ri por dentro.
O narrador acabara de informar, um versículo antes, que o corpo dela já não fazia aquilo. A objeção dela, portanto, não inventa nada: repete o que o próprio texto tinha certificado.
O verbo do riso dela é exatamente o mesmo de Abraão no capítulo anterior, na mesma forma, mudando só o gênero. O lugar do riso é que muda de palavra — e é aí que este versículo guarda o que tem de melhor.
Há ainda, no meio da frase, uma palavra que não aparece em nenhum outro lugar da Bíblia hebraica. Uma só ocorrência, e nada com que compará-la. Toda tradução dela é uma aposta.
2. Contexto Histórico e Cultural
O que o versículo anterior já tinha dito
Convém começar pelo dado clínico, porque ele foi posto de propósito antes da cena.
O versículo 11 informa que os dois eram idosos, avançados em dias, e que a Sara "já havia cessado o costume das mulheres".
A expressão hebraica traduzida por "costume das mulheres" é, ao pé da letra, "o caminho conforme as mulheres" — orah kannashim. É o modo pudico de dizer a menstruação. A mesma família de expressão reaparece no capítulo 31, quando Raquel diz a Labão que não pode levantar-se porque "o costume das mulheres" está sobre ela.
O narrador, portanto, fecha a porta antes de o anúncio ser feito. Informa ao leitor que aquilo acabou, e só depois deixa a promessa entrar.
Isso muda a natureza do riso que vem a seguir. Ele não contradiz o texto: ele repete o texto.
A mulher sem filhos no mundo antigo
Vale descrever a situação dela sem enfeite, porque a nossa cabeça moderna tende a lê-la como tristeza particular, e ela era muito mais que isso.
Numa sociedade de clã, sem Estado, sem previdência e sem herança fora da linhagem, os filhos eram a mão de obra, a segurança da velhice, a continuidade do nome e a garantia de que alguém faria o enterro devido.
A mulher que não os dava ficava sem posição dentro da casa do marido e sem proteção na viuvez.
Isso tem documentação fora da Bíblia. As leis de Hamurabi preveem o caso da esposa que não gera, autorizando o marido a tomar outra mulher ou aceitando que a própria esposa lhe entregue uma serva. Contratos de casamento do Oriente Próximo antigo registram cláusulas do mesmo tipo.
É exatamente o que Sarai faz no capítulo 16, ao entregar Agar. O gesto não é desespero improvisado: é um procedimento previsto.
Convém uma ressalva de método. Durante boa parte do século passado, os documentos da cidade de Nuzi foram citados como paralelo direto e quase perfeito dessas cenas do Gênesis. Depois, essa aproximação foi bastante criticada, e hoje se reconhece que os paralelos são mais frouxos do que se dizia. A prática está documentada em mais de um lugar; o encaixe exato com o texto bíblico é discutido.
A palavra que o Antigo Testamento usa para isso
O termo que aparece nesses relatos é "humilhação", "opróbrio" — em hebraico herpah, a vergonha pública.
Raquel, ao dar à luz, diz: "Deus tirou minha humilhação". Ana é provocada pela rival "porque o SENHOR havia fechado sua madre". Isabel, já no Novo Testamento, repete a mesma fórmula.
Repare no que essas frases pressupõem: a esterilidade era atribuída diretamente à ação divina, e o descrédito social vinha junto.
Isso é incômodo e não vou suavizá-lo. É a teologia do próprio texto, e ela cobrou um preço real de mulheres reais durante milênios.
Onde Sara estava, e por que não foi ela a ser interpelada
A cena tem uma geografia doméstica precisa, e ela explica muita coisa.
Os visitantes chegam, perguntam por Sara, e Abraão responde por ela: "está ali na tenda". A promessa é anunciada a ele. E o narrador informa que ela escutava à entrada da tenda, que estava atrás.
Ou seja: a mulher está do outro lado do pano, ouvindo uma conversa masculina sobre o próprio corpo, sem participar dela.
Isso corresponde ao que se sabe da etiqueta doméstica daquele mundo, em que a esposa não se apresentava diante de hóspedes homens e a conversa passava pelo chefe da casa.
Vale registrar como leitura, e não como afirmação do texto: parte do que se costuma discutir sobre este episódio talvez seja menos sobre teologia e mais sobre a posição de quem estava atrás do pano.
Chamar o marido de "meu senhor"
A fala de Sara traz um tratamento que precisa ser explicado, porque a tradução moderna soa mais dura do que o original era.
Adoni, "meu senhor", é a fórmula corrente de deferência do mundo antigo. Aparece em cartas oficiais hebraicas e na correspondência diplomática da região, sempre de quem fala para quem está acima.
Dentro da Bíblia, o uso doméstico está documentado. Raquel chama assim o próprio pai. Bate-Seba usa a mesma palavra falando com Davi, que era seu marido.
Convém não extrair sentimento disso. A expressão diz respeito à hierarquia da casa, não ao afeto. Não se pode afirmar, a partir dela, nem carinho nem submissão sentida — apenas o modo como se falava.
A trajetória dela até aqui
Um último dado, para medir o tempo.
Sara sai de Harã com o marido, é entregue duas vezes como irmã em cortes estrangeiras, entrega a serva egípcia, vê nascer o filho dessa serva, e no capítulo anterior recebe um nome novo — deixa de ser Sarai e passa a ser Sara.
Foi no mesmo capítulo em que o marido riu.
Quando chega o versículo 12, ela está com oitenta e nove anos e mais de vinte de promessa nas costas.
3. Análise Teológica do Versículo
"Por isso Sara riu"
Comece-se por uma honestidade sobre a nossa própria tradução.
O hebraico não diz "por isso". Diz apenas "e riu Sara" — vattitschaq Sarah —, com a conjunção comum que liga um acontecimento ao seguinte em toda a narrativa hebraica.
A força causal, o "por isso", é uma inferência do tradutor, que amarra o riso ao dado clínico do versículo 11. A inferência é razoável e provavelmente correta. Ainda assim é inferência, e o leitor tem direito de saber disso.
Registro o procedimento porque ele se repete milhares de vezes em qualquer Bíblia impressa, sempre em silêncio.
Agora o verbo.
Tsahaq, na forma simples da língua, terceira pessoa feminina, dentro da cadeia narrativa. É a palavra do riso — e ela cobre muito mais do que o nosso "rir".
Convém percorrer o campo inteiro, porque quem não o percorre decide o tom sem perceber que decidiu.
No capítulo 26, Abimeleque olha por uma janela e vê Isaque tsahaq com Rebeca. O que ele vê é o que lhe prova que aquela mulher não é irmã do hóspede. O verbo, ali, descreve carícia conjugal.
No capítulo 39, a mulher de Potifar acusa José dizendo que o hebreu foi trazido para tsahaq com eles. O sentido oscila entre zombaria e assédio, conforme a leitura.
No episódio do bezerro de ouro, o povo come, bebe e se levanta para tsahaq. As traduções vertem por divertir-se ou regozijar-se, e o contexto sugere algo bem menos inocente que uma dança.
No capítulo 21, Sara vê o filho de Agar tsahaq, e o que ela vê basta para exigir a expulsão da mãe e do menino.
No capítulo 19, os genros de Ló acham que ele está tsahaq — brincando, gracejando — quando anuncia a destruição da cidade.
Some-se tudo: alegria, brincadeira, carícia sexual, escárnio, provocação, gracejo que ninguém leva a sério.
A conclusão de método precisa ser dita com todas as letras: o verbo, sozinho, não determina o tom. Quem afirma que aqui significa descrença, ou que significa alegria, está decidindo pelo contexto — e o contexto deste versículo é ambíguo.
Há uma distinção gramatical que às vezes ajuda, e vale registrá-la com o seu limite.
Nas ocorrências de sentido mais forte — Isaque com Rebeca, a acusação contra José, o bezerro de ouro, Ismael, os genros de Ló — o verbo aparece na forma intensiva da língua. Aqui, e no capítulo 17, aparece na forma simples.
Isso é dado real, e diz alguma coisa: a forma simples é a do riso comum, sem a carga da forma intensiva.
Só que ela é a mesma nos dois casos deste ciclo. Abraão e Sara riem com o mesmo verbo, na mesma forma, e a única diferença é o gênero, que a gramática exige.
Registro o dado e registro o que ele não resolve.
Vale acrescentar o que fica pendurado no verbo. O menino que nascerá dessa promessa se chamará Yitzhaq, Isaque, formado sobre esta mesma raiz: "ele ri". O riso da mãe é a segunda das três explicações que o livro dá para esse nome, e o texto nunca esclarece de qual riso se trata.
"consigo mesma"
Esta é a expressão mais interessante do versículo, e é a que passa despercebida em qualquer leitura corrida.
O hebraico é beqirbah — a preposição "em", o substantivo qerev e o sufixo dela: "no seu interior".
Nossa tradução verte por "consigo mesma", que está correto quanto ao sentido e perde o corpo que a palavra tem. Vale expor o que se perde.
Qerev designa, na base, a parte de dentro. O miolo. As entranhas.
É a palavra usada para as vísceras do animal do sacrifício, que se queimam com a cabeça e as pernas. É a palavra usada nas vacas do sonho do faraó, quando as magras engolem as gordas e o texto diz que estas entraram no qerev daquelas sem que se notasse diferença nenhuma. Ali não há metáfora alguma: é barriga.
Daí a palavra se estende. Passa a significar o meio de qualquer coisa: o meio do povo, o meio da cidade, o meio do acampamento. Deus habita "no meio" de Israel, e é este o termo.
E se estende mais uma vez, até o interior da pessoa. O salmo pede a Deus que renove um espírito firme "em meu interior". O profeta anuncia a lei escrita "no interior" do povo e nos corações deles.
Agora a comparação que este versículo pede, e que raramente é feita.
No capítulo 17, quando Abraão ri, o texto diz que ele falou belibbo — "no seu coração".
Lev, coração, no Antigo Testamento, não é a sede das emoções, como no nosso uso. É a sede do pensamento, da decisão e da vontade. Está mais perto do que chamaríamos de mente do que do que chamamos de sentimento. "Dizer no coração" significa, em hebraico, pensar.
Ou seja: as duas expressões não são sinônimas exatas.
A dele localiza o riso no órgão da deliberação: ele ponderou, calculou e concluiu que era impossível.
A dela localiza o riso na cavidade do corpo: aconteceu dentro dela.
Há um versículo que mostra as duas palavras juntas e esclarece a relação. O salmista diz: "meu coração se esquentou dentro de mim" — o coração é o lev, e o "dentro de mim" é o qerev. O interior é o continente; o coração é o que está dentro dele.
Isso posto, chega-se à observação mais delicada, e ela precisa ser feita com cuidado.
A forma exata que aparece aqui, beqirbah — "no interior dela" —, reaparece no capítulo 25 para descrever os dois filhos que lutam dentro de Rebeca.
É a mesma palavra, com o mesmo sufixo, aplicada ao ventre de uma mulher grávida.
Há quem leia nisso uma escolha carregada: a mulher que acaba de ouvir que engravidará ri no mesmo lugar do corpo onde a criança deveria estar.
A leitura é bonita e é possível. E é preciso dizer o que ela não é: o texto não a confirma. Qerev é palavra corrente para o interior de qualquer pessoa, homem ou mulher, e não significa útero por si mesma. O hebraico tem outros termos para ventre e para madre, e nenhum deles está aqui.
Registro, portanto, como leitura possível, e não como prova. O que se pode afirmar é apenas isto: o narrador escolheu, para o riso dela, uma palavra de corpo, e não a palavra de pensamento que usara para o marido.
E convém registrar imediatamente o que a diferença de vocabulário não significa.
Ela não significa que um riso foi público e o outro escondido. Os dois são interiores. Ninguém ouviu nenhum dos dois. Não há, entre as duas cenas, diferença de publicidade — e essa é uma das harmonizações que se costuma oferecer, e que este dado desmonta.
"dizendo"
Uma palavra sobre o que parece ser só ligação, e não é.
O hebraico traz lemor, forma fixa do verbo dizer que funciona quase como sinal de pontuação: abre a citação. Onde ela aparece, o que vem em seguida são as palavras exatas de alguém.
Isso tem uma consequência que vale notar. O narrador não resume o pensamento dela nem o descreve de fora. Ele cita.
Ou seja: o leitor recebe, entre aspas, uma frase que ninguém no cenário ouviu.
Esse é um recurso literário forte, e a Bíblia hebraica o usa com parcimônia. Ela quase nunca abre a cabeça dos personagens — costuma narrar gestos e falas, deixando os motivos em silêncio. Quando abre, é porque a informação interessa.
Guarde-se essa frase citada, e guarde-se sobretudo a menção que ela faz à idade do marido. Isso será decisivo no versículo seguinte, quando a mesma fala for repetida por outra boca — e o assunto pertence ao estudo do versículo 13, não a este.
"Depois de velha"
Aqui há uma escolha de vocabulário que quase nenhuma tradução consegue mostrar, e ela é excelente.
O hebraico é aharei veloti — "depois do meu ter-me gasto".
A raiz é balah, e ela não é o verbo comum de envelhecer. Balah é o verbo do desgaste material: aquilo que se usa até se consumir.
É o verbo das roupas. O Deuteronômio diz que, nos quarenta anos do deserto, as vestes do povo não se gastaram e os pés não se incharam. Os gibeonitas aparecem diante de Josué com odres gastos e sandálias gastas, para fingir que vieram de longe.
É, portanto, a palavra da veste puída, do couro rachado, do objeto que serviu até o fim.
E é esse o verbo que Sara aplica a si mesma.
Ela não diz "depois que fiquei velha". Diz, ao pé da letra, algo como "depois que me gastei" — "depois que me consumi".
Agora repare no que vem a seguir na mesma frase, porque o contraste é deliberado ou é sorte, e nos dois casos é notável.
Para o marido, ela usa outra palavra: zaqen, o termo comum e digno para "velho", o mesmo que produz "ancião".
Ou seja, dentro de uma única sentença: ele é velho; ela está gasta.
É difícil não ouvir aí uma diferença de peso, e é preciso ser honesto quanto ao que se pode fazer com ela.
Não se pode afirmar que o narrador quis marcar autodepreciação. O verbo balah aplicado a pessoas ocorre em outros lugares sem essa carga, e a escolha pode ser apenas variação de estilo, que o hebraico narrativo aprecia.
Mas o dado está lá, é verificável, e nenhuma tradução para o português consegue carregá-lo sem uma nota. Registro-o como observação, com o grau de certeza que ele comporta.
Vale acrescentar o fundo. Uma mulher que descreve o próprio corpo como coisa gasta, num mundo em que a serventia dela era medida pelos filhos que desse, não está fazendo poesia. Está usando o vocabulário disponível.
"e sendo o meu senhor também já velho"
Duas palavras em hebraico: va'doni zaqen. "E o meu senhor é velho."
Primeiro, o tratamento.
Adoni é a fórmula de deferência do mundo antigo, e o seu uso doméstico entre esposos está documentado dentro da própria Bíblia. Não é sinal de afeto nem de frieza: é como se falava.
Há aqui, porém, um detalhe de história do texto que merece registro.
As mesmas consoantes que formam "meu senhor" formam também Adonai, o título divino que os judeus passaram a pronunciar no lugar do nome de Deus. A diferença, na escrita hebraica antiga, que não tinha vogais, seria invisível.
Foram os escribas medievais que fixaram as vogais, e são as vogais que separam aqui o senhor humano do Senhor divino. É um exemplo pequeno e concreto de quanto do sentido de um texto sagrado depende do trabalho de copistas que vieram séculos depois.
Segundo, o conteúdo.
Ela menciona a velhice dele. Não fala apenas do próprio corpo: divide o diagnóstico entre os dois.
Do ponto de vista do que ela está dizendo, isso é apenas realismo — a conta envolve duas pessoas. Do ponto de vista da narrativa, é o dado que o versículo seguinte vai tratar, e sobre o qual não vou avançar aqui.
Terceiro, e é o ponto que a leitura corrente costuma ignorar.
Esta é a única frase de todo o Gênesis em que Sara chama Abraão de "meu senhor".
E é justamente a frase que a Primeira Carta de Pedro invoca como modelo de conduta: "Sara obedecia a Abraão, chamando-lhe de senhor".
Ou seja: o versículo usado durante séculos como fundamento da obediência conjugal é a fala em que ela ri por dentro da promessa que acaba de receber.
Convém ser preciso quanto ao alcance dessa observação. É provável que a carta esteja recorrendo a uma tradição judaica mais ampla sobre Sara, e não apenas a este versículo; havia, no judaísmo do período, todo um material narrativo sobre os patriarcas que não está no Gênesis. Não se pode afirmar que o autor tivesse só este texto em vista.
Mas o tratamento aparece aqui, e só aqui. E o contexto em que aparece é este. Registro o dado sem transformá-lo em acusação: quem cita o versículo raramente sabe de onde ele vem.
"ainda terei esse prazer?"
Esta é a parte mais difícil do versículo, e onde o comentário honesto precisa admitir mais coisas do que gostaria.
O hebraico é hayetah-li ednah — três palavras, e cada uma tem um problema.
Primeiro problema: não há pergunta no hebraico.
A língua tem uma partícula própria para abrir interrogação, e ela não está aqui. No capítulo 17, na fala de Abraão, ela aparece duas vezes — as duas perguntas dele são formalmente perguntas.
A frase de Sara, não. Ela é, na forma, uma afirmação.
Isso não impede que seja uma pergunta. O hebraico admite interrogação sem partícula, marcada só pela entoação, e o contexto empurra nessa direção. A esmagadora maioria das traduções põe o ponto de interrogação, e a nossa também.
Ainda assim, a frase pode ser lida como exclamação: "depois que me gastei, veio-me deleite!".
Segundo problema: o verbo está no passado.
Hayetah é a forma perfectiva de "ser, vir a ser". Ao pé da letra: "houve para mim", "veio a ser para mim".
As traduções convertem para o futuro — "terei" — porque o sentido da cena parece exigi-lo. E há justificativa gramatical: o hebraico usa a forma perfectiva para fatos tidos como certos, inclusive futuros, e em perguntas retóricas.
Mas a leitura direta é passado. E ela abre uma possibilidade que a tradição rabínica explorou: a de que Sara estivesse relatando algo que já tinha sentido no corpo naquele momento.
Não é possível decidir. Registro as duas leituras.
Terceiro problema, e é o maior: a palavra ednah não aparece em nenhum outro lugar da Bíblia hebraica.
O nome técnico disso é hapax legomenon, expressão grega que significa "dito uma só vez". Convém explicar ao leitor o que isso implica na prática, porque a consequência é maior do que parece.
O sentido de uma palavra antiga é estabelecido por comparação. Reúnem-se todas as ocorrências, observa-se o que cabe em cada contexto, e o sentido é o que sobrevive a todos eles.
Quando há uma só ocorrência, esse método não pode funcionar. Não há segundo contexto. Não há como testar hipótese nenhuma contra outro uso.
Sobram dois caminhos, e os dois são frágeis.
O primeiro é adivinhar pelo contexto — o que é circular, porque o contexto é justamente o que se está tentando entender.
O segundo é recorrer a palavras parentes, da mesma raiz ou de línguas irmãs. Isso ajuda, e também engana: palavras da mesma raiz se afastam de sentido o tempo todo, em qualquer língua.
Portanto, e é preciso dizê-lo sem rodeio: toda tradução de ednah é uma aposta. Inclusive a nossa.
Vejamos o que existe para apoiar cada aposta.
A raiz é eden, e ela produz outras palavras que conhecemos. O salmo fala do "rio das tuas delícias", e o termo é dessa família. O livro de Samuel diz que Saul vestia as filhas de Israel de escarlata com "deleites". Neemias descreve o povo que se "deleitou" na terra boa.
O campo, portanto, é o do gozo, da fartura, do que é agradável em excesso.
Daí as traduções propostas para a nossa palavra: prazer, deleite, viço, frescor, luxúria. Nenhuma delas é arbitrária; nenhuma delas é demonstrável.
As leituras principais são três, e vale expor cada uma com o que a sustenta.
A primeira entende prazer sexual. Encaixa no contexto — a frase menciona a velhice do marido logo em seguida —, e é a leitura da maior parte das traduções modernas e da tradução latina antiga, que verte com a palavra latina de volúpia. Contra ela, apenas isto: é inferência do contexto, não da palavra.
A segunda entende o viço do corpo, o rejuvenescimento da carne. É a leitura de Rashi, o grande comentarista judeu do século onze, que fala do alisamento da pele. Ela se apoia na forma verbal no passado — algo que já teria acontecido — e na tradição rabínica que descreve o corpo de Sara renovado. Contra ela: depende de aceitar essa tradição, que é bem posterior ao texto.
A terceira, mais larga, entende o deleite de ter um filho, a alegria da maternidade. Encaixa no assunto da cena. Contra ela: torna a menção à velhice do marido, na frase seguinte, menos explicável.
Não há consenso, e não é possível decidir.
Há ainda um dado de história do texto que merece registro, porque mostra a dificuldade em ação.
A antiga tradução grega do Antigo Testamento não verte a palavra por substantivo de prazer nenhum. Ela reformula a frase inteira, e o resultado sai como algo próximo de "até agora isso não me aconteceu".
Registro isso com cautela dupla. Não prova que os tradutores gregos liam um texto hebraico diferente do nosso; pode ser apenas paráfrase, e eles parafraseiam com frequência. E não prova que não entendiam a palavra. Mas é indício de que a frase já era um problema há mais de dois mil anos, quando o hebraico ainda era língua viva para muita gente.
Falta a informação mais curiosa, e ela precisa de guarda-corpo.
As três consoantes de ednah são as mesmas de Éden, o jardim do começo do livro.
Se a raiz de Éden for essa mesma — a do deleite —, o nome do jardim significa algo como "jardim das delícias", e a palavra da boca de Sara é parente dele.
Há duas cautelas obrigatórias.
A primeira: a origem do nome Éden é discutida. Há uma proposta antiga e respeitável de que venha de uma palavra suméria para planície ou estepe, sem nenhuma relação com deleite. Não há consenso.
A segunda: mesmo que a raiz semítica seja a certa — e uma inscrição aramaica antiga encontrada no norte da Síria reforçou consideravelmente essa possibilidade, ao usar a mesma raiz no sentido de fartura e abundância —, parentesco de raiz não é identidade de sentido.
Portanto: o parentesco é provável, é discutido, e não é demonstrável. Quem o transforma em tese sobre a mulher velha que recupera o paraíso está fazendo pregação, não filologia.
Registro apenas o que se sustenta: a palavra única da boca de Sara pertence, com boa probabilidade, à mesma família do nome do jardim.
O que se pode afirmar deste versículo
Vale fechar reunindo o que sobra depois de todas as reservas, porque não é pouco.
Primeiro: o verbo do riso dela é idêntico ao do riso dele — mesma raiz, mesma forma, mudando só o gênero. Quem alega diferença gramatical entre os dois não conferiu.
Segundo: os dois risos são interiores, e ninguém ouviu nenhum dos dois. A diferença de vocabulário entre "no seu coração" e "no seu interior" é real e é de outra ordem — uma palavra de pensamento contra uma palavra de corpo —, e não é diferença de publicidade.
Terceiro: a objeção dela não contradiz o narrador. Repete o que ele acabara de escrever no versículo 11.
Quarto: ela descreve o próprio corpo com o verbo do desgaste e o do marido com o termo comum de velhice.
Quinto: a palavra central da frase ocorre uma única vez em toda a Bíblia hebraica, e a sua tradução é, em qualquer versão, uma escolha bem apoiada e indemonstrável.
Sexto: a frase, no hebraico, não tem marca de pergunta, e o verbo está no passado. As duas coisas são apagadas por praticamente toda tradução, inclusive pela nossa.
E vale dizer por que insisto nesses detalhes. Um versículo curto, que se lê em oito segundos, carrega seis decisões de tradução que o leitor nunca vê. Mostrá-las não enfraquece o texto: mostra o que ele é, e por quantas mãos passou até chegar aqui.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Sara — oitenta e nove anos, sem filhos desde sempre, com o nome trocado de Sarai para Sara no capítulo anterior. Está atrás do pano da tenda, ouvindo uma conversa sobre o próprio corpo da qual não participa.
Abraão — noventa e nove anos. É a ele que a promessa é anunciada, e é ele quem responde pela mulher quando os visitantes perguntam por ela.
Os três visitantes — chegam no calor do dia, junto aos carvalhos de Manre. O texto ora os chama "os homens", ora fala do SENHOR no singular, e em Sodoma chegam apenas dois anjos. A alternância é um problema real do capítulo, e não é possível decidi-la.
A tenda — a cena inteira gira em torno dela: a promessa é dita fora, Sara escuta dentro, e a entrada fica atrás de quem fala.
O versículo 11 — informa que os dois eram idosos e que a Sara cessara "o costume das mulheres". Fecha a porta antes de o anúncio entrar.
Tsahaq (rir) — verbo que cobre alegria, brincadeira, carícia entre marido e mulher, escárnio, provocação e gracejo. Sozinho, não determina o tom de nada.
Beqirbah ("no seu interior") — a palavra qerev designa as entranhas, o miolo, o meio de alguma coisa. A mesma forma exata descreve, no capítulo 25, os filhos que lutam dentro de Rebeca.
Belibbo ("no seu coração") — a expressão usada para Abraão no capítulo 17. Lev, em hebraico, é a sede do pensamento e da decisão, não do sentimento. Palavra de mente, contra a palavra de corpo usada aqui.
Balah (gastar-se) — o verbo com que Sara descreve a própria velhice. É o verbo da roupa que se puí e do odre que racha, e não o termo comum de envelhecer, que ela reserva para o marido.
Ednah — a palavra central da frase, e um hapax legomenon: ocorre uma única vez em toda a Bíblia hebraica. Prazer, deleite, viço, frescor — nenhuma tradução é demonstrável.
Éden — o jardim do capítulo 2, cujo nome tem as mesmas três consoantes de ednah. O parentesco é provável e discutido; a origem do nome do jardim não tem consenso.
Adoni ("meu senhor") — tratamento de deferência do mundo antigo. Esta é a única vez em todo o Gênesis em que Sara chama Abraão assim, e é o versículo que a Primeira Carta de Pedro invoca como modelo de conduta.
Isaque (Yitzhaq) — o nome do menino que nascerá, formado sobre a raiz do verbo deste versículo: "ele ri". O riso de Sara é a segunda das três explicações que o Gênesis dá para esse nome.
Gênesis 17:17 — o riso de Abraão: mesmo verbo, mesma forma, também interior, e com palavras mais explicitamente incrédulas que as dela.
5. Pontos de Ensino
O narrador fechou a porta antes de o anúncio entrar. O versículo 11 certifica que o corpo dela já não fazia aquilo — e só então a promessa é dita.
A objeção de Sara repete o texto, não o contradiz. Ela diz por dentro exatamente o que o narrador acabara de escrever por fora.
O verbo do riso dela é o mesmo do riso de Abraão. Mesma raiz, mesma forma simples, terceira pessoa; muda só o gênero, que a gramática exige.
Os dois risos são interiores. Ninguém ouviu nenhum dos dois, e a diferença entre as duas cenas não é de publicidade.
Mas o lugar do riso muda de palavra. Ele fala "no seu coração", termo do pensamento e da decisão; ela ri "no seu interior", termo das entranhas e do miolo do corpo.
A mesma forma, beqirbah, descreve o ventre de Rebeca no capítulo 25. Há quem ouça aí um eco do útero. É leitura possível, e o texto não a confirma.
Ela usa dois verbos diferentes para a mesma velhice. Descreve-se com o verbo da roupa que se gasta e descreve o marido com o termo comum e digno de "velho".
Ednah aparece uma única vez em toda a Bíblia hebraica. Sem segunda ocorrência não há como testar hipótese nenhuma: prazer, viço ou deleite são apostas apoiadas em palavras parentes.
A frase, no hebraico, não tem marca de pergunta, e o verbo está no passado. As traduções acrescentam o ponto de interrogação e convertem para o futuro, e a nossa faz o mesmo.
Ela menciona a velhice do marido. Divide o diagnóstico entre os dois — e esse detalhe será decisivo no versículo seguinte.
É a única vez no Gênesis em que Sara chama Abraão de "meu senhor". E é essa frase que a Primeira Carta de Pedro cita como modelo de conduta.
O riso não interrompe nada. A promessa segue com data marcada, e o menino levará no nome a raiz do verbo que ela acaba de usar.
6. Aspectos Filosóficos
Uma objeção que não é teológica
Convém observar com precisão o que Sara diz, porque isso costuma ser lido com pressa.
Ela não afirma que Deus não pode. Não discute poder divino, não nega a promessa, não questiona quem está falando.
Ela relata o estado do próprio corpo.
A diferença entre as duas coisas é grande e vale ser dita devagar. Uma é uma proposição sobre Deus. A outra é um depoimento sobre carne, osso e ciclo menstrual.
A frase dela pertence ao segundo tipo. É informação de primeira mão, dada por quem tem o melhor acesso possível ao assunto.
E há uma circunstância que agrava o caso: o narrador tinha acabado de dar a mesma informação, no versículo anterior, e com autoridade de narrador.
Ou seja: o texto certifica o obstáculo, a personagem repete o obstáculo, e a personagem é que fica com a fama de duvidosa.
Registro isso como observação minha sobre a composição da cena, e não como acusação ao texto. O narrador não comenta a reação dela aqui; o que vem depois pertence aos versículos seguintes.
Fica, de todo modo, uma questão que atravessa a história inteira da religião: o que fazer com o testemunho do próprio corpo quando ele contradiz o que foi anunciado. Sara não resolveu, e ninguém resolveu.
O que uma palavra única faz com a certeza
Vale pensar no problema de conhecimento que este versículo expõe, porque ele é muito maior que o versículo.
Há no meio da frase uma palavra que não aparece em nenhum outro lugar. Uma ocorrência, e nada com que compará-la.
O sentido das palavras antigas se estabelece por comparação: reúnem-se os usos, testam-se as hipóteses contra cada contexto, e sobrevive o sentido que serve a todos.
Com uma ocorrência só, o método fica sem chão. Sobra o contexto — mas o contexto é justamente o que se quer entender, e usá-lo como prova é raciocinar em círculo. E sobram as palavras parentes — que ajudam, e que também enganam, porque palavras da mesma família se afastam de sentido em qualquer língua.
O resultado é que todas as traduções desta frase são apostas, e nenhuma delas avisa o leitor disso.
Vale generalizar o cuidado, e é aqui que a coisa fica interessante.
Uma Bíblia impressa não tem graus de certeza. Todo versículo vem com a mesma tipografia, a mesma firmeza, a mesma ausência de dúvida. O versículo cuja tradução é indiscutível e o versículo que depende de uma palavra vista uma única vez em três mil anos parecem exatamente iguais na página.
Não é falsificação: é limitação do formato. Uma tradução precisa escolher uma palavra e imprimi-la.
Mas a consequência é real. O leitor recebe como sólido um terreno que, em alguns pontos, é conjectura bem fundamentada.
E convém dizer o que isso não autoriza. Não autoriza concluir que nada se pode saber, nem que qualquer leitura vale o mesmo que outra. A maior parte do texto é firme, as apostas são poucas e localizadas, e elas são identificáveis. Saber quais são é o oposto de ceticismo: é precisão.
Pensar num lugar do corpo
Este versículo oferece, de graça, uma lição sobre como um mundo antigo imaginava a pessoa.
Nós herdamos uma divisão que nos parece óbvia: de um lado a mente, que pensa; de outro o corpo, que sente e adoece. A mente é onde estamos; o corpo é o que temos.
O hebraico bíblico não trabalha assim.
Nele, o pensamento acontece num órgão. O coração — lev — é onde se delibera, onde se decide, onde se calcula. "Dizer no coração" significa pensar, e não sentir.
E o interior — qerev — é a cavidade onde as vísceras estão, e é também o lugar de onde sobem as reações que não se escolhem.
Repare no que isso implica. Nessa maneira de ver, não há um teatro interior separado da carne. O que se passa por dentro se passa dentro de um corpo, em órgãos com nome.
É por isso que o riso de Sara acontece num lugar. Não numa faculdade mental: num sítio anatômico.
Vale registrar o que sobra disso para nós, e vale registrá-lo com modéstia.
Não se trata de dizer que os antigos estavam certos e nós errados, nem o contrário. Trata-se de notar que a divisão entre o mental e o corporal, que nos parece natureza, é uma construção histórica — e que ela nos custa alguma coisa. Quem já sentiu o estômago decidir antes da cabeça sabe do que o hebraico estava falando.
Rir do impossível
Convém pensar no gesto em si, porque ele é mais interessante do que a discussão sobre o tom.
Uma explicação clássica do riso diz que ele nasce da incongruência: alguma coisa não encaixa, o esperado é rompido, e o corpo responde antes do juízo.
Se for assim, o riso é a reação mais exata possível ao que Sara acaba de ouvir. Uma mulher de oitenta e nove anos, cujo ciclo cessou, escuta que dará à luz no ano seguinte. Não há encaixe. Não há categoria.
E o riso é o que sai quando não há categoria.
Repare que isso não é o mesmo que zombaria, nem o mesmo que alegria. É o riso que aparece quando a informação recebida não cabe em nenhuma prateleira da cabeça.
Registro que é leitura minha, apoiada numa teoria do riso e não no texto, que não diz nada sobre o assunto.
Vale acrescentar uma observação sobre honestidade. Rir é uma reação involuntária. Ninguém decide rir; percebe-se depois que se riu.
Isso põe uma questão que o capítulo inteiro vai tocar: em que medida se responde por aquilo que o corpo faz antes de a vontade chegar. O texto não a formula, e eu não vou fingir que ele a responde.
Querer depois que o corpo parou de prometer
Há na frase uma palavra de gozo, e ela vale uma reflexão que a pregação evita.
Seja qual for a tradução escolhida — prazer, deleite, viço —, o campo é o do bem-estar do corpo, e a frase o coloca ao lado de "depois que me gastei".
Ou seja: uma mulher velha nomeia, em pensamento, um prazer que ela supõe encerrado.
E é preciso reconhecer o quanto essa frase é rara. A literatura religiosa raramente dá voz ao desejo de um corpo idoso, e menos ainda ao desejo de uma mulher idosa. Costuma-se tratar a velhice como território de resignação, e o assunto simplesmente desaparece.
Aqui não desaparece. A personagem o menciona, e o narrador o registra sem qualquer comentário reprovador.
Convém marcar o limite. A leitura de que se trata de prazer sexual é a mais difundida e não é demonstrável, porque a palavra é única. Quem lê como alegria da maternidade lê de outro modo, com apoio igualmente razoável.
O que se pode afirmar é mais modesto e ainda assim vale: a frase põe lado a lado o desgaste do corpo e a possibilidade de um deleite, sem hierarquizar as duas coisas e sem pedir desculpa por nenhuma delas.
A cortesia herdada e o que se faz com ela
Fecho com o tratamento que ela dá ao marido, porque ali há um problema de interpretação que se repete em toda leitura de texto antigo.
"Meu senhor" é, no mundo daquele texto, fórmula comum de deferência. Não indica, por si, nem afeto nem opressão sentida. É o vocabulário disponível, do mesmo modo que "vossa excelência" foi o nosso.
Há duas maneiras erradas de lidar com isso, e elas são simétricas.
A primeira é converter a fórmula em norma: como Sara falou assim, toda esposa deve falar assim. Foi o que se fez com este versículo durante séculos, e o resultado foi transformar um hábito linguístico de uma sociedade de clãs em mandamento permanente.
A segunda é converter a fórmula em denúncia: como Sara falou assim, o texto endossa a subordinação dela. Isso também vai além do escrito, porque a fórmula é descrição do costume, e o narrador não a comenta.
O caminho honesto é o mais chato dos três: descrever o costume, dizer o que ele significava naquele mundo, dizer que o texto não o avalia, e admitir que a distância entre aquela casa e a nossa é grande demais para tirar dali uma regra.
E vale registrar o que ninguém costuma notar. A recepção posterior escolheu, para fundar uma norma de conduta feminina, exatamente a frase em que essa mulher ri por dentro da promessa que acabara de receber. Quem cita o versículo raramente foi conferir o contexto — e conferir o contexto é, no fim, quase tudo o que este comentário sabe fazer.
7. Aplicações Práticas
O corpo tem direito de depor
Sara não contesta o poder de quem fala com ela. Ela informa a própria condição: o ciclo cessou, a idade é aquela, o marido está velho. É depoimento, não tese.
E o depoimento coincide com o que o narrador escrevera um versículo antes, com a autoridade de quem conta a história. O que ela pensa por dentro é o que o texto já tinha dito por fora.
Vale para quem é tratado como pouco crente por descrever a própria situação com exatidão. Dizer "o exame deu isto", "a conta não fecha", "eu já tentei sete vezes" não é falta de fé: é relatório. Quem confunde as duas coisas costuma exigir que você minta sobre fatos verificáveis, e esse é um preço que não vale a pena pagar por aprovação alheia.
O que sai por dentro também é resposta
O riso dela acontece no interior, e ninguém no cenário ouviu. Não houve escândalo, não houve discussão, não houve palavra levantada. A cena, vista de fora, é uma mulher calada atrás de um pano.
E, no entanto, o narrador cita a frase entre aspas, como quem tem acesso ao que não foi dito. O silêncio dela, no texto, não é vazio: é falado.
Repare no quanto da sua vida acontece nesse lugar. As reações que você não externa não desaparecem por não terem sido ditas — ficam, organizam o que você faz depois e costumam ser mais honestas do que as suas frases públicas. Vale ao menos escutar o que você diz quando não está falando com ninguém.
Uma palavra vista uma vez só, e a modéstia que ela ensina
A palavra central da frase de Sara ocorre uma única vez em toda a Bíblia hebraica. Não há segunda ocorrência, não há como comparar, não há como testar. Prazer, viço, deleite — todas são reconstruções apoiadas em palavras parentes.
Sua Bíblia, porém, imprime a escolha com a mesma firmeza com que imprime tudo o mais. Não há tipografia para "aqui não temos certeza".
Use isso da próxima vez que alguém encerrar uma discussão dizendo "mas no original a palavra significa...". Às vezes significa mesmo, e o argumento é bom. Às vezes é a aposta de um tradutor do século quatro repetida com voz de autoridade. A pergunta educada e devastadora é sempre a mesma: em quantos outros lugares essa palavra aparece?
A informação que chega depois da porta fechada
O versículo 11 é implacável e é anterior ao anúncio. Primeiro o texto registra que aquilo acabou; só então a promessa é dita.
A ordem importa. Sara não recebe a notícia com a possibilidade em aberto — recebe com a possibilidade já encerrada, por ela e pelo narrador.
Vale para as boas notícias que chegam fora de hora na sua vida: a proposta que aparece depois que você mudou de ramo, o reconhecimento que vem depois que você parou de esperar, o convite para uma porta que você já fechou por dentro. A reação natural a isso não é gratidão imediata; é um riso curto e sem graça. O texto registra esse riso sem enfeitá-lo, e talvez seja a coisa mais realista da cena.
A vergonha que a sociedade fabrica
A esterilidade, naquele mundo, não era só dor privada. Era perda de posição dentro da casa, insegurança na viuvez e humilhação pública — a palavra que os textos usam é a do opróbrio, e ela reaparece com Raquel, com Ana e com Isabel.
Convém não sentimentalizar. Havia leis e contratos prevendo o caso, o que significa que a situação era tratada como problema jurídico e econômico, e não apenas como tristeza.
Pense em quais das suas vergonhas foram realmente escolhidas por você e quais foram distribuídas por um arranjo social que você não montou: não ter filhos, não ter casado, não ter o emprego que a sua família esperava, não ter o corpo que o seu tempo aprova. Separar a culpa própria do castigo social não elimina a dor, e muda inteiramente o que se pode fazer com ela.
Duas palavras para a mesma velhice
Na mesma frase, Sara descreve o marido com o termo comum e digno de "velho" e descreve a si mesma com o verbo do desgaste — o verbo da roupa que se puí e do odre que racha.
Não é possível afirmar que a escolha seja deliberada; o hebraico varia o vocabulário por estilo, e o verbo aplicado a pessoas ocorre alhures sem carga nenhuma. O dado, porém, é verificável e nenhuma tradução o carrega.
Ouça o vocabulário com que você fala de si quando não está tentando impressionar ninguém. Muita gente reserva os termos neutros para descrever os outros e guarda os depreciativos para si, e nem percebe que faz isso. Não é humildade: é um hábito de linguagem que endurece com o tempo e passa a produzir a coisa que descreve.
Dividir o diagnóstico em vez de carregá-lo sozinho
A frase dela menciona a velhice do marido. Ela não assume a impossibilidade como defeito próprio: reparte a conta entre os dois, que é o que a situação real exigia.
Isso é notável num ambiente em que a esterilidade era atribuída à mulher por padrão, e em que os próprios textos falam do útero fechado por Deus sem nunca dizer o equivalente a respeito do homem.
Vale como disciplina em qualquer sociedade que tenha um culpado preferencial para os problemas. Quando algo não funciona entre duas pessoas — um casamento, uma sociedade, uma equipe —, a versão corrente costuma já ter escolhido de quem é a falha, e quase sempre escolhe a mesma pessoa. Dizer a frase inteira, com as duas partes dentro, é um ato pequeno e raro de exatidão.
Não é possível decidir, e isso é uma informação
Este versículo não permite dizer se o riso foi de descrença, de alegria ou de espanto diante do que não cabe em nenhuma categoria. O verbo cobre tudo isso, e o contexto não desempata.
Quem afirma o contrário está importando a resposta de fora, geralmente de uma tradição respeitável, e apresentando-a como se estivesse no hebraico.
Treine a diferença entre "não sei" e "tanto faz". A primeira frase é resultado de trabalho: você examinou, mapeou as leituras, viu onde cada uma falha e conhece o terreno melhor do que antes. A segunda é preguiça disfarçada de tolerância. Um comentário que chega ao "não é possível decidir" depois de dez páginas não está no mesmo lugar de quem nunca abriu o livro.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Sara riu de descrença, de alegria ou de espanto?
Não é possível decidir a partir do texto, e essa é a resposta honesta. O verbo hebraico tsahaq cobre alegria, brincadeira, carícia entre marido e mulher, escárnio, provocação e gracejo — a mesma palavra descreve Isaque acariciando Rebeca, o povo diante do bezerro de ouro e a acusação da mulher de Potifar contra José. Sozinha, ela não determina tom nenhum, e o contexto deste versículo não desempata.
O verbo usado para ela é o mesmo usado para Abraão no capítulo 17?
É exatamente o mesmo: mesma raiz, mesma forma simples da língua, terceira pessoa, dentro da cadeia narrativa. A única diferença é o gênero, que a gramática hebraica exige. Quem alega que as formas verbais diferem entre os dois casos não conferiu.
Então não há nenhuma diferença entre os dois relatos?
Há uma, e é de vocabulário. Abraão fala "no seu coração", e Sara ri "no seu interior". São palavras diferentes para lugares diferentes do corpo, e o comentário desenvolve isso em detalhe. O que a diferença não é: diferença de publicidade. Os dois risos são interiores, e ninguém ouviu nenhum dos dois.
O que significa "no seu interior"?
O hebraico é beqirbah, formado sobre qerev — a parte de dentro, o miolo, as entranhas. É o termo usado para as vísceras do animal do sacrifício e para o que as vacas magras engolem no sonho do faraó. Por extensão, passa a designar o meio de qualquer coisa e, depois, o interior da pessoa, como no salmo que pede um espírito firme "em meu interior".
É verdade que essa palavra pode indicar o útero?
A forma exata que aparece aqui, beqirbah, é a mesma que descreve, no capítulo 25, os filhos que lutam dentro de Rebeca — e ali se trata do ventre. Daí a leitura de que o riso de Sara acontece no mesmo lugar onde a criança deveria estar. É leitura possível e o texto não a confirma: qerev serve para o interior de qualquer pessoa, e o hebraico tem outros termos próprios para ventre e madre, nenhum deles usado aqui.
Por que se diz que "coração", em hebraico, não é o que pensamos?
Porque lev, no Antigo Testamento, é a sede do pensamento, da decisão e da vontade, e não das emoções. "Dizer no coração" significa pensar, não sentir. Por isso a expressão usada para Abraão localiza o riso dele no órgão da deliberação, enquanto a usada para Sara o localiza na cavidade do corpo.
Que palavra é essa que só aparece uma vez na Bíblia?
É ednah, o termo traduzido na nossa versão por "esse prazer". Ocorre uma única vez em toda a Bíblia hebraica — o nome técnico é hapax legomenon, expressão grega que significa "dito uma só vez".
E por que isso é um problema?
Porque o sentido das palavras antigas se estabelece por comparação entre ocorrências, e aqui não há com o que comparar. Restam dois caminhos frágeis: adivinhar pelo contexto, o que é circular, já que o contexto é justamente o que se quer entender; ou recorrer a palavras da mesma raiz, o que ajuda e também engana, porque palavras parentes se afastam de sentido em qualquer língua. Toda tradução de ednah é, portanto, uma aposta apoiada — inclusive a nossa.
Quais são as traduções propostas?
Prazer, deleite, viço, frescor, luxúria. Três leituras principais disputam o lugar: prazer sexual, que é a da maioria das versões modernas e da tradução latina antiga; o viço do corpo, isto é, o rejuvenescimento da carne, que é a leitura de Rashi e da tradição rabínica; e o deleite mais amplo de ter um filho. Nenhuma é arbitrária, nenhuma é demonstrável, e não há consenso.
A palavra tem mesmo relação com o Éden?
As três consoantes são as mesmas, e o parentesco é provável — a raiz semítica aponta para gozo, fartura e abundância, sentido reforçado por uma inscrição aramaica antiga achada no norte da Síria. Duas cautelas, porém. A origem do nome do jardim é discutida, e há proposta respeitável de que venha de um termo sumério para planície. E parentesco de raiz nunca é identidade de sentido. Registro como provável e não demonstrável.
A frase de Sara é mesmo uma pergunta no hebraico?
Formalmente, não. A língua tem uma partícula própria para abrir interrogação, e ela não aparece aqui — enquanto na fala de Abraão, no capítulo 17, ela aparece duas vezes. O hebraico admite pergunta sem partícula, marcada só pela entoação, e o contexto empurra nessa direção, razão pela qual quase toda tradução põe o ponto de interrogação. Ainda assim, a frase pode ser lida como exclamação.
E o verbo está no futuro?
No hebraico está no passado: hayetah, "houve para mim", "veio a ser para mim". As traduções convertem para o futuro porque o sentido da cena parece pedi-lo, e há justificativa gramatical, já que a forma perfectiva serve a fatos tidos como certos e a perguntas retóricas. Mas a leitura direta é passado, e ela abriu espaço para a tradição rabínica que entende Sara relatando algo já sentido no corpo.
Por que ela usa palavras diferentes para a velhice dela e a do marido?
Ela se descreve com balah, o verbo do desgaste material — o das roupas que se gastam no deserto e dos odres velhos dos gibeonitas — e descreve Abraão com zaqen, o termo comum e digno para "velho", o mesmo que produz "ancião". O contraste é verificável. Não se pode afirmar que seja deliberado, porque o hebraico varia o vocabulário por estilo, mas nenhuma tradução ao português consegue carregá-lo sem uma nota.
Por que ela chama Abraão de "meu senhor"?
Adoni era a fórmula corrente de deferência daquele mundo, usada de quem fala para quem está acima, inclusive dentro de casa — Raquel a usa com o pai, e Bate-Seba com Davi, que era seu marido. Não indica, por si, nem afeto nem submissão sentida. Convém notar ainda que as mesmas consoantes formam o título divino, e que são as vogais fixadas pelos escribas medievais que separam aqui o senhor humano do Senhor divino.
É este o versículo citado na Primeira Carta de Pedro?
Esta é a única frase de todo o Gênesis em que Sara chama Abraão de "meu senhor", e é a ela que a carta se refere ao dizer que Sara obedecia a Abraão, chamando-lhe de senhor. Vale a precisão: é provável que a carta recorra também a uma tradição judaica mais ampla sobre Sara, que circulava no período e não está no Gênesis. O dado que fica é este — o texto invocado como modelo de conduta é a fala em que ela ri por dentro da promessa.
O riso dela contradiz o que o texto tinha dito?
Ao contrário: repete. O versículo 11 informa que os dois eram idosos e que a Sara cessara o costume das mulheres. O narrador fecha a porta antes de o anúncio ser feito, e a objeção interior dela apenas devolve a informação que ele acabara de dar.
O que acontece com ela depois disso?
O versículo 13 traz a interpelação, o 14 traz a pergunta sobre o que é difícil demais para o SENHOR, e o 15 traz a negação por medo. Cada um desses passos tem o seu próprio estudo. Sobre este versículo, o que se registra é que a menção à velhice do marido, feita aqui, será decisiva no seguinte.
9. Conexão com Outros Textos
Gênesis 18:10 — Então disse: De certo voltarei a ti segundo o tempo da vida, e eis que Sara, tua mulher, terá um filho.
O anúncio que provoca o riso. Note-se a quem ele é dirigido: a promessa sobre o corpo dela é dita ao marido, e ela escuta de trás do pano da tenda.
Gênesis 18:11 — Abraão e Sara eram idosos, avançados em dias; a Sara já havia cessado o costume das mulheres.
O dado clínico posto antes do anúncio. É por causa dele que a objeção do versículo 12 não contradiz o narrador, e sim o repete.
Gênesis 17:17 — Então Abraão postrou-se com o rosto ao chão, riu, e disse em seu coração: A um homem de cem anos nascerá filho? E Sara, já de noventa anos, há de dar à luz?
O riso do marido, um capítulo antes: mesmo verbo, mesma forma, também interior. Repare que a fala dele traz duas perguntas formais, enquanto a dela não tem marca de interrogação no hebraico.
Gênesis 25:22 — E os filhos se combatiam dentro dela; e disse: Se é assim para que vivo eu? E foi consultar ao SENHOR.
Aqui está a forma exata beqirbah, "dentro dela", aplicada ao ventre de Rebeca. É o apoio da leitura que ouve um eco do útero na palavra escolhida para o riso de Sara — leitura possível, que o texto não confirma.
Gênesis 41:21 — E entravam em suas entranhas, mas não se conhecia que houvesse entrado nelas, porque sua aparência era ainda má, como de antes. E eu despertei.
A mesma palavra qerev no sentido mais cru possível, sem metáfora nenhuma: a barriga das vacas do sonho do faraó. Serve para mostrar de onde o termo parte.
Jeremias 31:33 — Mas este é o pacto que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o SENHOR: Darei minha lei em seu interior, e a escreverei em seus corações; e eu serei o Deus deles, e eles serão meu povo.
E aqui a mesma palavra no outro extremo do campo, já como interior moral da pessoa — com "coração" ao lado, mostrando que os dois termos convivem sem se confundir.
Salmos 39:3 — Meu coração se esquentou dentro de mim, fogo se acendeu em minha meditação; então eu disse com minha língua:
O versículo que põe as duas palavras juntas e esclarece a relação entre elas: o "dentro de mim" é a cavidade, e o coração é o órgão que está dentro dela.
Gênesis 26:8 — E sucedeu que, depois que ele esteve ali muitos dias, Abimeleque, rei dos filisteus, olhando por uma janela, viu a Isaque que acariciava Rebeca sua mulher.
O mesmo verbo do riso descrevendo carícia conjugal — o que Abimeleque vê é o que lhe prova que ela não é irmã dele. Prova de que o campo semântico é largo.
Gênesis 39:14 — Chamou aos de casa, e falou-lhes dizendo: Olhai que ele nos trouxe um hebreu, para que fizesse zombaria de nós: veio ele a mim para dormir comigo, e eu dei grandes vozes;
O mesmo verbo no sentido de escárnio ou assédio, na acusação da mulher de Potifar contra José.
Êxodo 32:6 — E no dia seguinte madrugaram, e ofereceram holocaustos, e apresentaram pacíficos: e sentou-se o povo a comer e a beber, e levantaram-se a regozijar-se.
O mesmo verbo na cena do bezerro de ouro, num contexto que o texto claramente reprova. Reúna-se com os anteriores e fica claro por que a palavra, sozinha, não decide o tom.
Gênesis 21:6 — Então disse Sara: Deus me fez rir, e qualquer um que o ouvir, se rirá comigo.
O desfecho da linha, depois do parto: a mesma raiz, agora sem disfarce e sem medo. É a terceira das três explicações que o livro dá para o nome de Isaque.
Gênesis 11:30 — Mas Sarai era estéril, e não tinha filho.
A informação que o leitor recebe antes mesmo de a promessa começar. A esterilidade dela é apresentada como dado de partida de toda a história de Abraão.
1 Samuel 1:6 — E sua concorrente a irritava, irando-a e entristecendo-a, porque o SENHOR havia fechado sua madre.
O caso de Ana mostra o que a esterilidade significava socialmente: provocação pública e humilhação. E mostra a teologia do texto, que atribui o útero fechado diretamente a Deus.
1 Pedro 3:6 — Dessa maneira Sara obedecia a Abraão, chamando-lhe de senhor. Vós sois filhas dela se fizerdes o bem e não temerdes espanto algum.
A recepção posterior do tratamento que aparece no versículo 12 — a única frase do Gênesis em que Sara chama Abraão de "meu senhor", e justamente a frase em que ela ri por dentro da promessa.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Por isso Sara riu consigo mesma, dizendo: “Depois de velha, e sendo o meu senhor também já velho, ainda terei esse prazer?”
Texto hebraico
וַתִּצְחַק שָׂרָה בְּקִרְבָּהּ לֵאמֹר אַחֲרֵי בְלֹתִי הָיְתָה־לִּי עֶדְנָה וַאדֹנִי זָקֵן
Transliteração
vattitschaq Sarah beqirbah lemor aharei veloti hayetah-li ednah va'doni zaqen
Palavra por palavra
וַתִּצְחַק (vattitschaq) — "e riu"
Verbo tsahaq, forma simples da língua, terceira pessoa feminina do singular, com a partícula que encadeia os acontecimentos da narrativa.
Idêntico, na forma, ao verbo de Gênesis 17:17, cujo sujeito é Abraão; muda apenas o gênero. Campo de sentido largo — alegria, brincadeira, carícia, escárnio, provocação —, e as ocorrências de carga mais pesada costumam vir na forma intensiva, que não é a daqui.
Registre-se que a partícula inicial não carrega, por si, o sentido causal de "por isso": o vínculo com o versículo 11 é leitura do tradutor.
שָׂרָה (Sarah) — "Sara"
O nome aparece na forma nova, recebida no capítulo anterior, quando Sarai passa a Sara.
As duas formas são entendidas como variantes de um termo ligado a "princesa", "senhora". A diferença exata entre elas é discutida, e o texto não a esclarece: informa que o nome muda, e não o que ele passa a dizer.
בְּקִרְבָּהּ (beqirbah) — "no seu interior"
Preposição be, o substantivo qerev e o sufixo de terceira pessoa feminina.
Qerev é a parte de dentro: o miolo, as entranhas. Serve para as vísceras do animal do sacrifício, para a barriga das vacas do sonho do faraó, para o meio de um povo ou de uma cidade e, por extensão, para o interior da pessoa.
Em Gênesis 17:17 o termo é outro: belibbo, "no seu coração". O comentário deste estudo desenvolve a comparação; aqui basta o dado gramatical de que são palavras distintas, uma de pensamento e outra de corpo, e de que a escolha é do narrador.
A forma exata desta ocorrência reaparece em Gênesis 25:22, aplicada ao ventre de Rebeca. Daí a leitura que ouve aí um eco do útero — possível, não confirmada pelo texto, e sem apoio no vocabulário, já que o hebraico tem termos próprios para ventre e madre que não estão aqui.
לֵאמֹר (lemor) — "dizendo"
Forma fixa do verbo dizer, precedida da preposição le. Funciona quase como sinal de pontuação: anuncia que vêm as palavras exatas de alguém.
O efeito, aqui, é notável: o que se abre entre aspas é uma fala que ninguém no cenário ouviu.
אַחֲרֵי (aharei) — "depois de"
Preposição de posterioridade, na forma ligada ao que vem em seguida. Estabelece a ordem: primeiro o desgaste, depois a hipótese do deleite.
בְלֹתִי (veloti) — "o meu ter-me gastado"
Forma nominal do verbo balah com sufixo de primeira pessoa. Ao pé da letra: "meu gastar-me".
Balah é o verbo do desgaste material, e não o termo comum de envelhecer. É a palavra das vestes que, segundo o Deuteronômio, não se gastaram nos quarenta anos do deserto, e a dos odres e sandálias gastos com que os gibeonitas se apresentam a Josué.
O contraste com zaqen, que ela reserva ao marido no fim da frase, é verificável e não é reproduzível em português sem nota. Se é deliberado, não se pode afirmar: o hebraico narrativo varia o vocabulário por estilo.
הָיְתָה־לִּי (hayetah-li) — "houve para mim"
Verbo hayah, ser ou vir a ser, na forma perfectiva, terceira pessoa feminina, mais a preposição le com sufixo de primeira pessoa.
A forma é de passado, e as versões convertem para o futuro. A conversão tem apoio gramatical, porque a forma perfectiva serve a fatos tidos como certos e a perguntas retóricas; a leitura direta, porém, é passado, e foi ela que sustentou a tradição rabínica segundo a qual Sara relatava algo já sentido no corpo. Não é possível decidir.
Falta ainda na frase a partícula interrogativa, que o hebraico possui e que aparece duas vezes na fala de Abraão no capítulo 17. A língua admite pergunta marcada só pela entoação, e é por isso que as versões acrescentam o ponto de interrogação; formalmente, contudo, a sentença é uma afirmação.
עֶדְנָה (ednah) — "deleite", "prazer", "viço"
A palavra central, e um hapax legomenon: ocorre uma única vez em toda a Bíblia hebraica.
A raiz eden produz outras palavras conhecidas — o "rio das tuas delícias" do salmo, os "deleites" com que Saul vestia as filhas de Israel, o verbo do povo que se deleita na terra boa. O campo é o do gozo e da fartura, e é dele que saem as três leituras em disputa: prazer sexual, viço da carne, deleite de ter um filho. Nenhuma é arbitrária, nenhuma é demonstrável, e não há consenso.
As três consoantes são as mesmas de Éden. Se a raiz do nome do jardim for esta, ele diz algo como "jardim das delícias" — mas a origem desse nome é discutida, com proposta respeitável de que venha de um termo sumério para planície, e parentesco de raiz nunca é identidade de sentido. Provável, portanto, e não demonstrável.
וַאדֹנִי (va'doni) — "e o meu senhor"
Conjunção "e" mais adon, senhor, com sufixo de primeira pessoa. Fórmula corrente de deferência, documentada no uso doméstico dentro da própria Bíblia: Raquel dirige-se assim ao pai, e Bate-Seba a Davi, que era seu marido.
Vale um detalhe de história do texto. As mesmas consoantes formam Adonai, o título divino que os judeus passaram a pronunciar no lugar do nome de Deus. Na escrita antiga, sem vogais, os dois seriam indistinguíveis; quem os separa aqui são as vogais fixadas por escribas medievais.
זָקֵן (zaqen) — "é velho"
Adjetivo, ou verbo de estado, da raiz da velhice. Termo comum e digno, o mesmo que produz "ancião" e que nomeia os anciãos do povo; a raiz está ligada à palavra de barba, de modo que o velho é, na imagem da língua, o homem que o tempo embarbou.
É a palavra que ela reserva ao marido — e a menção à idade dele, que aqui parece detalhe, será decisiva no versículo seguinte, assunto do estudo de Gênesis 18:13.
Nota — o que as versões antigas fizeram com a frase
A antiga tradução grega do Antigo Testamento não verte ednah por substantivo de prazer nenhum: reformula a sentença, e o resultado fica próximo de "até agora isso não me aconteceu, e o meu senhor é velho". A tradução latina antiga foi pelo caminho oposto, com a palavra latina de volúpia, e fixou no Ocidente a leitura do prazer.
Cautela dupla. A reformulação grega não prova que se lesse ali outro texto hebraico — os tradutores parafraseiam com frequência — nem prova desconhecimento da palavra. E a escolha latina não prova acerto.
O que o conjunto indica é mais modesto: a frase já era um problema há mais de dois mil anos, quando o hebraico ainda era língua viva para muita gente. A dificuldade não vem da distância; vem da palavra.
Nota — o nome que sai desta raiz
O verbo que abre o versículo é a raiz do nome do menino anunciado: Yitzhaq, Isaque, "ele ri".
O ciclo oferece três explicações para esse nome — o riso do pai no capítulo 17, o da mãe aqui, e a frase dela depois do parto, no capítulo 21, única inequivocamente alegre. Três etiologias para um nome só já é dado significativo.
Some-se a hipótese linguística, bem apoiada e não demonstrada, de que nomes desse formato sejam abreviações de frases com um nome divino, o que faria de Yitzhaq algo como "que Deus sorria", expressão de favor sem relação com o riso de ninguém. Nesse caso as três explicações seriam etimologias populares por semelhança sonora, procedimento que o livro emprega o tempo todo.
11. Conclusão
A cena tem uma arquitetura que o leitor apressado atravessa sem ver. Os visitantes perguntam por Sara, e é o marido quem responde onde ela está. A promessa sobre o corpo dela é anunciada a ele. Ela ouve de trás do pano, sem ser chamada, sem falar, e a única coisa que sai dela é um riso que ninguém escuta. O narrador, que um versículo antes tinha certificado com autoridade que o ciclo daquela mulher havia terminado, agora abre a cabeça dela e cita, entre aspas, aquilo que ela pensou. É um recurso que a Bíblia hebraica usa com parcimônia — ela quase nunca conta o que os personagens têm por dentro —, e aqui o usa para dar ao leitor exatamente a frase que o versículo seguinte vai retomar.
O verbo do riso é o mesmo empregado para Abraão no capítulo anterior, na mesma forma simples, com a única diferença do gênero que a gramática impõe. Quem alega diferença gramatical entre os dois casos não conferiu, e essa harmonização precisa ser abandonada. O que muda é outra coisa, e é mais fina: ele riu "no seu coração", palavra que em hebraico designa a sede do pensamento e da decisão, e ela ri "no seu interior", palavra que designa a cavidade das vísceras. Um riso localizado no órgão de deliberar; outro localizado na barriga. A forma exata usada aqui reaparece adiante para o ventre de Rebeca, com os gêmeos lutando dentro dele, e é dali que vem a leitura de que Sara ri no mesmo lugar onde a criança deveria estar — leitura possível, bonita, e que o texto não confirma, porque a palavra serve ao interior de qualquer pessoa e o hebraico tem outros termos para útero. O que a diferença de vocabulário seguramente não é: diferença de publicidade. Os dois risos são interiores, e ninguém ouviu nenhum dos dois.
O conteúdo da fala merece a mesma atenção. Sara não discute o poder de quem lhe fala nem nega a promessa: descreve o próprio corpo, e o descreve exatamente como o narrador o descrevera um versículo antes. A objeção dela repete o texto em vez de contradizê-lo. E ela o faz com um vocabulário que nenhuma tradução consegue transportar: usa para si o verbo do desgaste material, o das roupas que se puem e dos odres que racham, e reserva para o marido o termo comum e digno de "velho". Ele é velho; ela está gasta. Não se pode afirmar que o contraste seja deliberado, porque o hebraico varia o vocabulário por gosto de estilo, mas ele está lá, é verificável, e diz mais sobre a posição daquela mulher do que qualquer comentário devocional sobre a fé dela.
No centro da frase há uma palavra que ocorre uma única vez em toda a Bíblia hebraica. Sem uma segunda ocorrência, não há como testar hipótese nenhuma: sobram o contexto, que é justamente o que se quer entender, e as palavras parentes, que ajudam e enganam. Prazer, deleite, viço, frescor — as três leituras principais têm apoio razoável e nenhuma tem demonstração. A antiga tradução grega desviou da palavra e reformulou a frase; a latina apostou na volúpia e fixou essa leitura no Ocidente. O parentesco com o nome do jardim do Éden é provável, é discutido, e não é demonstrável. Some-se a isso que o hebraico não traz aqui a partícula de interrogação e que o verbo está no passado, e o resultado é este: um versículo de vinte palavras em português carrega meia dúzia de decisões de tradução que a página impressa não sinaliza. Mostrá-las não fragiliza o texto — mostra por quantas mãos ele passou e com que cuidado essas mãos trabalharam.
Sobra o que a recepção fez com a frase. Esta é a única passagem de todo o Gênesis em que Sara chama Abraão de "meu senhor", e foi ela que a Primeira Carta de Pedro escolheu como modelo de conduta feminina — de modo que o texto invocado por séculos para ensinar obediência é aquele em que a mulher ri por dentro do que acabou de ouvir. Sobra também a menção que ela faz à idade do marido, um detalhe aparentemente trivial que o versículo seguinte tornará decisivo. E sobra, por fim, o dado que a pregação corrente atropela com pressa: aquele riso não interrompeu coisa alguma. A promessa segue com data marcada, e o menino que vai nascer levará no nome a raiz do verbo que ela acaba de usar — de tal modo que o riso da mãe, cujo tom ninguém consegue determinar, ficou gravado no nome do filho e atravessou com ele a história inteira de um povo.













